Posts com Psicanálise

Índex* – Abril, 2017

Perdi

A capacidade de dizer

Bom dia

Senti

A necessidade de dizer

Te amo

Mas as palavras 

Não estavam lá

Não estão aqui

Dentro do meu

Peito

Soltas na minha

Língua

Para saírem

Quando quiserem

Quando puderem

Fazer um mundo

Mais colorido

Trazer o sonho

Para o dia-a-dia

E amanhecer em mim 

Um gosto bom

De infância

(“O fim das lentes cor-de-rosa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 23/04/17, 05h02)

 

A capacidade de transmutar Vida em Poesia no Índex de Abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto circense (e prefigural) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

Un Poema de Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 28 de Maio de 2017, um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – April, 2017

I’ve lost

The ability to say

Good Morning

I felt

The need to say

I love you

But the words

They were not there

They were not here

Inside my

Chest

Loose in my

Tongue

To get out

When they want

When they can

Make a world

More colorful

Bring the dream

To the day by day

And dawn on me

A good taste of

Childhood

(“The end of the pink lenses”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/23/17, 05h02)

 

The ability to transmute Life in Poetry in the Index of April, 2017 in Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Little circus (and prefigural) tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

About “There is no tomorrow”, from Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

About “The Book of Puppies”, from Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

A Poem by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing – April, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the affection and participation, the next post will be on May 28, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Transmutando Vida em Poesia no Jardim do Baobá, em Recife, PE – Brasil. Transmuting Life in Poetry in the Garden of Baobab, in Recife, PE – Brasil.

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 12h49

 

Esta é a terceira vez que narro a paralisia que me invade quando tento ler um livro bom. Aconteceu com O mar, de John Banville. Com os livros do escritor e professor universitário paulista-pernambucano, residente em Aracajú, SE, Fernando de Mendonça (1984), Detalhe em H[1] e 23 de Novembro.[2] Sei que é um livro bom – já fui impactada anteriormente por suas faíscas –, mas insisto em permanecer paralisada, bloqueada, feito em um espelho de cristal.

Feito em um espelho de águas. Narciso paralisa diante de sua própria imagem. Eu cristalizo diante de Não há amanhã,[3] do escritor gaúcho Gustavo Melo Czekester (1976). Paralisei em 2016 com O homem despedaçado,[4] seu primeiro livro de contos, a ponto de nada conseguir falar, nenhuma palavra balbuciar após a leitura impactante.

Após a leitura inquietante que faço hoje do segundo livro de contos (são 30) de Czekster. Começo com “Não morto, apenas dormindo” e sinto a falta de palavras que prefigurei me preencher novamente, assim como aconteceu em “Um mundo de moscas” do primeiro livro.

“Então, eis o que era morrer – ficar o tempo todo sonhando com mortes, uma atrás da outra, sem receber ligações, esquecido. Através da janela, viu moscas infestando o pátio e, ao olhar o seu braço, gritou ao vê-lo se desfazendo em um mosaico raivoso de zumbidos, voltando a si quando bateu com a cabeça na janela, meu Deus, tinha dormido acordado!” (CZEKSTER, 2017, p. 14)

O braço se desfazendo “em um mosaico raivoso de zumbidos”, feito as moscas que criaram os seres humanos – afirmava Anton Lopez para mim em 2016.

“Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa.” (CZEKSTER, 2011, p. 19)

Eis o inquietante que encontramos em Czekster, Mendonça, Banville… Amabile.[5] “O inquietante”[6] de Sigmund Freud (1856-1939) amplamente analisado no texto de mesmo nome de 1919. O unheimilich  que transita entre o familiar e o desconhecido, entre a palavra e o silêncio, entre a vida e a morte. Freud analisa o termo desde a sua etmologia em várias línguas – inclusive na versão brasileira traduzida do inglês da Standart Edition aparece como “O estranho” –, quanto em um texto do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822), mais conhecido por E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia” (1816).

Em “O homem de areia”, Hoffmann narra a história de Natanael, que é assombrado, desde a infância, com a suposta existência de um homem de areia que arranca os olhos das crianças e dá para alimentar seus filhotes, feito fosse uma espécie de abutre, ou coruja. Em “O inquietante”, Freud alerta para o complexo de castração no personagem principal, Natanael, ao mesmo tempo que me faz lembrar de outro texto seu chamado “Os arruinados pelo êxito”,[7] que aparentemente pertence ao mesmo volume (XIV) das obras completas do pai da psicanálise, no qual analisa a histeria a partir do sucesso, e não do fracasso – como normalmente acontece –, investigando as peças teatrais “Macbeth”, de William Shakespeare (1564-1616), e “Rosmersholm”, de Henrik Ibsen (1828-1906).

Podemos encontrar este “inquietante” em textos de Franz Kafka, Thomas Mann, Friedrich Dürrenmatt, mas também dos mais próximos – mais próximos no duplo sentido do tempo e do espaço – Fernando de Mendonça, Luís Roberto Amabile, Alexandra Lopes da Cunha[7]… e também nos contos do escritor e advogado gaúcho Gustavo Melo Czekster.

 

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(1) MENDONÇA, Fernando de. Um Detalhe em H. Recife: Grupo Paés, 2012. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809

(2) MENDONÇA, Fernando de. 23 de Novembro. Recife: Grupo Paés, 2014. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923

(3) CZEKSTER, Gustavo Melo. Não há amanhã. Porto Alegre: Zouk, 2017.

(4) CZEKSTER, Gustavo Melo. O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6683

(5) Vide em outro post do mês de abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7359

(6)  FREUD, S. “O inquietante”, in: Obras completas vol. XIV, São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 328-373, [FREUD, S. “Das UNHEIMLICHE”, in: FREUD, S. Der Moses des Michelangelo, Frankfurt a. M.: Fischer, 1992(1996), p. 135-172].

(7)  FREUD, S. “A história do movimento psicanalítico”. Volume XIV. Comentários e notas: James Strachey. Tradução sob Direção-Geral e Revisão Técnica: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

(8) Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6963

Índex* – Dezembro, 2016

No silêncio da cópia oculta

Agradeço

A cada um

A cada uma

Por tanto que

Me ajudaram

Na construção

Pedrinha por pedrinha

Desse ano de

2016

Ano difícil para

Todos nós

Mas que

Na certeza de que o

Dar-se as mãos

É a única saída

Espero que

Estejamos mais uma vez

Juntos

Em 2017

E em muitos outros

Que hão de vir

(“Construção”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 13/12/16, 05h57)

Na Construção de um Mundo Novo que há de vir, esperamos no Índex de Dezembro, 2016, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Carta de Oleg Almeida (Bielo-Rússia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (EUA).

“De paisagens e de outras tardes” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Condutor de tempestades” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Anjos de Teatro (PE – Brasil).

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 29 de Janeiro, 2017, um grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – December, 2016

In the silence of the hidden copy

I thank you

Each man

Each woman

For everything

You helped me

In the construction

Little stone by little stone

Of that year

2016

Difficult year for

All of us

But what

In the certainty that the

Holding hands

It’s the only way out

I hope

That we’ll be one more time

Together

In 2017

And in many others

Who are to come

(“Construction“, Patricia (Gonçalves) Tenório, 12/13/16, 05:57)

 

In Construction of a New World to come, we look forward to the Index of December, 2016, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Letter from Oleg Almeida (Belarus-Russia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (USA).

“Of landscapes and other afternoons” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Storm driver” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB / PE – Brasil) & Theater Angels (PE – Brasil).

Thanks for the participation and the kindness, the next post will be on January 29, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Construindo Mundos Novos, Recife, PE – Brasil, 2016. Constructing New Worlds, Recife, PE – Brasil, 2016.

Rinascimento* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

09/10/2010 & 20/12/2016

Sempre me faço perguntas de vida e morte às vésperas do Ano Novo.

“Nada há de gratuito exceto a morte”. (Freud, extraído de O prazer do texto, Roland Barthes)

Varro os fatos de outros tempos, as fotos do aqui e agora e não posso supor, não posso imaginar o que me aguarda, o que me surpreenderá.

“O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias, pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Aguardo uma outra estrada, um país diverso onde possa espalhar sementes de alegria e colher ramalhetes de amizades…

 

 Mãe Natureza – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

 Mãe natureza

Patricia Tenório

(Extraído de D´Agostinho, 2010)

Gosto do cheiro

De terra molhada

Da única escolha –

Ficar lendo livros

Ouvindo a chuva cair

Forte

Grossa

Violenta

Deixo-me banhar

Pelas lágrimas

Que clamam

– Patricia, Patricia! Por que me abandonastes?

 

Lendo Mãe natureza

Stella Leonardos

Setembro/2010

 

À Patricia Tenório

 

Sinto esse cheiro

De ideia molhada

Viver sortilégio

Ficar lendo livros

Ouvindo irmã água

Leve

Fértil

Fraterna.

Entendo essa chuva

Riso e lágrima.

Segreda

– Patricia! Patricia do coração poeta!

        Procuro descobrir nos acontecimentos o sentido perdido nos textos, nas pessoas, na vida.

“Quando o trabalho que você faz tem vinculação com seu percentual de humanidade, você se conecta ao outro”. (Ismael Caldas, artista plástico em “Das sutilezas e fraquezas humanas”, Viver, Diário de Pernambuco, 08 de Setembro de 2010)

“O que ao leigo pode parecer uma obra-prima nunca chega a representar para o criador uma obra de arte completa, mas, apenas, a concretização insatisfatória daquilo que tencionava realizar; ele possui uma tênue visão da perfeição, que tenta sempre reproduzir sem nunca conseguir satisfazer-se.” (Sigmund Freud em “Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”)

Tento seguir o que em mim pulsa, o que em mim se parece com a Verdade e a sinto eclodir por todas as minhas células.

“A filosofia natural apaziguará os conflitos e as dissensões de opinião que atormentam, dilaceram e devastam a alma sem trégua. Mas ela os apaziguará, ordenando-nos não esquecer que a natureza nasce da guerra e que ela é, por tal razão, chamada por Homero de luta.” (“Oratio de dignitate hominis”, Giovanni Pico della Mirandola)

“A diferença não é aquilo que mascara ou edulcora o conflito: ela se conquista sobre o conflito, ela está para além e ao lado dele”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

Tomo do lápis e papel e derramo todo o meu Ser Humana em palavras e contradições, na esperança que a Arte se faça, me salve. Exprima.

“… o texto: ele produz em mim o melhor prazer se consegue fazer-se ouvir indiretamente…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

“… estamos sempre demasiadamente prontos a esquecer que, de fato, o que influi em nossa vida é sempre o acaso, desde nossa gênese a partir do encontro de um espermatozóide com um óvulo – acaso que, no entanto, participa das leis e necessidades da natureza, faltando-lhe apenas qualquer ligação com nossos desejos e ilusões.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

Renasço a cada instante meu, a cada sorriso dado, a cada momento de partilha, experimentado, sem medos e vaidades, o que em mim possuo apesar de todos os detalhes…

Rinascimento*, Patricia Tenório

Filmado em Câmera Cannon 7D. Editado em Final Cut Program.

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* Apresentado na X Setimana della Lingua Italiana nel Mondo – “L´Italiano nostro e degli altri”, 18 a 24 Outubro 2010 – Dante Alighieri – Recife – PE – Brasil.

**  Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013), Vinte e um/Veintiuno  (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE,O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/12/16 | Com Bernadete Bruto, Elba Lins & Anjos de Teatro

Patricia (Gonçalves) Tenório

22/12/2016

 

O desejo de viagem tem sua confusa origem nessa água lustral. Tépida, ele se alimenta estranhamente dessa superfície metafísica e dessa ontologia germinativa. Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi. O resto é um pergaminho já escrito. (ONFRAY, 2009, p. 9)

 

Tudo começou em Agosto, 2016. Um encontro em uma Dança Circular. Três amigas que se propõem a estudar juntas, a navegar juntas pelo mundo das palavras, a viver juntas a Poesia e a Teoria de maneira inexorável e inseparável…

Incompreensível, irracional, mas sólido…

Foram essas palavras que me assombraram a madrugada de ontem para hoje, dia que me propus escrever sobre a experiência de 5 meses, 10 encontros e dezenas de textos críticos, poéticos, ficcionais que brotaram de Bernadete Bruto e Elba Lins no Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?

Lembrei esses dias da experiência com a adaptação de As joaninhas não mentem para o Teatro em 2011. O diretor Jorge Féo nos ensinou algo muito forte e presente até hoje nos meus estudos, na minha vida: aquele grupo, composto por aqueles atores, com aquela adaptação, era único. Foram 6 meses lapidando o texto, a vivência de cada personagem – não era interpretação nem representação – para germinar em 50 minutos de espetáculo.

Algo semelhante aconteceu com o GEEC. Nos servindo de teóricos tais como Christopher Vogler, Joseph Campbell, Carl Gustav Jung, Cecília Almeida Salles, Roland Barthes, Umberto Eco, até chegarmos aos teóricos do deslocamento, entre outros o autor da epígrafe Michel Onfray, e músicas, e pinturas, fotos, filmes, filmes e filmes, fomos nos alimentando e nos provocando a ponto de gerarmos inúmeros textos, dos quais selecionei do mês de Dezembro alguns a seguir. Textos que, como afirma Michel Onfray no seu Teoria da viagem, nos requisitam: “Não escolhemos os lugares de predileção, somos requisitados por eles” (ONFRAY, 2009, p. 20).

Certa vez, um repórter auspicioso perguntou a Ariano Suassuna se o que ele escrevia já estava na cultura popular, o que ele fazia afinal? Ariano respondeu brilhantemente:

– Você quer saber o que eu fiz, se tudo já estava aí, não é, rapaz?

O repórter mudo.

– Eu escrevi!

Então, tentando responder à pergunta que eu mesma fiz acima: “Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?”, e parodiando o saudoso Mestre Ariano Suassuna:

– Eu vivi!

 

Referências:

ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

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(“O violeiro”, Almeida Júnior, 1899, óleo sobre tela, 141 x 172 cm) 

 

A viola fala Alto

 

            Toda vez que se senta na janela e toca sua viola, algo me chama e largo tudo que estou fazendo,  encosto na sua janela para cantar. Canto com todo o coração:

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
É que a viola fala alto no meu peito, humano
E toda mágoa é um mistério fora deste plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pruma visitinha
Que no verso ou no reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê(*)

Não sei o que se passa com aquele casal… Ele sintonizado com sua viola e ela seguindo a canção. Vejo que são UM na música. Dois artistas fora do palco, na mais pura expressão da arte, na vida cotidiana, em pleno interior de uma cidade qualquer. A viola é quem fala. Fala alto em qualquer peito humano quando seus acordes tocam no coração de cada um de nós. Eu mesma reconheço essa canção!

 

Recife, 4 de Dezembro de 2016

 

(*) Vide vida marvada de Rolando Boldrin

https://www.youtube.com/watch?v=9lw5EXnqOYc

 

(Câmara e edição: Bernadete Bruto)

HÁ SEMPRE UMA LUZ NO FINAL DO TÚNEL

Vós não sabeis de que espírito sois! O Filho do Homem não veio para perder, mas para salvar as almas” (Lucas 9:54).

Embora estejamos neste quadrado, embora tudo indique que não resta saída, somente a fé faz com que a vida seja amena. Ela perdeu seu ideal de família. Ele se perdeu da família. Ambos caminham aprisionados na alma. Ele e ela no fundo maldizem seu destino… São Tiago vela pelos peregrinos. Há uma rota que conduz a um túnel. É o túnel de fuga! Que maravilha!

Um túnel que lembra aquelas histórias de lugares mágicos! Um portal de luz! Por este túnel muitos escaparam. Por este mesmo túnel também passou em direção à morte Frei Caneca. Talvez ele e ela não tenham respostas mágicas. São Tiago, aquele do campo da estrela, foi até martirizado… A grade está fechada com um cadeado! Ele sabe bem o que é isso de estar preso… Ela sabe bem o que é ter um coração fechado. Deu de cara com sua chance de oferecer o perdão e virou-lhe as costas…

Mas há uma luz no final do túnel.  É preciso ter fé em meio à escuridão da alma. São Tiago aceitou o desafio e pregou o evangelho até o fim. Ainda hoje é patrono da Espanha e tem um caminho de peregrinação desde o tempo medieval que é feito pela pura fé.

Por aqui, na atualidade, Maria passa na frente e vai abrindo estradas e caminhos, abrindo portas e portões, abrindo casas e corações. (*) Ele está aprendendo a ter fé e ela precisa chegar no final do túnel e abrir a porta do perdão para ser realmente livre. Mesmo assim, ela envia uma mensagem para aquele menino de olhar vazio encoberto pela muralha. Uma linda mensagem, que tanto amparou outra alma que por 27 anos passou aprisionada. Um poema de William Henley que diz: EU SOU O DONO E SENHOR DE MEU DESTINO. EU SOU O COMANDANTE DA MINHA ALMA!(**) E um pequeno filme para acalentar o sonho de libertação.

Ela é mais velha e sabe seu dever de resgatar almas, mesmo que a sua ainda esteja evoluindo no  tempo e espaço. Ela tem fé que um dia a porta se abra e uma vida completa chegue para ambos. Pois sempre há uma luz no final do túnel e o segredo é tão simples há séculos: Fé e Esperança!

Recife, 15 de novembro de 2016.

 

(*) oração MARIA PASSA NA FRENTE

(**) Poema de William Henley

 

(Câmera e edição: Bernadete Bruto)

PASSAEANDO PELO POÇO DA PANELA

Num recanto bucólico e sombrio

Onde atenua a marcha o grande rio

À sombra de recurvas ingazeiras

Batem roupas, calejadas, lavadeiras

Trago ainda nos olhos: é bem ela.

            A passagem do Poço da Panela (…)

(Trecho da poesia  Poço da Panela de Olegário Mariano)

 

Neste domingo, assim como meus pés, meus olhos passeiam por esta parte da cidade. Entram no antigo arrabalde conservando resquícios de séculos passados, chamado de Poço da Panela. O seu nome se deve ao fato de lá ter sido construído um poço de agua potável em formato de panela.

Procuro o que resta do passado nesta rua que me dirijo a pé e o caminho chega até uma Igreja. Li que esta Igreja também foi erigida por Capitão Henrique Martins, que interessante! Aquele senhor devia ser um homem muito importante. Como era imenso o espaço para tão poucas pessoas! Hoje ao menos, este é dividido com mais gente. Caminho pelo mesmo espaço que Capitão Henrique já caminhou. Aquele senhor  que também construiu a Capela da Jaqueira. Caminho em direção  desta igreja chamada N.S. da Saúde. A Igreja foi construída em agradecimento pela melhora de sua esposa que se encontrava doente, dona Ana Clara. O amor de Henrique por Ana Clara toca meu coração. Duas igrejas construídas ficam como prova desse amor profundo. Vou caminhando pelos arredores, como talvez costumasse fazer Henrique há séculos atrás.

Pego o carro e me dirijo mais para frente e mais um pouco  chego na Rua Antônio Vitruvio. Já frequentei aquela rua nos anos 90, quando fazia Aikidô. Sabia que o final  dela chegaria à beira do rio. Queria olhar o rio. Aquela via, pois no passado o rio era muito usado e estou em busca do passado. Esse mesmo rio que nunca usei… Dois guardiões  encontram-se protegendo aquele lugar, esta parte do Capibaribe, coitado, hoje tão desprezado! A vista me dá essa impressão de que aquela área é especial e quem sabe seja um portal que nos leve de volta há outros tempos… Vejo um avô de bicicleta levando seu neto para conhecer o rio…O velho com o novo  olhando para o rio e sinto esperança. Me despeço dos guardiões pego o carro para conhecer mais do Poço da Panela.

Passo por esta rua de casarios antigos coloridos, rua onde mora Luzilá Gonçalves e penso que ela fez uma excelente escolha de moradia. Que local mais agradável! Fiquei até com vontade de ligar para ela e que me esperasse na porta, onde seria protagonista desta parte do filme, mas escolhi passar sem incomoda-la no domingo, um dia de descanso. Outro dia eu paro. Assim dirijo por  este caminho de casas antigas em direção ao futuro. Como é visível a mudança de construções e de ares! Tenho a impressão que o passado se despede e que o futuro não é tão romântico.

No fim do caminho, já beirando o bairro do Monteiro, volto a me encontrar com o Capibaribe. Deparo-me com uma vida diferente do outro lado do rio. Vida totalmente contraste com aquela que vejo no Poço da Panela atual. Uma comunidade muito pobre, sem infraestrutura adequada, à beira de um rio malcheiroso! Fico besta com esse afronte à vida.

Meus olhos enxergam aquele homem e a história que ele tem para contar.  Uma história que já estou até curiosa para ouvir. Vou perguntar. Tenho quase a certeza que ele poderá me apresentar à vida que existia ali antes e agora. Pois esse é o sentido da minha busca, neste domingo de manhã.

Nem sabia que do outro lado do rio era o bairro da Iputinga! Nem que havia aqui tão perto, um meio de transporte ligando Poço da Panela à Iputinga. O barco de seu José. Obrigada, Patrícia, por sugerir este passeio, ao Capitão Henrique pelo presente amoroso do passado, aos guardiões apontando para a esperança de sobrevivência do velho com o novo e ao senhor José por terminar minha história.

O final não é feliz, mas é verdade tudo que ele me diz. Até outro dia, Seu José!

 

Recife, 14 de novembro de 2016.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

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A partir da leitura do volume “Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo, surgiu a intenção de sentir Cartagena a partir do meu “olhar estrangeiro”.

Me imaginei chegando à cidade sem nada conhecer de sua história – via de regra, é o que acontece, chego ao destino sem nenhum preparo adicional ao que porventura já exista em mim. Vou sem muitas informações e  até juro fazer diferente na próxima oportunidade.

Desta vez, o desconhecimento, me proporcionaria uma maior legitimidade para fotografar ou descrever o sentimento advindo de olhar a cidade pela primeira vez.

Tal não foi minha surpresa quando ao sentar na poltrona do avião encontrar no bolsão à minha frente a revista de bordo com o artigo Cartagena: As Cores de Cartagena da Índia. A capa da revista me abraçava a partir da parede azul celeste misturada com verde piscina, se descascando para mostrar-me uma cor terra, original. E a pequena sacada pintada em cor lilás com muitas flores por trás das grades de madeira, me trazia o primeiro abraço, o acolhimento típico das cidades cujas vidas se traduzem através das cores.

Ao terminar de ler o texto no qual Cartagena se apresentou para mim nas suas cores e sabores, levanto o olhar já não tão estrangeiro e na tela à minha frente vejo o movimento da cidade que me convida a sentir o sabor dos seus frutos, dos seus sorvetes gelados bem conhecidos por todos que a visitam. Seus peixes, crustáceos, passeios em mercados me convidam a sentir seus sabores, a respirar as fragrâncias do seu povo, das suas flores e frutos e sentir as cores de Frida Kallo saírem do México para me receberem em Cartagena ao som da Rumba.

Referências:

* Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo.

* As Cores de Cartagena da Índia – Revista de bordo da LATAM, Novembro, 2016.

 

 

(Encontro com Cartagena – 25.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

Escrito durante o vôo Recife-São Paulo que dali me levaria a Bogotá e posteriormente a Cartagena o objetivo principal da viagem.)

 

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(Lua do espetáculo “As joaninhas não mentem”)

 

Ontem dormi sozinha

A maior lua do século

Me deixou esperando

Sentada à beira-mar

E se escondeu por entre nuvens

 

E enquanto eu

Sentia nas pernas

As carícias do mar

Que na verdade não eram para mim

Tu lua

Te deitavas com estrelas…

Sim, com todas as estrelas.

 

Era isso que eu conseguia ver

Cada vez que o vento

Soprava e abria

As cortinas de nuvens,

Espessas,

Que guardavam, tua intimidade…

 

Mas hoje é um novo dia

E talvez te lembres de mim

Talvez te lembres do mar

Talvez hoje

Não nos deixes a esperar.

 

………………

 

 

(DE LUA E DE MAR – 17.12.2016

Para o Grupo de Escrita Criativa – G.E.E.C.)

 

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(Foto: Elba Lins)

Acordei e me vi sozinho, ou melhor, acompanhado do irmão, que quase siamês esteve comigo todos os dias da existência. Mas onde andaria aquele, com quem até o momento, caminháramos juntos?

A eternidade foi se tecendo, o tempo refazendo a realidade, e nosso aspecto se alterando. O lodo se alojou na nossa carne, na nossa pele; agora somos abrigo, refúgio de passarinhos que chegam e parecem fazer parte da nossa história. Durante todo o tempo esperamos em vão pelo retorno do nosso companheiro.

Algumas vezes, pensamos que O Esperado seria Manoel de Barros já que numa alegoria ao mestre estamos possuídos de lodo, algas, pássaros e plantas. Outros dias na nossa pele se desenharam os traços de Magritte. Também lembrei Van Gogh e me pergunto porque não me levou no seu caminho, para trilhar com ele sua loucura e solidão?

Assim me vi transformado em barro, e me questiono se o mesmo aconteceu ao Esperado.

Junto a mim, só chegam os pássaros que me fazem companhia e deixam em mim sementes de vida que brota no barro e me faz esquecer de tudo; esquecer até de ansiar pelo retorno de quem possívelmente já se fez barro.

 

(O Esperado –

Elba Lins 16.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

A partir de uma experiência real criar o universo ficcional.

Lembrando a foto tirada na Casa Cor, Van Gogh, Magritte e Manoel de Barros)

 

 

Índex* – Dezembro, 2015

Manoela inventou uma história em que tudo acaba bem: pais, irmãos, primos e tios, amigos e inimigos.

Ela fez circundar pelo seu corpo energias positivas que feito estrelinhas enfeitaram os seus cabelos.

Lançou pelo ar o aroma dos lírios florescentes, e a pureza penetrou os corações.

E cantaram em ciranda a história da menina, de um tempo em que lua e sol, terra e água, todos misturados em um pontinho preto.

(“Na partícula de Deus”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 19/11/15, 19h35)

Uma nova história no novo ano que se aproxima no Índex de Dezembro de 2015 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

“A Arte de Amar” em Erich Fromm, [Roland Barthes] e na Criação Literária | Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

Céu de Primavera | Shirley Lima (Recife – PE, Brasil) & André D (Recife – PE, Brasil).

Poema de Jan de Boer (Holanda) enviado por Oleg Almeida (DF – Brasil).

“Girândola” | O Poeta de Meia-Tigela (CE – Brasil).

“Canto aceso” | Carlos Nóbrega (CE – Brasil).

“Crônicas absurdas de segunda” | Raymundo Netto (CE – Brasil).

Agradecemos a participação, o carinho e a esperança em um Ano Novo de muita Paz, Saúde, Luz, Amor, Alegria, Teoria & Poesia, Crítica & Ficção, Vida & Arte…

Extraordinariamente, antecipamos a postagem de 27 de Dezembro de 2015 para 13 de Dezembro de 2015. A próxima postagem (provavelmente) será em 24 de Janeiro de 2016.

Um abraço bem grande da

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – December, 2015

Manuela invented a story where everything ends well: parents, brothers, cousins ​​and uncles, friends and enemies.

She did go around by her body positive energy that made little stars adorned her hair.

She launched through the air the aroma of blooming lilies, and purity penetrated the hearts.

And they sang in sieve about the girl’s history, a time when the moon and sun, earth and water, all mixed into a black dot.

(“In God particle”, Patricia (Gonçalves) Tenorio, 11/19/15, 19h35)

 

A new story in the New Year approaching in the Index of December, 2015 in the blog from Patricia (Gonçalves) Tenorio.

“The Art of Loving” in Erich Fromm, [Roland Barthes] and in Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenorio (Recife – PE, Brasil).

Spring sky | Shirley Lima (Recife – PE, Brasil) & André D (Recife – PE, Brasil).

Poem by Jan de Boer (Netherlands) sent by Oleg Almeida (DF – Brasil).

“Girandola” | The Poet Half Bowl (CE – Brasil).

“Lit corner” | Carlos Nobrega (CE – Brasil).

“Monday’s Absurd Chronicles” | Raymundo Netto (CE – Brasil).

Thank you for the participation, affection and hope at a New Year full of Peace, Health, Light, Love, Joy, Theory & Poetry, Criticism & Fiction, Life & Art …

Remarkably, we anticipate posting from December 27th, 2015 to December 13th, 2015. The next post (probably) will be on January 24th, 2016.

A big hug from

Patricia (Gonçalves) Tenorio.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**Oh! Viena… Oh! Vienna…

“A Arte de Amar” em Erich Fromm, [Roland Barthes] e na Criação Literária | Patricia Tenório[1]

07/12/15

 

[ENCONTRO. A figura se refere à época feliz imediatamente subsequente à primeira sedução, antes que surjam as dificuldades da relação amorosa.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 135]

Ele estava em um canto da livraria. A princípio, não o notei, por estar abismada com o universo denso e profundo de Sigmund Freud (1895-1938). O Museu na Bergasse 19 em Viena era quase despido de móveis, mas cercado de fotografias de Freud com seus parentes, amigos, companheiros da Ciência que ajudou a criar, cercado de recordações de outros tempos onde ali habitou o pai da Psicanálise.

Ele se encontrava, meio por acaso, meio por destino – acreditarei em destino? – ao alcance de minha mão. Bastava esticar o braço e poderia tocá-lo, poderia folhear as páginas da edição de cinquenta anos de aniversário do The Art of Loving[2] (A Arte de Amar) de Erich Fromm (1900-1980).

Como em toda “paixão à primeira vista” – também nos apaixonamos e somos chamados pelos livros – temi o encontro com o abismo. Ouvira falar dele, sim, mas há muito tempo, e na época não me interessei, não me aprofundei naqueles “caminhos tortuosos” em direção ao Amor escritos pelo sociólogo e psicólogo judeu nascido no início do século XX (23 de março de 1900) em Frankfurt, Alemanha e radicado nos Estados Unidos da América a partir de 1934.

Filho único de um comerciante frustrado por não ter seguido a tradição de rabinos da família, e de uma mãe super protetora, Fromm é o exemplo vivo de alguém que fez da vida a prática de sua teoria sobre o Amor. Escrito em 1956 (a edição do Museu de Freud em Viena é de 2006, portanto, o livro fará sessenta anos em 2016), época em que o sociólogo havia passado por três relacionamentos tempestuosos em vários sentidos (Frieda Reichman, psiquiatra onze anos mais velha; Karen Horney, psicanalista quinze anos mais velha, e Henny Gurland, de sua idade, mas que, acometida por uma espécie de artrose extremamente dolorosa, se suicida em junho de 1952), parece ser o momento de maior maturidade amorosa de Fromm quando encontra Annis Freeman, sua companheira até o final da vida.

O momento é propício. O encontro, amoroso. As páginas do livro fluem rapidamente em minhas mãos durante alguns instantes no Museu de Freud da Bergasse 19 em Viena. Talvez o primeiro encontro – talvez a palavra não seja “encontro”, porque não há encontro sem reconhecimento – tenha acontecido no Museu de Freud em Londres na 20 Maresfield Gardens em 2009.[3] Mas o que realmente importa é a pergunta que insiste em ser proferida:

– Como um livro sobre o Amor pode mudar uma (a minha) vida?

 

A Teoria do Amor

[SEDUÇÃO. Episódio reputado inicial (mas que pode ser reconstruído a posteriori) no decorrer do qual o sujeito amoroso é

“seduzido” (capturado e encantado) pela imagem do objeto amado (nome popular: amor à primeira vista; nome científico: enamoramento).]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 301]

O livro começa com uma pergunta:

É o amor uma arte?

E como para toda pergunta que pretende abraçar o mundo, Fromm divide a resposta em partes, e vai, delicadamente nos guiando de maneira (quase) poética – ele que não se considera poeta – pelos caminhos do Amor.

Se o Amor é uma arte, como em toda arte, é preciso o conhecimento, e esforço, e dedicação contínuos – isso nos parece com o que já tratamos em “Notas sobre o Talento na Criação Literária”[4] quando falamos das três ferramentas (Forma, Técnica e Ofício) para a construção de uma obra de arte (literária) encontradas em Iniciação à estética do escritor, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014).

No processo de se apreender uma arte é preciso maestria na Teoria, mas também maestria na Prática. Podemos conciliar essa divisão feita por Fromm em seu livro com a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico defendida pelo escritor e ex-jornalista paulista Luís Roberto Amabile em “A perda da aura nas Fotografias para imaginar, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico)”[5] – esse entrelaçamento de textos é o que a doutora em Linguística Aplicada e Estudos em Línguas pela PUC-SP Cecília Almeida Salles nos convida em Redes da criação: construção de uma obra de arte, e que alicerça e consolida o saber.

Mas vejamos a primeira parte do A Arte de Amar.

[ENTENDER. Percebendo repentinamente o episódio amoroso como um nó de razões inexplicáveis e de soluções bloqueadas,

o sujeito exclama: “Quero entender (o que está acontecendo comigo)!”]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 139]

A Teoria do Amor, segundo Fromm, é a Teoria da Existência Humana, por ser o Amor – feito veremos mais adiante – a razão e a essência da vida, o que nos põe em movimento, o que buscamos ardentemente desde o mito da “expulsão do Paraíso”.

No princípio era o Caos. Uma força toda poderosa o organizou, deu luz aos planetas, o dia e a noite, o homem e os animais. Tudo era harmonia e união com o Ser Criador. Até a primeira desobediência. A “expulsão do Paraíso” incrustou em todo homem, em toda mulher, a necessidade profunda de superar a separação primordial, a separação com o todo.

– Como superar a separação?

Poderíamos fazer a pergunta acima a um Erich Fromm receptivo – aquele que seu assistente Rainer Funk descreve como (bastante) interessado na companhia do interlocutor e isso era demonstrado por seu olhar firme, “quase muito intenso”, e “fixo”.

“O homem é vida consciente de si”, afirma Fromm. E a resposta à pergunta anterior, “Como superar a separação?”:

– Depende do grau de individuação do indivíduo.

Erich – e eu já me coloco em sua intimidade – narra a história das tentativas de superação da separação original. Narra as experiências orgásticas das tribos antigas, quando em meio ao sexo grupal, os corpos se unindo e transmitindo às próprias almas a sensação de totalidade, plenitude, de se fazerem Um. Mas essa sensação não durava por muito tempo. Então essas experiências eram cíclicas e marcadas no calendário das festas das tribos antigas.

A necessidade de pertencer a um “rebanho” não nos é estranha. Por que será que em um regime político livre, feito é a Democracia, persiste o esmagador grau de conformismo/conformidade às normas estabelecidas (e induzidas) pelo mercado do sistema Capitalista?

[IDENTIFICAÇÃO. O sujeito se identifica dolorosamente com qualquer pessoa (ou com qualquer personagem) que ocupe, na estrutura amorosa, a mesma posição que ele.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 207]

A união por conformismo/conformidade aparenta ser uma solução para o “buraco negro” da separação original. Mas ainda não é. Ainda não é suficiente para “apaziguar a ansiedade da separação”. No conformismo/conformidade da sociedade moderna Capitalista, tudo é padronizado. A rotina de trabalho. A rotina de prazer. Até a rotina de estudo – estudamos para sermos independentes ou para “dizermos” que estudamos?

(Fromm nos alerta sobre a alienação. Até que ponto pensamos por nós mesmos, ou seguimos os padrões, os desejos, as ordens de nossos pais, amigos, “amores”?)

Uma terceira maneira de superar a separação original (além da experiência orgástica, ou da união por conformismo/conformidade) é a atividade criativa.  É quando chegamos à nossa seara. É quando nos aproximamos da Criação Literária.

Erich informa que na atividade criadora há a experiência integradora de unir a si mesmo com o material específico de cada arte. Quer seja uma pintura, escultura, uma cena de cinema, teatro, página de romance escrita, ou poesia, a arte nos preenche “por instantes” e não nos sentimos mais sós. Sentimo-nos pertencentes a todas as épocas, a todas as pessoas, o Amor ao próximo, ao mundo, à natureza se concretiza naquilo que realizamos com nossas próprias mãos.

Mas nada se compara à unidade interpessoal. Se na experiência orgástica há a união de corpos simulando a união de almas, ou na união por conformismo/conformidade o ser se dilui em meio a um rebanho, na atividade criadora o artista se encontra só – e deveria realmente se encontrar só no momento da criação, que é quando tem a oportunidade de entrar em contato com seu mais profundo, e muitas vezes desconhecido, “eu”.

Fromm defende a união interpessoal como a “resposta completa” à questão da separação original. Ele passeia pela união simbiótica entre mãe e filho – que pode adquirir uma forma passiva, gerando submissão ou masoquismo, ou a forma ativa, gerando dominação ou sadismo –, em contraste com o Amor, que é “união sob a condição de preservar a integridade de alguém”.[6] “O Amor é um poder ativo no homem”, continua Fromm na mesma página, e confronta o conceito de “atividade” moderno – aquele que o ser precisa “externar” suas atividades para ser considerado “ativo” – com o conceito de atividade de Espinoza, em que os “afetos ativos” são livres, enquanto os “afetos passivos” são dirigidos. Então chegamos à Teoria dos Afetos que rapidamente mencionamos em “A perda da aura…”. Abramos (muito) breves parênteses para discorrer sobre ela.

[CONTATOS. A figura se refere a todo discurso interior suscitado por um contato furtivo com o corpo (e mais precisamente a pele) do ser desejado.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 85]

(A Teoria dos Afetos[7], ou em alemão Affektenlehre, é originária da teoria musical da época do Barroco, na qual se utilizavam recursos técnicos específicos e padronizados para despertar nos ouvintes emoções também específicas e padronizadas. Ao chegarmos ao pensamento de Espinosa[8] (1632-1677), buscamos uma Teoria dos Afetos privilegiando não somente esse poder de afetar e ser afetado pelo mundo ao nosso redor, mas como uma forma (livre) de conexão entre as artes, as ciências, a filosofia e as críticas de arte e literária, aquilo que é também uma busca – como anunciamos há algumas páginas – nas Redes da criação de Cecília Almeida Salles, ou o que Fromm afirma sobre Espinosa: o Amor “é uma ação, a prática do poder humano, que pode ser praticada somente em liberdade e nunca como o resultado de uma compulsão”.[9])

É dando que se recebe, parece nos dizer Fromm/Espinosa/Salles. O caráter produtivo do ser humano – e poderíamos colocar aqui o da arte – é a mais “alta expressão de potência”. Não é aquele que “tem” muito que é rico, afirma Fromm, mas aquele que “dá” muito.

Essa é a “filosofia” do Cristo, de Buda, Gandhi… e de tantos homens grandes. A pessoa dá “ao próximo” a sua vida, o que é vivo em si – sua alegria, interesse, compreensão, conhecimento, mas também sua tristeza, melancolia, sofrimento, dor.

O Amor é um poder que produz Amor, afirma Erich, enquanto a impotência é a inabilidade de produzir Amor. Enquanto estivermos presos às regras do mercado Capitalista e Consumista, estaremos presos a essa “impotência”, a essa “incapacidade de amar”.

Mas Fromm nos apazigua a angústia da pergunta:

– Como viver em uma sociedade materialista e encontrar (e exercer) o Amor?

[ESTABELECIDOS. O sujeito amoroso vê todos os que o rodeiam “estabelecidos”, cada qual lhe parecendo provido de um

pequeno sistema prático e afetivo de ligações contratuais, do qual ele se sente excluído; experimenta então um sentimento ambíguo de inveja e de derrisão.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 169]

Ele nos responde de maneira muito doce – e eu acredito na doçura – que existem profissões em que se pode ser mais livre das amarras mercadológico-capitalistas e entre essas profissões encontra-se a do professor – que ensina e recebe ensinamentos de seus alunos –, e a do ator de teatro – que estimula e é estimulado por sua audiência.

É preciso conhecer o Outro e respeitá-lo para poder Amar. Não a periferia do Outro, mas o seu núcleo, o centro, e que no ato de fusão (de Amor) entre duas pessoas, “eu lhe conheço, eu me conheço, eu conheço todo mundo – e eu ‘conheço’ nada”.[10]

Mas para conhecer o Outro devo fazê-lo de maneira objetiva, sendo capaz de “ver sua realidade, ou melhor, superar as ilusões, o irracional retrato distorcido que tenho”[11] dele ou dela.

Erich Fromm nos lembra o (um outro) mito da separação que em Platão divide os seres-unos-masculinos-femininos em seres de sexos opostos. Fromm acredita que os homens e as mulheres são bissexuais, tanto fisiológico quanto psicologicamente. E esta polaridade é a base para toda a Criatividade – e novamente lembramos da nossa “seara da Criação Literária”.

Mas é preciso resolver os afetos que herdamos de nossos pais. Se para um indivíduo maduro, o Amor de mãe e filho é aquele que gera a certeza de que “eu sou amado pelo que sou, ou mais precisamente, eu sou amado porque eu sou”, no amor infantil – e notem a palavra “amor” sem o “A” maiúsculo – “eu amo porque eu sou amado”, “eu amo você porque eu preciso de você”, enquanto no Amor maduro “eu preciso de você porque eu amo você”.

Isso porque, continua Fromm, o Amor de mãe é incondicional, enquanto que o de pai é condicional. Existe o lado positivo e negativo de cada caso. O Amor de mãe não pode ser conquistado; o de pai, sim. O Amor de mãe é incondicional; no de pai, preciso merecer senão eu perco. Na pessoa madura, tanto o Amor de mãe quanto o de pai estão introjectados, não necessitando mais de um referencial externo, não sendo afetado pelo seu (“não” ou “sim”) reconhecimento.

[AFIRMAÇÃO. Contra tudo e todos, o sujeito afirma o amor como valor.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 15]

O Amor maduro não é uma relação com “uma” pessoa específica. É uma “atitude”, uma relação da pessoa “com o mundo todo” e não somente com “um ‘objeto’ de amor”.

Fromm trata do amor erótico – aquele em que duas pessoas que são separadas se tornam uma –; do amor de mãe – aquele em que duas pessoas que eram uma se tornam separadas –; do amor fraternal – por todos os seres humanos –; o amor por mim mesmo – que deve ser inseparável do amor por qualquer outro ser. Se um indivíduo é capaz de amar “produtivamente”, ou “ativamente”, feito vimos com Espinosa, é capaz de amar a si mesmo. Se ele/ela pode amar “somente” os outros, ele/ela não pode amar “de maneira alguma”.

O amor a Deus é descrito por Erich Fromm em comparação com as fases que um indivíduo transita desde o amor infantil até o Amor maduro: da fase matriarcal, com o amor incondicional materno, passando pela fase patriarcal, com “eu sou amado por merecimento e obediência”, até chegar à fase sartreana, do “Deus sou eu, enquanto sou humano”.[12]

Fromm afirma que desejamos definir a Deus, dividir Deus em bem e mal, certo e errado por pensarmos sob a Lógica de Aristóteles, em que a Lei da Contradição e a Lei do Meio Excluído não permitem (e não deixam espaço) para o pensamento chinês e indiano que foi abraçado por Heráclito, Hegel e Marx sob a Lógica do Paradoxo.

Lao-tse diz que: “Palavras que são estritamente verdadeiras aparentam ser paradóxicas”.[13] E o mestre Eckhart – a quem Fromm tanto admira – afirma: “O Divino Ser é uma negação das negações, e uma recusa das recusas… Toda criatura contém uma negação: uma nega que é a outra”.[14]

[PLENITUDE. O sujeito coloca, com obstinação, o voto e a possibilidade de uma satisfação plena do desejo implicado

na relação amorosa e de uma felicidade sem falhas, e como que eterna, dessa relação: imagem paradisíaca do Soberano Bem, a dar e a receber.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 275]

O conhecimento de Deus se dá não pelo pensamento certo, mas na ação certa. E somente se pode amar ao Outro – pai, mãe, irmãos, a si ou a um objeto amoroso – através de seu conhecimento. Fromm lembra novamente Espinosa e a transição da “crença correta” à “conduta de vida correta”; Marx e a tarefa de “transformar” o mundo; e Freud com a “terapia psicanalítica” como sendo “a mais profunda experiência de si mesmo”.

(Interessante abrir breves parênteses sobre o posicionamento de Erich Fromm em relação ao pensamento de Sigmund Freud. Fromm se coloca em contraste com o pai da Psicanálise em diversos pontos do A Arte de Amar, mas se posiciona “em continuação”, não em pura “quebra” e destruição do pensamento anterior, e se coloca sob o olhar “sociológico”, que era a formação inicial de Erich Fromm e que não foi pensada pelo seu antecessor Sigmund Freud.)

Erich encerra o seu capítulo sobre “A Teoria do Amor” com um desafio a nós leitores, a mim, leitora apaixonada pelo que tenho em minhas mãos. Cada indivíduo tem dentro de si todas as fases do amor a Deus – amor materno, amor paterno, amor por si mesmo, o amor por todos os seres humanos. A questão é em que ponto o indivíduo se encontra na escala do amor infantil até o Amor maduro, e mais ainda, o que fazer para atingir o seu mais alto grau. Talvez uma frase do mestre Eckhart – a “quem Erich Fromm tanto admira” – possa nos elucidar as ideias, clarear o caminho para nos prepararmos para “A Prática do Amor”:

– “Deus e eu: somos um. Conhecendo a Deus eu o tomo para mim mesmo. Amando a Deus, eu o penetro.”[15]

 

A Prática do Amor

[ESCREVER. Engodos, debates e impasses provocados pelo desejo de “exprimir” o sentimento amoroso numa “criação” (particularmente de escrita).]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 157]

Feito em toda arte, a Prática do Amor requer um maior investimento de energia e determinação de quem se propõe a enveredar por seus caminhos. Quem se propõe e se doa, e se entrega com todas os átomos do corpo (e da alma de Epicuro). Fromm se (nos) pergunta:

– “Pode alguma coisa ser aprendida sobre a prática de uma arte, exceto em praticando-a?”[16]

Um(a) escritor(a) senta diante de sua mesa. Toma papel e caneta, teclado e tela de computador, e inicia o seu dia, e pratica o seu Ofício. Munido(a) da Técnica do Amor (ou da Escrita) se vê diante da difícil situação de pôr em prática aquilo que foi introjectado durante os anos todos de estudo, durante o tempo inteiro de aprendizado.

O medo congela suas mãos. Mas “antes de tudo”, “antes de nada”, a Prática “de uma arte requer disciplina” – Erich senta-se ao lado e sussurra os seus segredos. Se demarcam horários de escrita, se insiste no investimento do Amor.

Perceber o que está ao redor é uma arte dos iniciados. O(a) escritor(a)/amante maduro(a) observa em um café a passagem dos pedestres apressados, escuta (sem querer?) a conversa na mesa vizinha, colhe informações sobre o objeto amado, para então, no vazio de seu quarto, caderno, computador, forjar um personagem de si mesmo(a) e derramar a alma por inteiro no texto a escrever, no “livro por vir”.

O(A) amante percebe a mudança do(a) amado(a). Presta atenção nos detalhes, porque é de detalhes que toda (grande) obra de arte é feita. A concentração é a segunda ferramenta necessária na Prática do Amor, na Arte da Escrita. Mas como nos concentrar em meio ao “barulho ao redor”? Em meio a uma sociedade em que o “valor de exposição” que vimos com Walter Benjamin em “A perda da aura…” nos impõe um mundo de aparências? Um mundo em que as essências dos seres humanos são cada vez mais esvaziadas?

[ESPERA. Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, ao sabor dos mais ínfimos atrasos (encontros, telefonemas, cartas, retornos).]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 163]

A terceira ferramenta na Prática do Amor, na Arte da Escrita é a paciência. Novamente uma pergunta: “Como ter paciência na sociedade industrializada em que vivemos? Em que o mais importante é a rapidez, a velocidade nos relacionamentos?”

Fromm sugere a meditação. Como uma maneira de conhecer a si mesmo. Como uma forma de acalmar a alma, concentrar o espírito, disciplinar o saber.

No entanto… Erich afirma o que já foi questionado por um poeta maduro a um poeta iniciante em cartas, em nosso ensaio “Notas sobre o Talento”, que forma, juntamente com “A perda da aura” e este “A Arte de Amar”, uma “rede da criação”, uma tríade que nos dá base e sustentação para dar “mais um passo” em direção à Criação Literária, para insistir mais um pouco na Prática de Amar: a suprema preocupação com a maestria da arte. Vale a pena recordarmos (novamente) Rainer Maria Rilke em suas Cartas a um jovem poeta:

“O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?”[17]

“Se a arte não é algo de suprema importância, o aprendiz nunca irá aprendê-la”,[18] afirma Fromm. “Morreria, se lhe fosse vedado escrever”?, desafia Rilke um(a) poeta/praticante do amor abismado(a). A disciplina tem de vir de dentro, a Prática da arte tem de ser concentrada “neste exato momento”, sem nos distrairmos com nada nem com as “más companhias” – aqueles/aquelas que agem sobre nós feito uma espécie de “zumbis”, sugando nossa energia nos Festivais Literários, tomando para si toda a Pulsão do Amor.

Para se alcançar o Amor é preciso sair de si, é preciso superar o Narcisismo, e o polo oposto do Narcisismo é a Objetividade, ou seja, a capacidade de “enxergar” – não “ver”, que é superficial – as pessoas e coisas “como elas (realmente) são”, e não como as projetamos em nossa Página em Branco do caderno, em nossa Tela Imaginária do computador, com nossos desejos ou medos. Porque é preciso, em primeiro lugar, acreditar no que se escreve, acreditar em si para poder Amar o Outro.

[ABRAÇO. O gesto do abraço amoroso parece realizar, por um instante, para o sujeito, o sonho de união total com o ser amado.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 7]

“A faculdade de pensar objetivamente é a razão; a atitude emocional por trás da razão é aquela da humildade”.[19] Se desejo aprender a arte de Amar, apreender a Criação Literária, devo então lutar a cada instante, a cada situação para manter essa objetividade, para trazer à tona essa racionalidade, que é o que nos diferencia dos outros seres animais, é o que nos aproxima do eterno conflito entre Poesia e Teoria, Crítica e Ficção, Vida e Arte.

Todo pensamento criativo, quer seja Teórico ou Científico, Poético ou Ficcional, deve alicerçar-se na Fé, deve iniciar em uma “visão racional”, que é o resultado de um “considerável prévio estudo, pensamento reflexivo, e observação” próprios, apesar da “opinião da maioria”. Sem a Fé, estaríamos ainda nas Cavernas, estaríamos ancorados no amor infantil, sem nunca alcançarmos o Amor maduro.

Se não temos Fé e insistimos em nosso “eu”, nosso “sentimento de identidade” é ameaçado e nos “tornamos dependentes de outras pessoas”, cuja “aprovação” torna-se a “base do nosso sentimento de identidade”.[20] Abramos breves parênteses para traçar uma comparação entre esse “sentimento de identidade ameaçado” quando não temos Fé no nosso “eu” na Prática do Amor, com a “Letra órfã do Pai ausente do discurso” do filósofo francês nascido em Argel, Argélia Jacques Rancière (1940).

(No prefácio de Políticas da escrita[21], Rancière nos fala da Democracia não como um “modo particular de governo”, e sim como “a forma da comunidade repousando sobre a circulação de algumas palavras sem corpo nem pai”. É preciso que a “Letra” da escritura seja “órfã”, cuja “legitimidade nenhum pai garante”, ou seja, que se esteja só, e que se acredite, tenha Fé nesse ser sozinho para se atingir a voz própria da Escrita, ao mesmo tempo essa Letra órfã sendo a “textura da lei”, inscrita no que ela e a comunidade têm em comum.)

[SOZINHO. A figura remete não ao que pode ser a solidão humana do sujeito amoroso, mas à sua solidão “filosófica”,

já que o amor-paixão não é, atualmente, objeto de nenhum sistema maior de pensamento (de discurso).]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 163]

Erich Fromm contrapõe a educação à manipulação, sendo a primeira quando se ajuda “a criança a realizar suas potencialidades”, enquanto a segunda “é baseada na ausência da fé nas crescentes potencialidades”, colocando na criança apenas o que é “desejável”, suprimindo “o que parece ser indesejável”.[22]

A base da fé racional é a produtividade. Viver para si, “amar a si mesmo como se fosse ao próximo”, é viver produtivamente, criativamente no Amor maduro, na Criação Literária.

É preciso ter Coragem para viver esta Fé. É preciso tomar as “dificuldades, retrocessos e tristezas” como um desafio a superar e que nos “faz mais fortes” – já dizia o filólogo e filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900).

Mas as pessoas (realmente) capazes de Amar são uma exceção. Amar “é por necessidade um fenômeno marginal hoje em dia na sociedade Ocidental”.[23]

Somente os não-conformistas, os não-conformados são capazes de se defenderem do Espírito Centrado na Produtividade, na Objetivação do Sujeito Amoroso, na Escrita Criativa que une a Teoria com a Poesia, a Crítica com a Ficção, a Vida e a Arte.

[EU-TE-AMO. A figura não remete à declaração de amor, à confissão, mas à proferição repetida do grito de amor.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 173]

Saímos eu, meu pai e meus três filhos do Museu de Freud na Bergasse 19 em Viena. Meus filhos e meu pai conversam sobre o que viram, ouviram no Museu. Eu permaneço calada em meio à chuva fria de Viena. Frio está meu coração, como frio se encontra um coração toda vez que se despede – para sempre? – do ser amado. “Para sempre?” – não está entre parênteses, não está suspenso na probabilidade de nunca mais ali retornar. Está no meio de uma frase entre dois travessões, para alertar de uma possibilidade, e meu coração se aquece um pouco, fica mais tranquilo.

O Amor que aprendi em A arte de Amar, de Erich Fromm, nas interferências de Roland Barthes e o seu Fragmentos de um discurso amoroso[24] – livro que também teimei (e desisti várias vezes) em começar a ler desde 2014 –, estão impregnados nas minhas células cerebrais, e mais, na minha alma apaixonada por Poesia, e Teoria, e Crítica, e Ficção. Porque as palavras desses Teóricos-Poéticos, ou (será?) Poetas-Teóricos insuflam Vida, fornecem inspiração. E nos fazem escrever mais umas (quatorze) páginas, nos fazem caminhar mais um passo, “um passo de cada vez”,[25] em busca do Amor Perfeito, em busca do Amor Próprio, que, ao se encontrar – e estava tão perto –, podemos, devemos, plenamente, puramente, Amar “o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22, 39).

 

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* O dia em que Fromm encontrou Tenório na Bergasse 19, Viena. The day when Fromm met Tenório on Bergasse 19, Vienna.

(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Está no prelo, a ser lançado em abril de 2016 pela editora espanhola Mundi Book Ediciones, Vinte e um, uma coletânea em português e espanhol de vinte e um contos escritos entre novembro de 2011 e janeiro de 2014. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2) FROMM, Erich. The Art of Loving. Introduction by Peter D. Kramer. P.S. Biographical Afterword: Rainer Funk. Translated (into English): Marion Hausner Pauck. New York: Harper, (1956 in) 2006 – Tradução nossa para este estudo.

(3) Desse “quase” encontro nasceu “Eu, comigo e Deus”, conto que faz parte de Vinte e um, livro que será lançado em abril de 2016 pela editora espanhola Mundi Books Ediciones. Vide também http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6067.  Escrito em 16/01/2014. Última atualização: 31 de maio de 2015.

(4) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6279. Escrito em 14/06/2013. Última atualização: 25 de outubro de 2015.

(5) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6328. Escrito em 30/10/2014. Última atualização: 29 de novembro de 2015.

(6) FROMM, Erich. Op cit., p. 19.

(7) MATTHESON, Johann. Sobre as qualidades e tonalidades e seu efeito na expressão dos affecten. In Revista Música. Tradução e breve introdução: Lúcia Becker Carpena. V. 13. N. 1. UFRGS, (1713 in) ago. 2012, p. 219-241.

(8) ESPINOSA, Bento de. Ética. Tradução: Parte I: Joaquim de Carvalho; Parte II e III: Joaquim Ferreira Gomes; Parte IV e V: António Simões. Introdução e Notas: Joaquim de Carvalho. Posfácio: Joaquim Montezuma de Carvalho. Lisboa, Portugal: Relógio D’Água, 1992.

(9) FROMM, Erich. Op cit., p. 21.

(10) FROMM, Erich. Op cit., p. 28.

(11) FROMM, Erich. Op cit., p. 29.

(12) FROMM, Erich. Op cit., p. 65.

(13) FROMM, Erich. Op cit., p. 68.

(14) FROMM, Erich. Op cit., p. 71.

(15) FROMM, Erich. Op cit., p. 75.

(16) FROMM, Erich. Op cit., p. 99.

(17) RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Tradução: Paulo Rónai e Cecília Meirelles. São Paulo: Globo, 2001, p. 26.

(18) FROMM, Erich. Op cit., p. 99.

(19) FROMM, Erich. Op cit., p. 111.

(20) FROMM, Erich. Op cit., p. 114.

(21) RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Tradução: Raquel Ramalhete… [et al]. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 9.

(22) FROMM, Erich. Op cit., p. 115.

(23) FROMM, Erich. Op cit., p. 122.

(24) BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução: Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

(25) TENÓRIO, Patricia (Gonçalves). As joaninhas não mentem. Rio de Janeiro: Calibán, 2006, p. 53.

 

 

Índex* – Maio, 2015

Eu descobri

(Tão) simples

Assim

Que gosto mesmo

(É) mais de

Mim

Hoje em dia

Chamam de egoísmo

O que seria 

Individualismo sadio

(Em outros tempos)

Quando eu era

Menina

Ouvia da aeromoça

A filosofia de avião:

De que só ajudasse 

Ao outro

A colocar a (própria)

Máscara

Quando a si mesmo

Colocar

Quando a si mesmo

Amar

Para ao outro poder 

Como a si mesmo

Amar

E a si mesmo

Amar

E a si…

(“Voo 727 e outras histórias”, Patricia Tenório, 24/05/15, 16h15)

Amar ao próximo como a si mesmo no Índex de Maio, 2015 do blog de Patricia Tenório.

“Eu, comigo e Deus” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

A ceia e outras histórias | Conceição Alves (PE – Brasil).

Nas pontas dos pés | Antonio Fabiano (PB/SP – Brasil).

Nova Crônica de Marly Mota (PE – Brasil).

“Durmo beija-flor e acordo sempre-viva” | Mara Narciso (MG – Brasil).

XIX Jornada de Estudos e Lançamento Revista Veredas Nº 17 (PE – Brasil).

E os links do mês:

“Biografia de um homem comum”, de Luiz Rufatto (SP – Brasil), na coluna Brasil do El País: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/opinion/1430319907_540182.html

“Transe Encontro”, de Danuza Lima (PE – Brasil), na coluna PalavraTório do blog de Adriano Portela (PE – Brasil) Parlatório: http://parlatorio.com/transe-encontro/

Agradeço a participação de todos e todas. A próxima postagem será em 28 de Junho de 2015. Um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Tenório.

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Index* – May, 2015

I discovered

(So) simple

Indeed

I like more

(It’s) more of

Me

Nowadays

They call selfshiness

What it could be called 

Healthy individualism

(In other days)

When I was a

Little girl

I’ve heard from the stewardess

The philosophy of the plane:

That one only helped

Another 

To put the (own)

Mask

When yourself

Put

When yourself

Love

To another can 

As to yourself

Love

And to yourself

Love

And to you…

(“Flight 727 and other stories”, Patricia Tenório, 05/24//15, 4h15 p.m.)

Love another as to yourself in the Index of May, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

“Me, myself and God” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

The supper and other stories | Conceição Alves (PE – Brasil).

On the tiptoe | Antonio Fabiano (PB/SP – Brasil).

New Chronicle of Marly Mota (PE – Brasil).

“I sleep hummingbird and wake up evergreen” | Mara Narciso (MG – Brasil).

XIX Jorney of Studies and Launching of Magazine Veredas N. 17 (PE – Brasil).

Ant the links of the month:

“Biography of an ordinary man”, from Luiz Rufatto (SP – Brasil), in the column Brasil of El País: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/opinion/1430319907_540182.html

“Trance Meeting”, from Danuza Lima (PE – Brasil), in the column PalavraTório in the blog of Adriano Portela (PE – Brasil) Parlatório: http://parlatorio.com/transe-encontro/

Thank you for the participation of everyone. The next post will be on 28th June, 2015. A big hug and see you there,

Patricia Tenório.

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foto Index

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Um novo dia, para amar ao outro, como a si mesmo… Another day, to love another, as to yourself…

“Eu, comigo e Deus” | Patricia Tenório*

16/01/14

 

Ficava em 20, Maresfield Gardens, num subúrbio de Londres. Vindo de metrô, descia na estação de Hampstead Northern, atravessava a rua e subia uma ladeira. Me perdi duas vezes até encontrar a placa da casa-museu, uma casa de dois andares, tipicamente inglesa. A rua estava calma, com as folhas das árvores levitando pelo chão.

Ao entrar, encontrei uma senhora, bem velhinha, que vendia os bilhetes e souvenirs. Ela me disse que não podia fotografar, mas me chamou a um canto da loja e perguntou:

– Quer ver onde Freud encontrou Deus?

Parei um instante com a pergunta. Poderia ficar séculos remoendo em minha mente uma resposta digna de meus estudos, digna da lucidez, digna de…

– Não acredito em Deus.

Ela me olhou de mansinho. Passou a mão enrugada no meu rosto jovem. Puxou-me pelo braço.

– Venha mesmo assim.

Eu não sabia se ia ou corria embora. Mas resolvi arriscar, e resolvi caminhar pelo pequeno jardim, e me sentei em uma das espreguiçadeiras, onde um dia sentou Freud com o suposto visitante.

– Foi aqui.

Ela me deixou a sós. A sós com meus pensamentos. A sós com a possibilidade de ser Freud algum dia, um dia de verão londrino, sentando numa espreguiçadeira, com uma jarra de limonada rósea na mesa ao lado.

– Deus está aqui.

Freud se engasgou com o gelo da limonada rósea quando a moça (que será uma velhinha) trouxe um senhor de barba branca, comprida, para sentar na outra espreguiçadeira.

Ficaram os dois fazendo ninho em suas barbas brancas. “Então, assim que era Deus?”, pensou Freud, ele e os seus pensamentos que não paravam de pensar.

– Sim, sou mesmo assim. Ou de outra forma qualquer. Mas quis te aparecer como ao povo judeu, judeu que tu és.

– … produto da minha imaginação…

– Herança da tua fé.

Freud serviu-se de mais limonada. Serviu também a Deus.

– Aceita?

– Obrigado.

– Mas, ao que devo a visita?

– Tu deves saber.

– Não sei.

– Adivinha.

– Não sou bom com jogos.

– Mas desvendas estórias.

A limonada estava doce demais. Freud serviu-se de algumas pedras de gelo.

– Algum de seus filhos.

– O maior de todos.

– O Cristo?

– Exatamente. Há séculos me atormenta um fato. Por isso vim aqui falar contigo.

– Sou todo ouvidos.

– O Horto das Oliveiras.

– O Horto das Oliveiras… Da grande angústia… O suor de sangue…

– Teria ele vacilado? Será que ali meu filho, meu grande filho, o maior de todos, me traiu?

– Por que me pergunta isso? Pelo que dizem, você sabe de tudo…

– Mas eu quero saber o que tu pensas.

– Você sabe o que eu penso…

– Quero ouvir-te falar.

Freud se levantou da espreguiçadeira. Eram duas cadeiras espreguiçadeiras pintadas de branco. Antes, porém, eram na madeira, sem pintura, com apenas uma camada de verniz.

– Se eu acreditasse em você – disse Freud caminhando pelo jardim, em um típico dia de verão londrino –, eu diria que seu filho não o traiu. Aliás, nunca ele foi mais fiel do que naquele momento em que, suando sangue, antecipando tudo o que iria sofrer num futuro próximo, bem próximo, pediu “Pai, afasta de mim este cálice de amargura”, para, logo em seguida, voltar atrás e dizer “Que seja feita a tua vontade, e não a minha”.

– Mas tu não acreditas em mim.

Freud tirou do bolso uma pequena caixa de charutos.

– Aceita?

– Não, obrigado.

Acendeu o charuto, deu uns cinco passos e voltou a sentar na espreguiçadeira.

– Eu diria que ele não o traiu. As circunstâncias eram propícias para que desistisse: ele sabia que os amigos o abandonariam, que seria torturado e morto, o que tinha a seu favor? Até hoje me pergunto: “O que tinha a seu favor?” Um louco alemão que extermina judeus feito ele? Que por isso precisou fugir para a Inglaterra? Um câncer na boca que o impediria de falar? Um futuro mais que incerto, com dissidências entre os seus seguidores, julgamentos cretinos dos seus estudiosos? Não, não, ele não o traiu. Ele permaneceu coeso, coerente, com toda a sua humanidade, continuou escrevendo e fumando o seu charuto, e vivendo o restante da vida que ainda possuía.

A conversa estava fluindo bem quando a moça (que um dia será uma velhinha) interrompeu.

– Tem um rapaz, barbudo, cabelos longos, querendo falar com os senhores.

– Arrá! Agora vai ficar interessante, “Deus”! ‒ Freud fez o gesto de aspas.

Deus deu de ombros.

– Pode mandar o rapaz entrar, Fräulein, e traga mais uma cadeira para ele.

O jovem, barbudo, cabelos longos, atravessando o jardim lentamente, conversando com a moça, que seria velha um dia, explicando a diferença entre as margaridas e os girassóis, acompanhando o voo das borboletas.

Ao se aproximar de Deus e Freud, o jovem parou. Cumprimentou Deus com a cabeça. Olhou diretamente para Freud e falou:

– Prazer, sou o Cristo.

– Prazer, Sigmund Freud.

A espreguiçadeira devidamente arranjada, a limonada rósea servida.

– Bonita casa, Sigmund.

– Obrigado, Cristo, gentileza sua.

De repente, Freud começou a rir. Ria balançando os óculos, balançando o charuto, fazendo as cinzas caírem na grama bem aparada do jardim de verão londrino.

– Só falta agora o Espírito Santo!

– Mas ele já está aqui, Sigmund. Lembre-se, “Onde dois ou mais estiverem reunidos…”.

– E sua santa Mãe?

– Freud…

– Desculpe, Deus, mas não pude resistir… É tão hilário, tão absurdo! Ter vocês aqui! Os dois. Quer dizer, os três.

– Não acredita, não é, Sigmund? Quer ver minhas chagas, feito Tomé?

– Acredito no poder da mente, oh, Cristo. Acredito no poder da minha imaginação, que viaja quase dois mil anos para conversar com você e com seu pai, graças ao “Espírito Santo” – Freud com as aspas nos dedos.

Ficaram os três se entreolhando: Freud, Deus e Cristo. O Espírito Santo deveria estar protegendo o lugar, pois ninguém mais chegou e interrompeu o colóquio divino-humano.

– Mas como você ia dizendo, Deus…

– Não, eras tu quem transcorria sobre a não traição do meu filho, o maior de todos.

– Obrigado, Pai.

– Mas por que me pergunta, se ele está aqui? Ele próprio pode responder.

– Mas ele já respondeu com a própria vida. Basta.

– Sigmund, queremos saber o que você pensa.

– Mas vocês o sabem!

– Será?

– E não seria? Se vocês forem quem dizem que são e fazem o que dizem que fazem, decerto possuem a minha resposta. A propósito, como conseguiram chegar aqui e entrar com tanta facilidade? Fräulein é muito desconfiada com visitas… Entendam, o meu caso é muito delicado. Estou numa posição em que todos querem saber o que penso: o que penso de Hitler, dos campos de concentração, da mente humana, dos sonhos, de jovens escritores que um dia virão aqui visitar esta mesma casa, atravessar o mesmo jardim, e (talvez) quem sabe sentar nesta cadeira com seu bloco de anotações, caneta em punho e fazer surgir palavras – desconexas, a princípio –, mas que em seguida irão se conectando, e congruindo, e se mostrando lúcidas e coerentes. Acredito nessas palavras, nessas, eu acredito. Acredito porque foram ruminadas, e ficaram rondando e rodando a cabeça jovem sem dar explicações, simplesmente existindo. Até que o toque de uma pessoa amada, o sorriso de uma criança, ou apenas um dia de verão londrino, entre margaridas e girassóis, as borboletas em seu voo solitário, até que um desses elementos extraordinários da vida trouxesse à tona o sentido dessas palavras. O sentido que as aproximou do seu centro, e nada mais importava para quem escrevia, porque ao centro chegou.

A senhora bem velhinha tocou no meu ombro.

– Faltam dez minutos para o museu fechar.

Fiquei assim, sem palavras, meu corpo, sem movimento, porque estive eu, comigo e Deus durante a tarde inteira e não senti a tarde passar. Como se o passado, o presente e o futuro houvessem se fundido em um tempo só, e como se os personagens tivessem preenchido meu corpo, ao mesmo tempo.

Então, tempo e espaço me coabitaram. Ou melhor, tempos e personagens. Porque fui Deus, Freud e Cristo, fui o Espírito Santo entre eles.

Minhas mãos tremiam, e muito me custou juntar o bloco de anotações, a caneta, a mochila. As pernas também estavam bambas, e foi com dificuldade que me levantei e me apoiei na senhora bem velhinha para atravessar o jardim, a loja de souvenirs, a casa-museu de dois andares e chegar até a porta do 20, Maresfield Gardens.

A velhinha me acenou em despedida. Parecia mais jovem do que eu, eu que havia envelhecido séculos em uma tarde.

Ao me lembrar disso tudo, hoje, eu, com meus filhos e netos, sinto como se o tempo não houvesse passado, ou como se houvesse passado tão rápido que estivesse próxima a hora do reencontro com os personagens, no mesmo jardim inglês, naquelas espreguiçadeiras brancas.

– Vejam, ainda guardo comigo a ponta do charuto de Freud!

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* Patricia Gonçalves Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2015) se prepara para defender a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.  Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

XIX JORNADA DE ESTUDOS E LANÇAMENTO REVISTA VEREDAS Nº 17

Jornada Veredas