Posts com Política

Índex* – Setembro, 2016

Recife se encontra com Maceió, e faz tempo que elas não andam juntas. Desde o tempo da independência de Maceió. Desde quando Maceió se pensava diferente de Recife.

Mas elas, juntas, sentadas à beira-mar da praia de Boa Viagem, quase Pina, quase Brasília Teimosa, descobriram que amar é entender o outro, é aceitar o outro principalmente com os seus defeitos.

Elas caminham pela praia. Mãos dadas, admitindo uma à outra que existem praias belas entre Recife e Maceió. Deixando de lado as intrigas de quem é melhor, ou a cultura do caranguejo – de não permitir o outro brilhar, de puxar para baixo a pata do caranguejo-irmão quando tenta subir o balde de metal.

Então viram se aproximar Porto Alegre. A cidade com suas nuances. Com sua tradição, foi embriagando as duas irmãs de mãos dadas. As três falaram, conversaram, se contaram tudo uma para as outras.

Até verem Sônia Braga, descalça, na direção do mar, saindo do edifício Aquarius.

(“De Pernambuco para o mundo”***, Patricia (Gonçalves) Tenório, 09/09/16, 07h18)

*** A partir de “Aquarius” (2016, 145 minutos), um filme de Kleber Mendonça Filho.

Quando Pernambuco sai para o mundo no Índex de Setembro, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Maria-Maria | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Una misiva de Buenos Aires | Luis Raúl Calvo (Argentina).

Um poeminha de ocasião | Camilo Mattar Raabe (RS – Brasil).

Mais civilidade, por favor! | Mara Narciso (MG – Brasil).

Fada de Licânia | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Um passeio “in-line” pelas ruas de Recife | Patricia Galindo (PE/AL – Brasil) & Rafaelly Moura (PE/AL – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/09/16 | Com Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Bernadete Bruto (PE – Brasil).

Muito obrigada pelo carinho e participação, a próxima postagem será em 30 de Outubro de 2016, um grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – September, 2016

Recife meets Maceió, and there is time that they do not go together. From the time of independence of Maceió. Since when Maceió thought it was different from Recife.

But they, together, sitting by the sea from the beach of Boa Viagem, almost Pina, almost Brasília Teimosa, found that love is to understand each other, it is to accept the other mainly with its faults.

They walk along the beach. Hand in hand, admitting to each other that there are beautiful beaches between Recife and Maceió. Leaving aside the intrigue of who is better, or the crab culture – not to allow the other to shine, to pull down the leg crab-brother when it tries to climb the metal bucket.

Then they saw approaching Porto Alegre. The city with its nuances. With its tradition, drunking the two holding hands sisters. The three talked, talked, counted everything to each other.

Until they see Sônia Braga, barefoot, toward the sea, leaving the Aquarius building.

(“From Pernambuco to the world” ***, Patricia (Gonçalves) Tenório, 09/09/16, 7:18 a.m.)

*** From “Aquarius” (2016, 145 minutes), a Kleber Mendonça Filho film.

When Pernambuco goes out to the world in Index of September, 2016 in Patricia (Gonçalves) Tenório´s blog.

Maria-Maria | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

One letter from Buenos Aires | Luis Raúl Calvo (Argentina).

An occasion little poem | Camilo Mattar Raabe (RS – Brasil).

More civility, please! | Mara Narciso (MG – Brasil).

Fairy from Licânia | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

A walk “in-line” through the streets of Recife | Patricia Galindo (PE/AL – Brasil) & Rafaelly Moura (PE/AL – Brasil).

Studies Group in Creative Writing – 09/25/16 | With Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Bernadette Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the care and participation, the next post will be on 30 October 2016, a big hug and see you there,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Edf. Oceania/”Aquarius”, Pina, Recife – PE, Brasil. The Oceania/”Aquarius” building, Pina, Recife – PE, Brasil.

Um poeminha de ocasião | Camilo Mattar Raabe*

GOLPE (Homenagem a Shakespeare)

“Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito” Hamlet, Cena II Ato II.

 

Golpe
Golpe em meus olhos
mastigando os dentes

 

Golpe
Golpe de choques íntimos
sinapses ínfimas

 

Agulhando os tímpanos
o golpe
o globo
uma casca 
de noz

 

Golpe de cacos:
tua constituição

 

Se mentes 
no entrementes
mentes

 

Temer uma marionete.

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* Contato: camiloraabe@hotmail.com

Sobre Utopia, de Thomas More | Uma leitura de Patricia Tenório

03/03/12

             Após a leitura de O jogo das contas de vidro,[1] de Hermann Hesse, continuei seguindo as setas de livros que indicam livros e descobri numa tarde, ao acaso (??), na estante de uma livraria, como se me chamasse, como se me convidasse com suas orelhas abertas, como se com suas orelhas tivesse escutado meu pedido da origem das origens do Jogo de Avelórios: eis que a mim se apresenta Utopia,[2] de Thomas More.        

            É certo que ele me havia sido apresentado pela primeira vez assistindo a Ever After[3]

httpv://www.youtube.com/watch?v=WhZ3Yq8ogq4&feature=related  

na cena em que a protagonista, Danielle de Barbarac, cita um trecho do livro ao Príncipe Henry na tentativa de libertar o criado vendido por sua madrasta, numa alusão ao conto de fadas Cinderela. Nesse emaranhado que o fio de O jogo me colocou, acrescento a próxima seta indicativa de leitura: A República,[4] de Platão.

            O que é original? Quem é original? Ou os escritores são apenas repetidores, apenas imitadores de quem vislumbrou a Verdade?

            O fato é que O jogo das contas de vidro (1946) encontra semelhanças com Utopia (1516), que encontra semelhanças com A República (século IV a.C.). A música aliada à educação é uma delas. A vida em comunidade, com a exclusão do poder, da vaidade e do dinheiro (especialmente em Utopia). A coerência e a busca do Ser em detrimento do Ter. Com a base das necessidades atendida, a partir de então se deve procurar o equilíbrio, a harmonia e o amor ao saber como fonte de felicidade.

            Às vezes, o entendimento na leitura dessas três obras não é fácil nem claro. Mas acredito no potencial infinito da mente humana e na capacidade de conexões futuras, mesmo daquilo que não está sendo compreendido no momento.

             O escritor precisa estudar sobre a vida para escrever sobre a vida. E, além de observar o dia a dia, seu e dos que se encontram ao seu redor, pode-se (e deve-se) estudar os clássicos, não somente os da Literatura e da Poesia, como também os da Filosofia, Psicologia/Psicanálise, Sociologia, Política, Antropologia…, em todas as áreas do conhecimento humano que alicercem a construção de sua obra artística.

             Mas deve-se ter o cuidado na escolha dos assuntos para não sair do centro da pesquisa, o meta-assunto que os diferentes livros indicam, e para isso é preciso seguir a intuição. E também a dialética de Sócrates, quando, nos diálogos de Platão, desfia assuntos aparentemente díspares, mas tendo em vista um objetivo único, um único tema.

             Penso que o meta-assunto dos três livros seja uma intrigante pergunta: pode um mundo existir sem barreiras, diferenças sociais, um mundo que todos vivam como irmãos? Várias são as respostas, diferentes são as respostas. Mas, ao que me parece, baseiam-se no controle de si, na reunião das diversas partes que constituem um ser fragmentário, transformando-o em um ser unitário, o mais próximo possível do divino. E, principalmente, no caso de Platão, as revoluções que isso implica ao modificar o mundo, quando se retira dos deuses a responsabilidade por nossos atos, assumindo as escolhas condizentes com o livre-arbítrio.

             Aonde a leitura irá me levar? Não sei responder ainda, não sei ao certo. Apenas que se aquiete a fome de saber por uns instantes, e, saindo de mim, possa me ver maior e solta das amarras do eu antigo, que esses três livros ajudaram a libertar.

Sir Thomas More, Hans Holbein (1497-1543) 

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(1) O jogo das contas de vidro, Hermann Hesse, Editora BestBolso, 2007.

(2) Utopia, Thomas More, Editora Martins Fontes, 2009.

(3) Ever After (Para sempre Cinderela), 1998. Direção: Andy Tennant. Com Drew Barrymore (Danielle de Barbarac), Anjelica Houston (Rodmilla) e Dougray Scott (Príncipe Henry).

(4) A República, Platão, Editora Martin Claret, 2000.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

O príncipe, de Maquiavel | Uma leitura de Patricia Tenório

 

07/01/12

            Há quase 500 anos, um homem escreveu um dos maiores tratados sobre a guerra e a manutenção do poder. Em carta endereçada a Lourenço de Médicis, Nicolau Maquiavel sugere estratégias militares e políticas para induzir o príncipe a unificar a Itália.

            Maquiavel foi criticado, exilado e perseguido pela Igreja Católica. O tratado, originalmente intitulado De Principatus (Dos Principados), pode ser visto pelo âmbito contextual da época em que Maquiavel desejava retomar o posto que ocupava e do qual foi destituído. Mas, se observarmos com maior atenção, os princípios vão além da ética ou mesmo da imoralidade com que foi considerado: há verdadeiras revelações e exposições da natureza humana.

            Se utilizarmos Dos Principados como código de conduta quanto à proatividade/coragem, humildade e prudência, podemos desfrutar de lições verdadeiramente preciosas. Vejamos alguns casos:

Proatividade/Coragem:

            “(…) uma guerra não evita-se mas protela-se, e nunca em seu próprio favor. (…) o tempo tudo arrasta consigo (…) não se deve jamais dar livre curso a uma desordem para esquivar-se a uma guerra, porquanto esta não se evita mas adia-se em detrimento próprio.” [1]

Prudência:

            “… aquele que promove o poder de um outro perde o seu, pois tanto a astúcia quanto a força com as quais fora ele conquistado parecerão suspeitas aos olhos do novo poderoso.” [2]

Humildade:

            “… o homem prudente deverá constantemente seguir o itinerário percorrido pelos grandes e imitar aqueles que mostraram-se excepcionais, a fim de que, caso o seu mérito (virtù) ao deles não se iguale, possa ele ao menos recolher deste uma leve fragrância…” [3]

            Não se trata de enxergar o bem onde não existe, mas de constatar que o bem ou o mal são escolhas – contínuas – que consolidam um caráter à medida que são tomadas, para um caminho ou para o outro.

            Tragamos à luz dois outros textos, aparentemente distintos, que corroboram esse pensamento. Santo Agostinho em suas Confissões nos revela:

            “Também pude entender que são boas as coisas que se corrompem. Se fossem sumamente boas, não poderiam se corromper, como tampouco o poderiam se não fossem boas de algum modo.” [4]

E

            “… adaptados à parte inferior de tua criação, com a qual também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais diferem de ti [Deus], assim como os justos se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a ti [Deus].” [5]

            Em O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde confessa:

            “– Eu gostaria de poder amar (…) Mas parece que perdi a capacidade de sentir paixão e esqueci o desejo. Estou por demais concentrado em mim mesmo.” [6]

Ou

            “Teria sido apenas a vaidade que o fizera cometer sua única boa ação? (…) Ou a paixão de representar um papel que, às vezes, nos leva a fazer coisas mais belas do que nós?” [7]

            Sem querer fazer apologia do mal nem sustentar o poder a qualquer custo, O príncipe nos força a enfrentar a própria imagem no espelho e retirar a máscara da falsa bondade. Oscar Wilde nos adverte:

             “Os livros que o mundo chama imorais são os livros que lhe mostram sua vergonha.” [8]

            Maquiavel nos aconselha a preservação da espécie, o estabelecimento dos limites, a imposição do respeito que, desde a mais tenra idade, é preciso incutir no ser humano.

            “… os homens, afinal, atentam contra os outros homens ou por ódio ou por medo.” [9]

(…)

            “Crueldades proveitosas (se é lícito tecer elogios ao mal) pode-se chamar aquelas das quais faz-se uso uma única vez – por necessidade de segurança –, um uso no qual não mais se insiste e cujos efeitos revertem tanto quanto possível em favor dos súditos.” [10]

(…)

            “O mal, portanto, deve-se fazê-lo de um jacto, de modo que a fugacidade do seu acre sabor faça fugaz a dor que ele traz. O bem, ao contrário, deve-se concedê-lo pouco a pouco, para que seja melhor apreciado o seu gosto.” [11]

            Mas a maior lição que podemos apreender de Maquiavel é a confiança em si. Contar consigo apesar da crítica alheia, apesar dos dons e talentos que aos outros pertencem: usarmos o que nos é próprio.

            “Quando Davi foi à presença de Saul oferecer-se para lutar contra Golias – filisteu que desafiara-o –, Saul, na intenção de encorajá-lo, passou-lhe a sua própria armadura. Davi, após tê-la vestido, recusou-a, alegando que com ela não poderia valer-se das suas próprias forças, preferindo ir ao encontro do seu inimigo armado com a sua funda e com a sua faca. Numa palavra, a armadura de um outro, ou ela te cairá dos ombros, ou pesará demais sobre eles, ou te comprimirá.” [12]

 

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Obs.: Os trechos aqui retirados dos livros não foram revisados. Respeitou-se as respectivas traduções.

(1) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, pp. 15 e 18.

(2) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 19.

(3) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 26.

(4) Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, Série Ouro, p. 155.

(5) Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, Série Ouro, p. 158.

(6) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 232.

(7) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 249.

(8) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 246.

(9) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 40.

(10) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 45.

(11) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 46.

(12) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 68-69.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

Do talento, estudo e inspiração | Patricia Tenório

06/01/12

– Todos podem ser escritores?

– Existe o talento?

– Há inspiração? 

            Muito se falou e se fala sobre a criação literária. Mas o que realmente importa e vale a pena falar?

            Sou fruto da geração que, graças ao despertar em oficinas literárias, trouxe à tona um talento nunca antes revelado e reconhecido por si próprio. Mas o que vem me preocupando é o direcionamento de algo que só serviria a esse despertar, a um estímulo à criatividade adormecida, sugestões de estilo e maneiras de escrever. A oficina literária cumpre sua função até o limite iniciatório. A partir daí ela se torna, a meu ver, repetitiva e paralisante.

            É preciso talento para ser um escritor, uma escritora de gênio. Mas também é preciso estudo e trabalho diários, incansáveis. No âmbito do estudo, se possível acadêmico. Todas as profissões exigem formação acadêmica – por que a de escritor não exigiria? O talento é o que diferencia o caminho que se quer tomar – teríamos um mundo repleto de médicos, advogados, engenheiros, se todos tivessem talento para tudo. E considero que a formação acadêmica impulsiona ao salto, a condição à obra de arte.

            Mas, principalmente, é preciso amor. É preciso ser loucamente apaixonado pelo que se faz, não conseguir respirar um só instante sem pensar no que se lê, no que se escreve, ter como maior prazer, maior amante a literatura. Um sacerdócio.

            Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta aconselha o autor iniciante Franz Xaver Kappus a colocar a poesia acima de qualquer questão, inclusive da própria vida.

            “Investigue o motivo que o manda escrever, examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?” [1]

            Na arte da guerra, adverte-nos Maquiavel em O príncipe:

            “… porém, quando dependem [os príncipes] unicamente de si mesmos e podem empregar a força, então é raro que corram demasiados riscos.” [2]

            Na solidão absoluta o escritor nasce. Por maior generosidade recebida em sua iniciação, o caminho é só e único. As angústias, pessoais e intransferíveis. O estilo não será imposto. E corre-se o risco, permanecendo indefinidamente em um ateliê literário, escravizar-se à voz do mestre, à maneira individual do mestre se expressar. E escrever.

            Difícil resolução na sociedade do espetáculo em que vivemos, na necessidade suprema do reconhecimento. E grande coragem, a de criar asas e alçar voo solo, sem suportes para se apoiar, sem certezas, um passo de cada vez. O poeta mais uma vez nos socorre:

            “… aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.” [3]

            Quanto à inspiração, deve-se estar preparado. Porque ela vem, ela existe. É matéria.

            “Examinando os seus feitos e as suas trajetórias, não podemos concluir que da fortuna eles [os príncipes] hajam recebido mais do que a ocasião que a materialidade de suas vidas ofereceu-lhes de poderem nela mesma introduzir a forma que lhes parecia justa. Sem esta ocasião, suas virtudes espirituais ter-se-iam perdido, e, sem essas virtudes, a ocasião haveria sido vã.” [4]

            Tentando fazer valer o pensamento de que se nasce escritor, ou, parodiando Simone de Beauvoir, “se torna escritor”, com talento, estudo e trabalho diários, incansáveis.

            E inspiração.

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(1) Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke, Editora Globo, p. 26.

(2) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 29.

(3) Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke, Editora Globo, p. 28.

(4) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 27.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com