Posts com Cartas

Índex* – Novembro, 2017

De Arabella

Se aproxima

O fim da sua estória

O fim da narração 

Em terceira pessoa 

Que ficcionaliza

A vida do autor

*

A morte do autor

Está em cada linha

Está em cada palavra

Contada

Narrada

Derramada

Na tela do computador 

Nas letras do teclado

Que protegem o eu

Do outro

E permitem imaginar

E concedem aproximar

O fim de uma estória 

À bordo de um avião

(“Arabella em apuro”, Patricia Gonçalves Tenório, 10/11/2017, 06h50)

 

O fim de uma estória, o fim de um ciclo e início de outro no Índex de Novembro, 2017 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Poemas de Viagem | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

“A menina do olho verde” na Itália | Patricia Gonçalves Tenório.

Ewa Lipska (Pologne) & Krzyztof Siwczyk (Pologne) | Traduits par Isabelle Macor (France).

“Il Viaggio della Memoria” | M. Rosario Franco (Italia).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Novembro, 2017 & 2018.

E o link do mês: Clauder Arcanjo (RN – Brasil) e Alfredo Pérez  Alencart  (Salamanca, Espanha) em www.salamancartvaldia.es/not/164590/desde-lisboa-mossoro-dedican-poemas-salmantino-anibal-nunez/

 

Agradeço a atenção e carinho de sempre, a próxima postagem será em 31 de Dezembro de 2017, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – November, 2017

From Arabella

Get closer

The end of her story

The end of the narration

In third person

That fictionalizes

The life of the author

 *

The author’s death

It’s on every line

It’s in every word

Told

Narrated

Spilled

On the computer screen

In the letters of the keyboard

Who protect the self

From the other

And they let imagine

And they allow approach

The end of a story

Aboard an airplane

(“Arabella in style”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/10/2017, 06:50 a.m.)

 

 

The end of a story, the end of one cycle and beginning of another in the Index of November, 2017 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Travel Poems | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

“The girl with the green eye” in Italy | Patricia Gonçalves Tenório.

Ewa Lipska (Poland) & Krzyztof Siwczyk (Poland) | Translated by Isabelle Macor (France).

“Il Viaggio della Memoria” | M. Rosario Franco (Italy).

Group of Studies on Creative Writing – November, 2017 & 2018.

And the link of the month: Clauder Arcanjo (RN – Brasil) Clauder Arcanjo (RN – Brasil) and Alfredo Pérez  Alencart  (Salamanca, Spain) on www.salamancartvaldia.es/not/164590/desde-lisboa-mossoro-dedican-poemas-salmantino-anibal-nunez/

 

Thank you for the attention and affection of always, the next post will be on December 31, 2017, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O fim de um ciclo e início de outro. The end of one cycle and beginning of another. 

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Novembro, 2017 & 2018

O nono encontro de 2017 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa foi muito especial.

Foi especial, porque investigamos as estórias que já nos contaram e agora contamos de maneira diferente, imprimimos a nossa própria voz.

Foi especial, porque, como Teoria, utilizamos os “Cinco tipos de transtextualidades, dentre os quais a hipertextualidade” dos Palimpsestos: a literatura de segunda mão (1989), do crítico literário e teórico da literatura francês, nascido em Paris, Gérard Genette (1930)…

“A transtextualidade ultrapassa então e inclui a arquitextualidade, e alguns outros tipos de relações transtextuais, das quais uma única nos ocupará diretamente aqui, mas das quais é preciso inicialmente, apenas para delimitar o campo, estabelecer uma (nova) lista, que corre um sério risco, por sua vez, de não ser exaustiva, nem definitiva.” (GENETTE, 1989, p. 13-14)

… e aplicamos na Criação de uma “Ficção a partir de uma Ficção”, ou como apreendi na disciplina Literatura e Linguagem Digital ministrada pelo Prof. Bernardo Bueno no PPGL em Escrita Criativa da PUCRS, uma “Fanfiction”. Utilizamos como exemplo a Fanfiction apresentada neste blog em Outubro, 2017:

http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7565

 

Foi especial, porque último encontro do GEEC na minha residência.

O Grupo de Estudos em Escrita Criativa nasceu em Agosto, 2016 com o objetivo de, através do estudo dos grandes teóricos da Literatura e outras Artes (Fotografia, Cinema, Artes Plásticas), e diversas Áreas de Conhecimento (Filosofia, Sociologia, Psicanálise), estimular a Criação de Contos, Poemas, Romances.

Agosto, 2016: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6788

Setembro, 2016: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6829

Outubro, 2016: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6924

Novembro, 2016: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6990

Dezembro, 2016: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7049

Março, 2017: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7287

Abril, 2017: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7368

Maio, 2017: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7444

Junho, 2017: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7496

Julho, 2017: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7553

Agosto, 2017: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7595

Setembro, 2017: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7663

Graças ao Grupo, surgiu a ideia do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco durante a XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, e, com o Seminário, a antologia de artigos dos participantes Sobre a escrita criativa.

http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7683

A partir de Março, 2018, todo segundo sábado do mês, teremos 01 encontro de 03 horas, a princípio, na Livraria Cultura do Paço Alfândega, em Recife – PE, com o objetivo de se estender para outras paragens do Brasil. Nos moldes dos encontros que ocorriam em minha residência, iremos ampliar para o grande público. Foi uma experiência muito gratificante no I Seminário a construção de 22 textos dos participantes, demonstrando a grande demanda por eventos nessa área da Escrita Criativa, e com o formato do GEEC.

Outubro, 2017: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7694

As inscrições estão abertas com maiores informações no grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com. As vagas são limitadas para dar maior e melhor atenção para cada participante. Os interessados devem enviar:

– Uma pequena biografia com dados de contato (Nome completo, Telefone, E-mail, Formação);

– 1 ou 2 contos/poesias;

– Por que se interessa em participar do Grupo de Estudos em Escrita Criativa?

E boa leitura das Fanfictions das minhas tão queridíssimas alunas!

 

Patricia Gonçalves Tenório*.

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Referências:

GENETTE, Gérard. Cinco tipos de transtextualidade, dentre os quais a hipertextualidade. Algumas precauções. In Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Tradução: Luciene Guimarães e Maria Antônia Ramos Coutinho.

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Bernadete Bruto**

 

O legado de MOGLI

Foto 1 Berna 

 

Estava ali na divisória entre um bairro e outro. Do bairro das Graças onde viveu até agora, já vislumbra o bairro vizinho da fronteira…o Bairro do Espinheiro. Está com 8 anos.. A terrível morte “Sere Kan” já assolara aquele povo e a família lobo estava de luto…assim como o coração de Mogli. O grande pai Lobo fora se encontrar com seus ancestrais na Índia.

Foto 2 Berna

 

Mogli nasceu na família Raposo que era parente dos Lobos. Ele sempre soube que era diferente dos Lobos, apesar de ser parente… E quando junto aos Raposo, ele sabe que também é Lobo… Essas famílias se intercruzaram.  Na realidade seu nome é MOGLI LOBO RAPOSO. E estava na casa dos RAPOSO LOBO. Por isso a confusão na sua cabecinha de criança. E naquele ano, em particular, quando Mogli nasceu, foi o período difícil para um lar cheio de filhos e Mogli precisou sair ainda bebê e ser emprestado aos parentes Lobo, para receber os cuidados necessários. Já havia 10 raposinhas precisando de cuidados e chegaria em breve outro! Mamãe Raposo, as raposinhas maiores e Tia Kaa não podiam cuidar deste bebe…Tia Baguera Lobo poderia! Suas lobinhas, lobinhos estavam maiores na época e um bebê seria muito gostoso para um lar que amava crianças.

Foto 3 Berna

Foto 4 Berna

Na fronteira ele relembra. Sempre soube quem era e para onde devia ir, voltar, mas faltava coragem, vivendo naquele local tão cheio de graça, sob proteção de sua Tia Baguera e sua prima Balu. Pois naquele ninho, a vida era um conto de fadas cheio de livros e arte e calor humano.

Naquele tempo, Mogli se dividia entre uma casa e outra, estudava na mesma escola do bairro da Capunga, onde lá todos se misturavam e se misturavam nas férias na casa de praia em Olinda, e se misturavam nos aniversários. Mas sempre Mogli voltava ao seio dos Lobos e se sentia em casa no acolhimento amoroso daquela família.

Foto 5 Berna

Mogli agora na esquina da vida olha para trás e vê as duas, Tia Baguera e Balu, do seu canto acenando e dizendo volte sempre! Você tem um lugar aqui. E em nosso coração.

ELE receosamente voltará para os Raposos e pressente que enfrentará provas naquele bando de gente de todo tipo e tamanho, convivendo profundamente. É um clã imenso liderado pelo SR Raposo. Muitas provas Mogli passará….tia Kaa estará por lá com seu olhão lhe dizendo coisas muito duras que um menino naquela idade não consegue ainda entender. Também haverá ocasiões nas quais os Raposos e Raposas agirão como macacos loucos, até Mogli conseguir encontrar o seu lugar naquela casa. Dona Raposo será seu elo de ligação, com paciência tangendo Mogli para junto dos Raposinhos. Com ela e as irmãs Raposas ele também se conectará com a arte, isso irá ajudar muito no futuro ainda mais distante.

Foto 6 Berna

Na fronteira entre os bairros, com os olhos anuviados da perda, Mogli ainda não sabe que em outras ocasiões essa sua experiência lhe renderá belos frutos. Em passos acanhados, mas decididos, dirige-se ao Espinheiro, para o seu lugar naquela casa e, no futuro, para o seu lugar no mundo, após enfrentar todos espinheiros que a vida lhe trará na maturidade. Com apenas esse passo de hoje, no futuro Mogli compreenderá o que disse certa vez Rudyard Kipling(*) em seu famoso poema IF (SE):

 

(…)

                           Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

 

                                               (…)

 

                        Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!

 

 

Recife, 26 de Outubro de 2017.

 

Elba Lins***

 

Cedinho naveguei do mar em direção àquele rio. Não sei qual a razão dele ser conhecido como Rio de Janeiro. Suas águas claras e brilhantes trazem até mim a sensação de paz, de beleza, de algo mágico que não encontramos em todos os lugares. Suas águas ficam próximas ao mar; apenas uma larga faixa de areia de cor perolada separa o lugar mágico, do oceano – onde vivo com os seres semelhantes a mim. O rio me encanta. Nem mesmo o mar onde vivo desde que nasci me traz a sensação que encontro quando o percorro e atinjo suas partes mais profundas.

Hoje ao chegar, desci rapidamente para as profundezas, normalmente desertas. Me encanta aquela cidade submersa e abandonada há muitos milênios, que como diz a lenda foi a terra de lindas moças morenas que amavam o mar e o sol em um tempo em que as pessoas ainda precisavam estar na superfície para poder respirar.

No Rio já tenho um destino certo, não sei porque, mas os meus braços-nadadeiras me levam como um autômato para determinada casa onde sensações especiais tomam conta de minha alma, sensações que não sei identificar, nunca senti  e nem ouvi de ninguém um sentimento como este. Na minha família – cardúmica, mesmo dotados de alma e com sentimentos que nos levam a pensar no outro –, o convencional após certa idade é   passarmos alguns anos com um espécime masculino para termos filhos. Logo após este período os anciões nos direcionam a um novo relacionamento a fim de perpetuar a família. Há algum tempo algo de muito estranho acontece  comigo e esta mudança tem conexão direta com o início de minhas viagens ao fundo do rio e com o tempo que permaneço na casa que me fascina.

Cada vez que vou até a casa, passo horas inteiras tentando decifrar antigos papéis preservados, cujos estranhos rabiscos, que não sei o que significam, mas só me fazem pensar no Chico Peixe. É uma sensação tão estranha e tão gostosa que me dá vontade de estar sempre com ele, mesmo após o período de incubação. Quero sentir minhas escamas roçando as suas, minhas guelras sugando seu beijo, me aninhando inteira junto a ele. Sinto  como se aqueles símbolos e aquele som que insiste em vibrar no fundo do rio me levasse para outra dimensão, para outro tempo em que eu precisava respirar, uma época remota em que meus pés passeavam na beira de uma praia e me levavam correndo para encontrar o Chico e suas lindas  palavras, que encantavam a todos. É como se um sentimento que não sei definir e que não é meu na sua origem, chegasse de muito, muito tempo atrás, apenas para me ligar ao Chico Peixe. Sinto que os “futuros amantes, quiçá se amarão, sem saber com o amor” deixado no éter para outra que não era eu… vindo de outro Chico que não era o Peixe.

 

(DE ONDE VEM ESTE AMOR?

ELBA LINS 15.11.2017

Ouvindo a música “Futuros Amantes”, de Chico  Buarque)

 

 

Talita Bruto*****

 

Carta Aberta

 

Antes, Pai,

 

Escrevi um inventário que pudesse re-mover o concreto desta consciência. Pois sempre busquei as origens até das causas originais. A origem guarda. Haveria quem dissesse. Das nossas adversidades e elas como muros, fantásticas e verossímeis. Num mesmo espaço, matérias diferentes ocupando uma suspensão imaginária, difícil de alcançar. Muito além das leis físicas humanas. Gosto de ir, além…pensá-las como maravilhosas, cumprem com seu papel destinado pelo que é Divino. Instantes locomovem-se fatais. Ex machina. Cabe ressaltar a isso minha natureza vunerável, estarrecedora e humana, profundamente. Eis minhas motivações. Experenciar o conhecimento para torná-lo prático.

 

“E quem será
Nos arredores do amor que vai saber reparar que o dia nasceu”

 

Portanto, escrevo ao senhor. Torno de repente à realidade e abstraio a paisagem, isto é, aquilo que alcança o buraco negro dos meus olhos desmodalizados. Sou aquilo que tem ar de intrínseco. Esse céu azul límpido. Não fede, não cheira, não desmorona, pois que no há umidade. Flutua. Esse tal ar que apreende entre si, eco. E continua vibrando nos nossos ossos. Coisa forte e mesmo, quebradiça.

Sei que peguei do senhor a característica de fugidio, encara de frente mas quase não examina, perquere quase nunca, indaga, existe quase só como telespectador. E essa foi uma das ‘virtudes’. Causadora em mim, dos meus hábitos – achados hoje – inalienáveis, não me vejo sendo objetiva o bastante para chegar à conclusão proposital desta carta.

Meus problemas começaram quando se foram – os conhecidos.

 

“Sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar”

 

É muito cliché e pragmático acreditar nos outros como os responsáveis pelas minhas ausências. Contrariamente, nunca tive medo disso. No entanto, encontrei-o algumas vezes. Como bem, a caminho da beira mar numa boa viagem, as garças voavam em grupo.

Tranco automaticamente as portas, carro ligado, chave na ignição, e o conhecimento teórico habilitado. Sou passageira. Poderia deixar o senhor. Mais que meus instintos as crenças não se deixam levar. Então vamos juntos. Sinto que a noção de coletividade há muito havia nos deixado e nem de lado estávamos, aquém. As dificuldades que eram os ossos abrindo armadilhas para se expandir conjuntamente às águas que sorviam da minha pele, feriam e saravam. Meandros. Ardia com o sal que salvava a corrupção dos meus sentidos. Vá, pai, não estamos de brincadeira.

Numa linha reta vejo que o senhor traça velocidades, sempre querendo escapar dos buracos, para que os pneus não furem. Fica a dúvida. Se a embreagem deve ser o lugar de troca entre o acelerador e o freio, como usar? Paro. Vou. Saio. Vôo. Pontos finais, vírgulas, estou dirigindo um meio termo de saber,dor,ia embora. Estar aqui é voltar aos dias que tocava as miúdas mãos de uma garotinha no nascer sem angústia tristeza receio que o senhor não esteja me entendendo. Sinto muito.

 

“Só eu sei as esquinas por que passei.”

 

Sol se maturando, cíclico, dia, tarde. Voltamos para beira do rio. A nascente da foz. Em meio ao quase mar que enfim, era turvo, sujo, morto, vivo. E meu pai, tentando. Primeiro vislumbre de um homem que busca ser marechal na vida. A cinquenta e quatro quilômetros por segundo quer me acompanhar nos meus vinte. Discrepância. Mas é bonito. O capibaribe nos perseguia sem obsessão. Momento. Nós rimos das nossas palhaçadinhas, novelas, festas. Pois fomos tudo isso em tão pouco tempo. Doo meus braços para os seus. Sou um bebê nesse minuto. “Não vou te abandonar”. Me observa com doçura. Sem acidente, chegamos. Ninguém dormiu de novo ao volante. Copiosamente reescrevo nos seus lábios o que sai dos meus dedos. “Eu te amo, minha filha, até à manhã”.

Agora todos os medos dizem, em frente, não se preocupe.

Querido pai, numa noite li um livro de conselhos, falava disso.

 

“O senhor é tão jovem, tem diante de si todo começo, e eu gostaria de lhe pedir da melhor maneira que posso, meu caro, para ter paciência em relação a tudo que não está resolvido em seu coração.”

 

 

Referências:

Cartas a um jovem poeta. Rainer Maria Rilke. Tradução: Paulo Rónal e Cecília Meirelles. São Paulo: Globo, (1953 in) 2001.

Esquinas. Djavan. 1984.

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* Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa; Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão, e recebeu o Primo Premio Assoluto, pela Accademia Internazionale Il Convívio na Itália (2017). Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Doutoranda em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, sob a orientação de Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

 

** Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é Bacharel e Licenciada em Sociologia, com Especializações na Área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É Analista de Gestão do Metro do Recife e Poeta Performática. Membro da União Brasileira de Escritores-UBE, da Associação do Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa de grupos como a Confraria das Artes e Grupo de Estudos em Escrita Criativa. Tem três livros publicados, todas coletâneas de poesias: Pura Impressão (2008), Um Coração de Canta (2011) e Querido Diário Peregrino (2014), participação em antologias, assim como diversas apresentações poéticas e performáticas. Lança na Bienal A menina e a árvore (Novoestilo). Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

 

*** Elba Lins (Monteiro/PB, 1957) é formada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1979), fez MBA em Gestão de Negócios (EAD) pela PUC-PR. Trabalhou durante 34 anos na área de Telecomunicações da CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco). Atualmente aposentada, dedica-se à escrita. Fez curso de Contação de Histórias no Zumbaiar (Recife). Faz poesias e há um ano participa do GEEC – Grupo de Estudos em Escrita Criativa, sob a coordenação de Patricia Tenório. DO OUTRO LADO DO ESPELHO – O feminino em estado de poesia (2017) é seu primeiro livro. Contatos: elbalins@gmail.com

 

**** Luisa Bérard (Maceió/AL, 1975). O romance Nas montanhas do Marrocos é o livro que marca a estreia da alagoana Luisa Bérard no mundo literário. Participa desde 2017 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa, coordenado por Patricia Tenório. Graduada em Direito pela Universidade Federal de Alagoas, atualmente trabalha como advogada e reside em Recife, no estado brasileiro de Pernambuco. Contatos: luisaberard@gmail.com

 

***** Talita Bruto é natural de Recife/PE, nascida em 1997, e graduanda em Letras Bacharelado com ênfase em estudos literários pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).  Algumas das áreas ambientadas na literatura pelas quais nutre interesses são o hermetismo, a psicanálise, as teorias da recepção, do efeito estético, da narrativa.  Além disso, participa atualmente, como aluna, de alguns grupos de estudo, dentre eles o Grupo de Estudos em Escrita Criativa ministrado mensalmente pela doutoranda Patricia Tenório. Contatos: talitabruto@gmail.com

 

Índex* – Junho, 2017

Hoje

Ouvi estórias

Que me fizeram

Arrepiar

Que me fizeram

Acreditar

Em mera

Inspiração 

*

Mas 

Inspiração é

Carne

Inspiração é

Osso

Onde o frio

Penetra

Até o mais 

Insuportável 

*

De se criar

*

De se escrever

*

Uma estória criativa

Uma escrita criativa

A partir

De textos seus

Em busca

De textos meus

(“Ode à Escrita Criativa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 07/06/17, 18h00)

Uma Festa da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Correr com rinocerontes” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“O Jardim das Hespérides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“O amor é um lugar estranho” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Ocaso: contos de entreluz” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco | Diversos.

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 30 de Julho de 2017, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Index* – June, 2017

Today

I heard stories

That made me

Bristle

That made me

Believe

In mere

Inspiration

*

But

Inspiration is

Meat

Inspiration is

Bone

Where the cold

Penetrates

Until the

Unbearable

*

To create

*

To write

*

A Creative Story

A Creative Writing

Starting

From your texts

In search

Of my texts

(“Ode to the Creative Writing”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/07/17, 6:00 p.m.)

 

A Creative Writing Feast in the June, 2017 Index of Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Tales for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Running with rhinos” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“The Garden of the Hesperides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“Love is a strange place” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Sundown: fairy tales” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Clear night: a romance (and a woman) in fragments” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Creative Writing Studies Group & I National Seminar on Creative Writing | Miscellaneous of authors.

Thanks for the participation and the affection, the next post will be on July 30, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Festa Criativa da turma Oficina de Criação Literária I – Narrativa, 2017.1, ministrada pelo Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUCRS – Brasil. The Creative Feast of the Classroom of Literary Creation I – Narrative, 2017.1, taught by Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, at PUCRS – Brasil.

 

“O Jardim das Hespérides”* | Daniel Gruber**

amor épico

 

porque o mais terrível no amor, meu bem, é que inevitavelmente sempre chega o momento em que você deseja machucar o outro, e era como a euforia das abelhas em volta de um copo esquecido de refrigerante, naquele domingo de manhã, na cama, quando tu violentamente despertou esta coisa dentro de mim, esta coisa da humanidade simbólica que fere o corpo animal com mil desejos incompreendidos, me mostrou que o coração é um músculo que precisa ser exercitado, eu te falei que tudo isso é a maior transgressão desses tempos pós-qualquer-coisa, um instrumento de resistência contra os destinos medíocres da vida, um organismo cego, surdo e sem artérias, motor de uma engrenagem muito complexa, esse sentimento que então nos atravessaria impiedoso, trazendo a força das coisas que fazem sentido e a dor dos prazeres que teríamos que deixar para trás, porque antes de ser platônico, meu bem, nossa paixão era pré-socrática, cheia daquelas certezas vazias que compõem nossa ridícula intelectualidade pequeno-burguesa ocidental, e como a um reizinho impertinente tu me arrancou desse delírio coletivo, dizendo tudo isso naquela manhã de domingo, que somos uma geração ainda adolescente depois dos trinta, narcísica e parasitária, tão empenhada em se livrar de compromissos que, quando somos jovens, ainda existe excitação nas aventuras alcóolicas, em estar com pessoas poderosas, ter um emprego melhor, todos os conhecidos parecem legais, até que um dia tu acorda e pensa por que mesmo sou amigo desse cara? E assim o homem moderno vai nascendo para morrer sozinho;

quis te escrever in media res, talvez em hexâmetros dactílicos, mas agora prefiro me desfazer dessa afetação toda, como naquela noite em que decidimos morar juntos, erguer nossa Ítaca, quando todo mundo esperava que fossemos apenas individualistas e gloriosos, como se a vida fosse como praticar rafting/trekking/jumping ou opinar sobre filmes impopulares, e descobrimos que viver a dois é aprender a não mentir para si, tu diria agora que estamos estabelecidos, a prova de que é possível envelhecer num mundo tão instável e raivoso, como se tivéssemos nos esquecido dos deuses que desafiamos, dos oceanos que tentaram nos anular, e agora, quando penso nas tempestades, me amarro ao mastro e fecho os ouvidos contra o canto das sereias;

tu ainda se lembra de como a vontade disso se infiltrou em nós? aquele arrepio incontrolável da atração magnética e diabo a quatro dos nossos corpos, a compatibilidade de feromônios e genes e outras porcarias que o consciente coletivo determinou chamar vulgarmente de química, quando tu subiu a camiseta e me mostrou a tatuagem que tinha acabado de fazer, cujo significado ainda me escapa, que tinha até o curativo pastificado na lateral das costas, e quando vi tuas costelas descobertas, deus do céu, tu tentava disfarçar com uma voz grave e um jeito teatral de demonstrar indiferença, mas naquela noite eu vi teus olhos brilharem;

agora andamos cansados de tudo isso, da casa sempre suja porque não temos tempo de limpar, e quando limpamos só limpamos os lugares usados, todo o resto fica acumulando sujeira, e do ralo do banheiro vem um cheiro como se algo tivesse morrido e se decomposto ali, eu já não aguento mais a gata me arranhando ou miando como se estivesse morrendo quando a gente prende ela na área de serviço para transar, não aguento teus olhos me condenando pelo meu jeito, como se eu fosse um escroto que não estivesse nem aí, porque minha cara de natureza morta não reflete a dificuldade que tenho de demonstrar o que penso e espero de ti, e às vezes o brilho nos teus olhos se apaga e por trás deles resta só um profundo vazio e escuro abismo de decepção e indiferença;

isso me assusta, porque sinto que estou te perdendo para as coisas do dia, para o lapso que sobra das nossas conversas quando estamos juntos e na verdade tão longe, tu diz que não te dou atenção e eu digo que tu não respeita meu tempo, tu diz que sou grosso bruto e eu digo que tu é neurótica, até que um de nós se rende, é inegável o quanto isso é imperfeito e real, e hoje tu tá trancada lá no quarto e grita vai embora! e eu quase morro de felicidade, porque se eu ver o vestido agora, nós corremos o risco de ter algum azar, e percebo que nosso amor nunca deixou de ser homérico, nossos dias tão plenos de atitudes heroicas, cômicas, líricas e trágicas, e tu vai descosturando toda a noite esse sudário, esperando eu regressar adulto, para que o tempo vença as horas em que ficamos cativos nessas pequenas ilhas no mar do silêncio.

com amor,

 

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Primeiro conto de O Jardim das Hespérides. Daniel Gruber. Porto Alegre: Daniel Fernando Gruber, 2017, p. 13-15.

* Contatodf.gruber@gmail.com

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2017 & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco

Trazemos para o meio do ano de 2017, o meio do caminhar na Escrita Criativa, a importância das leituras de outros autores na nossa própria leitura e escrita de mundo. No mês de Junho, 2017 postamos neste blog trechos de autores do sul, sudeste e nordeste do Brasil que estão se influenciando, que estão se estimulando no processo do bem escrever.

Correr com rinocerontes, do professor e escritor nascido em Caxias do Sul, RS, Cristiano Baldi, nos joga no rosto, nos esmurra o estômago da nossa hipocrisia em nos sentirmos menos canalhas do que os outros, do que todos ao redor. Iremos encontrar essa verdade “jogada no rosto” em O amor é um lugar estranho, do jornalista e escritor paulista nascido em Assis, radicado em Porto Alegre desde 2011, Luís Roberto Amabile: a verdade de não sermos nem tão bons assim, não sermos nem tão ruins assim, mas sermos apenas seres humanos – o que a narrativa contemporânea tem enfatizado veementemente.

O Jardim das Hespérides, do escritor nascido em Nova Hamburgo, RS, Daniel Gruber, desconstrói esse mito do “amor épico” e o torna mais próximo da carne, mais dentro do sangue das nossas próprias veias, com o cotidiano saturado e desgastante, a vida nos mergulhando na falta de sentido para nos agarrarmos à Arte, à Literatura, feito Homero ao mastro do navio e não se afogar com as sereias.

A “Festa” (Ocaso: contos de luz), do professor, filósofo e inquietante escritor nascido em Farroupilha, RS, Ricardo Timm Souza, nos brinda com uma estranheza semelhante àquela que encontramos nos contos do escritor de Praga, Franz Kafka, e ambos, Timm e Kafka, nos remetem a nós mesmos, e nos abandonam à solidão de nosso destino.

O escritor pernambucano Sidney Nicéas recolhe os fragmentos de uma vida e tece um romance fragmentado, fragmentário, Noite em clara, em consonância com os autores sulistas e com as escritoras e poetas Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, feito veremos mais adiante.

Esse desejo de unir as pontas de um país, em um momento em que o egoísmo, a desonestidade, a corrupção, negam o natural do ser humano que é o Amor, a Paz, a União, no momento em que nada mais reúne, a Arte vem e salva a Vida, e aponta para o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco, que acontecerá de 13 a 15 de Outubro de 2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, Recife – PE, com nomes tais como Adriano Portela (PE), Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS), André Balaio (PE), Bernadete Bruto (PE), Cida Pedrosa (PE), Daniel Gruber (RS), Elba Lins (PB/PE), Fernando de Mendonça (SP/PE/SE), Gustavo Melo Czekster (RS), Luís Roberto Amabile (SP/RS), Luisa Bérard (AL/PE), Luiz Antonio de Assis Brasil (RS), Maria do Carmo Nino (PE), María Elena Morán (Venezuela/RS), Patricia (Gonçalves) Tenório (PE), Raimundo Carreiro (PE), Robson Teles (PE), Talita Bruto (PE), Valesca de Assis (RS). Isso tudo sob a organização e maiores informações de Patricia (Gonçalves) Tenório (patriciatenorio@uol.com.br), Rogério Robalinho (rogerio@cia-eventos.com) e Sidney Nicéas (sidneyniceas@gmail.com).

E o exercício do mês de Junho, 2017 reflete esse diálogo entre escritores de todo o Brasil: a partir de “textos meus” postados no início desta edição do blog (“Intervalo” (Grãos), “O Grito” (Vinte e um) e trecho de A menina do olho verde), estimular “contos”, “poemas”, “textos seus”, trazidos ao centro por Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, nessa “Festa” literária chamada Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

Recife, 19 de Junho de 2017,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

 

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

 

No intervalo do intervalo

                                                                     

                                                        Intervalo Berna                                           

 

Escapo. Lá está ela! Um livro no colo, com nosso cigarro importado entre os dedos soltando fumaça, olhar perdido… Ainda não me viu, alheia está em suas conjecturas que chego a ler seus pensamentos… Não sou eu quem os contará! Deixa ela mesma digitar tim tim por tim tim tudo que lhe vai em mente, quando for a hora.

Alisa os grãos da areia a sua frente quase em câmara lenta com o cigarro na metade, cinzas quase caindo, divagando pela vida, alheia… Ausente da sua própria vida? Foi quando me viu. Um déjà vu… Já me viu antes. Agora acompanha meus movimentos. Finjo não notar, para quê assustá-la? Vou ganhando força. Vida própria, a cada movimento monitorado.

Ela procura algo na bolsa numa pressa danada, enquanto me sento na calçada no banco de cimento e coloco a caneca de lado. As pessoas se aproximam e ela também sentou alguns metros de orelha em pé.  De repente, não está mais tão perto, parece que se perde no meio dos pensamentos e algo a traz de volta. Ah, vejo que ela retorna quando seus olhos pousam no livro de Rilke que trouxe comigo. Ahá! Agora sei que ela deve estar imaginando o que faço com um livro desses, sendo um homem, neste mundinho pequeno. Discuto o tratado do amor com Paulo, só para agradá-la, pois sei que me ouve. Ainda que falasse a língua dos homens… Deixo-a imaginar quem seria, submeto-me aos seus julgamentos. Deixo-a divagar juntamente com sua saia rodada de festa, que balança ao vento. Seus pensamentos voam tanto que reverberam junto a mim. E neste momento, ela fecha o caderno de anotações, e olho para ela num pequeno instante. No intervalo que pode durar um século, quando os olhos se encontram num entendimento. Neste ínterim, sumo carregando comigo todos os maus pensamentos. Um personagem também tem o dom de cura.

Mateus se levanta, bate os grãos que grudavam seus pés, nas roupas, levanta-se e segue o caminho de volta a sua vida. Nem sequer nota a presença daquela Pérola. Vai de encontro ao seu destino, sem nem perceber que um pouco dele ficou naquela praia e será repartido com os outros. Pérola, vestida de festa, renascida na dor naquela praia, permanece sentada na areia com a cabeça cheia de ideias, uma caderneta fechada aprisionando um personagem e o livro de Rilke no colo cuja página marcada, passada e repassada ao vento, lhe aconselha:

“por isso, minha cara senhora, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si própria e sonde as profundidades onde sua vida brota; na sua fonte encontrará a resposta à pergunta “Devo criar?” Aceite a resposta, tal como lhe é dada, sem tentar interpretá-la. Talvez chegue à conclusão de que a arte a chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e na Natureza à qual toda a sua vida é devotada.”(*)

E o personagem chamado Mateus, lá dentro da caderneta, sorri.

Recife, 19 de maio de 2017, reformulado em 4 de junho de 2017.

* Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta. Modificação do gênero para melhor servir ao texto.

 

Texto elaborado a partir do conto “Intervalo” do livro Grãos de Patrícia Tenório.

 

Prelúdio para uma escrita criativa

Prelúdio Berna

Durante 21 dias, no intervalo de uma vida a outra, seu Muniz com olhos cheios de Grãos rondava Mateus que não achou graça, nem gostou daquela companhia. Foi quando a escritora, sentada na praia, deu um Grito alucinante reconhecendo-os de outros carnavais!!!!

Perdida com aquela situação peculiar, sem nome, mudou-se para a Cidade Universitária onde A menina de olho verde lhe esperava de braços abertos para lhe contar que se Ícaro voasse, poderia ver do alto que A mulher pela metade era aquela que não sabia que As joaninhas não metem e o melhor estava por vir. Começou a sentir o mundo como as palavras de D’Agostinho, pura poesia que voava nas mãos e resultava em Diálogos simples que chegavam aos ouvidos passando pelo coração das pessoas.

Daí em diante, a sua escrita ficou tão criativa, mas tão criativa, que formou um grupo e saiu disseminando conhecimento como o Major intuíra desde sempre.

E ela foi feliz para sempre sem Intervalos.

 

Recife, 29 de Maio de 2017 reformulado em 3 de Junho de 2017.

Texto elaborado a partir dos nomes do livros da Escritora Patricia Tenório e uma homenagem ao Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

 

E DE REPENTE SEUS OLHOS

Recife, 28 de maio de 2017.

 

“ Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído, deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.”(1)

 

Este foi o primeiro pensamento que surgiu na minha cabeça, há cinco anos quando vi Augusto pela primeira vez – o jeito engraçado dele andar.

Depois, ele chegou mais perto e de repente vi seus olhos… eram olhos azulados, da cor do mar. Do mar para onde me levaria e onde, pescador, me aprisionaria na rede e no seu olhar marinho.

Cada dia seu, desenhava o meu, pois não conseguia me libertar dos seus braços âncoras.

 

“Reconheci no teu canto

Um convite pra te amar

Retiramos nossos mantos

Descobri tuas riquezas

A pérola do teu sorriso

O brilho do teu olhar

 

Exploraste meus segredos

Saciaste meus desejos

Provei o sal do teu beijo

Passeei entre as estrelas

E ancorei no teu cais”. (2)

 

Meu caminho era agora azul, minha rota era o mar. Augusto me fez sereia, e meu canto o seduziu até o dia em que mergulhou sozinho e me deixou a esperar no cais, agora pedra, agora espuma…

Só vejo chuvas, águas barrentas, não mais o azul a lavar minha alma e iluminar o meu olhar.

Augusto possivelmente se foi, se tornou sal, se quedou para sempre no fundo do mar.

Mas aqui sozinha ainda espero o sol e pelo menos a cor azul do seu olhar.

 

– TENÓRIO, Patrícia. GRÃOS – Conto “Intervalo”. Calibán, 2007

– LINS, Elba. Poema Sem Pecado 22.08.2009

 

 

Até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó hás de tornar. (Gen. 3,19)

 

“O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas. Moraria na caixa de madeira.”  (ref. 1)

Finalmente, Mateus!

Eu não ficaria a te olhar de longe

Ansiando por tocar na tua pele

 

Agora

Viajaria no vento amigo

Que entra em todas as casas

Que assanha cabelos

E para o qual nada é segredo

 

E, nesta viagem infinda,

Aportaria nos teus braços

Invadiria tuas reservas

Teu corpo enfim,

Seria meu

Seria eu

Grão de areia

A invadir segredos

A passear pelos bolsos

Nas tuas calças e camisa

 

Faria carícia

Arranhando teu peito

E enfim descobriria,

Os segredos da caixa de madeira

Que tantas vezes

Me transformou em curiosa.

 

 

Referências:

– TENÓRIO, Patrícia. GRÃOS – Conto “Intervalo”. Calibán, 2007

– ANDRADE BARBOSA, Rogério. O FILHO DO VENTO. DCL, 2013

 

(Eu Sou o Pó e Retornarei

Elba Lins – 02.06.2017

Após reler “Intervalo” e ao escrever lembrei O Filho do Vento)

 

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Luisa Bérard

falecom@luisaberard.com.br

 

ALIANÇA DE BRILHANTE

 

O brilho promissor de uma nova vida

Que se desejou esplendorosa e bela,

Desponta ofuscante, valiosa e eterna

Na aliança que um dia me presenteou.

 

Em que pese a desventura do fim,

Permeada de tristeza e desilusão,

Não tenho forças para dela me desfazer

Por simbolizar o seu amor por mim!

 

Como foi dolorido ter de lhe esquecer,

Para deixar de sofrer e poder sobreviver,

Quando o meu romântico coração

Só desejava amor, paixão e compreensão.

 

E na estrada fria e distante da separação,

Aquela aliança é a forma de manter

Gravada na minha saudosa memória

Os sonhos perdidos da nossa história.

 

O DESPERTAR DA ESCRITA

 

Escrever…

Por quê?!

Senão a necessidade de expurgar a dor;

Fantasiar mundos;

Viver outras identidades;

Divagar em infindáveis possibilidades;

Numa incessante tentativa de recriar

A realidade ao meu redor.

 

No descortinar das emoções,

Onde escrever é viver!

Os personagens ganham independência,

Preenchendo os vazios da existência.

Se o despertar da escrita

Deu-se pela solidão do dia-a-dia,

Ouso ironicamente dizer:

Ao menos teve uma utilidade o meu sofrer!

 

 

Índex* – Abril, 2017

Perdi

A capacidade de dizer

Bom dia

Senti

A necessidade de dizer

Te amo

Mas as palavras 

Não estavam lá

Não estão aqui

Dentro do meu

Peito

Soltas na minha

Língua

Para saírem

Quando quiserem

Quando puderem

Fazer um mundo

Mais colorido

Trazer o sonho

Para o dia-a-dia

E amanhecer em mim 

Um gosto bom

De infância

(“O fim das lentes cor-de-rosa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 23/04/17, 05h02)

 

A capacidade de transmutar Vida em Poesia no Índex de Abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto circense (e prefigural) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

Un Poema de Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 28 de Maio de 2017, um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – April, 2017

I’ve lost

The ability to say

Good Morning

I felt

The need to say

I love you

But the words

They were not there

They were not here

Inside my

Chest

Loose in my

Tongue

To get out

When they want

When they can

Make a world

More colorful

Bring the dream

To the day by day

And dawn on me

A good taste of

Childhood

(“The end of the pink lenses”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/23/17, 05h02)

 

The ability to transmute Life in Poetry in the Index of April, 2017 in Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Little circus (and prefigural) tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

About “There is no tomorrow”, from Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

About “The Book of Puppies”, from Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

A Poem by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing – April, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the affection and participation, the next post will be on May 28, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Transmutando Vida em Poesia no Jardim do Baobá, em Recife, PE – Brasil. Transmuting Life in Poetry in the Garden of Baobab, in Recife, PE – Brasil.

Un Poema de Rizolete Fernandes

From: Maria Rizolete Fernandes [mailto:fmariarizolete@yahoo.com.br]
Sent: quarta-feira, 19 de abril de 2017 09:22
To: Patricia Tenório <patriciatenorio@uol.com.br>
Subject: Enc: Fwd: Apreciadas poetas, por aquí aparece vuestro texto de NO RESIGNACIÓN (Saludos fraternos, Alfredo)

 

Caríssima,

 

No ano que passou, foi publicada na Espanha uma antologia de poemas acerca da violência contra a mulher, contando com dezenas de poetas de todo o mundo. Repercutiu enormemente na imprensa virtual e escrita e o trabalho de divulgação tem prosseguimento. Aqui, inclui-se o meu Coro Feminil, entre o de cinco outras poetisas. Para seu conhecimento.

Um abraço fraterno,

 

Rizolete

 

 

Em Quarta-feira, 19 de Abril de 2017 9:01, Maria Rizolete Fernandes <marrizolete@gmail.com> escreveu:

 

 

———- Forwarded message ———-
From: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Date: 2017-04-18 15:59 GMT-03:00
Subject: Apreciadas poetas, por aquí aparece vuestro texto de NO RESIGNACIÓN (Saludos fraternos, Alfredo)
To: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
http://salamancartvaldia.es/ not/146831/poetas- iberoamericanas-antologia- salamanca/

 

Índex* – Março, 2017

Foi às portas do

Inferno

E provou

O gosto árduo

De amar e

Não ser amada

*

Mesmo só

No infinito

Purgatório

Experimentou

Gotas de orvalho

Que desciam

Suavemente

Lá do

Céu

*

Avistou São Pedro

E suas chaves

Douradas

E os portões

Dourados

Que se abriam

De par em par

Como se para Beatriz

Fossem

Como se para Beatriz

Abrissem

Um sem fronteiras

De bênçãos

E felicidade

*

Pedro sorriu para Beatriz

Ele que negou

Três vezes

Ele que sofreu

Três vezes

O suplício de negar

A quem muito

Amava

*

Ele estendeu a mão

Ela se encolheu

Ele deu mais um passo

Ela compreendeu

Que o verdadeiro

Amor

É aquele que tudo

Com a consciência de talvez

Nunca

Receber nada em troca

(“Dante ao contrário”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/03/2017, 15h05)

O Amor sem receber nada em troca no Índex de Março, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

A volta de um”A menina do olho verde” | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Alfredo Pérez Alencart (Salamanca – Espanha) | Poemas.

Geórgia Alves (PE – Brasil) | “Reflexo dos Górgias”.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Luís Augusto Cassas (MA – Brasil) | “A Poesia sou Eu”.

Marta Braier (Argentina) | Por Rolando Revagliatti (Argentina).

E os links do mês:

– O lançamento de “Não verás amanhã” (29/03/2017), de e no blog de Gustavo Melo Czekester (RS – Brasil): www.homemdespedacado.wordpress.com

– A fotografia de Tatiana Barroso de Oliveira (“Dona Mariana”) no Singular e Plural: www.singulareplural.wixsite.com

– A tradução e apresentação de Tiago Silva da escritora Namrata Poddar na Revista da UEPB: www.revista.uepb.edu.br/index.php/sociopoetica/article/view/3427/1873

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 30 de Abril, 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – March, 2017

 

She went to the doors of

Hell

And proved

The hard taste

Of loving and

Not being loved

*

Even alone

In the infinite

Purgatory

She tasted

Dew drops

That descended

Gently

There from

Heaven

*

She sighted St Peter

And his golden

Keys

And the golden

Gates

That opened

Wide

As for Beatriz

Were

As for Beatriz

Opened

One without borders

Of blessings

And happiness

*

Peter smiled at Beatriz

He who denied

Three times

He who suffered

Three times

The punishment of denying

Who he much

Loved

*

He held out his hand

She cringed

He took another step

She understood

That the true

Love

It’s the one which

One gives

With the consciousness of maybe

Never

Receive nothing in return

(“Dante to the contrary”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/03/2017, 15:05)

 

The Love without receiving anything in return in the Index of March, 2017 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

The Return of a “The Green Eye Girl” | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Alfredo Pérez Alencart (Salamanca – Spain) | Poems.

Georgia Alves (PE – Brasil) | “Reflection of the Gorgias”.

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Luís Augusto Cassas (MA – Brasil) | “Poetry is Me”.

Marta Braier (Argentina) | By Rolando Revagliatti (Argentina).

And the links of the month:

– The launch of “You will not see tomorrow” (03/29/2017), from and on the blog of Gustavo Melo Czekester (RS – Brasil): https://homemdespedacado.wordpress.com/

– The photo of Tatiana Barroso de Oliveira (“Dona Mariana”) in the Singular and Plural: http://singulareplural.wixsite.com

– The translation and presentation by Tiago Silva of the writer Namrata Poddar in the UEPB Magazine: http://revista.uepb.edu.br/index.php/sociopoetica/article/view/3427/1873

Thanks for the participation and affection, the next post will be on April 30, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Crítica Genética de um Poema. The Genetic Critique of a Poem.

Alfredo Pérez Alencart | Poemas

De: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Data: 04/02/2017 16:14
Para: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Assunto: Saludos de A. P. Alencart

 

Queridos/as poetas y amigos/as:

 

Les hago conocer dos selecciones de mis poemas hechas desde la antología  AQUÍ ES EL CIELO /  TU JE NEBO. Se publicaron en las revistas NAGARI y METAFOROLOGÍA, ambas editadas en Estados Unidos y en español. Pronto saldrá una tercera muestra, esta vez en la revista argentina LA POESÍA ALCANZA.

 

Aquí el poema ‘Forastero’ y otros más, ahora que está tan ‘de moda’ cuestionar al extranjero

 

http://www.nagarimagazine.com/forastero-y-otros-poemas-de-una-antologia-croata-alfredo-perez-alencart/

http://metaforologia.com/aqui-es-el-cielo-alfredo-perez-alencart/

 

Saludos siempre fraternos,

 

Alfredo

 

 

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

Março, 2017

 

A volta às aulas, das férias, vem sempre carregada de novidades doces e tenras, feito um fruto bom.

O Grupo de Estudos em Escrita Criativa passou pelo período de recesso, de entre-meio de estudos e escritas, e, das profundezas do que apreendemos juntas, trago à tona duas propostas.

A da escritora e poetisa Elba Lins (PB/PE – Brasil) tenta conciliar a Prosa e a Poesia, a Crítica com a Ficção: analisa o romance Acais, de Valquíria Lins, e da análise brotam poemas-personagens-símbolos-do-nordeste.

A da escritora e poetisa Bernadete Bruto (PE – Brasil) mergulha na Teoria da viagem, do filósofo francês Michel Onfray (1959), uma das tarefas que propus para o período de férias, e desse mergulho brotam poemas-peregrinos.

A segunda fase do Grupo de Estudos em Escrita Criativa pretende se aproximar – e em quem participa aplicar – as Teorias da Crítica Genética, ciência iniciada em 1966 com a doação dos manuscritos do poeta alemão Henri Heine (1797-1856) à Bibliothèque Nationale de Paris, ciência trazida ao Brasil pelo escritor, artista plástico, crítico literário francês, especializado em Gustave Flaubert, Pierre-Marc de Biasi (1950), e reverberada pela doutora em Linguística Aplicada e Estudos de Línguas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Cecília Almeida Salles.

Aproveito para convidar aqueles(as) que também desejarem fazer parte desse grupo. Enviem para patriciatenorio@uol.com.br um breve Curriculum Vitae com informações (além dos dados básicos):

– Qual o seu interesse em participar do Grupo de Estudos em Escrita Criativa?

– Qual a sua formação?

– Um ou dois textos em Poesia ou Ficção; um ou dois textos em Análise Literária ou Criativa.

Os encontros estão acontecendo uma vez por mês, em Recife – PE. Limite máximo de participantes: 5. Próximo encontro: 28 de abril de 2017.

Um abraço bem grande em todos e até a próxima postagem,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

 

Elba Lins: elbalins@gmail.com

 

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IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO “ACAIS”, DE VALQUÍRIA LINS

 

Somete agora pude me dedicar à leitura de Acais com o tempo necessário para um mergulho na saga do seu avô Antônio Ferreira. A partir daí, a leitura seguiu num só fôlego e me encantei ao descobrir seus os personagens. Alguns que realmente devem ter existido na vida real com todas as nuances retratadas por você –  reais, fortes, com traços por vezes violentos e machistas, embora muitas vezes com atitudes de bondade. Outros tão bem inseridos na trama que ficamos a imaginar se realmente existiram e até que ponto são reais ou engendrados pela escritora (Maria Preta, Zefa Mestra, Olívia e a cigana Lolô). E ainda, entre tantos personagens desconhecidos, tive a grata surpresa de reencontrar nossa avó Estelita, que embora jovem e com o nome de Analice teve sua história fielmente retratada – casada com Mamede, separada, oito filhos, seu lado espiritual e mediúnico, tudo ficou claro na sua história. A partir da leitura fica a ânsia de querer saber mais sobre a narrativa; Tia Bia é filha de Antônio Ferreira com Olívia, a “Flor da Mata”? E Nice é filha de quem? Elpídio e João Maçã são reais ou ficção? E a enfermeira?

Seu texto é de quem conhece sobre o que está falando. E assim, você consegue retratar com imensa riqueza de detalhes o ambiente rural e o provinciano onde a história se desenvolve.

À medida que prossigo a leitura me sinto como retornando à infância, tão bem caracterizadas as descrições sobre os costumes das cidades do interior e das fazendas. Consigo me reportar e sentir o clima, as características, os fatos tão presentes na minha meninice; seja nas lembranças de minha própria cidade, seja nas recordações de passeios à fazenda do meu avô. A sua prosa com traços de poesia me remete ao passado à medida em que leio:

“…apertando a mulata que cheirava a extrato…, deixou-se lambuzar pela banha de porco que dela escorria pelos cabelos.”

“…lavadeiras …carregando trouxas sobre rodilhas na cabeça.”

O fogão queimava a queriam, e os abanos de palha espalhavam e atiçavam brasas esfumaçadas.”

Rapé, bonecas de milho, água fria na cabaça, capins, coroas de frade, flores e frutos, cantigas de Lapinha, Pastoreio, dente de ouro, vaqueiros com seus berrantes tocando a boiada, água da quartinha, flores cultivadas em latas, rolete de cana, fumo de rolo, varrer o terreiro, crianças nuas e de barriga inchada, mulheres rezadeiras.

Balinhas Gasosa – que só de lembrar do seu sabor, me vem água na boca.

A caracterização das várias etnias envolvidas na trama, suas religiões, festas e costumes é um resgate do Caldeirão de Raças, que somos nós brasileiros.

As suas personagens femininas de forte personalidade, são marcadores da diversidade de raças que formaram a nossa gente:

Maria Preta, “negra, corpo cheio de curvas, rosto não tão bonito, mas selvagem, viçoso e exótico.”

Zefa Mestra, ruiva, a menina dos cabelos fogo, e curvas delineadas.

Olívia, cabocla de beleza selvagem, com cabelos negros e lisos que vão até a cintura e com longa franja, que parece uma Índia.

Nem mesmo da raça cigana tão presente no nosso imaginário, você esqueceu. E através da “Cigana Lolô”,  traz à nossa lembrança o medo e o fascínio por aquelas mulheres e homens de vida errante que povoaram nossa infância com seus vestidos de cores fortes, muitas pulseiras e colares dourados, suas danças e músicas e que por dinheiro queriam  ler o futuro nas nossas mãos.

Na história das Juremas e seu significado mítico, descubro no seu livro o quão perto de nós, em Acais e Alhandra este ritual é/era praticado. E vejo a nossa mitologia nativa e fascinante, da qual já tomara conhecimento  através das Danças Circulares que trabalham com as mais diversas tradições. Em muitas delas – como é o caso do “Juremar”, das danças africanas ou mesmo na Mandala de Tara de teor budista –, o foco maior é o resgate do feminino em seus diversos aspectos. Nestas ocasiões tomamos conhecimento da riqueza imensa de nossas tradições nativas e daquelas vindas de fora como a africana, europeia; lembrando-nos que muito antes dos homens terem todo o controle sobre as mulheres, fato tão bem retratado no seu livro, existiu um tempo em que o matriarcado dominava e daí provem grande parte da riqueza da nossa história tão bem representada em algumas lendas.  Terminando de ler seu livro corro para explorar um pouco mais desta riqueza mítica no livro de Maria Lalla Cy – Juremar Yacy Uaruá, que adquirira no último encontro de danças do Juremar.  Logo de início encontro “…conhecemos muito pouco sobre as deidades formadoras de nossa identidade cultural. Cy é a grande mãe brasileira e como tal agrega todos os aspectos do feminino criativo e da natureza exuberante do matriarcado Pindorama. Até então, eu não sabia nada sobre um matriarcado primitivo aqui no Brasil”. Ela continua dizendo que “cabe a nós fazer com que essa Sabedoria não seja tratada como um conjunto de lendas (….) e sim como um saber vivo, que pode e deve ser atualizado(…). E, como somos frutos de miscigenação, desde sempre, mestres em alquimia cultural, aqui neste Juremar, celebramos a unidade na diversidade de todas as faces da Deusa, honrando a sabedoria de todos que caminharam sobre a terra!”. Seu livro Acais, portanto, chega até mim como parte deste resgate, de quem somos nós.

Finalmente me chamou atenção a perspicácia da autora em colocar o final do romance nas mãos de uma Zefa Mestra já desgastada pelo tempo com lapsos de memória o que deixa nas mãos do leitor a fantasia de decidir, de imaginar como teria sido na realidade o final da história.

Ao terminar a leitura, volto mais uma vez a relê-lo para melhor captar todos os detalhes e já fico na expectativa de novas histórias que certamente virão.

Parabéns, Valquíria!!!

Grande abraço,

Elba Lins

 

“De roupa vermelha,

Colares dourados,

Tu giras.

Na dança,

Na vida,

Ao redor de mim,

Tu giras.

Tu queres saber

Da minha vida.

Tu queres me dar

O teu amor…

Mas tu giras,

E queres dinheiro,

As minhas moedas,

Só para me dizer,

Olhando minhas mãos,

Que eu te desejo.

Tu giras,

Ao redor de mim

Tu giras,

Na minha cabeça

Que gira.

Tu danças pra mim,

Tu giras.

Sou louco por ti,

Que gira,

Que vem até mim

E na dança do amor,

Giramos.”

 

 

(“Cigana – À Cigana Lolô”. Elba Lins – 19/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquiria Lins)

 

 

“Tu és pura filha,

Da terra selvagem

De nome Brasil

De Pindorama

Fruto primitivo

Que chega até mim.

Vem, em visão sublime

Nos vapores da cacheira

És minha Vênus,

Afrodite nascendo

Das espumas sutis.

Em ti, vejo riquezas

Ainda escondidas

Dos olhos dos brancos

Teu cabelo negro

Minha noite sem fim

Teu corpo suave

Matriz geradora

Que vem até mim.”

 

 

(“Índia – À Cabocla Olívia, A Flor da Mata”. Elba Lins – 18/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquíria Lins)

 

“Negra te vejo de longe

E eu do lado de cá

Miro teu sorriso branco

Um farol a me guiar.

 

Teu corpo preto retinto

Tuas ancas a balançar

Me sinto num tombadilho

Vendo o balanço do mar.

 

Tua dança quando olho

Já me faz aproximar

Tambores que me enlouquecem

Em transe pareço entrar.”

 

(“Negra – À Maria Preta”. Elba Lins – 06/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquiria Lins)

 

“Enquanto danças

Teu cabelo de fogo

Rodopia em chamas

Fogueira que brilha

Faíscas que me atiçam

Que chegam até mim.

 

Não resisto ao teu chamado

E encosto em teus cabelos.

Que caem em rubras cascatas

Que queimam meu corpo inteiro.

 

Já sinto meu sexo em brasa

Que aflito espera o teu

Incêndio descontrolado

Teu fogo agora sou eu.”

 

(“Ruiva –  À Zefa Mestra,  A Cabelo de fogo”. Elba Lins – 06.12.2016. Após leitura de Acais, de Valquíria Lins)

 

 

 

Bernadete Bruto: bernadete.bruto@gmail.com

 

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Teoria da Viagem e o Caminho da Poesia

 

           

Todos os viajantes, escritores da viagem,

artistas do nomadismo, experimentam essa

evidência, pois todos iluminados, como

incendiados, incandescentes. (Michel Onfray)

Muito interessante a leitura do livro Teoria da Viagem: poética da geografia, pois pude constatar que existe uma dinâmica no processo de viagem, antes nunca pensada e que pude identificar essa ordem descrita, comparando com a minha produção anterior e posterior à viagem que realizei no período de 7 de fevereiro à 8 de março, como dever de casa do Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

Ainda que a produção tenha ocorrido dentro do livre arbítrio, consegui enquadrar o escrito dentro da teoria. Achei bem mais proveitoso ter escrito livremente e só depois comparar com a teoria. Acredito que este método foi benéfico para minha criatividade, considerando que a escrita fluiu com base no sentimento, liberta de ideias pré-concebidas, assim acredito.

Antes da viagem, escrevo sobre o lugar em que vivo minha condição errante dentro da cidade, o gosto pelo movimento mesmo estando em casa como observamos nessa poesia anterior à partida:

 

Areias/Recife, 25 de Janeiro de 2017.

 

Mesmo caminho

 

O caminho é o mesmo

mas o olhar

modificou-se com o tempo

enxerga

a transitoriedade

daquela beleza

se encanta

e aprecia

Cotidianamente.

 

Nesta observação do caminho, a poetisa reflete o que Onfray explica com relação ao tempo: Quando põe o pé na estrada, ele obedece a uma força que, surgida do ventre e do âmago do inconsciente, lança-o no caminho, dando-lhe impulso e abrindo-lhe o mundo como um fruto caro, exótico e raro. (Pg. 15)

Apesar de certa resistência à mudança, que a própria viagem requer, já existe a consciência da condição do futuro movimento, o gérmen da viagem, que Onfray afirma estar enraizado na Gênese da errância: a maldição; genealogia da eterna viagem: a expiação – donde a anterioridade de uma falta sempre grudada no indivíduo. (Pgs. 11 e 12)

 

BR-101/Recife, 30 de janeiro de 2017

 

Citadina

 

Não quero uma casa no campo

pra lá

somente a passeio

nem quero uma casa na praia

naquele lugar

ainda passo um veraneio.

Quero permanecer na cidade

como esta velha árvore

fincada

não quero ser transplantada!

Gosto dessa mistura

de toda loucura

das grandes cidades.

 

Também, de outro modo, já se pode notar que acontece nas poesias escritas em vésperas da viagem, o que Onfray aponta:  A ausência de casa, de terra, de chão, supõe, a montante, um gesto deslocado, um sofrimento causado por Deus. (Pg. 12) Pois como ele afirma: Viajar solicita uma abertura passiva e generosa a emoções que advêm de um lugar a ser tomado em sua brutalidade primitiva. (Pg. 59)

 

Areias/ Recife, 30 de janeiro de 2017

 

Saudades do Sol

 

Já sinto saudades do sol

calor que me fortalece

luz iluminando minha vida

viajo do interno para o externo

nessas voltas ao redor do sol

já penso no retorno

meu corpo bronzeando

abandonando o cachecol

 

Rua Afonso Celso/ Recife, 7 de Fevereiro de 2017

 

Mulher Repartida

 

Dividida sempre

entre o inverno e o verão

entre o frio e quente

passado e presente

um coração se reparte

encontrando o bom

em cada parte

 

Entretanto como a viagem estava certa, para o local onde reside meu filho, nora e neta e com uma missão definida, não podendo escolher, o tempo, nem o momento para viajar. Fiquei sujeita àquilo que Onfray indica: o determinismo genealógico se impõe. Não escolhemos os lugares de predileção, somos requisitados por eles. (Pg. 20, grifo nosso).

Durante a viagem, no período que Onfray denomina de entremeio, observamos haver muito de experiência sensorial, como ele diz: No entremeio, quando os referenciais de civilização desaparecem, o corpo tende a reencontrar seus movimentos naturais e obedece mais ardentemente à soberania dos ritmos biológicos. (Pg. 38) Talvez por isso, por estar em um movimento diferente do que costumo ter no meu país, a poesia daquele período adquiriu este ritmo:

 

Vancouver, 15 de fevereiro de 2017

 

Impassível mente

 

Acompanha esta árvore

Ao teu lado

Oh, alma!

Impassível

No inverno

No verão

Árvore que deixa acontecer

Como deve a alma ser

Na chuva

Na neve

Perante cada estação

De inverno a verão

Impassível mente

 

Tempo ZEN

 

Tudo aqui

À distancia

É calma

É silencio

E a vida passa

Devagar

Sem pressa

A toda hora

Aqui e agora.

 

Com relação ao movimento de retorno da viagem, Onfray nos apresenta que há um outro entremeio: depois do tempo ascendente do desejo, depois do tempo excitante do acontecimento, chega o momento descendente de retorno. (Pg. 85) Nessa linha, encontro as poesias escritas sobre saudade:

 

Vancouver, 4 de Março de 2017

 

Saudades Canadense ano 3

 

Toda vez

Naquela hora

Na despedida

Acontece

Sem medida

A alma se abre em duas

A desaguar

sem cerimônia

Toda saudade

 

(Em 8 de Março de 2017)

 

Alma Repartida

 

Dia da partida

Coração aberto

Lágrimas nos olhos

A saudade inundando

Toda uma vida…

 

Como observa Onfray e consigo identificar nas poesias escritas durante a viagem: Não nos separamos do nosso ser, que nos habita e acompanha à maneira de uma sombra. Nas viagens, esse ser quer e vê, ordena e decide. (Pgs. 63 e 64)

Assim, depois dessa exposição maciça ao estrangeiro, pudemos constatar o que Onfray pressagia: Na fadiga do retorno preparam-se as sínteses por vir. (Pg. 91) O que me faz buscar nas minhas anotações, algum tempo após a viagem, a seguinte poesia:

 

Monteiro/Recife, 16 de Março de 2017.

 

No Campo

 

Aquela que vê

(e também lê)

Não é a mesma

depende

do tempo

do olhar

desse movimento

sempre

menos da mente

mais do que sente

 

Essa mesma poesia corrobora a observação de Onfray de que o nômade-artista sabe e vê como visionário, compreende e capta sem explicações, por impulso natural. (Pg. 61)

Por tudo isso, chegamos à conclusão que o caminho a seguir pelo escritor/poeta deve ser muito mais intuitivo e livre, cabendo à teoria oferecer um embasamento necessário, enriquecendo seu trabalho, sem embotar o processo criativo. Portanto, da mesma forma que existe uma Teoria da Viagem, também há o Caminho da Poesia. Este é percorrido nas profundezas do ser, produzindo o que há de mais puro, acredito, quando em sintonia com a música de seu coração:

 

Caminhando pelo Mundo (*)

 

Não vos digo

Que tudo que falo

Eu sigo…

Apenas garanto

Pelos sons das palavras pratico

Persigo a razão

Para qual existo

E acredito

Por isso mesmo

Insisto

Persisto

E prossigo.

 

Bernadete Bruto

 

Recife, 22 de Março de 2017.

 

* Poesia retirada do livro: Querido Diário Peregrino, de Bernadete Bruto, pg. 126.

** Foto da Viagem ao Canadá Fevereiro em 7  de fevereiro de 2017.