Posts com Literatura

Índex* – Agosto, 2018

Descubro

Na palavra

Um suporte 

No qual me apoiar

Um alívio

Em desabafar

A angústia 

De não ter controle

A Patricia

Sem linha

Caneta

E cor

 

Na palavra

Me descubro

Inteira

Portadora

Do segredo

Mais íntimo

Mais âmago 

Que nem eu mesma

Sabia

 

Sorrio

Quando

A caneta

Sulca o papel

Em letra de forma

E reconheço ali

Todo um sentido

(“Toda poesia”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/08/2018, 15h34)

 

O amor à Escrita no Índex de Agosto, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Uma autobioficção | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Um poema de escrita | Cilene Santos (PE – Brasil).

PALAVRA DE VIAJANTE (Lisboa) | Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Sete anos | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelando | Mara Narciso (MG – Brasil).

“A mulher faminta” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre | Diversos.

E o link do mês com um poema de Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 30 de Setembro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – August, 2018

 

 

I discover

In the word

A support

To support me

A relief

To vent

The anguish

Of not having control

A Patricia

Without line

Pen

And color

 

In the word

I discover myself

Entire

Bearer

Of the most intimate

Secret

More core

Like myself even

Knew

 

I smile

When

The pen

Groove the paper

In shape letters

And I recognize there

A whole sense

(“All poetry”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/14/2018, 3h34 p.m.)

 

The love of Writing in the Index of August, 2018 on the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

An autobiofiction | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

A writing poem | Cilene Santos (PE – Brasil).

WORD OF TRAVELER (Lisbon) | Fred Linardi (SP / RS – Brasil).

Seven years | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelling | Mara Narciso (MG – Brasil).

“The Hungry Woman” | Tiago Germano (PB / RS – Brasil).

Studies in Creative Writing – August, 2018 – Recife and Porto Alegre | Several.

And the link of the month with a poem by Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Thank you for the affection and participation, the next post will be on September 30, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando a Escrita entra pelas Janelas da Alma. When the Writing enters through the Windows of the Soul.

 

Uma autobioficção* | Patricia Gonçalves Tenório**

Maria acordou cedo. Olhou para o lado. Para onde foi João? Para onde foi o amor que tanto lhe provocara?

Começaria um dia em branco. Escreveria uma nova história como se entranhasse no seio de sua mãe, e sulcasse o papel com a caneta Bic, preta, a tinta quase acabando, mas que rende tantas páginas.

Hoje seria diferente. Começaria pelo fim do dia, a chegada em casa, café para os filhos, banho, perfume, se preparar para o esposo-amante, e deixá-lo invadir as células cerebrais, os líquidos no estômago, e retirasse de si alguma ideia inusitada, e já haviam pensado antes desde os tempos atávicos.

Porque não havia nada de novo a ser escrito,  tudo fora dito entre os amantes, e sentou-se nua na cadeira da escrivaninha.

Olhou para ele. Entristeceu. Aceitou que era pobre e não havia nada a oferecer, a Maria. A mão pegou a caneta quase sem tinta preta e escreveu uma palavra.

(“Ave, Maria!”, Patricia Gonçalves Tenório, 17/08/2018, 05h40)

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* Feliz coincidência entre o tema dos Estudos em Escrita Criativa de Agosto, 2018 – escrever sobre o amor à escrita -, e o primeiro exercício da disciplina Teorias da Criação Ficcional, ministrada pelo Prof. Dr. Amilcar Bettega no PPGL da PUCRS, que assisto como ouvinte.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

 

PALAVRA DE VIAJANTE (Lisboa) | Fred Linardi*

Digite “livraria” no Google Maps, veja o que aparece nos bairros centrais de Lisboa, e você estará em apuros. Se você morar na cidade e tiver tempo, os apuros são financeiros; se você estiver por poucos dias, seus apuros estarão em escolher quais delas visitar.

A despeito das mais conhecidas, um dia fomos cruzando as ruazinhas e vielas do Baixo Chiado, até uma dessas menos mencionadas. Ela tinha aparecido no mapa como uma loja próxima de onde estávamos. Dava para ser naquele dia, e valia a pena! A livraria “Palavra de Viajante” é, oras pois, especializada em livros de viagem, desde os óbvios guias de turismo até os mais variados relatos de viagens empreendidas pelos escritores, assim como as narrativas onde toda a história é ficcional.

Pulemos os guias e vamos para os livros que fazem com que a gente se perca categoricamente em suas histórias. Estão lá Bruce Chatwin, Paul Theroux, Henry David Thoreau, Tiziano Terzani, John Reed e tantos outros que foram, voltaram e relataram. Há também aqueles que empreenderam viagens totalmente imaginárias, como Xavier de Maistre, Ítalo Calvino e Alessandro Baricco. Aliás, todo o fôlego perdido nas ladeiras da cidade foi definitivamente aniquilado diante de uma edição ilustrada e indescritível de “Seda”. Ainda contamos com os teóricos, diante de tantas reflexões que ainda não cruzaram os mares até nosso mercado editorial. “As viagens de Gulliver” estão lá, claro! A jornada de “Pinóquio” também, pois como uma livraria dessas não se dedicaria ao setor infantil? “A Viagem do Elefante”, de Saramago, adaptada para as crianças, está lá também.

Passei um tempão vendo quase todas as prateleiras e amaldiçoando a violenta conversão monetária. Peguei um teórico escrito por Paul Theroux sobre narrativas de viagem. A simpática senhora que cuida da livraria perguntou se eu queria pensar para levar depois, e reservou em sua mesa. Não fui buscar ainda. Ela deve estar achando que eu desisti. Eu considero um ato falho.

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** Fred Linardi (Americana/SP, 1982) é jornalista graduado pela Universidade Mackenzie, escritor e palhaço. Especialista em Jornalismo Literário, atualmente é mestrando em Escrita Criativa na PUCRS, escrevendo uma biografia sobre uma palhaça brasileira e aprofundando sua pesquisa em literatura de não ficção.  É sócio da Biografias & Profecias, editora focada na publicação de memórias familiares e empresariais. No campo da ficção, em 2017 foi contemplado com o 2º lugar no Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, na Jornada Literária de Passo Fundo. Contato: fred.linardi@gmail.com

Catopelando | Mara Narciso*

Nos anos 1960, a nostalgia fala: não havia decoração pública nas Festas de Agosto de Montes Claros. Nem esse nome havia. Quando meiava o mês ventoso – “agosto chega como a ventania, cálice bento e abençoado, a dor do povo de São Benedito, no mastro existe para ser louvado” (Tino Gomes e Georgino Júnior) – os dançantes saiam para a rua. O Congado, nossa mais ardorosa tradição, tem na devoção a São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e ao Divino Espírito Santo o motivo da festa.  As violas dos marujos de vermelho e azul (uma dissidência é branca) e dos caboclinhos com arcos, flechas e tangas de penas de galinha circulavam pelo centro da cidade. Ano após ano, podia-se ouvir a batida dos pandeiros, caixas e tambores dos catopês, com sua dança cadenciada, indo e voltando em fila indiana, com os estandartes e uma fé candente. Eram grandes em sua coragem e veneração aos santos, mas minguados em número. Na verdade, o Segundo Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, tinha à frente o grande Mestre João Faria, desde os 17 anos, e uma dúzia de homens e meninos, quase todos descalços, nem mesmo sandálias de borracha possuíam, trajavam roupas brancas surradas e empoeiradas, com minguadas fitas coloridas nos capacetes, traços que marcam o grupo, e uma dolorida cara de sofrimento. Não dá para tirar isso nem da História e nem da letra da música “Montesclareou” cujo verso diz “meus olhos cegos de poeira e dor”.

A antiga Igreja do Rosário, no meio da praça, foi derrubada pelo progresso e outra moderna com formato de barco passou a abrigar os dançantes em seus rituais, debaixo da quentura abafada do lugar. Lá se vão décadas e a festa mudou, recebeu o apoio de políticos, da população e especialmente da classe média, que aderiu e apoiou financeiramente, com jantares coletivos e doações, mesmo sem verbas oficiais. Sem contar os príncipes e princesas e quase toda a corte, que são provenientes da classe abastada, onde estão os festeiros que organizam o almoço dos participantes. Sem isso, a Festa dos Catopês, Marujos e Caboclinhos, negros, brancos e índios, respectivamente, este ano em sua 179º edição, 18 anos anterior à emancipação de Montes Claros, poderia ter desaparecido. Quem vê sua grandiosidade hoje, coligada ao Festival Folclórico – 40ª edição, apoiada e admirada pela plasticidade da sua dança, beleza e longevidade, nem sonha como já foi.

A classe média entrou nos ternos seguindo um ritual complexo, a começar pela exigência de fé, respeito às tradições e comparecimento aos ensaios. Chegou com trabalho e participação no cortejo. Não pode descaracterizar os rituais nem os figurinos. Os capacetes dos catopês mudaram, adquirindo pedrarias, penachos de pavão, e fitas coloridas até o chão. As faixas transpassadas no peito mostram a graduação dentro do reinado. Os chegantes estão, obviamente, sob o comando dos mestres e muitos se apresentam há décadas. São importantes na manutenção da festa, mas há discordantes veementes, que querem apenas os dançantes de raiz no desfile. Dentro dos limites estipulados, a manutenção dessa infiltração respeitosa é bem-vinda. A discussão e palpites são antigos, e alguns olhares externos querem expurgar o Festival Folclórico e dizer como os dançantes devem se comportar.

As Festas de Agosto, quer gostem ou não, valorizem ou pensem que sejam artificiais e aculturadas, mobilizam a cidade durante quatro dias e quatro noites, tumultuando o centro e trazendo vida e alegria ao sofrido povo da cidade.

Muitos querem ver, fotografar e filmar o desfile que começa na Praça Dr. João Alves e desce até a Praça Portugal na direção da Igreja do Rosário. A cacicona Maria do Socorro Pereira Domingues, no comando dos caboclinhos, é a única mulher a ocupar esse cargo. O Mestre Zanza – João Pimenta dos Santos, catopê da velha guarda, tem 85 anos, desfila desde o nascimento, e esse apelido foi-lhe dado pela mãe, porque ficava “zanzando” pela casa. Firme no cortejo até hoje, tem recebido homenagens e honrarias. O Mestre João Faria, um carroceiro na vida real e um rei na vida de sonho e sua inconfundível marcação de ritmo, partiu aos 74 anos, em 10 de janeiro de 2018. Nesta festa, a passagem do seu Terno, comandado pelo neto Yuri Farias Cardoso, de 19 anos, arrancou lágrimas dos mais sensíveis, inconformados com as perdas definitivas.

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Mara Narciso é médica e escritora de Montes Claros (MG) e toda semana me presenteia com suas crônicas belíssimas. Contato: yanmar@terra.com.br

“A mulher faminta”* | Tiago Germano**

Tenta fechar os olhos, mas o barulho do interfone não o deixa dormir. No colchão em que cabem três dele, camadas de lençol amarrotado modelam um corpo. Tem a nítida impressão de que ela ainda está ali. Da janela, uma luz difusa se reflete na parede do quarto. As mãos procuram o celular. Confere o mostrador do relógio. Três e meia da madrugada e o interfone que não para de tocar. Desliza para o lado e coloca os pés no lugar mais seguro que encontra. Um cânion aberto por pilhas de livros e papéis assume o espaço que os poucos móveis não conseguem preencher. Desvia cambaleante de cada um dos obstáculos. Uma pilha tomba e uma cascata de páginas forma um pequeno estuário no chão. Projeta os membros de um lado para o outro do corredor. Desloca-se mais com as mãos tateando as paredes que com os pés tropeçando nas caixas. O som do interfone ecoa metálico pelo apartamento. É quase possível senti-lo vibrar na superfície das paredes. A porta do quarto de hóspedes está aberta e trancá-la é a primeira coisa que faz antes de continuar a seguir o eco até a cozinha. Liga a luz e uma rajada incandescente atravessa a retina. Procura o aparelho entre a pia de louças acumuladas, uma coluna parcialmente submersa de porcelana barata, um iceberg que vai dos pratos maiores para os pires menores, os talheres por cima, os copos encaixados uns dentro dos outros, as panelas de alumínio num caos perfeitamente organizado. — O senhor sabe que eu só faço minha obrigação — diz a voz roufenha do porteiro, do outro lado da linha. No sexto andar do prédio, o vazio é tal que o silêncio consegue se sobrepor às desculpas pela hora. — A vizinha de baixo tá perguntando se o senhor não deixou alguma coisa estragar na geladeira ou no forno. A geladeira está vazia, e é preciso esfregar muitas vezes os olhos antes de verificar as quatro bocas do fogão apagadas, a válvula do gás fechada há sei lá quanto tempo e nem um traço de lixo na área de serviço, não fosse o pequeno lodaçal que demarca o trajeto de chorume das sacolas recém-recolhidas. Na pia, as roupas sujas permanecem mergulhadas em uma solução de sabão em pó e água sanitária. As janelas continuam fechadas. — O senhor sabe como é gente velha. Já é a terceira vez que ela me pede pra ligar perguntando. Larga o aparelho no suporte. Vai até a sala e tenta sentir o cheiro. O notebook hiberna na mesa de jantar. Confere o dia da semana na tela. Na avenida, ouve um carro frear e acelerar subitamente. As rodas parecem se desconjuntar na lombada, os pneus cantando à medida que o carro se afasta.

Solta as trancas da porta corrediça e só então percebe o reflexo da TV ligada no mudo. Abre a porta de vidro que dá para a varanda e o vento começa a uivar invadindo a sala. Não se lembra de ter posto o DVD no aparelho. Não se lembra de ter abandonado o filme no meio. Tira a camisa suada e deita no sofá. Há uma sensação de alívio em colocá-la sobre o rosto, o suor do corpo ainda quente encharcando a malha. Aumenta o volume no controle remoto. Pela gola aberta da camisa, acompanha a cena que se repete na tela. É noite e um grupo de criaturas cerca uma caminhonete ardendo em chamas. Dentro da cabine, um corpo carbonizado desprende uma espessa nuvem de fumaça. Faces desfiguradas aglomeram-se no para-brisa. As criaturas arrombam a cabine e desmembram o cadáver, roubando restos de carne humana com as mãos. O vermelho das tripas salta no colorido digital. Um homem devora um pedaço de pele lacerada, uma tira que parece do tamanho exato da epiderme que lhe falta no pescoço. Começa, enfim, a se lembrar. Tudo, de fato, aconteceu no quarto ao lado. Sabe agora exatamente de onde vem o cheiro. Tem alguém morto neste apartamento.

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* Trecho do primeiro capítulo do livro A mulher faminta, de Tiago Germano.

** Tiago Germano nasceu em Picuí (PB) e foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio Açorianos de Criação Literária com o seu primeiro livro de crônicas, Demônios domésticos, lançado em 2017 pela Le Chien, de Porto Alegre. O texto “Óculos Ray-Ban”, que abre este volume, venceu o Prêmio Rubem Braga de Crônicas em 2016. A mulher faminta, finalista do Prêmio Açorianos de Criação Literária 2016, é seu primeiro romance e publicado pela Moinhos, de Belo Horizonte, em 2018. Contato: tdgermano@gmail.com

 

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre

Os encontros de Agosto, 2018 em Recife e Porto Alegre falaram sobre O amor. Não somente o amor entre os amantes, mas, principalmente, o amor à escrita. Passeamos pelos encontros do primeiro semestre, revisamos conceitos, e acrescentamos o de carcaça de John Keats, quando o poeta se esvazia de si para se preencher com Poesia,  Ficção, com Escrita Criativa. Encontramos essa carcaça na escrita de Orhan Pamuk, de Ian McEwan, e tantos outros artistas de diversas artes, teóricos de inúmeras áreas de conhecimento…

A partir dessas conexões do octógono dos Estudos em Escrita Criativa, fomos presenteados com textos que se encontram aqui neste post, com os processos criativos de Ana Maria César (Recife), Annie Müller e Luís Roberto Amabile (Porto Alegre), e outros textos que foram além do tempo e do tema do mês e que se encontram em posts individuais.

E nos preparamos para os encontros de Setembro, 2018 em Recife e Porto Alegre que falarão sobre O sonho. Desta vez teremos a honra e a alegria de receber Adriano Portela (Recife), Gisela Rodriguez e Fred Linardi (Porto Alegre) para falarem sobre suas criações artísticas, poéticas, literárias.

Que venha Setembro e uma boa leitura!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Branco

André Souto

Recife, 11/08/2018, V Encontro de Escrita Criativa

Contato: asla56@outlook.com

 

A tela à sua frente. Branca. O cursor pisca. Oscila. Pronto a receber alguém. Alguma coisa, mesmo sem trama nem final.

A tela: insulto e desejo. Sozinho e sentindo a presença. Frio, branco: o olhar do inquisidor mudo.

Compreendeu “a luta mais vã”. Arremeteu contra os seus moinhos de vento.

No cursor inquieto, a pergunta tantas vezes repetida:

— E agora?

 

                                                                    

 

ESCRITA AMOROSA

BERNADETE  BRUTO

Recife, 11 de Agosto de 2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Foi principalmente por amor que pegou o papel e escreveu o primeiro poema. Vieram outros depois, que rasgou por não achar bonito comparado com os da irmã. Aquela sim tinha o dom, a vez, a voz e todos os olhos e amor daquela grande família.

Ali do seu canto, percebeu, também queria ser amada, embora fosse apenas uma menina perante a adolescente cheia de vida. Foi à luta. Insistiu. Alguns olhares se voltaram e pousaram na sua pessoa miúda. A partir dali, ganhou seu espaço e um lugar na família.

Depois o ato de escrever surgiu como confissão de outros amores transitórios, doloridos ou desenganados. Muitas lágrimas pingando no papel, unidas à escrita desenfreada, foram despejadas e, por vezes, o ato tenha ficado meio desbotado.

Somente quando olhou para si e para o outro com amor, o ato de escrever foi tornando-se forte, sereno e eficaz. Hoje, escrever continua sendo um ato de amor, que chega impregnado do grande amor que ela tem por si e pelo outro.

Assim ela imagina que deva ser. É essa busca no seu ato. Quando isso acontecer, um dia, a sua escrita poderá ser conhecida pelo próprio ato que a moldou desde o princípio, podendo ser denominada de AMOROSA.

 

 

O PODER DA PALAVRA

Cilene Santos

Recife, 19/08/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Pudesse ser

Um gesto,

Um olhar,

Uma miragem.

Mas foi uma palavra,

Guiada pelo vento

Que, num relance,

Invadiu-me a alma.

Alojando-se,

De lá fez morada.

Uniu-se aos sentimentos

Que lá já se encontravam.

E, me atormentando.

Suplicava liberdade,

Em forma de poesia.

Relutei. Expliquei.

Não era ainda chegada a

hora.

Não sou liberta.

Sou prisioneira da minha inspiração.

Não me pertence o momento

De a poesia vir à luz.

E a palavra, com rogos instantes,

Não respeitou o meu instante.

De súbito, a explosão.

Fui vencida!

O verbo se fez asas

E alçou voo

Rumo ao infinito

Mundo da escrita.

 

 

ODE A KEATS

ELBA LINS

Recife, 11/08/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Me esvazio de mim

De minha existência sem graça

Quando vejo teus olhos de sombra

A me mostrar confusos caminhos

Por onde a alma transita

Quando de paixões

Quando de dores

Quando de mistérios

Que entrevejo através dos teus olhos.

 

Teus olhos de sombra

São lagos profundos

Onde mergulho

E me perco de mim mesmo.

São bosques escuros

Por onde avanço

Na certeza de me perder

Por onde caminho tresloucadamente

Buscando a vida ou a morte

Buscando enfim, a luz

Dos teus olhos mornos.

 

 

Gabi Vieira

Recife, 11/08/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Aos sete anos, lhe foi dado papel e lápis, não importa mais por quem. Na euforia de sua mente curiosa e de seu jeito espivitado, encarou a folha em branco com uma urgência que só cabe às crianças – e ouviu alguma coisa. Com espanto, percebeu vir daquele papel à sua frente. Um chamado, uma súplica, uma única palavra:

 

“Escreva”.

 

Tão simples, mas tão extraordinária. Tão curta, mas tão longínqua. Tão silenciosa, mas tão desesperada.

 

E então, o que lhe restava? Não podia apenas ignorar aquele pedido, que era de certa forma uma ordem, uma necessidade profunda cujas raízes já sentia brotar no próprio âmago. Era isso. Não tinha jeito.

Se não escrevesse, sufocaria.

Depois disso – depois de se entregar ao papel, às palavras e às ideias – não mais foi somente o que se era. Foi alegria, foi tristeza. Foi ódio, foi amor, e nem sempre soube descrever o que se era. Foi Anna, foi Julia, foi Stella, mas também foi Caio, Davi, Lucas. Foi tanto e ao mesmo tempo foi tão pouco. Seu corpo não era mais composto de água, sangue, carne, osso. Na pele, se imprimiam as paisagens que criara no fundo da mente e depois passara para o papel. Os cabelos esvoaçavam com o vento das risadas daquelas vidas que trouxera à existência, caminhando ao seu lado como velhas amigas. E nas veias, corriam as letras que pulsavam de seu coração, espalhando-se pelo corpo todo e dando-lhe a plena certeza de que ela própria era feita de palavras.

 

 

para um poema de amor

Márcia Maia

Recife, 11/08/2018

Contato: marciamaia@uol.com.br

 

acordei querendo escrever um poema de amor

 

um poema que de amor reluzisse

nessa manhã sem azul

que trouxesse de volta o bem-te-vi sumido

e reinventasse ninhos no pinheiro

e fantasmas amigos na varanda

vivos ou não

 

um poema que verdágua transbordasse

num misto de mar e capibaribe

de paralelepípedo e mangue

e que fizesse florir em pleno inverno os

baobás e todas as acácias

guardando os flamboyants para o verão

 

um poema que se negasse ao corriqueiro

eu te amo e dissesse do amar

com verso e rima

numa voz peculiar de gesto novo

que fosse efêmero como o bronze esverdeado

das estátuas e permanente como o brilho

que há nas bolas de sabão

 

que dissesse de mim sem me dizer

e alardeasse o querer de cada gente

dispensando os como os quando e todos os porquês

 

e que algum dia em um livro em um blogue

onde quer que alguém o visse

que se lhe abrisse um sorriso ao fim de o ler

 

 

Ana Paula Bardini

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: apbardini@terra.com.br

Encontrar palavras que se possa expressar

Sentimentos que insistem em não se mostrar

 Não tem nada de pensado

Muito menos de ensaiado

Vem da alma no momento apropriado

Tomam forma, dando vida ao inanimado

 E, aos poucos, a natureza antes dura

Se matiza e se mistura

Como cores em pintura

Na extrema delicadeza

De sua ímpar beleza

Tem-se então uma sinfonia

Sonhos e desejos em total harmonia

Palavras não se deve procurar

Pois são elas que se fazem encontrar

#APB

 

Nem sempre sou fala, às vezes sou escuta

E é quando escrevo que me sinto ouvida

 

Nem sempre sou clara, às vezes sou escura

E é quando escrevo que me revelo luz

 

Nem sempre sei quem sou, às vezes não sei

E é quando escrevo que me desvendo em mim

 

Nem sempre sou Ana, às vezes sou Paula

Mas sempre que escrevo sou sem-fim

 

Muitas em mim.

#APB

 

 

Escrever-se

Gabriela Guaragna

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

 

Antes mesmo de pousar no oco da boca, o beijo das palavras entregam-se aos pulmões e escorrem, feito água morna, pela ponta de cada dedo que segura uma letra. A caneta finca o papel como se fincasse a musculatura mais profunda e assina nas vísceras as vozes que não encontraram espaço na garganta. Escritor desagua-se sobre o papel e a escrita o escreve em si.

 

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gsabritto@yahoo.com.br

 

Quatro da manhã. Deveria estar exausto, mas meu corpo desconhece senso comum. O ronco de minha mãe desmata o silêncio como uma motoserra. Respiro fundo, sufocando o grito que quase escapa. Meu amigo ouve sem reclamar, como se a reclamação lhe desse identidade. Nunca questionei como um pedaço de papel é meu melhor amigo. Curioso como o inanimado nos dá identidade. Sem palavras, uma folha é somente isso. E sei que é o ato de impor a tinta no papel que me torna um escritor. Tudo bem. Prefiro um pulso dolorido do que um grito no escuro.

 

 

GESTAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

A palavra,

Fecundando a página,

Gerando vida.

Nutrindo sonhos,

Acalentando sentimentos.

 

Vai se formando uma ideia,

Ponto por ponto,

Linha por linha.

 

A tinta pressiona o papel,

Até ficar tudo pronto

Para a derradeira expulsão!

 

 

LIGAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

 

Como letra que forma a palavra,

Sou única.

Como palavra que forma o texto,

Sou só.

Cada palavra,

Cada ser,

Cada um.

Formando um todo.

Um arco-íris cintilante e belo,

Numa ciranda multicolorida.

Iluminando,

Brilhando,

Unindo,

Sendo!

 

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Recife, 11 de Agosto de 2018

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Porto Alegre, 15 de Agosto de 2018

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Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Julho, 2018

Escrevo

Para me libertar

Para expurgar

Esse sol

Que nasce aqui

No meu peito

Que nasce assim

Uma história 

Repleta de

Amanhã 

Prenhe de sonhos

E começo a concretizar

Hoje

Passo a passo

Em cada palavra

Inscrita no papel

Na ideia

Na imaginação 

Que o raio de sol

Ajudou a despertar

(“Poiesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 15/07/2018, 06h04)

 

A Escrita Criativa dando asas à imaginação no Índex de Julho, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Sete textos de viagem | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

Eu amo os advérbios | Cilene Santos (PE – Brasil).

Quem sou eu? | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

À Palomar, de Ítalo Calvino | João Paulo Nascimento de Lucena (PE – Brasil).

Lua de sangue | Natália Setúbal (RS – Brasil).

joelhos curvados | Talita Bruto (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2018 | Recife e Porto Alegre.

 

E os links do mês:

 

O blog de Kênia Medeiros (RS – Brasil), participante dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre: https://bookcaccino.wordpress.com/2018/06/26/subscribe

O livro de Fotografia & Arte, organização Fernando de Mendonça (SP – Brasil), Maria do Carmo Nino (PE – Brasil) e Patricia Gonçalves Tenório: https://issuu.com/ppgavufpeufpbrevistacartema/docs/dossi___arte_e_fotografia

 

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 26 de Agosto de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – July, 2018

 

I write

To set me free

To purge

This sun

That is born here

In my chest

That is born this way

A story

Full of

Tomorrow

Pregnant of dreams

And I begin to realize

Today

Step by step

In every word

Inscribed on paper

In idea

In imagination

That the ray of sun

Helped to wake up

(“Poiesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 07/15/2018, 06h04 a.m.)

 

The Creative Writing giving wings to the imagination in the Index of July, 2018 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Seven Travel Texts | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Movies & Philosophy of Life & Five Short Texts | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

I Love Adverbs | Cilene Santos (PE – Brasil).

Who am I? | Elba Lins (PB / PE – Brasil).

To Palomar, by Italo Calvino | João Paulo Nascimento de Lucena (PE – Brasil).

Blood moon | Natália Setúbal (RS – Brasil).

curved knees | Talita Bruto (PE – Brasil).

Studies in Creative Writing – July, 2018 | Recife and Porto Alegre.

 

And the links of the month:

 

The blog of Kênia Medeiros (RS – Brasil), participant in the Creative Writing Studies of Porto Alegre: https://bookcaccino.wordpress.com/2018/06/26/subscribe

The book of Photography & Art, organization Fernando de Mendonça (SP – Brasil), Maria do Carmo Nino (PE – Brasil) and Patricia Gonçalves Tenório: https://issuu.com/ppgavufpeufpbrevistacartema/docs/dossi___arte_e_fotografia

 

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on August 26, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Sol da Escrita Criativa que nasce aqui no meu peito. The Sun of Creative Writing that is born here in my chest. 

Sete textos de viagem | Patricia Gonçalves Tenório*

 

14/07/2018  09h30

No capítulo “Querida tela… diário e computador” de O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet, o ensaísta e sociólogo francês Philippe Lejeune afirma que a tela do computador permite o distanciamento necessário para uma escrita terapêutica, funcionando como uma quarta parede do teatro.

“A convergência dos cinco depoimentos que vamos ler me impressionou. Todos atribuem ao computador o mérito de ser uma espécie de escuta terapêutica que decanta o que se quer dizer, que permite, graças à neutralidade da tipografia, ser objetivo, fugir de si mesmo, se distanciar. Outros fatores intervêm, como veremos: a posição face a face, a possibilidade de corrigir e, especialmente, a fantasia de ter um leitor desconhecido. O distanciamento benéfico permite que pessoas que sofrem, desgostosas com sua escrita ou bloqueadas no silêncio, encontrem um caminho em direção a si. Há, certamente, um lado dramático nas experiências contadas, mas pode-se concluir que, minimamente, para um certo número de pessoas, o computador permite realizar melhor do que o caderno as funções do diário: a expressão e a deliberação.”[1]

Tentaremos neste (o mais) breve (possível) ensaio, analisar uma viagem realizada pela autora do texto, assim, na primeira pessoa do plural, para ser possível a objetividade que Lejeune propõe, e o desbloqueio quando se aparenta não haver mais nada a ser escrito.

Comecemos pelo motivo da viagem. A proposta seria visitar as cidades de Praga e Budapeste com os filhos da autora, que doravante chamaremos de P.. Na verdade, Praga seria uma revisita, pois P. esteve, há pouco mais de quatro anos, quando em viagem para a Romênia e a República Tcheca.

“São onze horas da manhã. Estou no Café Mozart, primeiro andar da Staroměstské Náměstí 22, em Praga, lugar onde Franz (Frantisěk) Kafka (1883-1924) habitou durante algum tempo. É o décimo dia da viagem em que percorri a Romênia, e, em seguida, conheci a capital tcheca, Praha.”[2]

O filósofo francês Michel Onfray já dizia em Teoria da viagem que o corpo, aberto à nova experiência, retém bem mais estímulos do que de costume. É então que os seis sentidos – sim, o principal sentido é a intuição – da escritora se ampliam e inauguram a viagem literária.

“A viagem, de fato, é uma ocasião para ampliar os cinco sentidos: sentir e ouvir mais vivamente, olhar e ver com mais intensidade, degustar ou tocar com mais atenção – o corpo abalado, tenso e disposto a novas experiências, registra mais dados que de costume. O viajante percebe-se menos preso aos detalhes do cotidiano do que submetido à prova fenomenológica: imerso no real, ele se conhece através do jogo da intencionalidade e da consciência, experimenta ser forçado a emergir como acontecimento e do nada onde são encontrados os resíduos da decisão. Viajar é uma intimação a funcionar sensualmente por inteiro.”[3]

Carta ao pai

P. está lendo Carta ao pai, de Franz Kafka. Ela está no avião de Recife a Lisboa. Ela não consegue dormir.

 

“Pego a tosse

Na mão

E me aproximo

De Kafka

Na tentativa

De com ele me parecer

Em angústia

Para não perecer

No mar profundo

Das palavras

 

Ele me dá a mão

Do outro lado

Da Carta[4]

Do outro lado

Da grade

De artista da fome[5]

Que se impôs

Na busca

De uma cura

Da tosse

E comigo se parecer

E comigo não perecer

No mar profundo

Das palavras”

(“Chegando a Praga”, 30/06/2018, 16h45)

 

O corpo aberto à nova experiência parece se misturar com o corpo de Kafka, com as letras de Kafka que aparentam guiar aquela viagem, aparentam levá-los, P. e dois de seus três filhos, até a porta do Museu de Kafka na Hergetova Cihelná, Cihelná 2b, Malá Strana.

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“Não me imponha

A culpa

Pois a culpa

Está na raiz

Do medo

Que nasce

Da falta

De amor

E isso

Eu te dei

Demais,

Meu filho

 

Chama-me

De monstro

Diante

Da cidade

Diante

Dos cidadãos

De respeito

E admiração

 

Como se eu

Não fosse um

Kafka

Do mesmo

Barro que

Te moldou

 

E que um

Dia se reconhecerá

Fraco

Mas que nunca

Perguntou

Se não era isso

O que realmente

Queria

E não era de mim

Que fugia

Quando se olhava

No espelho”

(“Carta ao filho”, 01/07/2018, 22h39)

 

E se Hermann Kafka houvesse recebido a fatídica Carta? E se, a recebendo, pudesse responder? O “se” da ficção, amalgamado com os sentimentos da autora, reatualiza o mito e inscreve uma possibilidade – a possibilidade de um(a) pai/mãe expor seus motivos.

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Um outro dia. Uma nova história. Poder fazer tudo diferente, ainda que numa cidade que se visitou há quatro anos. O rio Vlatva não é o mesmo, e é o mesmo sob a ponte de Carlos IV. O verão queimando a pele, inebriando os olhos, que busca sombra e silêncio sob as paredes da igreja de São Nicolau.

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“Sento

Na Staré Město

Na igreja

De São Nicolau

 

Vejo o tempo

Fugir nos vitrais

Fluir no teto

Pintado em ondas

 

Passeio

Com meus filhos

No presente

No passado

E quem sabe

O futuro me

Aguardará

Para colher os frutos

Dessas minhas palavras

Lançadas

No ar?”

(“Kostel sv. Mikuláše”, 02/07/2018, 11h54)

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O catolicismo de P.. O judaísmo de K.. Tudo de K. referia-se ao pai, inidicava ao pai, feito setas com destino certeiro. O “nojo” contra qualquer uma das atividades do filho transparecia na indiferença de “Coloca em cima do criado mudo!”[6] do pai, como se o livro não existisse, como se K. desaparecesse por entre suas palavras de fogo.

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P. chega ao Café Mozart. A primeira repetição acontece quando reconhece Yamilet ao piano. Elas trocam olhares, trocam acenos de que um dia se encontraram, e passaram quatro horas sorvidas em músicas do leste europeu.

 

“No Café

Tomei

Sorvi

Cada uma

De tuas

Palavras

Como se fossem

Ouro

Como se fosse

E ao pó

Voltasse

Cada uma de

Minhas células

 

Feri

Meus ouvidos

Alcancei

Tua voz

Inaugurando

Em mim

Um canto

Novo

Livre do sentimento

De culpa

E autocomiseração

Que tua Carta[7]

Ao contrário

Em mim instalou”

 

(“No Café Mozart”, 02/07/2018, 17h30)

 

A segunda coincidência ocorreu no Národiní Dúm Na Vinohradech, a Casa Nacional, com o concerto do melhor de Mozart e Dvořák. O violinista-maestro era o mesmo de quatro anos atrás. Mas ele também não é o mesmo, pois na ocasião fora apresentado pelo violinista-maestro de então.

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Os dias em Praga chegam ao fim. Mas ainda resta um tempo para passear livremente na cidade, para se andar insistente na cidade até gastar a sola dos sapatos e sentir como se não tivesse pés. Eles chegam ao Kampa Park. Os filhos descansam sob a sombra de uma árvore. A mãe se mantém à distância, até porque na distância é que eles poderão voar.

 

“Vejo

Os filhos

Crescerem

Por entre

As folhas

Da árvore

Descortinando

As páginas

Escritas

De uma

Longa história

De amor

Teimosia

E imensa

Dor

 

Eles se parecem

Comigo

Eles são feitos

Da mesma

Matéria de sonhos

Que um dia

Visitou o parque

Ao meio-dia

E na terra

Germinou

Flor”

 

(“Kampa Park”, 04/07/2018, 13h23)

 

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Carro. Aeroporto. Espera. Avião. Budapeste. Eles chegam tarde à cidade dividida, à cidade prometida de belezas e contradições. Por isso o medo de P.. Por isso a decepção de dois de seus filhos – ou a decepção que era dela, mas se projetava na tela dos rostos filiais.

Mas uma noite. O dia recomeça com a esperança. E, ali, a esperança tem cor azul.

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“Procuro

Transparência

Nas paredes

De Budapeste

E encontro

Os dois lados

Da mesma

Cidade

Os opostos

Que se complementam

Não se contradizem

E não me sinto

 

Sento-me

Em um monte

Alto

Às margens

De um rio

E escuto

Os acordes

De uma valsa antiga

Emoldurando

Em tom azul

 

Para que

Eu possa viver

A transparência

Nos dois lados

Da mesma moeda

De Buda a Peste

E sendo uma

Só”

(“A cidade azul”, 07/07/2018, 09h45)

 

14/07/2018  11h33

A prosa vai se aproximando devagar. Ela observa os personagens. Ela trilha seus caminhos. Sente o cansaço. E após os quatro dias na capital húngara, aquela que foi conquistada por mais povos ainda do que Praga, a prosa toma o lugar da poesia ao chegarem, P. e dois de seus três filhos, ao aeroporto de Budapeste rumo à Lisboa. No retorno ao Brasil. No final da viagem literária. A vida que imita a viagem muito mais do que a viagem imita a vida.

“Desde Recife, não haviam se afastado nem um segundo. Uma sabia da história da outra, como se fossem irmãs siamesas.

No voo de Recife para Lisboa, escutou cada acesso de tosse da outra, mesmo não estando lado a lado. A tosse era um sinal de cansaço, a presença do rapaz, mesmo ela havendo terminado o namoro.

No aeroporto de Lisboa ficou esperando que ela almoçasse num restaurante com opção vegana – era mais difícil se alimentar sob restrição de leite e ovos.

Praga emanando o aroma da primavera em pleno mês de julho. Ficou no hotel enquanto ela visitava o Castelo, a ponte Carlos IV, o museu de Kafka… Kafka e seus amores inacabados, e sua tosse interminável, feito a tosse de Manoela.

Mas não havia sangue na tosse de Manoela, e poderiam continuar a viagem. O bairro judeu, a sinagoga Staronová, e a lista de nomes apagados da terra nos campos de concentração das paredes no memorial ao lado do Cemitério Judaico. Ali Manoela se lembraria do documentário “Red Trees”, de Marina Willer, que narra a história de Alfred sob o olhar da filha mais velha. A família de Alfred fugiu da perseguição nazista em Berlim, veio para Praga, e conseguiu emigrar para o Rio de Janeiro.

Uma pausa para visitar o Café Mozart, no mesmo prédio onde Kafka morou na Staroměstské Náměstí 22, na frente do relógio Astronômico. E a pianista é a mesma de quatro anos atrás – a cubana Yamilet, Yamila para os mais próximos –, Manoela escreveu no diário assim que chegou ao hotel.

E estavam as duas tão juntas, mais juntas do que aquela que Manoela perdeu há quatro anos.

Até chegarem a Budapeste. A cidade dividida. A cidade reconstruída a cada conquistador, cada povo, cada língua e cultura, feito um selo de bagagem, um carimbo de passaporte que elas haviam construído passo a passo, viagem a viagem, até chegarem a Budapeste, a cidade dividida, onde iriam se despedir após quatro anos juntas.

Sim, Manoela poderia viver com o básico. Mas as duas juntas fora o mais básico que conseguiu em toda vida. Mesmo após o término do namoro. Mesmo finalizando o doutorado. E depois? O que faria? Aprenderia línguas? Aperfeiçoaria um instrumento? Viajaria o mundo inteiro em 180 dias? Porque algo deveria ser feito com o vazio. No vazio não se põe em pé, não se levanta ao menos da cama, e a cama pareceria estreita no quarto de hotel, forçando Manoela a acordar cedo e caminhar a cidade inteira, até gastar a sola dos sapatos e não sentir os pés.

E não sentiu os pés, como se deslizasse em rodinhas pelas ruas de Budapeste. Primeiro Peste, e o Parlamento ao meio-dia, e o sol queimando a pele branca de Manoela até entrar-lhe nos ossos e dos ossos não saír mais. Buscava nos ossos a razão para a briga com Jonatas, como se jogada fora da barriga da baleia, depois de morte, e três dias, e ressurreição.

No hotel juntas, e Manoela tomando um banho quente para esquecer o passado, para só lembrar o presente e o metrô para Buda, a igreja de São Matias, o Bastão do Pescador, a Galeria Nacional, e havia uma exposição de Frida Kahlo, que preferiu não visitar, para conhecer melhor os artistas húngaros do museu, tais como Viktor Madarasz, Bertalan Székely, Ligeti Miklós, Károly Ferencey e Laszlá Tajképei.

O círculo se fechando com o terminar dos dias, com o final da viagem que as iria separar. Só por umas horas? Mas como se fossem anos, como se o tempo condensasse em tanta informação e não teriam uma à outra para provar a certeza das coisas, para descobrir na materialidade das coisas os átomos de Epicuro, e o centro dos átomos não se tocando jamais, e, na verdade, elas nunca estiveram juntas, desde que Manoela a comprou na viagem para a Romênia e a República Tcheca quando perdeu aquela outra há quatro anos.

Fora tudo uma ilusão. Ao comprar a passagem com direito a uma – e somente uma – bagagem de bordo, não sabia que a bolsa vermelha também contaria, e da companheira se separaria, de Budapeste até Lisboa, com o coração suspenso se na chegada a encontraria, rodando e rodando em círculos, preocupada com a tensão de sua dona, com o perigo que sua dona corria, apesar da briga com a recepcionista do check-in, com o selo de frágil em sua face, com o ticket que garantia o embarque na parte inferior do avião.”

(“Mala”, de Budapeste a Lisboa, 16h10 – 19h, 08/07/2018)

 

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Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

[1] LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Organização: Jovita Maria Gerheim Noronha. Tradução: Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 327.

[2] A experiência de um(a) artista da fome em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6990. Em 16/05/2014.

[3] ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 49.

[4] KAFKA, Franz. Carta ao pai. Tradução: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2007.

[5] KAFKA, Franz. Um artista da fome. In Um artista da fome seguido de Na colônia penal & outras histórias. Tradução: Guilherme da Silva Braga. Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.

[6] KAFKA, Franz. Carta ao pai, p. 69.

[7] KAFKA, Franz. Carta ao pai, p. 69.

Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos* | Bernadete Bruto**

Recife, 18 de julho de 2018

 

Além de diversão, os filmes podem ser fonte de excelentes reflexões sobre a vida, como no filme A Jovem Rainha (2017), uma ficção baseada em história real, a Rainha Cristina da Suécia, uma mulher muito além de seu tempo, incentivou o uso do conhecimento e gosto pelas as artes no seu país, e deste filme, separei parte do discurso de Cristina quando tornou-se rainha e cita o filósofo Descartes: “René Descartes diz que a curiosidade é um grande trunfo. Ele diz que nos predispõe a adquirir conhecimento científico. Ele diz: o melhor remédio para admiração excessiva é adquirir conhecimento de muitas coisas e praticar a apreciação daqueles que parecem ser mais raros e estranhos.”  Sim, a curiosidade e o conhecimento, excelentes trunfos em qualquer época, assim como a apreciação do novo e inusitado. Foi assim com o filme O garoto de Liverpool (2009), também uma ficção baseada na vida do astro John Lennon, o comportamento estranho do jovem inglês na escola fez com que o professor lhe chamasse em particular e sentenciasse: “só conseguirá emprego nas docas, não está indo a lugar nenhum aqui em Quay Back, lugar nenhum.” Engraçado verificar que a sua “profecia” foi por água abaixo: como aquele menino de Liverpool tornou-se um grande músico e mudou costumes. A resposta do menino Lennon no filme já dá essa dimensão: “Esse lugar nenhum está cheio de gênios, senhor? Então deve ser o meu lugar.” Que felicidade comprovar esse final feliz para nós que já presenciamos essa ascensão do menino na vida real, e, como pessoas, abrir nossa mente para enxergar no outro diferente, trazendo o novo e que podemos aprender.

Nesse mesmo foco a questão da diferença reaparece no filme Anomalisa (2017), interessante desenho no qual a protagonista enxerga todos com a mesma aparência e voz até encontrar uma moça, que lhe chama a atenção, talvez por sua diferença dos demais, inclusive na voz,  que ele escuta de forma diferente. No filme que analisa a questão das anomalias, a moça chamada Lisa, recebe o codinome de Anomalisa, que em japonês significa “Deusa do Céu”. E Anomalisa traz muito na sua fala. Tocou-me a observação sobre o Brasil; “o único país que fala português” (uma anomalia) e encontrei imensa sintonia com sua canção preferida, também uma das minhas prediletas, do tempo da juventude, Girls Just Wanna have fun: “Adoro Cyndi Lauper. Ela tem uma ótima voz e não liga para o que diz. Ela é ela mesma, e isso requer coragem.” Por essa informação trazida pela Lisa adorei o filme, que nos estimula a fortalecer nosso comportamento e sempre buscarmos força para sermos nós mesmas apesar de distanciar-se do dito como “normal”. Além da música que me fez retornar ao final dos anos setenta e cantar: Girls just wanna have fun!

Por fim, totalmente encantada como o filme A GANHA PÃO. Meditei sobre o quanto temos em termos de liberdade individual e o quanto ainda tem gente sofrendo nos seus direitos individuais. Pensei ainda, se a condição da mulher no mundo ocidental ainda é precária, como classificar a situação das mulheres em países como o Afeganistão? Triste e inclassificável..infelizmente! E no meio ao sofrimento da história, apresentada com maestria neste desenho, há uma história dentro de uma história, com a contação feita pela protagonista, a menina Parvana. A contação toma ares de fantástico do conto de fadas, um mito do imaginário popular daquele recanto, e, bem perto do final, se mistura  com a história principal, revelando o segredo guardado sobre o irmão de Parvana, cujo paredeiro ninguém mencionava no filme: “Meu nome é Sulayman. Minha mãe é escritora, meu pai professor. Minhas irmãs vivem sempre brigando. Achei um brinquedo na rua e ele explodiu. FIM’

O filme foi tão bem concebido que mesmo no final, fiquei ainda presa naquele povo, que lembra um pouco meus ancestrais, observando o quanto são parecidos, como se irmãos fossem…e desejando que Parvani e todas mulheres e homens do Afeganistão, ou de qualquer outro país, onde a realidade seja semelhante, pudessem alcançar um oásis, um paraíso, que no filme sugeria uma praia em Goa.

Este filme proporcionou muitas reflexões sobre nossa existência, por conta do sofrimento de uma nação. Muito embora, tenha sido profundamente tocada pela beleza da alma de um povo incólume, mostrada na descrição que fazem de si, nos presenteando no final do filme: “Somos uma terra cujo povo é o maior tesouro. Estamos nos limites de impérios em guerra. Somos uma terra dividida nas montanhas do indocuche queimada pelos olhos ardentes dos desertos do norte, escombros negros contra picos de gelo, somos Auriana, a terra dos nobres.”

Filmes nos divertem, mas também nos ensinam como contar histórias de forma diferente, nos instrui e são meios de denúncia de condições humanas, sociais e ambienteis. A filosofia da vida encontramos em vários lugares, na própria natureza, nos livros, nos meios de comunicação, também nas palavras, basta conservar os olhos, ouvidos e coração abertos, em qualquer lugar, até mesmo assistindo a um filme como A Ganha Pão: “Levante suas palavras, não sua voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não o trovão.”

 

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Texto 1: Um buquê para a minha amada

De vermelho a saudade se agarra ao que sobra do mundo particular da juventude, ainda presente lá no fundo do coração. O tempo em que subia sem medo nas árvores e o céu estava perto passou. Presa no chão,  olhos cansados procuram mocinha de sonhos azul que recebia flores…a vista tão longe:…”Adeus menina, linda flor da madrugada!”

Texto 2: Cada uma tem sua Tróia particular

Aprisionada entre quatro linhas daquela história, que pode ser antiga, procura a menina uma saída. Sua mãe observa o enredo, naquele local de degredo, onde todas as mães vão parar na maturidade. Sentada no anfiteatro da vida e na torcida, aguarda o segundo tempo, o fim da guerra, tempos de realizações! Ela estuda o caminho enfrenta a luta, tem foco. Do outro lado, a mãe espera por um futuro como seu nome,  resplandecente!

Texto 3: Eram muitas vezes

A figura caiu no colo do livro inutilizado. Que aborrecimento! E agora? Qual era a história? Livro todo manchado de tinta preta. Nada se vê.  Lamentou. Olhou a imagem que restava. Uma moça vai em busca de algo, vislumbra uma descida ou vai subir na árvore? Quaisquer das ideias poderiam iniciar! Sorriu. Ficou feliz porque descobriu tantas possibilidades, numa só imagem muitas histórias! Assim, começou a escrever.

Texto 4: Nos tempos do quintal

Houve um tempo em que o mundo era pequeno, íntimo e lhe bastava. Um quadrado onde uma menina vestida de vermelho divagava, abraçada ao arvoredo. Tudo era possível para o local se tornar uma terra encantada, do nada! Na segurança do lar e liberdade do pensamento sonhava com fadas, castelos. Mal sabia que era a verdade muito mais bonita que seus sonhos. A doce e encantadora realidade daquele tempo.

Texto 5: Assim na terra como no céu

João subiu na vida por aquela árvore. Maria ficou embaixo, vendo-o cada vez mais distante. Olhando para o céu, segurava a árvore. Olhando para o alto, não vê a terra… Pobre Maria! Perdeu seu chão…Tudo por causa de João! Toma uma atitude menina. Ou sobe lá pra cima ou se mete pela floresta e vai fazer da vida festa aqui mesmo no chão. Quando notar nem saberá mais quem é João! João? Aquele do pé de feijão? Sei não!

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* Resenha apresentada e exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de Gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores-UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017), participação em antologias, assim como diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

*** Birdsong, 1893, Károly Ferenczy.

Eu amo os advérbios| Cilene Santos*

08/01/2013

Amo todas as palavras da Língua Portuguesa; mas tenho uma especial predileção pelos advérbios. Mesmo não sendo palavras substantivas, por sua vez, inconcretizáveis, têm a capacidade de alterar qualquer resultado. Inserindo-se na frase, impõem valores. Vejamos o enunciado: “O rapaz quase morreu”. Que alegria! Ler esta frase. Que alívio! O advérbio “quase” não deixou a tragédia acontecer.

Há casos em que ele se torna um verdadeiro delator: observando um comercial de uma determinada marca de café, detectamos que o nosso cafezinho não estava sendo bem elaborado, quando foi veiculada a propaganda: “Café tal, agora com torra perfeita”. Quer dizer que antes tomávamos um café mal torrado.

Um outro caso interessante acontece quando alguém faz o seguinte elogio: “Você está lindo(a) hoje”. Ao ouvir este discurso, fique triste, chore, esperneie! Ora, se você está lindo(a) hoje, significa que ontem ou nunca esteve bonito(a).

E ainda existe o caso em que o advérbio imprime esperança em quem está apaixonado. Quando alguém diz a alguém “Ainda não te amo!”, isto significa, então, que em algum dia, poderá surgir um grande amor. Neste caso, o advérbio assume um ar de cumplicidade.

É por esta e muitas outras razões que tenho um grande apreço por estas palavrinhas, capazes de me deixarem triste, alegre ou até furiosa, quando espero um sim e me aparece, intrometidamente, um não, que obriga a tomar decisões diferentes daquelas que eu havia planejado.

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* Cilene Santos é professora aposentada, grande poeta e participante dos Estudos em Escrita Criativa em Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com