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Serra da Capivara e seus mistérios |Mara Narciso*

19 de julho de 2017

A BandNews apresentou na semana passada uma série de reportagens sobre o Parque Nacional da Serra da Capivara (criado em 1979), no Piauí. Em tudo o lugar impressiona, desde sua beleza geográfica, cheia de cânions, até seus habitantes do passado, os homens pré-históricos, que segundo a datação com carbono 14 aconteceu desde há 100 mil anos, e os atuais, os macacos-prego que fazem armas de pedra lascada e cutucam frestas com gravetos para capturar bichos vivos.

A UNESCO declarou o lugar Patrimônio da Humanidade em 2014, e a Revista Americana Nature dá valor incontestável ao sítio arqueológico. Reportagens como estas do Jornal da Band fazem os brasileiros querer conhecer esse lugar raro, de onde pululam imagens e objetos únicos.

Os arqueólogos tiram os sapatos antes de pisar o solo sagrado, onde se escavam com escovas de cerdas macias e ferramentas de ourives. Os tesouros capturados são guardados no Museu do Homem Americano, desde restos mortais no chão ou dentro de urnas mortuárias semelhantes a vasos de cerâmica, objetos outros, pedras lascadas como possíveis armas produzidas pelo homem primitivo (resultado de oficinas líticas ou pedras que se desprenderam do teto das cavernas?) e fogueiras petrificadas.

O mais intrigante é a coleção de pinturas rupestres, o maior acervo do mundo, que enfeitam as pedras, feitas de uma tintura avermelhada, retirada no próprio local. Mostram o cotidiano dos antigos moradores, com cenas de beijo, sexo, nascimento, morte e muitas caçadas. A interpretação das imagens ganhou vida pelo uso tridimensional das mesmas. Ficou como uma história em quadrinhos contada há milhares de anos. Inacreditável! Tanto é que os estudiosos americanos não acreditam que o Homo sapiens pudesse estar nas Américas em tempos tão remotos. Mas a prova está lá.

O ambiente é inóspito, seco, de estética impar. Pode-se imaginar, pelas gravuras, a rotina da população do lugar, que, vinda da África, de barco, uma parte dela sofreu um naufrágio, a julgar pelos sinais no solo, indicativos de que ali já foi o fundo do mar, e fragmentos de uma provável embarcação primitiva, com restos mortais arrumados um na frente do outro, como se tivessem morrido dentro de um espaço restrito. Seria uma embarcação?

Há assunto para se ver durante dias, e além das pinturas, os macacos, que são duas centenas, despertam a curiosidade dos cientistas pelo comportamento diferenciado. Surgem entre as pedras, pulando pelas árvores. Formam grupos e passam seus conhecimentos de geração a geração. Quando um deles está comendo, não divide com ninguém, nem mesmo com o filho, e se outro, estando colado, tenta tocar no alimento, explode uma briga.

Ficam parte do tempo batendo duas pedras soltas, até tirar uma lasca. Então, lambem a parte que se rompeu, e a usa como ferramenta para conseguir comida.

Apenas os machos arrancam um galho de árvore, tiram as folhas, regulam um tamanho único, e, com a vareta, vão caçar entre as fendas. Comem de tudo, sementes, frutos, insetos, cobras, lagartixas e mais.

Foi encontrada a ossada de uma preguiça gigante, que pesava quatro toneladas e viveu a dez mil anos, num lugar onde o aeroporto já está pronto, e mais incentivo governamental poderia garantir a melhor sobrevivência do Parque Nacional da Serra da Capivara, para saltar de 25 mil para 200 mil visitas turísticas ao ano.

A perfeição da matéria jornalística dá uma sensação de vácuo, quando acaba, um chamariz incontestável.

http://180graus.com/televisao/jornal-da-band-exibe-serie-sobre-o-parque-nacional-serra-da-capivara

 

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* Contatoyanmar@terra.com.br

Índex* – Maio, 2017

Tempo morto

Aquele de

Se esperar

E nunca

Alcança

Aquele de

Ver o mar

E não enxergar

A paisagem 

Aquele de 

Abrir os olhos

E não ter

Porque viver

*

Tempo torto

Que vive

Embriagando

As minhas buscas

Que traça

A imensidão 

Do meu destino

E me deixa

Parada entre os caminhos

*

Tempo solto

Que faz

Endoidecer 

Os meus ouvidos

Que floresce

Nas saias de meus vestidos

E concede

Um pouco de paz

Um pouco de amor

(“Triplo presente”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 16/05/17, 07h40)

*

Tempo morto

quello per aspettare

e mai raggiungere

quello per vedere il mare

e non guardare il paesaggio

quello per aprire gli occhi

e non sapere perchè vivere

*

Tempo contorto

che ubriaca le mie ricerche

che traccia l’immensità del mio destino

lasciandomi ferma tra i percorsi

*

Tempo liberato

che fa impazzire le mie orecchie

che fiorisce tra le pieghe del mio vestito

e concede un po’ di pace

un po’ d’amore.

(TRIPLO PRESENTE (Patricia Tenorio), Traduzione dal portoghese: Alfredo Tagliavia, 21/05/2017)

*

O Tempo solto entre os Espaços, entre os Signos, entre as Artes no Índex de Maio, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Conto intersemiótico | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Semiose poética” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“À Cidade” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

A automedicação na prática | Mara Narciso (MG – Brasil).

A caixa e seus guardados | Marly Mota (PE – Brasil).

“Vida em veios”, de Regina Rapacci  (SP – Brasil) | Apresentação de Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Agradeço a atenção e delicadeza, a próxima postagem será em 25 de Junho, 2017, um abraço bem grande e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – May, 2017

Dead time

That of

Waiting

And never

Reaching

That of

Seeing the sea

And not seeing

The landscape

That of

Openning the eyes

And not having

A reason to live

*

Crooked time

That lives

Intoxicating

My searches

That traces

The immensity

Of my destiny

And leaves me

Stopped between the paths

*

Loose time

That goes 

Freaking out

My ears

That flourishes

In the skirts of my dresses

And grants

A little bit of peace

A little bit of love

(“Triple present”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 05/16/17, 07h40)

*

The Loose Time between Spaces, between the Signs, between the Arts in the Index of May, 2017 of the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Intersemiotic Tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Poetic Semiosis” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“To The City” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

Self-medication in practice | Mara Narciso (MG – Brasil).

The box and its saved | Marly Mota (PE – Brasil).

“Life in veins”, by Regina Rapacci (SP – Brasil) | Presentation by Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Study Group on Creative Writing – May, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Thanks for the attention and delicacy, the next post will be on June 25, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Entre Recife e Porto Alegre, a Teoria e a Ficção, a Vida e a Arte. Between Recife and Porto Alegre, Theory and Ficcion, Life and Art. 

A caixa e seus guardados | Marly Mota

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“Vida em veios”, de Regina Rapacci* | Apresentação de Fred Linardi**

Velamos os mortos, mas queremos mesmo é velar a morte. Uma das maiores questões humanas é também aquela para a qual somos menos preparados para lidar. Em nossa cultura, o luto prefere a cor preta da tristeza à possível alvura e leveza do eterno descanso.

Há quem prefira o branco (ou azul) e, com essa clareza, se faz corajosa e abre as portas da compreensão para falar sobre a finitude da vida. É o que acompanhamos neste ensaio narrativo que vem a público dez anos depois que Regina Rapacci viu sua mãe ser consumida por uma rara e indócil doença. Ao lado de sua irmã, Ana, começou a corrida pela descoberta, tratamento para a cura e, por fim, a lucidez para lidar com a dor do outro e de si.

Antes da morte, no entanto, há vida e seus emaranhados de relações que a mitologia clássica e a psicologia se empenharam em traduzir através de suas histórias e análises. Diante de nossos relacionamentos, falar sobre a morte carnal parece ficar bem mais simples. Afinal, quantas vezes precisamos, simbolicamente, matar nossos pais em vida para podermos encontrar nossos próprios caminhos?

Da relação de Regina e sua mãe, a morte veio para fazer do nó um laço que, organizado fio a fio, fez desse tecido uma forte e atemporal ligação entre mãe e filha. Disso, a tradução melhor do que é o amor de fato.

Do mundo tecnológico e sintético da ciência à lembrança de que somos seres regidos por uma natureza mais forte, havemos de nos lembrar de que – não importa o que nos apoia – ainda somos seres sujeitos à dor e ao sofrimento. E que eles sejam bem-vindos para aqueles que buscam uma vida plena, finita de fato enquanto matéria, mas não necessariamente como memória.

Que a vida se revele.

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* Extraído de Vida em veios. Regina Rapacci. Apresentação de Fred Linardi. Ilustrações de Frederico Boldrin Ferraciolli. São Paulo: Biografias e Profecias, 2016.

** Contatofred.linardi@gmail.com

Geórgia Alves* |”Reflexo dos Górgias”**

Há um abismo entre eles. O mar e o desfiladeiro. O único acesso se dá pelo caminho de chão batido, haverá um não? Pode ser este significado de geração que os separa? O que há no reflexo dos espelhos que miram? O que impregnou em cada um?

Foi desejo à primeira vista. Ele a quis. Deu o primeiro passo. Estavam no Interior, ele expressou desejo de amá-la, com insistência. Queria tê-la em qualquer lugar, um banheiro que fosse. Na lembrança dela, chegou a teimar mesmo. Porque ela queria, mas não tinha pressa, nem medo de perdê-lo de vista. Conseguiu, ao menos, o beijo.

De volta aos lugares de origem, cercados de confiança e atenção, ficavam. Até que numa noite de lua e festa, entrou nela com intensidade.

Penetrou sua abertura de passagem secreta até tornar-se a representação mais completa do ser humano. Pelo menos para ela. Foram incontáveis encontros conjugados, com algo mais que o verbo. As conversas varavam as madrugadas. Velara ausências em descanso. O cansaço passou a ser medido pelos carinhos fixados. Vênus em virgem. Ele era um bicho atirado e quieto, arvorava-se tímido.

Discreto na expressão dos sentimentos, por outro lado, amante completo. Entrega plena. Como um vinho reservado em tensão de indecifrável enigma. Deixa chama acesa nela. Maior a cada encontro. Brasa viva. Queima língua. Mesmo no vento mudo, inseguro, tende retrair porque teme incomodar. Mantinha no rumo. Durável e duro.

Ao lado dele, Górgia sentia como se não houvesse outro mundo. Nada com que comparar. Como estivesse ao lado da melhor pessoa do universo. Talvez pelo senso de convivência dele.

Aquele homem, anos mais novo que ela, provocava estímulos mais poderosos. Fazia do entorno mais intenso e criativo. Ele a admirava pelos melhores motivos. Górgia seguiu seu desejo e instinto, num impulso de natureza. Preservando a saudade da inocência. Foram indo.

Se os vazios se interpuseram? Sim. Sentiram preenchidos, principalmente na fantasia, e não queriam estar na vida um do outro, exceto naqueles momentos. Górgia tinha Vênus em escorpião. Ele em Virgem. Era o que o céu lhes reservara. Nenhum limite entre paixão e amor. Embora soubesse: São diferentes. Amavam e eram livres. Assim seriam até.

O fato é que: depois de conhecê-lo, ninguém interessava mais. Mesmo que não acreditasse em monogamia ou fidelidade. Homem e mulher doavam-se e, ao redor deles, estavam em sentimentos incompletos. Urgências de corpo. Selaram amizade em encontros marcados.

Isso não seria tudo? Não porque quando ditava a casualidade não desgrudavam. Até o dia seguinte. Depois que ficaram, não seriam mais os mesmos. Ele conquistou vida própria, cama e casa. Ela tinha compromisso e disciplina. Menos liberdade. Passou a fazer somente o que sempre quis.

Fez da vida pé na estrada, a contar histórias em euforia indomada. Para além dos limites da cidade natal, que era a capital. Numa noite torrencial de chuva dura e água corrente frouxa por sobre as calçadas. Ambos torpes o suficiente para não esquecer nada. E deixar solto o espírito. Não havia neles autocrítica, ou retração, ou controle sobre o desejo. Solto, pelo que sentiram.

Impulso que veio durante a tempestade. Ambos fora do eixo. Em vontades de beijos e verdade. Tire suas conclusões pela história que começa agora. É narcótica entrega?

 

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* Geórgia Alves é mãe, mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE, jornalista e cineasta. Contato: georgia.alves1@gmail.com

** Extraído de Reflexo dos Górgias, Geórgia Alves. Recife: Grupo Paés, 2012.

Índex* – Fevereiro, 2017

Cercada

Por animais

Eu me acordo em

Fevereiro

*

Lembro

Da menina de óculos

E meias

Até os joelhos

No primeiro

Dia de aula

*

Ela me diz

Algum segredo

Em voz baixa

Eu presto

Atenção

Para captá-lo

No ar

Para sorver

Na ponta

Dos dedos

O que fui

Outrora

Moldar em

Barro

E transmutar

Em personagem

*

Já fui

Princesa

Sacerdotiza

E jornalista

Agora sou

Uma simples

Escritora

A catar

Conchinhas de palavras

No mar aberto

De Maracaípe

(“Álbum de família”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 01/02/17, 06h02)

A Imaginação se irmana com a Prosa e a Poesia, Crítica e Ficção, Vida e Arte no Índex de Fevereiro, 2017, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

“A louca da casa”, de Rosa Montero: Possíveis Escritas Criativas | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) com Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil), Erasmo de Roterdam (Holanda), Ariano Suassuna (PB/PE – Brasil) e Cecília Almeida Salles (SP – Brasil).

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | O vagão rosa.

Diego Mendes Souza (PI – Brasil) | Tinteiros rilkeanos.

Elba Lins (PB/PE – Brasil) | Impressões sobre o livro “O amante”, de Marguerite Duras.

Isabelle Macor (França) | “Lecteur d’emprentes digitales”/”Czytinik linii papilarnych”, Ewa Lipska (Polônia).

Jacques Rimbeboim (PE – Brasil) | Homenagem a Guita Charifker (PE – Brasil) com Abelardo da Hora (PE – Brasil).

Luiz Ruffato (MG/SP – Brasil) | “Redemoinho” & “Inferno Provisório”.

Marly Mota (PE – Brasil) | Homenagem a Luzilá Gonçalves (PE – Brasil) com Lourival Holanda (PE – Brasil).

Poeta de Meia-Tigela (CE – Brasil) | “acidade” digital.

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 26 de Março, 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – February, 2017

Surrounded

By animals

I wake up at

February

*

I remember

The girl with glasses

And socks

Up to the knees

In the first

Class day

*

She tells me

Some secret

In a low voice

I pay

Attention

To capture it

Up in the air

To drink

At the tip

Of the fingers

What I was

Once

Mold in

Clay

And transmute

In character

*

I was already

Princess

Priestess

And a journalist

Now I am

A simple

Writer

Picking up

Little shells of words

On the open sea

Of Maracaípe

(“Family Album”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 02/01/17, 06h02)

 

Imagination joins with Prose and Poetry, Criticism and Fiction, Life and Art in the Index of February, 2017, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

“The madwoman of the house”, by Rosa Montero: Possible Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) with Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil), Erasmus of Rotterdam (Netherlands), Ariano Suassuna (PB/PE – Brasil) and Cecília Almeida Salles (SP – Brasil).

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | The pink wagon.

Diego Mendes Souza (PI – Brasil) | Rilkean ink cartridges.

Elba Lins (PB/PE – Brazil) | Impressions on the book “The Lover”, by Marguerite Duras.

Isabelle Macor (France) | “Lecteur d’emprentes digitales”/”Czytinik linii papilarnych”, Ewa Lipska (Poland).

Jacques Rimbeboim (PE – Brasil) | Homage to Guita Charifker (PE – Brasil) with Abelardo da Hora (PE – Brasil).

Luiz Ruffato (MG/SP – Brasil) | “Swirl” & “Provisional Hell”.

Marly Mota (PE – Brasil) | Homage to Luzilá Gonçalves (PE – Brasil) with Lourival Holanda (PE – Brasil).

Poet of Half-Bowl (CE – Brasil) | Digital “acidade”.

 

Thank you for the affection and participation, the next post will be on March 26, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Imaginação Livre no Mar Aberto de Maracaípe, PE – Brasil. The Free Imagination in the Open Sea of Maracaípe, PE – Brasil.

Anco Márcio Tenório Vieira* | O vagão rosa**

Destinando às usuárias do metrô do Recife um dos seus vagões, a CBTU pareceu tomar uma solução sensata para coibir a violência e o assédio sexual contra as mulheres. Na verdade, a “solução” apenas alimenta velhos estereótipos, preconceitos e mostra a falência da nossa segurança pública. Vejamos.

Ao segregar as usuárias em um “vagão rosa”, a CBTU não só está reafirmando o caráter “indefeso” e “frágil” atribuído à mulher, como reiterando, de modo sutil, o discurso machista e misógino de que ela é incapaz de se defender dos seus “algozes”. Logo, como elas poderiam comandar empresas, assumir cargos de chefia dentro do Estado ou mesmo ser respeitadas em espaços que são tradicionalmente tidos como masculinos? Por outro lado, a “solução” dada pela CBTU encerra um contraditório: se as mulheres representam 56% dos usuários do metrô e como um vagão não é suficiente para transportar todas elas, particularmente nos seus horários de pico (das 6:00-8:30 e das 17:30-19:30), como ficam as passageiras que precisam viajar nos vagões destinados aos homens, se não há ninguém para protegê-las? Ora, se elas também podem viajar nos vagões destinados aos homens, então isso significa dizer que essas mulheres, contrariando o estereótipo que lhes é imputado de sexo “indefeso” e “frágil”, são adultas e capazes de se protegerem?

Outro ponto a frisar, é que como ainda não se aboliu o livre-arbítrio, muito menos vivemos em um Estado totalitário que diz como devemos viver ou nos locomover, apesar de certos “moralistas” que adorariam regrar como deveríamos proceder até na alcova, creio que o direito de escolher o vagão que melhor lhe aprouver é uma decisão que apenas e somente cabe à mulher decidir. Logo, ao optar por não viajar nos vagões que lhe são destinados, essa mulher, caso fosse assediada sexualmente, seria responsabilizada por ser a agente provocadora? Ou seja, mais uma vez, ela, a vítima, é que seria culpada?

Por fim, duas derradeiras perguntas: essa “solução cidadã” também se estenderá aos ônibus e aos demais espaços públicos, a exemplo de ruas, cinemas, teatros, escolas, hospitais, restaurantes e shoppings? As questões da segurança e da urbanidade se resolvem construindo espaços-bolhas para as vítimas do machismo, da misoginia e da homofobia, ou passa por enfrentarmos com as armas da educação (sem hipocrisia nem falso moralismo religioso), a violência de gênero nas escolas, fábricas, empresas e instituições públicas?

Creio que nenhuma sociedade é forte e saudável se ela prefere promover antes a segregação do que o enriquecedor convívio entre os diferentes, principalmente quando os segregados respondem, no caso, por mais da metade da sua população. Ao recorrer à segregação de gêneros, essa sociedade não apenas revela o quão efêmera é, como atesta que fracassou em seu projeto civilizatório e caminha a passos largos para a completa barbárie.

 

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* Anco Márcio Tenório Vieira é professor no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, e seus escritos bem parecem contos urbanos. Contato:  ancovieira@yahoo.com.br

** Publicado no Diário de Pernambuco em 14/02/2017.

Jacques Ribemboim* | Homenagem a Guita Charifker**

Numa madrugada de sessenta e quatro, Abelardo da Hora bateu-lhe à porta pedindo socorro. Estava a pé, ofegante, fugindo da polícia repressiva. Guita Charifker não titubeou um só instante em levar o amigo de carro para bem longe, onde pudesse se esconder por uns tempos. Essa história me foi contada pelo próprio Abelardo, ressaltando sempre a coragem de Guita em ter se arriscado para salvá-lo.

Uma das poucas pintoras pernambucanas que conseguiram obter reconhecimento nacional. Em 2003, a artista foi não menos que aclamada pela crítica durante sua exposição individual na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Atualmente suas aquarelas com predomínio de verdes, vermelhos e laranjas, suas telas, seus desenhos surreais em bico de pena, podem ser encontrados nos principais acervos museais brasileiros.

Guita Charifker constitui, ainda, a representação máxima do que se poderia chamar de sincretismo judaico-nordestino, alinhavando elementos da sua infância ao admirável mundo novo do regionalismo tropical. É notável a infinidade de signos e elementos místicos ou religiosos presentes em sua obra, inclusive os de matriz africana e indígena. São cartas de tarô, tatus, búzios, santos, paisagens nordestinas povoadas de cajueiros e plantas. A artista chegaria mesmo a passar um bom período da vida recolhida a um convento de freiras. Nascida em 1936, teve a infância e adolescência vividas no bairro da Boa Vista, epicentro de tudo o que se produzia em termos de arte e literatura no Recife. Após se casar com Júlio Charifker (seu nome de solteira era Guita Greiber), mudou-se para a Rua do Sossego, onde instalou seu ateliê de trabalho na garagem de casa. Após alguns anos, transferiu-se para Olinda, à procura de um ambiente mais inspirador para seus quadros. Antes disso, na década de cinquenta, frequentou o Atelier Coletivo, sob a batuta de Abelardo da Hora e tendo como colegas Zé Cláudio, Gilvan Samico, Wilton de Souza e Wellington Virgulino, dentre tantos jovens artistas que viriam simplesmente revolucionar a arte pernambucana.

Guita Charifker considerava-se uma descendente de Branca Dias da Paraíba, ou mesmo sua reencarnação. Um alter ego muito bem pinçado por uma mulher que em pleno século 20 teve a mesma ousadia daquela que, trezentos anos antes, enfrentara a fogueira da Inquisição para não trair seus ideais. Pois esta mulher ousada, esta artista incomum, a mocinha de tranças que passeava às tardes na Praça do Derby com uma multidão de amigas, nossa Branca, atendeu ao convite dos céus e eternizou-se nesta sexta-feira, véspera do shabat. Em credos distintos, em línguas diversas, em corações sinceros, será para sempre festejada.

 

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* Jacques Ribemboim é escritor e atua de maneira apaixonada na defesa da memória judaica em Pernambuco.

Contato: jacquesribemboim@hotmail.com.br

** Publicado como “Guita Charifker” no Diário de Pernambuco em 4 e 5 de fevereiro de 2017.

Marly Mota* | Homenagem a Luzilá Gonçalves**

O nome é iluminado. Logo na primeira sílaba traz: Luz. Luzilá Gonçalves Ferreira, escritora, pesquisadora, nos círculos e festivais literários, Bienais do Livro em Pernambuco e fora do estado. Mestra como a palavra sugere, é professora da UFPE. É vice, ao lado da atuante presidente da Academia Pernambucana de Letras, Margarida Cantarelli. Colunista semanal em Letras às Terças, no Diário de Pernambuco, de onde registra acontecimentos literários, divulga poetas e escritores. Em noite de autógrafos do livro já esgotado Muito além do corpo, o professor e filósofo Lourival Holanda fez a apresentação com aplausos. Marcus Accioly, o querido amigo, festejado com o seu livro Nordestinados, cantado em prosa e versos, pelas violas por violeiro.

Em comentário mais recente na coluna Letras às Terças, traz a figura doce e generosa da poeta Celina de Holanda: o modo como acolhia os amigos (“Venham de onde vierem ponho a mesa”). Mauro Mota participou da mesa posta de Celina de Holanda, com o poema dedicado à nossa filha Teresa Alexandrina. Luzilá Gonçalves lembra o amor de Mauro Mota pelo Recife, em 22/11/2016, há 32 anos de sua morte. Lembra o paisagista Abelardo Rodrigues, o maior colecionador de arte sacra de jardins por ele construídos em BR do estado. Apesar da relutância em permanecer inédito, o padre Daniel Lima, nosso mestre, venceu a persistência da nossa amiga Luzilá em editar pela Cepe o seu 1º livro: Poemas, com textos dos professores seus amigos Lourival Holanda e Zeferino Rocha. Luzilá Gonçalves Ferreira, com a sua eficiente coluna Letras às Terças, faz a diferença.

No Diário de Pernambuco, de 1948 a 1959, Mauro Mota criou e dirigiu o Suplemento Literário, de grande circulação pelo Nordeste. Do Maranhão, publicou Ferreira Gullar e José Sarney, ainda sem eco na literatura. Entre escritores daqui e de outros estados, por reconhecimento e amizade, tomaram-nos por compadres padrinhos dos filhos: Tadeu Rocha, Nelson Saldanha, Haroldo Bruno, Nertan Macedo, César Leal, Ledo Ivo, Moacir de Albuquerque.

Escrevendo diariamente a crônica: Peço a Palavra, no Diário de Pernambuco, Mauro Mota lembra do amigo José Augusto Guerra, do estado de Alagoas, ao ver seu primeiro artigo publicado: “Foi como se a terra tivesse fugido dos meus pés, meu coração batia descompassado e eu fiquei lambendo a cria”.

Luzilá em suas pesquisas sobre a obra de Mauro Mota reuniu poesia, prosa, opúsculos, resultando no excelente estudo impresso no livro O Tempo sem Remédio na Farmácia, dedicado aos seus pais, Almerinda e Lupicínio.

Quando menina, Luzilá gostada de brincar de escrever. Começou com uma comédia encenada no quintal da sua bela casa de Garanhuns. Comenta que fazia o papel de empregada, com o rosto pintado a carvão. Os que assistiam riam muito e, ela de si mesma, vendo o seu rosto refletido no espelho. Quando mocinha estudava no colégio de freiras francesas. A partir dos 13, 14 anos começou a escrever, obtendo vários prêmios. Em 1981 publicou o seu primeiro livro pelas Edições Pirata: O Espaço do teu Rosto, dando sequência a outras publicações. A maioria dos jovens recorreram à Editora Pirata: Maurício Motta, com o livro Tudo em Família; Aroldo Bruno; Eduardo Motta, com livro Gaveta; Eduardo Diógenes, entre outros.

Luzilá, atendendo ao pedido dos amigos Sonia e Everardo Norões, editores do meu livro Janela, escreveu na página Ânimo Artístico: “O passado é aquela estação em que as coisas acontecem. Essas palavras de Jorge Luiz Borges, que cito de memória, me vieram à mente ao ler estas crônicas de Marly Mota”. Luzilá também nos emociona, quando fala dos reencontros com o seu mundo de evocações, das paisagens, das serras, das flores, da música de órgão que a mãe tocava na igreja, das viagens de trem. Entre outras lembranças, diz: “Reencontrá-las, é sempre um choque.” Veja-se Rachel de Queiroz, em qualquer assunto tem sempre a linguagem simples do sentir cearense interiorano.

Luzilá partilhou de um mundo rico que lhe dera asas à imaginação. A partir de 1982, os seus livros somam mais de trinta volumes, de sua autoria e coautoria, em editoras locais, brasileiras e estrangeiras.

Em época passada realizara o seu grande sonho: estudar e morar em Paris. Frequentar a Sorbonne, juntar-se a gente de todos os quadrantes da Terra, caminhando pelo Boulevard em abstrações, andar na Place des Vosges, ir a Rue Long-champs, 123, no elegante 16º Distrito. A bela casa de Raymonde e Cícero Dias, frequentada por Luzilá e por mim, em épocas diferentes. Excelentes cicerones, consagrados no poema de João Cabral: “Na Ilha antiga de São Luiz / que abre o Sena em Dois em Paris / Cícero ciceroneando todo amigo pernambucano.” O grande pintor pernambucano do Engenho Jundiá, com Raymonde e Luzilá, acolhidos com carinho em minha casa. Amigos para não serem esquecidos.

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* Marly Mota é poeta, escritora, artista plástica. Luzilá Gonçalves é escritora, crítica literária e foi professora da Universidade Federal de Pernambuco. Ambas são membros da Academia Pernambucana de Letras, e mães literárias de inúmeros escritores, inclusive eu. Contatos: marlym@hotlink.com.brluzilagon@yahoo.com.br

** Publicado como “Nome para não ser esquecido” no Diário de Pernambuco em 03/02/2017. Nós, público fiel de leitores, reivindicamos a gentileza da volta da coluna Letras às Terças, de Luzilá Gonçalves, ao jornal.

Anco Márcio Tenório Vieira* | Universidade inclusiva e democrática**

Há um quase consenso entre a comunidade acadêmica que uma universidade democrática é uma universidade inclusiva. Na verdade, defender uma universidade democrática e inclusiva é uma redundância, pois nenhuma universidade pode ser chamada de democrática se ela não for inclusiva; do mesmo modo que uma universidade só pode ser chamada de inclusiva se ela estiver calçada em bases solidamente democráticas.

Mas falar em uma sociedade ou em uma instituição democrática significa falar do respeito pelo debate, pelo diálogo e pelo direito ao contraditório; pela promoção da cidadania e pelo fortalecimento do Estado de Direito; pelo respeito à orientação sexual, às diversidades étnicas, às crenças religiosas e às diversas formações socioculturais dos seus membros. Dizer uma sociedade ou uma instituição inclusiva é dizer que o seu sal, o seu tempero, é o pluralismo e o convívio enriquecedor entre mulheres e homens: indiferente da raça, da formação religiosa e sociocultural, das suas orientações ideológicas, políticas e de gênero.

No entanto, uma universidade inclusiva e democrática não é apenas uma instituição orgulhosa da sua multiculturalidade, que persiga a defesa e o respeito intransigente à livre expressão filosófica, política, religiosa, intelectual, artística e científica, mas uma instituição que sabe transformar o trigo e o fermento dessa multiculturalidade no pão da interculturalidade. E não existe interculturalidade sem que ela esteja calçada em uma cultura de diálogo entre as pessoas; na promoção do indivíduo que interroga sobre si e sobre o mundo; no sujeito que não se fecha em particularidades amorfas (homens, mulheres, gays, brancos, negros…), em reducionismos ideológicos, em teorias que defendem que raça, gênero e formação cultural é destino.

Sendo assim, é contraditório que uma instituição que se queira inclusiva e democrática encerre em seus quadros grupos que, na prática, agem como se a universidade fosse uma sociedade secreta de iniciados, firmada em estatutos e orientações ideológicas excludentes. E como tais sociedades, ela, a Universidade, seria antes um espaço da exclamação do que da interrogação; do sectarismo de ideias e comportamentos do que do respeito ao contraditório; das certezas absolutas (prima-irmã do reacionarismo) do que do debate que oxigena e promove o conhecimento. Nada mais contrário a uma universidade que se quer inclusiva e democrática do que grupos que, mergulhados em seu reacionarismo ideológico (sejam os fundamentalistas religiosos, sejam os suprematistas racionais e os fascistas políticos, à esquerda e à direita), se mostram indiferentes ao contraditório, ao debate e ao diálogo: alimentos da interculturalidade.

 

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* Anco Márcio Tenório Vieira é professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, com uma poeticidade ímpar na escrita.

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** Artigo publicado no Diário de Pernambuco, Recife, 14 e 15 de janeiro de 2017.