Posts com Literatura

Índex* – Outubro, 2017

No pensamento 

O tempo sempre foi

Luta

Resistência 

 

Na imagem

De um menino 

Que foi um dia

Semente

Broto

Cápsula 

 

Aparece

Diante de mim

Formado

Amalgamado em

Corpo e alma

Com um sonho

Que tive um dia

Insistente

Persistente

 

Até

Nascer em mim

O pensamento 

Que lutou um dia

Que resistiu um dia

E se transformou

Em poesia

(“O pensamento luta”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/10/2017, 05h01)

 

O sonho insiste e persiste no Índex de Outubro, 2017 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

A Cidade Universitária em “A menina do olho verde” | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco | Diversos.

“Sobre a escrita criativa” em Porto Alegre | Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil (RS – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Outubro, 2017 | Diversos.

E o link do mês: Paulo Caldas (PE – Brasil) fala sobre A menina do olho verde no http://revista.algomais.com/noticias/a-menina-do-olho-verde-vence-na-italia-por-paulo-caldas.

Agradecemos a participação e carinho.

Excepcionalmente, antecipamos a postagem para hoje. A próxima postagem será em 26 de Novembro, 2017.

Um grande abraço e até lá!

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – October, 2017

 

In thought

The time has always been

Fight

Resistance

 

In the image

Of a boy

Who was one day

Seed

Bud

Capsule

 

Pops up

Before me

Formed

Amalgamated in

Body and soul

With a dream

I had one day

Insistent

Persistent

 

Up until

Born in me

The thought

Who fought one day

Who endured one day

And became

Poetry

(“The thought of struggle”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/10/2017, 05:01)

 

The dream insists and persists in the Index of October, 2017 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

The University City in “The Green Eye Girl” | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

I National Seminar in Creative Writing in Pernambuco | Miscellaneous.

“About creative writing” in Porto Alegre | Organization: Patricia Gonçalves Tenório. Preface: Luiz Antonio de Assis Brazil (RS – Brasil).

Study Group on Creative Writing – October, 2017 | Miscellaneous.

And the link of the month: Paulo Caldas (PE – Brasil) talks about The girl with the green eye in the http://revista.algomais.com/noticias/a-menina-do-olho-verde-vence-na-italia-por-paulo-caldas.

We appreciate your participation and affection.

Exceptionally, we’ve anticipated the post for today. The next post will be on November 26, 2017.

A big hug and until then!

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A insistência e a persistência de um sonho no I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco. The insistence and persistence of a dream in the First National Seminar in Creative Writing in Pernambuco.

“A Cidade Universitária”* em “A menina do olho verde” | Patricia Gonçalves Tenório***

A CIDADE UNIVERSITÁRIA*

 

Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais. Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler. Era bom aquele começo, com a esperança no coração. Inventaram para o Barulho Extremo músicas dessas para relaxar. Ouviam baixinho antes, durante e após as refeições. Conseguiam fazer suas tarefas mais difíceis, das que precisam de uma concentração profunda, usando aquelas músicas que aquietavam.

O filho do prefeito, era João o seu nome, inventou uma outra ferramenta para ao Barulho abafar. Era o Riso, ele dizia, que se mal não faz, bem então fará. No princípio, todos riam assim forçados, todos riam desanimados só para agradar ao menino. Mas depois descobriram que rir era mais fácil que imaginavam e rir fazia imaginar. Imaginavam dias luminosos, coloridos, as árvores cheias de folhas, as abelhas retornando às colmeias, o néctar de flor em flor.

E foram aos poucos e persistentes, exercitando aquele Riso, e transformando o pensamento em positivo cada vez mais. Se reuniam na pracinha da cidade, debaixo da sombra do Carvalho, e riam uns dos outros, de si mesmos e dos animais, que passeavam livremente, meio espantados no começo, por verem aquele sorriso contínuo. Sentiam-se ridículos, é verdade, os habitantes da cidade. Mas sentiam-se jovens, intrépidos, relaxados, e brincavam uns com os outros, e faziam cócegas uns nos outros para o Riso fomentar.

Voltavam para casa cansados, o rosto vermelho, os olhos brilhantes. E nem mesmo na hora da refeição, conseguiam parar o Riso – ele já contagiava. A cidade era assim transformada, de uma cidade comum que vivia nas cinzas, no Barulho Extremo, em uma Cidade Universitária.

As disciplinas estudadas pelas crianças na Escola, levadas em tarefas para casa eram multidisciplinares. Sabiam entre si estudar das mais fáceis às mais difíceis, e retornavam às mais fáceis para melhor aprender. Os adultos começaram a sentir necessidade em retornar aos estudos, para aos filhos ajudar, para aos filhos fazer admirar, do menorzinho ao mais velho.

Mas professora Mariana alertou que não era esse o caminho. Que não deveriam estudar somente para aos outros agradar. Precisavam encontrar um propósito, um propósito original, um sentido essencial, que agradasse a si próprio em primeiro lugar. Para então, aos pouquinhos, às crianças ajudar, aos seus filhos ensinar com o Aprendizado pelo Afeto.

Era o Aprendizado mais eficiente, aquele que perpassa o Tempo, transpõe Espaços e quem recebe carrega para a vida inteira. Ninguém do aluno ou da aluna pode retirar. Quando se entrega um Ensinamento coberto de Carinho, esse Carinho se entranha no Ensinamento, se entranha em quem recebe para nunca mais acabar. A Memória permanece fiel ao Ensinamento, pois com o Afeto se tornaram irmãos. Irmãos gêmeos, siameses, e espelham um no outro o que o Carinho envolveu, o que o Afeto transmutou em ondas de Aprendizado perpétuo.

 

La Città Universitaria**

Furono rubate le mura della città, il Muro Alto non esisteva più. Piantarono giardini comunicanti, scrissero libri per leggerli gli uni agli altri. Era buono quell’inizio, con la speranza nel cuore. Inventarono per il Frastuono Estremo musiche, di quelle che rilassano. Le ascoltavano piano all’inizio, prima e dopo i pasti. Riuscirono a svolgere i compiti più difficili, quelli che avevano bisogno di una concentrazione profonda, usando quelle musiche che quietavano.

Il figlio del sindaco, il suo nome era João, inventò un altro strumento per placare il Frastuono. Era il Riso, diceva, che se non faceva male, allora avrebbe fatto bene. All’inizio tutti ridevano forzatamente, tutti ridevano tristi, solo per far piacere al ragazzo. Ma poi scoprirono che ridere era più facile di quel che immaginavano e ridere faceva immaginare. Immaginavano giorni luminosi, colorati, alberi pieni di foglie, api che ritornavano agli alveari, nettari di fiore in fiore.

E a poco a poco, persistevano nel praticare quel Riso, trasformando il pensiero in positivo, ogni volta un po’ di più. Si riunivano nella piazzetta della città, sotto l’ombra della Quercia, e ridevano gli uni degli altri, di loro stessi e degli animali, che passeggiavano liberamente, un po’ spaventati all’inizio, nel vedere quel sorriso continuo. Si sentivano ridicoli, è vero, gli abitanti della città. Ma si sentivano giovani, intrepidi, rilassati, e scherzavano gli uni con gli altri, e si facevano il solletico gli uni con gli altri per fomentare il Riso.

Tornavano a casa stanchi, il viso rosso, gli occhi brillanti. Nemmeno all’ora del pasto riuscivano a fermare il Riso – che subito li contagiava. La città così era trasformata da una città comune, che viveva sulle sue ceneri, nel Frastuono Estremo, in una Città Universitaria.

Le materie studiate dai bambini della Scuola, i compiti a casa, erano multidisciplinari. Sapevano studiare per conto loro le cose più facili e quelle più difficili, poi ritornavano a quelle più facili per impararle meglio. Gli adulti cominciavano a sentire il bisogno di riprendere gli studi, per aiutare i figli, per farsi ammirare dai figli, dal più piccino al più grande.

Ma la maestra Mariana avvisò che non era questa la strada. Che non avrebbero dovuto studiare solo per far piacere agli altri. Dovevano avere uno scopo, un proposito originale, un senso essenziale, che facesse piacere a se stessi in primo luogo. Per poi, a poco a poco, aiutare i bambini, insegnare ai propri figli l’Apprendimento dell’Affetto.

Era l’Apprendimento più efficiente, quello che trapassa il Tempo, trascende lo Spazio, e che chi riceve, porta con sé per tutta la vita. Nessuno lo potrà togliere dall’alunno o dall’alunna. Quando si dà un insegnamento pieno d’Affetto, questo Affetto si introietta nell’Insegnamento, si introietta in chi lo riceve per non distaccarsene più. La Memoria rimane fedele all’Insegnamento, perché  si è affratellato con l’Affetto, è diventato un Fratello Gemello, siamese, così che si rispecchiano uno nell’altro come ciò che il Sentimento ha legato, ciò che l’Affetto ha trasformato in onda di Apprendimento perpetuo.

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Capítulo de A menina do olho verde. Patricia Gonçalves Tenório. Recife, PE: Raio de Sol, 2016. Primo Premio Assoluto – Libro edito in portoghese – Accademia Internazionale Il Convivio, Outubro, 2017.

** Capitolo de La bambina dagli occhi verdi. Patricia Gonçalves Tenório. Traduzione: Alfredo Tagliavia. Milano, Italia: IPOC, 2016.

*** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em Outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em Outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da prof. dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Doutoranda em Escrita Criativa (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), sob a orientação do prof. dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

**** Possível ilustração de DS Tenório para A menina do olho verde.

 

I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco

13 a 15 de Outubro, 2017

Auditório Círculo de Ideias – Centro de Convenções, Olinda – PE

XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

 

Foram 3 dias intensos de Escrita Criativa. Escritores de todo o Brasil e do exterior participaram intensamente do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco. Com as mesas “A importância do ambiente estimulante na Criação Artística”, “Era das narrativas e o herói cansado”, “Quem tem medo da Literatura Fantástica?”, e oficinas do “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”, “Mercado editorial e autopublicação”, “Devaneios Fílmicos, Cósmicos e Poéticos”, “Estimulando a Leitura na Escrita Criativa”, “Oficina de Poesia”, “Oficina de Contos e Roteiros”, contamos com a honra da presença dos escritores e professores Luiz Antonio de Assis Brasil (PUCRS), Lourival Holanda (UFPE), Maria do Carmo Nino (UFPE), Robson Teles (UNICAP-PE), e dos escritores e poetas Adriano Portela (PE), Alexandra Lopes da Cunha DF/RS),  André Balaio (PE), Bernadete Bruto (PE), Cida Pedrosa (PE), Carlos Enrique Sierra (Colômbia), Daniel Gruber (RS), Daniel Perroni Ratto (SP), Elba Lins (PB/PE), Fernando de Mendonça (SP/PE/SE), Guilherme Azambuja Castro (RS), Gustavo Melo Czekster (RS), Igor Gadioli (PB/SE), Luísa Bérard (AL/PE), Luiz Roberto Amabile (SP/RS), María Elena Móran (Venezuela/RS), Patricia Gonçalves Tenório (PE), Sidney Nicéas (PE), Talita Bruto (PE), Valesca de Assis (RS).

Temos a alegria de apresentar trechos de obras de alguns dos participantes dessa Festa Literária que foi o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco!

Que venham outros!

 

Patricia Gonçalves Tenório

 

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Adriano Portela

“Olinda, 07.07.2017

A dor é o estágio da glória e o desabafo é o vômito dos inocentes.

Aqui, neste meu leito de quase-morte, lembro que o meu ardil é a vida e que depois dela todos os meus segredos podem ser jogados na cara da sociedade, assim como os nobres jogam o lixo aos porcos, mas esses resíduos só podem vir à tona se eu te contar e, no futuro, alguém te encontrar e te sugar ao máximo. […]”

(“O Beijo da Morte”. Adriano Portela. In Recife de Amores e Sombras. Recife: Gráfica Flamar, 2017)

 

Alexandra Lopes da Cunha

“[…] Mulheres são sempre casas:

Abrigam em suas fendas,

envolvem em seus abraços,

saciam sedes e fomes,

de seres unos, indivisíveis,

carentes de seiva e açúcar,

famintos ao nascimento. […]”

(“Bífida”. In Bífida e outros poemas. Alexandra Lopes da Cunha. Fotografia: Raul Krebs. São Paulo: Kazuá, 2016)

 

Bernadete Bruto

“[…] Olívia vai crescendo e, quando o tempo se veste de branco, estação que chamamos de Inverno, as folhas caem e a árvore fica sequinha.

Olivia was growing up while nature was getting dressed in white. All the leaves fall from the trees. It is Winter season. […]”

(Trecho de A menina e a árvore. The girl and the tree. Bernadete Bruto. Ilustrações: André Bruto. Tradução: Dulce Albert. Prefácio: Salete Rêgo Barros. Recife: Ed. do Autor, 2017)

 

Cida Pedrosa

“ela lava a calçada

como quem lava o mundo

 

[…]

 

cecília lava a calçada

e a espuma em pedra

é breve morada em seus pés

 

portas se abrem

olhos espiam

a vassoura se apressa

e varre a agonia

vivida durante a noite […]”

(“cecília”. In as filhas de lilith. Cida Pedrosa. Design: Jaíne Cintra. Rio de Janeiro: Calibán, 2009)

 

Daniel Gruber

“porque o mais terrível no amor, meu bem, é que inevitavelmente sempre chega o momento em que você deseja machucar o outro, e era como a euforia das abelhas em volta de um copo esquecido de refrigerante, naquele domingo de manhã, na cama, quando tu violentamente despertou esta coisa dentro de mim, esta coisa da humanidade simbólica que fere o corpo animal com mil desejos incompreendidos, me mostrou que o coração é um músculo que precisa ser exercitado, eu te falei que tudo isso é a maior transgressão desses tempos pós-qualquer-coisa, um instrumento de resistência contra os destinos medíocres da vida, um organismo cego, surdo e sem artérias, motor de uma engrenagem muito complexa, esse sentimento que então nos atravessaria impiedoso, trazendo a força das coisas que fazem sentido e a dor dos prazeres que teríamos que deixar para trás, porque antes de ser platônico, meu bem, nossa paixão era pré-socrática, cheia daquelas certezas vazias que compõem nossa ridícula intelectualidade pequeno-burguesa ocidental, e como a um reizinho impertinente tu me arrancou desse delírio coletivo, dizendo tudo isso naquela manhã de domingo […]”

(“o amor épico”. In O Jardim das Hespérides. Daniel Gruber. Porto Alegre: Daniel Fernando Gruber, 2017)

 

Daniel Perroni Ratto

“O Tempo é efêmero

quando cabe na solidão

 

O Espaço é finito

quando sabe de antemão

 

Que o amor é

o espaço-tempo

além dessa dimensão

 

Maluquices

Viagem ao

Superaglomerado

Perseus-Piesces!”

(“Supercordas”. In Vozmecê. Daniel Perroni Ratto. São Paulo: Patuá, 2016)

 

Elba Lins

“Sintonia

Não é paixão…

Não é tesão…

 

Encontro-te!

E no espelho

Vejo

Meu próprio retrato.

 

Universos concêntricos

Num salto quântico

Atinjo outro nível

Encontro minha TRIBO

 

Encontro-te!

E o que vejo

É um espelho

É o meu próprio retrato.”

(“Tribo”. In Do outro lado do espelho: O feminino em estado de poesia. Elba Lins. Prefácio: Patricia Tenório. Recife: Ed. do Autor, 2017)

 

Fernando de Mendonça

“[…] – (…) Mas, pela primeira vez, sinto que esbarro em algo realmente grande. Sabe estes livros que nos marcam de um jeito especial? Estes que parecem ter vindo com um remetente para nós? Estou até assustada com a pertinência deste para mim.

– Conte-me algum dos contos. O que mais gostou.

– Acho que não consigo. Não é apenas pelo que acontece nele. Vai mais fundo. E aqui eu sei que não estou confundindo gosto com costume, pois já os li, reli, e não me acostumei a eles.

– Aos melhores livros, a gente não se acostuma, mas sobrevive. […]”

(Trecho de 23 de Novembro. Fernando de Mendonça. Recife: Grupo Paés, 2014)

 

Guilherme Azambuja Castro

“[…] O Bebeto.

Mas por que seria famoso eu? Aí eu disse:

– Não sou famoso.

E ele:

– Ah, és… Muito famoso.

Disse isso afagando minha cabeça enquanto entrava no chalé, que é minha casa e de onde eu vi meu pai ir embora num dia calorento: saiu levando nosso carro e eu ali, sentadinho na varanda, os olhos baixos, matando formigas com os chinelos. O motor de repente desapareceu na BR e nunca mais.

Pois aqui ele chegou, o Bebeto, dizendo que eu era famoso. […]”

(Trecho de “O cheiro triste das bergamotas”. In O amor que não sentimos e outros contos. Guilherme Azambuja Castro. Recife: Cepe, 2016)

 

Gustavo Melo Czekster

“[…] Certo dia, Anton Lopez desapareceu. Restaram somente os seus desenhos de homens formados por moscas, obras que, pela simetria e noção do corpo humano, assemelhavam-se aos esboços de Leonardo da Vinci e aos quadros de Archimboldo. A última pessoa que viu Anton Lopez foi o homem que levava a comida uma vez por semana ao sítio. De acordo com a sua versão: “O senhor Lopez estava vestido, o que não era normal, e as moscas estavam dentro da sua roupa, mexendo de um lado para o outro. Às vezes, uma saía da boca, outra do nariz, outra da orelha. Ele não parava de andar e não dizia coisa com coisa”. Infelizmente, a veracidade do depoimento nunca foi confirmada: dias depois, encontraram a testemunha dentro de um valo, coberta de moscas. […]”

(Trecho de Um mundo de moscas. Gustavo Melo Czekster. In O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011)

 

Luisa Bérard

“[…] A luminosidade do dia clareava o ambiente. Os tons azulados dos estofados das duas poltronas, próximas às altas janelas de esquadrias brancas do quarto, agora tinham uma cor vibrante. Os lençóis rendados e as colchas da aconchegante cama de dossel dourada, inclusive os matizes coloridos das flores, diligentemente organizadas num vaso de opalina sobre a cômoda encostada na parede, também estavam bem perceptíveis, em face do adiantado da hora. Não restava dúvida: eu estava terrivelmente atrasada![…]”

(Trecho de Nas montanhas do Marrocos. Luisa Bérard. 1ª ed. Recife, PE: Ed. do Autor, 2017)

 

Luís Roberto Amabile

“[…] O senhor K. seria um sonhador, mas, como sonhava apenas pesadelos, era mais um pesadelador. Podia fazer, o senhor K., esse uso do idioma, agregando palavras, porque o falava de um modo alternativo, sobretudo incomum. Na verdade, não era o seu idioma, e não o era duplamente. O senhor K. pertencia a um outro país, a um outro povo, e apenas por falta de opção, e por coerção, praticava aquele idioma.”

(Trecho de O livro dos cachorros. Luís Roberto Amabile. São Paulo: Patuá, 2015)

 

Patricia Gonçalves Tenório

“[…] Eu fiquei muda, sozinha com as minhas palavras silenciosas. Por que elas não falavam? Por que não manifestavam o que eu sentia, o que eu pedia, meu desejo mais profundo? De tanto pedir caí no sono, ali, na sala de visitas, ali, no colo da babá.

E sonhei com um outro espaço. Onde tudo que eu tocava falava por conta própria e eu não precisava mais falar: a cadeira, o sofá, o tapete reclamava todo passo que eu dava. E o Pedro pulava de alegria, pois não ia mais assustar a tia Clara com as palavras que nem mesmo ele quis falar. As coisas por si falavam, as coisas por nós falavam e todos nos entendiam, babá, a cozinheira, tia Clara, mamãe, papai… […]”

(Trecho de “Alice no espelho”. In Vinte e um/Veintiuno. Patricia Gonçalves Tenório. Madrid, España: Mundibook Ediciones, 2016)

 

Sidney Nicéas

“[…] Um estremecer sacudiu o velho. Não havia mais palavras naquele momento. Ele abriu-se como página. Ela fechou-se em dicionário. Um silêncio d’água ecoou. E persistiu por minutos naquele casebre muito mais simples do que a época que os abrigava – a vida, que ia ficando mais complexa naquela beirada de novo milênio, era contraste com toda a simplicidade do lugar. Mãos a se encostar. Quatro olhos não mirados entre si. Muitos silêncios emitidos que não se tocavam. Ambos numa mudez de nádegas encostadas. Mas toda quietude frágil tente a ruir. […]”

(Trecho de Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos. Sidney Nicéas. São Paulo: Scortecci, 2016)

 

Valesca de Assis

“É do silencio e da perda da voz que se revela / desvela a história do casal Marga e Rudy Treibel, trinta e três anos de casados, moradores de Cruzeiro, uma cidade 50 mil habitantes, pais de Vivian e de de Walter, avós de Renate e de Rudinho (Rude Neto). O enredo tem como ponto de partida o capítulo “Do fim ao começo”, antecedido pelo “Depois do almoço”, texto de abertura, que sinaliza para aquele que é o tema central do quarto romance de Valesca de Assis: a violência doméstica e o silenciamento da(s) vitima(s) femininas – “No melhor dos casos, a menina sentiria, no rosto, a mão ardente do pai. Deus foi muito bom, fazendo-a calar-se a tempo. […] Tinha vontade de gritar a notícia: não morreu […] Então gritou apenas para dentro de si.”

A ponta do silêncio. Valesca de Assis. Porto Alegre: BesouroBox, 2016.

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Sala de Imprensa

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JC II

JC III

 

 

“Sobre a escrita criativa” em Porto Alegre| Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil

Apresentação de Sobre a escrita criativa no XII Seminário Internacional de História da Literatura – PUCRS – 18/10/2017, 17h30, Sala 305, Bloco 8

Patricia Gonçalves Tenório

9788594339003

 

Este livro é uma questão de fé.

Tudo começou em 12 de abril de 2017 quando Annie Müller, Daniel Gruber, Gustavo Czekster, María Elena Morán e eu, conversando no restaurante do bloco 15, imaginávamos de que maneira poderíamos divulgar o trabalho que desenvolvíamos aqui na PUCRS em outras paragens do Brasil. A nós se juntou Alexandra Lopes da Cunha, Luís Roberto Amabile e Guilherme Azambuja Castro.

Levamos o projeto de um Encontro Nacional em Escrita Criativa para a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco nas figuras de Rogério Robalinho e Sidney Nicéas. Eles acreditaram.

Apresentamos o projeto ao tão caríssimo Prof. Luiz Antonio de Assis Brasil que nos abriu as portas da PUCRS juntamente com as caríssimas Profs. Cláudia Brescancini e Maria Eunice Moreira e transladaram para o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco. Eles acreditaram.

Tivemos a ideia de antecipar os textos a serem proferidos nas mesas e oficinas do Seminário para aproveitarmos a oportunidade única de lançarmos uma coletânea com todos reunidos em Recife. Convidamos os 25 participantes e tivemos a grata surpresa de contarmos com uma adesão de 20 artigos e ensaios. Eles acreditaram.

Agradecemos, mesmo à distância, à equipe incansável que tornou este livro possível: Jaíne Cintra (Designer), Wilma Nóbrega (Catalogação), Ana Lúcia Gusmão e Sandra Freitas (Revisão), Deborah Barros (Contabilidade da Editora Raio de Sol), Ricardo Barbosa (Gráfica Provisual); aos Profs. Alexandre Furtado (UPE), Anco Márcio Tenório Vieira (UFPE), Marcelo Coutinho (UFPB), Márcia Ivana de Lima e Silva (UFRGS) e Maria Eunice Moreira (PUCRS), por gentilmente aceitarem o convite de comporem o Conselho Editorial dessa publicação, e, com isso, validarem os nossos textos no Lattes.

E, antes de tudo, a infinita gratidão ao Prof. Luiz Antonio de Assis Brasil, esse baluarte da Escrita Criativa no país, que, lá atrás, na lonjura e no outrora de 2006, acolheu como ouvinte em sua Oficina Literária esta que agora vos fala.

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Sobre a escrita criativa. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Recife, PE: Raio de Sol, 2017.

À venda no https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-nacional/ensaios/sobre-a-escrita-criativa-46741313?id_link=8787&adtype=pla&id_link=8787&adtype=pla&gclid=EAIaIQobChMIgO-ineaB1wIVUAiRCh0oiA8-EAQYASABEgLcFfD_BwE

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Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Outubro, 2017

I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco

XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

14/10/2017 – 10h00 – 13h00

 

No segundo dia do I Seminário Nacional em Escrita Criativa inserido na XI Bienal Internacional dos Livros de Pernambuco começamos nos apresentando e o porquê da busca pela Escrita Criativa em nossas vidas. As participantes do Grupo de Estudos em Escrita Criativa se apresentaram e convidaram as demais pessoas presentes a também se apresentarem.

Começamos abrindo o olhar com o Modos de ver, do romancista, crítico de arte, pintor inglês, nascido em Londres, John Berger (1926-2017).

“Ver precede as palavras. A criança olha e reconhece, antes mesmo de poder falar” (BERGER, 1999, p. 9).

Falamos um pouco do pintor belga, nascido em Lessines, René Magritte (1898-1967) quando Berger cita o abismo entre as palavras e a imagem de A chave dos sonhos (1930).

“Olhar é um ato de escolha. Como resultado dessa escolha, aquilo que vemos é trazido para o âmbito do nosso alcance – ainda que não necessariamente ao alcance da mão. Tocar alguma coisa é situar-se em relação a ela. (Feche os olhos, mova-se ao redor do aposento e verifique como a faculdade do toque é uma forma estática, limitada, de visão.) Nunca olhamos para uma coisa apenas; estamos sempre olhando para a relação entre as coisas e nós mesmos. Nossa visão está continuamente ativa, continuamente em movimento, continuamente captando coisas num círculo à sua própria volta, constituindo aquilo presente para nós do modo como estamos situados.” (BERGER, 1999, p. 10-11)

Como em toda Escrita Criativa, nos preparamos com a Teoria para alavancar a Poesia, nos alimentamos de Crítica para forjar a Ficção. Fomos buscar a base do nosso primeiro exercício prático no conceito de ekphrasis retirado da dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”.

“[…] ekphrasis – do grego εκφραζειν, “explicar até o fim”, ou seja, um fenômeno da representação verbal de uma representação visual.

Muitos são os exemplos de ekphrasis no Ocidente, tendo sua origem na descrição de Homero do escudo de Aquiles, na Ilíada, passando pelos românticos com o poeta inglês John Keats, em “Ode a uma urna grega”, manifestando-se na prosa de Fiódor Dostoievski, em O idiota, quando descreve o quadro “O corpo do Cristo morto”, de Hans Holbein, até chegarmos a O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.” (TENÓRIO, 2015, p. 5)

O primeiro exemplo citado foi o escudo de Aquiles descrito na Ilíada, reunida por Homero, escudo realizado por Hefesto à pedido de Téles, mãe de Aquiles. O escudo original de Aquiles fora emprestado à Pároclo, o amigo morto por Heitor. No escudo novo encontramos a representação do Universo em cinco camadas.

“Fez primeiro um escudo grande e robusto,

todo lavrado, e pôs-lhe à volta um rebordo brilhante,triplo e refulgente, e daí fez um talabarte de prata. Cinco eram as camadas do próprio escudo; e nele cinzelou muitas imagens com perícia excepcional.

Nele forjou a terra, o céu e o mar; o sol incansável e a lua cheia; e todas as constelações, grinaldas do céu: as Plêiades, as Híades e a Força de Oríon; e a Ursa, a que chamam Carro, cujo curso revolve sempre no mesmo sítio, fitando Oríon. Dos astros só a Ursa não mergulha nas correntes do Oceano.”

O segundo exemplo de ekphrasis encontramos no poeta romântico inglês, nascido em Moorgate, Londres, John Keats (1795-1821), na sua “Ode a uma urna grega” ou “Ode sobre uma urna grega” em algumas traduções. Estudiosos afirmam que Keats se inspirou nos mármores gregos do Museu Britânico. Outros que se inspirou em um livro de P. Piranesi, na reprodução de um vaso de Sosíbio do Louvre. O fato é que todo o poema é uma espécie de narrativa de uma festa dionisíaca.

“Tu, ainda não violada noiva do repouso,

Criança, de que o silêncio e o tardo tempo cuidam,

Silvestre historiadora, que assim podes exprimir

Um florido conto com maior doçura do que a nossa rima:

Que legenda franjada de folhagens te rodeia a forma

De divindades ou mortais, ou de umas e outros,

Pelo vale de Tepe ou nos da Arcádia?

Que homens são esses ou que deuses? Que virgens relutantes?” (KEATS, (1819 in) 2010, p. 47)

 

O terceiro e último exemplo refere-se novamente ao objeto de pesquisa da dissertação acima apresentada: a ekphrasis entre único romance do escritor, poeta, dramaturgo, crítico de arte irlandês, nascido em Dublin, Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde (1854-1900), O retrato de Dorian Gray, e a tela à óleo (1943) de mesmo nome, que encontra-se hoje no Art Institut of Chicago, do pintor do realismo mágico americano, nascido em North Valley, Illinois, Ivan Albright (1897-1983).

“Teve uma sensação de dor ao pensar na profanação que aguardava o belo rosto no quadro. Certo dia, numa zombaria juvenil de Narciso, ele havia beijado, ou fingira beijar, aqueles lábios pintados que agora sorriam tão cruelmente para ele. Manhã após manhã, sentara-se diante do retrato contemplando sua beleza, parecendo quase enamorado dela em certos momentos. Iria se alterar agora respondendo às mudanças em seu estado de espírito? Iria porventura se tornar algo repugnante e odioso a ser escondido num quarto trancado, sem acesso à luz do sol, que tantas vezes tornava ainda mais dourada a maravilha ondulada de seu cabelo? Que pena! Que pena!” (WILDE, (1890 in) 2013, p. 195)

 

Os exercícios propostos foram:

1) A partir de cartões postais com pinturas, fotografias, escolhidas no momento da oficina, escrever uma pequena narrativa ou poema, de maneira descritiva ou metafórica;

2) A partir de dois textos e um vídeo da própria ministrante, o conto “Reverência” de Grãos (2007), o poema “Escarlate”, de D’Agostinho (2010) e o vídeo-conto “Prisão perpétua” de Diálogos (2010), escrever uma continuidade do texto/vídeo que mais lhe tocou.

 

 

Referências bibliográficas

 

BERGER, John. Modos de ver. Tradução: Lúcia Olinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

HOMERO. Ilíada. XVIII vv.478-608. https://pt.scribd.com/document/213376064/Homero-Descricao-do-Escudo-de-Aquiles-Iliada.

KEATS, John. Ode sobre uma urna grega. In Ode sobre a melancolia e outros poemas. Organização e tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, (1819 in) 2010.

TENÓRIO, Patricia Gonçalves. O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Saarbrücken, Alemanha: Novas Edições Acadêmicas / OmniScriptum GmbH & Co, 2016.

_________________________. Reverência. In Grãos. Rio de Janeiro: Calibán, 2007.

_________________________. Escarlate. In D’Agostinho. Rio de Janeiro: Calibán, 2010.

_________________________. Prisão perpétua. In Diálogos. Rio de Janeiro: Calibán, 2010. Vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=EAAPVLPxN98

WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Organizador: Nicholas Frankel. Tradutor: Jorio Dauster. Ed. anotada e não censurada. São Paulo: Globo, (1890 in) 2013 – Biblioteca Azul.

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Exercício I

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Exercício I

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Índex* – Setembro, 2017

Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais.

Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler.

Era bom aquele começo, com a esperança no coração.

(“A Cidade Universitária”. In A menina do olho verde, Patricia Gonçalves Tenório)

Furono rubate le mura della città, il Muro Alto non esisteva più.

Piantarono giardini comunicanti, scrissero libri per leggerli gli uni agli altri.

Era buono quell’inizio, con la speranza nel cuore.

(“La Città Universitaria”. In La bambina dagli occhi verdi, Patricia Gonçalves Tenório,

Traduzione Alfredo Tagliavia, Milano, Italia: IPOC, 2016)

Os muros derrubados pela Escrita Criativa no Índex de Setembro, 2017 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Prêmio Il Convivio, 2017 & “A menina do olho verde” | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil). 

I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco & “Sobre a escrita criativa” | Diversos.

“Separação” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Tecelãs” / “Tejedoras” | Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Setembro, 2017 | Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 29 de Outubro de 2017, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – September, 2017

The walls of the city were overthrown, the High Wall no longer existed.

They planted joint gardens, wrote books for each other to read.

That beginning was good, with hope in the heart.

(“The University City”. In The Green Eye Girl, Patricia Gonçalves Tenório)

 

The walls overturned by the Creative Writing in the Index of September, 2017 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Prize Il Convivio, 2017 & “The Green Eye Girl” | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

I National Seminar on Creative Writing in Pernambuco & “About creative writing” | Miscellaneous.

“Separation” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Weavers” / “Tejedoras” | Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group on Creative Writing – September, 2017 | Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thanks for the participation and affection, the next post will be on October 29, 2017, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Os muros derrubados entre Recife e Porto Alegre no I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco. The walls overturned between Recife and Porto Alegre in the First National Seminar on Creative Writing in Pernambuco.

Prêmio Il Convivio 2017 & “A menina do olho verde”* | Patricia Gonçalves Tenório**

O BEIJO

 

Que sabor tem um Beijo? Para ele? Para ela? Tem o gosto de encontro, encontro assim meio de lado, a cabeça de Manoela deitada de lado para receber o Beijo de Pedro. Era feito um aconchego, aquela cabeça deitada, no ombro de seu amado. O Beijo, assim torto parecia. Mas não era torto, era místico e ali se fazia um santuário.

Naquele instante celestial, um Raio de Sol tocou a Cabeça de Manoela. A Cabeça da menina permanecendo deitada, pendendo assim para o lado, era mais fácil o Raio de Sol a tocar e se inserir no pensamento. Houve então uma Epifania. Todos os momentos vividos, o antes, o agora, o depois explodiram em Manoela, como se fossem um instante só. E a menina-mulher podia no corpo de Pedro entrar, no corpo do homem-menino penetrar, feito o ar em seus pulmões.

 

Il Bacio

Che sapore ha un Bacio? Per lui? Per lei? C’è il gusto dell’incontro, un incontro mezzo nascosto, il capo di Manoela chino su un lato per ricevere il Bacio di Pedro. Stava come comodo, quel capo appoggiato sulla spalla dell’amato. Il Bacio, sembrava così di traverso. Ma non era di traverso, era mistico, e là avrebbero costruito un santuario.

In quell’istante celestiale, un Raggio di Sole toccò il Capo di Manoela. Il Capo della bambina mentre rimaneva appoggiata, pendendo da un lato : così era più facile che il Raggio di Sole la toccasse ed entrasse nel suo pensiero. Fu un’Epifania. Tutti i momenti vissuti, il prima, l’ora, il dopo, esplosero dentro Manoela, come fossero un solo istante. E la bambina-donna poteva entrare nel corpo di Pedro, penetrare nel corpo dell’uomo-bambino, come aria nei suoi polmoni.

(Traduzione di Alfredo Tagliavia In La bambina dagli occhi verdi, Patricia Gonçalves Tenório. Milano, Italia: IPOC, 2016)

 

Premiati per sezione 2017

 

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* A menina do olho verde. Patricia Gonçalves Tenório. Recife,PE: Editora Raio de Sol, 2016.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em Outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em Outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da prof. dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no doutorado em Escrita Criativa, sob a orientação do prof. dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

 

I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco & “Sobre a escrita criativa” | Diversos

cartaz_escrita_criativa (1)13/10/2017 10 horas – 13 horas

Oficina/workshop: “Mercado editorial e autopublicação”

Daniel Fernando Gruber (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Autopublicação: um caminho possível”

Daniel Perroni Ratto (Ceará) – Palestrante: “Mercado editorial”

Cida Pedrosa (Pernambuco) – Palestrante: “Mercado editorial”

 

13/10/2017 15 horas – 18 horas

Oficina/workshop: “Estimulando a leitura através da Escrita Criativa”

Gustavo Melo Czekster (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Leitura e Escrita Criativa”

Fernando de Mendonça (professor UFS) – Palestrante: “Experiência de Criação Literária: da sala de aula ao Clube de Leitura Criadora”

Igor Gadioli Cavalcante (professor UFS) – Palestrante: “Leitura de Prosa e Poesia: Alimentando a Escrita Criativa”

Lourival Holanda (professor UFPE) – Palestrante: “Leitura e Escrita Criativa”

 

13/10/2017 19 horas – 21 horas

Mesa: “A importância de um ambiente estimulante na Criação Artística”

Luís Roberto Amabile (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Será Porto Alegre uma festa?”

Patricia Gonçalves Tenório (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “Vida: uma experiência criativa”

Luiz Antonio de Assis Brasil (professor PUCRS) – Palestrante: “A Escrita Criativa no Brasil”

Valesca de Assis (Rio Grande do Sul) – Palestrante: “A mulher e o chamado da Literatura”

Sidney Nicéas (Pernambuco) – Palestrante: “Inspiração e ação: os gatilhos da Criatividade na Escrita e o sentir e o agir no Texto Literário”

Raimundo Carreiro (Pernambuco) – Palestrante: “A Escrita Criativa no Brasil”

Lançamento Sobre a escrita criativa,  Editora Raio de Sol, Recife-PE, 2017, Organização: Patricia Gonçalves Tenório, Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil, com artigos dos participantes do Seminário.

 

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14/10/2017 10 horas – 13 horas

Oficina/workshop: “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”

Patricia Gonçalves Tenório (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”

Bernadete Bruto (Pernambuco) – Palestrante: “Viagem ao fundo da Poesia: uma recomposição de trabalhos à luz da Teoria”

Elba Lins (Pernambuco) – Palestrante: “A Escrita Criativa – dando asas à minha Prosa e novas formas à Poesia”

Luisa Bérard (Pernambuco) – Palestrante: “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”

Talita Albuquerque Bruto da Costa (UFPE) – Palestrante: “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”

 

14/10/2017 15 horas – 18 horas

Oficina/workshop: “Devaneios Fílmicos, Cósmicos e Poéticos”

Fernando de Mendonça (professor UFS) – Coordenador/Palestrante: “Devaneios Fílmicos, Cósmicos e Poéticos”

Maria do Carmo de Siqueira Nino (professora UFPE) – Palestrante: “Pequenas narrativas com Aventura

Robson Teles (professor UNICAP) – Palestrante: “Olhos de Encenador frente a Intergenericidades Poéticas”

 

14/10/2017 19 horas – 21 horas

Mesa: “Era das narrativas e o herói cansado. Problematizações em torno da viagem do herói, suas possibilidades, limites e insuficiências.”

Daniel Fernando Gruber (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “O herói cansado”

María Elena Morán Atencio (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “As histórias que (não) nos contam”

 

15/10/2017 10 horas – 13 horas

Oficina/workshop: “Oficina de Escrita Criativa – Poesia”

Alexandra Lopes Da Cunha (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “A Poesia como percurso”

Cida Pedrosa (Pernambuco) – Palestrante: “Oficina de Poesia”

Carlos Enrique Sierra Mejía (Colômbia) – Palestrante: “A dificuldade da Escrita e o Prazer Criador”

 

15/10/2017 15 horas – 18 horas

Oficina/workshop: “Oficina de Escrita Criativa – Prosa – Contos e Roteiros”

Luís Roberto Amabile (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Oficina de Contos e Roteiros”

María Elena Morán Atencio (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “Oficina de Contos e Roteiros”

Guilherme Azambuja Castro (PUCRS) – Palestrante: “De onde vêm as histórias?

 

15/10/2017 19 horas – 21 horas

Mesa: “Quem tem medo da Literatura Fantástica?”

Gustavo Melo Czekster (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Escrever Literatura Fantástica no Brasil do Século XXI”

Adriano Siqueira Ramalho Portela (professor ESM/FAMA-PE) – Palestrante: “Quando o Espírito é quem manda: um mergulho no Roteiro Fantástico de Osman Lins”

André Balaio (Pernambuco) – Palestrante: “Quem tem medo da Literatura Fantástica?”

 

“Separação”* | Clauder Arcanjo**

I

Casaram-se há poucos meses: Maria e José; namorados e noivos felizes, agora enlaçados para sempre. “Marido e mulher, até que a morte os separe.”

Na festa, íntima, a presença dos familiares e alguns amigos mais próximos. Coisa fechada. Ele, por ser inimigo das grandes comemorações. Ela, a preferir o momento de juras e intimidade entre os seus. Em especial, quando ela estivesse perante Cristo.

Religiosa, e de família católica, Maria escolhera a capela da igrejinha do bairro, local sagrado que sempre frequentara. Ela e os seus antepassados. Seu avô paterno orgulhava-se, confiando o seu longo bigode branco, de que doara todo o madeiramento do telhado da pequena nave. Sem esquecer de citar que completara as últimas carreiras dos bancos de madeira, quando o pároco já corria descabelado pela sacristia, com receio da missa inicial com a igrejinha incompleta. “Isto não seria agradável ao Senhor!”

Nove da manhã, noivo e noiva, testemunhas e poucos convidados frente ao altar. Padre Roque a conduzir o matrimônio.

– No matrimônio, caros irmãos e irmãs, o padre tem mera função auxiliar. Apenas, hoje, mais uma vez, exercerei o meu papel de coadjuvante perante o juramento destes dois.

Silêncio. Lá fora, algumas buzinas e um trinado festivo dos pássaros nas árvores diante da casa paroquial.

– José, aceita como sua legítima esposa…

– Sim, aceito.

– Maria, aceita como seu legítimo esposo…

– Sim, aceito.

– Estão casados, perante Deus e os homens. O noivo pode beijar a noiva – e baixou a cabeça, como se para evitar constranger os nubentes.

Seu Marivaldo, sempre afeito às fanfarras, gritou com sua voz anasalada:

– Viva os noivos!

Ninguém lhe fez coro; apenas se ouviu uma salva de palmas. Palmas contidas.

Os recém-casados desceram do altar e receberam os cumprimentos dos presentes ainda no interior da igrejinha. Na casa paroquial, foi servido um café da manhã. Sem grandes arroubos.

“Coisa fraca e sem muito gosto, apenas para estômagos fracos”; segundo comentário do Seu Marivaldo. Ele, que sonhara com uma champanhota para abrir os festejos naquela sexta-feira, já olhava de esguelha para os pais da noiva. Na certa, julgando-os uns sovinas.

Antes das onze, o sumiço dos noivos. Assim como entraram, saíram. Pela porta da frente. Só que, desta feita, juntos, de braços dados.

Os vizinhos não conheram nos olhos de Maria o viço da paixão. Os rapazes do bairro, um pouco magoados pelo evento fechado, nem sopraram piadas picantes na passagem dos recém-casados.

Fecharam-se na casa nova, presente do pai de José. Um telhado de duas águas, uma varanda na frente, dois quartos, uma cozinha e um quintal que prometia, em razão das mudas plantadas com esmero pela mãe do noivo. Dona Julieta, sempre amiga das flores e dos frutos.

A notícia correu as ruas há menos de mês. De início, de forma discreta e protocolar. Com pouco, num assomo de fúria e como se contada com o ferro quente da vingança. José e Maria não foram mais vistos juntos na missa dominical.

Maria, sozinha, a rezar no banco da frente, com um xale escuro a encobrir a face pálida. Com olhos postos no madeiro da Cruz. José, de tronco nu e com a face afogueada, a cuidar do quintal durante todas as manhãs de domingo. Agora a sonhar com o trinado festivo dos pássaros nas suas árvores, como no dia do seu enlace matrimonial.

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Primeiro capítulo de Separação. Clauder Arcanjo. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2017.

** Contatoclauderarcanjo@gmail.com

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Setembro, 2017

O exercício do mês de Setembro de 2017 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa foi “Escrever sobre escrever”, “Escrever sobre assistir”.

Trago ao centro dois textos que penso representarem bem esses “exercícios de desbloqueio”. Porque a escrita é um subir de montanhas, é subir “o monte da resposta perdida” para tentar encontrar a si mesmo, a sua própria voz, única, intransferível. Insubstituível.

Dois sonhos se encontram no mês de Setembro anunciando o mês de Outubro de 2017. O Primo Premio Assoluto da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália para a fábula lúdico-adulta A menina do olho verde, livro que, entre as primeiras pessoas a acreditarem, estavam Bernadete Bruto e Elba Lins.

E o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco, Seminário no qual vários(as) outros(as) escritores(as) do Brasil e exterior acreditaram, mas que é fruto, flor e árvore da semente plantada lá no início, em agosto de 2016, no Grupo de Estudos em Escrita Criativa, e que com imensa alegria estarão lançando seus primeiros livros – Elba Lins & Do outro lado do espelho – O feminino em estado de poesia, Luisa Bérard & Nas montanhas do Marrocos –, e o primeiro livro infantil de Bernadete Bruto, A menina e a árvore.

Boa leitura!

 

Patricia Gonçalves Tenório

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

A PAIXÃO PELA ARTE OU A ARTE DA PAIXÃO?

                                                                                                          

Hoje assisti a dois filmes:  A Arte da Paixão (2013) e  Effie Gray: uma paixão reprimida (2014) e passo a comentar visando apenas a forma de fazer arte.

No primeiro, há duas formas de conceber arte. Uma, viver intensamente a arte, expressá-la, vivenciá-la, fluir com ela. Na liberdade, assim como da mesma forma amar. Algo parecido com que Vinícius diz sobre o amor: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito, enquanto dure.” A outra forma, sentir a vida, introjetá-la e extravasar na escrita. Como se o diário fosse uma espécie de confessionário.

O filme A Arte da Paixão (Summer in February) trouxe visões distintas sobre a arte e como fazê-la. Baseado no diário pessoal de Gilbert Evans, conta a história do triângulo amoroso entre o pintor Alfred Munnings, seu amigo Evans e sua esposa Florence Carter-Wood, também pintora. A história se desenrola na Cornualha numa cidade que agrega um grupo de artistas denominado Grupo Lammorna. Uma história real, que gerou um livro escrito por Jonathan Smith, foi transformada num roteiro muito interessante, e em outro tipo de arte. (Que beleza!)

De cara me identifiquei com A.J., assim denominado Alfred Munnings. Sua sede de viver e de expressar a arte. Talvez até porque, logo no início do filme ele recita o poema “O corvo”, poema que muito aprecio, que além da beleza da forma, a recitação é primorosa e o ator o faz de maneira magistral. Eu, aqui do sofá, fui arrebatada! Muito embora tenha uma paixão pela expressão poética, reconheço que outras formas da linguagem têm igual valor. Como também a forma que os artistas queiram vivenciar a sua arte. Acredito não haver receitas. Depende das escolhas com que mais nos identifiquemos. Inclusive, porque o que apreciei em A.J. como artista, não morri de amores pelo homem! Neste assunto, a sensibilidade de Gilbert me atrairia mais.

No caso de A.J., ele era feliz ali naquela comunidade de artistas conforme declarou em discurso, que apresentamos em seguida e que fez sintonia no meu coração:

 

Meus amigos. Minha família da Cornualha por assim dizer.

Que encara o mundo como eu, que capta o seu pulsar, que vê a luz do mar, a pelagem brilhante de um cavalo e o esplendor de uma beldade em um lindo dia.

 

Não conhecia o artista A.J. Munnings e gostei de ver suas pinturas e saber algo sobre ele, sobre Florence e em especial a tela da mulher sobre o cavalo, e não é que descobri várias telas de mulheres a cavalo?

Foi um filme muito agradável e apesar do final triste, em algum momento A.J. até confessa que o casamento e a sua forma de viver a arte não estavam fluindo bem: era tudo tão fácil! Beber, pintar, andar a cavalo. Mas isso, acaba comigo. Deste filme, escolhi ficar com o exemplo do companheirismo de Laura e Harold Knight que viveram com autencidade tanto na arte quanto na vida, e extraí essa mensagem: “amar só não basta. Certas artes são como o sacerdócio e compatibilidades é o que mais necessitamos.”

O segundo filme, Effie Gray: uma paixão reprimida, novamente o triângulo amoroso entre um crítico de arte e crítico social britânico John Ruskin, sua esposa Euphemia “Effie” Gray e o artista John Everett Millais, também outra adaptação da uma história real sobre a primeira mulher na Inglaterra que pediu divórcio.

Embora o filme comece com a famosa frase ERA UMA VEZ, nada indicava um conto de fadas e romance. Tive a impressão que a protagonista era a arte e não Effie. A arte estava em primeiro lugar na vida de Ruskin, que também foi poeta e desenhista e vivia no pedestal que ele foi colocado pelos pais e pela sociedade. Seu conceito de arte apresentado num evento durante o filme, já nos remete à sua forma de vivenciá-la:

 

Qual o propósito da arte? Idealizar? Sentimentalizar? O propóstio da arte é revelar a verdade. É revelar Deus.

 

Talvez por Effie ter sido em criança sua musa, para quem ele escreveu um livro, não pudesse tornar-se nem mulher, nem real para ele, na sua concepção neurótica.  Também encontrei no filme uma alusão de que o artista faria um livro escrevendo sobre a “maldade” de sua mulher, o que me deixou a meditar se ela não estaria sendo um experimento para aquele futuro livro. Ruskin me deixou a impressão de que certos artistas se dedicam tanto à sua arte, que não há espaço para nada mais na vida.

No caso em particular, o final não foi feliz para Ruskin que teve sua vida exposta à sociedade da época, todavia Effie casou com Millais e teve 8 filhos. Isso, descobri em pesquisa, como outros detalhes sórdidos sobre Ruskin e Effie, que não interessam para a nossa análise. Um filme muito romântico, apesar dos momentos de infelicidade, e com final feliz, a marca registrada dos roteiros de Emma Thompson, que participa deste filme, assim como de outros que ela produz, roteiriza, e que me agrada bastante.

Por fim, porque ambos os filmes abordam o assunto da arte, fica a pergunta inicial no título de como se manifestou a arte e a vida nessas produções.

 

Recife, 20 de Agosto de 2017.

 

 

Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

 

Por ser de lá do Sertão, lá do Cerrado
Lá do interior do mato
Da Caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.(2)

Gilberto Gil e Dominguinhos

 

 

 

A leitura do conto “Lonesome Town”(1), de Luís Roberto Amabile, me emocionou. Quiçá porque, tratando-se de uma paisagem seca, do sertão, mais especificamente do Sertão do Pajeú, me fez lembrar do meu próprio lugar incrustado no Sertão do Cariri.

Assim, comecei a ler e me identificar com a paisagem, a entender os sonhos de tantos que abandonam por instantes o pensar seco, árido e vazio e ousam voar em devaneios poéticos. Penso no dono do Café e no seu sonho de uma grande competição onde as vozes de Caetano Veloso, Bom Jovi e Laura Pausine cantam a solidão e enaltecem o nome do lugar, colocando luz e colorido na monotonia vigente.

E a inusitada imagem da Greta Garbo de Solidão, me trouxe lágrimas aos olhos. “Greta Garbo! A maior estrela de cinema da sua época, a mais reclusa entre todas as celebridades que já existiram. Greta Garbo, a mulher mais bonita de todos os tempos, que escolheu a solidão…” (AMABILE, 71). Greta Garbo, havia escolhido Solidão.

E eu, talvez por ser uma amante da dança e saber que num átimo, num passo de dança,  maravilhas acontecem, sonhos se realizam e diferentes solidões se entrelaçam e deixam-se levar num redemoinho cósmico, sinta tão fortemente essa imagem. Depois daquela dança a vida em Solidão jamais voltou a ser a mesma para aquela velha dama em azul. Aquela que num momento ímpar se “fez bonita como há muito tempo não queria ousar (3)”. Depois daquela dança, Solidão, Greta Garbo, e até mesmo eu nunca mais fomos os mesmos!

 

(TAMBÉM  EXISTEM SONHOS NO CAFÉ SOLIDÃO

Após a leitura do conto “Lonesome Town” no livro O amor é  um lugar estranho, de Luís Roberto AmabileElba Lins  18.09.2017)

 

Referências

1 – “Lonesome Town” no livro O amor é  um lugar estranho – Luís Roberto Amabile

2 – “Lamento Sertanejo” – Gilberto Gil e Dominguinhos

3 – “Valsinha” – Chico Buarque