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Revisitando Patricia Tenório* – Março, 2013

 

Na edição deste mês, revisito “Diásporas”, postado pela primeira vez em Outubro de 2010: um diálogo entre vários tipos de textos, finalizando com “Intervalo”, extraído de Grãos, 2007.

Link Permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=540

Diásporas

30/10/10

 

Há momentos em que a vertigem me consome e imagino meu corpo ocupando o lugar do amanhã.

“Ao se transportar aos limites do dizer, numa mathesis da linguagem que não quer ser confundida com a ciência, o texto desfaz a nomeação e é essa defecção que o aproxima da fruição.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Soletro as palavras na tentativa de expurgar feridas, absorver sentidos, deixar o rio que por mim passa e faço parte do mesmo rio.

A escritura em voz alta (…) o que ela procura (numa perspectiva de fruição) são os incidentes pulsionais, a linguagem atapetada de pele, um texto em que se possa ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda: a articulação do corpo, da língua, não a do sentido, da linguagem”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

“A dor pode ser-lhe um despertador excelente, com o qual Deus faz você despertar de seus sonhos irreais ou de seus sonos profundos sem nenhum resultado.

A dor pode aproximá-lo de Deus, se é que você sabe sofrer a dor, pois do contrário talvez lhe sirva para afastá-lo mais de Deus.

Tudo depende da maneira como você se decidir a suportar a sua dor.” (Cinco Minutos de Deus, Alfonso Milagro)

Naquela página, encontro a letra de outros tempos, em lápis ainda subscrevo o pensamento onde calei um dia, no instante em que me reconheci inteira.

 “A arte forma um reino intermediário entre a realidade que faz barreira ao desejo e o mundo imaginário que o realiza.” (Sigmund Freud em O interesse da psicanálise – citado em Arte e psicanálise, Tania Rivera).

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=QG1Y05p2ezw

“O domador de bolas de sabão”**

 

Aquieto o coração mais um instante; um desejo que em mim pulsa emana os poros cheirando a jasmim.

“Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz as boas novas e anuncia a libertação, que diz a Sião: teu Deus reina!” (Isaías 52, 7)

“Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” (Isaías 55, 10-11)

Para desalojar o que penso ser sábio em mim, certo em mim, começo tudo de novo na esperança de me entender um dia.

“Reerguerás as ruínas antigas, reedificarás sobre os alicerces seculares; chamar-te-ão o reparador de brechas, o restaurador das moradias em ruínas.” (Isaías 58, 12)

Escolho rumos por onde ir, caminhos novos que poderei trilhar.

“A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória que não se pode medir. Porque não olhamos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas.” (São Paulo em 2 Cor 4, 17-18)

““Na natureza”, escreve Goethe, “nunca vemos nada isolado, mas tudo em conexão com alguma outra coisa que está diante, ao lado, sob e sobre ela.”” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Quebro a rotina com pedaços de mim que retiro aos poucos; eles vão congruindo, formando um rosto embaçado; não o reconheço ainda, mas pulsa em mim uma certa transparência. 

“Para Eisenstein, a montagem é escrita figurativa, assim como os ideogramas chineses – como os rébus no sonho, diríamos.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Espalho pelo Universo o tom da minha essência; aguardo reverberações, ressonâncias do instrumento que se afina até o final dos tempos.

“São os intervalos entre os movimentos e não os próprios movimentos, nem as imagens em movimento – que constituem o cinema.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

 

Intervalo 

(Extraído de Grãos, Patricia Tenório, 2007)

 

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando     embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.                                      

 O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

__________________________________

* Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

Índex* – Setembro, 2012

 

A tragédia é estar juntos, mas distantes, juntos, porém ausentes.

(O sentido da vida, Inácio Larrañaga)

 

Pontes entre Países, Línguas, Gêneros Literários, Idades e… Seres Humanos no Índex de Setembro do blog de Patricia Tenório.

Almas Gêmeas que se encontram em Abrantes, Portugal – Patricia Tenório.

O Susto que vem do Rio Grande do Norte – Clauder Arcanjo.

Tu me lapidas e eu me transformo na crônica de Antônio Alvino da Silva Filho.

Mara Narciso nos alerta: Velho sim, inútil não!

Do Canadá, Flavia Cosma traduzida por Denis Emorine.

José Geraldo Neres nos convida às Palavras de Acordar o Corpo.

E o Convite à Homenagem ao nosso Eduardo Côrtes.

Obrigada aos que participaram com Textos, Convites, Links… Convido todos a participar!

A próxima postagem será no dia 28 de Outubro.

Até lá!

Patricia Tenório.

______________________

Index * –   September, 2012

The tragedy is being together, but apart, together, but absent.

(O sentido da vida (The meaning of life), Ignácio Larrañaga)  

 

Bridges between Countries, Languages, Literary Genres, Ages and … Human Beings in the Index of September of the blog of Patricia Tenorio.

Almas Gêmeas (Soulmates) that meet each other in Abrantes, Portugal – Patricia Tenório.

The Susto (Fright) that comes from Rio Grande do Norte – Clauder Arcanjo.

Tu me lapidas (You lapidas me) and I become the chronicle of Antônio Alvino da Silva Filho.

Mara Narciso warns: Velho sim, inútil não! (Old yes, not useless!)

From Canada, Flavia Cosma translated by Denis Emorine.

José Geraldo Neres invites us to Palavras de Acordar o Corpo (Words to Wake Up the Body) .

And the Invitation to the Homage to our Eduardo Côrtes.

Thank you all who participated with Texts, Invitations, Links … I invite everyone to participate!

The next post will be on 28th October.

Up there!

Patricia Tenório.

 

Pontes…

Bridges…

 

… nos conduzem…

… lead us…

 

… para a Luz.

… to the Light.

**

______________________

* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Pontes 1 e 2 de Paris e 3 do jardim de Monet em GivernyFrança.

** Bridges 1 and 2 from Paris and 3 from the garden of Monet at Giverny – France.

O príncipe, de Maquiavel | Uma leitura de Patricia Tenório

 

07/01/12

            Há quase 500 anos, um homem escreveu um dos maiores tratados sobre a guerra e a manutenção do poder. Em carta endereçada a Lourenço de Médicis, Nicolau Maquiavel sugere estratégias militares e políticas para induzir o príncipe a unificar a Itália.

            Maquiavel foi criticado, exilado e perseguido pela Igreja Católica. O tratado, originalmente intitulado De Principatus (Dos Principados), pode ser visto pelo âmbito contextual da época em que Maquiavel desejava retomar o posto que ocupava e do qual foi destituído. Mas, se observarmos com maior atenção, os princípios vão além da ética ou mesmo da imoralidade com que foi considerado: há verdadeiras revelações e exposições da natureza humana.

            Se utilizarmos Dos Principados como código de conduta quanto à proatividade/coragem, humildade e prudência, podemos desfrutar de lições verdadeiramente preciosas. Vejamos alguns casos:

Proatividade/Coragem:

            “(…) uma guerra não evita-se mas protela-se, e nunca em seu próprio favor. (…) o tempo tudo arrasta consigo (…) não se deve jamais dar livre curso a uma desordem para esquivar-se a uma guerra, porquanto esta não se evita mas adia-se em detrimento próprio.” [1]

Prudência:

            “… aquele que promove o poder de um outro perde o seu, pois tanto a astúcia quanto a força com as quais fora ele conquistado parecerão suspeitas aos olhos do novo poderoso.” [2]

Humildade:

            “… o homem prudente deverá constantemente seguir o itinerário percorrido pelos grandes e imitar aqueles que mostraram-se excepcionais, a fim de que, caso o seu mérito (virtù) ao deles não se iguale, possa ele ao menos recolher deste uma leve fragrância…” [3]

            Não se trata de enxergar o bem onde não existe, mas de constatar que o bem ou o mal são escolhas – contínuas – que consolidam um caráter à medida que são tomadas, para um caminho ou para o outro.

            Tragamos à luz dois outros textos, aparentemente distintos, que corroboram esse pensamento. Santo Agostinho em suas Confissões nos revela:

            “Também pude entender que são boas as coisas que se corrompem. Se fossem sumamente boas, não poderiam se corromper, como tampouco o poderiam se não fossem boas de algum modo.” [4]

E

            “… adaptados à parte inferior de tua criação, com a qual também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais diferem de ti [Deus], assim como os justos se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a ti [Deus].” [5]

            Em O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde confessa:

            “– Eu gostaria de poder amar (…) Mas parece que perdi a capacidade de sentir paixão e esqueci o desejo. Estou por demais concentrado em mim mesmo.” [6]

Ou

            “Teria sido apenas a vaidade que o fizera cometer sua única boa ação? (…) Ou a paixão de representar um papel que, às vezes, nos leva a fazer coisas mais belas do que nós?” [7]

            Sem querer fazer apologia do mal nem sustentar o poder a qualquer custo, O príncipe nos força a enfrentar a própria imagem no espelho e retirar a máscara da falsa bondade. Oscar Wilde nos adverte:

             “Os livros que o mundo chama imorais são os livros que lhe mostram sua vergonha.” [8]

            Maquiavel nos aconselha a preservação da espécie, o estabelecimento dos limites, a imposição do respeito que, desde a mais tenra idade, é preciso incutir no ser humano.

            “… os homens, afinal, atentam contra os outros homens ou por ódio ou por medo.” [9]

(…)

            “Crueldades proveitosas (se é lícito tecer elogios ao mal) pode-se chamar aquelas das quais faz-se uso uma única vez – por necessidade de segurança –, um uso no qual não mais se insiste e cujos efeitos revertem tanto quanto possível em favor dos súditos.” [10]

(…)

            “O mal, portanto, deve-se fazê-lo de um jacto, de modo que a fugacidade do seu acre sabor faça fugaz a dor que ele traz. O bem, ao contrário, deve-se concedê-lo pouco a pouco, para que seja melhor apreciado o seu gosto.” [11]

            Mas a maior lição que podemos apreender de Maquiavel é a confiança em si. Contar consigo apesar da crítica alheia, apesar dos dons e talentos que aos outros pertencem: usarmos o que nos é próprio.

            “Quando Davi foi à presença de Saul oferecer-se para lutar contra Golias – filisteu que desafiara-o –, Saul, na intenção de encorajá-lo, passou-lhe a sua própria armadura. Davi, após tê-la vestido, recusou-a, alegando que com ela não poderia valer-se das suas próprias forças, preferindo ir ao encontro do seu inimigo armado com a sua funda e com a sua faca. Numa palavra, a armadura de um outro, ou ela te cairá dos ombros, ou pesará demais sobre eles, ou te comprimirá.” [12]

 

____________________________________

Obs.: Os trechos aqui retirados dos livros não foram revisados. Respeitou-se as respectivas traduções.

(1) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, pp. 15 e 18.

(2) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 19.

(3) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 26.

(4) Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, Série Ouro, p. 155.

(5) Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, Série Ouro, p. 158.

(6) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 232.

(7) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 249.

(8) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 246.

(9) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 40.

(10) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 45.

(11) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 46.

(12) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 68-69.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

Diásporas*

30/10/10

Patricia Tenório

Há momentos em que a vertigem me consome e imagino meu corpo ocupando o lugar do amanhã.

“Ao se transportar aos limites do dizer, numa mathesis da linguagem que não quer ser confundida com a ciência, o texto desfaz a nomeação e é essa defecção que o aproxima da fruição.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Soletro as palavras na tentativa de expurgar feridas, absorver sentidos, deixar o rio que por mim passa e faço parte do mesmo rio.

A escritura em voz alta (…) o que ela procura (numa perspectiva de fruição) são os incidentes pulsionais, a linguagem atapetada de pele, um texto em que se possa ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda: a articulação do corpo, da língua, não a do sentido, da linguagem”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

“A dor pode ser-lhe um despertador excelente, com o qual Deus faz você despertar de seus sonhos irreais ou de seus sonos profundos sem nenhum resultado.

A dor pode aproximá-lo de Deus, se é que você sabe sofrer a dor, pois do contrário talvez lhe sirva para afastá-lo mais de Deus.

Tudo depende da maneira como você se decidir a suportar a sua dor.” (Cinco Minutos de Deus, Alfonso Milagro)

Naquela página, encontro a letra de outros tempos, em lápis ainda subscrevo o pensamento onde calei um dia, no instante em que me reconheci inteira.

 “A arte forma um reino intermediário entre a realidade que faz barreira ao desejo e o mundo imaginário que o realiza.” (Sigmund Freud em O interesse da psicanálise – citado em Arte e psicanálise, Tania Rivera).

httpv://www.youtube.com/watch?v=QG1Y05p2ezw

“O domador de bolas de sabão”**

Aquieto o coração mais um instante; um desejo que em mim pulsa emana os poros cheirando a jasmim.

“Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz as boas novas e anuncia a libertação, que diz a Sião: teu Deus reina!” (Isaías 52, 7)

“Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” (Isaías 55, 10-11)

Para desalojar o que penso ser sábio em mim, certo em mim, começo tudo de novo na esperança de me entender um dia.

“Reerguerás as ruínas antigas, reedificarás sobre os alicerces seculares; chamar-te-ão o reparador de brechas, o restaurador das moradias em ruínas.” (Isaías 58, 12)

Escolho rumos por onde ir, caminhos novos que poderei trilhar.

“A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória que não se pode medir. Porque não olhamos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas.” (São Paulo em 2 Cor 4, 17-18)

““Na natureza”, escreve Goethe, “nunca vemos nada isolado, mas tudo em conexão com alguma outra coisa que está diante, ao lado, sob e sobre ela.”” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Quebro a rotina com pedaços de mim que retiro aos poucos; eles vão congruindo, formando um rosto embaçado; não o reconheço ainda, mas pulsa em mim uma certa transparência. 

“Para Eisenstein, a montagem é escrita figurativa, assim como os ideogramas chineses – como os rébus no sonho, diríamos.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Espalho pelo Universo o tom da minha essência; aguardo reverberações, ressonâncias do instrumento que se afina até o final dos tempos.

“São os intervalos entre os movimentos e não os próprios movimentos, nem as imagens em movimento – que constituem o cinema.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

 

Intervalo

(Extraído de Grãos, Patricia Tenório, 2007)

 

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando     embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.                                      

 O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

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* Dispersão de um povo pelo mundo.

   Apresentado no IV FESTLATINO – Recife – PE,  10/11/10 – sob o título “Cinema e Literatura: um diálogo na experiência de Patricia Tenório”.

**  “O domador de bolas de sabão” inaugura uma nova linguagem. Adaptado do livro de contos “Diálogos”, este curta foi criado como se pinta um quadro, exploro a tentativa ilusória do artista em apreender a Arte. Com Kleber Lourenço, produção e figurino de Jorge Féo, texto, edição e direção de Patricia Tenório.

Tessituras

        Insisto em acreditar no melhor do Ser Humano. Nas suas margens transbordantes, suas searas de Luz e Bondade.

         “A compulsão derivada das impressões dos primeiros anos de infância, e o que foi reprimido e se tornou inconsciente, não pode ser corrigido pelas experiências futuras.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

        Carrego no peito um espaço intocado, onde entrevejo frestas de um Mundo melhor, mais justo, um Mundo de Amor e Harmonia.

        “Na cena do texto não há ribalta: não existe por trás do texto ninguém ativo (o escritor) e diante dele ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto. O texto prescreve as atitudes gramaticais: é o olho indiferenciado de que fala um autor excessivo (Angelus Silesius): “O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê.”” (O prazer do texto, Roland Barthes)

        Mas a Bondade e a Maldade reside em mim ou traço escolhas de Bem e Mal? O Destino ou o Livre arbítrio? A Palavra ou o Silêncio?

        “Falta bom senso e juízo a esta gente; têm os olhos tão fechados que não vêem, seus corações não podem compreender. Ninguém reflete nem tem bom senso e inteligência para se dizer: “Queimei metade (da madeira), cozi pão sobre a brasa, aí assei a carne que comi e iria eu fazer do resto um ídolo miserável? Prostrar-me-ia diante de um pedaço de madeira? Este homem se nutre de cinzas, seu coração desabusado o desencaminha, ele não consegue salvar-se nem dizer: “Não será um logro o que tenho nas mãos?” (Isaías, 44, 18-20)

        Disfarço em mentiras ou crio ficções? Escrevo o texto ou ele me inscreve?

        “A fruição do texto não é precária, é pior: precoce; não surge no devido tempo, não depende de nenhum amadurecimento. Tudo é arrebatado numa só vez. Este arrebatamento é evidente na pintura, a que se faz hoje: desde que é compreendido, o princípio da perda se torna ineficaz, é preciso passar a outra coisa. Tudo é jogado, tudo é fruído na primeira vista”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

        Bato no peito, acendo chama. Procuro a porta onde me vejo Imagem e Semelhança de quem me criou.

Imagem e Semelhança – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

Imagem e semelhança

Patricia Tenório

“D´Agostinho”, 2010

A aparência

Nunca me trouxe

Mau juízo

As palavras cítricas

Transmutei em leite e mel

Aproveitando

De cada um

O que de melhor possuía

Varro os pecados alheios

Não me interessam

Não me revelam

A luz do centro

A cor de um sorriso

Ingênuo

Pacífico

Carente de amor e harmonia

Degusto

O doce ser humano

Acalanto

O sonho

Alimento

A alma

Revelando

De cada um

O que de melhor possuía

         Aprumo o compasso do que fui, do que sou agora, o que me espera amanhã.

        “(…) não somos bastante sutis para nos apercebermos do escoamento provavelmente absoluto do devir; o permanente só existe graças a nossos órgãos grosseiros que resumem e reduzem as coisas a planos comuns, quando nada existe sob essa forma. A árvore é a cada instante uma coisa nova; nós afirmamos a forma porque não apreendemos a sutileza de um movimento absoluto (Nietzche, extraído de O prazer do texto, Roland Barthes)

        “E que me alargues as fronteiras” ([1]) da Alma, Arte e Espírito unos e santos, barro e criador, pelos séculos e séculos… Amém!

        “Texto quer dizer Tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

O sonho é o único direito, Patricia Tenório

Filmado em Cannon 7D. Editado em Final Cut Program.

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(1) Oração de Jabez (“Oh! Que me abençoes / E me alargues as fronteiras, / Que seja comigo a Tua mão / E me preserves do mal, / De modo que não me sobrevenha aflição!” (1 Crônicas 4: 9)

Transmutações

Patricia Tenório

11/10/2010

        Há umas três semanas li uma crítica em um jornal do Recife sobre o filme “Comer, Rezar e Amar”, de Ryan Murphy, baseado no livro de Elizabeth Gilbert, com Julia Roberts e Javier Bardem.

        Além desse texto sobre o filme ouvi comentários de que seria longo, monótono, que o livro era melhor, que tratava de uma mulher que fugia de estar acompanhada e ao mesmo tempo era exatamente o que mais queria: estar acompanhada.

        Uma vez fui com meu filho Bruno ao cinema para assistir “Um dia depois de amanhã”. Eu havia lido uma crítica negativa de um jornalista a quem admiro muito. Comentei isto com Bruno. No auge dos seus 10 anos, ele me colocou o que muitas pessoas da minha idade nunca haviam pensado:

– Mãe, quero saber o que eu penso, não o que o jornalista pensa.

        Não, eu não li o livro de Elizabeth Gilbert.

        Somente depois de assistir o filme, pesquisei um pouco mais sobre a autora deste best-seller. Mas por que o trago aqui neste espaço de reflexão minha, onde tento costurar o que estudo, o que enxergo, o que sinto sobre a vida, os acontecimentos, sobre as pessoas?

        “E é bem isto o intertexto: a impossibilidade de viver fora do texto infinito – quer esse texto seja Proust, ou o jornal diário, ou a tela de televisão: o livro faz o sentido, o sentido faz a vida.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

        Talvez porque o filme me tocou ao ponto de me fazer chorar? Ora, Patricia, você chorou mesmo na octogésima vez que assistiu O Rei Leão… Será pelas palavras, que para alguns podem ser chamadas “de efeito”?

        “Caríssimo, lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho. Por ele eu estou sofrendo até as algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada. Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação que está em Cristo Jesus, com a glória eterna.” (São Paulo em 2 Timóteo 2, 8-13)

        Ou por querer exatamente colocar assuntos aparentemente díspares (a princípio), mas que naquela curva, naquela conexão me acendeu uma centelha?

        “A oposição (o gume do valor) não ocorre forçosamente entre contrários consagrados, nomeados (o materialismo e o idealismo, o reformismo e a revolução etc.); mas ocorre sempre e em toda parte entre a exceção e a regra. A regra é o abuso, a exceção é a fruição”(O prazer do texto, Roland Barthes).

        É possível um outro olhar, uma nova estrada: o que acalma a minha sede de…

“… apostas

Às respostas que por ti fiz um dia”

(A mulher pela metade, Patricia Tenório).

           Mas por certo, algumas “apostas”, assistindo ao filme, rondaram as “respostas” da crítica do jornal do Recife: não, Liz Gilbert não passa o filme inteiro procurando fugir de estar acompanhada; sim, ela está fugindo de si mesma. Não, não devemos viver a vida pelos outros; sim, o artista só pode viver a vida nos outros.

        “O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe (a língua materna) (remeto a Pleynet, sobre Lautréamont e sobre Matisse): para o glorificar, para o embelezar, ou para o despedaçar, para o levar ao limite daquilo que, do corpo, pode ser reconhecido: eu iria a ponto de desfrutar de uma desfiguração da língua, e a opinião pública soltaria grandes gritos, pois ela não quer que se “desfigure a natureza.”” (O prazer do texto, Roland Barthes)

        “Pois bem, que assim seja! Que minha guerra contra o homem se eternize, já que cada um de nós reconhece no outro sua própria degradação… já que somos ambos inimigos mortais. Quer deva eu conseguir uma vitória desastrosa ou sucumbir, o combate será belo; eu sozinho contra a humanidade.” (Lautréamont, Os cantos de Maldoror)

        O que não quero ser nomeado, roça nossa pele, arrepia pêlos, arranca lágrimas do mais duro dos corações. Até mesmo daqueles que não aceitam que somos feitos de matéria bruta, que podemos e vamos Cair, Levantar e Tentar…

        “Ninguém jamais vai conseguir provar que Deus existe ou que não existe. Existem certas coisas na vida que foram feitas para serem experimentadas – jamais explicadas. (…) O amor é uma destas coisas. Deus – que é amor – é outra. A fé é uma experiência infantil – naquele sentido mágico que Jesus nos ensinou: é das crianças o Reino dos Céus” (Paulo Coelho, “Explicando Deus”, Diário de Pernambuco, Viver, 11 de Outubro de 2010).

        “Mal aplicada, a virtude transforma-se em vício, e o vício, pela ação, pode por vezes ser dignificado”. (“Romeu e Julieta”, William Shakespeare)

The Long and Winding Road, The Beatles

Anne waitin´ Shakespeare([1]) 

Patricia Tenório

13/01/10

 

To be or not t´ be in love

To share or not t´ share a heart

May be a way t´ not live a life

Could be a path t´ stop rhythm of time                        

And in a lon´ long winding day

I´ll find what I´ve always been looking for

In verses an´ rhymes

Snow, faith an´ hope.

Anne esperando Shakespeare([2]) 

Patricia Tenório

13/01/10

 

Ser ou não ser apaixonado

Partilhar ou não um coração

Pode ser uma maneira de não viver a vida

Pode ser o caminho de parar o ritmo do tempo

E num longo, longo dia de ventania

Acharei o que sempre estive procurando    

Em versos e rimas  

Neve, fé e esperança.

(1) Diante do Anne Hathaway´s Cottage, casa de Anne Hathaway, primeira esposa de Shakespeare, em Stratford-upon-Avon, Inglaterra.

(2) Tradução livre de Patricia Tenório.

Sinapses

Patricia Tenório

05/10/2010

            Hoje meus filhos, Maria Eduarda e Bruno, me perguntaram pela existência de Deus.

            Pergunta difícil esta de tentar responder. Mas eu mesma me questionei: como provar que Deus existe?

            “Na maioria dos seres humanos – tanto hoje como nos tempos primitivos – a necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espécie é tão imperativa que o seu mundo se desmorona se essa autoridade é ameaçada.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

            Precisamos desta autoridade exterior (Deus) até o ponto em que nos enxergamos e O descobrimos dentro de nós?

            “Dizem que tudo o que buscamos, também nos busca e, se ficamos quietos, o que buscamos nos encontrará. É algo que leva muito tempo esperando por nós. Enquanto não chegue, nada faças. Descansa. Já tu verás o que acontece enquanto isto.” (Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres que correm com os lobos”)

            Creio que, em algum momento de nossas vidas, este Algo, este Ser Todo Poderoso e misericordioso, infinito de bondade, se manifesta em nós e apenas nós podemos traduzir o que Ele significa…

          “Senhor, até quando clamarei sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti; “Violência!”, sem me socorreres? Por que me fazes ver iniquidades quando tu mesmo vês a maldade? Destruições e prepotência estão à minha frente; reina a discussão, surge a discórdia. Respondeu-me o senhor dizendo: “Escreve esta visão, estende seus dizeres sobre tábuas, para que possa ser lida com facilidade. A visão refere-se a um prazo definido, mas tende para um desfecho e não falhará; se demorar, espera, pois ela virá com certeza e não tardará. Quem não é correto vai morrer, mas o justo viverá por sua fé.” (Hababuc 1, 2-3; 2, 2-4)

         Busco nos livros, rabisco palavras na tentativa de descobrir a Palavra original, aquela que se fez Verbo, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

         “O pensamento, mais rico em conteúdo que em palavras, orgulha-se de sua substância, não de seus adornos. As palavras são meras mendigas que podem tão-somente contar o seu valor.” (“Romeu e Julieta”, William Shakespeare)

         “… não lemos tudo com a mesma intensidade de leitura; um ritmo se estabelece, desenvolto, pouco respeitoso em relação à integridade do texto; a própria avidez do conhecimento nos leva a sobrevoar ou a passar por cima de certas passagens (pressentidas como “aborrecidas”) para encontrarmos o mais depressa possível os pontos picantes da anedota (que são sempre suas articulações – o que faz avançar a revelação do enigma ou o destino)…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

         Paro. Uma brisa acalma meus cabelos. O sol brinca nas minhas rugas. Dou a mão a Maria Eduarda e Bruno, passeio na areia da praia. Quem sabe encontremos alguma resposta?

Water shows the hidden heart, Enya([1]) 

 

A água mostra o coração partido([2]) 

           

         Procuro direcionar a dor do mundo. Sirvo-me do que há em mim para aplainá-la e não me sentir só.

         Sinto o buraco se alastrando no âmago, mas encontro companheiros de solidão. Talvez para descobrir estas paragens assim me encontro, nestas quatro paredes mergulhada e não procuro as pessoas que vivem e sim as mortas, sobreviventes desta vida sem fim e sem sentido.

         Aqui tudo explode; eu encolho. Dos precursores recebo não e fel com que adoço os bicos dos filhotes sedentos de amor, limite e compreensão. Vou deixando de sentir por aqueles o calor que antes senti e as paredes são construídas com cal e melancolia.  Haverá vida nesta torre extrema? Falarei línguas ou vestirei o pó e sacos cor de cinza?

(1) Melhor abrir com Internet Explorer.

(2) ERRATA: No livro está “Sonho” – Diante da música Water shows the hidden heart, Enya. Texto extraído de “Diálogos”, de Patricia Tenório.

Convergências

Patricia Tenório       

29/09/2010       

O interessante de uma viagem é visitar o que não se esperava ver, buscar o inesperado. Não é a toa que os artistas assim o clamam com todas as forças, com todas as vísceras, na tentativa de recriar o olhar.      

      

      

      

      

       

“Não é a “pessoa” do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma previsão do desfrute: que os dados não sejam lançados, que haja um jogo” (O prazer do texto, Roland Barthes).       

Quero olhar o novo, olhar de criança, desvirginando o mundo que me cerca, amanhecendo o desejo que em mim pulsa.       

httpv://www.youtube.com/watch?v=VY7d7QXOSGY       

Olhos fechados([1]) 

 

“Me esvazio para entender a totalidade. Fecho os olhos, quero me cegar um pouco” (Shima, artista plástico em Olhares cruzados, Diário de Pernambuco, Viver, 29 de Setembro de 2010)       

Cabe antecipar o desejo, aproximar o antes, alicerçar o conhecimento?       

“O seu (de Leonardo da Vinci) insaciável desejo de tudo compreender em seu redor e de pesquisar com atitude de fria superioridade o segredo mais profundo de toda perfeição condenou sua obra a permanecer para sempre inacabada” (Edmondo Solmi em Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância, de Sigmund Freud).       

Será que o que leio é o que leio, ou um reflexo do que os outros leram para mim? Onde encontro a palavra original, aquela que está por trás do texto, por trás do olhar?       

“Em Leonardo, o olho humano é o intermediário entre a natureza e o intelecto. Ele manipula o espaço, alinha os olhos da personagem com o horizonte, colocando-nos assim diante da retradada (“Mona Lisa”), anulando o espaço entre o espectador e a obra” (Letícia Martins de Andrade, O tempo do renascimento, Vol. 4 – 1500 a 1520).       

Parece-me o além do espaço, além do corpo que me redime às quatro paredes do ser, angustiado ser, onde tento ultrapassar as barreiras da minha humanidade.       

“Sabemos, de fato, que a lei é espiritual, mas eu carnal, vendido ao pecado. Não entendo absolutamente o que faço: pois não faço o que quero; faço o que não quero” (São Paulo em Romanos 7, 14-15)   

 

São Paulo – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli) 

 

Quando tua luz aplaca meus sentidos       

Sinto despir-me       

De máscaras e vaidades       

Podes ver-me por inteiro       

Com falhas e virtudes       

E gosto do que vejo       

        

Vejo alguém fraco       

Que se transforma com o teu poder       

Que escala montanhas       

De ódio       

Rancor       

E alcança o ápice do perdão       

        

Tu és minha bandeira       

Que empunho        

E sou mais forte       

Mais tu       

Menos a mim       

        

Abandono e ultrapasso       

A vida que me destes        

(São Paulo, em Agostinho, de Patricia Tenório)

 

(1) “Olhos fechados” é a adaptação de um conto de mesmo nome do livro “Diálogos” de Patricia Tenório. Com Ísis Agra e Thiago França, procurei retratar a dor do mundo e o lúdico da Poesia. Produção e figurino Jorge Féo. Texto, edição e direção Patricia Tenório.

Conexões V

Convido a fazer conexões entre os 05 posts... Patricia Tenório

“Então a luz da lua será viva como a do sol, e a do sol brilhará sete vezes mais (como a luz de sete dias), no dia em que o Senhor pensar a chaga de seu povo e curar as contusões dos golpes que recebeu.” (Isaías 30, 26)

“Aquele que imita um perfeito imita a perfeição de mil, reunida em um.” (Erasmo de Roterdam)

“[…] Petrarca afirmara que, quanto à invenção, as abelhas deveriam ser imitadas, pois elas, colhendo o néctar de diversas flores, compõem sempre um novo produto. […] o artista, por meio da imitação de diversos modelos, fatalmente acabaria por criar uma nova obra.” (Alexandre Ragazzi, Revista “O tempo do renascimento”, Vol. 3 – 1480 a 1500)

Abadia de San Galgano, próximo a Siena.

Conexões IV

Convido a fazer conexões entre os 05 posts... Patricia Tenório

“Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Sim, porque tu eras dentro de mim e eu fora ali te procuravas. Desta forma, me jogava sobre as belas formas da tua criatura. Eras comigo, e eu não era contigo. Me tinham longe de ti as tuas criaturas, inexistentes se não existissem em ti. Me chamastes, e o teu grito abriu meus ouvidos; brilhastes, e o teu esplendor dissipou a minha cegueira; difundistes a tua fragrância,  respirei e aspirei o teu encontro, degustei e tenho fome e sede; me tocastes, e eu queimei pela tua paz.”

 (Livre tradução minha do italiano de Santo Agostinho, “Confissões”, Livro X, 27, 38)