Posts com Literatura

Índex* – Julho, 2017

Uma água de côco 

Um sonho nas mãos

Mas o sol

Se esconde por trás da

Chuva

E posso ouvir

A terra cantar

Da terra brotar

Flores particulares

 

Ainda ontem

Andei meu primeiro passo

Doei meu primeiro beijo 

E nem parece

Que o tempo passou

Ou passou

Nas gotas grossas de

Chuva

Que mergulham

Em meus cabelos

(“A trégua”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 10/07/17, cerca de 16h10)

Uma trégua para a Paz, para a Vida, para a Escrita Criativa no Índex de Julho do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto de sonhos | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

O FANTASMA DE LICÂNIA (PARTE XI) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Um conto e um poema de Alexandra Lopes Da Cunha (DF/RS – Brasil).

“Entre a neve e o deserto” | Gisela Rodriguez (RS – Brasil).

“Convalescente” | Magno Catão (RN – Brasil).

Serra da Capivara e seus mistérios | Mara Narciso (MG – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Diversos participantes.

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 27 de Agosto de 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – July, 2017

A coconut water

A dream in the hands

But the sun

Hides behind the

Rain

And I can hear

The earth sing

From the earth to sprout

Private flowers

 

Yesterday

I walked my first step

I gave my first kiss

And it does not seem

That time passed

Or passed

In the thick drops of

Rain

Diving

Into my hair

(“The truce”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 10/07/17, about 4:10 p.m.)

 

A truce for Peace, for Life, for Creative Writing in the July Index of Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Small tale of dreams | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

THE GHOST OF LICHEN (PART XI) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

A tale and a poem by Alexandra Lopes Da Cunha (DF / RS – Brasil).

“Between the snow and the desert” | Gisela Rodriguez (RS – Brasil).

“Convalescent” | Magno Catão (RN – Brasil).

Serra da Capivara and its mysteries | Mara Narciso (MG – Brasil).

Study Group in Creative Writing | Several participants.

Thank you for the affection and participation, the next post will be on August 27, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Uma trégua para as Férias no inverno de Recife – PE. A truce for the Holidays in the winter of Recife – PE.

Pequeno conto de sonhos* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

Pinup sentia-se presa como se estivesse em uma caixa de fósforos, os palitos de fósforos bem apertadinhos.

Ele vinha toda noite e a levava para jantar; depois a usava até os ossos, até a madeira do palito de fósforo.

Uma noite ele não veio. Pinup esperou. Ela ficou ansiosa, roendo as unhas das mãos e pensou em roer as unhas dos pés. Mas achou os pés sujos da poeira do lugar em que estava presa.

Resolveu pegar uma vassoura e limpar. Como era um lugar pequeno, varreu muitas vezes, tantas vezes que começava a arranhar o chão.

Resolveu lavar as roupas. Tirou a roupa do corpo, e o corpo estava tão magrinho feito um palito de fósforo. Teve medo de triscar a cabeça sem querer na parede, e tocar fogo sem querer na caixa agora limpinha em que estava presa.

Resolveu esperar. E o relógio não ajudava, sempre ali, marcando a mesma hora, e talvez ainda fosse o mesmo dia em que ele passou com um Audi vermelho na frente da casa onde ela vivia com os irmãos, Menécio e Prometeu, e os pais estavam viajando, e os irmãos estavam dormindo, quando ele passou com o Audi vermelho, e a chamou de Pinup, e ninguém a havia chamado de Pinup antes, apenas de Atlas, e agora ela se lembra de tudo, ele abrindo a porta do carro vermelho, ela entrando maravilhada, ele colocando no nariz de Pinup um lenço embebido em alguma porção mágica, até ela acordar na caixa de fósforos, e ter medo de triscar a cabeça sem querer na parede, e inventar o fogo.

(“Até os ossos”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 15/07/2017, 07h22)

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A partir de To the bone (2017), de Marti Noxon. 107 minutos. EUA. Com Lily Collins, Keanu Reeves, Carrie Preston, entre outros.

Patricia Gonçalves Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008) por As joaninhas não mentem, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo confjunto da obra. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no Doutorado em Escrita Criativa, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

O FANTASMA DE LICÂNIA (PARTE XI)* | Clauder Arcanjo**

Para Sherlock Holmes

(In memoriam)

 

— Desde ontem que você anda muito calado, mestre Acácio! — ponderou o fiel ajudante Dandora.

Um suspiro longo como resposta.

— Algo a ver com a conversa com o prefeito? — inquiriu Dandora, de pronto.

Dois suspiros longos como resposta.

— Os seus assessores estão desde cedo na Praça, Acácio, e você aí a… Como eu poderia dizer? Sim, a suspirar.

Três suspiros, ainda mais longos, como única resposta.

Dandora sabia que aquela suspirança toda não iria dar em nada; então, resolveu agir.

O pior remédio é não fazer nada. A meninada está na Praça Padre Antônio Tomás, vou me juntar a eles. Tentarei ganhar tempo! — pensou Dandora, e sebo nas canelas magras.

Ao chegar à Praça do Poeta, mestre Dandora levou um susto. Explico. A legião dos SYLs já passava da centena. Como poderia aquilo? — pensou. — Os seguidores estavam crescendo mais do que a criação de coelhos da Conceição! — espantou-se.

— Por onde anda o nosso líder maior? — inquiriu-o, de pronto, o jovem Aristides.

— Está concentrado, Aristides. Concentrado, suspirando e escavando possibilidades, caros companheiros! Vocês nem podem imaginar como é difícil, apesar de muito digna, esta nossa vida de investigador fantasmal — comentou Dandora, com a voz cava.

Mestre Dandora examinou os presentes, perscrutando cada cantinho da Praça, e compreendeu de onde vinha a bendita multiplicação dos assessores da SYL. Gazumba, comerciante escolado, resolvera encomendar, na cidade de Sobral, uma centena de brasões e sobre eles colara a insígnia da Scotland Yard de Licânia (SYL). Pelo preço módico de cinco reais, o tal brasão era levado ao peito do novo eleito. Sem falar que a ritualística se dava pelas mãos do representante da lei!

Sim, caro leitor, Gazumba confabulara com o Cabo Jacinto Gamão; e este, vaidoso com o papel que lhe coubera de Grão-mestre Supremo da SYL, cumpria as nomeações com o rigor que um batismo assim bem o merecia.

Cabo Jacinto exigia que o novo pretendente a legionário se ajoelhasse, levando a mão esquerda sobre um livro de capa preta bem gasta que Gazumba conseguira na sacristia, e a direita sobre o peito:

— Repita comigo: “Ego Testor coram Deo et princeps noster, gloriam nostram legione ex principiis”.

Depois, com um toque pessoal, Jacinto Gamão dava duas cacetadas, uma no traseiro e outro no lombo do abençoado, arrematando:

— Bem-vindo ao nosso exército, seu cabra!

Apesar da dor, ninguém chorava, todos sabiam que aquilo fazia parte do rito de passagem. Assistiram, na tevê do seu Zequinha Coletor, a muitos filmes em que tais cenas assim aconteciam.

Quase meio-dia, sol a pino, e nada do Companheiro Acácio, o Sherlock Holmes das ribeiras de Licânia.

— Lealdade tem limite! — berrou um dos de cabeça mais quente.

Nesta hora, mestre Dandora subiu num dos bancos da praça e pediu um pouco de atenção:

— Se queremos fazer parte de uma missão, companheiros da SYL, temos que resistir e…

Nem foi preciso continuar. A meninada se voltou para a esquina da casa do seu Zequinha Coletor, defronte à praça. De lá, com passos cadenciados e de porte altaneiro, surgiu a figura do nosso Acácio Holmes.

Foi aclamado pelos presentes. Vestido a caráter (boina, jaleco quadriculado e até com o indefectível cachimbo), sua imperial presença levou todos a celebrarem, antecipadamente, o grande feito que se avizinhava.

— Te cuida, fantasma velho! A boca agora está quente para você. Te cuida…

Nosso Acácio não era inimigo dos rompantes. Serenidade e discrição eram suas marcas. Antes que a celebração tomasse ares de festa (e vocês bem sabem como tudo em Licânia resvala para o terreno da política, da pinga e da jogatina), ele elevou o braço direito, não sem antes fingir uma pitada no cachimbo sherloquiano, e todos mergulharam no silêncio expectante:

— Se queremos fazer parte de uma missão, legionários da SYL, haveremos de nos reunir em campo mais discreto. Pressinto, e não sou de falsas percepções, que estamos cercados de espiões e espiãs. Reparem bem em quem está ao seu lado, corram os olhos onde a vista alcançar. Quem nos garante que o Fantasma não mora ao lado? — disparou, sem mais delongas, o Companheiro Acácio.

Leitor amigo, a situação muda tão só com uma sentença. E se propalada com a entonação cabida e com o veneno certo, nem queira saber!, a coisa mergulha rápido em mar de procelas mil. Pois muito bem, mal exarou aquela desconfiança, Holmes de Licânia percebeu que havia carregado na dose. Como carregado na dose? Explico. Estou aqui para isso.

Cada um dos SYLs passou a desconfiar do companheiro ao lado. Os olhares adquiriram uma nesga de sangue, os corpos franziram-se como se em preparo de luta livre, as mãos crisparam-se, os pescoços enrugaram-se. Enfim, como se se preparassem para um combate insano. Aqueles que levaram a vista em direção às casas vizinhas da Praça do Poeta logo identificaram ali: postigos suspeitos, venezianas ardilosas, passantes estranhos, observadores de jeito e ato esquisitos.

Em segundos, a batalha travou-se em fúria de titãs. Palco, o chão sagrado da Praça Padre Antônio Tomás. De início, a mão de tapa começou solta, seguida de palavrões inumeráveis e impublicáveis. Fez-se um bolo de gladiadores, atracados no piso cimentado, a distribuírem safanões, pernadas, cotoveladas e chutes nos países baixos. Cabo Jacinto Gamão, Acácio e Dandora em vão quiseram interceder, chamando a todos para o terreno da paz e da concórdia. Contudo, o sangue fervente tornara-os cegos e surdos a quaisquer sensatas admoestações. Após levarem uma meia dúzia de tapas e cusparadas perdidas, o trio deu-se por vencido, recuando para a calçada do Zequinha Coletor.

Alguns quiseram avançar, deixando o campo de guerra da praça para ajustar contas com os “fantasmas” identificados nas residências. Nesta hora, Dona Maria Djanira percebeu o risco da guerra civil licaniense. Convocou depressa as mulheres de Licânia e, em pouco tempo, a praça estava cercada pelas mães dos contendores.

Nisto, a amplificadora anunciou:

— Todo legionário tem uma mãe. E olhem, brigões, quem está cercando a praça!

Não posso descrever a cena, apenas sugeri-la. Mauro e Zé Célio, ao verem a mãe deles, Dona Teresa, com a palmatória de pregos, afrouxaram o ódio que os movia. Gazumba, coitado, só em ver os olhos vermelhos de sua genitora, urinou-se todo. Os demais, desabaladamente, dispararam no rumo de casa, a gritarem:

— Foi sem querer, minha mãe! Sem querer.

Meia hora depois, a praça era novamente do Poeta. Restaram flores pisoteadas, bancos depredados, sinais de sangue em todo o cimentado do logradouro público.

Ao canto, ainda espantados, os três líderes dos SYLs: Acácio, Jacinto e Dandora.

Dona Maria Djanira se aproxima do trio e admoesta-o:

— O Fantasma aqui sou eu. Vão trabalhar, seus bestas! Por onde andam as mães de vocês, que não lhes dão uma boa sova?

 

***

 

O capítulo de hoje se encerra aqui.

Por quê? Ora por quê! Minha mãe é a Maria Djanira, caro leitor, e não pretendo ser repreendido por ela, não.

— Sua bênção, mãe!

 

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* Publicado no Mossoroense em 30 de julho de 2017.

** Contatoclauderarcanjo@gmail.com

Um conto e um poema de Alexandra Lopes Da Cunha*

Pedido de Natal

A mãe diz: temos sorte de estar vivos. Que espécie de sorte é essa, pensa Anna, cheia de fome, toda ela transformada em falta. Privações, tempos duros, tempos tristes, intermináveis. A sua vida mal começara e parecia já tão gasta: olhava as próprias mãos, cobertas de frieiras, os cabelos a caírem em tufos, os joelhos ossudos. Chega a duvidar que já vivera outra vida, uma vida: com alegrias, comida farta. Lembra-se de que havia bolos, leite, ovos e natas. Geleias, abundância. Até a palavra agora lhe parece untuosa, rica em gorduras, e sente a boca se encher de água, o estômago vazio dar voltas sobre si mesmo e doer. Com os dedos de unhas roídas, escava o solo, à procura de algo para comer. Leva torrões de terra à boca e chora. Quando pensaria, quando cogitaria comer terra? E o reboco das paredes, para acalmar a língua. O inverno piorou tudo. Antes, Piotr conseguia trazer alguma caça: uns coelhos, pombos. Tudo parece haver morrido, pela guerra ou pelo frio.

Frio, frio e fome, duas constantes. Com as mãos cobertas de frieiras, analisa um verme que achou na terra. Cogita comê-lo, pensa que seria fácil fechar os olhos, colocá-lo na boca e mastigar depressa para não sentir. Mas não pode. Ela e Andrezj usavam os vermes para a pesca, para as carpas. Pensa que irá ao rio, levará o verme e, quem sabe, tenha sorte. Quem sabe pesque uma carpa para consumirem no dia de Natal. Terá de suportar a linha entre os dedos, se fisgar o peixe. Hão de doer as feridas, mas a fome dói mais.

Vai até ao estábulo vazio de cavalos, de cabras, de vacas. Encontra a vara de pesca, a sua, ao lado da de Andrezj. Uma fisgada na altura do peito. Lembra-se de anos passados: ela, o irmão a pescar, seus gritos de alegria quando sentia a linha retesar. Olhavam-se cúmplices. Era ali que se iniciavam as celebrações de Natal, com o peixe a puxar a linha.

Caminha arrastando o cabo da vara e o saco de estopa vazio. Os olhos colados no chão. O vento empurra-a para frente, torna seu esforço menor. Não fosse o frio, as poucas roupas que veste, estaria até feliz, mas a falta de alimento, de roupas quentes, a falta que lhe fazem o pai e o irmão, a ausência de notícias deles há tanto tempo, obscurecem o seu espírito. Tem esperança, apesar de tudo. De pescar um peixe. De que, neste Natal, estejam em casa o seu pai e seu irmão.

A barranca do rio já não é como antes. Nada é como antes. Desapareceram as árvores. Encontra carcaças de animais, madeira incinerada. Não percebe nada vivo em lugar nenhum. Não se aproxima muito, mas vê restos de homens. Os restos ainda vestem uniformes, não pode dizer se eram polacos ou alemães, os tecidos perderam as cores. O que era aproveitável: as armas, as botas, os casacos, foi levado pelos vivos.

Ao chegar ao rio, sem esperanças, prende o verme ao anzol, atira-o à água agora turva e pede, não sabe se a Deus, ao Demônio, ao que seja, pede um único presente de Natal; se não for possível ter o pai e Andrezj à mesa, que venha o irmão, que venha o irmão para estar junto dela, junto dela e da mãe, de Maria e de Anton. Haverá o de sempre, os nabos e batatas e, quem sabe, o peixe, se ela conseguir pescá-lo sozinha.

A linha retesa, Anna grita. De alegria e de dor. Esforça-se para puxar a linha, as mãos enregeladas não obedecem. Vai perder o peixe. Grita: Andrezj!

Sente alguém lhe tomar a vara das mãos. A princípio, não reconhece aquela sombra. O quepe cai sobre os olhos, a aba do capote cobre o restante do rosto. As mãos, as mãos tão brancas e frias, o formato das unhas azuladas. O seu irmão.

Imobilizada pela alegria, pela graça concedida, Anna não consegue se mover, não consegue fazer nada mais que admirar a facilidade com que o irmão fisga e traz a carpa à superfície,  liberta-a do anzol sem feri-la e a coloca no saco.

Só então ele a olha. Ou melhor, olham-se os dois. Andrezj veste o mesmo uniforme que levava quando esteve ali pela última vez, há tanto tempo. Seu rosto não mudou, é apenas sua palidez de estátua que denuncia seus sofrimentos de soldado. Isto e as olheiras fundas. Seus olhos, agora turvos como a água, refletem grande tristeza, ou Anna os vê assim.

Anna abraça-o. Não desejava chorar, mas chora. Era tanta a dor a corroer seu peito, que, ao entregar-se a ela, perde o controle das pernas. Abraça-se ao corpo rígido do irmão, chora e grita, chora e soluça. Chora e chora, enquanto ele segura o peixe dentro do saco, teso, incapaz de interrompê-la, incapaz de consolá-la.

Anna estranha a atitude do irmão, mas pensa que ele viu demais nos campos de batalha. Anton já havia lhe dito: um soldado que retorna da guerra fica para sempre ferido. Anton era coxo, perdera parte da perna. Anna sabia que pernas amputadas não mais cresciam. O irmão parecia inteiro, mas talvez lhe faltasse um pedaço. Um pedaço que Anna não atinava qual seria.

Quer levar Andrezj para casa, vamos Andrezj, a mãe há de ficar tão feliz, diz a menina.

Não posso, Anna.

A luz que habitava o corpo da menina abandona-o ante a negação. Por que, deseja saber.

A mãe não suportaria, ele responde. Ela se assustaria, agrega.

Mas havia de ser um susto bom, Anna insiste.

“É impossível”, ele mantem-se firme. “Devo voltar para o meu batalhão. É lá onde devo estar”.

“Deve ser assim, Andrezj?”

“Deve ser assim, Anna”.

“Onde está o seu cavalo? Como chegaste até aqui?”

“Apenas cheguei. Para atender o seu chamado, irmã”.

“Saberás voltar?”

“Eu já estou lá”.

Andrezj entrega-lhe o saco com o peixe. Coloca o capote nos ombros da irmã. Ela quase se perde debaixo de tanto tecido, mas sorri, aquecida.

“Tenha coragem, Anna”.

“Eu terei, Andrezj”.

Ela beija o rosto do irmão, tão frio está que lhe pergunta se não lhe fará falta o casaco, se não vai ser penalizado por voltar sem ele.

“Não me fará mais falta”.

“Quando a guerra acabar, Andrezj, poderás então voltar?”

“Uma parte de mim nunca deixou de estar aqui, Anna”.

Andrezj coloca o quepe na cabeça da irmã e este afunda sobre a pequena cabeça. A menina sorri. Quando o levanta, o irmão já não está mais.

Anna retorna para casa. Anda com dificuldade. Pelo peixe que se debate dentro do saco, pelo peso do capote que leva aos ombros, pelo quepe que equilibra sobre a cabeça. Quando a mãe perguntar como conseguiu: o peixe, o casaco e o quepe. A menina já sabe o que responder:

“Foi Andrezj, mamãe. Meu pedido de Natal”.

 

Patrimônio

 

O que tenho de meu é esta dor

calada e queda,

esta dor silente e funda,

dor fundação,

cimento e pedra,

como os ossos que me sustentam

o corpo

(se não os ossos do meu corpo).

 

É esta dor que me acompanha

desde sempre, irmã-siamesa

ou apêndice supurado,

onipotente,

iluminando, com raios tórridos,

o céu exangue de minha boca

sempre cerrada com um sorriso.

 

O que tenho de meu é esta dor,

somente ela,

apenas ela.

Sou eu, minha dor,

o meu silêncio

de catedral vazia]

e um sorriso de cadeado.

 

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* Contatoalexcunham@gmail.com

“Entre a neve e o deserto”* | Gisela Rodriguez**

1.

Hoje começa a terapia. Quanto tempo?, pergunto como se voltasse para o lugar de onde não saí, e outra vez ouço: o necessário. Uma corrente invisível me prende nessa situação e como um recém-nascido dependo dos mais velhos para sobreviver. Condenado às regras da imensa burocracia por uma vida plausível. Uma guerra invisível, sem baixas nem feridos e sem medalhas, no entanto, com tudo de psicologicamente assustador. Bilhões de pessoas sobrevivem nessa hora. Cada ser humano, um por um, com detalhes de uma intimidade irreconhecível para outros, formando um número absurdo de vidas. Eu também tenho de sobreviver.

Uma bandeira de três cores vibrantes com o emblema patriótico foi erguida no pátio. Imenso orgulho tremulando. Deve ser ano de copa mundial de futebol; neste país ninguém exibe a flâmula senão por motivos de disputa em jogos. Mamãe pergunta se preciso de carona. É um momento importante. Vai definir todas as próximas tardes. Penso em quebrar o vidro do extintor de incêncio, revirar a carteira da sala de aula, fugir da aula de matemática, botar a língua para fora na sala do inspetor; depois fazer uma careta estrambólica, bancar o mal-educado, chutar o lixo no corredor do banheiro das meninas e no dos meninos e seguir porta afora; embora não esteja mais na escola. Digo que sei bem o que me espera, e bebo o café. Forte e quente esse café. Decido ir só e absorver a cidade com suas limitações num golpe apenas. Uma cidade conhecida e desconhecida agora.

 

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Abertura de Entre a neve e o deserto. Gisela Rodriguez. Porto Alegre: Libretos, 2014, p. 7-8.

** Contatogicarodriguez@yahoo.com.br

Serra da Capivara e seus mistérios |Mara Narciso*

19 de julho de 2017

A BandNews apresentou na semana passada uma série de reportagens sobre o Parque Nacional da Serra da Capivara (criado em 1979), no Piauí. Em tudo o lugar impressiona, desde sua beleza geográfica, cheia de cânions, até seus habitantes do passado, os homens pré-históricos, que segundo a datação com carbono 14 aconteceu desde há 100 mil anos, e os atuais, os macacos-prego que fazem armas de pedra lascada e cutucam frestas com gravetos para capturar bichos vivos.

A UNESCO declarou o lugar Patrimônio da Humanidade em 2014, e a Revista Americana Nature dá valor incontestável ao sítio arqueológico. Reportagens como estas do Jornal da Band fazem os brasileiros querer conhecer esse lugar raro, de onde pululam imagens e objetos únicos.

Os arqueólogos tiram os sapatos antes de pisar o solo sagrado, onde se escavam com escovas de cerdas macias e ferramentas de ourives. Os tesouros capturados são guardados no Museu do Homem Americano, desde restos mortais no chão ou dentro de urnas mortuárias semelhantes a vasos de cerâmica, objetos outros, pedras lascadas como possíveis armas produzidas pelo homem primitivo (resultado de oficinas líticas ou pedras que se desprenderam do teto das cavernas?) e fogueiras petrificadas.

O mais intrigante é a coleção de pinturas rupestres, o maior acervo do mundo, que enfeitam as pedras, feitas de uma tintura avermelhada, retirada no próprio local. Mostram o cotidiano dos antigos moradores, com cenas de beijo, sexo, nascimento, morte e muitas caçadas. A interpretação das imagens ganhou vida pelo uso tridimensional das mesmas. Ficou como uma história em quadrinhos contada há milhares de anos. Inacreditável! Tanto é que os estudiosos americanos não acreditam que o Homo sapiens pudesse estar nas Américas em tempos tão remotos. Mas a prova está lá.

O ambiente é inóspito, seco, de estética impar. Pode-se imaginar, pelas gravuras, a rotina da população do lugar, que, vinda da África, de barco, uma parte dela sofreu um naufrágio, a julgar pelos sinais no solo, indicativos de que ali já foi o fundo do mar, e fragmentos de uma provável embarcação primitiva, com restos mortais arrumados um na frente do outro, como se tivessem morrido dentro de um espaço restrito. Seria uma embarcação?

Há assunto para se ver durante dias, e além das pinturas, os macacos, que são duas centenas, despertam a curiosidade dos cientistas pelo comportamento diferenciado. Surgem entre as pedras, pulando pelas árvores. Formam grupos e passam seus conhecimentos de geração a geração. Quando um deles está comendo, não divide com ninguém, nem mesmo com o filho, e se outro, estando colado, tenta tocar no alimento, explode uma briga.

Ficam parte do tempo batendo duas pedras soltas, até tirar uma lasca. Então, lambem a parte que se rompeu, e a usa como ferramenta para conseguir comida.

Apenas os machos arrancam um galho de árvore, tiram as folhas, regulam um tamanho único, e, com a vareta, vão caçar entre as fendas. Comem de tudo, sementes, frutos, insetos, cobras, lagartixas e mais.

Foi encontrada a ossada de uma preguiça gigante, que pesava quatro toneladas e viveu a dez mil anos, num lugar onde o aeroporto já está pronto, e mais incentivo governamental poderia garantir a melhor sobrevivência do Parque Nacional da Serra da Capivara, para saltar de 25 mil para 200 mil visitas turísticas ao ano.

A perfeição da matéria jornalística dá uma sensação de vácuo, quando acaba, um chamariz incontestável.

http://180graus.com/televisao/jornal-da-band-exibe-serie-sobre-o-parque-nacional-serra-da-capivara

 

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* Contatoyanmar@terra.com.br

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Julho, 2017

Não lembro exatamente quando o nome me foi dedicado, mas lembro perfeitamente quem o dedicou. Meu avô paterno, O Major de meu primeiro livro,[1]  José Tenório de Albuquerque Lins, gostava de me contar estórias de uma corujinha que vivia nas matas do interior de Alagoas, e essa coruja possuía filhotes, e esses filhotes eram os mais lindos do mundo. Veio um gavião e os comeu, achando que não poderiam ser os filhotes da mãe-coruja, visto serem extremamente feios.

Foi assim, sentada no colo de meu avô, que ele me chamou  pela primeira vez de professorinha. Eu usava, desde os três anos, óculos de grau com arame atrás das orelhas, por causa de hipermetropia e astigmatismo. Sentada no colo de meu avô, ele profetizava o que, mais de quarenta anos depois, foi repetido pela segunda vez por minhas alunas do Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

Alunas. Nome doce e ao mesmo tempo difícil de conciliar, quando lembramos da responsabilidade que carregamos em nossas costas – feito as asas de Ícaro –, por depender de nós toda uma tendência para o bem ou para o mal. O professor pode elevar o aluno ao mais alto grau de auto-estima, e de conhecimento, e de desenvolvimento próprio, como também pode destruir um potencial num piscar de olhos. Uma vez escrevi que as duas profissões que mais admiro no mundo são o médico e o professor. De maneiras diferentes – mas tão importantes quanto –, as duas profissões salvam ou condenam uma vida, curam ou matam. E o professor pode retirar de nós o melhor do ser humano. Isso tudo quando aplicando a aprendizagem que mais acredito, aquela que na língua francesa encontramos tão bem exemplificada com o verbo aprendre – de ensinar e aprender –, aquela que chamo de “aprendizagem pelo afeto”.

Nada melhor na aprendizagem pelo afeto do que um livro bom. Os nossos melhores amigos. Aqueles que não nos deixam sós, e dizem exatamente aquilo que gostaríamos de escutar naquele exato momento.

E nada melhor do que construir um livro bom. O cheiro de um livro bom. O som das páginas novas folheadas. O tato nas palavras recém-impressas. Sobre a Escrita Criativa. Essa é a experiência que estamos vivendo, eu e minhas alunas do Grupo de Estudos em Escrita Criativa. Foi proposto aos participantes do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco[2] que escrevessem como a Escrita Criativa entrou em suas vidas, e estão surgindo textos em que se retoma toda a trajetória de seus processos de criação. Textos emocionantes, mas sem perder a qualidade teórica nem ficcional, pois navegar entre esses dois âmbitos, entre os dois pólos aparentemente contrários, mas que se comunicam, e se complementam, e se ajudam, é o que nos faz seres humanos. É o que nos faz escrever melhor.

Em agradecimento a esses participantes, e, principalmente, às minhas alunas Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, dedico este post, e esse livro, e a minha história de vida, d’O Major até os dias de hoje.

Elas

Apareceram

De repente

Em minha vida

Todas

Transparecendo

Em algum momento

Uma ruptura

Um cansaço

Uma busca

 

Eu

Propus um tema

E todas

Me entregaram

As tarefas

Tão brilhantes

Tão limpinhas

 

Que foi só

Triunfo

Da Poética

Que se fez

Conto

Da História

Que floresceu

Assim

Como se nada

Aconteceu

 

(“As alunas”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 01/07/17, 17h15)

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(1) TENÓRIO, Patricia. O major – eterno é o espírito. Recife: Edição do Autor, 2005.

(2) Que acontecerá de 13 a 15/10/2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, Centro de Convenções, Recife – PE. Maiores informações: patriciatenorio@uol.com.br, rogerio@cia-eventos.com e sidneyniceas@gmail.com.

Índex* – Junho, 2017

Hoje

Ouvi estórias

Que me fizeram

Arrepiar

Que me fizeram

Acreditar

Em mera

Inspiração 

*

Mas 

Inspiração é

Carne

Inspiração é

Osso

Onde o frio

Penetra

Até o mais 

Insuportável 

*

De se criar

*

De se escrever

*

Uma estória criativa

Uma escrita criativa

A partir

De textos seus

Em busca

De textos meus

(“Ode à Escrita Criativa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 07/06/17, 18h00)

Uma Festa da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Correr com rinocerontes” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“O Jardim das Hespérides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“O amor é um lugar estranho” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Ocaso: contos de entreluz” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco | Diversos.

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 30 de Julho de 2017, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Index* – June, 2017

Today

I heard stories

That made me

Bristle

That made me

Believe

In mere

Inspiration

*

But

Inspiration is

Meat

Inspiration is

Bone

Where the cold

Penetrates

Until the

Unbearable

*

To create

*

To write

*

A Creative Story

A Creative Writing

Starting

From your texts

In search

Of my texts

(“Ode to the Creative Writing”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/07/17, 6:00 p.m.)

 

A Creative Writing Feast in the June, 2017 Index of Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Tales for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Running with rhinos” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“The Garden of the Hesperides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“Love is a strange place” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Sundown: fairy tales” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Clear night: a romance (and a woman) in fragments” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Creative Writing Studies Group & I National Seminar on Creative Writing | Miscellaneous of authors.

Thanks for the participation and the affection, the next post will be on July 30, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Festa Criativa da turma Oficina de Criação Literária I – Narrativa, 2017.1, ministrada pelo Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUCRS – Brasil. The Creative Feast of the Classroom of Literary Creation I – Narrative, 2017.1, taught by Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, at PUCRS – Brasil.

 

Contos para uma Escrita Criativa| Patricia (Gonçalves) Tenório*

Intervalo[1]

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.

O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

 

O Grito[2]

No começo foi o grito.

(Anésia Pacheco e Chaves)

Acendo o abajur e a lâmpada queimada não ajuda a chegar ao banheiro, lavar o rosto, olhar no espelho quebrado.

Me olhar no espelho quebrado.

Crescem rugas no meu rosto estranho. Não pertenço a este lugar? Desde ontem vejo coisas, sinto coisas e não sei o que dizer.

– Aceita este homem…

Bebo um café bem forte. Tão forte o café que a garganta arrepia as amídalas, desperta as papilas.

– … na saúde e na doença…

Tomo um banho demorado. Faço espuma com o sabão, ensaboo o corpo inteiro à procura de mim mesma.

– … respeitando-se…

Que sorte ser feriado! Não preciso levar as crianças ao colégio, a roupa na lavanderia, o cachorro para passear…

– … como seu futuro ex-marido?

Carlos veio ontem visitar as crianças com os papéis do divórcio. Devo ler com calma, assinar com calma, consultar com calma o advogado. O advogado, olhos cor do céu.

Um novo céu.

Um novo dia.

Acompanho os alunos na visita ao museu. Pedro é o maior de todos. Pedro, com seus nove anos e a cadeira de rodas.

– Tenho superpoderes, professora!

– Sim, temos todos superpoderes, Pedro. Você, na cadeira de rodas, pode chegar mais rápido. O Flávio, com os óculos, enxerga melhor. A Alice, o aparelho nos dentes… tão afiados os dentes da Alice. Mas não temos, nenhum de nós, o poder de desaparecer e aparecer em outro lugar… Por isso, meninos e meninas, eu na frente, porque somente eu sei o caminho!

O caminho diferente hoje, no museu de sempre. Os quadros de sempre e ninguém me avisou, que, no meio da exposição de Gauguin, e Van Gogh, e Tarsila do Amaral, lá estava ele, impávido, silencioso, tão silencioso como sua morte certa, como se me contasse algum segredo vindo do caixão.

– Desculpe, professora, esquecemos de avisar que esta área está reservada ao velório do Doutor Muniz.

Não quero saber do segurança, dos quadros, dos alunos, só o morto me interessa, só o morto atravessa a sala enorme sem jardins. Por que nem os girassóis, nem a pergunta de onde somos, mas para onde iremos, Sr. Muniz? O senhor agora sabe, o senhor agora entende como tudo aconteceu. Como Carlos me deixou. Como Carlos deixou de me amar amando outra, ou será que amou outra para deixar de me amar?

– São tão estranhos, os mortos…

São tão estranhos, os homens… E ali me aquietei. Ao lado da viúva. (A amante?) Da filha. (Uma bastarda?) O caixão. Um homem de bigode e barbas brancas. Ele não olhava para mim. Não olhava mais ninguém. Mas, se eu me abaixasse, se por um instante escutasse, sairia o que dos seus pulmões?

– No começo foi o grito.

Lembro aqui, sentada, parada, com os alunos pulando ao meu redor, o segurança falando ao meu redor, que ouvi aquela frase, eu li aquela frase, no começo foi o grito, em alguma exposição. Mas o que importa agora? A arte, os artistas, os alunos, se o Sr. Muniz está morto?

– Não conheço o Sr. Muniz.

E a viúva (amante?), a filha (bastarda?) seguraram a minha mão. Aqueceram a minha mão como se ao defunto aquecessem, como se ao defunto quisessem fazer ressurgir e descobrir o que há do outro lado.

– Ele é mais feliz agora.

Saberá de tudo agora? Com a viúva e a filha em minhas mãos? Que eu traí Carlos primeiro, com o carteiro, o padeiro, o açougueiro, a amiga da sua prima. Com a prima também?

– Era um homem muito justo.

E a justiça, Sr. Muniz? A quem se aplicaria, a quem se gritaria pedindo o perdão?

 

A CIDADE UNIVERSITÁRIA[3]

Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais. Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler. Era bom aquele começo, com a esperança no coração. Inventaram para o Barulho Extremo músicas dessas para relaxar. Ouviam baixinho antes, durante e após as refeições. Conseguiam fazer suas tarefas mais difíceis, das que precisam de uma concentração profunda, usando aquelas músicas que aquietavam.

O filho do prefeito, era João o seu nome, inventou uma outra ferramenta para ao Barulho abafar. Era o Riso, ele dizia, que se mal não faz, bem então fará. No princípio, todos riam assim forçados, todos riam desanimados só para agradar ao menino. Mas depois descobriram que rir era mais fácil que imaginavam e rir fazia imaginar. Imaginavam dias luminosos, coloridos, as árvores cheias de folhas, as abelhas retornando às colmeias, o néctar de flor em flor.

E foram aos poucos e persistentes, exercitando aquele Riso, e transformando o pensamento em positivo cada vez mais. Se reuniam na pracinha da cidade, debaixo da sombra do Carvalho, e riam uns dos outros, de si mesmos e dos animais, que passeavam livremente, meio espantados no começo, por verem aquele sorriso contínuo. Sentiam-se ridículos, é verdade, os habitantes da cidade. Mas sentiam-se jovens, intrépidos, relaxados, e brincavam uns com os outros, e faziam cócegas uns nos outros para o Riso fomentar.

Voltavam para casa cansados, o rosto vermelho, os olhos brilhantes. E nem mesmo na hora da refeição, conseguiam parar o Riso – ele já contagiava. A cidade era assim transformada, de uma cidade comum que vivia nas cinzas, no Barulho Extremo, em uma Cidade Universitária.

As disciplinas estudadas pelas crianças na Escola, levadas em tarefas para casa eram multidisciplinares. Sabiam entre si estudar das mais fáceis às mais difíceis, e retornavam às mais fáceis para melhor aprender. Os adultos começaram a sentir necessidade em retornar aos estudos, para aos filhos ajudar, para aos filhos fazer admirar, do menorzinho ao mais velho.

Mas professora Mariana alertou que não era esse o caminho. Que não deveriam estudar somente para aos outros agradar. Precisavam encontrar um propósito, um propósito original, um sentido essencial, que agradasse a si próprio em primeiro lugar. Para então, aos pouquinhos, às crianças ajudar, aos seus filhos ensinar com o Aprendizado pelo Afeto.

Era o Aprendizado mais eficiente, aquele que perpassa o Tempo, transpõe Espaços e quem recebe carrega para a vida inteira. Ninguém do aluno ou da aluna pode retirar. Quando se entrega um Ensinamento coberto de Carinho, esse Carinho se entranha no Ensinamento, se entranha em quem recebe para nunca mais acabar. A Memória permanece fiel ao Ensinamento, pois com o Afeto se tornaram irmãos. Irmãos gêmeos, siameses, e espelham um no outro o que o Carinho envolveu, o que o Afeto transmutou em ondas de Aprendizado perpétuo.

 

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Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados: O major – eterno é o espírito2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa; Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Doutoranda em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, sob a orientação de Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(1) Conto extraído de Grãos, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Rio de Janeiro: Calibán, 2007.

(2) Conto extraído de Vinte e um/Veintiuno, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Madri, Espanha: Mundi Books, 2016.

(3) Trecho extraído de A menina do olho verde, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Recife: Raio de Sol, 2016.

 

“Correr com rinocerontes”* | Cristiano Baldi**

O abismo da existência e o terror infinito de estar vivo e de repente eles retornam à sua vida e para isso basta que o telefone toque no domingo pela manhã e então você tem de tomar decisões. Algumas prosaicas, que envolvem malas, roupas, temperatura em Porto Alegre, e que até podem ser negligenciadas, e outras mais importantes, que certamente serão negligenciadas, e que compreendem coisas como a sua namorada e o seu curso de mestrado. De repente o telefone toca e lhe autoriza a pôr de lado tudo aquilo a respeito do que sua vida adulta lhe cobra responsabilidade e bom senso e lá está você, dentro de um táxi, tentando justificar a sua falta de caráter. Você diz para si mesmo que um bom infortúnio coloca a vida em perspectiva e que às vezes ser um canalha é a única opção. Você pensa nessa mentira, pensa nela e em algumas outras, enquanto um taxista de extrema esquerda exige do Estado maiores intervenções na economia, você pensa nessa mentira e os quarenta minutos que separam sua casa do aeroporto de Guarulhos não são o bastante para convencer a si mesmo de que fez as coisas do único modo que elas poderiam ser feitas.

A verdade é que eu estava sendo um sacana por não avisar Bárbara, não contar o que ocorrera em Porto Alegre. Não explicar que eu tinha que fazer aquilo de qualquer jeito, tinha de deixá-la de qualquer jeito, tinha de deixá-la por algum tempo, talvez algumas semanas. Que não poderia levá-la comigo porque não queria atrapalhar sua vida e seus estudos. Não seria justo obrigá-la a desmarcar com os primeiros pacientes do consultório, conquistados com a tenacidade quase viril de uma feminista de vinte e seis anos. Não poderia fazer tudo isso em nome de algo que era um mal-entendido.

E eu estava definitivamente sendo um irresponsável ao me afastar do curso de mestrado quarenta dias antes da entrega da minha dissertação. O curso de mestrado na principal universidade do país. Um bom curso, sob muitos aspectos, mas que por isso mesmo não deixava abertura para a controvérsia. Longe de ser um filisteu, eu apenas perguntava para onde tudo aquilo me levava. As aulas de Estética, de Teorias da Criação Literária, os seminários de poesia. As colegas feias. As colegas não tão feias, mas lésbicas. O sexo quase inexistente, um deserto de sexo, a impossibilidade do coito, que me obrigavam a andar pelos corredores dos prédios vizinhos, a almoçar em suas lanchonetes, a frequentar aulas de outros programas de pós-graduação. Eu seguia com aquilo apenas por seguir, porque evitava dilemas, porque era mais fácil, mais prático e porque, ainda que para a média das pessoas não significasse muito, para a minha família a academia, e o conhecimento de um modo geral, eram algo a se levar a sério. A arte também o era, sobretudo a ficção, e ainda mais o romance. Mas a antiga diligência acadêmica de minha mãe, e do meu avô antes dela, ainda não me atingira. E, como todo mundo sabe, para escrever qualquer coisa – um livro como este ou uma dissertação de mestrado – para escrever qualquer coisa, é mais importante ser diligente do que alfabetizado.

[…]

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Abertura de Correr com rinocerontes. Cristiano Baldi. Porto Alegre: Não Editora, 2017, p. 9-11.

** Contatobaldi@serraleoa.org