Posts com Français

Índex* – Julho, 2017

Uma água de côco 

Um sonho nas mãos

Mas o sol

Se esconde por trás da

Chuva

E posso ouvir

A terra cantar

Da terra brotar

Flores particulares

 

Ainda ontem

Andei meu primeiro passo

Doei meu primeiro beijo 

E nem parece

Que o tempo passou

Ou passou

Nas gotas grossas de

Chuva

Que mergulham

Em meus cabelos

(“A trégua”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 10/07/17, cerca de 16h10)

Uma trégua para a Paz, para a Vida, para a Escrita Criativa no Índex de Julho do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto de sonhos | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

O FANTASMA DE LICÂNIA (PARTE XI) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Um conto e um poema de Alexandra Lopes Da Cunha (DF/RS – Brasil).

“Entre a neve e o deserto” | Gisela Rodriguez (RS – Brasil).

“Convalescente” | Magno Catão (RN – Brasil).

Serra da Capivara e seus mistérios | Mara Narciso (MG – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Diversos participantes.

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 27 de Agosto de 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – July, 2017

A coconut water

A dream in the hands

But the sun

Hides behind the

Rain

And I can hear

The earth sing

From the earth to sprout

Private flowers

 

Yesterday

I walked my first step

I gave my first kiss

And it does not seem

That time passed

Or passed

In the thick drops of

Rain

Diving

Into my hair

(“The truce”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 10/07/17, about 4:10 p.m.)

 

A truce for Peace, for Life, for Creative Writing in the July Index of Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Small tale of dreams | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

THE GHOST OF LICHEN (PART XI) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

A tale and a poem by Alexandra Lopes Da Cunha (DF / RS – Brasil).

“Between the snow and the desert” | Gisela Rodriguez (RS – Brasil).

“Convalescent” | Magno Catão (RN – Brasil).

Serra da Capivara and its mysteries | Mara Narciso (MG – Brasil).

Study Group in Creative Writing | Several participants.

Thank you for the affection and participation, the next post will be on August 27, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Uma trégua para as Férias no inverno de Recife – PE. A truce for the Holidays in the winter of Recife – PE.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Julho, 2017

Não lembro exatamente quando o nome me foi dedicado, mas lembro perfeitamente quem o dedicou. Meu avô paterno, O Major de meu primeiro livro,[1]  José Tenório de Albuquerque Lins, gostava de me contar estórias de uma corujinha que vivia nas matas do interior de Alagoas, e essa coruja possuía filhotes, e esses filhotes eram os mais lindos do mundo. Veio um gavião e os comeu, achando que não poderiam ser os filhotes da mãe-coruja, visto serem extremamente feios.

Foi assim, sentada no colo de meu avô, que ele me chamou  pela primeira vez de professorinha. Eu usava, desde os três anos, óculos de grau com arame atrás das orelhas, por causa de hipermetropia e astigmatismo. Sentada no colo de meu avô, ele profetizava o que, mais de quarenta anos depois, foi repetido pela segunda vez por minhas alunas do Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

Alunas. Nome doce e ao mesmo tempo difícil de conciliar, quando lembramos da responsabilidade que carregamos em nossas costas – feito as asas de Ícaro –, por depender de nós toda uma tendência para o bem ou para o mal. O professor pode elevar o aluno ao mais alto grau de auto-estima, e de conhecimento, e de desenvolvimento próprio, como também pode destruir um potencial num piscar de olhos. Uma vez escrevi que as duas profissões que mais admiro no mundo são o médico e o professor. De maneiras diferentes – mas tão importantes quanto –, as duas profissões salvam ou condenam uma vida, curam ou matam. E o professor pode retirar de nós o melhor do ser humano. Isso tudo quando aplicando a aprendizagem que mais acredito, aquela que na língua francesa encontramos tão bem exemplificada com o verbo aprendre – de ensinar e aprender –, aquela que chamo de “aprendizagem pelo afeto”.

Nada melhor na aprendizagem pelo afeto do que um livro bom. Os nossos melhores amigos. Aqueles que não nos deixam sós, e dizem exatamente aquilo que gostaríamos de escutar naquele exato momento.

E nada melhor do que construir um livro bom. O cheiro de um livro bom. O som das páginas novas folheadas. O tato nas palavras recém-impressas. Sobre a Escrita Criativa. Essa é a experiência que estamos vivendo, eu e minhas alunas do Grupo de Estudos em Escrita Criativa. Foi proposto aos participantes do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco[2] que escrevessem como a Escrita Criativa entrou em suas vidas, e estão surgindo textos em que se retoma toda a trajetória de seus processos de criação. Textos emocionantes, mas sem perder a qualidade teórica nem ficcional, pois navegar entre esses dois âmbitos, entre os dois pólos aparentemente contrários, mas que se comunicam, e se complementam, e se ajudam, é o que nos faz seres humanos. É o que nos faz escrever melhor.

Em agradecimento a esses participantes, e, principalmente, às minhas alunas Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, dedico este post, e esse livro, e a minha história de vida, d’O Major até os dias de hoje.

Elas

Apareceram

De repente

Em minha vida

Todas

Transparecendo

Em algum momento

Uma ruptura

Um cansaço

Uma busca

 

Eu

Propus um tema

E todas

Me entregaram

As tarefas

Tão brilhantes

Tão limpinhas

 

Que foi só

Triunfo

Da Poética

Que se fez

Conto

Da História

Que floresceu

Assim

Como se nada

Aconteceu

 

(“As alunas”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 01/07/17, 17h15)

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(1) TENÓRIO, Patricia. O major – eterno é o espírito. Recife: Edição do Autor, 2005.

(2) Que acontecerá de 13 a 15/10/2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, Centro de Convenções, Recife – PE. Maiores informações: patriciatenorio@uol.com.br, rogerio@cia-eventos.com e sidneyniceas@gmail.com.

Índex* – Fevereiro, 2017

Cercada

Por animais

Eu me acordo em

Fevereiro

*

Lembro

Da menina de óculos

E meias

Até os joelhos

No primeiro

Dia de aula

*

Ela me diz

Algum segredo

Em voz baixa

Eu presto

Atenção

Para captá-lo

No ar

Para sorver

Na ponta

Dos dedos

O que fui

Outrora

Moldar em

Barro

E transmutar

Em personagem

*

Já fui

Princesa

Sacerdotiza

E jornalista

Agora sou

Uma simples

Escritora

A catar

Conchinhas de palavras

No mar aberto

De Maracaípe

(“Álbum de família”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 01/02/17, 06h02)

A Imaginação se irmana com a Prosa e a Poesia, Crítica e Ficção, Vida e Arte no Índex de Fevereiro, 2017, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

“A louca da casa”, de Rosa Montero: Possíveis Escritas Criativas | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) com Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil), Erasmo de Roterdam (Holanda), Ariano Suassuna (PB/PE – Brasil) e Cecília Almeida Salles (SP – Brasil).

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | O vagão rosa.

Diego Mendes Souza (PI – Brasil) | Tinteiros rilkeanos.

Elba Lins (PB/PE – Brasil) | Impressões sobre o livro “O amante”, de Marguerite Duras.

Isabelle Macor (França) | “Lecteur d’emprentes digitales”/”Czytinik linii papilarnych”, Ewa Lipska (Polônia).

Jacques Rimbeboim (PE – Brasil) | Homenagem a Guita Charifker (PE – Brasil) com Abelardo da Hora (PE – Brasil).

Luiz Ruffato (MG/SP – Brasil) | “Redemoinho” & “Inferno Provisório”.

Marly Mota (PE – Brasil) | Homenagem a Luzilá Gonçalves (PE – Brasil) com Lourival Holanda (PE – Brasil).

Poeta de Meia-Tigela (CE – Brasil) | “acidade” digital.

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 26 de Março, 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – February, 2017

Surrounded

By animals

I wake up at

February

*

I remember

The girl with glasses

And socks

Up to the knees

In the first

Class day

*

She tells me

Some secret

In a low voice

I pay

Attention

To capture it

Up in the air

To drink

At the tip

Of the fingers

What I was

Once

Mold in

Clay

And transmute

In character

*

I was already

Princess

Priestess

And a journalist

Now I am

A simple

Writer

Picking up

Little shells of words

On the open sea

Of Maracaípe

(“Family Album”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 02/01/17, 06h02)

 

Imagination joins with Prose and Poetry, Criticism and Fiction, Life and Art in the Index of February, 2017, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

“The madwoman of the house”, by Rosa Montero: Possible Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) with Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil), Erasmus of Rotterdam (Netherlands), Ariano Suassuna (PB/PE – Brasil) and Cecília Almeida Salles (SP – Brasil).

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | The pink wagon.

Diego Mendes Souza (PI – Brasil) | Rilkean ink cartridges.

Elba Lins (PB/PE – Brazil) | Impressions on the book “The Lover”, by Marguerite Duras.

Isabelle Macor (France) | “Lecteur d’emprentes digitales”/”Czytinik linii papilarnych”, Ewa Lipska (Poland).

Jacques Rimbeboim (PE – Brasil) | Homage to Guita Charifker (PE – Brasil) with Abelardo da Hora (PE – Brasil).

Luiz Ruffato (MG/SP – Brasil) | “Swirl” & “Provisional Hell”.

Marly Mota (PE – Brasil) | Homage to Luzilá Gonçalves (PE – Brasil) with Lourival Holanda (PE – Brasil).

Poet of Half-Bowl (CE – Brasil) | Digital “acidade”.

 

Thank you for the affection and participation, the next post will be on March 26, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Imaginação Livre no Mar Aberto de Maracaípe, PE – Brasil. The Free Imagination in the Open Sea of Maracaípe, PE – Brasil.

Isabelle Macor | “Lecteur d’empreintes digitales”/”Czytnik linii papilarnych”, Ewa Lipska

Isabelle FB

 

Isabelle I

Isabelle II

Índex* – Dezembro, 2016

No silêncio da cópia oculta

Agradeço

A cada um

A cada uma

Por tanto que

Me ajudaram

Na construção

Pedrinha por pedrinha

Desse ano de

2016

Ano difícil para

Todos nós

Mas que

Na certeza de que o

Dar-se as mãos

É a única saída

Espero que

Estejamos mais uma vez

Juntos

Em 2017

E em muitos outros

Que hão de vir

(“Construção”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 13/12/16, 05h57)

Na Construção de um Mundo Novo que há de vir, esperamos no Índex de Dezembro, 2016, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Carta de Oleg Almeida (Bielo-Rússia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (EUA).

“De paisagens e de outras tardes” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Condutor de tempestades” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Anjos de Teatro (PE – Brasil).

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 29 de Janeiro, 2017, um grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – December, 2016

In the silence of the hidden copy

I thank you

Each man

Each woman

For everything

You helped me

In the construction

Little stone by little stone

Of that year

2016

Difficult year for

All of us

But what

In the certainty that the

Holding hands

It’s the only way out

I hope

That we’ll be one more time

Together

In 2017

And in many others

Who are to come

(“Construction“, Patricia (Gonçalves) Tenório, 12/13/16, 05:57)

 

In Construction of a New World to come, we look forward to the Index of December, 2016, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Letter from Oleg Almeida (Belarus-Russia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (USA).

“Of landscapes and other afternoons” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Storm driver” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB / PE – Brasil) & Theater Angels (PE – Brasil).

Thanks for the participation and the kindness, the next post will be on January 29, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Construindo Mundos Novos, Recife, PE – Brasil, 2016. Constructing New Worlds, Recife, PE – Brasil, 2016.

Carta de Oleg Almeida

From: Oleg Almeida [mailto:oleg_almeida@hotmail.com]
Sent: segunda-feira, 12 de dezembro de 2016 08:20
To: Academia Brasileira de Letras <academia@academia.org.br>
Subject: Boas Festas!

 

Queridas amigas,

Diletos amigos!

É do fundo de meu coração que vos desejo a todos Feliz Natal e Próspero Ano Novo. 

Que o ano de 2017, que está prestes a assomar no proscênio, venha repleto de saúde, paz espiritual e boas realizações em todos os campos de vossa vida.

Às vésperas das Festas Natalinas, gostaria de compartilhar convosco este poema de meu grande amigo Jan de Boer, poeta francês de origem holandesa, que nos desafia a refletir um pouco sobre a natureza humana que “não muda nunca”. Precisamos de mudanças, sim, mas que todas essas mudanças sejam bem positivas!

Um forte abraço do poeta e tradutor

Oleg Almeida, Brasília/DF, Brasil
(https://sites.google.com/site/olegalmeida). 

 

 

TOUT CHANGE                                                                                        TUDO MUDA

 

tout change, presque                                                           tudo muda: quase

chaque année le monde est                                                a cada ano, o mundo se torna

quelque part moins bien à comprendre                          algures menos compreensível

 

seulement un homme: une poche d’une peau douce                              apenas um homem: aquele saco de pele frágil

remplie avec des liquides                                                                        cheio de líquidos

et des pensées, parfois même des sentiments                                       e pensamentos, por vezes mesmo de sentimentos;

ça                                                                                                              aquilo

inexplicablement                                                                                      inexplicavelmente

ne change pas                                                                                          não muda nunca

 

(aucun progrès technique et moral                                                         (nenhum progresso técnico e moral

depuis tant de siècles)                                                                             há tantos séculos)

 

et ça c’est encore le plus difficile                                                            eis o que é ainda menos

à comprendre.                                                                                           compreensível.

 

Índex* – Setembro, 2016

Recife se encontra com Maceió, e faz tempo que elas não andam juntas. Desde o tempo da independência de Maceió. Desde quando Maceió se pensava diferente de Recife.

Mas elas, juntas, sentadas à beira-mar da praia de Boa Viagem, quase Pina, quase Brasília Teimosa, descobriram que amar é entender o outro, é aceitar o outro principalmente com os seus defeitos.

Elas caminham pela praia. Mãos dadas, admitindo uma à outra que existem praias belas entre Recife e Maceió. Deixando de lado as intrigas de quem é melhor, ou a cultura do caranguejo – de não permitir o outro brilhar, de puxar para baixo a pata do caranguejo-irmão quando tenta subir o balde de metal.

Então viram se aproximar Porto Alegre. A cidade com suas nuances. Com sua tradição, foi embriagando as duas irmãs de mãos dadas. As três falaram, conversaram, se contaram tudo uma para as outras.

Até verem Sônia Braga, descalça, na direção do mar, saindo do edifício Aquarius.

(“De Pernambuco para o mundo”***, Patricia (Gonçalves) Tenório, 09/09/16, 07h18)

*** A partir de “Aquarius” (2016, 145 minutos), um filme de Kleber Mendonça Filho.

Quando Pernambuco sai para o mundo no Índex de Setembro, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Maria-Maria | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Una misiva de Buenos Aires | Luis Raúl Calvo (Argentina).

Um poeminha de ocasião | Camilo Mattar Raabe (RS – Brasil).

Mais civilidade, por favor! | Mara Narciso (MG – Brasil).

Fada de Licânia | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Um passeio “in-line” pelas ruas de Recife | Patricia Galindo (PE/AL – Brasil) & Rafaelly Moura (PE/AL – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/09/16 | Com Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Bernadete Bruto (PE – Brasil).

Muito obrigada pelo carinho e participação, a próxima postagem será em 30 de Outubro de 2016, um grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – September, 2016

Recife meets Maceió, and there is time that they do not go together. From the time of independence of Maceió. Since when Maceió thought it was different from Recife.

But they, together, sitting by the sea from the beach of Boa Viagem, almost Pina, almost Brasília Teimosa, found that love is to understand each other, it is to accept the other mainly with its faults.

They walk along the beach. Hand in hand, admitting to each other that there are beautiful beaches between Recife and Maceió. Leaving aside the intrigue of who is better, or the crab culture – not to allow the other to shine, to pull down the leg crab-brother when it tries to climb the metal bucket.

Then they saw approaching Porto Alegre. The city with its nuances. With its tradition, drunking the two holding hands sisters. The three talked, talked, counted everything to each other.

Until they see Sônia Braga, barefoot, toward the sea, leaving the Aquarius building.

(“From Pernambuco to the world” ***, Patricia (Gonçalves) Tenório, 09/09/16, 7:18 a.m.)

*** From “Aquarius” (2016, 145 minutes), a Kleber Mendonça Filho film.

When Pernambuco goes out to the world in Index of September, 2016 in Patricia (Gonçalves) Tenório´s blog.

Maria-Maria | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

One letter from Buenos Aires | Luis Raúl Calvo (Argentina).

An occasion little poem | Camilo Mattar Raabe (RS – Brasil).

More civility, please! | Mara Narciso (MG – Brasil).

Fairy from Licânia | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

A walk “in-line” through the streets of Recife | Patricia Galindo (PE/AL – Brasil) & Rafaelly Moura (PE/AL – Brasil).

Studies Group in Creative Writing – 09/25/16 | With Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Bernadette Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the care and participation, the next post will be on 30 October 2016, a big hug and see you there,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Edf. Oceania/”Aquarius”, Pina, Recife – PE, Brasil. The Oceania/”Aquarius” building, Pina, Recife – PE, Brasil.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/09/16 | Com Elba Lins* & Bernadete Bruto**

Do grego εκφραζειν, “explicar até o fim”, ekphrasis é o fenômeno da representação verbal de uma representação visual.

Muitos são os exemplos de ekphrasis no Ocidente, tendo sua origem na descrição de Homero do escudo de Aquiles, na Ilíada, passando pelos românticos com o poeta inglês John Keats, em “Ode a uma urna grega”, manifestando-se na prosa de Fiódor Dostoievski, em O idiota, quando descreve o quadro “O corpo do Cristo morto”, de Hans Holbein, até chegarmos a O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde – objeto de minha dissertação de Mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.

O exercício do mês de setembro de 2016 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa (Recife – PE) traz a ekphrasis para o centro, iluminando a Criação a partir de Cartões Postais. Para cada uma das participantes foi proposto escrever um conto a partir de imagens escolhidas de maneira aleatória: pinturas de Van Gogh, Millet, ou mesmo fotografias de Paris, ou do consultório do pai da psicanálise, Sigmund Freud, em Viena. O objetivo é investigar o que aquela imagem suscita na participante, o que em si provoca, que memórias, reminiscências, ou até vidas possíveis – seguindo a Poesia mais rica do que a História de Aristóteles, por aquela representar o que poderia ser, enquanto esta “apenas” o que foi.

Com vocês, apresento as ekphrasis de Elba Lins e Bernadete Bruto, no segundo mês do Grupo de Estudos em Escrita Criativa (Recife – PE).

Patricia (Gonçalves) Tenório

 

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(Foto: Gerald Zugmann, Sigmund-Freud Museum, Wien)

Da janela à frente, observo aquele divã onde ela deitou-se tantas vezes e onde durante anos tentou esvaziar todas as suas dores, vasculhando o inconsciente, procurando Símbolos, procurando significados, tentando descobrir porque seu Lado Sombra a fazia correr até a esquina mais distante e se travestir em prostituta.

Nestes momentos, ela deixava que os outros explorassem seu corpo e se dizia Uma Prostituta Sagrada cuja missão era ensinar a todos o significado do Sexo Sagrado. Depois de tudo, ela corria de volta até aquele divã, e numa enxurrada de palavras, catalogava uma a uma de suas Experiências Místicas.

Um dia ela simplesmente viajou e seu nome saiu estampado na capa dos jornais. Havia deixado somente uma carta, onde explicava sair deste mundo sem cumprir o último desejo, sem finalizar sua missão na Terra, iniciar no Sexo Sagrado, ninguém menos do que eu. Eu que nos últimos sete anos tentei, do lado de dentro daquela sala, pôr uma luz, compreender todos os significados escondidos por trás das cortinas do inconsciente daquela mulher.

Hoje, o divã está vazio, mas continua num pedestal. As lâmpadas foram retiradas, as cortinas foram arrancadas, e nunca mais poderei decifrar a alma da minha paciente.

E eu estou agora, do outro lado da janela.

 

(“O Divã Vazio” – Texto escrito a partir da observação do primeiro Cartão Postal.

Para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa

Elba Lins – Recife, 06/09/2016.)

 

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(Pablo Picasso, Museu Picasso, Barcelona)

De um lado o médico. Ele muito entende das questões do corpo, mas pouco conhece da alma humana. Por mais que tente entender aquela mulher, para ele, ela não passa de mais uma enferma, de mais um ser que se encontra no limiar entre a vida e a morte. Ele toma seu pulso fraco, segura uma mão que é vista por ele com as cores da morte. Ele somente aguarda terminar este dia, se findar esta vida e retornar para casa. Ele nem pensa em dirigir à doente umas poucas palavras de conforto… pois sabe que não há mais nenhuma esperança.

Do lado esquerdo da cama, uma dedicada freira, um pouco mais consciente das coisas do espírito, tenta chamar esta mãe de volta à vida e tenta lhe entregar uma bebida quente. Olha a mão direita que repousa junto ao peito, ainda vendo nela uma coloração de vida, um sinal de esperança. A freira usa artifícios para atraí-la, entre eles mostra-lhe o filho, o único bem que tem nesta vida.

Mas entre estas duas figuras está ela, a enferma, que agora só pensa na alma que em breve deixará o corpo frágil e voará rumo ao desconhecido.

 

(“A Enferma” – Texto escrito a partir da observação do segundo Cartão Postal.

Para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa

Elba Lins – Recife, 06/09/2016.)

 

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(Vincent van Gogh, Van Gogh Museum, Amsterdam)

Hoje só desejo estar neste pequeno quarto e amanhã despertar, com o sol batendo na  janela.

Hoje não preciso de amigos, não quero amantes, quero acordar bem cedo e lavar as mágoas, a face e a alma; colocar o chapéu de palha e sair ao sol.

Vou percorrer campos de girassóis e firmar na retina as cores do mundo para poder transpô-las para as telas de linho dispostas na varanda, à espera da luz das cores adormecidas no branco inerte das telas. Nelas vou colocar a beleza dos campos, os detalhes de todas as coisas e a dança luminosa que só eu percebo nelas.

Mesmo que me isole do mundo e me torne um louco na visão dos outros, ainda assim, surpreenderei a todos com a beleza da minha obra.

Para Vincent Van Gogh

 

(“A Luz das Cores” – Texto escrito a partir da observação do terceiro Cartão Postal.

Para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa

Elba Lins – Recife, 06/09/2016.)

 

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(Jean-Baptiste Greuze, The Frick Collection, New York)

Camilla passa a maior parte do tempo livre, brincando com seus gatos ou costurando as peças para o enxoval. Enquanto costura pensa na vida: Quais os deveres de uma esposa? O que terei que fazer na minha casa, após o casamento?

Na verdade, ela preferia ficar enrolando os novelos de lã do que desenrolar os mistérios da vida e todos os questionamentos que não cessavam de surgir na sua cabecinha de menina.

Camilla pensou, pensou, e de repente se viu aguardando silenciosamente a chegada do noivo, um fazendeiro vizinho de cerca de quarenta anos, que não era exatamente o modelo de príncipe encantado que ela vira nos livros. Depois de muito pensar, Camilla decidiu que precisava fugir para bem longe dali e procurar trabalho como ajudante de costura. Ela começa a guardar os novelos, tesouras, agulhas e todo material de costura quando sente que alguém passa as unhas no braço esquerdo… ela se assusta e imagina que é o noivo que chega à sua casa. Neste momento abre os olhos para ver o que acontecia…era Blanche, a gatinha, que lhe dá pequenos botes tentando dela arrancar um dos novelos de lã. Camilla suspira aliviada, estava sonhando. Um noivo ainda não era assunto, senão para muitos e muitos anos depois.

 

(“O sonho de Camilla” – Texto escrito a partir da observação do quarto Cartão Postal.

Para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa

Elba Lins – Recife, 06/09/2016.)

 

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(Foto: Pierre Michaud, Paris)

 

Ele & Ela em Paris

 

Num certo mês de maio de 1976, um casal anda de mãos dadas à margem do Rio Sena.

Ela: Nem acredito, estamos em Paris! Mal ando, flutuo nessa viagem. Olho para todos os cantos que tantas vezes li nos livros e vi nos filmes. Mas o que está me agradando mais é a companhia dele! Sim, ELE! Ao meu lado, de mãos dadas. Meu Deus! Nem acredito!

Ele: Estou em Paris! Inacreditável! Valeu todo o esforço, agora vou poder aproveitar minha vida! Vim com Ela para Paris… Nos conhecemos uma vida toda, vamos poder aproveitar bastante. Não vejo a hora de ver o Túmulo de Napoleão!

O casal sai da visita ao Túmulo de Napoleão e caminham pela cidade muitos quarteirões para conhecer melhor a cidade até alcançar a Champs-Elyssés… Na longa caminhada os pensamentos surgem no passo-a-passo.

Ela: Esta é a terceira cidade que visitamos na viagem. Estou feliz! Mesmo que esteja sendo tão interessante observar as diferenças, tentar entender e ser entendida. Nada mais importa do que estar com ele! Toda noite escolhemos nossos passeios e Paris é linda, tanto de dia, quanto de noite. A chuva às vezes atrapalha um pouco. Tudo é belo nessa cidade, embora seu povo seja meio abusado. Como se fôssemos obrigados a falar sua língua e como se estivessem fazendo um grande favor para nós turistas… Ontem naquela pâtisserie quase disse algo que rimasse como Merci Beaucoup… Ha ha ha!

Ele: Estou meio gelado hoje. Deve ser o frio. Sinto um misto de carinho paternal por ela, toda encolhida nesse vento frio… Mas estou cansado hoje. Algo na sua atitude me deixa meio irritado. Sempre chamando atenção por onde passa! Precisava ontem encrencar com o padeiro? Estamos em Paris, tanta coisa para fazer divertida, diferente. Não sinto que aprecie a viagem…

Ela: Não quero fazer nada para atrapalhar nossa viagem…

Ele: Acho que devo dizer a ela… contar toda a verdade…

Caminham em direção à Torre Eiffel… Cada vez mais apressados… Pois pinguinhos de chuva começam a cair.

Ele está entusiasmado com o lugar. Ela está com medo da altura, mas não diz nada. Aproveita a visão longe, bem longe dos parapeitos, como pode, à distancia… Ele nota seu receio, se aproxima e passa o braço em sua volta e vão descendo no elevador. Muitas emoções vão se sucedendo nessa descida…

Ela: Não adianta mais! Somos muito diferentes! Não consigo nunca agradá-lo!

Ele: Não adianta mais! Mas ela está comigo há tantos anos… Não posso decepcionar…. A  quem? A TODOS…??

Chove em Paris, ele compra um guarda-chuva para protegerem-se. Ela está gelada!

Ele tem pena… Abraça para protegê-la… Ali em Paris, onde muitos vão para namorar. Na frente da Torre Eiffel, ele a beija numa amorosa forma de despedida e ela sente, suspira… e acorda!

ELA: Ufa! Ai que sonho mais medonho, meu filho! Sonhei que estávamos em Paris. Paris, imagina? E você me dava um beijo de despedida…. Ai, meu Deus! Que horror! Abrace-me, meu bem!

Ele: Calma, meu amor! Estou aqui e não vou nunca lhe deixar! Foi só um sonho ruim….

Encosta sua mulher junto ao peito, esconde dentro da coletânea de poemas franceses, que estava lendo, o impresso do e-ticket da viagem dos sonhos à Paris…

 

Deslizar em um beijo nossos dois corações confusos ,

Tu que me ensinaste, já nem lembras mais.*

 

       À George Sand de Alfred Musset                                        

           

FIN

Recife, 23 de Setembro de 2016.

Bernadete Bruto

* Glisser dans un baiser nos deux coeurs confondus,

Toi qui me l’as appris, tu ne t’en souviens plus.

 

12-img_4980 (Jean-François Millet, The Frick Collection, New York)

 

PENSAMENTO NA LUZ DA LAMPARINA

DE LUZ E SOMBRAS

SOMOS NÓS

NA LUZ

VISLUMBRE DO ROSTO SERENO

ISENTO DE PENSAMENTOS

NA SOMBRA

O PESO DA VIDA

PREOCUPAÇÕES COSTURADAS

O DESTINO  ENQUADRADO

NO QUADRADO ESCURO

NA LUZ DA LAMPARINA

DO QUADRO SERENO

NO ROSTO DAQUELA MENINA (*)

 

“Estamos no ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1872. Sou uma mãe de família. Je m’apelle Pauline. Estou aqui sentada costurando na luz da lamparina, enquanto meu filhinho dorme. Este é o melhor horário para fazer os reparos. Meu dia é muito ocupado, cozinhar, lavar, passar, arrumar, em meio aos cuidados de meu filho pequeno. Então, aproveito a noitinha para a atividade que, de certa forma, é algo que me descansa, ainda mais agora, grávida novamente! Nesses momentos fico aqui pensando…

… Há pouco era uma moçoila sonhando com a vida! Agora estou aqui com esta realização. Meus pais escolheram o Jean-François para ser meu marido. Embora não questionasse, a princípio me deu um misto de alegria e receio… Agora, depois de passados três anos, algo sobre a luz da lamparina me deixa refletindo… SEI QUE A VIDA É ASSIM. Faço meus trabalhos como boa cristã, procuro ser uma esposa obediente e trabalho para que nosso lar esteja sempre bonito e aconchegante. Mas sou casada com um pintor. Por isso não posso exigir que a casa esteja sempre impecável. Ela tem de servir ao seu dono. Assim, muitas vezes costuro para fazer companhia a Jean-François, enquanto ele pinta, eu espero a hora para poder dormir. Algumas vezes o sono bate, cochilo sobre o tecido. Outras vezes me vem um vazio do fundo da alma… onde foi parar Pauline? Aquela menina loira que lia romances, conversava com as amigas e passeava junto com os irmãos nos arredores de seu solar sonhando com a vida futura???

Estou nessa vida agora. Costuro para não dormir. O bebê ao meu lado dorme depois de um dia de traquinagem. O senhor meu marido pinta o quadro, que não posso ver antes do término. Quando ele sair para dormir ainda vou ter que limpar a sala, levar o bebê para o berço. Minhas costas doem: o novo bebê que está nas entranhas começa a dar pinotes!

O relógio toca as dez badalas. O senhor meu marido parece que está no caminho certo do trabalho pelas pinceladas que relanceio daqui do meu canto e pelo visto vai demorar ainda… Estou aqui na luz da lamparina, com um pouco de vazio… Saudades de casa? De mim? Ou será que não foi suficiente minha ceia? Doidivanas! Não tenho tempo para pensar em baboseiras! Sou uma mulher católica. Estou cumprindo a mais honrosa missão e preciso terminar estas mantas. Logo o inverno chegará, o novo rebento nascerá e é meu dever manter tudo em ordem e aconchegado.

Novamente o carrilhão soa. Onze badaladas! Jean-François levanta feliz com o término da obra. Tão feliz, mas muito cansado! Depois dos cumprimentos de boas noites retira-se para os aposentos… Agora resta-me encerrar os serviços. Arrumo a manta, levo o bebê para o bercinho com um beijo na testa, passo o pano no vestíbulo.

Por fim, pego a lamparina para ir embora passando na frente da tela recém-pintada. Estanco. Estou estupefata! Pisco os olhos. Quem é aquela senhora costurando na luz da lamparina? Não consigo reconhecer a mim naquele espelho tão fiel da própria vida e infiel a minha própria alma! Quem sabe, por isso mesmo, prontamente, sopro a lamparina e saio no escuro em direção ao meu status quo.”

Recife, 23 de Agosto de 2016.

 

Bernadete Bruto

(*) Na luz da lamparina, Bernadete Bruto.

 

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(Johannes Vermeer, The Frick Collection, New York)

Almas Gêmeas

Uma moça anda pelo corredor do museu, toc-toc-toc. Viera para a exposição de Veemer que ficaria por algumas semanas na cidade. Toc-toc-toc, passa por vários quadros, mas um, somente um, lhe chama a atenção. Uma tela onde o cavaleiro conversa com uma dama. Esta cena lhe hipnotiza…

A moça olha fixamente para a tela, como se recordasse de algo… Havia visto aquela cena? Onde? Que livro, revista ou documentário? Quem eram aquelas pessoas? O que marcava aquele mapa na parede????

A moça olhou mais um pouco. Fixamente mais e de repente, num abrir e fechar de olhos, não reconhece a cena… ELA É A PRÓPRIA CENA! Com horror descobre que está dentro do quadro!!!! Levanta-se da cadeira, tenta sair pela tela, mas há algo como um vidro que impede a sua passagem.

Corre em direção à janela, mas ela também não abre mais do que estava na pintura e o chapéu do homem impede a sua passagem..

– Tudo é imutável, meu Deus! – disse a moça – Nada posso fazer… tudo ficará igual a tela! Uma pintura não se modifica com o tempo… Olha em volta desesperada procurando uma saída para aquele mapa e reconhece todos os lugares marcados.

Oxe, aqui só estão os lugares que visitei na minha vida… ai, meu pai! Que sonho horroroso é esse? Pisca os olhos na tentativa de acordar. Nada mudou… Com os olhos rasos d’água, ela senta-se na posição pintada, ri da própria desgraça com as mãos apoiadas na mesa e pronto! Nada mais é do que a moça da pintura… congelou naquele quadro! Apenas um observador mais atento notaria que a dama holandesa de sorriso doce tem uns olhos cheios de inquietude.

Toc-toc-toc, passos de um rapaz interessado na mesma exposição. Ao ver nos jornais, corre imediatamente para o museu. Toc-toc-toc, são seus passos caminhando pela exposição. Ele pára em frente ao fatídico quadro e reencontra-se com a cena familiar.

De longe, muito longe, há séculos atrás, o autor do quadro havia pintado aquelas pessoas com toda alma que, por esse motivo, por gerações permaneceram intactas, a energia presa ao quadro. Quando elas morreram, suas almas ficaram vagando por eras e hoje, encontram finalmente um destino.

Agora o olhar da mulher sorri no entendimento para aquele homem que também lhe sorri de volta. E assim, juntos, como por encanto, de mãos dadas, saem do museu conversando sobre as obras do grande artista holandês que pintava cenas domésticas.

Penso que é assim que as almas gêmeas possam se encontrar. Vão ter muito assunto para tornar interessante a companhia, aproveitando os dias em conjunto, transformados  numa agradável convivência, e, acho até, que vão ser felizes por muito, muito e muito tempo.

Recife, 24 de Agosto de 2016.

Bernadete Bruto

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(Foto: Castro Marim, Algarve)

 

Uma Casa em Algarve

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o sabiá.

(Trecho de “Canção do Exílio”, Gonçalves Dias)

 

“Todo santo dia passo na frente desta casa e invento uma série de desculpas só para, quem sabe, ver a menina que habita aquela casa? Por entre a porta e janelas fechadas, espero o instante feliz, no qual ela surja.

Menina linda, olhos negros, redondos, brilhantes e brincalhões balançando meu coração. Ao longe o som daquela música… menina linda que eu adoro, menina pura como a florEngraçado… Logo aqui, em Portugal, foi me acontecer tal fato… Tudo bem, tudo bem. A canção também não é brasileira!

Demorei demais aqui na frente. Não posso ficar mais… Os donos da casa, aquele senhor com ar sisudo e sua esposa de olhar desconfiado e arredio, logo me notarão se eu permanecer. Amanhã eu volto! Na manhã seguinte, passo novamente, e começo a inventar alguma desculpa para ficar olhando aquela casa, à procura da menina, já falei do seu sorriso? Para mim não há igual! Se não fosse esta laranjeira talvez eu conseguisse ver a minha menina…

A porta se abre num rompante, começo a andar olhando em outra direção, mais na esquina olho de relance para ver quem é… Ai, é aquela senhora desconfiada olhando de um lado para o outro, com uma vassoura na mão… Mas não me nota. Varre a calçada… Amanhã eu volto.

Não pude chegar pela manhã, chego no início da tarde. A laranjeira dá uma sombra na calçada que me lembra de outras sombras do passado recente… ouço a canção: sombras,  nada mais a torturarem meu ser…

A porta se abre. O senhor sai. Da porta, a senhora desconfiada lhe acena e rapidamente a fecha. E da janela? Da janela, nesse instante, vejo movimento. Logo desanimo… É apenas a senhora na janela! A menina, não está lá! Estou em Portugal e esta não é a minha casa, embora pareça demais com a casa da minha infância… Se não fosse o laranjal, diria até que voltei no tempo. E a menina que busco? Menina pura como a flor? Perdeu-se em algum lugar no meu coração… Agora apenas vejo sombras e nada mais!”

Recife, 23 de Agosto de 2016

Bernadete Bruto

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* Contato: elbalins@gmail.com

** Contato: bernadete.bruto@gmail.com

“Uma voz vinda de outro lugar”, de Maurice Blanchot: Uma ópera em quatro atos e uma peça teatral | Patricia Tenório*

05 e 06/04/2016

 

I Ato – Louis-René des Forêts

Encontro-me no Theatro (São Pedro?) Estadual. Aguardo para assistir ao espetáculo Uma voz vinda de outro lugar,[1] conduzida pelo maestro-escritor-ensaísta- romancista-crítico de literatura francês nascido em Quain, Saône-et-Loire, Maurice Blanchot (1907-2003). As cortinas da primeira página estão cerradas e não sei ao certo que tipo de espetáculo irei encontrar nesse teórico-poeta de O livro por vir,[2] livro que me falava de Joubert, o escritor do Não tratado em “O Bartleby que nos habita ou Uma voz vinda de outro lugar”.[3]

Começo pelo silêncio. Escolho algumas cenas desse palco-livro-espetáculo. Blanchot tem o dom de se amalgamar ao texto poético ao mesmo tempo que o analisa. Ele emite um primeiro acorde com Louis-René des Forêts em Ostinato.

Um sonho, mas existe algo mais real do que um sonho?”.[4]

O poema de Forêts remete ao sonho, ao silêncio, ao nada. “O próprio silêncio diz mais do que as palavras”.[5] Descubro agora que me encontro em uma ópera, com todos esses sons e silêncios, todos esses nadas e vazios. Uma ópera duodecafônica. E minha mente sai em busca de (quase) infinitas conexões.

Louis-René des Forêts (1916-2000) foi um escritor francês que nasceu e morreu em Paris, França. Escreveu, entre outros, Les Mendiants (1941-1943), Bavard (1946), La Chambre des Enfants (1960) que é agraciado com o Prix des Critiques. Blanchot escolhe um outro texto de Forêts, Ostinato, da mesma maneira que vimos com Paul Valéry em “Poesia e pensamento abstracto” – para viver uma experiência poético(-musical) muito mais do que compreender a arte.

Escrevi este comentário (o que parece fazer as vezes de um comentário) e, enquanto o escrevia, conduzido pelo movimento que é o dom do poema, fechava os olhos a essa falta que é transformar o poema (os poemas) numa prosa aproximada. Não há alterações mais graves. Esses poemas de Samuel Wood têm sua voz, que é preciso ouvir antes de acreditar compreendê-los. “Tocamos o verso.”[6]

Ostinato é a última obra de Forêts. Publicada em 1997 pela Mercure de France, Blanchot deseja “falar dessa obra, mas sem palavras, numa linguagem que me obceca ao me escapar”.[7] E nesse silêncio-som-obstinado, descobrimos que o título do livro de poemas de Forêts é um termo musical. É um “motivo obstinado que volta e não volta” em Alban Berg escutando Schumann; no “rigor obstinado” de Leonardo da Vinci que encantou “o jovem Paul Valéry”. Mas é exatamente no próprio Louis-René des Forêts que essa “obstinação” transforma-se numa “catástrofe imensa”: quando um “abismo”, um “desastre absoluto” que parece ter acontecido em sua vida o transformou em um escritor do Não (feito sai à caça Enrique Vila-Mattas em Bartleby e companhia[8]), e feito diz Blanchot, “foi privado do dom da escrita”.[9]

Maurice Blanchot fala de dentro do primeiro ato de nossa ópera “Louis-René des Forêts”. Foram amigos de juventude e o afeto também se amalgama junto à poesia de um e análise poética do outro. Blanchot narra o “naufrágio” do amigo, quando ele pára de escrever. E o momento em que reconhece que “para não escrever mais, seria preciso continuar a escrever, uma escrita sem fim até o fim ou a partir do fim”.[10] Ou uma escrita de um livro que nunca será escrito por Joubert, que Blanchot (também) analisou em O livro por vir.

“Só existem os espaços em branco se houver o negro, só há silêncio se houver a palavra e o barulho produzindo-se para cessar”.[11]

Os sons da música de Forêts/Blanchot me transportam a uma conexão com Agostinho de Hipona (354-430) em suas Confissões quando trata da permissividade de Deus quanto à existência do Mal.

Que são as trevas senão a ausência da luz? Se houvesse luz, onde é que ela poderia existir se não iluminasse nem aclarasse a superfície da terra? E quando a luz ainda não existia, o que era a presença das trevas, senão a ausência da luz?

As trevas reinavam sobre o abismo, porque a luz não brilhava sobre ele, do mesmo modo que reina o silêncio onde não há som. E que significa haver silêncio senão o não haver som?[12]

Ao não haver luz, a escuridão predomina. Ao não haver som, o silêncio perpassa todo o ser. Ostinato é uma obra de “organização fragmentária”. Por isso essa impressão de estar desconectada em relação ao todo, numa “falta de continuidade”. Seria uma autobiografia de Forêts? Está escrito no presente, ancorado no presente, feito não possuísse duração. E lembramos novamente de Agostinho quando nas suas mesmas Confissões interroga sobre “O que é, pois, o tempo?” e nos remete para o instante anterior à Criação, os tempos ainda não existiam, apenas habitava o Eterno, e o único, inexorável, absoluto Presente.

 

II Ato – Anacruse

(Maurice) Blanchot traz ao centro do palco um texto do filósofo francês nascido em Versalhes (Jean-François) Lyotard (1924-1998) sob o título de “O sobrevivente”. O texto filosófico lança luz sobre os poemas de (Louis-René) des Forêts.

Blanchot faz uma pergunta agostiniana: “Onde é o começo? É alguém ou alguma coisa que começa?”.[13] Ele nos ensaia uma resposta com Hegel, quando o “eu” já não pode falar por si mesmo, mas em forma de “nós”, como se fossem outros. O “eu” de então e o “eu” de agora. O “eu” do Eterno e não havia o Tempo, o “eu” na Criação de todos os Tempos.

Nos “Poèmes de Samuel Wood”, Forêts trata dessas “duas extremidades” do nosso percurso terrestre. A “dor de nascer”. A morte que, somente “os mortos, eles, sim, terminaram de morrer”.

O maestro Blanchot, o amigo Maurice nos apresenta em Les mégéres de la mer (1967) “Essa pátria inexistente” de Forêts, esse “País anterior” de um outro amigo de Louis-René, que em 1967 fundou juntamente com ele, Paul Celan, Jacques Dupin, entre outros, a revista L’Éphémere : o poeta-crítico-tradutor francês nascido em Tours, Indre-et-Loire, Yves Bonnefoy (1923).

O país que sonhei sob esse nome [o País Anterior], seria uma parte de nosso mundo, ou seja, qualquer coisa tão real quanto o lugar onde eu viveria com as mesmas árvores, as mesmas pedras. Ele, por exemplo, poderia ter uma de suas regiões num vale no meio daquela Itália central que, outrora, eu percorria. […] O país-anterior, no meu livro, no meu pensamento, é essencialmente, um devaneio sobre a linguagem.[14]

Esse “País Anterior” à linguagem, esse “filho arrancado de sua mãe”, “mátria”, “não pode portanto parar de nascer”: é condenado a uma “sentença de nascimento”.[15] Blanchot continua a perguntar-se – e na pergunta que encontra sua resposta se perfaz o Mito, já dizia André Jolles em Formas simples[16] –: “Por que não terminamos de nascer?”. E mais adiante nos apresenta a Anacruse.

Do termo grego anakrousis, nota ou sequência de notas que precedem o primeiro tempo forte do primeiro compasso de uma música. Blanchot faz soar em des Forêts que, “através da anacruse, se sustenta o silêncio daquilo que ainda se ouve ou vai ouvir-se naquilo que não se ouve”.[17] A “pergunta-resposta” mitológica de Jolles, o “País Anterior” de Bonnefoy complementam a melodia de Louis-René des Forêts no “lugar onde a criança que fui deixou suas marcas”, marcas “não daquilo que aconteceu”, alerta o maestro Blanchot, “mas do que jamais se passou”.[18] Da ficção.

A criança atormenta Louis-René des Forêts naquilo que “está prestes a nascer”, nesse “porvir”, “por vir” da escrita, que é tempo suspenso, sem Lei, e sem Pai, “escrevendo apenas para apagar o que já foi escrito”. Ou “a letra órfã do Pai ausente ou escondido do discurso” do filósofo francês nascido em Argel Jacques Rancière (1940) em seu Políticas da escrita.

Entre o sopro imaterial do oráculo e o sentido gravado na materialidade das coisas fica, é claro, o grande paradigma da Escritura confirmada pela encarnação. O que vem, duravelmente, realizar o resgate da letra e sustentar todos os sonhos de uma escrita mais que escrita é a encarnação cristã do Verbo, dando à letra seu espírito. Só um corpo vivo, um corpo que sofre, é capaz, em última instância, de garantir a escrita. Mas o grande  paradigma do resgate da letra também é o lugar do paradoxo reconhecido como verdadeiro. Somente o livro dá garantia que a verdade do livro foi apresentada pela carne. Somente as palavras vêm atestar que é mesmo escrita o que se realiza nas chagas de uma carne como no sopro do vento, nas estrias da pedra ou na estrada de ferro. Somente um excesso de escrita “morta” pode incluir a “voz viva” na escrita morta.[19]

“Há sempre algo por nascer”, conduz Blanchot. E desse “nascimento endividado consigo mesmo” alcançamos o timbre certo, o contratempo justo, contratempo que é “a espera do olhar para trás por meio de uma retrospeção em que se cria a ilusão de um presente que esteve desde sempre perdido, pois jamais existiu”.[20] Uma ficção. “Uma voz vinda de outro lugar”.

 

III Ato – A Besta Inominável, de René Char

Acelera-se o ritmo. Mas ainda é uma ópera. No terceiro ato da ópera Uma voz vinda de outro lugar, Blanchot nos transporta para Fedro, de Platão, que por sua vez é a transposição em palavra escrita da palavra falada por Sócrates no seu diálogo com o jovem protagonista título do livro.

Sócrates, o maior ágrafo de todos os tempos, tenta convencer Fedro – a partir das próprias conclusões do jovem – que a verdadeira linguagem é “a linguagem falada, em que a palavra está segura de encontrar viva na presença daquele que a pronuncia uma garantia”.[21]

Dizem que realmente nos tribunais ninguém se importa com a verdade de tais matérias, mas com o que é convincente, o que é chamado de probabilidade, de modo que aquele que pretende ser um artista do discurso precisa ter seu olhar fixo na probabilidade. De fato, às vezes, esteja tu acusando ou defendendo, não deves sequer relatar o que realmente sucedeu, se era improvável que sucedesse, mas o que era provável. Em resumo, um orador deve sempre ter em mira a probabilidade, não se importando com a verdade. A totalidade da arte consiste em acatar esse método ao longo de todo o discurso.[22]

A palavra escrita para Sócrates/Platão/Blanchot é “palavra morta, palavra do esquecimento”. Da mesma forma que a Palavra Sagrada, “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”, não sabemos de onde ela vem, seu autor, e, justamente por isso, “remete a algo mais original”, a Palavra dando “voz à ausência”.[23]

O poeta francês nascido em L’Isle-sur-Sorgue, Vaucluse, René Char (1907-1988) nos fornece um contratempo a essa ideia da Palavra Sagrada respeitada por Sócrates/Platão, enunciada por Maurice Blanchot na análise de “A Besta Inominável”. Char “renuncia a toda linguagem voltada para a origem”. Ele renuncia ao Deus encarnado na Palavra. Mas canta o “pressentimento”, a “promessa”, o “despertar”. Como se unisse no presente – e somente no presente –, no “espaço que o pressentimento retém, a palavra ao impulso”.[24]

A poesia unida ao futuro através do próprio impulso de René Char, “sua essência sempre por vir”, “ voz que ainda nada disse”, uma “palavra iniciante”, “força aquele que a escuta a se arrancar de seu presente” e “nos retira de nós mesmos”.[25]

Encontramos uma nova variação sobre o mesmo tema. A palavra que “não é vidente” (Rimbaud), mas “previdente” (Char), “palavra em que a origem se faz começo”,[26] nos remete a História e mito do filósofo, filólogo e professor universitário luso-brasileiro nascido em Lisboa e radicado em Brasília Eudoro de Souza (1911-1987), quando trata da diferença entre “lonjura” e “outrora”.

Lonjura e outrora negam espaço e tempo determinados, mas quanto mais nos afastamos desse âmbito do indeterminado, mais eles se afirmam em sua determinação; ou, pelo menos, assim parece. Se digo “lonjura”, não nego só a proximidade, mas a proximidade e a distância, porque o distante sempre se poderá volver em próximo; basta caminhar de próximo em próximo, para que próximo nos venha a ser qualquer distante. […] O mesmo se diria do outrora. Ou quase. Se digo “outrora”, nego o “agora”, nego esta hora, por força da afirmação de outra. Situo-o fora ou para além de todos os “agoras” que se alinham, para trás e para frente, direito ao passado ou ao futuro da hora presente.[27]

Palavra que, em René Char e as águas irretornáveis de Heráclito, realiza “esse duro combate com o que é anterior” (a “lonjura” e o “outrora” de Souza), “sofrendo uma dupla violência, parece iluminar-se através do silêncio nu do pensamento”.[28]

E pára.

 

IV Ato – O último a falar: Paul Celan

 

O último ato de nossa ópera Uma voz vinda de outro lugar nos apresenta, nu, cego e mudo, o poeta, tradutor, ensaísta romeno nascido em Cernăuţi Paul Celan (1920-1970), pseudônimo de Paul Pessakh Anstschel.

Estamos “cercados de branco”, em um “vazio saturado de vazio”, esses “olhos cegos para o mundo, olhos que a palavra submerge até a cegueira”, “a eternidade nasce cheia de olhos”, esse “fora / no não país, no não tempo (o contratempo)”,[29]  e o maestro Maurice Blanchot reúne todos os “músicos-poetas” (Agostinho, Bonnefoy, Jolles, Rancière, Sócrates, Souza), todos os “cantos-previdentes” no palco de nossa ópera duodecafônica que iniciamos com o barulho ao redor, com vários pensadores, e poetas e teorias por nós conectados, até chegarmos ao silêncio de Blanchot que não nos permite dizer mais nada.

A morte, a palavra. Nos fragmentos de prosa que Celan afirma seu projeto poético, ele jamais chega exatamente a renunciar a um projeto. Em seu discurso em Bremen: Os poemas estão sempre em movimento, estão em relação a alguma coisa, inclinam-se na direção de alguma coisa. Na direção de quê? De algo que se mantém aberto e que poderia ser habitado, de um Tu a quem seria possível talvez falar, de uma realidade próxima de uma palavra. É nesse mesmo pequeno discurso que, com extrema simplicidade e sobriedade, Celan faz alusão ao que poderia significar para ele – e, através dele, para nós – a possibilidade que não lhe foi retirada de escrever poemas naquela língua através da qual a morte se abateu sobre ele, sobre os seus próximos, sobre os milhões de judeus e não judeus, um evento sem resposta.[30]

 

Uma peça teatral – Michel Foucault

            Maio de 1968. Numa mudança (nem tão) radical de tom, da Poesia para a Prosa, para o “pensamento abstracto” (de Paul Valéry), nos descobrimos agora em forma de peça teatral em Uma voz vinda de outro lugar. Blanchot narra um encontro imaginário com o filósofo, historiador de ideias, teórico social, filólogo, crítico literário francês nascido em Poitiers Michel Foucault (1926-1984). No pátio da Sorbonne eles se encontrariam, “quando cada um podia falar ao outro, anônimo, impessoal, um homem entre homens, acolhido sem outra justificativa além de ser outro homem”.[31]  Descobrimos no final do livro de Blanchot a “forma” do nosso ensaio poético-musical-teatral: uma ficção do possível.

Foucault foi apresentado a Blanchot por Roger Callois que talvez considerasse o jovem pensador francês feito um “espelho em que discerne não seu duplo, mas aquele que gostaria de ter sido”.[32] Blanchot considera que desde o primeiro livro Foucault aborda questões referentes à filosofia (razão/desrazão), mas sob o “prisma” da história e da sociologia. Este tenta descobrir os perigos a que estamos expostos “para tentar ganhar tempo”, para tentar, através de estratégias, enveredar por caminhos mais desiludidos.

O “historiador de ideias” evita o estruturalismo porque “pressente um aroma do transcendentalismo”. Ele ancora-se na “superfície”, nega as “armadilhas da subjetividade”, “não rejeita a história, mas distingue nela descontinuidades”.[33] Notamos que Blanchot, agora em uma peça teatral, repete o mesmo “cânone” do Ostinato de Louis-René des Forêts, a mesma “organização fragmentária”, a mesma “falta de continuidade” da ópera em quatro atos, primeira parte do nosso ensaio, como que unindo as duas pontas da Prosa e da Poesia, do Teórico e do Ficcional, da Vida e da Arte.

Em A ordem do discurso, sua aula inaugural no Collège de France (onde, em princípio, dizem o que será feito nas aulas seguintes, mas que vão dispensar-se de fazer porque acabou de ser dito e porque o que foi dito não suporta ser desenvolvido), Foucault enumera, de forma mais clara e talvez menos estrita (seria preciso investigar se essa perda de rigor se deve apenas às exigências de um discurso magistral ou então a um princípio de dessinteresse diante da própria arqueologia), as noções que devem servir a uma nova análise. Assim, propondo o acontecimento, a série, a regularidade e a condição de possibilidade, ele usará esses termos para opô-los, um a um, aos princípios que, de acordo com ele, dominaram a história tradicional das ideias, opondo assim o acontecimento à criação, a série à unidade, a regularidade à originalidade e a condição de possibilidade aos significados – ao tesouro escondido dos significados ocultos.[34]

Foucault trata da noção de sujeito na produção literária. Essa “não-obra”, esse “não-autor”, essa “não-unidade-criadora”, não significa o desaparecimento do sujeito. Significa antes o questionamento da unidade, a fragmentação do todo, “essa nova maneira de ser que é o desaparecimento”,[35] “desaparecimento” que já vimos com o maestro-Blanchot quando regia o primeiro ato de sua ópera, quando conduzia-nos através dos acordes da poesia de Louis-René des Forêts e esse “escrevendo apenas para apagar o que já foi escrito”[36] que tratamos na página 5 de nosso ensaio.

Chegamos a Vigiar e punir, e não chegamos inocentes. Blanchot narrou A arqueologia do saber, A ordem do discurso, nessa peça teatral de linha condutória única, apesar de fragmentária. Descobrimos em Vigiar que “o confinamento é o princípio arqueológico da ciência médica”, que “a soberania tem origens obscuras”, e pressentimos que “Foulcault quase preferiria as épocas assumidamente bárbaras, quando os suplícios não dissimulam em nada sua atrocidade”.[37]

Foucault em Blanchot atualiza os conceitos de punição e poder e que não estão tão distintos daquela época “bárbara” quanto imaginamos. Ele nos recorda Heidegger quando nos remete à “analítica da consciência moral”, nossa “herança aristotélica” e que “no nosso interior, há uma palavra que se faz sentença, veredicto, afirmação absoluta. Isso é dito, e essa afirmativa primeira, removida de qualquer diálogo, é a palavra da lei, que ninguém tem o direito de contestar”.[38] E nos lembramos da “letra órfã de Pai ausente ou escondido do discurso” de Jacques Rancière (também) citado na página 5 do presente estudo.

No “contratempo” à Sociedade do Sangue, a Sociedade do Saber. Sangue hereditário. Saber sexual. A História da sexualidade de Foucault nos desafia “a recusar as pretensões da Lei”, porque o “sangue reabsorveu o sexo”. Mas tomemos cuidado. A peça teatral chega ao fim e o nazismo aparece fantasmagoricamente em História para nos lembrar das “fantasias do sangue com o paroxismo disciplinar”. Só resta a Foucault fazer as pazes com a psicanálise de Freud e a restauração da antiga Lei da aliança, quando este “devolveu à Lei seus direitos anteriores”.[39]

Só nos resta entender a última obra de Michel Foucault que foi ele mesmo. Na sua busca por uma genealogia da sexualidade na Antiguidade Grega, busca “passar dos tormentos da sexualidade à simplicidade dos prazeres”. Por quê? Porque a doença anuncia os seus últimos dias, anuncia as nossas últimas linhas desse ensaio, dessa ópera em quatro atos e uma peça teatral que chama-se Uma voz vinda de algum lugar. Blanchot se despede do encontro imaginário com o homem que admira, e nós nos despedimos deste ensaio com a fase final da vida de Foucault e seu cuidado com si, que foi cuidado com os outros.

Os livros que vai escrever sobre temas que lhe são muito próximos são, à primeira vista, livros de historiador estudioso mais do que obras de investigação pessoal. Até o estilo é diferente: calmo, apaziguado, sem a paixão que queima em tantos de seus outros textos. Entrevistado por Hubert Dreyfus e Paul Rabinow e interrogado sobre seus projetos, ele exclama, de repente: “Oh, eu vou primeiro cuidar de mim!” Declaração que não é fácil de esclarecer, mesmo se pensarmos um pouco apressadamente que, seguindo a Nietzsche, ele estivesse inclinado a fazer de sua existência – daquela que lhe restava viver – uma obra de arte.[40]

 

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* Para baixar o arquivo em PDF: Uma voz vinda de outro lugar – Uma ópera em quatro atos e uma peça teatral – Patricia (Gonçalves) Tenório – 05 e 060416

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* Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem nove livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007),  A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (2013)), Vinte e um / Veintiuno (lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016),  e, no prelo, A menina do olho verde (a ser lançado na Livraria Cultura RioMar Recife em 28 de maio de 2016 e possivelmente na Livraria Cultura Bourbon Porto Alegre em 11 de junho de 2016).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(1) BLANCHOT, Maurice. Uma voz vinda de outro lugar. Tradução: Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Rocco, (2002 in) 2011.

(2) BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução: Leila Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, (1959 in) 2005.

(3) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6502. Escrito em 12/03/2016. Última atualização: 27 de março de 2015.

(4) FORÊTS, Louis-René des apud BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 16, itálico da edição.

(5) FORÊTS, Louis-René des apud BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 18, itálico da edição.

(6) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 21, itálico da edição.

(7) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 25.

(8) VILA-MATAS, Enrique. Bartleby e companhia. Tradução: Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac & Naify, (2000 in) 2004.

(9) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 25.

(10) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 26.

(11) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 26.

(12) AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução: L. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, (397 in) 2013 – (Vozes de Bolso), livro XII, p. 293.

(13) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 31.

(14) BONNEFOY, Yves. Entrevista: Yves Bonnefoy: A Poesia Pode Criar um Novo Céu e uma Nova Terra. In Calibán: uma revista de cultura. Entrevista e tradução: Isabelle Macor-Filarska e Patricia (Gonçalves) Tenório. N. 10. Rio de Janeiro: Calibán, 2007, p. 9-10, itálico e colchetes nossos.

(15) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 35.

(16) JOLLES, André. Formas simples: Legenda, Saga, Mito, Advinha, Ditado, Caso, Memorável, Conto, Chiste. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, (1930 in) 1976, p. 83-108.

(17) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 36-37.

(18) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 38.

(19) RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Tradução: Raquel Ramalhete… [et al]. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 12.

(20) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 43.

(21) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 53.

(22) SÓCRATES in PLATÃO. Fedro. Tradução, apresentação e notas: Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2012, p. 112.

(23) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 55.

(24) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 60.

(25) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 62, 63 e 64.

(26) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 66.

(27) SOUZA, Eudoro de. História e mito. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981, p. 3.

(28) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 69.

(29) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 75, 77, 79, 83, 86.

(30) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 103, itálico da edição.

(31) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 113.

(32) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 115.

(33) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 118, 121, 123.

(34) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 103, itálico da edição.

(35) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 127.

(36) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 41.

(37) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 133 e 136.

(38) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 139.

(39) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 145-147, 148, 149, 150-151.

(40) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 158.

Índex* – Fevereiro, 2016

Quebra-cabeça**

Patricia Tenório

10/05/14

Perder a via

Por dizer a palavra

Me fez saber

A experiência da fome

A mais extrema pobreza

De sentido

De razão

Ter razão

É ter a vida inteira

Um boneco de madeira

Nas mãos

E nunca ser 

Um menino de verdade

Vou sair para o mundo

Vou esquecer o passado

E fazer-me novamente

Cada peça em seu lugar

Casse-tête**

Patricia Tenório

10/05/14

Perdre la manière 

Pour dire le mot 

Faites-moi savoir 

L’expérience de la faim 

La plus extrême pauvreté 

De sens

De raison 

Avoir raison 

C’est avoir dans une vie entière

Un mannequin de bois 

Dans les mains 

Et jamais être

Un vrai garçon

Je pars pour le monde 

Je vais oublier le passé 

Et me faire de nouveau 

Chaque pièce en place

 

 

O sair para o mundo no Índex de Fevereiro, 2016 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório…

“Como funciona a ficção” em “Se um viajante numa noite de inverno”: James Wood (Inglaterra), Italo Calvino (Cuba/Itália) & Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil) juntos.

Crônica de Marly Mota (Recife – PE, Brasil).

“Contradigo-me” | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

“Quem vai cuidar de mim?” | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

Mutirão #2 | Organização Poeta de Meia Tigela (CE – Brasil).

E os links do mês:

Homero Fonseca (Recife – PE, Brasil): www.interblogs.com.br/homerofonseca

Luiz Ruffato (MG/SP, Brasil): www.lendoosclassicosluizruffato.blogspot.com.br

Parlatório de Adriano Portela (Recife – PE, Brasil):

Clodoalto Turcato (Recife – PE, Brasil): www.parlatorio.com/a-armadilha-da-arte-conceitual

Danuza Lima (Recife – PE, Brasil): www.parlatorio.com/o-texto-que-e-o-mundo

E a minha infinita gratidão pelo envio de textos, livros, cores e poemas…

A próxima postagem será em 27 de Março de 2016, um grande abraço e até lá!

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – February, 2016

Puzzle**

Patricia Tenório

05/10/14

Loosing the way

By saying the word

Made me know

The experience of hunger

The most extreme poverty

Of sense

Of reason

Having reason

It’s having the entire life

A wooden puppet

In the hands

And never be 

A real boy

I’m going out to the world

I’ll forget the past

And make me again

Each piece in its place

 

The going out into the world in the Index of February, 2016 from the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório…

“How fiction works” in “If a traveler in a winter night”: James Wood (England), Italo Calvino (Cuba/Italy) & Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil) together.

Crhonicle of Marly Mota (Recife – PE, Brasil).

“Contradict myself” | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

“Who’s gonna take care of me?” | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

Mutirão #2 | Organization Poeta de Meia Tigela (CE – Brasil).

And the links of the month:

Homero Fonseca (Recife – PE, Brasil): www.interblogs.com.br/homerofonseca

Luiz Ruffato (MG/SP, Brasil): www.lendoosclassicosluizruffato.blogspot.com.br

Parlatório from Adriano Portela (Recife – PE, Brasil):

Clodoalto Turcato (Recife – PE, Brasil): www.parlatorio.com/a-armadilha-da-arte-conceitual

Danuza Lima (Recife – PE, Brasil): www.parlatorio.com/o-texto-que-e-o-mundo

And my infinite gratitude for sending texts, books, colors, poems…

The next post will be on 27th March, 2016, a big hug and see you there!

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** “Quebra-cabeça”(“Casse-tête”) encontra-se em Mutirão #2. “Puzzle”  is in Mutirão #2.

*** Mãe e filhos saem para  o mundo… Mother and children go out into the world…