Posts com Literatura

Índex* – Junho, 2017

Hoje

Ouvi estórias

Que me fizeram

Arrepiar

Que me fizeram

Acreditar

Em mera

Inspiração 

*

Mas 

Inspiração é

Carne

Inspiração é

Osso

Onde o frio

Penetra

Até o mais 

Insuportável 

*

De se criar

*

De se escrever

*

Uma estória criativa

Uma escrita criativa

A partir

De textos seus

Em busca

De textos meus

(“Ode à Escrita Criativa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 07/06/17, 18h00)

Uma Festa da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Correr com rinocerontes” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“O Jardim das Hespérides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“O amor é um lugar sozinho” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Ocaso: contos de entreluz” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco | Diversos.

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 30 de Julho de 2017, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Index* – June, 2017

Today

I heard stories

That made me

Bristle

That made me

Believe

In mere

Inspiration

*

But

Inspiration is

Meat

Inspiration is

Bone

Where the cold

Penetrates

Until the

Unbearable

*

To create

*

To write

*

A Creative Story

A Creative Writing

Starting

From your texts

In search

Of my texts

(“Ode to the Creative Writing”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/07/17, 6:00 p.m.)

 

A Creative Writing Feast in the June, 2017 Index of Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Tales for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Running with rhinos” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“The Garden of the Hesperides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“Love is a place alone” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Sundown: fairy tales” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Clear night: a romance (and a woman) in fragments” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Creative Writing Studies Group & I National Seminar on Creative Writing | Miscellaneous of authors.

Thanks for the participation and the affection, the next post will be on July 30, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Festa Criativa da turma Oficina de Criação Literária I – Narrativa, 2017.1, ministrada pelo Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUCRS – Brasil. The Creative Feast of the Classroom of Literary Creation I – Narrative, 2017.1, taught by Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, at PUCRS – Brasil.

 

Contos para uma Escrita Criativa| Patricia (Gonçalves) Tenório*

Intervalo[1]

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.

O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

 

O Grito[2]

No começo foi o grito.

(Anésia Pacheco e Chaves)

Acendo o abajur e a lâmpada queimada não ajuda a chegar ao banheiro, lavar o rosto, olhar no espelho quebrado.

Me olhar no espelho quebrado.

Crescem rugas no meu rosto estranho. Não pertenço a este lugar? Desde ontem vejo coisas, sinto coisas e não sei o que dizer.

– Aceita este homem…

Bebo um café bem forte. Tão forte o café que a garganta arrepia as amídalas, desperta as papilas.

– … na saúde e na doença…

Tomo um banho demorado. Faço espuma com o sabão, ensaboo o corpo inteiro à procura de mim mesma.

– … respeitando-se…

Que sorte ser feriado! Não preciso levar as crianças ao colégio, a roupa na lavanderia, o cachorro para passear…

– … como seu futuro ex-marido?

Carlos veio ontem visitar as crianças com os papéis do divórcio. Devo ler com calma, assinar com calma, consultar com calma o advogado. O advogado, olhos cor do céu.

Um novo céu.

Um novo dia.

Acompanho os alunos na visita ao museu. Pedro é o maior de todos. Pedro, com seus nove anos e a cadeira de rodas.

– Tenho superpoderes, professora!

– Sim, temos todos superpoderes, Pedro. Você, na cadeira de rodas, pode chegar mais rápido. O Flávio, com os óculos, enxerga melhor. A Alice, o aparelho nos dentes… tão afiados os dentes da Alice. Mas não temos, nenhum de nós, o poder de desaparecer e aparecer em outro lugar… Por isso, meninos e meninas, eu na frente, porque somente eu sei o caminho!

O caminho diferente hoje, no museu de sempre. Os quadros de sempre e ninguém me avisou, que, no meio da exposição de Gauguin, e Van Gogh, e Tarsila do Amaral, lá estava ele, impávido, silencioso, tão silencioso como sua morte certa, como se me contasse algum segredo vindo do caixão.

– Desculpe, professora, esquecemos de avisar que esta área está reservada ao velório do Doutor Muniz.

Não quero saber do segurança, dos quadros, dos alunos, só o morto me interessa, só o morto atravessa a sala enorme sem jardins. Por que nem os girassóis, nem a pergunta de onde somos, mas para onde iremos, Sr. Muniz? O senhor agora sabe, o senhor agora entende como tudo aconteceu. Como Carlos me deixou. Como Carlos deixou de me amar amando outra, ou será que amou outra para deixar de me amar?

– São tão estranhos, os mortos…

São tão estranhos, os homens… E ali me aquietei. Ao lado da viúva. (A amante?) Da filha. (Uma bastarda?) O caixão. Um homem de bigode e barbas brancas. Ele não olhava para mim. Não olhava mais ninguém. Mas, se eu me abaixasse, se por um instante escutasse, sairia o que dos seus pulmões?

– No começo foi o grito.

Lembro aqui, sentada, parada, com os alunos pulando ao meu redor, o segurança falando ao meu redor, que ouvi aquela frase, eu li aquela frase, no começo foi o grito, em alguma exposição. Mas o que importa agora? A arte, os artistas, os alunos, se o Sr. Muniz está morto?

– Não conheço o Sr. Muniz.

E a viúva (amante?), a filha (bastarda?) seguraram a minha mão. Aqueceram a minha mão como se ao defunto aquecessem, como se ao defunto quisessem fazer ressurgir e descobrir o que há do outro lado.

– Ele é mais feliz agora.

Saberá de tudo agora? Com a viúva e a filha em minhas mãos? Que eu traí Carlos primeiro, com o carteiro, o padeiro, o açougueiro, a amiga da sua prima. Com a prima também?

– Era um homem muito justo.

E a justiça, Sr. Muniz? A quem se aplicaria, a quem se gritaria pedindo o perdão?

 

A CIDADE UNIVERSITÁRIA[3]

Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais. Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler. Era bom aquele começo, com a esperança no coração. Inventaram para o Barulho Extremo músicas dessas para relaxar. Ouviam baixinho antes, durante e após as refeições. Conseguiam fazer suas tarefas mais difíceis, das que precisam de uma concentração profunda, usando aquelas músicas que aquietavam.

O filho do prefeito, era João o seu nome, inventou uma outra ferramenta para ao Barulho abafar. Era o Riso, ele dizia, que se mal não faz, bem então fará. No princípio, todos riam assim forçados, todos riam desanimados só para agradar ao menino. Mas depois descobriram que rir era mais fácil que imaginavam e rir fazia imaginar. Imaginavam dias luminosos, coloridos, as árvores cheias de folhas, as abelhas retornando às colmeias, o néctar de flor em flor.

E foram aos poucos e persistentes, exercitando aquele Riso, e transformando o pensamento em positivo cada vez mais. Se reuniam na pracinha da cidade, debaixo da sombra do Carvalho, e riam uns dos outros, de si mesmos e dos animais, que passeavam livremente, meio espantados no começo, por verem aquele sorriso contínuo. Sentiam-se ridículos, é verdade, os habitantes da cidade. Mas sentiam-se jovens, intrépidos, relaxados, e brincavam uns com os outros, e faziam cócegas uns nos outros para o Riso fomentar.

Voltavam para casa cansados, o rosto vermelho, os olhos brilhantes. E nem mesmo na hora da refeição, conseguiam parar o Riso – ele já contagiava. A cidade era assim transformada, de uma cidade comum que vivia nas cinzas, no Barulho Extremo, em uma Cidade Universitária.

As disciplinas estudadas pelas crianças na Escola, levadas em tarefas para casa eram multidisciplinares. Sabiam entre si estudar das mais fáceis às mais difíceis, e retornavam às mais fáceis para melhor aprender. Os adultos começaram a sentir necessidade em retornar aos estudos, para aos filhos ajudar, para aos filhos fazer admirar, do menorzinho ao mais velho.

Mas professora Mariana alertou que não era esse o caminho. Que não deveriam estudar somente para aos outros agradar. Precisavam encontrar um propósito, um propósito original, um sentido essencial, que agradasse a si próprio em primeiro lugar. Para então, aos pouquinhos, às crianças ajudar, aos seus filhos ensinar com o Aprendizado pelo Afeto.

Era o Aprendizado mais eficiente, aquele que perpassa o Tempo, transpõe Espaços e quem recebe carrega para a vida inteira. Ninguém do aluno ou da aluna pode retirar. Quando se entrega um Ensinamento coberto de Carinho, esse Carinho se entranha no Ensinamento, se entranha em quem recebe para nunca mais acabar. A Memória permanece fiel ao Ensinamento, pois com o Afeto se tornaram irmãos. Irmãos gêmeos, siameses, e espelham um no outro o que o Carinho envolveu, o que o Afeto transmutou em ondas de Aprendizado perpétuo.

 

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Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados: O major – eterno é o espírito2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa; Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Doutoranda em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, sob a orientação de Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(1) Conto extraído de Grãos, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Rio de Janeiro: Calibán, 2007.

(2) Conto extraído de Vinte e um/Veintiuno, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Madri, Espanha: Mundi Books, 2016.

(3) Trecho extraído de A menina do olho verde, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Recife: Raio de Sol, 2016.

 

“Correr com rinocerontes”* | Cristiano Baldi**

O abismo da existência e o terror infinito de estar vivo e de repente eles retornam à sua vida e para isso basta que o telefone toque no domingo pela manhã e então você tem de tomar decisões. Algumas prosaicas, que envolvem malas, roupas, temperatura em Porto Alegre, e que até podem ser negligenciadas, e outras mais importantes, que certamente serão negligenciadas, e que compreendem coisas como a sua namorada e o seu curso de mestrado. De repente o telefone toca e lhe autoriza a pôr de lado tudo aquilo a respeito do que sua vida adulta lhe cobra responsabilidade e bom senso e lá está você, dentro de um táxi, tentando justificar a sua falta de caráter. Você diz para si mesmo que um bom infortúnio coloca a vida em perspectiva e que às vezes ser um canalha é a única opção. Você pensa nessa mentira, pensa nela e em algumas outras, enquanto um taxista de extrema esquerda exige do Estado maiores intervenções na economia, você pensa nessa mentira e os quarenta minutos que separam sua casa do aeroporto de Guarulhos não são o bastante para convencer a si mesmo de que fez as coisas do único modo que elas poderiam ser feitas.

A verdade é que eu estava sendo um sacana por não avisar Bárbara, não contar o que ocorrera em Porto Alegre. Não explicar que eu tinha que fazer aquilo de qualquer jeito, tinha de deixá-la de qualquer jeito, tinha de deixá-la por algum tempo, talvez algumas semanas. Que não poderia levá-la comigo porque não queria atrapalhar sua vida e seus estudos. Não seria justo obrigá-la a desmarcar com os primeiros pacientes do consultório, conquistados com a tenacidade quase viril de uma feminista de vinte e seis anos. Não poderia fazer tudo isso em nome de algo que era um mal-entendido.

E eu estava definitivamente sendo um irresponsável ao me afastar do curso de mestrado quarenta dias antes da entrega da minha dissertação. O curso de mestrado na principal universidade do país. Um bom curso, sob muitos aspectos, mas que por isso mesmo não deixava abertura para a controvérsia. Longe de ser um filisteu, eu apenas perguntava para onde tudo aquilo me levava. As aulas de Estética, de Teorias da Criação Literária, os seminários de poesia. As colegas feias. As colegas não tão feias, mas lésbicas. O sexo quase inexistente, um deserto de sexo, a impossibilidade do coito, que me obrigavam a andar pelos corredores dos prédios vizinhos, a almoçar em suas lanchonetes, a frequentar aulas de outros programas de pós-graduação. Eu seguia com aquilo apenas por seguir, porque evitava dilemas, porque era mais fácil, mais prático e porque, ainda que para a média das pessoas não significasse muito, para a minha família a academia, e o conhecimento de um modo geral, eram algo a se levar a sério. A arte também o era, sobretudo a ficção, e ainda mais o romance. Mas a antiga diligência acadêmica de minha mãe, e do meu avô antes dela, ainda não me atingira. E, como todo mundo sabe, para escrever qualquer coisa – um livro como este ou uma dissertação de mestrado – para escrever qualquer coisa, é mais importante ser diligente do que alfabetizado.

[…]

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Abertura de Correr com rinocerontes. Cristiano Baldi. Porto Alegre: Não Editora, 2017, p. 9-11.

** Contatobaldi@serraleoa.org

“O Jardim das Hespérides”* | Daniel Gruber**

amor épico

 

porque o mais terrível no amor, meu bem, é que inevitavelmente sempre chega o momento em que você deseja machucar o outro, e era como a euforia das abelhas em volta de um copo esquecido de refrigerante, naquele domingo de manhã, na cama, quando tu violentamente despertou esta coisa dentro de mim, esta coisa da humanidade simbólica que fere o corpo animal com mil desejos incompreendidos, me mostrou que o coração é um músculo que precisa ser exercitado, eu te falei que tudo isso é a maior transgressão desses tempos pós-qualquer-coisa, um instrumento de resistência contra os destinos medíocres da vida, um organismo cego, surdo e sem artérias, motor de uma engrenagem muito complexa, esse sentimento que então nos atravessaria impiedoso, trazendo a força das coisas que fazem sentido e a dor dos prazeres que teríamos que deixar para trás, porque antes de ser platônico, meu bem, nossa paixão era pré-socrática, cheia daquelas certezas vazias que compõem nossa ridícula intelectualidade pequeno-burguesa ocidental, e como a um reizinho impertinente tu me arrancou desse delírio coletivo, dizendo tudo isso naquela manhã de domingo, que somos uma geração ainda adolescente depois dos trinta, narcísica e parasitária, tão empenhada em se livrar de compromissos que, quando somos jovens, ainda existe excitação nas aventuras alcóolicas, em estar com pessoas poderosas, ter um emprego melhor, todos os conhecidos parecem legais, até que um dia tu acorda e pensa por que mesmo sou amigo desse cara? E assim o homem moderno vai nascendo para morrer sozinho;

quis te escrever in media res, talvez em hexâmetros dactílicos, mas agora prefiro me desfazer dessa afetação toda, como naquela noite em que decidimos morar juntos, erguer nossa Ítaca, quando todo mundo esperava que fossemos apenas individualistas e gloriosos, como se a vida fosse como praticar rafting/trekking/jumping ou opinar sobre filmes impopulares, e descobrimos que viver a dois é aprender a não mentir para si, tu diria agora que estamos estabelecidos, a prova de que é possível envelhecer num mundo tão instável e raivoso, como se tivéssemos nos esquecido dos deuses que desafiamos, dos oceanos que tentaram nos anular, e agora, quando penso nas tempestades, me amarro ao mastro e fecho os ouvidos contra o canto das sereias;

tu ainda se lembra de como a vontade disso se infiltrou em nós? aquele arrepio incontrolável da atração magnética e diabo a quatro dos nossos corpos, a compatibilidade de feromônios e genes e outras porcarias que o consciente coletivo determinou chamar vulgarmente de química, quando tu subiu a camiseta e me mostrou a tatuagem que tinha acabado de fazer, cujo significado ainda me escapa, que tinha até o curativo pastificado na lateral das costas, e quando vi tuas costelas descobertas, deus do céu, tu tentava disfarçar com uma voz grave e um jeito teatral de demonstrar indiferença, mas naquela noite eu vi teus olhos brilharem;

agora andamos cansados de tudo isso, da casa sempre suja porque não temos tempo de limpar, e quando limpamos só limpamos os lugares usados, todo o resto fica acumulando sujeira, e do ralo do banheiro vem um cheiro como se algo tivesse morrido e se decomposto ali, eu já não aguento mais a gata me arranhando ou miando como se estivesse morrendo quando a gente prende ela na área de serviço para transar, não aguento teus olhos me condenando pelo meu jeito, como se eu fosse um escroto que não estivesse nem aí, porque minha cara de natureza morta não reflete a dificuldade que tenho de demonstrar o que penso e espero de ti, e às vezes o brilho nos teus olhos se apaga e por trás deles resta só um profundo vazio e escuro abismo de decepção e indiferença;

isso me assusta, porque sinto que estou te perdendo para as coisas do dia, para o lapso que sobra das nossas conversas quando estamos juntos e na verdade tão longe, tu diz que não te dou atenção e eu digo que tu não respeita meu tempo, tu diz que sou grosso bruto e eu digo que tu é neurótica, até que um de nós se rende, é inegável o quanto isso é imperfeito e real, e hoje tu tá trancada lá no quarto e grita vai embora! e eu quase morro de felicidade, porque se eu ver o vestido agora, nós corremos o risco de ter algum azar, e percebo que nosso amor nunca deixou de ser homérico, nossos dias tão plenos de atitudes heroicas, cômicas, líricas e trágicas, e tu vai descosturando toda a noite esse sudário, esperando eu regressar adulto, para que o tempo vença as horas em que ficamos cativos nessas pequenas ilhas no mar do silêncio.

com amor,

 

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Primeiro conto de O Jardim das Hespérides. Daniel Gruber. Porto Alegre: Daniel Fernando Gruber, 2017, p. 13-15.

* Contatodf.gruber@gmail.com

“O amor é um lugar sozinho”* | Luís Roberto Amabile**

Isso tudo

 

            Nossa, nunca senti um alívio tão grande como ao entrar neste ônibus. O Carlão acabou de morrer, até eu vir pra rodoviária o corpo nem tinha sido liberado. Ainda bem que me livrei da choradeira do velório e do enterro. Porque queriam que eu ficasse, acho que todos queriam, e vieram me dizer pra mudar a passagem. Mudar a passagem uma ova, eu disse que precisava estar em São Paulo no dia seguinte. Compromisso de trabalho. Inadiável. Uma desculpa que sempre funciona, as pessoas no interior ficam orgulhosas de alguém da cidade ser imprescindível na capital. Não se discute com um compromisso de trabalho em São Paulo. Desta vez foi diferente e me pressionaram até o limite.

Culpa do Carlão, isso sim. Ele tinha de morrer bem quando eu estava na cidade? Parece que fez de propósito, só pra me complicar. Mas eu nem quis saber. A verdade é que a morte do Carlão não me dizia respeito, não era problema meu, e se ninguém entendia isso, paciência. Fiz a minha parte: abracei a família e tomei um táxi pra rodoviária. Sob pressão.

“Você não vai mesmo ficar pro enterro?”, insistiam. Não, nenhuma chance, a passagem já estava comprada. “Nem uma passada no velório?”, me encaravam arregalados e sérios. Eu só respirava fundo, apertava os lábios e negava com a cabeça. Eles também apertavam um condenador “Você que sabe”.

Eu que sabia mesmo. Devia pegar o ônibus, isso sim. Não que estivesse apenas fugindo. É que não tinha um motivo razoável pra eu ficar, ficar seria hipocrisia. Odeio velório e enterro, e claro que faria um esforço, como já fiz, se fosse de alguém que eu considerasse. Mas do Carlão? Quanto tempo que não mantínhamos contato? Eu já não fazia questão de vê-lo quando diagnosticaram.

Há uns meses, o Carlão de súbito perdeu os movimentos de um dos braços. No pronto-socorro, acharam que era a coluna, aplicaram uma injeção e o mandaram pra casa. Ele melhorou, porém algumas semanas depois a situação se repetiu. Dessa vez fizeram exames. A coluna estava boa, a coluna estava ótima. O problema era um tumor no cérebro.

Então, com a desculpa de saber se eu tinha recebido pelo correio o convite pro casamento da Silvinha, o tio Jorge me ligou. Falou dos preparativos, que seria uma festa humilde mas animada, confirmou minha presença e tocou no assunto Carlão, ele seria operado, quem sabe eu não fosse visitá-lo antes?

“Se ele pedir eu vou. Acho que ele não pediu e não vai pedir”, eu disse.

“Na situação em que ele está, nem tem condições de pedir”, disse o tio Jorge.

Eu concordava que o Carlão não tinha condições, não por causa da doença. De acordo com o próprio tio Jorge, ele estava consciente. Mesmo depois da operação, falava e devia pedir coisas. Mas não pediria pra que eu fizesse uma visita. Porque se eu fizesse uma visita ele teria de me pedir desculpas, e o Carlão nunca teve condições é de pedir desculpas, nem à beira da morte. Foi o que eu disse pro tio Jorge. E ele respondeu: “Teve aquela vez que ele te deu a mão no Natal e você recusou”.

As pessoas teimam que o Carlão tomou a iniciativa de me cumprimentar numa ceia de Natal, eu realmente não me lembro. É provável que ele tenha inventado e espalhado que me deu a mão e eu recusei. Nem adiantava discutir com o tio Jorge, ele até diria que tinha visto a minha recusa. Eu disse apenas: “Dar a mão não é pedir desculpa”.

“Faz tanto tempo que vocês brigaram. Isso tudo já passou.”

 

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Abertura de O amor é um lugar sozinho. Luís Roberto Amabile. São Paulo: Grua, 2012, p. 9-11.

** Contato: luisrobertoamabile@gmail.com

“Ocaso: contos de entreluz”* | Ricardo Timm de Souza**

Festa

Tudo estava pronto para a festa. Os travestis, envoltos em trajes aveludados, aguardavam ainda os amigos que chegariam de outra cidade. O bolo de aniversário no centro da mesa; recoberto de chantilly colorido, embora ocupasse muito espaço, parecia muito leve, quase irreal; as garrafas e taças que o cercavam eram os súditos daquele rei de açúcar. Alguns panejamentos, revestindo cadeiras e sofás, disfarçavam a pobreza do lugar. A semiobscuridade reinante – a sala ficava na altura dos porões da construção, sem abertura visível ao exterior – enganava quem procurasse saber a hora do dia; era certamente mais cedo ou mais tarde do que se poderia supor. As lâmpadas amareladas, pingentes de fios negros e precários, emprestavam ao ambiente uma espécie de calma pesada.

O aniversariante estava feliz; como regalo especial, haviam lhe atribuído, nas velas do bolo, mais idade do que realmente tinha, e vagas ondas de ilusória maturidade o invadiam de vez em quando. Conversava-se em voz baixa; os amigos não tardariam em chegar. Eram parte essencial da festa: a festa não estaria completa sem eles.

Finalmente, após muitas horas – a noite certamente já caíra – um dos amigos chegou: apenas ele pudera vir. Era o verdadeiro convidado de honra; sua amizade, preciosa para todos ali e ainda mais para o aniversariante, teria naquela festa o ponto alto de seu reconhecimento.

Coube-lhe assim a honra da noite: cortar o bolo de aniversário. Não foi sem relutância que o fez; mas, ao cortá-lo profundamente, como lhe haviam recomendado, pôde entrever, por entre as ondas de chantilly que desabavam e a massa escura, indefinida, amarelada pelas lâmpadas, algumas pétalas de uma rosa murcha.

 

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* Festa é um conto extraído de Ocaso: contos de entreluz. Ricardo Timm de Souza. Porto Alegre, RS: AGE, 2009, p. 31.

** Contato: timmsouz@pucrs.br

“Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos”* | Sidney Nicéas**

Prólogo: Um Diálogo para o Fim

Ela abrigava na própria boca um silêncio juvenil. Dandara. Seus ouvidos enchiam-se de senilidade.

– Você acha que conhece a solidão.

Era argamassa que saía de uma fenda. Uma parede em forma de boca, desgastada pelo tempo que só a velhice permite. Era um gotejar que fazia a noite cair mais cedo emitindo sons de despertar. O velho continuou.

– Já fui trovão, menina minha. O problema é que a chuva nunca cessa.

– Já fui sol, velho.

– Quem ousa falar de sol? Não queime os muitos ladrilhos que ainda te restam, menina minha.

– Pensei que você também tivesse nascido luz.

Era só o vento movido pela ânsia da chuva. Hálito refrescante da boca do céu escuro. Era um significativo hiato de vivências que unia o improvável. Cinquenta e um anos de um muro que os distanciava, mas que ali tendia a unir – apesar de tantos tijolos que o pareciam fragmentar.

– Luz…

Foi um sorrir entristecido que escorreu da boca encarquilhada do velho. Juvenal.

– Abre as pernas, menina…

Foi um sorrir encarquilhado que escorreu da boca delicada da jovem. Era mesmo o improvável repetido. Escondido. Vilipendiado. Ignorado. Eram antagonismos afins escrevendo sangue, derramando solidão unida em lençóis encardidos. A língua era o “é”.

– Nunca… ah… Sou…

O alfabeto nunca foi tão trôpego. Era língua. Agora outro “é” foi.

– Sempre… uh… Em mim… Será…

Um estremecer sacudiu o velho. Não havia mais palavras naquele momento. Ele abriu-se como página. Ela fechou-se em dicionário. Um silêncio d’água ecoou. E persistiu por minutos naquele casebre muito mais simples do que a época que os abrigava – a vida, que ia ficando mais complexa naquela beirada de novo milênio, era contraste com toda a simplicidade do lugar. Mãos a se encostar. Quatro olhos não mirados entre si. Muitos silêncios emitidos que não se tocavam. Ambos numa mudez de nádegas encostadas. Mas toda quietude frágil tente a ruir.

– Nunca sou.

– Será, menina?

– Nunca serei. Não há futuro, velho.

– Não mesmo. Somos só um passado que nunca chegará a lugar algum.

Dandara alisou-se.

– Todo passado perdura, menina minha. Teus 20 ainda não te entregam, mas pode chamar isso de futuro.

Juvenal falou com palavras de ventre. E continuou.

– Não se apaga letras assim. Tudo é um assumir de ações.

– Mas eu não queria.

– Isso. Queria. Passado. Não se apaga.

– Mas agora eu quero, velho. Eu quero.

Mãos em forma de barriga. Costas com costas. Palavras tocadas pelo éter.

– Querer é futuro, menina minha.

– O futuro não existe, velho.

– Eu sei…

 

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Prólogo de Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos. Sidney Nicéas. São Paulo: Scortecci, 2016, p. 14-16.

** Contato: sidneyniceas@gmail.com

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2017 & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco

Trazemos para o meio do ano de 2017, o meio do caminhar na Escrita Criativa, a importância das leituras de outros autores na nossa própria leitura e escrita de mundo. No mês de Junho, 2017 postamos neste blog trechos de autores do sul, sudeste e nordeste do Brasil que estão se influenciando, que estão se estimulando no processo do bem escrever.

Correr com rinocerontes, do professor e escritor nascido em Caxias do Sul, RS, Cristiano Baldi, nos joga no rosto, nos esmurra o estômago da nossa hipocrisia em nos sentirmos menos canalhas do que os outros, do que todos ao redor. Iremos encontrar essa verdade “jogada no rosto” em O amor é um lugar sozinho, do jornalista e escritor paulista nascido em Assis, radicado em Porto Alegre desde 2011, Luís Roberto Amabile: a verdade de não sermos nem tão bons assim, não sermos nem tão ruins assim, mas sermos apenas seres humanos – o que a narrativa contemporânea tem enfatizado veementemente.

O Jardim das Hespérides, do escritor nascido em Nova Hamburgo, RS, Daniel Gruber, desconstrói esse mito do “amor épico” e o torna mais próximo da carne, mais dentro do sangue das nossas próprias veias, com o cotidiano saturado e desgastante, a vida nos mergulhando na falta de sentido para nos agarrarmos à Arte, à Literatura, feito Homero ao mastro do navio e não se afogar com as sereias.

A “Festa” (Ocaso: contos de luz), do professor, filósofo e inquietante escritor nascido em Farroupilha, RS, Ricardo Timm Souza, nos brinda com uma estranheza semelhante àquela que encontramos nos contos do escritor de Praga, Franz Kafka, e ambos, Timm e Kafka, nos remetem a nós mesmos, e nos abandonam à solidão de nosso destino.

O escritor pernambucano Sidney Nicéas recolhe os fragmentos de uma vida e tece um romance fragmentado, fragmentário, Noite em clara, em consonância com os autores sulistas e com as escritoras e poetas Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, feito veremos mais adiante.

Esse desejo de unir as pontas de um país, em um momento em que o egoísmo, a desonestidade, a corrupção, negam o natural do ser humano que é o Amor, a Paz, a União, no momento em que nada mais reúne, a Arte vem e salva a Vida, e aponta para o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco, que acontecerá de 13 a 15 de Outubro de 2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, Recife – PE, com nomes tais como Adriano Portela (PE), Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS), André Balaio (PE), Bernadete Bruto (PE), Cida Pedrosa (PE), Daniel Gruber (RS), Elba Lins (PB/PE), Fernando de Mendonça (SP/PE/SE), Gustavo Melo Czekster (RS), Luís Roberto Amabile (SP/RS), Luisa Bérard (AL/PE), Luiz Antonio de Assis Brasil (RS), Maria do Carmo Nino (PE), María Elena Morán (Venezuela/RS), Patricia (Gonçalves) Tenório (PE), Raimundo Carreiro (PE), Robson Teles (PE), Talita Bruto (PE), Valesca de Assis (RS). Isso tudo sob a organização e maiores informações de Patricia (Gonçalves) Tenório (patriciatenorio@uol.com.br), Rogério Robalinho (rogerio@cia-eventos.com) e Sidney Nicéas (sidneyniceas@gmail.com).

E o exercício do mês de Junho, 2017 reflete esse diálogo entre escritores de todo o Brasil: a partir de “textos meus” postados no início desta edição do blog (“Intervalo” (Grãos), “O Grito” (Vinte e um) e trecho de A menina do olho verde), estimular “contos”, “poemas”, “textos seus”, trazidos ao centro por Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, nessa “Festa” literária chamada Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

Recife, 19 de Junho de 2017,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

 

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

 

No intervalo do intervalo

                                                                     

                                                        Intervalo Berna                                           

 

Escapo. Lá está ela! Um livro no colo, com nosso cigarro importado entre os dedos soltando fumaça, olhar perdido… Ainda não me viu, alheia está em suas conjecturas que chego a ler seus pensamentos… Não sou eu quem os contará! Deixa ela mesma digitar tim tim por tim tim tudo que lhe vai em mente, quando for a hora.

Alisa os grãos da areia a sua frente quase em câmara lenta com o cigarro na metade, cinzas quase caindo, divagando pela vida, alheia… Ausente da sua própria vida? Foi quando me viu. Um déjà vu… Já me viu antes. Agora acompanha meus movimentos. Finjo não notar, para quê assustá-la? Vou ganhando força. Vida própria, a cada movimento monitorado.

Ela procura algo na bolsa numa pressa danada, enquanto me sento na calçada no banco de cimento e coloco a caneca de lado. As pessoas se aproximam e ela também sentou alguns metros de orelha em pé.  De repente, não está mais tão perto, parece que se perde no meio dos pensamentos e algo a traz de volta. Ah, vejo que ela retorna quando seus olhos pousam no livro de Rilke que trouxe comigo. Ahá! Agora sei que ela deve estar imaginando o que faço com um livro desses, sendo um homem, neste mundinho pequeno. Discuto o tratado do amor com Paulo, só para agradá-la, pois sei que me ouve. Ainda que falasse a língua dos homens… Deixo-a imaginar quem seria, submeto-me aos seus julgamentos. Deixo-a divagar juntamente com sua saia rodada de festa, que balança ao vento. Seus pensamentos voam tanto que reverberam junto a mim. E neste momento, ela fecha o caderno de anotações, e olho para ela num pequeno instante. No intervalo que pode durar um século, quando os olhos se encontram num entendimento. Neste ínterim, sumo carregando comigo todos os maus pensamentos. Um personagem também tem o dom de cura.

Mateus se levanta, bate os grãos que grudavam seus pés, nas roupas, levanta-se e segue o caminho de volta a sua vida. Nem sequer nota a presença daquela Pérola. Vai de encontro ao seu destino, sem nem perceber que um pouco dele ficou naquela praia e será repartido com os outros. Pérola, vestida de festa, renascida na dor naquela praia, permanece sentada na areia com a cabeça cheia de ideias, uma caderneta fechada aprisionando um personagem e o livro de Rilke no colo cuja página marcada, passada e repassada ao vento, lhe aconselha:

“por isso, minha cara senhora, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si própria e sonde as profundidades onde sua vida brota; na sua fonte encontrará a resposta à pergunta “Devo criar?” Aceite a resposta, tal como lhe é dada, sem tentar interpretá-la. Talvez chegue à conclusão de que a arte a chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e na Natureza à qual toda a sua vida é devotada.”(*)

E o personagem chamado Mateus, lá dentro da caderneta, sorri.

Recife, 19 de maio de 2017, reformulado em 4 de junho de 2017.

* Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta. Modificação do gênero para melhor servir ao texto.

 

Texto elaborado a partir do conto “Intervalo” do livro Grãos de Patrícia Tenório.

 

Prelúdio para uma escrita criativa

Prelúdio Berna

Durante 21 dias, no intervalo de uma vida a outra, seu Muniz com olhos cheios de Grãos rondava Mateus que não achou graça, nem gostou daquela companhia. Foi quando a escritora, sentada na praia, deu um Grito alucinante reconhecendo-os de outros carnavais!!!!

Perdida com aquela situação peculiar, sem nome, mudou-se para a Cidade Universitária onde A menina de olho verde lhe esperava de braços abertos para lhe contar que se Ícaro voasse, poderia ver do alto que A mulher pela metade era aquela que não sabia que As joaninhas não metem e o melhor estava por vir. Começou a sentir o mundo como as palavras de D’Agostinho, pura poesia que voava nas mãos e resultava em Diálogos simples que chegavam aos ouvidos passando pelo coração das pessoas.

Daí em diante, a sua escrita ficou tão criativa, mas tão criativa, que formou um grupo e saiu disseminando conhecimento como o Major intuíra desde sempre.

E ela foi feliz para sempre sem Intervalos.

 

Recife, 29 de Maio de 2017 reformulado em 3 de Junho de 2017.

Texto elaborado a partir dos nomes do livros da Escritora Patricia Tenório e uma homenagem ao Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

 

E DE REPENTE SEUS OLHOS

Recife, 28 de maio de 2017.

 

“ Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído, deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.”(1)

 

Este foi o primeiro pensamento que surgiu na minha cabeça, há cinco anos quando vi Augusto pela primeira vez – o jeito engraçado dele andar.

Depois, ele chegou mais perto e de repente vi seus olhos… eram olhos azulados, da cor do mar. Do mar para onde me levaria e onde, pescador, me aprisionaria na rede e no seu olhar marinho.

Cada dia seu, desenhava o meu, pois não conseguia me libertar dos seus braços âncoras.

 

“Reconheci no teu canto

Um convite pra te amar

Retiramos nossos mantos

Descobri tuas riquezas

A pérola do teu sorriso

O brilho do teu olhar

 

Exploraste meus segredos

Saciaste meus desejos

Provei o sal do teu beijo

Passeei entre as estrelas

E ancorei no teu cais”. (2)

 

Meu caminho era agora azul, minha rota era o mar. Augusto me fez sereia, e meu canto o seduziu até o dia em que mergulhou sozinho e me deixou a esperar no cais, agora pedra, agora espuma…

Só vejo chuvas, águas barrentas, não mais o azul a lavar minha alma e iluminar o meu olhar.

Augusto possivelmente se foi, se tornou sal, se quedou para sempre no fundo do mar.

Mas aqui sozinha ainda espero o sol e pelo menos a cor azul do seu olhar.

 

– TENÓRIO, Patrícia. GRÃOS – Conto “Intervalo”. Calibán, 2007

– LINS, Elba. Poema Sem Pecado 22.08.2009

 

 

Até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó hás de tornar. (Gen. 3,19)

 

“O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas. Moraria na caixa de madeira.”  (ref. 1)

Finalmente, Mateus!

Eu não ficaria a te olhar de longe

Ansiando por tocar na tua pele

 

Agora

Viajaria no vento amigo

Que entra em todas as casas

Que assanha cabelos

E para o qual nada é segredo

 

E, nesta viagem infinda,

Aportaria nos teus braços

Invadiria tuas reservas

Teu corpo enfim,

Seria meu

Seria eu

Grão de areia

A invadir segredos

A passear pelos bolsos

Nas tuas calças e camisa

 

Faria carícia

Arranhando teu peito

E enfim descobriria,

Os segredos da caixa de madeira

Que tantas vezes

Me transformou em curiosa.

 

 

Referências:

– TENÓRIO, Patrícia. GRÃOS – Conto “Intervalo”. Calibán, 2007

– ANDRADE BARBOSA, Rogério. O FILHO DO VENTO. DCL, 2013

 

(Eu Sou o Pó e Retornarei

Elba Lins – 02.06.2017

Após reler “Intervalo” e ao escrever lembrei O Filho do Vento)

 

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Luisa Bérard

falecom@luisaberard.com.br

 

ALIANÇA DE BRILHANTE

 

O brilho promissor de uma nova vida

Que se desejou esplendorosa e bela,

Desponta ofuscante, valiosa e eterna

Na aliança que um dia me presenteou.

 

Em que pese a desventura do fim,

Permeada de tristeza e desilusão,

Não tenho forças para dela me desfazer

Por simbolizar o seu amor por mim!

 

Como foi dolorido ter de lhe esquecer,

Para deixar de sofrer e poder sobreviver,

Quando o meu romântico coração

Só desejava amor, paixão e compreensão.

 

E na estrada fria e distante da separação,

Aquela aliança é a forma de manter

Gravada na minha saudosa memória

Os sonhos perdidos da nossa história.

 

O DESPERTAR DA ESCRITA

 

Escrever…

Por quê?!

Senão a necessidade de expurgar a dor;

Fantasiar mundos;

Viver outras identidades;

Divagar em infindáveis possibilidades;

Numa incessante tentativa de recriar

A realidade ao meu redor.

 

No descortinar das emoções,

Onde escrever é viver!

Os personagens ganham independência,

Preenchendo os vazios da existência.

Se o despertar da escrita

Deu-se pela solidão do dia-a-dia,

Ouso ironicamente dizer:

Ao menos teve uma utilidade o meu sofrer!

 

 

Índex* – Maio, 2017

Tempo morto

Aquele de

Se esperar

E nunca

Alcança

Aquele de

Ver o mar

E não enxergar

A paisagem 

Aquele de 

Abrir os olhos

E não ter

Porque viver

*

Tempo torto

Que vive

Embriagando

As minhas buscas

Que traça

A imensidão 

Do meu destino

E me deixa

Parada entre os caminhos

*

Tempo solto

Que faz

Endoidecer 

Os meus ouvidos

Que floresce

Nas saias de meus vestidos

E concede

Um pouco de paz

Um pouco de amor

(“Triplo presente”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 16/05/17, 07h40)

*

Tempo morto

quello per aspettare

e mai raggiungere

quello per vedere il mare

e non guardare il paesaggio

quello per aprire gli occhi

e non sapere perchè vivere

*

Tempo contorto

che ubriaca le mie ricerche

che traccia l’immensità del mio destino

lasciandomi ferma tra i percorsi

*

Tempo liberato

che fa impazzire le mie orecchie

che fiorisce tra le pieghe del mio vestito

e concede un po’ di pace

un po’ d’amore.

(TRIPLO PRESENTE (Patricia Tenorio), Traduzione dal portoghese: Alfredo Tagliavia, 21/05/2017)

*

O Tempo solto entre os Espaços, entre os Signos, entre as Artes no Índex de Maio, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Conto intersemiótico | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Semiose poética” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“À Cidade” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

A automedicação na prática | Mara Narciso (MG – Brasil).

A caixa e seus guardados | Marly Mota (PE – Brasil).

“Vida em veios”, de Regina Rapacci  (SP – Brasil) | Apresentação de Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Agradeço a atenção e delicadeza, a próxima postagem será em 25 de Junho, 2017, um abraço bem grande e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – May, 2017

Dead time

That of

Waiting

And never

Reaching

That of

Seeing the sea

And not seeing

The landscape

That of

Openning the eyes

And not having

A reason to live

*

Crooked time

That lives

Intoxicating

My searches

That traces

The immensity

Of my destiny

And leaves me

Stopped between the paths

*

Loose time

That goes 

Freaking out

My ears

That flourishes

In the skirts of my dresses

And grants

A little bit of peace

A little bit of love

(“Triple present”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 05/16/17, 07h40)

*

The Loose Time between Spaces, between the Signs, between the Arts in the Index of May, 2017 of the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Intersemiotic Tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Poetic Semiosis” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“To The City” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

Self-medication in practice | Mara Narciso (MG – Brasil).

The box and its saved | Marly Mota (PE – Brasil).

“Life in veins”, by Regina Rapacci (SP – Brasil) | Presentation by Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Study Group on Creative Writing – May, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Thanks for the attention and delicacy, the next post will be on June 25, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Entre Recife e Porto Alegre, a Teoria e a Ficção, a Vida e a Arte. Between Recife and Porto Alegre, Theory and Ficcion, Life and Art. 

Conto intersemiótico| Patricia (Gonçalves) Tenório*

Para Elba Lins & Companhia

Maria fechou a porta do táxi e deixou para fora o pensamento em José, como se fosse o cinto do casaco bege deslizando pelo ar.

O motorista do táxi usava uma boina preta no frio de Porto Alegre. Ela disse a direção. Ele para lá se encaminhou. E calou, adivinhando o seu silêncio.

O silêncio sendo preenchido com as palavras de José perturbando os ouvidos de Maria, a cabeça de Maria presa no pensamento em José deslizando pelo ar.

Posso ligar o som?, o motorista perguntou, Maria concordou com um piscar de olhos.

Pachelbel.

Você sabia que Johann Pachelbel foi professor do irmão mais velho de Bach?

Eu não sabia que essa música era de Pachelbel. Escutei uma vez em um filme…

Sim, pesquisei uma versão em piano. Ouça, que delicadeza…

As lágrimas atravessavam o rosto de Maria, lentamente atravessavam, e limpavam as palavras de José, Não, O problema é seu, Tenho uma carreira para cuidar.

A música flui no rádio do motorista, dança nos ouvidos de Maria, e é tudo um mundo só: as árvores se misturam aos postes, as casas coladas umas às outras, um cachorrinho passeando com sua dona, um casal de velhinhos de mãos dadas.

O táxi chega ao destino. As lágrimas secas no rosto de Maria. Ela agradece. Ele acena com a mão. A moça de casaco bege recolhe o cinto preso do lado de fora e desce no mirante de Santa Tereza para assistir ao pôr-do-sol.

(“Maria em Ré menor”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 24/05/2017, 08h30, 10h10 e 11h13)

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* Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados e defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no Doutorado em Escrita Criativa, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br