Posts com Cinema

Índex* – Agosto, 2018

Descubro

Na palavra

Um suporte 

No qual me apoiar

Um alívio

Em desabafar

A angústia 

De não ter controle

A Patricia

Sem linha

Caneta

E cor

 

Na palavra

Me descubro

Inteira

Portadora

Do segredo

Mais íntimo

Mais âmago 

Que nem eu mesma

Sabia

 

Sorrio

Quando

A caneta

Sulca o papel

Em letra de forma

E reconheço ali

Todo um sentido

(“Toda poesia”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/08/2018, 15h34)

 

O amor à Escrita no Índex de Agosto, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Uma autobioficção | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Um poema de escrita | Cilene Santos (PE – Brasil).

PALAVRA DE VIAJANTE (Lisboa) | Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Sete anos | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelando | Mara Narciso (MG – Brasil).

“A mulher faminta” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre | Diversos.

E o link do mês com um poema de Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 30 de Setembro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

____________________________________________

 

Index* – August, 2018

 

 

I discover

In the word

A support

To support me

A relief

To vent

The anguish

Of not having control

A Patricia

Without line

Pen

And color

 

In the word

I discover myself

Entire

Bearer

Of the most intimate

Secret

More core

Like myself even

Knew

 

I smile

When

The pen

Groove the paper

In shape letters

And I recognize there

A whole sense

(“All poetry”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/14/2018, 3h34 p.m.)

 

The love of Writing in the Index of August, 2018 on the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

An autobiofiction | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

A writing poem | Cilene Santos (PE – Brasil).

WORD OF TRAVELER (Lisbon) | Fred Linardi (SP / RS – Brasil).

Seven years | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelling | Mara Narciso (MG – Brasil).

“The Hungry Woman” | Tiago Germano (PB / RS – Brasil).

Studies in Creative Writing – August, 2018 – Recife and Porto Alegre | Several.

And the link of the month with a poem by Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Thank you for the affection and participation, the next post will be on September 30, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_8419 

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando a Escrita entra pelas Janelas da Alma. When the Writing enters through the Windows of the Soul.

 

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre

Os encontros de Agosto, 2018 em Recife e Porto Alegre falaram sobre O amor. Não somente o amor entre os amantes, mas, principalmente, o amor à escrita. Passeamos pelos encontros do primeiro semestre, revisamos conceitos, e acrescentamos o de carcaça de John Keats, quando o poeta se esvazia de si para se preencher com Poesia,  Ficção, com Escrita Criativa. Encontramos essa carcaça na escrita de Orhan Pamuk, de Ian McEwan, e tantos outros artistas de diversas artes, teóricos de inúmeras áreas de conhecimento…

A partir dessas conexões do octógono dos Estudos em Escrita Criativa, fomos presenteados com textos que se encontram aqui neste post, com os processos criativos de Ana Maria César (Recife), Annie Müller e Luís Roberto Amabile (Porto Alegre), e outros textos que foram além do tempo e do tema do mês e que se encontram em posts individuais.

E nos preparamos para os encontros de Setembro, 2018 em Recife e Porto Alegre que falarão sobre O sonho. Desta vez teremos a honra e a alegria de receber Adriano Portela (Recife), Gisela Rodriguez e Fred Linardi (Porto Alegre) para falarem sobre suas criações artísticas, poéticas, literárias.

Que venha Setembro e uma boa leitura!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

_______________________________________

 

Branco

André Souto

Recife, 11/08/2018, V Encontro de Escrita Criativa

Contato: asla56@outlook.com

 

A tela à sua frente. Branca. O cursor pisca. Oscila. Pronto a receber alguém. Alguma coisa, mesmo sem trama nem final.

A tela: insulto e desejo. Sozinho e sentindo a presença. Frio, branco: o olhar do inquisidor mudo.

Compreendeu “a luta mais vã”. Arremeteu contra os seus moinhos de vento.

No cursor inquieto, a pergunta tantas vezes repetida:

— E agora?

 

                                                                    

 

ESCRITA AMOROSA

BERNADETE  BRUTO

Recife, 11 de Agosto de 2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Foi principalmente por amor que pegou o papel e escreveu o primeiro poema. Vieram outros depois, que rasgou por não achar bonito comparado com os da irmã. Aquela sim tinha o dom, a vez, a voz e todos os olhos e amor daquela grande família.

Ali do seu canto, percebeu, também queria ser amada, embora fosse apenas uma menina perante a adolescente cheia de vida. Foi à luta. Insistiu. Alguns olhares se voltaram e pousaram na sua pessoa miúda. A partir dali, ganhou seu espaço e um lugar na família.

Depois o ato de escrever surgiu como confissão de outros amores transitórios, doloridos ou desenganados. Muitas lágrimas pingando no papel, unidas à escrita desenfreada, foram despejadas e, por vezes, o ato tenha ficado meio desbotado.

Somente quando olhou para si e para o outro com amor, o ato de escrever foi tornando-se forte, sereno e eficaz. Hoje, escrever continua sendo um ato de amor, que chega impregnado do grande amor que ela tem por si e pelo outro.

Assim ela imagina que deva ser. É essa busca no seu ato. Quando isso acontecer, um dia, a sua escrita poderá ser conhecida pelo próprio ato que a moldou desde o princípio, podendo ser denominada de AMOROSA.

 

 

O PODER DA PALAVRA

Cilene Santos

Recife, 19/08/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Pudesse ser

Um gesto,

Um olhar,

Uma miragem.

Mas foi uma palavra,

Guiada pelo vento

Que, num relance,

Invadiu-me a alma.

Alojando-se,

De lá fez morada.

Uniu-se aos sentimentos

Que lá já se encontravam.

E, me atormentando.

Suplicava liberdade,

Em forma de poesia.

Relutei. Expliquei.

Não era ainda chegada a

hora.

Não sou liberta.

Sou prisioneira da minha inspiração.

Não me pertence o momento

De a poesia vir à luz.

E a palavra, com rogos instantes,

Não respeitou o meu instante.

De súbito, a explosão.

Fui vencida!

O verbo se fez asas

E alçou voo

Rumo ao infinito

Mundo da escrita.

 

 

ODE A KEATS

ELBA LINS

Recife, 11/08/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Me esvazio de mim

De minha existência sem graça

Quando vejo teus olhos de sombra

A me mostrar confusos caminhos

Por onde a alma transita

Quando de paixões

Quando de dores

Quando de mistérios

Que entrevejo através dos teus olhos.

 

Teus olhos de sombra

São lagos profundos

Onde mergulho

E me perco de mim mesmo.

São bosques escuros

Por onde avanço

Na certeza de me perder

Por onde caminho tresloucadamente

Buscando a vida ou a morte

Buscando enfim, a luz

Dos teus olhos mornos.

 

 

Gabi Vieira

Recife, 11/08/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Aos sete anos, lhe foi dado papel e lápis, não importa mais por quem. Na euforia de sua mente curiosa e de seu jeito espivitado, encarou a folha em branco com uma urgência que só cabe às crianças – e ouviu alguma coisa. Com espanto, percebeu vir daquele papel à sua frente. Um chamado, uma súplica, uma única palavra:

 

“Escreva”.

 

Tão simples, mas tão extraordinária. Tão curta, mas tão longínqua. Tão silenciosa, mas tão desesperada.

 

E então, o que lhe restava? Não podia apenas ignorar aquele pedido, que era de certa forma uma ordem, uma necessidade profunda cujas raízes já sentia brotar no próprio âmago. Era isso. Não tinha jeito.

Se não escrevesse, sufocaria.

Depois disso – depois de se entregar ao papel, às palavras e às ideias – não mais foi somente o que se era. Foi alegria, foi tristeza. Foi ódio, foi amor, e nem sempre soube descrever o que se era. Foi Anna, foi Julia, foi Stella, mas também foi Caio, Davi, Lucas. Foi tanto e ao mesmo tempo foi tão pouco. Seu corpo não era mais composto de água, sangue, carne, osso. Na pele, se imprimiam as paisagens que criara no fundo da mente e depois passara para o papel. Os cabelos esvoaçavam com o vento das risadas daquelas vidas que trouxera à existência, caminhando ao seu lado como velhas amigas. E nas veias, corriam as letras que pulsavam de seu coração, espalhando-se pelo corpo todo e dando-lhe a plena certeza de que ela própria era feita de palavras.

 

 

para um poema de amor

Márcia Maia

Recife, 11/08/2018

Contato: marciamaia@uol.com.br

 

acordei querendo escrever um poema de amor

 

um poema que de amor reluzisse

nessa manhã sem azul

que trouxesse de volta o bem-te-vi sumido

e reinventasse ninhos no pinheiro

e fantasmas amigos na varanda

vivos ou não

 

um poema que verdágua transbordasse

num misto de mar e capibaribe

de paralelepípedo e mangue

e que fizesse florir em pleno inverno os

baobás e todas as acácias

guardando os flamboyants para o verão

 

um poema que se negasse ao corriqueiro

eu te amo e dissesse do amar

com verso e rima

numa voz peculiar de gesto novo

que fosse efêmero como o bronze esverdeado

das estátuas e permanente como o brilho

que há nas bolas de sabão

 

que dissesse de mim sem me dizer

e alardeasse o querer de cada gente

dispensando os como os quando e todos os porquês

 

e que algum dia em um livro em um blogue

onde quer que alguém o visse

que se lhe abrisse um sorriso ao fim de o ler

 

 

Ana Paula Bardini

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: apbardini@terra.com.br

Encontrar palavras que se possa expressar

Sentimentos que insistem em não se mostrar

 Não tem nada de pensado

Muito menos de ensaiado

Vem da alma no momento apropriado

Tomam forma, dando vida ao inanimado

 E, aos poucos, a natureza antes dura

Se matiza e se mistura

Como cores em pintura

Na extrema delicadeza

De sua ímpar beleza

Tem-se então uma sinfonia

Sonhos e desejos em total harmonia

Palavras não se deve procurar

Pois são elas que se fazem encontrar

#APB

 

Nem sempre sou fala, às vezes sou escuta

E é quando escrevo que me sinto ouvida

 

Nem sempre sou clara, às vezes sou escura

E é quando escrevo que me revelo luz

 

Nem sempre sei quem sou, às vezes não sei

E é quando escrevo que me desvendo em mim

 

Nem sempre sou Ana, às vezes sou Paula

Mas sempre que escrevo sou sem-fim

 

Muitas em mim.

#APB

 

 

Escrever-se

Gabriela Guaragna

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

 

Antes mesmo de pousar no oco da boca, o beijo das palavras entregam-se aos pulmões e escorrem, feito água morna, pela ponta de cada dedo que segura uma letra. A caneta finca o papel como se fincasse a musculatura mais profunda e assina nas vísceras as vozes que não encontraram espaço na garganta. Escritor desagua-se sobre o papel e a escrita o escreve em si.

 

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gsabritto@yahoo.com.br

 

Quatro da manhã. Deveria estar exausto, mas meu corpo desconhece senso comum. O ronco de minha mãe desmata o silêncio como uma motoserra. Respiro fundo, sufocando o grito que quase escapa. Meu amigo ouve sem reclamar, como se a reclamação lhe desse identidade. Nunca questionei como um pedaço de papel é meu melhor amigo. Curioso como o inanimado nos dá identidade. Sem palavras, uma folha é somente isso. E sei que é o ato de impor a tinta no papel que me torna um escritor. Tudo bem. Prefiro um pulso dolorido do que um grito no escuro.

 

 

GESTAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

A palavra,

Fecundando a página,

Gerando vida.

Nutrindo sonhos,

Acalentando sentimentos.

 

Vai se formando uma ideia,

Ponto por ponto,

Linha por linha.

 

A tinta pressiona o papel,

Até ficar tudo pronto

Para a derradeira expulsão!

 

 

LIGAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

 

Como letra que forma a palavra,

Sou única.

Como palavra que forma o texto,

Sou só.

Cada palavra,

Cada ser,

Cada um.

Formando um todo.

Um arco-íris cintilante e belo,

Numa ciranda multicolorida.

Iluminando,

Brilhando,

Unindo,

Sendo!

 

_______________________________________

Recife, 11 de Agosto de 2018

IMG_8407

Porto Alegre, 15 de Agosto de 2018

IMG_8406

 

Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Julho, 2018

Escrevo

Para me libertar

Para expurgar

Esse sol

Que nasce aqui

No meu peito

Que nasce assim

Uma história 

Repleta de

Amanhã 

Prenhe de sonhos

E começo a concretizar

Hoje

Passo a passo

Em cada palavra

Inscrita no papel

Na ideia

Na imaginação 

Que o raio de sol

Ajudou a despertar

(“Poiesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 15/07/2018, 06h04)

 

A Escrita Criativa dando asas à imaginação no Índex de Julho, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Sete textos de viagem | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

Eu amo os advérbios | Cilene Santos (PE – Brasil).

Quem sou eu? | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

À Palomar, de Ítalo Calvino | João Paulo Nascimento de Lucena (PE – Brasil).

Lua de sangue | Natália Setúbal (RS – Brasil).

joelhos curvados | Talita Bruto (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2018 | Recife e Porto Alegre.

 

E os links do mês:

 

O blog de Kênia Medeiros (RS – Brasil), participante dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre: https://bookcaccino.wordpress.com/2018/06/26/subscribe

O livro de Fotografia & Arte, organização Fernando de Mendonça (SP – Brasil), Maria do Carmo Nino (PE – Brasil) e Patricia Gonçalves Tenório: https://issuu.com/ppgavufpeufpbrevistacartema/docs/dossi___arte_e_fotografia

 

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 26 de Agosto de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

______________________________________________

 

Index* – July, 2018

 

I write

To set me free

To purge

This sun

That is born here

In my chest

That is born this way

A story

Full of

Tomorrow

Pregnant of dreams

And I begin to realize

Today

Step by step

In every word

Inscribed on paper

In idea

In imagination

That the ray of sun

Helped to wake up

(“Poiesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 07/15/2018, 06h04 a.m.)

 

The Creative Writing giving wings to the imagination in the Index of July, 2018 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Seven Travel Texts | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Movies & Philosophy of Life & Five Short Texts | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

I Love Adverbs | Cilene Santos (PE – Brasil).

Who am I? | Elba Lins (PB / PE – Brasil).

To Palomar, by Italo Calvino | João Paulo Nascimento de Lucena (PE – Brasil).

Blood moon | Natália Setúbal (RS – Brasil).

curved knees | Talita Bruto (PE – Brasil).

Studies in Creative Writing – July, 2018 | Recife and Porto Alegre.

 

And the links of the month:

 

The blog of Kênia Medeiros (RS – Brasil), participant in the Creative Writing Studies of Porto Alegre: https://bookcaccino.wordpress.com/2018/06/26/subscribe

The book of Photography & Art, organization Fernando de Mendonça (SP – Brasil), Maria do Carmo Nino (PE – Brasil) and Patricia Gonçalves Tenório: https://issuu.com/ppgavufpeufpbrevistacartema/docs/dossi___arte_e_fotografia

 

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on August 26, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_8293

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Sol da Escrita Criativa que nasce aqui no meu peito. The Sun of Creative Writing that is born here in my chest. 

Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos* | Bernadete Bruto**

Recife, 18 de julho de 2018

 

Além de diversão, os filmes podem ser fonte de excelentes reflexões sobre a vida, como no filme A Jovem Rainha (2017), uma ficção baseada em história real, a Rainha Cristina da Suécia, uma mulher muito além de seu tempo, incentivou o uso do conhecimento e gosto pelas as artes no seu país, e deste filme, separei parte do discurso de Cristina quando tornou-se rainha e cita o filósofo Descartes: “René Descartes diz que a curiosidade é um grande trunfo. Ele diz que nos predispõe a adquirir conhecimento científico. Ele diz: o melhor remédio para admiração excessiva é adquirir conhecimento de muitas coisas e praticar a apreciação daqueles que parecem ser mais raros e estranhos.”  Sim, a curiosidade e o conhecimento, excelentes trunfos em qualquer época, assim como a apreciação do novo e inusitado. Foi assim com o filme O garoto de Liverpool (2009), também uma ficção baseada na vida do astro John Lennon, o comportamento estranho do jovem inglês na escola fez com que o professor lhe chamasse em particular e sentenciasse: “só conseguirá emprego nas docas, não está indo a lugar nenhum aqui em Quay Back, lugar nenhum.” Engraçado verificar que a sua “profecia” foi por água abaixo: como aquele menino de Liverpool tornou-se um grande músico e mudou costumes. A resposta do menino Lennon no filme já dá essa dimensão: “Esse lugar nenhum está cheio de gênios, senhor? Então deve ser o meu lugar.” Que felicidade comprovar esse final feliz para nós que já presenciamos essa ascensão do menino na vida real, e, como pessoas, abrir nossa mente para enxergar no outro diferente, trazendo o novo e que podemos aprender.

Nesse mesmo foco a questão da diferença reaparece no filme Anomalisa (2017), interessante desenho no qual a protagonista enxerga todos com a mesma aparência e voz até encontrar uma moça, que lhe chama a atenção, talvez por sua diferença dos demais, inclusive na voz,  que ele escuta de forma diferente. No filme que analisa a questão das anomalias, a moça chamada Lisa, recebe o codinome de Anomalisa, que em japonês significa “Deusa do Céu”. E Anomalisa traz muito na sua fala. Tocou-me a observação sobre o Brasil; “o único país que fala português” (uma anomalia) e encontrei imensa sintonia com sua canção preferida, também uma das minhas prediletas, do tempo da juventude, Girls Just Wanna have fun: “Adoro Cyndi Lauper. Ela tem uma ótima voz e não liga para o que diz. Ela é ela mesma, e isso requer coragem.” Por essa informação trazida pela Lisa adorei o filme, que nos estimula a fortalecer nosso comportamento e sempre buscarmos força para sermos nós mesmas apesar de distanciar-se do dito como “normal”. Além da música que me fez retornar ao final dos anos setenta e cantar: Girls just wanna have fun!

Por fim, totalmente encantada como o filme A GANHA PÃO. Meditei sobre o quanto temos em termos de liberdade individual e o quanto ainda tem gente sofrendo nos seus direitos individuais. Pensei ainda, se a condição da mulher no mundo ocidental ainda é precária, como classificar a situação das mulheres em países como o Afeganistão? Triste e inclassificável..infelizmente! E no meio ao sofrimento da história, apresentada com maestria neste desenho, há uma história dentro de uma história, com a contação feita pela protagonista, a menina Parvana. A contação toma ares de fantástico do conto de fadas, um mito do imaginário popular daquele recanto, e, bem perto do final, se mistura  com a história principal, revelando o segredo guardado sobre o irmão de Parvana, cujo paredeiro ninguém mencionava no filme: “Meu nome é Sulayman. Minha mãe é escritora, meu pai professor. Minhas irmãs vivem sempre brigando. Achei um brinquedo na rua e ele explodiu. FIM’

O filme foi tão bem concebido que mesmo no final, fiquei ainda presa naquele povo, que lembra um pouco meus ancestrais, observando o quanto são parecidos, como se irmãos fossem…e desejando que Parvani e todas mulheres e homens do Afeganistão, ou de qualquer outro país, onde a realidade seja semelhante, pudessem alcançar um oásis, um paraíso, que no filme sugeria uma praia em Goa.

Este filme proporcionou muitas reflexões sobre nossa existência, por conta do sofrimento de uma nação. Muito embora, tenha sido profundamente tocada pela beleza da alma de um povo incólume, mostrada na descrição que fazem de si, nos presenteando no final do filme: “Somos uma terra cujo povo é o maior tesouro. Estamos nos limites de impérios em guerra. Somos uma terra dividida nas montanhas do indocuche queimada pelos olhos ardentes dos desertos do norte, escombros negros contra picos de gelo, somos Auriana, a terra dos nobres.”

Filmes nos divertem, mas também nos ensinam como contar histórias de forma diferente, nos instrui e são meios de denúncia de condições humanas, sociais e ambienteis. A filosofia da vida encontramos em vários lugares, na própria natureza, nos livros, nos meios de comunicação, também nas palavras, basta conservar os olhos, ouvidos e coração abertos, em qualquer lugar, até mesmo assistindo a um filme como A Ganha Pão: “Levante suas palavras, não sua voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não o trovão.”

 

___________________________________________ 

Texto 1: Um buquê para a minha amada

De vermelho a saudade se agarra ao que sobra do mundo particular da juventude, ainda presente lá no fundo do coração. O tempo em que subia sem medo nas árvores e o céu estava perto passou. Presa no chão,  olhos cansados procuram mocinha de sonhos azul que recebia flores…a vista tão longe:…”Adeus menina, linda flor da madrugada!”

Texto 2: Cada uma tem sua Tróia particular

Aprisionada entre quatro linhas daquela história, que pode ser antiga, procura a menina uma saída. Sua mãe observa o enredo, naquele local de degredo, onde todas as mães vão parar na maturidade. Sentada no anfiteatro da vida e na torcida, aguarda o segundo tempo, o fim da guerra, tempos de realizações! Ela estuda o caminho enfrenta a luta, tem foco. Do outro lado, a mãe espera por um futuro como seu nome,  resplandecente!

Texto 3: Eram muitas vezes

A figura caiu no colo do livro inutilizado. Que aborrecimento! E agora? Qual era a história? Livro todo manchado de tinta preta. Nada se vê.  Lamentou. Olhou a imagem que restava. Uma moça vai em busca de algo, vislumbra uma descida ou vai subir na árvore? Quaisquer das ideias poderiam iniciar! Sorriu. Ficou feliz porque descobriu tantas possibilidades, numa só imagem muitas histórias! Assim, começou a escrever.

Texto 4: Nos tempos do quintal

Houve um tempo em que o mundo era pequeno, íntimo e lhe bastava. Um quadrado onde uma menina vestida de vermelho divagava, abraçada ao arvoredo. Tudo era possível para o local se tornar uma terra encantada, do nada! Na segurança do lar e liberdade do pensamento sonhava com fadas, castelos. Mal sabia que era a verdade muito mais bonita que seus sonhos. A doce e encantadora realidade daquele tempo.

Texto 5: Assim na terra como no céu

João subiu na vida por aquela árvore. Maria ficou embaixo, vendo-o cada vez mais distante. Olhando para o céu, segurava a árvore. Olhando para o alto, não vê a terra… Pobre Maria! Perdeu seu chão…Tudo por causa de João! Toma uma atitude menina. Ou sobe lá pra cima ou se mete pela floresta e vai fazer da vida festa aqui mesmo no chão. Quando notar nem saberá mais quem é João! João? Aquele do pé de feijão? Sei não!

IMG_8307

***

___________________________________________ 

* Resenha apresentada e exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de Gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores-UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017), participação em antologias, assim como diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

*** Birdsong, 1893, Károly Ferenczy.

Índex* – Junho, 2018

Carrego 

As frases

Inacabadas 

Os sonhos

Por vir

Uma estrela

Cadente

Caindo

Em minha mão

Ainda quente

Ainda cheirando 

A jasmim

Até brotar

No centro

Uma palavra

De cor

Azul

(“Até meu céu nascer azul”, Patricia Gonçalves Tenório, 31/05/2018, 15h35)

 

O céu azul de final de semestre, início de outro no Índex de Junho, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Vinte e um | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Itália), Alfredo Tagliavia (Itália) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre | Diversos.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

Minicontos de Júlia Dantas (RS – Brasil) nos Estudos em Escrita Criativa – Porto Alegre.

E os links do mês:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c

– Gabriel Nascimento (RS –Brasil):  https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 29 de Julho de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

____________________________________________

 

Index* June, 2018

 

I carry

The phrases

Unfinished

The dreams

For coming

A star

Cadent

Falling down

In my hand

Still hot

Still smelling

The jasmine

Until it comes out

In the center

A word

In color

Blue

(“Until my sky is blue”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/31/2018, 3:35 p.m.)

 

The blue sky of the end of semester, beginning of another in the Index of June, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Twenty-one | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Italy), Alfredo Tagliavia (Italy) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – June, 2018 | From Recife to Porto Alegre | Several.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

Very-short-stories by Júlia Dantas (RS – Brasil) in Studies in Creative Writing – Porto Alegre.

And the links of the month:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c  

– Gabriel Nascimento (RS – Brasil): https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Thank you for the attention and the affection of always, the next post will be on July 29, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_7899

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** “Olha para o céu, meu amor… Nessa noite de São João”. Música: Luiz Gonzaga  (PE – Brasil). Fotografia: George Barbosa  (PE – Brasil). “Look at the sky, my love … On that night of St. John.” Music: Luiz Gonzaga (PE Brasil). Photography: George Barbosa (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre

Os Estudos em Escrita Criativa do primeiro semestre de 2018 cumpriu sua missão. Cumpriu a missão monstruosa de tentar unir as duas pontas do Brasil, as duas cidades em que eu flutuava nas idas e vindas do doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, única com graduação, mestrado e doutorado na área do país.

As duas cidades se fizeram unas sob as temáticas do tempo – e Agostinho de Hipona, Erich Auerbach, Oscar Wilde –; do mito – e Yuval Harari, André Jolles, Vincent Van Gogh –; da viagem – e Michel Onfray, Luiz Vaz de Camões, Christopher Vogler –; da música – e Thomas Mann, Hermann Hesse, Platão.

E os conceitos se ampliaram – o Eterno e o Tempo agostiniano, Figura dos Primeiros Padres Cristãos, a Pergunta que se anula na Resposta do mito, os viajantes e sedentários desde Abel e Caim, a Teoria Barroca dos Afetos.

E os convidados especiais – Alexandra Lopes da Cunha, Alexandre Santos, Débora Ferraz, Fátima Quintas, Flávia Suassuna, Gustavo Melo Czekster, Jacques Ribemboim, Júlia Dantas, Guilherme Azambuja Castro, Tiago Germano.

E os escritos grandiosos dos participantes – Adriano B. Cracco, Ana Elisabete Cunha, Antonio Ailton, Bernadete Bruto, Cilene Santos, Dulce Albert, Elba Lins, Eliane Mascarenhas, Gabi Vieira, Gabriela Guaragna, Gabriel Nascimento, Giliard Barbosa, João Orlando Alves, Ina Melo, Inalda Dubeux Oliveira, João Paulo Nascimento de Lucena, Luciana Beirão de Almeida, Marco Polo Laufer, Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva, Monique Becher, Rackel Quintas, Rodrigo Ribeiro.

A infinita gratidão por tudo que constuímos juntos. O segundo semestre vem com muitas novidades e desafios. Mas, com vocês, sei que conseguiremos dar o salto e transformarmos a nossa Escrita Criativa em obra de arte.

Com vocês, os escritos dos participantes de Junho, de Recife a Porto Alegre, dos Estudos em Escrita Criativa – 2018.

Grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

____________________________________________

Ana Elizabete Cunha

Recife, 09/06/2018

Contato: anaelisabetecunha@gmail.com

Venha ao colo de leite

e diga o som que Aninha;

Brinca sem tempo de fim

sentando em pele rosa, tão branca, rosinha.

 

Mas ao silêncio adormece, entorpece,

Respirando anseios de mãe.

Fita o nada e enlouquece;

Renova toda a vida em outro instante.

 

Respira… Já vou;

Respira… Aqui estou:

Um sempre nunca distante.

 

Quem foi cria de puro alento

é o todo e o tudo

a que seja remetido.

 

Se tem a escuridão nos olhos,

ofusca o sol por um sorriso.

Cachos, castanhos e noite

até que se faça esquecido…

 

(“A criança de sonho” – Ana Elisabete Cunha, 09/06/2018, 11:30h)

 

O SOM DA ANCESTRALIDADE

Bernadete Bruto

Recife, 09/06/2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Olhou a foto pendurada na parede do quarto, sorrindo ao se rever naquele instante mágico. Atrás da silhueta risonha o TAJ MAHAL e como ele, o som, cheiro, cores retornando para aquele instante mágico inesquecível.

Antes, jamais poderia imaginar o que aconteceria, parodiando com a escrita da própria canção, cuja letra e melodia ecoam de uma lembrança longínqua, tão distante quanto sua ancestralidade provém.

Era criança num terraço. A música ressoava do aparelho radiofônico seduzindo para uma dança (som de harmônio indiano), explicitava um convite: “a Índia fui em férias passear, tornar realidade um sonho meu…”

Hoje, após dez anos, feliz por um sonho realizado, retorna aliciadoramente ao trecho daquela canção da infância, cuja melodia produz um verdadeiro encontro do corpo com a alma: “Se nada mudar no ano que vem, a Índia vou voltar para ver meu bem.” (som do harmônico indiano)

 

A Canção Proibida

Cilene Santos

Recife, 15/06/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

O ano, 1957. Exatamente quando eu me preparava para a Primeira Comunhão, uma canção foi lançada e fez muito sucesso.

Mas fomos orientadas pelas nossas catequistas para não cantar nem ouvir aquela música. Segundo elas, quem cantasse “Eu vou pra Maracangalha, eu vou…” fazia apologia ao inferno.  Seria o mesmo que dizer: “Eu vou pra o inferno, eu vou…” e eu tinha medo do inferno e do capeta. E na minha inocência, eu levava a sério o que elas  ensinavam. E sofria porque sendo algo proibido, aguçava mais o meu pensamento e só a canção proibida manifestava-se. Tentava pensar nas brincadeiras, nas bonecas, mas nada adiantava.

A música teimava, insistia e ficava. Eu pedia a Deus e aos santos para me libertar daquele peso.

Com o passar do tempo, mudei meus conceitos religiosos, passei a ter uma visão diferente do pecado e de Deus. Descobri que Deus não era um carrasco, como me foi apresentado. O inferno não existia. E eu perdi os medos que me afligiram  a infãncia. Eu não seria mais uma pecadora meramente pelo fato de cantar aquele samba tão bonito de Dorival Caymmi.

Todos esses acontecimentos ficaram enclausurados em minhas memórias. Entretanto, hoje, quando me encaminhava ao trabalho, fui surpreendida por aquela melodia. Um alto-falante em alto e bom som tocava a canção, na voz estrondosa do seu compositor.

Nem tive medo! Até segui cantarolando feliz e achando graça. Como pude sofrer tanto, em meus sete anos de idade, por causa de uma canção tão bela. E todo aquele passado veio à tona, justamente quando ouvi a “Canção Proibida”. E nem doeu!

 

Dulce Albert

Recife, 09/06/2018

 

UMA CANÇÃO PARA MAMÃE

Para a mãe já acamada que diziam não mais ouvia, nem falava e, talvez, visse muito pouco, só vulto, ficou junto a sua cama, e, ao confortá-la, cantarolou: “E a fonte a cantar… e a mãezinha: ‘Chuá, chuá’”… Ouviu…respondeu ao seu carinho. Com emoção gritou: mamãe cantou…mamãe cantou!

 

Elba Lins

Recife, 09/06/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Na praia o sol escaldante lhe queimava a pele, potencializando o fogo que se espalhava pelo corpo.

Os olhos azuis refletiam o sol, refletiam o mar…

E sem saber que de longe alguém lhe observava, andou sem destino, procurando a companhia que melhor se adaptasse à emoção que estava sentindo.

Era solidão, era poder, era desafio…

Lembrou do filme, bem antigo.

Mergulhou na amplitude do pensamento e abordou a primeira pessoa que cruzou o caminho.

A profecia se fez, e de longe observei…

 

(A Moça com Olhos de Blues

Durante o exercício na aula de Escrita Criativa – A Música

Pensando na música La Belle de Jour, de Alceu Valença e no filme A Bela da Tarde)

 

Gabi Vieira

Recife, 09/06/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Ouviu o velho som emitido pelo aparelho quase tão velho quanto, distraindo-se do que estivesse fazendo. Na solidão do pequeno quarto, sentiu ondas de lembranças lhe levarem para outra época, outra casa, outra vida.

Uma vida na qual morava em um enorme casarão, não no minúsculo apartamento atual. Tempos em que corria por vastos jardins que faziam os simples cactos – as únicas plantas que tinha tempo para cuidar – na varanda de hoje se encolherem de vergonha. Em fantasias e com apetrechos em mãos, dançava seguindo o ritmo e a história daquela música emitida pelo mesmo aparelho – em suas memórias, limpo e recém-adquirido – que agora se empoeirava em sua sala.

Sorriu.

Com o lápis em mãos e o coração cheio de saudade, deixou que o Pirata José guiasse seus pensamentos até a princesa tão linda, ambos personagens insubstituíveis de seus sonhos de criança.

 

João Paulo Nascimento de Lucena

Recife, 09/06/2018

Contato: jpn.lucena@gmail.com

 

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”. A conformação é sempre algo que mexe com a gente. Nalguns mais do que noutros. Disseram ter a ver com o amadurecimento e citaram um romance de formação, desses em que um jovem tem sua vida apresentada no olho do furação e, no desenrolar da estória, é ou não resolvida. Algo como Truman saindo da caverna de seu próprio Big Brother – com ou sem paranóia. De tanto ouvir, de tão visível, é, por vezes, subestimado. Vai ver conformar-se é com-formar-se, em seu sentido radical: radical de raiz, de individual e coletivo. Sofreu porque, talvez, como dissera o Maluco Beleza, é “chato chegar a um objetivo num instante”. Maldita procrastinação do ser-humano.

 

Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva

Recife, 09/06/2018

Contato: duda.tenorio@hotmail.com

 

É engraçado o que girar faz com as pessoas e como a música leva a isso.

Girar por dentro em busca de algo ou girar o corpo junto com a melodia e o ritmo.

Era primeiro dia de Carnaval e, ainda reunidos na casa de um amigo,…

“Eu ia lhe chamar

Enquanto corria a barca”

Corpos que nem sempre trocam palavras iniciam um processo de trocar movimentos que vêm do som.

Arritmia. A expressão do som no espaço, o éter acima de todo e qualquer elemento, afinal, ele vem antes de tudo, até da luz.

É de onde tudo nasce. E éter é espaço. O som não se propaga no vácuo.

E é por isso que, ao se embeber de música, o ser nasce de novo.

“Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer”

 

Rackel Quintas

Recife, 09/06/2018

Contato: rackelquintas@gmail.com

 

Tomaram-lhe orelha,

garganta e boca,

entre pães e cigarro aceso;

entre-vinhos.

Naquela mesa,

era só e presente

feito a passadeira,

enfeitando todas as coisas.

Era fantasma colorido

de gozo e som

de voz grave que cantava saudade

em tons amarelos, azuis e pretos;

em lutos.

E olhava janelas-retratos,

Olhava pessoas e pássaros,

Imagens inacabadas;

Olhava pegadas.

Amarelas, azuis e pretas.

Ninguém sabia que doía tanto

uma mesa no canto

e pranto… tanto.

Tomaram-lhe as mangas, os sulcos:

Manto.

Naquela mesa está faltando

Encanto

E a saudade dele tá doendo, enfim.

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 13/06/2018

Contatos: gsabritto@yahoo.com.br e https://www.facebook.com/Reimundo45/

 

5 anos. Não mantive contagem, mas é natural que ela sim. Sou interrompido pelo concerto matutino de buzinas e gritos. Minha cabeça faz uma apresentação surpresa, o ruído das baquetas quase me leva ao frenesi.  O concerto da manhã atinge o crescendo pelas 18:00, as buzinas da Ipiranga se juntando no refrão. O zunido me mantém acordado até a madrugada, quando o dia reserva sua melhor performance. O vento toca as folhas nas árvores com dedos praticados, um maestro exemplar. A música traz sensações, e com ela lembranças, resultando em marcas úmidas em meu rosto, lembrando-me dos tempos atuais, da pessoa que não pode mais ouvir essa orquestra muda.

 

Luciana Beirão

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

Nota MI

 

Dó, Ré, Mi, Fá, SOU.

De .

SOU de , SI.

MI FA LÁ

SI SOU,

Ou não SOU.

Ai, que DÓ.

 

Página em branco

 

Da página em branco

Sai uma nota.

Sai uma música.

Da página em branco,

Sai uma palavra.

Uma poesia.

A página em branco vira música,

Batida,

Sentimento.

Sentimos música,

Ouvimos poesia.

Aquela página virou vida.

 

Dor de cotovelo transcontinental

Marco Polo Laufer

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: falecom.marcopolo@gmail.com

 

Sou brasileiro. Nunca saí do Brasil. Gostaria muito de conhecer o Velho Mundo e, enquanto isso não acontece, crio mundos onde meus personagens possam viver suas vidas sem serem perturbados.

Meu sangue é bem misturado, e desde pequeno tive contato com muita gente: negros e italianos, portugueses e índios, árabes e japoneses. Mas o que mais me fascinava era quando meu pai falava com o seu Erich e a dona Sylvia, vizinhos nossos.

Fui crescendo e descobri: aquilo era alemão. O Erich Huebel nascera nos confins da Áustria e fugira para cá assim que a Segunda Guerra acabou, e falava um português todo cheio de remendos; e a dona Sylvia, benzedeira e cartomante, nascera num lugar dentro do Brasil onde todo mundo falava só naquela língua, que não se ensinava na minha escola.

O destino me levou a São Paulo, onde morei por dez anos. Aquilo foi para mim um paraíso: a babel onde se falavam mil línguas, e eu não me importava que o cheiro do esgoto se misturasse com o cheiro das especiarias e dos segredos escondidos na curva da cada esquina.

Mas uma certeza eu sempre tive: meu coração bate dentro de um iceberg no mar do norte. Não posso ouvir holandês, sueco ou qualquer desses xingamentos que lembrem neve ou um sol triste e meio apagado, que meu coração fecha os olhos e sinceramente chora.

Lembro quando isso começou a se tornar uma verdade inegável.

Eu era jovem, nervoso e desorganizado, e tudo dava errado. Só pra mim.

Um colega do cursinho teve de sair mais cedo e perguntou se eu podia ficar com uma sacola dele, que ele pegaria no dia seguinte. Eu disse que sim.

Cheguei em casa e, claro, fui bisbilhotar.

Tinha uma fita K7 escrita Björk*.

Nome estranho. ‘O’ tremado. Podia ser alemão.

Botei no som da minha irmã, rezando a Elfos e Exus que a fita não mascasse.

Era uma música muito estranha para meu ouvido inculto e muito pouco musical. Mais tarde aprendi que aquilo era um piano e um violoncelo, com uma vassourinha varrendo a bateria, e que assim tocava-se jazz.

Aquela música mexeu muito dentro de mim. Especialmente a segunda faixa.

Não entendia uma palavra. Nem inglês nem espanhol. Doce e áspera, triste e calma, uma voz de criança com trinados de gato. Era massagem em minhas orelhas e meus demônios, prontos a afiar machados e ceifar cabeças, queriam agora encontrar uma flor e dar-lhe terra, água, adubo e um vaso.

Quando findou, sentia-me órfão, não sei de quê.

Pedi uma cópia pro meu colega, que me deu a ficha completa**. Era um disco de música islandesa. Islandeses são descendentes diretos dos vikings, e era bem possível que aquelas canções anunciassem a vinda do deus do trovão ou o crepúsculo dos deuses.

Mas pelo menos me acalmavam.

Anos depois, já na era da informação, fui atrás das letras.

Realmente são faixas de jazz de estilos variados, muitas são versões de clássicos americanos, e as letras mais raivosas falam apenas de corações despedaçados.

Em especial a minha preferida, a faixa 2, com o singelo título de “Luktar Gvendur”.

A letra fala de Gvendur, o ‘acendedor de lampiões’ (Luktar), que passava pelas ruas ao cair da noite e acendia as luzes do passeio público.

“Tinha a cabeça grisalha, e a luz fazia seu cabelo brilhar; se ele avistasse um jovem casal, ele não acendia o lampião e os deixava sob a sombra da escuridão; lembrava de seu doce amor, o ressentimento passava e seu coração quebrado até conseguia sorrir um pouco.”

Meu coração ainda pulsa, um pouco mais fraco talvez, numa geleira, mas quando estou com os nervos à flor da pele, ouvir essa música é o que basta para acalmar meus monstros e dar mais um tempo até o próximo apocalipse.

* (OBS: era o começo da era do CD, eu nem tinha aparelho).

** (CD: Gling-Gló, Cantora: Björk, ano: 1990).

____________________________________________

Sala de imprensa:

IMG_8005

 

Nossos encontros de Junho, 2018:

IMG_7945

IMG_7965

 

Os próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Maio, 2018

De Arabella

Se aproxima

O fim da sua estória

O fim da narração 

Em terceira pessoa 

Que ficcionaliza

A vida do autor

*

A morte do autor

Está em cada linha

Está em cada palavra

Contada

Narrada

Derramada

Na tela do computador 

Nas letras do teclado

Que protegem o eu

Do outro

E permitem imaginar

E concedem aproximar

O fim de uma estória 

À bordo de um avião

 

(“Arabella em apuro”, Patricia Gonçalves Tenório, 10/11/2017, 06h50)

 

Uma jornada pela Escrita Criativa no Índex de Maio, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2018 | Recife e Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & convidados.

Uma leitura criativa | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

O café | Cilene Santos (PE – Brasil).

Um poema criativo | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

“BIUTFUL” (de Alejandro González Iñarritu) | por Flávia Suassuna (PE – Brasil).

Um conto heróico | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 25 de Junho de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

Index* – May, 2018 

From Arabella

Gets closer

The end of her story

The end of the narration

In third person

That fictionalizes

The life of the author

*

The author’s death

It’s on every line

It’s in every word

Told

Narrated

Spilled

On the computer screen

In the letters of the keyboard

Which protects the self

From the other

And the letters let imagine

And the letters grant get closer

The end of a story

Aboard an airplane

(“Arabella in style”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/10/2017, 06:50 a.m.)

 

A journey through Creative Writing in the Index of May, 2018 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – May, 2018 | Recife and Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & guests.

A creative reading | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

The coffee | Cilene Santos (PE – Brasil).

A creative poem | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

“BIUTFUL” (by Alejandro González Iñarritu) | by Flávia Suassuna (PE – Brasil).

A Heroic Tale | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Thanks for the attention and the affection, the next post will be on June 25, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_6661

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Escrita Criativa por um país mais respirável. Creative Writhing for a more breathable country.

Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2018 | Recife e Porto Alegre

O mês de maio dos Estudos em Escrita Criativa nos presenteou com textos belíssimos de nossos participantes e depoimentos enriquecedores dos escritores convidados – Fátima Quintas em Recife no dia 12, Débora Ferraz e Tiago Germano em Porto Alegre no dia 16.

Sob a temática da viagem, navegamos por Camões, Michel Onfray, Joseph Campbell, Christopher Vogler, Maureen Murdock, Alessandro Baricco, Adriana Lisboa. À luz da Teoria investigamos a Ficção, iluminamos a Poesia e extraímos técnicas dos autores para o nosso fazer artístico.

Apresentamos abaixo, textos escritos na parte prática dos nossos encontros, alguns dos quais serão levados para o Congresso Internacional da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada) 2018 que acontecerá final de julho, início de agosto em Uberlândia, Minas Gerais.

Com vocês, os textos dos nossos Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2018.

Grande abraço e boa leitura,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

_______________________________________________

 

A JORNADA DE UMA VIDA

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Recife, 12/05/2018

 

Saiu de casa em direção à rua. Não sabia direito o que aconteceria. Saiu às pressas, na correria da vida e se encontrou em pleno caos da rua. Foi assim mesmo, entrando nos lugares, batendo de porta em porta, pedindo permissão para entrar.

Fez isso para ter uma voz no mundo e redescobrir a vida. A princípio não entendeu bem aquele mundo, além do famíliar, julgando os outros, se desentendendo em alguns momentos, até que, no meio do caminho, olha no espelho e descobre que todas as possibilidades e impossibilidades estavam ali mesmo, dentro de si e não no outro. O outro era apenas o espelho, o mentor, lhe apontando um caminho de pedras e flores, assim como é a vida comum.

Tomou a própria voz, no devido tempo e retornou para a casa dos sonhos, deixando um espaço também para o outro se expressar, da mesma forma que sempre desejou ter no mundo, no devido tempo, uma voz.

Hoje, olhando para trás, vê a jornada como uma viagem que sempre vale a pena, quando a gente compreende a vida e descobre que a alma coletiva nunca é pequena.

 

 

A viagem

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Recife, 12/05/2018

 

Debrucei-me nas muralhas do tempo.

Um cheiro de mato

Me levou à infância.

Agora sou uma menina.

Os amigos viajam comigo.

E brincamos.

O anel escondido entre as mãos.

“Onde está o anel?”

“Quem advinha?”

Agora é a sua vez.

Ah! Eu quero brincar de academia (amarelinha).

“Eu primeiro!”

A mãe chama,

“Hora de entrar!”

A voz da mãe se mistura com os protestos.

Na sala, a avó conta histórias de Trancoso.

Arrepios, medo de assombração.

O barulho do vento.

Comadre Fulozinha.

Histórias de rei e de rainhas

Que moram dentro das pedras.

Ouço uma campanhia.

É o tempo me chamando à realidade.

Fim da viagem.

 

À MULHER SECULAR QUE EXISTE EM TODAS NÓS…

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Recife, 12/05/2018

 

Forte!

Independente!

Desafiadora!

Inquieta!

Valente!

Ousada!

Dona da verdade.

De repente olha para trás…

Onde está sua luz?

Transita por todos os espaços,

Conversa com todos os amigos

Mas não se encontra…

Não vê o foco de luz

Que criou sua história.

Pára…

Mergulha no silêncio,

Cala as palavras,

Reduz o desejo,

Sente o medo.

Vai ainda mais fundo

Respira!

Expira…

Inspira…

Expira…

Inspira…

Se inspira.

E na calma das horas

Que escorrem lentas

Encontra a luz

Ela é macia

Serena

Frágil

Depende do oxigênio

De sua respiração

Pausada

Ela é quieta

Doce

Da cor do feminino

Que lhe conduz ao futuro.

 

Eliane Mascarenhas

Contato: elimasc@uol.com.br

Recife, 12/05/2018

 

Por muitos lugares andei, por muitos mundos viajei. Vi pessoas de pele clara, pele escura, dentes perfeitos, e bocas desdentadas. Pessoas que choravam e que riam, que louvavam e satanizavam.

Quantas paisagens maravilhosas, e quantos lugares sombrios. Em uns o sol brilhando e aquecendo, em outros a chuva, as nevascas, e as tempestades.

Quantas risadas, e quantos lamentos, em bares, esquinas, campos e praças.

Aqui, frio e fome; ali, abundância e satisfação.

Ora norte, ora sul, ora leste, ora oeste.

Vôos intermináveis para chegar ali, poucos passos para chegar aqui.

E línguas. Quantas línguas a falarem idiomas ora tão claros, ora tão ininteligíveis.

Esta poderia ser a descrição de uma longa viagem ao redor do mundo: Japão, França, Brasil, Conchinchina. Mas, na verdade, é uma viagem para dentro de um mundo que ninguém mais pode percorrer, a não ser nós mesmos.

É o nosso mundo interior, a nossa individualidade, o nosso eu, o nosso planeta íntimo. Tão igual a tudo que há na terra, e tão surpreendentemente único.

 

Jornada ao parque

Rackel Quintas

Contato: rackelquintas@gmail.com

Recife, 12/05/2018

 

Antes de mim, vieram três irmãs.
Mas eu era, também, a terceira;
Meio morte, meio dor,
no som dos meus treze anos.
Sonhava com a mãe –
aquela que paria e nutria crias no quintal –
E com casa: colunas, cama, banho, aconchego.
Depois, sonhava com tropas de bonecos
Entoando gritos de guerra.
Vez em quando, um homem visitava minha casa.
Era um pouco surdo, mas ria bastante.
Me trazia um pedaço de raiva;
aquela alegria exaltada agitava o sonho.
E eu permanecia inerte.
Certo dia, o visitante chamou-me ao parque.
Mas era longe do feijão,
Longe da mesa,
Longe da porta.
Lá haviam gritos,
barulhos agudos de felicidade
E um som salgado do mar em ondas calmas.
Sentei, calei, espantada.
Andei os primeiros passos, e depois mais rápido,
Senti meus braços e pernas desordenados
Até que a calçada ficou maior que meus pés.
E caí. Doeu. Sangrei.
Segurei as pontas dos dedos nuns apertos constantes.
E percebi que o homem ria.
Enraiveci. De medo.
Gritei, bati as mãos na areia.
O homem se aproximou,
beijou minha testa
Ergueu-me nos braços
e jogou-me corpo-ao-vento.
Voei.
Senti um balão de ar no meu peito,
E misturando ódio e medo,
Gritei desafinada
em gargalhada.
Mas era longe do feijão,
Longe da mesa,
Longe da porta.
Perto de todo o vento no rosto e nos cabelos,

iguais aos da minha mãe.

E voltei, naquele dia,
meio morte, meio dor,
Passando calçadas, pessoas, planos,
No entanto, dessa vez, sonhando:
jardineiro ou pescador?
Ao dom dos meus treze anos.

 

 

ATACAMA

Adriano B. Cracco

Contato: acracco@gmail.com

Porto Alegre, 16/05/2018

 

O desafio era grande

Cruzar o Atacama sempre foi um sonho deles

Ou, pelo menos, até então

Percorrer outros países, outras províncias, outras culturas

O que mais podiam esperar senão o inesperado?

Levar apenas as roupas que lhes cabiam na mala

Um punhado de objetos que lhes poderiam ser úteis

Mera precaução

Diria até pretenciosa

Planos feitos, dia claro, estrada adiante

Jornada iniciada

Do cansaço à tranquilidade

Da fome à raiva

Da surpresa ao medo

Tudo transcorria numa flexível rigidez

Saindo do prumo

Equilibrando emoções

E (quase) tudo que vai, volta

E eles voltaram

Querendo abraçar o mundo que partilharam

E nessa volta traziam também

O lógico desejo

De uma nova aventura

 

 

Gabriel Nascimento

Contato: gsabritto@yahoo.com.br

Porto Alegre, 16/05/2018

 

Estou fora de forma. Há anos não preciso arrumar malas. Vejo meu pai desgostoso com meu método de dobrar cuecas. Quase recusei a viagem, mas os argumentos de minha mãe foram…persuasivos: “Quem recusa Réveillon em Torres?”. Os decibéis ainda vibram nos ouvidos. Faltam 20 minutos até irmos à rodoviária. Fecho a mala, desistindo de dobrar mais a camisa. Sei que não é permanente, mas sinto como se estivesse no primeiro dia de aula, quando não entendia a inconstância das coisas. Vou à praia. Vou à praia. A ansiedade toma conta quando a ficha cai, mas não que nem antes. Há um sabor diferente, mais…suave. A ansiedade aumenta com as batidas na porta. Minha mão sufoca a alça da mala.

 

Em pelos de águia

Gabriela Guaragna

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

Porto Alegre, 16/05/2018

 

Passou pelo portão de embarque, segurando firme entre os dedos a passagem, a borrachinha de cabelo e a carteira de identidade. Ganhou tempo na espera. Descalçou-se. Tirou o cinto que segurava a respiração. Os pertences no raio-x; ela no detector de metais. Detectores metais?

Cruzou o saguão a sós. Pela primeira vez, desacompanhada. Como se estivesse morta, aguardava a própria aterrissagem em si. Segurava firme entre os dedos a passagem, a borrachinha de cabelo, a identidade, o suor. Havia um mar inteiro escorrendo entre os dedos. Tinha medo. De perder a prisão dos cabelos e das respirações. Segurava-se firme, com medo de esquecer-se ao adentrar a águia mecânica.

Lá de cima, viu o sol pintar o infinito de laranja. Foi com o ele se pondo sob as nuvens que ela se pôs junto. Com ele, encontrou a passagem, soltou a identidade, tornou-se águia. Voou.

________________________________________

Turmas de Maio, 2018 dos Estudos em Escrita Criativa – Recife e Porto Alegre:

 

IMG_7869

IMG_7874

Próximos encontros:

Cartaz A3

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre

“BIUTIFUL” (de Alejandro González-Iñarritu)* | por Flávia Suassuna**

O filme “Biutiful”, de Iñarritu, é uma metáfora do humano; é a história de Uxbal, um homem que carrega todas as injunções de um homem – é bom e mau; erra e acerta; tem medos e coragens; ama e odeia; acredita e duvida; tem dons e faltas; sabe e ignora; explora e é explorado; tem culpas e perdões; é doce e violento; se comove com a injustiça e é um elo da corrente interminável de explorações do homem pelo homem; manda e desmanda; é amado e odiado; é forte e vulnerável; foi ceifado pela morte, como todos foram ou serão…

Uxbal é, portanto, uma metonímia – um homem que simboliza todos os outros no percurso da confusa existência material. Sua história se passa numa Barcelona estranha, talvez porque é uma outra e periférica cidade, não a que nos acostumamos a achar bonita ou digna de cartões postais: prédios decadentes, guindastes, apartamentos aos pedaços, entulhados de coisas velhas, ruas e calçadas esburacadas, moradores de rua, camelôs… fazem do cenário uma favela, palavra que resume, mais ou menos, aquela tragédia social. Logo nas primeiras cenas, somos informados de que Uxbal tem câncer e apenas dois meses de vida. E a narrativa é o retrato de seu desespero para ajeitar tudo antes de partir. Ele tem dois filhos, uma ex-esposa tão instável que não pode cuidar deles, um irmão que o trai e em cujos olhos nem consegue olhar e uma profissão que também é desestruturante: ele conecta duas pontas podres de atividades entre ilícitas e criminosas – entrega a imigrantes ilegais senegaleses CDs piratas e bolsas produzidas por imigrantes chineses também ilegais para serem vendidos nas calçadas, inicialmente, e, em seguida, agencia mão de obra escrava ou quase escrava (se é que se pode diferenciar os dois conceitos) para a construção civil. Tudo isso temperado com corrupção policial, uma pitada de tráfico de drogas e muita, muita injustiça. E muita, muita pobreza.

É claro que, na cegueira materialista em que vive, Uxbal pensa que juntar dinheiro é o que tem que ser feito, e suas ações nessa direção terminam por levá-lo ao fundo do pior abismo em que uma pessoa pode entrar. Sob o olhar atônito do espectador, o filme desenrola-se, de horror em horror, numa sequência crescente de conflitos, morte, assassinato, culminando num chacina inominável, perpetrada, direta ou indiretamente, por ele e que, por sua vez, se desdobra em mais e mais abjetas consequências. Acho que, de várias maneiras, “Biutiful” lembra “Coração das trevas”, de Joseph Conrad, e seu espelho, o filme “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola. “Coração das trevas” é o melhor livro de Conrad. Publicado entre o final do século XIX e o começo do século XX, é uma narrativa, ambientada na África, que denuncia o engodo do Neocolonialismo europeu. Marlow, o narrador, mergulha nos meandros da selva do Congo e nas perversões mais profundas do projeto de exploração colonial, passando do enaltecimento da cruzada civilizatória inglesa para a verificação dos objetivos meramente econômicos e de dominação imperialista: exploração de fraquezas, trabalhos forçados, coerção, opressão, massacre, escravidão, desumanização, ruptura de laços sociais, preconceito… numa narrativa, ao mesmo tempo, imperialista e anti-imperialista. “Apocalypse now”, de 1979, transporta esse enredo para a Guerra do Vietnã e troca os interesses coloniais pela luta pelo poder mundial. Menos sutil, Coppola descortina a vantagem do dominador e, portanto, a injustiça e a crueldade daquela invasão, que mudou para sempre nossas relações com as guerras.

Rio acima, as palavras de um ou as imagens do outro relatam uma cadeia de horrores, enganos, fraudes… A lentidão do relato é em si uma crueldade contra os leitores ou espectadores. Busca-se alguém que se degenerou em qualquer coisa, exceto um homem. Navegar, portanto, é como viajar no tempo e voltar ao selvagem que o ser humano já foi; é constatar a fragilidade da civilização…

Em “Biutiful”, as trevas transferem-se da periferia do mundo para o coração da Europa. Sem o rio, segue-se a trajetória do protagonista pelas ruas de uma cidade europeia – qualquer uma – onde ainda estão presentes os fantasmas do processo colonial, até porque eles estão dentro do homem, que os carrega consigo em todos os tempos e lugares. Um lugar no fundo da selva ou os subterrâneos de uma cidade, na verdade, é a própria natureza humana, e o percurso que se faz é de corajosa prospecção ontológica; daí certa identificação espelhar: os narradores se identificam com o abominável ou é possível entender as trevas, que são apenas sugeridas. A selvageria não pertence apenas aos selvagens, mas a todos. E reside no interior, no porão.

O espectador de “Biutiful” entende e até perdoa Uxbal, pois reconhece que talvez fizesse o mesmo se fosse colocado na mesma situação.

Essa complacência inclui até o fato de que o personagem não segue as orientações de sua mentora, ou seja, a contemporaneidade é surda aos apelos do espírito. E segue, bruta, na gratificação sem limites dos desejos individuais e materiais, nas palavras do próprio Conrad.

Nas três histórias, porém, há uma narração invisível, quase – encarar tudo isso, de resto, resulta em autoconhecimento e só se transforma… entende… perdoa… ultrapassa… vence… sei lá… o que se conhece…

Aquela última imagem branca de neve e biutiful, que dá nome ao filme, é como sair da caverna; das sombras; dos porões imundos; do coração das trevas, não exteriores, como diz a Bíblia, mas interiores; das prisões da matéria e, enfim, seguir, com os nossos, em direção à paz e ao riso, deixando para trás essa cilada labiríntica que é a estadia material.

________________________________

* Texto lido por Flávia Suassuna no III Encontro dos Estudos em Escrita Criativa de Recife, temática A viagem, em 12/05/2018.

** Flávia Suassuna é professora de literatura, escritora, mestre em teoria da literatura pela UFPE; autora de 6 livros – “Jogo de trevas” e “Remissão ao silêncio” (romances), “Trança, primeiro fio” (poesia), “Trança, segundo fio” (crônicas), “Trança, terceiro fio” (resenhas) e “Poesia em cena” (organização de poemas com comentários para uma antologia didática). Contato: flavia_suassuna@hotmail.com

Estudos em Escrita Criativa – Recife e Porto Alegre – Abril, 2018

IMG_7638

IMG_7743

IMG_7759

 

De 1902 a 1907, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, reunia, nas quartas-feiras à noite, em sua residência na Berggasse, 19, discípulos, pares, educadores, intelectuais, tais como Otto Rank, Alfred Adler, Max Graf, Wilhelm Stekel e Max Kahane. Este grupo cresceu e deu origem à Sociedade (Associação) de Psicanálise de Viena.

Nesta quarta 25/04/2018, sob as bênçãos de um dos baluartes da Escrita Criativa do país, o escritor e professor da PUCRS Luiz Antonio de Assis Brasil, inauguramos uma ponte entre duas das cidades mais ricas em escritores: após os dois encontros em Recife, tivemos o primeiro encontro dos nossos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre.

Como havíamos imaginado, a busca por cursos no formato dos EEC’s superaram nossas expectativas e nos animaram a continuar no caminho dos teóricos de várias áreas de conhecimento e artistas de outras artes relacionados a cada tema, do exercício prático provocado, iluminado pela teoria, e dos testemunhos de escritores locais sobre seus processos criativos.

Trazemos para o nosso blog neste post alguns exemplos de textos dos participantes das duas cidades.

E, quem sabe, formemos, em um futuro breve, a Sociedade Brasileira de Escrita Criativa?

Agradeço o carinho e a força de cada participante, escritores e escritoras convidados, grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

__________________________________

 

DITIRAMBO PARA O RENASCIDO

Antonio Aílton

Contato: ailtonpoiesis@gmail.com

 

 

Noite após noite me despedaço

e desespero, desmembrado

como um copo de vinho que serve ao

desregramento

e depois se quebra no cimento

vaza no tempo, para um tempo

antes de mim

Ali na rua há um lamento

e me pergunto

se sou vítima ou assassino

se sou o lance sem jogo do mendigo

Há uma lua, mas o que todos vêem

senão o sangue antigo? E no entanto

eu não seria

se não pudesse renascer, mesmo

quando lixo, cão mordido

Em breve estarei inteiro

para enfrentar o carro de Apolo

junto com as abelhas, as mulheres

os campos, os girassóis

Eu, taça reerguida quando vinho

e mosto renascido

− Dioniso

 

 

[Desafio 15min]

II Encontro dos Estudos em Escrita Criativa

Recife – PE, 07 de abril de 2018

 

NA FLOR DA VAIDADE

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

 

Olhei nas águas límpidas daquele rio. Minha haste envergou um pouco. Contorcidamente descobri não ser mais aquela… Meu Deus! Uma simples margarida presa à terra, subjugada a uma condição inusitada, enraizada! Aprisionada no tempo e no espaço, tudo por conta do orgulho…

Desejei ser algo mais, muito maior que Deus, que os outros? Encantei-me com a cantiga maviosa do mundo dizendo ser eu tão especial… Agora, na simplicidade da flor, na maturidade da vida, despetalo-me toda.

Logo, descubro que o exercício da escrita fez-me voltar a quem sou e posso repensar sobre a vaidade. Sair um pouco do foco do espelho, voltando a ser no mundo uma simples flor.

 

Recife, 7 de abril de 2018.

 

SALOMÉ

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

Mãe!

Tu me pedes, me imploras

Uma dança para o Rei.

Queres que, com meus encantos

O conquiste para ti.

Queres que eu ajude

A tirar do mapa Batista.

 

Bem sabes que

Com minha dança

Ele, o Rei,  que já rodeia meus passos

Será meu em definitivo

E a cabeça do Batista

Não te trará de volta

Um amor que será meu.

 

Mas, tenho em mim a chave

Que abrirá  as portas desta prisão

Minha vingança será maior…

Cada véu que retirar do meu corpo

Será a corda

Que tirará Herodes, deste mundo.

E finalmente dançarei…

Para o Batista,

Que já ocupa minha alma.

Para o Batista,

Que não se deixa seduzir.

Batista, cuja alma etérea flutua no espaço

E me conduzirá enfim

Para o caminho de volta a mim mesma.

 

Qual Medéia às avessas

Engolirei as tramas da minha mãe,

Através da minha própria trama saturnina.

Reinarei noutro reino diferente do teu,

Tirarei, não tua vida

Tirarei de ti a morte

Que não pode roubar a minha vida.

 

Recife, 07/04/2018

 

Gabi Vieira

Recife, 07/04/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Todas as crianças crescem, menos uma.

E todas as crianças ouvem essa mesma história, quando ainda deixam a janela destrancada na esperança de que um menino sapeca e sorridente venha buscá-las e levá-las para o lar de seus sonhos, voando nas costas do vento.

E, muito provavelmente, todas essas crianças desejam ser como ele, livres para voar com as fadas, nadar com as sereias, dançar com os peles-vermelhas ou enfrentar piratas. Livres para viver na Terra do Nunca, acompanhando os Meninos Perdidos em incontáveis aventuras.

Afinal, que criança nunca sonhou em ser Peter Pan?

Fugir das obrigações, da escola, das exigências dos pais e, principalmente, do medo de tornar-se um adulto, esquecendo-se do como voar. Porque, quando se cresce, se esquece do como voar. Adultos não têm a alegria, nem a inocência das crianças. Nem se quisessem, poderiam alçar voo.

Porém, não posso deixar de me questionar, a quase adulta que sou, do modo que já fez J. M. Barrie, se o próprio Peter não desejava ser como as outras crianças, as crianças comuns. Ele possui alegrias que essas crianças nunca poderiam ter, mas, ao observá-las no cantinho da janela de seus quartos, enquanto eles brincam com o pai ou são postos para dormir pela mãe com beijos e abraços, observa também a única alegria que nunca poderá ter.

Mesmo assim, ele volta para casa, acompanhado da fiel amiga Sininho, voando com o vento e deixando um rastro de risada por onde passa, como faz a cauda das estrelas cadentes.

Porque todas as crianças crescem.
Menos uma.

 

Giliard Barbosa

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: barbosagiliard@gmail.com

 

Onde estás, criança?

 

Carrego comigo teu cesto vazio

As uvas que sorverias

Ácidas estão

 

Onde estás, criança?

 

A areia da praia a demarcar teus passos

A água marinha a irmanar feridas

 

Onde estás, criança?

 

De meu próprio barro dei-te forma e luz

Das dores profanas és a mais contumaz

 

Onde estás, criança?

 

Raízes formei em meio às dunas

O vento já leva o que de ti ficou…

 

Onde estás, criança?

 

Um lago se forma onde nos perdemos

A rosa dos ventos parou de girar

 

Onde estás, criança?

 

Já não há mais remos nas águas do tempo

Já não há areia que deseje o mar…

 

Onde estás, criança?

 

Perdi-me no tempo a mirar espelhos

Perdi-me de ti, perdi-me do mar…

 

Onde estás, criança?

Onde estou?

 

Ina Melo

Recife, 07/04/2018

Contato: ina.melo2016@gmail.com

 

Ao criar o mundo, Deus ante toda aquela grandeza, vislumbrou ao seu redor e sentiu-se só. Até para Ele o silêncio e a solidão sufocavam.  Mesmo vibrando com o cantar dos pássaros, o ruído das selvas e o silvar dos ventos, faltava a palavra – uma voz! Então, no imaginário masculino, arrancou de Si uma costela e criou Eva. Linda, pura e falante. Agora não mais era um, porém dois. Deixou-os donos do Paraíso.  O amor surgiu das pequenas fagulhas de fogo que ardiam nas cinzas. Mas Eva descobriu a vaidade vendo a  sua imagem refletida nas águas transparentes. Depois encontrou o sonho e dele se embriagou. Via as borboletas e quis voar. Conhecer o néctar das novas flores. Mergulhar em mares bravios! E assim foi se afastando do amado. Esqueceu de que, para ser feliz, teria que compartilhar emoções.  Foi quando o Paraíso escureceu e o céu começou a lançar raios de fogo gritando forte, estremecendo árvores. Águas inundaram os prados. Eva procurou abrigo nos braços do amado e não o encontrou. Tremeu de medo.  Inquietou-se. Correu debaixo da tempestade e foi para o mais alto rochedo e lá abrindo os braços respirou e com asas de plumas voou. Primeiro não encontrou nada diferente. O mundo era igual e o mar também.  Quando não era dia, era noite. A mulher Ícaro viu que o sonho não existia, era apenas poesia!

1523195949640-1859548090

 

 

VOAR… VOAR…

João Orlando Alves

(Membro da UBE-PE)

Recife, 07/04/2018

Contato: joaoorlandoalves@yahoo.com.br

 

“Um pouco de persistência e esforço e o que seria um

retumbante fracasso vira um glorioso sucesso”

(Elbert Hubrard – Escritor Americano)

 

O grande momento da criação externa-se quando o hábil executor em movimentos à busca da perfeição, de súbito, por um acaso ou gesto imperfeito, a arte se pronuncia em toda beleza, exprimindo um querer que estava oculto.

Na aventura de Ícaro olvidou-se do martelar insistente que trabalha a forma da existência da obra. O dar asas à imaginação envolve um “estalo” espiritual que compreende uma produção sublime com mistérios e marcas do tempo.

Faltou a Ícaro, sem ouvir o canto da sereia, transmudar-se num pássaro ou no homem de aço e exercitar o sonho do gênero humano.

Encantar-se com as aves, dominando os céus, não basta, urge descobrir-se inteirado no projeto do desejo; deixar-se encontrar como no retrogosto de um trago de bebida que se assoma com essencialidade.

O voo desse vivente fora eterno enquanto durou o sonho; ousar é recomendado, mas a escolha recaindo no tempo enquanto tempo de amar.

 

Luciana Beirão de Almeida

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

Espelho, espelho meu,

Quem é mais lindo do que eu?

 

Inquieto,

me debruço sobre a água.

 

Silêncio…

 

A imagem tortuosa não é bem o que eu imaginava.

Jogo uma pedrinha na superfície,

que afunda.

 

Círculos movimentando a imagem,

como quebra-cabeça.

 

Em partes.

 

Facelado.

 

Sequelado.

 

Olho ao redor da imagem daquele rosto

agora já não tão bonito…

e vejo a natureza.

 

Interagindo forte,

bonita,

inteira.

 

Esta sim, em conjunto com a minha imagem, forma uma beleza única. Completa. Viva.

Me levanto e vou aproveitar aquele belo momento, pleno, que me transmite paz.

 

 

SOU PÁSSARO

Monique Becher

Recife, 07/04/2018

Ícaro - Monique

 

O amor se apodera do meu ser qual luz do sol ou piscar de estrelas.
De tão natural, sinto-me singela,
translúcida.
Minha cabeça levita.
Delicio-me com este sentimento
mitológico dos seres felizes.
Sou esvoaçante qual Ícaro.
Minhas asas diáfanas conduzem-me ao etéreo.
Sou possibilidades.
Multiplico-me.
Alço voos inimagináveis.
Vivo amores perfeitos.
Conduzo-os ao infinito do
horizonte.
Minhas vestes translúcidas
r o d o p i a m .
Seguem as curvas do vento
num b a i l a d o  m á g i c o
regido pelo s u s s u r r o
das palavras
Voláteis
E   N   A   M   O   R   A   D   A   S
Esta musicalidade me fascina.
Paira no espaço.
E  T E  R  N  I  Z A – SE  …
No meu SER.
Os segredos dos pássaros livres
proclamam a independência.
S O U   P Á S S A R O !!!
Decifro os enigmas humanos.
Fito o horizonte.
V I S L U M B R O   D   E   U   S
Fujo de mim mesma.
Encontro-me no reino mágico
do reflexo
do meu espelho
VITAL.

 

 

Rodrigo Ribeiro

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: digocr@gmail.com

 

Édipo briga com o homem na estrada, mas na iminência de matá-lo lembra da esfinge, enxerga o destino prestes a acontecer e conclui que aquele só pode ser seu pai. Se conciliam. O pai, agradecido por ser poupado e vendo-se mais velho, resolve exilar-se nas montanhas para sempre, a fim de evitar a tragédia.

 

Da mesma forma, ao querer casar com a mãe, identifica-a justamente por reconhecer a premonição. Desistem do casamento.
Mesmo com o pai longe, Édipo vive transtornado por saber que não poderá contrariar a esfinge: um dia irá matá-lo. Está sempre atormentado sobre como isso acontecerá, medindo todos os passos, sentindo angústia insuportável. Para se libertar desta prisão mental, manda matar logo o pai.
Em vez do alívio que desejava, agora ele passa a estar perturbado pela ação hedionda que tomou, e se torna uma pessoa ruim. Por ganância, quer ser rei, mas as pessoas não acreditam que ele é filho da rainha. Então, para ter poder e fortuna, casa-se com a mãe.

 

Sala de imprensa:

FullSizeRender

Diário de Pernambuco, Opinião, 19/04/2018

IMG_7782

Diário de Pernambuco – Viver – 23/04/2018

Próximos encontros:

Cartaz A3

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre