Posts com Religioso

Índex* – Junho, 2016

Quando a vejo

Ao luar

Parece uma serpente 

Que por algum desvio

No destino

Perdeu o poder

De matar

*

Brilha a lua

Brilha a minha

Face obscura

Por saber

Que existe

Uma saída

Por sentir

Que insiste

Uma ideia

De vencer 

Um pouco mais

De mim mesma

(“Os dois lados da minha moeda”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 19/06/16, 17h20)

 

Vencendo um pouco mais de mim mesma no Índex de Junho, 2016 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

O homem despedaçado | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Compulsão Agridoce | Antonio Aílton (MA – Brasil).

Coisas: poemas etc | Pedro Américo de Farias (PE – Brasil).

Memórias de um hiperbóreo & Antologia Cosmopolita | Oleg Almeida (Bielo-Rússia/DF – Brasil).

Pílulas para o silêncio | Píldoras para el silencio | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

 

E os links do mês:

Maria Rizolete Fernandes envia poeta e pintor salmantinos, Alfredo Alencart e Miguel Elias (Salamanca – Espanha)www.salamancartvaldia.es/not/119724/drama-refugiados-desde-sensibilidad-alencart-miguel-elias

O site de Laila Ribeiro Silva (MG/RS – Brasil)www.sobrelivros.com.br

 

Agradeço a participação, a próxima postagem será em 31 de Julho de 2016, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

____________________________________________

 

Index* – June, 2016

 

When I see her

At the moonlight

She looks like a snake

Which for some deviation

In destiny

Lost power

To kill

*

Shines the moon

Shines my 

Hazy face

Knowing

That exists

An exit

Feeling

That insists

An ideia

To win 

A little more

From myself

(“Both sides of my coin”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/19/16, 5h20 p.m.)

 

Winning a little more of myself on the Index of June, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

The broken man | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Compulsion Bittersweet | Antonio Aílton (MA – Brasil).

Things: poems etc | Pedro Américo de Farias (PE – Brasil).

Memoirs of Hyperborean & Cosmopolitan Antology | Oleg Almeida (Belarus/DF – Brasil).

Pills for silence | Píldoras para el silencio | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

 

And the links of the month:

Maria Rizolete Fernandes sends the salmantins poet and painter Alfredo Alencart and Miguel Elias (Salamanca – Spain)www.salamancartvaldia.es/not/119724/drama-refugiados-desde-sensibilidad-alencart-miguel-elias

The site of Laila Ribeiro Silva (MG/RS – Brasil)www.sobrelivros.com.br

 

I thank for the participation, the next post will be on July 31, 2016, a big hug and see you there,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

____________________________________________
 
1 - IMG_4384
2 - IMG_4394
3 - IMG_4397
1 - IMG_4423
4 - IMG_4471
1 - IMG_4539
2 - IMG_4556
3 - IMG_4562
4 - IMG_4580
5 - IMG_4581

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Os lançamentos de “A menina do olho verde” – Recife e Porto Alegre… The launchings of “The green eye girl” – Recife and Porto Alegre.

Índex* – Abril, 2016

 

Manoela inventou uma história em que tudo acaba bem: pais, irmãos, primos e tios, amigos e inimigos.

Ela fez circundar pelo seu corpo energias positivas que feito estrelinhas enfeitaram os seus cabelos. 

Lançou pelo ar o aroma dos lírios florescentes, e a pureza penetrou os corações.

E cantaram em ciranda a história da menina, de um tempo em que lua e sol, terra e água, todos misturados em um pontinho preto.

(“Na partícula de Deus”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 19/11/15, 19h35)

A história de Manoela no Índex de Abril, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

“Uma voz vinda de outro lugar”, de Maurice Blanchot: Uma ópera em quatro atos e uma peça teatral | Patricia (Gonçalves) Tenório (Brasil).

Editora Raio de Sol, Livraria Cultura & Patricia (Gonçalves) Tenório convidam | lançamento de “A menina do olho verde”.

“Vinte e um” | “Veintiuno” | Patricia (Gonçalves) Tenório.

“Afinal o que é poesia?” | Elba Lins (Brasil).

“Acalanto – Entre o amor e o desencanto” | Siomara Reis de Teixeira (Brasil).

“Relicário” | Kalliane Amorim (Brasil).

“A dama do jardim” | Maria Dona (Brasil).

E os links do mês:

A surpresa de Oleg Almeida (Brasil) em www.lechasseurabstrait.com/revue/spip.php?article12084

O conto de Caroline Joanello (Brasil) em www.facebook.com/784123415049023/photos/a.786580608136637.1073741828.784123415049023/849551565172874/?type=3&theater

E muito obrigada pela participação e carinho, a próxima postagem será especialmente em 22 de Maio de 2016, um abraço bem grande e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

________________________________________________________

Index*, April, 2016

 

Manoela invented a story in which all ends well: mother and father, brothers and sisters, cousins and uncles, friends and enemies.

She did go around the body positive energy that made little stars grace her hair.

She launched in the air the scent of  blooming lilies, and purity penetrated the hearts.

And they sang in sieve the story of the girl, from a time that moon and sun, earth and water, all mixed in a black dot.

(“Na partícula de Deus”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 19/11/15, 19h35)

The story of Manoela in the Index of April, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

“A voice from somewhere else”, from Maurice Blanchot: An opera in four acts and a play | Patricia (Gonçalves) Tenório (Brasil).

Publisher Raio de Sol, Livraria Cultura & Patricia (Gonçalves) Tenório invite | launching of “Green eye girl”.

“Twenty-one” | “Veintiuno” | Patricia (Gonçalves) Tenório.

“So what is poetry?” | Elba Lins (Brasil).

“Acalanto – Between love and disenchantement” | Siomara Reis de Teixeira (Brasil).

“Reliquary” | Kalliane Amorim (Brasil).

“The Garden Lady” | Maria Dona (Brasil).

And the links of the mounth:

The Oleg Almeida (Brasil) surprise in www.lechasseurabstrait.com/revue/spip.php?article12084

The short story from Caroline Joanello (Brasil) in www.facebook.com/784123415049023/photos/a.786580608136637.1073741828.784123415049023/849551565172874/?type=3&theater

And thank you very much for participation and care, the next post will be specially on May 22nd, 2016, a big hug and see you there,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

________________________________________________________

1 - IMG_4251

1 - IMG_4267

2 - IMG_4255

2 - IMG_4268

3 - IMG_4260

3 - IMG_4270

4 - IMG_4263

4 - IMG_4273

5 - IMG_4265

5 - IMG_4274

**

________________________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Madri (Espanha): uma cidade “manoelina”… Madrid (Spain): a “manoelina” city…

“Uma voz vinda de outro lugar”, de Maurice Blanchot: Uma ópera em quatro atos e uma peça teatral | Patricia Tenório*

05 e 06/04/2016

 

I Ato – Louis-René des Forêts

Encontro-me no Theatro (São Pedro?) Estadual. Aguardo para assistir ao espetáculo Uma voz vinda de outro lugar,[1] conduzida pelo maestro-escritor-ensaísta- romancista-crítico de literatura francês nascido em Quain, Saône-et-Loire, Maurice Blanchot (1907-2003). As cortinas da primeira página estão cerradas e não sei ao certo que tipo de espetáculo irei encontrar nesse teórico-poeta de O livro por vir,[2] livro que me falava de Joubert, o escritor do Não tratado em “O Bartleby que nos habita ou Uma voz vinda de outro lugar”.[3]

Começo pelo silêncio. Escolho algumas cenas desse palco-livro-espetáculo. Blanchot tem o dom de se amalgamar ao texto poético ao mesmo tempo que o analisa. Ele emite um primeiro acorde com Louis-René des Forêts em Ostinato.

Um sonho, mas existe algo mais real do que um sonho?”.[4]

O poema de Forêts remete ao sonho, ao silêncio, ao nada. “O próprio silêncio diz mais do que as palavras”.[5] Descubro agora que me encontro em uma ópera, com todos esses sons e silêncios, todos esses nadas e vazios. Uma ópera duodecafônica. E minha mente sai em busca de (quase) infinitas conexões.

Louis-René des Forêts (1916-2000) foi um escritor francês que nasceu e morreu em Paris, França. Escreveu, entre outros, Les Mendiants (1941-1943), Bavard (1946), La Chambre des Enfants (1960) que é agraciado com o Prix des Critiques. Blanchot escolhe um outro texto de Forêts, Ostinato, da mesma maneira que vimos com Paul Valéry em “Poesia e pensamento abstracto” – para viver uma experiência poético(-musical) muito mais do que compreender a arte.

Escrevi este comentário (o que parece fazer as vezes de um comentário) e, enquanto o escrevia, conduzido pelo movimento que é o dom do poema, fechava os olhos a essa falta que é transformar o poema (os poemas) numa prosa aproximada. Não há alterações mais graves. Esses poemas de Samuel Wood têm sua voz, que é preciso ouvir antes de acreditar compreendê-los. “Tocamos o verso.”[6]

Ostinato é a última obra de Forêts. Publicada em 1997 pela Mercure de France, Blanchot deseja “falar dessa obra, mas sem palavras, numa linguagem que me obceca ao me escapar”.[7] E nesse silêncio-som-obstinado, descobrimos que o título do livro de poemas de Forêts é um termo musical. É um “motivo obstinado que volta e não volta” em Alban Berg escutando Schumann; no “rigor obstinado” de Leonardo da Vinci que encantou “o jovem Paul Valéry”. Mas é exatamente no próprio Louis-René des Forêts que essa “obstinação” transforma-se numa “catástrofe imensa”: quando um “abismo”, um “desastre absoluto” que parece ter acontecido em sua vida o transformou em um escritor do Não (feito sai à caça Enrique Vila-Mattas em Bartleby e companhia[8]), e feito diz Blanchot, “foi privado do dom da escrita”.[9]

Maurice Blanchot fala de dentro do primeiro ato de nossa ópera “Louis-René des Forêts”. Foram amigos de juventude e o afeto também se amalgama junto à poesia de um e análise poética do outro. Blanchot narra o “naufrágio” do amigo, quando ele pára de escrever. E o momento em que reconhece que “para não escrever mais, seria preciso continuar a escrever, uma escrita sem fim até o fim ou a partir do fim”.[10] Ou uma escrita de um livro que nunca será escrito por Joubert, que Blanchot (também) analisou em O livro por vir.

“Só existem os espaços em branco se houver o negro, só há silêncio se houver a palavra e o barulho produzindo-se para cessar”.[11]

Os sons da música de Forêts/Blanchot me transportam a uma conexão com Agostinho de Hipona (354-430) em suas Confissões quando trata da permissividade de Deus quanto à existência do Mal.

Que são as trevas senão a ausência da luz? Se houvesse luz, onde é que ela poderia existir se não iluminasse nem aclarasse a superfície da terra? E quando a luz ainda não existia, o que era a presença das trevas, senão a ausência da luz?

As trevas reinavam sobre o abismo, porque a luz não brilhava sobre ele, do mesmo modo que reina o silêncio onde não há som. E que significa haver silêncio senão o não haver som?[12]

Ao não haver luz, a escuridão predomina. Ao não haver som, o silêncio perpassa todo o ser. Ostinato é uma obra de “organização fragmentária”. Por isso essa impressão de estar desconectada em relação ao todo, numa “falta de continuidade”. Seria uma autobiografia de Forêts? Está escrito no presente, ancorado no presente, feito não possuísse duração. E lembramos novamente de Agostinho quando nas suas mesmas Confissões interroga sobre “O que é, pois, o tempo?” e nos remete para o instante anterior à Criação, os tempos ainda não existiam, apenas habitava o Eterno, e o único, inexorável, absoluto Presente.

 

II Ato – Anacruse

(Maurice) Blanchot traz ao centro do palco um texto do filósofo francês nascido em Versalhes (Jean-François) Lyotard (1924-1998) sob o título de “O sobrevivente”. O texto filosófico lança luz sobre os poemas de (Louis-René) des Forêts.

Blanchot faz uma pergunta agostiniana: “Onde é o começo? É alguém ou alguma coisa que começa?”.[13] Ele nos ensaia uma resposta com Hegel, quando o “eu” já não pode falar por si mesmo, mas em forma de “nós”, como se fossem outros. O “eu” de então e o “eu” de agora. O “eu” do Eterno e não havia o Tempo, o “eu” na Criação de todos os Tempos.

Nos “Poèmes de Samuel Wood”, Forêts trata dessas “duas extremidades” do nosso percurso terrestre. A “dor de nascer”. A morte que, somente “os mortos, eles, sim, terminaram de morrer”.

O maestro Blanchot, o amigo Maurice nos apresenta em Les mégéres de la mer (1967) “Essa pátria inexistente” de Forêts, esse “País anterior” de um outro amigo de Louis-René, que em 1967 fundou juntamente com ele, Paul Celan, Jacques Dupin, entre outros, a revista L’Éphémere : o poeta-crítico-tradutor francês nascido em Tours, Indre-et-Loire, Yves Bonnefoy (1923).

O país que sonhei sob esse nome [o País Anterior], seria uma parte de nosso mundo, ou seja, qualquer coisa tão real quanto o lugar onde eu viveria com as mesmas árvores, as mesmas pedras. Ele, por exemplo, poderia ter uma de suas regiões num vale no meio daquela Itália central que, outrora, eu percorria. […] O país-anterior, no meu livro, no meu pensamento, é essencialmente, um devaneio sobre a linguagem.[14]

Esse “País Anterior” à linguagem, esse “filho arrancado de sua mãe”, “mátria”, “não pode portanto parar de nascer”: é condenado a uma “sentença de nascimento”.[15] Blanchot continua a perguntar-se – e na pergunta que encontra sua resposta se perfaz o Mito, já dizia André Jolles em Formas simples[16] –: “Por que não terminamos de nascer?”. E mais adiante nos apresenta a Anacruse.

Do termo grego anakrousis, nota ou sequência de notas que precedem o primeiro tempo forte do primeiro compasso de uma música. Blanchot faz soar em des Forêts que, “através da anacruse, se sustenta o silêncio daquilo que ainda se ouve ou vai ouvir-se naquilo que não se ouve”.[17] A “pergunta-resposta” mitológica de Jolles, o “País Anterior” de Bonnefoy complementam a melodia de Louis-René des Forêts no “lugar onde a criança que fui deixou suas marcas”, marcas “não daquilo que aconteceu”, alerta o maestro Blanchot, “mas do que jamais se passou”.[18] Da ficção.

A criança atormenta Louis-René des Forêts naquilo que “está prestes a nascer”, nesse “porvir”, “por vir” da escrita, que é tempo suspenso, sem Lei, e sem Pai, “escrevendo apenas para apagar o que já foi escrito”. Ou “a letra órfã do Pai ausente ou escondido do discurso” do filósofo francês nascido em Argel Jacques Rancière (1940) em seu Políticas da escrita.

Entre o sopro imaterial do oráculo e o sentido gravado na materialidade das coisas fica, é claro, o grande paradigma da Escritura confirmada pela encarnação. O que vem, duravelmente, realizar o resgate da letra e sustentar todos os sonhos de uma escrita mais que escrita é a encarnação cristã do Verbo, dando à letra seu espírito. Só um corpo vivo, um corpo que sofre, é capaz, em última instância, de garantir a escrita. Mas o grande  paradigma do resgate da letra também é o lugar do paradoxo reconhecido como verdadeiro. Somente o livro dá garantia que a verdade do livro foi apresentada pela carne. Somente as palavras vêm atestar que é mesmo escrita o que se realiza nas chagas de uma carne como no sopro do vento, nas estrias da pedra ou na estrada de ferro. Somente um excesso de escrita “morta” pode incluir a “voz viva” na escrita morta.[19]

“Há sempre algo por nascer”, conduz Blanchot. E desse “nascimento endividado consigo mesmo” alcançamos o timbre certo, o contratempo justo, contratempo que é “a espera do olhar para trás por meio de uma retrospeção em que se cria a ilusão de um presente que esteve desde sempre perdido, pois jamais existiu”.[20] Uma ficção. “Uma voz vinda de outro lugar”.

 

III Ato – A Besta Inominável, de René Char

Acelera-se o ritmo. Mas ainda é uma ópera. No terceiro ato da ópera Uma voz vinda de outro lugar, Blanchot nos transporta para Fedro, de Platão, que por sua vez é a transposição em palavra escrita da palavra falada por Sócrates no seu diálogo com o jovem protagonista título do livro.

Sócrates, o maior ágrafo de todos os tempos, tenta convencer Fedro – a partir das próprias conclusões do jovem – que a verdadeira linguagem é “a linguagem falada, em que a palavra está segura de encontrar viva na presença daquele que a pronuncia uma garantia”.[21]

Dizem que realmente nos tribunais ninguém se importa com a verdade de tais matérias, mas com o que é convincente, o que é chamado de probabilidade, de modo que aquele que pretende ser um artista do discurso precisa ter seu olhar fixo na probabilidade. De fato, às vezes, esteja tu acusando ou defendendo, não deves sequer relatar o que realmente sucedeu, se era improvável que sucedesse, mas o que era provável. Em resumo, um orador deve sempre ter em mira a probabilidade, não se importando com a verdade. A totalidade da arte consiste em acatar esse método ao longo de todo o discurso.[22]

A palavra escrita para Sócrates/Platão/Blanchot é “palavra morta, palavra do esquecimento”. Da mesma forma que a Palavra Sagrada, “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”, não sabemos de onde ela vem, seu autor, e, justamente por isso, “remete a algo mais original”, a Palavra dando “voz à ausência”.[23]

O poeta francês nascido em L’Isle-sur-Sorgue, Vaucluse, René Char (1907-1988) nos fornece um contratempo a essa ideia da Palavra Sagrada respeitada por Sócrates/Platão, enunciada por Maurice Blanchot na análise de “A Besta Inominável”. Char “renuncia a toda linguagem voltada para a origem”. Ele renuncia ao Deus encarnado na Palavra. Mas canta o “pressentimento”, a “promessa”, o “despertar”. Como se unisse no presente – e somente no presente –, no “espaço que o pressentimento retém, a palavra ao impulso”.[24]

A poesia unida ao futuro através do próprio impulso de René Char, “sua essência sempre por vir”, “ voz que ainda nada disse”, uma “palavra iniciante”, “força aquele que a escuta a se arrancar de seu presente” e “nos retira de nós mesmos”.[25]

Encontramos uma nova variação sobre o mesmo tema. A palavra que “não é vidente” (Rimbaud), mas “previdente” (Char), “palavra em que a origem se faz começo”,[26] nos remete a História e mito do filósofo, filólogo e professor universitário luso-brasileiro nascido em Lisboa e radicado em Brasília Eudoro de Souza (1911-1987), quando trata da diferença entre “lonjura” e “outrora”.

Lonjura e outrora negam espaço e tempo determinados, mas quanto mais nos afastamos desse âmbito do indeterminado, mais eles se afirmam em sua determinação; ou, pelo menos, assim parece. Se digo “lonjura”, não nego só a proximidade, mas a proximidade e a distância, porque o distante sempre se poderá volver em próximo; basta caminhar de próximo em próximo, para que próximo nos venha a ser qualquer distante. […] O mesmo se diria do outrora. Ou quase. Se digo “outrora”, nego o “agora”, nego esta hora, por força da afirmação de outra. Situo-o fora ou para além de todos os “agoras” que se alinham, para trás e para frente, direito ao passado ou ao futuro da hora presente.[27]

Palavra que, em René Char e as águas irretornáveis de Heráclito, realiza “esse duro combate com o que é anterior” (a “lonjura” e o “outrora” de Souza), “sofrendo uma dupla violência, parece iluminar-se através do silêncio nu do pensamento”.[28]

E pára.

 

IV Ato – O último a falar: Paul Celan

 

O último ato de nossa ópera Uma voz vinda de outro lugar nos apresenta, nu, cego e mudo, o poeta, tradutor, ensaísta romeno nascido em Cernăuţi Paul Celan (1920-1970), pseudônimo de Paul Pessakh Anstschel.

Estamos “cercados de branco”, em um “vazio saturado de vazio”, esses “olhos cegos para o mundo, olhos que a palavra submerge até a cegueira”, “a eternidade nasce cheia de olhos”, esse “fora / no não país, no não tempo (o contratempo)”,[29]  e o maestro Maurice Blanchot reúne todos os “músicos-poetas” (Agostinho, Bonnefoy, Jolles, Rancière, Sócrates, Souza), todos os “cantos-previdentes” no palco de nossa ópera duodecafônica que iniciamos com o barulho ao redor, com vários pensadores, e poetas e teorias por nós conectados, até chegarmos ao silêncio de Blanchot que não nos permite dizer mais nada.

A morte, a palavra. Nos fragmentos de prosa que Celan afirma seu projeto poético, ele jamais chega exatamente a renunciar a um projeto. Em seu discurso em Bremen: Os poemas estão sempre em movimento, estão em relação a alguma coisa, inclinam-se na direção de alguma coisa. Na direção de quê? De algo que se mantém aberto e que poderia ser habitado, de um Tu a quem seria possível talvez falar, de uma realidade próxima de uma palavra. É nesse mesmo pequeno discurso que, com extrema simplicidade e sobriedade, Celan faz alusão ao que poderia significar para ele – e, através dele, para nós – a possibilidade que não lhe foi retirada de escrever poemas naquela língua através da qual a morte se abateu sobre ele, sobre os seus próximos, sobre os milhões de judeus e não judeus, um evento sem resposta.[30]

 

Uma peça teatral – Michel Foucault

            Maio de 1968. Numa mudança (nem tão) radical de tom, da Poesia para a Prosa, para o “pensamento abstracto” (de Paul Valéry), nos descobrimos agora em forma de peça teatral em Uma voz vinda de outro lugar. Blanchot narra um encontro imaginário com o filósofo, historiador de ideias, teórico social, filólogo, crítico literário francês nascido em Poitiers Michel Foucault (1926-1984). No pátio da Sorbonne eles se encontrariam, “quando cada um podia falar ao outro, anônimo, impessoal, um homem entre homens, acolhido sem outra justificativa além de ser outro homem”.[31]  Descobrimos no final do livro de Blanchot a “forma” do nosso ensaio poético-musical-teatral: uma ficção do possível.

Foucault foi apresentado a Blanchot por Roger Callois que talvez considerasse o jovem pensador francês feito um “espelho em que discerne não seu duplo, mas aquele que gostaria de ter sido”.[32] Blanchot considera que desde o primeiro livro Foucault aborda questões referentes à filosofia (razão/desrazão), mas sob o “prisma” da história e da sociologia. Este tenta descobrir os perigos a que estamos expostos “para tentar ganhar tempo”, para tentar, através de estratégias, enveredar por caminhos mais desiludidos.

O “historiador de ideias” evita o estruturalismo porque “pressente um aroma do transcendentalismo”. Ele ancora-se na “superfície”, nega as “armadilhas da subjetividade”, “não rejeita a história, mas distingue nela descontinuidades”.[33] Notamos que Blanchot, agora em uma peça teatral, repete o mesmo “cânone” do Ostinato de Louis-René des Forêts, a mesma “organização fragmentária”, a mesma “falta de continuidade” da ópera em quatro atos, primeira parte do nosso ensaio, como que unindo as duas pontas da Prosa e da Poesia, do Teórico e do Ficcional, da Vida e da Arte.

Em A ordem do discurso, sua aula inaugural no Collège de France (onde, em princípio, dizem o que será feito nas aulas seguintes, mas que vão dispensar-se de fazer porque acabou de ser dito e porque o que foi dito não suporta ser desenvolvido), Foucault enumera, de forma mais clara e talvez menos estrita (seria preciso investigar se essa perda de rigor se deve apenas às exigências de um discurso magistral ou então a um princípio de dessinteresse diante da própria arqueologia), as noções que devem servir a uma nova análise. Assim, propondo o acontecimento, a série, a regularidade e a condição de possibilidade, ele usará esses termos para opô-los, um a um, aos princípios que, de acordo com ele, dominaram a história tradicional das ideias, opondo assim o acontecimento à criação, a série à unidade, a regularidade à originalidade e a condição de possibilidade aos significados – ao tesouro escondido dos significados ocultos.[34]

Foucault trata da noção de sujeito na produção literária. Essa “não-obra”, esse “não-autor”, essa “não-unidade-criadora”, não significa o desaparecimento do sujeito. Significa antes o questionamento da unidade, a fragmentação do todo, “essa nova maneira de ser que é o desaparecimento”,[35] “desaparecimento” que já vimos com o maestro-Blanchot quando regia o primeiro ato de sua ópera, quando conduzia-nos através dos acordes da poesia de Louis-René des Forêts e esse “escrevendo apenas para apagar o que já foi escrito”[36] que tratamos na página 5 de nosso ensaio.

Chegamos a Vigiar e punir, e não chegamos inocentes. Blanchot narrou A arqueologia do saber, A ordem do discurso, nessa peça teatral de linha condutória única, apesar de fragmentária. Descobrimos em Vigiar que “o confinamento é o princípio arqueológico da ciência médica”, que “a soberania tem origens obscuras”, e pressentimos que “Foulcault quase preferiria as épocas assumidamente bárbaras, quando os suplícios não dissimulam em nada sua atrocidade”.[37]

Foucault em Blanchot atualiza os conceitos de punição e poder e que não estão tão distintos daquela época “bárbara” quanto imaginamos. Ele nos recorda Heidegger quando nos remete à “analítica da consciência moral”, nossa “herança aristotélica” e que “no nosso interior, há uma palavra que se faz sentença, veredicto, afirmação absoluta. Isso é dito, e essa afirmativa primeira, removida de qualquer diálogo, é a palavra da lei, que ninguém tem o direito de contestar”.[38] E nos lembramos da “letra órfã de Pai ausente ou escondido do discurso” de Jacques Rancière (também) citado na página 5 do presente estudo.

No “contratempo” à Sociedade do Sangue, a Sociedade do Saber. Sangue hereditário. Saber sexual. A História da sexualidade de Foucault nos desafia “a recusar as pretensões da Lei”, porque o “sangue reabsorveu o sexo”. Mas tomemos cuidado. A peça teatral chega ao fim e o nazismo aparece fantasmagoricamente em História para nos lembrar das “fantasias do sangue com o paroxismo disciplinar”. Só resta a Foucault fazer as pazes com a psicanálise de Freud e a restauração da antiga Lei da aliança, quando este “devolveu à Lei seus direitos anteriores”.[39]

Só nos resta entender a última obra de Michel Foucault que foi ele mesmo. Na sua busca por uma genealogia da sexualidade na Antiguidade Grega, busca “passar dos tormentos da sexualidade à simplicidade dos prazeres”. Por quê? Porque a doença anuncia os seus últimos dias, anuncia as nossas últimas linhas desse ensaio, dessa ópera em quatro atos e uma peça teatral que chama-se Uma voz vinda de algum lugar. Blanchot se despede do encontro imaginário com o homem que admira, e nós nos despedimos deste ensaio com a fase final da vida de Foucault e seu cuidado com si, que foi cuidado com os outros.

Os livros que vai escrever sobre temas que lhe são muito próximos são, à primeira vista, livros de historiador estudioso mais do que obras de investigação pessoal. Até o estilo é diferente: calmo, apaziguado, sem a paixão que queima em tantos de seus outros textos. Entrevistado por Hubert Dreyfus e Paul Rabinow e interrogado sobre seus projetos, ele exclama, de repente: “Oh, eu vou primeiro cuidar de mim!” Declaração que não é fácil de esclarecer, mesmo se pensarmos um pouco apressadamente que, seguindo a Nietzsche, ele estivesse inclinado a fazer de sua existência – daquela que lhe restava viver – uma obra de arte.[40]

 

___________________________________________

* Para baixar o arquivo em PDF: Uma voz vinda de outro lugar – Uma ópera em quatro atos e uma peça teatral – Patricia (Gonçalves) Tenório – 05 e 060416

___________________________________________

* Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem nove livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007),  A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (2013)), Vinte e um / Veintiuno (lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016),  e, no prelo, A menina do olho verde (a ser lançado na Livraria Cultura RioMar Recife em 28 de maio de 2016 e possivelmente na Livraria Cultura Bourbon Porto Alegre em 11 de junho de 2016).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(1) BLANCHOT, Maurice. Uma voz vinda de outro lugar. Tradução: Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Rocco, (2002 in) 2011.

(2) BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução: Leila Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, (1959 in) 2005.

(3) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6502. Escrito em 12/03/2016. Última atualização: 27 de março de 2015.

(4) FORÊTS, Louis-René des apud BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 16, itálico da edição.

(5) FORÊTS, Louis-René des apud BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 18, itálico da edição.

(6) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 21, itálico da edição.

(7) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 25.

(8) VILA-MATAS, Enrique. Bartleby e companhia. Tradução: Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac & Naify, (2000 in) 2004.

(9) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 25.

(10) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 26.

(11) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 26.

(12) AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução: L. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, (397 in) 2013 – (Vozes de Bolso), livro XII, p. 293.

(13) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 31.

(14) BONNEFOY, Yves. Entrevista: Yves Bonnefoy: A Poesia Pode Criar um Novo Céu e uma Nova Terra. In Calibán: uma revista de cultura. Entrevista e tradução: Isabelle Macor-Filarska e Patricia (Gonçalves) Tenório. N. 10. Rio de Janeiro: Calibán, 2007, p. 9-10, itálico e colchetes nossos.

(15) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 35.

(16) JOLLES, André. Formas simples: Legenda, Saga, Mito, Advinha, Ditado, Caso, Memorável, Conto, Chiste. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, (1930 in) 1976, p. 83-108.

(17) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 36-37.

(18) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 38.

(19) RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Tradução: Raquel Ramalhete… [et al]. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 12.

(20) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 43.

(21) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 53.

(22) SÓCRATES in PLATÃO. Fedro. Tradução, apresentação e notas: Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2012, p. 112.

(23) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 55.

(24) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 60.

(25) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 62, 63 e 64.

(26) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 66.

(27) SOUZA, Eudoro de. História e mito. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981, p. 3.

(28) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 69.

(29) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 75, 77, 79, 83, 86.

(30) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 103, itálico da edição.

(31) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 113.

(32) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 115.

(33) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 118, 121, 123.

(34) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 103, itálico da edição.

(35) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 127.

(36) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 41.

(37) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 133 e 136.

(38) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 139.

(39) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, respectivamente, p. 145-147, 148, 149, 150-151.

(40) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 158.

Índex* – Janeiro, 2016

Amanda aguarda ansiosa os acontecimentos amadurecendo na árvore antiga.

Ela vê os galhos crescendo tortuosos, ela trilha os caminhos mais escuros.

Então faz a Paciência brotar verdinha no último botão em flor de Dezembro.

(“A Paciência não tem hora de chegar”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 29/12/15, 11h09)

Um Ano Novo crescendo nos galhos do Índex de Janeiro, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Entre “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

Poema de Antonio Aílton (São Luís – MA, Brasil).

Um Conto e um Poema de Clauder Arcanjo (Mossoró – RN, Brasil).

Duas Crônicas de Mara Narciso (Montes Claros – MG, Brasil).

Agradeço o carinho e a participação de todos, a próxima postagem será em 28 de Fevereiro de 2016, um grande abraço e muita Luz,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

________________________________________________________

Index* – January, 2016

Amanda anxiously awaits the events maturing in the ancient tree.

She sees the branches growing croocked, she tracks the darkest paths.

So she makes Pacience sprout greenish in the last spring flower bud of December.

(“Pacience doesn’t have time to come”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 12/29/15, 11:09 a.m.)

A New Year growing in the branches of the Index of January, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Between “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

Poem from Antonio Aílton (São Luís – MA, Brasil).

A Short Story and a Poem from Clauder Arcanjo (Mossoró – RN, Brasil).

Two Chronicles from Mara Narciso (Montes Claros – MG, Brasil).

Thank you all for the kindness and participation, the next post will be on 28th February, 2016, a big hug and too much Light,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

________________________________________________________

**

________________________________________________________

* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**Patricia (Amanda) Tenório aguarda os acontecimentos… Patricia (Amanda) Tenório awaits events…

Entre “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia Tenório[1]

30/12/15 10h00

Era uma vez (mais) um final de ano. Acontece (comigo) sempre uma espécie de Epifania[2] nesses últimos dias, nessas últimas horas de um calendário gregoriano. E quão bom saber (e sentir) que essa Epifania é provocada por um Livro, por uns Versos, e a Teoria que dele emana, que ele solicita, feito um filho pedindo (urgentemente) para nascer.

Abro a primeira página de Girândola[3], d’O Poeta de Meia-Tigela Alves de Aquino. Lembro do que aprendi em uma das disciplinas (Bases da Teoria), com uma das professoras do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, a também poetisa Prof. Dra. Lucila Nogueira:

– É preciso contextualizar o objeto a ser estudado, quer seja um escritor teórico, quer seja um escritor poético ou ficcional.

O Poeta de Meia-Tigela veio a mim de uma maneira meio que por acaso, meio que por “coincidência” – e eu não acredito em coincidências. Através de e-mails de “corrente do bem” – um escritor que apresenta a outro escritor que apresenta a outro escritor… – pela Internet, e ainda não o conheço pessoalmente. E o conheço, nos seus versos, nas suas tiradas cítricas e irônicas em relação ao mercado editorial brasileiro, quando se apresenta ao final de Girândola em “O Autor”:

O Poeta de Meia-Tigela nasceu Aves de Aquilino a 08 de agosto de 1968, em Brejo Santo, Ceará. Publicou em 2008 o Memorial Bárbara de Alencar & Outros Poemas. Em 2010 o Concerto Nº 1Nico em Mim Maior para Palavra e Orquestra. Poema (1º Movimento) e, em 2011, a reedição revista, ampliada e desmelhorada do Memorial. Este não foi traduzido para várias línguas: dentre as quais o espanhol italiano francês inglês alemão russo nepalês e náuatle. Em 2011 o Concerto não ganhou o Prêmio Jabuti apesar de não ter concorrido. Nos derradeiros anos a obra d’O Poeta de Meia-Tigela tem sido aclamada pela crítica nacional e internacional com estrondoso silêncio.[4]

Volto à primeira página de Girândola. Não exatamente à primeira página, mas à Epígrafe dessa minha Epifania. E encontro Hermann Hesse com um extrato de O jogo das contas de vidro.

Foi girando cada vez mais depressa e, por fim,

girando com enorme rapidez, rebentou,

espalhando-se pelo ar qual um punhado

de estrelas cintilantes.[5]  

Seguindo o conselho da professora Lucila – e essa “corrente do bem” de um escritor “chamando” o outro (“chamar” que vem de chamamento, vocação), também podemos encontrar essa “corrente” no método que adotaremos e que elucidaremos mais adiante –, seguindo o conselho da professora, apresento o segundo objeto de pesquisa de nosso estudo (“segundo”, mas em paralelo com o “primeiro”): o escritor nascido na Alemanha em 1877, e naturalizado suíço em 1923, Hermann Hesse.

Hesse foi contista, poeta, ensaísta e “editor de importantes obras da literatura alemã”[6]. Foi declaradamente contra o nazismo, escrevendo artigos na época da ascensão da ditadura. Viajou para a Índia em 1911 e a partir dessa experiência escreveu livros considerados místicos, ou mesmo foi rotulado como o “primeiro hippie”. Entre os livros, Sidarta (1922) e O lobo da estepe (1927). Utilizaremos no presente estudo O jogo das contas de vidro (1943), obra-prima que levou Hesse a receber o Prêmio Nobel em Literatura em 1946, e que, no nosso caso, além de relacioná-lo com a Poesia de Meia-Tigela, também tentaremos relacionar com a Escrita Criativa, objeto maior de estudo em que tenho me debruçado (insaciavelmente) nesses últimos dias (meses) do ano.

30/12/15 14h10

Assim como a Poesia (Tigela) e a Ficção (Hesse) me vieram de maneira “acidental”, meio que “por acaso”, a Teoria e a Crítica vieram ao meu encontro de uma maneira (um pouco) menos acidental. Estas vieram pelas mãos de minha orientadora de Mestrado na UFPE, a artista plástica, teórica da Literatura & Intersemiose, Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.

Durante a escrita da dissertação O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, Nino me apresentou Qu’est-ce que créer?[7] (O que é criar?), do filósofo francês, nascido em 1º de dezembro de 1917, professor de filosofia no Liceu de Yaoudé e Universidades de Alger, Nantes, Abidjan e Poitiers, Jacques Rolland de Renéville.

Dividido em nove capítulos, Renéville cerca as fontes da criação por todos os ângulos possíveis e termina com um “Pastiche e Mistura” no IX Capítulo, quando “dialoga” com a obra de La Bruyère, para exemplificar e esclarecer os conceitos por nós apreendidos no transcorrer do livro. Além de nos apropriarmos de maneira “antropofágica” dessa técnica do filósofo francês, seguiremos o seu “desfiar do novelo” sobre a criação, sobre “O que é criar?”, ao mesmo tempo que tentaremos nos apropriar da técnica do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (1963) utilizada em Birdman[8] (2014).

O filme narra a estória de Raymond Carver (Michael Keaton), um ator de filmes de heróis (Birdman) que se encontra no esquecimento de público e crítica e tenta montar um espetáculo em que protagoniza na Broadway de Nova York. O que tomamos para nosso estudo feito técnica é “como” Iñárritu narra a estória: uma sequência fílmica única, fluida, sem cortes, mas marcada pela presença de um baterista anônimo que toca uma peça de Jazz. O tempo do filme é único, linear. O nosso tempo tentará ser único, linear, um autor “chamando” outro, um texto “convocando” outro, e a nossa sequência textual “fluida”, “marcada” (apenas) pelo dia e hora do início de (cada) escrita.

30/12/15 17h35

O livro de Renéville começa estabelecendo uma relação entre o Mestre, o Escravo (ou Servo) e a Obra (Capítulo I).[9] Cada Ser Humano, ao se tornar Humano, ao galgar o degrau do Ser Animal à Civilização, se coloca em uma das duas primeiras posições acima. Ou é Mestre de outrem – dominador, possuidor, comandante –, ou é Escravo, Servo desse mesmo Mestre – o Escravo/Servo como dominado, despossuído, obediente. Mas Jacques de Renéville nos lembra: todos podem vir a se tornar Mestres e lutamos contra o maior dos Mestres, aquele inexorável, o Mestre dos Mestres: a Morte.

O filósofo afirma que a Morte é o que nos faz sair do lugar. Diante dela temos duas (e apenas duas) escolhas. Ou nos prostrarmos e imobilizarmos, “De que vale fazer alguma coisa, se iremos mesmo morrer um dia?”, ou nos erguermos e mobilizarmos, e lutarmos contra a Senhora Morte com todas as nossas forças, com “todos os átomos do corpo (e da alma) de Epicuro” através da produção, da criação da Obra.

O Mestre é aquele que possui consciência de si mesmo, enquanto o Escravo/Servo age de maneira inconsciente, levado por seu Mestre, levado pela “manada”. O Mestre prevê e provê, mas também explora e reprime o Escravo/Servo. Mas quando o Escravo/Servo consegue adquirir consciência de si, construir uma Obra com suas próprias mãos e ser “reconhecido” por seu Mestre, invertem-se os papéis, e o Escravo/Servo passa a ser Mestre do seu Mestre, e o Mestre passa a ser Escravo de seu Escravo.

            Paremos um pouco. Ouçamos a Música.

O pensamento dos parágrafos acima não pertence apenas a Renéville. Ele é originário do filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831) e apropriado, e transformado em um pensamento mais largo por Jacques Rolland de Renéville. A Morte é o Mestre Absoluto, mas também o Servo Absoluto, nos afirma Hegel/Renéville. Ela nos arranca da vida biológica, mas nos insere na vida do espírito. Ao se afastar da Natureza, ao cindir com a Natureza, o Ser Humano forja a Cultura, erige as paredes da Civilização e, ao mesmo tempo, mantém a alteridade, nasce a História. No a-Histórico, cada Ser Humano se descobriria como Mestre e Servo de si mesmo, o que nos faz lembrar de Erich Fromm no seu A Arte de Amar quando fala da Mãe e do Pai introjectados no Ser de Amor Maduro.[10]

31/12/15 10h20

Só o Homem morre; o Animal desaparece. A Verdade dessa afirmação nos faz constatar que nos alimentamos do Outro para nos “conservar”, nos alimentamos de outros animais, nos alimentamos de outros escritores, pensadores, Mestres de si mesmos.

(Jacques de) Renéville cita (Jean) Baudrillard (1929-2007) que em A Sociedade de Consumo (1970) nos apresenta os três momentos da evolução humana, do rompimento com o Caos-Natureza até chegar à Civilização-Organizada: a Lei Natural do Valor, na Renascença; a Lei Mercadológica do Valor, na Era Industrial; a Lei Estrutural, no Reinado do Código, nos dias atuais, quando o sistema “produz e reproduz os indivíduos em tanto que elementos do sistema”.[11] É quando chegamos a O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse.

Assim como a Epígrafe de Girândola, do Poeta de Meia-Tigela é dedicada a Hermann Hesse, a Epígrafe de O jogo das contas de vidro é dedicada aos “peregrinos do Oriente”. Segundo o astrólogo, músico e escritor brasileiro Waldemar Falcão que prefacia O jogo na edição utilizada no nosso estudo, “Hesse preservou na íntegra a sua rebeldia e a sua inesgotável capacidade de não se conformar com as verdades prontas e estabelecidas”.[12] Filho de pastores protestantes, Hesse caminha em direção ao Oriente, mas faz em sua última e maior obra, próximo de completar setenta anos, uma reverência e um “Pastiche e Mistura” das diversas religiões e filosofias que habitavam o seu pensamento.

O jogo é narrado em um livro dentro de um livro dentro de um livro… quando é dividido em uma Introdução (“Ensaio de introdução popular à sua história”), na “Biografia” propriamente dita de José Servo, o Mestre dos Mestres do Jogo de Avelórios, e suas “Obras póstumas”. Em um tempo (não tão) distante, 2200, existe uma sociedade fechada chamada Castália, para onde os jovens intelectuais almejam e se preparam (incansavelmente) desde a infância para ingressar. O Jogo de Avelórios é feito das contas de vidro e das disciplinas (Música, Matemática, Filosofia…) “misturadas” e ao mesmo tempo individuais. O intuito do “Jogo” – parece a nós estrangeiros de outros tempos – não é o “vencer”, mas o “aprender”, e esse “jogo do texto” que (também) foi trabalhado por Wolfgang Iser nos faz querer elevar ao infinito o movimento do jogo, numa semiose sem fim até encontrarmos o sentido, até nos preenchermos por inteiro, de maneira diferente da nossa sociedade atual, uma sociedade em que o consumo preenche de maneira provisória e descartável a alma sedenta do Ser Humano caído que apreendemos com Erich Fromm no estudo há algumas linhas citado.

“Assim como os pensadores devotos de tempos antigos representavam a vida das criaturas encaminhando-se para Deus, a variedade do mundo das aparências completa apenas na unidade divina, e só nela pensada até o fim, assim também as figuras e fórmulas do Jogo de Avelórios construíam, musicavam e filosofavam numa linguagem universal, que se fundamentava em todas as ciências e artes, num jogo livre e num anseio pela perfeição, pelo ser puro e pela plena realidade. ‘Realizar’ era uma expressão apreciada pelos jogadores, e eles sentiam que seu ato era um caminho do devir para o ser, do possível para o real.”[13]

Prometemos o estudo paralelo entre Girândola e O livro, entre Tigela e Hesse. E o segundo ilumina o primeiro quando descobrimos no volume de Poesia do autor cearense o agrupamento dos poemas explicitado no “Foguetório”, espécie de Sumário Posfaceado. “Oratórios”, “Profissão de Fé”, “Subversongs” e “As Musas Alheias”. Música, Ninfas, Astrologia, o “Sonetódromo” que salta do imaginário de Alves-de-Aquino-Poeta-de-Meia-Tigela e nos convida a um “Pastiche”, e nos induz a uma “Mistura” com “as contas de vidro” cósmicas do escritor suíço-alemão.

Astrologia

Em todo acontecente oculto lastro

há, das rotas dançantes dos cometas

Prende-nos um sutil mas sempre nastro

às esferas distantes aos planetas

Pensamos ser apenas nosso o rastro

que leva à high society ou às sarjetas

Quando as estrelas atam-nos ao mastro

do fado a nos pregar peças e petas

Vem do empíreo mais alto de alabastro

a luz que rege e faz nossas cabeças

Grande poder alcanço e aumento e alastro

porém pouco perante o agir de um astro

Por isso estamos juntos não te esqueças:

o céu o quis e o predisse Zoroastro[14]

31/12/15 13h40

Hegel em Renéville afirma que “ao criar o objeto, o escravo cria a si mesmo”.[15] Os versos de Tigela são forjados por ele e o constituem, as contas de vidro de Hesse brilham nas mãos do Mestre/Magister Ludi José Servo – um Mestre que é Servo ao mesmo tempo, assim como aquele de Nazaré afirmava sobre “quem desejar ser o maior se faça o menor dos pequeninos” –, ficando nós leitores com a missão de investigar melhor essa Obra que os constitui e os faz transcenderem a Morte, serem maiores do que a Morte passando a serem o Mestre dos Mestres de si mesmos.

No II Capítulo, “Da Obra”,[16] Renéville narra a história das necessidades humanas, daquelas mais básicas na Era da Espada, quando era preciso usar a espada como instrumento de luta para sobreviver; passamos pela Era do Ouro, ou o uso do instrumento do poder; chegamos à Era do Espírito, ou ao utilizarmos o instrumento do significado. Se erige Mestre aquele que enfrenta a Morte até o fim, ficando o Servo reservado àqueles que desistem ou permanecem humilhados em seu lugar – aprendemos com Renéville. O Mestre forja no “fogo portentor” a sua imagem e semelhança, fogo que foi analisado em A psicanálise do fogo do filósofo e poeta francês Gaston Bachelard (1884-1962).

“Para nós, que nos limitamos a psicanalisar uma camada psíquica menos profunda, mais intelectualizada, cumpre substituir o estudo dos sonhos pelo estudo do devaneio, mais especialmente, neste pequeno livro, o devaneio diante do fogo. Em nossa opinião, esse devaneio é extremamente diferente do sonho pelo próprio fato de se achar sempre mais ou menos centrado num objeto. O sonho avança linearmente, esquecendo seu caminho à medida que avança. O devaneio opera como estrela. Retorna a seu centro para emitir novos raios.”[17]

A Epígrafe de Girândola e o extrato de O jogo das contas de vidro retornam “ao centro” do nosso estudo “para emitir novos raios”. O Criador, Mestre e Servo de si mesmo – forjado no “fogo portentor” –, ao criar sua Obra, não somente “some” a diferença entre Mestre e Servo, mas, principalmente, a diferença entre Criador e Obra.

“Servo pertence à classe dos indivíduos venturosos que parecem ter nascido e ser predestinados para Castália, para a Ordem e o serviço das instituições oficiais de ensino; e, ainda que não lhe fosse desconhecida a problemática da vida espiritual, foi-lhe dado viver sem amargor pessoal a tragédia de uma vida dedicada ao espírito.”[18]

 

Bem-aventurado, o

Eu sei alguém não sei quem provavelmente uma namorada do pueritempo me escreve diariamente duas cartas de amor, acontece até agora não chegadas. Do outro lado do mundo outro alquem pensa positivissimamente em mim seu príncipe encantado, apenas ainda não coroado mas um belo dia. Sei nalgum lugar, deste lado mesmo do grão-pará, uma condecoração por honra ao mérito à minha espera há, falta ma entregarem. E se declino do nobel da paz não se deve tal pela medalha que receberei daqui a breve em atenção aos meus feitos militares porém em função de já me ter predisposto àquele nobel que mais me interessa, o de. Talvez vocês me julguem sobremodo sortudo quiçá bem-aventurado. Pode ser, alguns como eu parecem nascidos para terem tudo aquilo que nascem querendo ter. O que sei é que um pombo-correio diariamente voa à minha procura, duas cartas no bico, somente até agora nunca me encontrou[19]

 

            Ainda ouvimos aquela Música?

Investigamos a Criação e descobrimos no Capítulo III[20] de (quase) mesmo nome Renéville invocando a Intuição do filósofo e diplomata francês Henri Bergson (1859-1941), e nos lembramos do estudo que fizemos durante a nossa dissertação de Mestrado quando mergulhamos em sua Bíblia, A evolução criadora (1907).[21]

No livro de mais de quatrocentas páginas, Bergson trata da separação entre a Inteligência e a Intuição ao traçar um panorama das teorias evolucionista e criacionista, salientando a diferença do evolucionismo em Darwin – que ocorre por “variações acidentais” –, enquanto em Eimer e Lamarck seria naquele “uma influência contínua do exterior sobre o interior” e neste “a faculdade de variar em consequência do uso ou não uso dos seus órgãos”, e também a “de transmitir aos seus descendentes a variação assim adquirida”, trazendo para nós a maior das Criações, que seria a Poiesis.

Essa mesma Intuição – que é fonte de Vida, fonte de Criação –, encontramos na sequência de setas que é a Palavra de Meia-Tigela, a Poesia de Alves de Aquino apontando para a Prosa de Hermann Hesse, que por sua vez, híbrida de Teoria, nos aponta para O que é criar?, do filósofo e professor francês Jacques de Renéville.

A Palavra

Há que lidar com a Palavra

Com suma delicadeza

Permitir brote a beleza

Para além de toda trava

Tome-a como adversária

E arrisque-se por perdê-la

Cativá-la é calar (e Ela

Mostrar-se-á esposa e amásia)

Pôr-se a lutar e enfrentá-la

É acirrar sua aspereza

Mas transitar-lhe as veredas

É deixá-la ser a Fala[22]

 

“A obra do espírito, a obra da cultura e da arte, é exatamente o contrário [da História universal], significa sempre um rompimento com a escravização do tempo, uma libertação do homem da sujeira de seus instintos e da sua inércia para orbitar num novo plano, intemporal, liberto do tempo, numinoso, em tudo e por tudo anistórico e anti-histórico.”[23]

(São quatro horas da tarde. O ano em breve se encerra e eu a escrever (e transcrever) Verso, Prosa ou Teoria. Mas feito o Servo/Escravo que ao forjar uma Obra com as próprias mãos se forja, se constitui Mestre e Espírito, Liberdade e Pensamento, continuo (mais) um pouco nesta luta com as Palavras, nessa busca de Sentido.)

Jacques de Renéville lembra Platão que em A República narra a vida anterior, esse céu de Imagens primeiras, o conhecimento primeiro da Verdade a redescobrir. E compara-o a (Marcel) Proust que Em busca do Tempo Perdido encarna “o autor em um de seus personagens por homologia entre ele e seu Narrador”.[24]

            A Música muda de ritmo. Façamos uma pequena pausa.

Relacionamos essa “encarnação” de Proust em seus personagens e esse retorno às Imagens primeiras de Platão com o que descobrimos na disciplina Metodologia da Pesquisa Literária ministrada no Programa de Pós-graduação em Letras da UFPE pelo Prof. Dr. Antony C. Bezerra: o filólogo judeu alemão Erich Auerbach (1892-1957), durante a Segunda Grande Guerra Mundial, também escreve a sua Bíblia. Chama-se Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental,[25] e foi escrita no exílio do filólogo alemão em Istambul, Turquia, quando dispunha de uma parca bibliografia – o que torna sua memória ainda mais admirável. No livro de “mais de quatrocentas páginas”, Auerbach, analisando extratos de textos de Homero à Virgínia Woolf, expõe e aplica o seu conceito de Figura,[26] tema de outro livro de mesmo nome em que narra a origem do conceito na relação que os Primeiros Padres, os Pais da Igreja Católica – em especial São Paulo e Santo Agostinho de Hipona – traçaram entre figuras do Antigo Testamento, tais como Davi, Moisés, Elias…, e a figura do Cristo, aquelas como prefiguração do preenchimento perfeito realizado com a vinda do Messias, tanto há mais de dois mil anos, quanto na segunda vinda esperada para o final dos tempos.

01/01/16 15h15

(Um ano aponta para outro ano. Construímos a partir do Passado, perceptivos do Presente, em direção a um Futuro não muito distante. 2016 inicia e nossos estudos continuam na busca desse preenchimento pleno que nos traz o Sentido.)

O Capítulo IV de “O que é criar?”, “Obra e Ipseité”,[27] aborda o Criador “como aquele que se nega para se elevar em direção de um Todo Outro”.[28]  Ele sai de si – um si exterior – em busca desse Absoluto que o arrebata e o fascina – um Absoluto individual –, e o que chama o Criador a criar é ele mesmo.

Essa relação do dentro de si e fora de si do (mesmo) Criador comparamos com o conceito de Figura de Auerbach – uma “figura” do Antigo Testamento que aponta para a “figura” do Cristo no Novo Testamento e no além-Evangelhos, no além-Bíblia –, e o aproximamos do pensamento de Hegel em Renéville quando afirma que o “animal devorando outro ou copulando com outro nada mais deseja que a si”, assim como “o futuro criador, ao consumir as obras de criadores mais velhos, deseja ser criador ele mesmo”, ou seja, “fazer existir uma obra”, e esta obra “fará de si um criador”.

São os textos que apontam uns para os outros em Mimesis, de Auerbach, são os teóricos do nosso estudo que apontam uns para os outros, são o Poeta Tigela e o Prosista Hesse que apontam um para o outro num círculo sem fim, numa Girândola d’O jogo das contas de vidro.

O Fugitivo

Por que parto por que corro se a vejo?

Por que fujo se a sinto aproximar-se?

Azulo se me bate o relampejo

De pensar e se agora ela chegasse?

Eis que desapareço percevejo

Jamais ousando olhá-la face-a-face

Tão logo seu andar ouço ou farejo

Me coiso me outro à mão qualquer disfarce

– Se abalo se me mando sem porquê

É que o meu gosto é tanto por você

Que só de imaginar correspondência

Temo perder o sumo da existência

Desse amor que lhe voto sem tenência:

Para mantê-lo, sumo, pererê[29]

 

“Quero assinalar apenas que a criação espiritual é alguma coisa da qual não podemos [os castálicos] propriamente participar, como muitos pensam. Um diálogo de Platão ou uma composição coral de Heinrich Isaac e tudo o que denominamos ação do espírito, obra de arte ou espírito objetivado são fechos, resultados finais de uma luta pela purificação e libertação; são, por assim dizer, como o designas, erupções do tempo no intemporal, e, na maioria dos casos, as obras mais perfeitas são aquelas que não deixam suspeitar as lutas e os combates que as precederam.”[30]

Parece que o motivo para essas “setas” entre textos, dessa Palavra “Fugitiva” que tentamos capturar e segurar ao máximo em nossas mãos feito “pedras quentes”, o motivo parece estar na constatação que perceber, “compreender, dar sentido, constituir, falar, é usar de um significante como significado lá onde o em si é roubado, nada mais oferece que o vazio”.[31]

“A constituição é uma substituição”, continua Renéville na mesma página do parágrafo anterior. E ainda na mesma página do parágrafo anterior, de maneira saussurreana, “o significado significa ao substituir o referente com o significado, o signo em lhe substituindo sua significação”.

O mundo nos constitui, assim como na criação as relações entre signos e significações já existentes são renovadas pelo artista Criador, naquele que impinge – ao mesmo tempo que em si impinge – um sentido todo novo, uma expressão toda própria e individual de uma Obra de arte.

No Capítulo V, “As duas fontes da criação”,[32] Jacques de Renéville nos ensina que informatizar é “tratar automaticamente todas as informações que se prestam”, informação como “elemento ou sistema de elementos que podem ser transmitidos por um sinal ou um sistema de sinais”.[33] Descobrimos que é informatizável em uma Cultura “o que é automatizável”. Ou, em outras palavras, “tudo menos o essencial”.

O que pode ser imitado, reproduzido, transcendido, traduzido, transmitido, codificado, mecanizado: não faz parte do essencial. Do essencial faz parte a Criação, o ato livre “no qual o que é vem a não ser enquanto o que não é ainda vem a ser”.[34]

O Homem é aquele que nega, afirma Renéville na página 76. Mas ele só pode negar “alguma coisa”, aquilo que já existe, o que lhe impõe “uma resistência criativa”. Nós “não negamos, não esculpimos, não escrevemos nem compomos no vazio” – na mesma página 76. Então nos lembramos de uma outra obra “essencial” de Hermann Hesse, obra que nos meus 35 anos mudou inteiramente a minha vida.

Trata-se de O lobo da estepe. Escrito quando Hesse havia completado 50 anos, sobre um personagem aos 50 anos (Harry) – e eu “não acredito em coincidências” –, trata desse vazio que Renéville afirma que não podemos “negar”, que precisamos “resistir”, e superar, e transcender nos últimos instantes de um ano, nas primeiras horas de uma nova vida, de uma nova Obra que almejamos, e lutamos incessantemente para construir, ao mesmo tempo que nos construímos.

“– É para mim uma alegria, meu caro Harry, poder tê-lo um instante como hóspede. Você tem andado frequentemente desgostoso da vida e com ânsias de deixá-la, não é verdade? Tem ansiado abandonar este tempo, este mundo, esta realidade, e entrar numa outra realidade que lhe seja mais adequada, num mundo intemporal. Pois faça-o, meu amigo, eu o convido a isso. Você já sabe onde se oculta esse outro mundo, já sabe que esse outro mundo que busca é a sua própria alma. Só em seu próprio interior vive aquela outra realidade por que anseia. Nada lhe posso dar, que já não exista em você mesmo, não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível seu próprio mundo, e isso é tudo.”[35]

Criar é “pôr para fora” o que há “para dentro”. É exteriorizar até o que não sabemos existir em nós mesmos, e que só nos é possível (entre)ver ao manusear o barro, ao esculpir o mármore, ao (ins)escrever no papel, computador aquelas palavras que “me surpreendem e me ensinam meu pensamento”[36] – já dizia Maurice Merleau-Ponty em Jacques Rolland de Renéville.

Estamos tratando das “duas fontes da criação”. Descobrimos com Renéville (e com os linguistas) que toda língua possui duas funções. A função referencial, ou aquela de “transmitir sobre o objeto descrito uma informação verdadeira, objetiva”, e a função emotiva, ou aquela que transmite “sobre o objeto descrito uma impressão subjetiva”.[37]

Dois são também os tipos de pensamento.[38] O pensamento arcaico, selvagem do “princípio dos tempos” humanos, quando havia mais a necessidade de “celebrar um mistério” do que “uma verdadeira comunicação”, a necessidade de mais comunhão e “formas coletivas de participação”, em um regime totalmente “polissêmico”. O pensamento selvagem, arcaico, polissêmico não percebe nada “que não seja misturado”, ele “ordena o universo ao redor do princípio geral da analogia”, estabelece relações “entre todos os componentes do mundo” por estar mergulhado em um Todo Uno e Absoluto.

Em oposição aos signos polissêmicos de “prestação total”, encontramos os signos “monossêmicos”, ou fundados no direito romano. Os signos monossêmicos são aqueles da “inteligibilidade objetiva” e os signos polissêmicos são aqueles da “expressividade subjetiva”. Descobrimos esse “Pastiche e Mistura” de monossemia e polissemia na obra do filósofo e poeta francês anteriormente (um pouco) analisado neste estudo, Gaston Bachelard, essa “mistura” de Teoria com Poesia, Crítica e Ficção, Vida e Arte.

            Ouçamos um pouco mais de Música. Paremos um pouco mais no Espaço.

A Cultura nasce na independência do “sujeito falante” ou que gesticula: ela nasce na Escritura. E o que na mesma Cultura resiste à informatização é a Criação de Sentido, tanto aquela espontânea “no seio da polissemia vivida” quanto aquela “liberada pela escolha de combinações novas entre elementos monossêmicos e polissêmicos”. O Poeta e o Prosador “cantam”:

 Carme

Os cabelos ao vento versos livres

correndo estrada leves andarilhos

Os olhos pirilampos loucos ivres

que ofuscam cegam com seu estrib(r)ilho

A boca da menina é um rubai

trova quadra ao sabor oriental

Os seios pequeninos dois haicais

Nem Bashô conseguiu fazer igual

O ventre labirinto e desvario

no qual me entranho saio e readentro

As nádegas balada cujo envio

não se dá ao fim mas em pleno centro

Alma a essência sutil de um paracleto

em que me embebo e escrevo este soneto[39]

 

“Minha vida deveria ser um transcender, foi esse o propósito que tomei. Devia ser um progredir, de degrau em degrau, em que os espaços, um após o outro, deveriam ser trilhados e abandonados, da mesma forma como uma melodia se inicia, se desenvolve e chega ao fim, tomando e deixando tema após tema, compasso após compasso; jamais se cansa, nunca adormece, sempre alerta, sempre perfeitamente presente. Procurando relacionar isso com a experiência do ‘despertar’, notei que existem tais degraus e espaços e que o último período de cada capítulo da vida traz em si uma tonalidade de fenecimento e desejo de morrer.”[40]

Porque Criar é “exercer sua liberdade, escolher a angústia”.[41]

02/01/16 10h15

(Hoje foi o primeiro banho de mar do ano. No mar alivio a angústia de criar, ao mesmo tempo que me insiro, que mergulho por inteiro na Criação. Volto renovada aos meus escritos, pressentindo o fim, o fim que poderá ser o início de um Todo Novo.)

Renéville, no Capítulo VI, “O sentido e o som”,[42] descreve a Prosa como aquela que “usa a linguagem como um meio” e a diferencia da Poesia por ser o Prosador aquele que “se serve das palavras para ir direto às coisas”, enquanto o Poeta “se desvia das coisas ou as utiliza para servir as palavras”.[43]

Na origem dos signos, linguísticos ou não, sua função era encantatória. Entre a representação e aquilo que os signos originais representavam havia “mais que relação”, havia “identidade”. O Poeta – e o tomemos aqui como Profeta, no sentido (pre)figural de Auerbach – era aquele que “constrangia” os signos linguísticos a “serem” sua própria significação. Da mesma forma que “Deus disse ‘que a luz se faça’ e a luz se fez”, o sujeito falante, o Poeta cantante se apropria da Palavra, faz a Palavra ecoar através de suas cordas vocais, e essa Palavra “faz infinitamente melhor que exprimir a realidade, ‘ela é esta realidade’ (…)”.[44]

Descobrimos que escrever, ler em silêncio é uma maneira de transformar o mundo, lá onde “os signos criam o que significam sem material”, sem a voz que ecoa e soa através de nossas cordas vocais. A grande herança que recebemos dos antigos Gregos foi que, através do signo escrito, eles conseguiram “fazer uma só coisa do sonoro e do sentido”.[45]

            Faz tempo não ouvimos aquela mesma Música.

“Sentou-se e tocou com esmero, bem baixinho, um movimento daquela sonata de Purcell, uma das peças prediletas do Padre Jacobus. O som caía no silêncio como gotas de luz dourada, tão de leve, que não impedia de ouvir o cantarolar do velho chafariz no pátio. As vozes da graciosa música encontravam-se e cruzavam-se suaves e serenas, parcimoniosas e doces, percorriam corajosas e mansas sua doença interior através do vácuo do tempo e da efemeridade, tornavam o espaço e a hora noturna, durante a curta extensão de sua duração, imensos, da dimensão do universo. Quando José se despediu do hóspede, este mostrava um rosto mudado e iluminado e tinha lágrimas nos olhos.”[46]

 

Tetralogia da incomunicabilidade (α)

Que dizer há muito

Mas dizer sem boca

A garganta é rouca

Para tal assunto

Assunto, coitado

Que fica onde está

Nenhum verso dá

Conta do recado

Recado sisudo

Que morre na toca

A palavra é pouca

Não toca o profundo[47]

 

Na origem dos signos, emitir um som era a reação “ao contato do real”. Com o passar dos tempos, se transforma no “forjar a menor unidade vocal de uma combinatória”, com o intuito de responder “ao infinito os aspectos do mundo”.[48]  Somente com a Escritura, é possível a transformação “efetiva” e não “virtual” do Som em Sentido.

É na Escritura Ideográfica, lá nos tempos do Mesolítico, que se inaugura essa efetivação, que se inscreve essa eternização do Som em Sentido. Mas ainda a Escrita era Escrava da Imagem. A sua libertação só ocorre com o Alfabeto Fenício, entre os séculos XIII ou XII a.C..

No Alfabeto Fenício se ligava “diretamente”, sem a mediação “paralisante” de qualquer “representação”, a coisa significada por um Som à “inicial da palavra significante”. Com isso, além do que já existia, ou seja, o signo sendo “um” com a coisa significada, no signo escrito, o signo se fazia “uma só e mesma coisa do sonoro e do sentido”.[49]

A “imagem acústica” do significante, a “marca psíquica” do Som que nos ensina Saussurre, através de Renéville, (através de Tenório, (através de…)) nos foi apresentada no estudo sobre “O que é, pois, o Tempo?”, do pensador cristão e (pre)figural Agostinho de Hipona (354-430) em suas Confissões.

Em mais uma Bíblia do presente estudo, encontramos Agostinho mergulhado na questão de como pode ser medido o Tempo, ou melhor, como pode existir o Tempo se o mesmo foi criado a partir do Eterno, quando não havia Tempo, quando não havia Espaço. O Deus Todo Poderoso de Agostinho eternamente proferiu a Palavra original, e “se fez luz”, os planetas, os animais e todos os seres vivos foram criados e nomeados por sua Criatura escolhida e forjada à sua imagem e semelhança: o Homem. Essa Palavra original proferida, foi coeternamente proferida no “Verbo que se fez carne e habitou entre nós”, assim como na chama flamejante do Espírito Santo, e que está na base do conceito de Figura que vimos com Auerbach. Mas como pensar o Tempo? – continua a se perguntar o Santo de Hipona – e a pergunta ao encontrar a resposta perfaz o Mito da Criação.

Ele toma então uma Música – barro utilizado por Tigela e Hesse – e faz ressoar um acorde. O acorde ressoa em suas cordas vocais, arranha suas cordas vocais passando do (Presente do) Futuro da Expectativa através do (Presente do) Presente da Percepção até habitar a Memória do (Presente do) Passado – notem os (Presente)(s) entre parênteses para nos lembrar que, segundo Agostinho, só o que existe é Presente.

“Fixa o olhar onde desponta o amanhecer da Verdade. Supõe, por exemplo, que a voz de um corpo começa a ressoar, ecoa, continua a ecoar e cala-se. Fez-se silêncio… a voz esmoreceu… já não é voz. Era futura antes de ecoar e não podia ser medida porque ainda não existia, e agora também não é possível medi-la porque já se calou. Nesses instantes em que ressoava era comensurável, porque então existia uma coisa susceptível de ser medida. Mas mesmo nesses momentos não era estável. Ia esmorecendo e passava. Não seria por acaso esta instabilidade ou movimento o que a tornava mensurável? Com efeito, ao esmorecer, estendia-se por um espaço de tempo pretérito onde seria possível medi-la, já que o presente não tem nenhuma extensão.”[50]

Renéville nos conduz aos Pintores que introduzem uma “dimensão temporal no universo espacial de sua tela”, e aos Músicos que “introduzem como um equivalente do campo espacial na duração sonora”.[51] Além de coincidirmos essa troca de dimensões em cada arte (o temporal no espacial na Pintura, o espacial no temporal na Música) com a técnica de sequência fílmica sem cortes (e que nos dá a sensação de Tempo único, todo no Presente) utilizada por Alejandro González Iñárritu em Birdman, traçamos uma conexão com o espaço quadridimensional de Minkowski, utilizado por Albert Einstein na descoberta da sua Teoria da Relatividade, utilizado por mim na escrita da dissertação de Mestrado quando tratei do “que é, pois, o tempo?” em O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

“[…] o universo dos eventos físicos, que Minkowski chamou simplesmente de “mundo”, é por natureza quadridimensional, no sentido do espaço-tempo. Pois ele se compõe de eventos individuais, cada um dos quais descrito por quatro números: três coordenadas espaciais x, y, z e uma coordenada temporal, o valor t do tempo.”[52]

02/01/16 14h20

O VII Capítulo, “Música, Matemática e Metafísica”,[53] de O que é criar? trata da confluência dessas três disciplinas, confluência que vem desde a época de Plotino quando este afirma que “a procissão a partir do Uno, mal ela se destaca do Logos, a ele retorna, se ‘converte’ em direção ao Uno, e deve alcançar de coincidir de novo com ele, o imita em o contemplando”.[54]

Muito falamos da Música no presente estudo. Estamos mergulhados nela. Mas a Matemática e a Metafísica com a Música também se “misturam”, e as duas primeiras surgem “simultaneamente”, ou melhor, de maneira “indiscernível”, porque surgem de uma progressão contínua do signo que depende do sentido, em direção ao sentido que depende do signo.

Descobrimos que o nascimento da reflexão se faz com o nascimento do “negativo”. E mais uma vez nos lembramos de Agostinho quando em suas Confissões, Livro XIII, tratando (desta vez) sobre a Paz, pergunta como pode existir o Mal se Deus é todo Bem, se Deus permite a existência do Mal feito acreditam os Maniqueístas, e conclui que assim como a Escuridão é a ausência da Luz, o Mal é a ausência do Bem, a ausência de Deus, pois a “obra da criação é essencialmente boa”.[55] É preciso haver “algo” para que possamos negar, pois como vimos na “página 76” com Renéville, “não negamos, não esculpimos, não escrevemos nem compomos no vazio”.

As séries matemáticas, apesar de abstratas, apesar de “construídas a priori, de costas para a experiência”, se refletem na Natureza que “obedece docilmente”, porque a “Vida imita a Arte, muito mais do que a Arte imita a Vida”[56] – já nos disse Oscar Wilde no seu ensaio romanceado “A Decadência da Mentira”.

A Música e a Matemática propõem, determinam o que a Metafísica nega ou interroga – ela tem por princípio ser interrogativa. Ela não é uma tese – é antes uma hipótese. Não governa, feito os “teoremas do matemático”, mas indica, sugere, coloca sempre em questão, gera sempre dúvidas, o incerto, o “nem aqui nem lá”. A Metafísica nos parece estar nesse “entrelugar” da infinita semiose, se preenchendo e esvaziando, sugerindo e desaparecendo, que continua em movimento contínuo feito a nota de Música que ressoa nas cordas vocais de Agostinho, feito a sequência fílmica de Alejandro González Iñárritu em Birdman, feito o “jogo do texto” de Wolfgang Iser, O jogo das contas de vidro da Poesia nas “Obras póstumas de José Servo” em Hermann Hesse, a Girândola sem fim da Prosa Poética de Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela – esse jogo de “encarnações” (do autor no personagem) e “pseudônimos” (do autor nele mesmo) é também Figura (se pensarmos bem, “tudo é Figura”),  é também “proposital-intuído”.

Lamento

A nós não foi doado um ser.

Somos apenas correnteza,

Fluímos de bom grado pelas formas:

Pelo dia e a noite, a gruta e a catedral.

Por elas penetramos, incitados

Pela sede de ser.

Assim nós vamos sem repouso,

Enchendo as formas uma a uma,

Sem que nenhuma delas seja para nós

A pátria, a ventura ou a dor.

Estamos sempre a caminhar,

Somos sempre visitantes,

Não ouvimos o apelo do campo nem do arado,

Para nós não cresce o pão.

Os desígnios de Deus sobre nós nada sabemos,

Ele brinca conosco, barro em sua mão,

O barro que é mudo e tem plasticidade,

Que não sabe nem rir nem chorar:

Barro amassado, porém jamais queimado.

Ah! Quem me dera transformar-se em dura pedra!

Permanecer enfim!

É que nós aspiramos à eternidade,

Mas nossa aspiração é apenas,

Eternamente, um medroso tremor,

E não virá jamais a ser repouso em nossa via.[57]

 

“O réu foi julgado culpado Formou-se um júri para julgar os que o julgaram e estes foram julgados culpados Formou-se outro júri para julgar os que julgaram os que julgaram o réu e foram também julgados todos, culpados Então foram sendo formados júris, continuamente formados e continuamente julgando culpados os anteriores jurados até que num júri bastanto afastado daquele original que julgara o primeiro réu, alguém, um só jurado, deu por inocente o júri anterior sob seu cuidado Mas essa sentença bastou para que esse jurado fosse, por sua vez, inocentado e com ele o júri de que era jurado e com este júri os júris passados até que se resgatou o primeiro cãodenado, o réu, julgado desculpado”[58]

 03/01/16 09h40

(Há umas duas horas retornei da missa. Hoje é celebrado na Igreja Católica o dia da Epifania do Senhor. Na Igreja Primitiva – nos explica Pe. Nilo Luza no “jornalzinho-missal” –, a festa da Epifania era considerada mais importante que o Natal, por trazer o anúncio, a revelação de que o Cristo será conhecido por todos os povos, do Ocidente ao Oriente.

É sempre difícil (para mim) terminar de escrever um texto. Colocar um ponto final. Mas é preciso encerrar o número de páginas, até para que se possa “virar” mais uma página de nossas vidas, para que se possa ir em frente, continuar.)

Jacques Rolland de Renéville no XIII Capítulo[59], penúltimo capítulo de O que é criar ?, Qu’est-ce que créer?, “O eu e o outro”, Renéville trata da Obra em um triplo movimento. Ela começa com um salto para fora de si (do Criador) em direção ao Absoluto.  Em seguida trava-se (no Criador) um combate ao vazio, uma “negação” ao que já existe, pois “não se cria a partir do nada”. Até chegarmos ao retorno a si, a Criação de si mesmo como autor que a Obra permite, dá, proporciona.

Ter consciência de uma falta é o que forja o Ser Criador. Ousadamente comparamos o Criador Humano ao Criador Divino quando este, em meio à eternidade, ergue do barro a sua Criatura, Criatura feita à sua imagem e semelhança e para quem é dado também possuir o poder de criar. Na falta da Criatura, Deus criou. Na falta por algo em si, o Artista cria.

Essa falta nos atira para fora de si. Nos faz sair de um ano (2015) para outro (2016) na busca (insaciável) de ao Passado negar, ao Presente manipular o barro, para ao Futuro lançar um Ser Humano renovado. Ao deixar para trás os “nãos” da Vida, as “negações” do Mundo, vou ao encontro de textos novos – A menina do olho verde, texto ficcional de cinquenta páginas escrito em dez dias no mês de outubro de 2015, o presente estudo “forjado” nesses cinco dias de escrita (e me arrisco a “profetizar”, em vinte e cinco páginas) –, textos que me retiram do lugar, me perfazem Criadora ao mesmo tempo em que crio, relacionados com o já escrito, mas de uma maneira totalmente nova, totalmente heraclitiana desse rio que não pára nunca que é a Criação.

No artigo “Aventuras Artísticas: Incoesão e Coerência”, a minha orientadora de Mestrado, Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino distingue “coesão” e “coerência” nas obras de arte desse “Pastiche e Mistura” que é a nossa sociedade contemporânea. Ela narra que desde os dadaístas, houve a “abolição dos gêneros”, a “ democratização da arte”, mas que podemos (e devemos) ainda separar a “obra específica” – aquela “que se liga a um momento na carreira específica de um autor” – da “obra trajetória” – “que corresponde ao projeto poético de um dado artista” e engloba as “diversas fases e série de obras específicas por ele criadas ao longo de sua carreira”.

Nino nos fala também do “prazer do jogo”, essa dimensão experimental do homo ludens, do Criador, pois quando “um ser humano aprende algo, ultrapassa uma etapa, se torna mais lúcido e consciente sobre sua própria condição humana”. Podemos comparar essa reflexão de Nino com o caráter lúdico da Prosa Poética do Magister Ludi José Servo/Herman Hesse de O jogo das contas de vidro, a Palavra giratória da Girândola do Poeta de Meia-Tigela/Alves de Aquino, a experiência sublimatória nesses cinco (últimos) dias da autora que lhes escreve.

Renéville nos desperta desse nosso sonho criador, dessa nossa reflexão em círculos de autores, dessa sequência textual fluida e nos mostra que assim como os grandes poetas do século XVIII reescreveram as tragédias dos antigos gregos, a negação transformou Karl Marx no autor do Capital, o beijo ansiosamente aguardado fez Marcel Proust escrever páginas e páginas do Em busca do tempo perdido, ou possibilitou a ficcionalização da escrita de Romeu e Julieta e Noite de Reis por William Shakespeare em Shakespeare in Love (Shakespeare Apaixonado)[60] (1998).

“É porque o superego desvia nossas necessidades orgânicas de sua satisfação natural e lhes transpõe a um outro nível, ele as censura, as comprime, as sublima, que do homem surgem a arte, a literatura, a religião, a civilização”,[61] explica Renéville.

E ao chegarmos ao IX Capítulo de Qu’est-ce que créer?, às 11h09 do 03/01/2016, olhamos para trás nos perguntando se conseguimos realizar um “Pastiche e Mistura” entre O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, que por sua vez foi apontado pelas Girândola(s), de O Poeta de Meia-Tigela Alves de Aquino, que por sua vez foram apontados por Tenório e relacionados com Renéville…, ao chegarmos ao último capítulo do livro que nos serviu de base teórica, de novelo de lã que desfiamos e desfiamos de maneira (o mais possível) fluida, descobrimos uma série de entrevistas elencadas por Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino – o “inesperado bom” de Clarice Lispector – e não nos encontramos mais sós. Descobrimos nas entrevistas artistas franceses de diversas áreas, com diferentes projetos, mas semelhantes buscas, similares necessidades – até mesmo “ansiedades” – que as da autora que lhes escreve.

Em “Les secrets de la creation” – que pertence à revista Télerama n. 2175, de 18 de setembro de 1991, p. 12-26 –, um cantor (Claude Nougaro), um arquiteto (Paul Chemetov), um diretor de teatro (Patrice Chereau), um pintor (Zao Wou-Ki), um escritor (Michel Tournier), um compositor (Henri Dutilleux), um fotógrafo (Jean-Marc Tingaud), um cineasta (Jacques Doillon), e uma designer (Andree Putman) nos “relevam” – alguns não os “revelando” – os segredos de sua Criação. Alguns segredos compartilhados por mim e/ou pelo autor de Qu’est-ce que créer?: Criar é “traduzir as notas em palavras, os sons em sentidos” (Nougaro, p. 14); “cada material está em uma certa relação com os outros” (Chemetov, p. 15); “alcançar sempre descobrir sensações novas, ideias novas realizando cem vezes a mesma cena” (Chereau, p. 16); “Existem alguns momentos de milagres, mas é raro. Prefiro um trabalho contínuo e depois isso [a obra] vem pouco a pouco” (Wou-Ki, p. 18); “Para mim, é  todo o romance que é um ser vivo. Eu o educo, eu o alimento, eu obedeço às suas injunções que são às vezes terríveis” (Tournier, p. 20); “As obras às quais eu repenso com o maior prazer são aquelas em que, para me renovar, eu me impus esses riscos” (Dutilleux, p. 22); “Se eu fotografo, é para os outros… Para mim, a imagem, eu a posso ter na cabeça por anos” (Tingaud, p. 23); “Agora, o único meio de retornar a si, é recomeçar a escrever. Cada novo filme é a borracha que apaga o precedente. Mas talvez retracemos sempre o mesmo sulco, talvez nos repitamos! Se nós retornamos ao mesmo ponto, isso seria insuportável” (Doillon, p. 25); “Eu tinha naquela época o desejo de uma imensa superfície vazia – um dos primeiros lofts parisienses. E tive prazer em deixá-lo vazio. No vazio, esquecemos tudo…” (Putman, p. 26).

Os cinco dias de escrita. As vinte e cinco páginas (pro)(metidas)(fetizadas). Não repito erros (será?) antigos de publicar uma Epifania assim que escrita. Deixo o texto amadurecer para que possa transparecer (e prevalecer) o que é melhor em mim. Ou encerrando com os três Teóricos Poetas, os três Críticos Profetas que, feito os Três Reis Magos, anunciam a Epifania do Senhor para todos os povos, “peregrinos do Oriente” e do Ocidente.

“Mas suceder, ou mesmo proceder, não é resultar. A obra traduz a situação de seu autor mas em a transpondo, ela nada mais é que o conjunto de detritos de um esforço por se elevar acima de si, que fracassou, ‘um pouco mais alto’ ou ‘um pouco mais baixo’”.[62]

Um haicai

Meu sangue se esvai

(e vão as gotas no chão

compondo um haicai)[63]

 

“Depois do ardor e empenho da luta pelo seu reconhecimento, sobrevinha-lhe agora um despertar, um arrefecimento e desilusão. Achou-se no âmago de Castália, na mais alta Hierarquia, e percebeu com admirável sobriedade, quase até decepção, que era possível respirar essa tênue atmosfera, mas que ele, que a respirava agora como se nunca tivesse conhecido outra, estava sem dúvida completamente transformado. Era o fruto desse árduo período de provas que havia purificado como nenhum outro cargo, nenhum outro esforço havia feito até então.”[64]

__________________________________________________________________

* Para baixar o arquivo em PDF: Entre Qu-est-ce que créer – Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela – Patricia (Gonçalves) Tenório – 301215

__________________________________________________________________

(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Está no prelo, a ser lançado em abril de 2016 pela editora espanhola Mundi Book Ediciones, Vinte e um / Veintiuno, uma coletânea em português e espanhol de vinte e um contos escritos entre novembro de 2011 e janeiro de 2014. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2)  Uma “Epifania” semelhante a essa aconteceu em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923. Escrito em 02/01/2015. Última atualização: 25 de janeiro de 2015.

(3) TIGELA, O Poeta de Meia-. Girândola. Fortaleza, CE: Substânsia, 2015.

(4) TIGELA, o Poeta de Meia-. Op cit., p. 113, negrito nosso.

(5) HESSE, Herman apud TIGELA, o Poeta de Meia-. Op cit., p. 11.

(6) HESSE, Herman. O jogo das contas de vidro. Tradução: Lavínia A. Viotti e Flávio Vieira de Souza. Rio de Janeiro, RJ: BestBolso, 2007, p. 1.

(7) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Qu’est-ce que créer?. Paris, France: Librairie Philosophique J. Vrin, 1988 – Tradução nossa para este estudo.

(8) Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance). Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). 2014. 119 min. Estados Unidos da América. Direção: Alejandro González Iñárritu. Com Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Emma Stone, Naomi Watts.

(9) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 9-23.

(10) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6362. Escrito em 07/12/2013. Última atualização: 13 de dezembro de 2015.

(11) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 19.

(12) FALCÃO, Waldemar apud HESSE, Hermann. Op cit., p. 10.

(13) HESSE, Hermann. Op cit., p. 53.

(14) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 89.

(15) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 22.

(16) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 25-44.

(17) BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução: Paulo Neves. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, (1949 in) 2008 – (Tópicos), p. 22.

(18) HESSE, Hermann. Op cit., p. 61.

(19) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 21.

(20) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 45-64.

(21) BERGSON, Henri. A evolução criadora. Tradução: Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Ed. UNESP, (1907 in) 2010, p. 89-93.

(22) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 36.

(23) HESSE, Hermann. Op cit., p. 331, colchetes nossos.

(24) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 51.

(25) AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, (1946 in) 2011.

(26) AUERBACH, Erich. Figura. Tradução: Duda Machado. Revisão da tradução: José Marcos Macedo e Samuel Titan Jr. São Paulo: Ática, (1938 in) 1997.

(27) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 65-73.

(28) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 65.

(29) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 60.

(30) HESSE, Hermann. Op cit., p. 332, colchetes nossos.

(31) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 70.

(32) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75-86.

(33) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75.

(34) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75.

(35) HESSE, Herman. O lobo da estepe. Tradução e Prefácio: Ivo Barroso. 29ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 189.

(36) MERLEAU-PONTY, Maurice apud RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 77.

(37) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 78.

(38) Os próximos dois parágrafos encontram-se em RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 78-79.

(39) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 98.

(40) HESSE, Hermann. Op cit., p. 477-478.

(41) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 85.

(42) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87-103.

(43) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87.

(44) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 90, itálico da edição francesa.

(45) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87.

(46) HESSE, Hermann. Op cit., p. 379-380.

(47) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 66.

(48) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 97-98.

(49) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 98-99, itálico da edição francesa.

(50) AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução: L. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, (397 in) 2013 – (Vozes de Bolso), Livro XI, p. 286.

(51) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 101.

(52) EINSTEIN, Albert. A Teoria da Relatividade: sobre a Teoria da Relatividade especial e geral (para leigos). Tradução: Silvio Levy. Porto Alegre, RS: L&PM, (1916-1917 in) 2013, p. 68-69, itálico da tradução.

(53) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 105-116.

(54) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 107, itálico da edição francesa.

(55) AGOSTINHO, Santo. Op cit., p. 352 e 353-354.

(56) WILDE, Oscar. A Decadência da Mentira. In Obra completa. Volume único. Introdução geral e Nota editorial, Ensaio Biográfico-Crítico, Bibliografia, Cronologia da Vida e da Obra: James Laver. Tradução: Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, (1891 in) 2007, p. 1087.

(57) HESSE, Hermann. Op cit., p. 517-518.

(58) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 53. Esse trecho de Girândola intitula-se “Antikafkiana”, dentro de “Kafkiana”, que não nomeamos por questão de estilo, tendo visto que não trouxemos os títulos da Prosa de Hesse, e quisemos propositalmente “trocar de lugar” com a Poesia de Tigela.

(59) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 117-129.

(60) Shakespeare in Love. Shakespeare Apaixonado. 1998. 123 min. Estados Unidos da América e Reino Unido. Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman / Tom Stoppard. Com Gwyneth Paltrow, Joseph Fiennes, Judi Dench, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Collin Firth, Ben Affleck, entre outros.

(61) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 128.

(62) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 129.

(63) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 26.

(64) HESSE, Hermann. Op cit., p. 272-273.

Índex* – Maio, 2015

Eu descobri

(Tão) simples

Assim

Que gosto mesmo

(É) mais de

Mim

Hoje em dia

Chamam de egoísmo

O que seria 

Individualismo sadio

(Em outros tempos)

Quando eu era

Menina

Ouvia da aeromoça

A filosofia de avião:

De que só ajudasse 

Ao outro

A colocar a (própria)

Máscara

Quando a si mesmo

Colocar

Quando a si mesmo

Amar

Para ao outro poder 

Como a si mesmo

Amar

E a si mesmo

Amar

E a si…

(“Voo 727 e outras histórias”, Patricia Tenório, 24/05/15, 16h15)

Amar ao próximo como a si mesmo no Índex de Maio, 2015 do blog de Patricia Tenório.

“Eu, comigo e Deus” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

A ceia e outras histórias | Conceição Alves (PE – Brasil).

Nas pontas dos pés | Antonio Fabiano (PB/SP – Brasil).

Nova Crônica de Marly Mota (PE – Brasil).

“Durmo beija-flor e acordo sempre-viva” | Mara Narciso (MG – Brasil).

XIX Jornada de Estudos e Lançamento Revista Veredas Nº 17 (PE – Brasil).

E os links do mês:

“Biografia de um homem comum”, de Luiz Rufatto (SP – Brasil), na coluna Brasil do El País: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/opinion/1430319907_540182.html

“Transe Encontro”, de Danuza Lima (PE – Brasil), na coluna PalavraTório do blog de Adriano Portela (PE – Brasil) Parlatório: http://parlatorio.com/transe-encontro/

Agradeço a participação de todos e todas. A próxima postagem será em 28 de Junho de 2015. Um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Tenório.

___________________________________

Index* – May, 2015

I discovered

(So) simple

Indeed

I like more

(It’s) more of

Me

Nowadays

They call selfshiness

What it could be called 

Healthy individualism

(In other days)

When I was a

Little girl

I’ve heard from the stewardess

The philosophy of the plane:

That one only helped

Another 

To put the (own)

Mask

When yourself

Put

When yourself

Love

To another can 

As to yourself

Love

And to yourself

Love

And to you…

(“Flight 727 and other stories”, Patricia Tenório, 05/24//15, 4h15 p.m.)

Love another as to yourself in the Index of May, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

“Me, myself and God” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

The supper and other stories | Conceição Alves (PE – Brasil).

On the tiptoe | Antonio Fabiano (PB/SP – Brasil).

New Chronicle of Marly Mota (PE – Brasil).

“I sleep hummingbird and wake up evergreen” | Mara Narciso (MG – Brasil).

XIX Jorney of Studies and Launching of Magazine Veredas N. 17 (PE – Brasil).

Ant the links of the month:

“Biography of an ordinary man”, from Luiz Rufatto (SP – Brasil), in the column Brasil of El País: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/opinion/1430319907_540182.html

“Trance Meeting”, from Danuza Lima (PE – Brasil), in the column PalavraTório in the blog of Adriano Portela (PE – Brasil) Parlatório: http://parlatorio.com/transe-encontro/

Thank you for the participation of everyone. The next post will be on 28th June, 2015. A big hug and see you there,

Patricia Tenório.

___________________________________

foto Index

**

___________________________________

* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Um novo dia, para amar ao outro, como a si mesmo… Another day, to love another, as to yourself…

“Eu, comigo e Deus” | Patricia Tenório*

16/01/14

 

Ficava em 20, Maresfield Gardens, num subúrbio de Londres. Vindo de metrô, descia na estação de Hampstead Northern, atravessava a rua e subia uma ladeira. Me perdi duas vezes até encontrar a placa da casa-museu, uma casa de dois andares, tipicamente inglesa. A rua estava calma, com as folhas das árvores levitando pelo chão.

Ao entrar, encontrei uma senhora, bem velhinha, que vendia os bilhetes e souvenirs. Ela me disse que não podia fotografar, mas me chamou a um canto da loja e perguntou:

– Quer ver onde Freud encontrou Deus?

Parei um instante com a pergunta. Poderia ficar séculos remoendo em minha mente uma resposta digna de meus estudos, digna da lucidez, digna de…

– Não acredito em Deus.

Ela me olhou de mansinho. Passou a mão enrugada no meu rosto jovem. Puxou-me pelo braço.

– Venha mesmo assim.

Eu não sabia se ia ou corria embora. Mas resolvi arriscar, e resolvi caminhar pelo pequeno jardim, e me sentei em uma das espreguiçadeiras, onde um dia sentou Freud com o suposto visitante.

– Foi aqui.

Ela me deixou a sós. A sós com meus pensamentos. A sós com a possibilidade de ser Freud algum dia, um dia de verão londrino, sentando numa espreguiçadeira, com uma jarra de limonada rósea na mesa ao lado.

– Deus está aqui.

Freud se engasgou com o gelo da limonada rósea quando a moça (que será uma velhinha) trouxe um senhor de barba branca, comprida, para sentar na outra espreguiçadeira.

Ficaram os dois fazendo ninho em suas barbas brancas. “Então, assim que era Deus?”, pensou Freud, ele e os seus pensamentos que não paravam de pensar.

– Sim, sou mesmo assim. Ou de outra forma qualquer. Mas quis te aparecer como ao povo judeu, judeu que tu és.

– … produto da minha imaginação…

– Herança da tua fé.

Freud serviu-se de mais limonada. Serviu também a Deus.

– Aceita?

– Obrigado.

– Mas, ao que devo a visita?

– Tu deves saber.

– Não sei.

– Adivinha.

– Não sou bom com jogos.

– Mas desvendas estórias.

A limonada estava doce demais. Freud serviu-se de algumas pedras de gelo.

– Algum de seus filhos.

– O maior de todos.

– O Cristo?

– Exatamente. Há séculos me atormenta um fato. Por isso vim aqui falar contigo.

– Sou todo ouvidos.

– O Horto das Oliveiras.

– O Horto das Oliveiras… Da grande angústia… O suor de sangue…

– Teria ele vacilado? Será que ali meu filho, meu grande filho, o maior de todos, me traiu?

– Por que me pergunta isso? Pelo que dizem, você sabe de tudo…

– Mas eu quero saber o que tu pensas.

– Você sabe o que eu penso…

– Quero ouvir-te falar.

Freud se levantou da espreguiçadeira. Eram duas cadeiras espreguiçadeiras pintadas de branco. Antes, porém, eram na madeira, sem pintura, com apenas uma camada de verniz.

– Se eu acreditasse em você – disse Freud caminhando pelo jardim, em um típico dia de verão londrino –, eu diria que seu filho não o traiu. Aliás, nunca ele foi mais fiel do que naquele momento em que, suando sangue, antecipando tudo o que iria sofrer num futuro próximo, bem próximo, pediu “Pai, afasta de mim este cálice de amargura”, para, logo em seguida, voltar atrás e dizer “Que seja feita a tua vontade, e não a minha”.

– Mas tu não acreditas em mim.

Freud tirou do bolso uma pequena caixa de charutos.

– Aceita?

– Não, obrigado.

Acendeu o charuto, deu uns cinco passos e voltou a sentar na espreguiçadeira.

– Eu diria que ele não o traiu. As circunstâncias eram propícias para que desistisse: ele sabia que os amigos o abandonariam, que seria torturado e morto, o que tinha a seu favor? Até hoje me pergunto: “O que tinha a seu favor?” Um louco alemão que extermina judeus feito ele? Que por isso precisou fugir para a Inglaterra? Um câncer na boca que o impediria de falar? Um futuro mais que incerto, com dissidências entre os seus seguidores, julgamentos cretinos dos seus estudiosos? Não, não, ele não o traiu. Ele permaneceu coeso, coerente, com toda a sua humanidade, continuou escrevendo e fumando o seu charuto, e vivendo o restante da vida que ainda possuía.

A conversa estava fluindo bem quando a moça (que um dia será uma velhinha) interrompeu.

– Tem um rapaz, barbudo, cabelos longos, querendo falar com os senhores.

– Arrá! Agora vai ficar interessante, “Deus”! ‒ Freud fez o gesto de aspas.

Deus deu de ombros.

– Pode mandar o rapaz entrar, Fräulein, e traga mais uma cadeira para ele.

O jovem, barbudo, cabelos longos, atravessando o jardim lentamente, conversando com a moça, que seria velha um dia, explicando a diferença entre as margaridas e os girassóis, acompanhando o voo das borboletas.

Ao se aproximar de Deus e Freud, o jovem parou. Cumprimentou Deus com a cabeça. Olhou diretamente para Freud e falou:

– Prazer, sou o Cristo.

– Prazer, Sigmund Freud.

A espreguiçadeira devidamente arranjada, a limonada rósea servida.

– Bonita casa, Sigmund.

– Obrigado, Cristo, gentileza sua.

De repente, Freud começou a rir. Ria balançando os óculos, balançando o charuto, fazendo as cinzas caírem na grama bem aparada do jardim de verão londrino.

– Só falta agora o Espírito Santo!

– Mas ele já está aqui, Sigmund. Lembre-se, “Onde dois ou mais estiverem reunidos…”.

– E sua santa Mãe?

– Freud…

– Desculpe, Deus, mas não pude resistir… É tão hilário, tão absurdo! Ter vocês aqui! Os dois. Quer dizer, os três.

– Não acredita, não é, Sigmund? Quer ver minhas chagas, feito Tomé?

– Acredito no poder da mente, oh, Cristo. Acredito no poder da minha imaginação, que viaja quase dois mil anos para conversar com você e com seu pai, graças ao “Espírito Santo” – Freud com as aspas nos dedos.

Ficaram os três se entreolhando: Freud, Deus e Cristo. O Espírito Santo deveria estar protegendo o lugar, pois ninguém mais chegou e interrompeu o colóquio divino-humano.

– Mas como você ia dizendo, Deus…

– Não, eras tu quem transcorria sobre a não traição do meu filho, o maior de todos.

– Obrigado, Pai.

– Mas por que me pergunta, se ele está aqui? Ele próprio pode responder.

– Mas ele já respondeu com a própria vida. Basta.

– Sigmund, queremos saber o que você pensa.

– Mas vocês o sabem!

– Será?

– E não seria? Se vocês forem quem dizem que são e fazem o que dizem que fazem, decerto possuem a minha resposta. A propósito, como conseguiram chegar aqui e entrar com tanta facilidade? Fräulein é muito desconfiada com visitas… Entendam, o meu caso é muito delicado. Estou numa posição em que todos querem saber o que penso: o que penso de Hitler, dos campos de concentração, da mente humana, dos sonhos, de jovens escritores que um dia virão aqui visitar esta mesma casa, atravessar o mesmo jardim, e (talvez) quem sabe sentar nesta cadeira com seu bloco de anotações, caneta em punho e fazer surgir palavras – desconexas, a princípio –, mas que em seguida irão se conectando, e congruindo, e se mostrando lúcidas e coerentes. Acredito nessas palavras, nessas, eu acredito. Acredito porque foram ruminadas, e ficaram rondando e rodando a cabeça jovem sem dar explicações, simplesmente existindo. Até que o toque de uma pessoa amada, o sorriso de uma criança, ou apenas um dia de verão londrino, entre margaridas e girassóis, as borboletas em seu voo solitário, até que um desses elementos extraordinários da vida trouxesse à tona o sentido dessas palavras. O sentido que as aproximou do seu centro, e nada mais importava para quem escrevia, porque ao centro chegou.

A senhora bem velhinha tocou no meu ombro.

– Faltam dez minutos para o museu fechar.

Fiquei assim, sem palavras, meu corpo, sem movimento, porque estive eu, comigo e Deus durante a tarde inteira e não senti a tarde passar. Como se o passado, o presente e o futuro houvessem se fundido em um tempo só, e como se os personagens tivessem preenchido meu corpo, ao mesmo tempo.

Então, tempo e espaço me coabitaram. Ou melhor, tempos e personagens. Porque fui Deus, Freud e Cristo, fui o Espírito Santo entre eles.

Minhas mãos tremiam, e muito me custou juntar o bloco de anotações, a caneta, a mochila. As pernas também estavam bambas, e foi com dificuldade que me levantei e me apoiei na senhora bem velhinha para atravessar o jardim, a loja de souvenirs, a casa-museu de dois andares e chegar até a porta do 20, Maresfield Gardens.

A velhinha me acenou em despedida. Parecia mais jovem do que eu, eu que havia envelhecido séculos em uma tarde.

Ao me lembrar disso tudo, hoje, eu, com meus filhos e netos, sinto como se o tempo não houvesse passado, ou como se houvesse passado tão rápido que estivesse próxima a hora do reencontro com os personagens, no mesmo jardim inglês, naquelas espreguiçadeiras brancas.

– Vejam, ainda guardo comigo a ponta do charuto de Freud!

_________________________________________

* Patricia Gonçalves Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2015) se prepara para defender a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.  Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Índex* – Novembro, 2013

Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Sim, porque tu eras dentro de mim e eu fora ali te procuravas.

Desta forma, me jogava sobre as belas formas da tua criatura. Eras comigo, e eu não era contigo.

Me tinham longe de ti as tuas criaturas, inexistentes se não existissem em ti.

Me chamastes, e o teu grito abriu meus ouvidos; brilhastes, e o teu esplendor dissipou a minha cegueira;

difundistes a tua fragrância,  respirei e aspirei o teu encontro, degustei e tenho fome e sede; me tocastes, e eu queimei pela tua paz.

 (Livre tradução minha do italiano de trecho das “Confissões” de Santo Agostinho, Livro X, 27, 38)

 A Beleza antiga e tão nova no Índex de Novembro, 2013 do blog de Patricia Tenório.

Revisitando Patricia Tenório (PE-Brasil) com O príncipe, de Maquiavel | Uma leitura de Patricia Tenório, de Março de 2012.

Poemas de Stella Leonardos (MA/RJ – Brasil).

O retorno inglório da prima perdida | Chantal Lafaye Frazão (França/AL-Brasil).

Poemas de Luís Augusto Cassas (MA-Brasil).

Voyage au désert | Isabelle Macor-Filarska (França).

Gravuras de Almandrade (PR-Brasil).

A próxima postagem será em 29 de Dezembro de 2013.

Obrigada pela participação de todos.

Até breve,

Patricia Tenório.

_________________________________

Index* – November, 2013

 

Late have I loved you, Beauty so old and so new, late have I loved you. Yes, because you were inside me and I were looking for yourself out there.

Thus, I threw me on the beautiful shapes of your creature. You were with me, and I was not with you.

Your creatures had me far away, they were nonexistants if they weren’t existing on you.

Have called me, and thy cry opened my ears; you shined, and thy splendor dispelled my blindness;

you disseminated your fragrance, breathed and aspired finding you, tasted, and I have hunger and thirst; you touched me, and I burned for your peace.


  (Free translation from italian to portughese and from portughese to english of a stretch of St. Augustine’s “Confessions,” Book X, 27, 38)

 

Beauty so old and so new in the Index of November, 2013 in the blog of Patricia Tenório.

Revisiting Patricia Tenório (PE-Brasil) with The prince, from Maquiavel | One lecture from Patricia Tenório, March, 2012.

Poems from Stella Leonardos (MA/RJ – Brasil).

The inglorious return from the lost cousin | Chantal Lafaye Frazão (França/AL-Brasil).

Poems from Luís Augusto Cassas (MA-Brasil).

Journey to the desert | Isabelle Macor-Filarska (France).

Prints from Almandrade (PR-Brasil).

The next post will be on 29th, December, 2013.

Thank you for the participation.

See you soon,

Patricia Tenório.

 

 Sto-Agostinho-Volterra

**

_______________________________________

* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Em uma Igreja de Santo Agostinho em Volterra, Itália. In a Saint Augustine’s Church in Volterra, Italy.

Revisitando Patricia Tenório* – Novembro, 2013

Nesta edição, revisitamos “O príncipe, de Maquiavel | Uma leitura de Patricia Tenório”, de Janeiro de 2012.

Link permanente:  http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3164 

 

O príncipe, de Maquiavel | Uma leitura de Patricia Tenório

 

 Há quase 500 anos, um homem escreveu um dos maiores tratados sobre a guerra e a manutenção do poder. Em carta endereçada a Lourenço de Médicis, Nicolau Maquiavel sugere estratégias militares e políticas para induzir o príncipe a unificar a Itália.

            Maquiavel foi criticado, exilado e perseguido pela Igreja Católica. O tratado, originalmente intitulado De Principatus (Dos Principados), pode ser visto pelo âmbito contextual da época em que Maquiavel desejava retomar o posto que ocupava e do qual foi destituído. Mas, se observarmos com maior atenção, os princípios vão além da ética ou mesmo da imoralidade com que foi considerado: há verdadeiras revelações e exposições da natureza humana.

            Se utilizarmos Dos Principados como código de conduta quanto à proatividade/coragem, humildade e prudência, podemos desfrutar de lições verdadeiramente preciosas. Vejamos alguns casos:

Proatividade/Coragem:

            “(…) uma guerra não evita-se mas protela-se, e nunca em seu próprio favor. (…) o tempo tudo arrasta consigo (…) não se deve jamais dar livre curso a uma desordem para esquivar-se a uma guerra, porquanto esta não se evita mas adia-se em detrimento próprio.” [1]

Prudência:

            “… aquele que promove o poder de um outro perde o seu, pois tanto a astúcia quanto a força com as quais fora ele conquistado parecerão suspeitas aos olhos do novo poderoso.” [2]

Humildade:

            “… o homem prudente deverá constantemente seguir o itinerário percorrido pelos grandes e imitar aqueles que mostraram-se excepcionais, a fim de que, caso o seu mérito (virtù) ao deles não se iguale, possa ele ao menos recolher deste uma leve fragrância…” [3]

            Não se trata de enxergar o bem onde não existe, mas de constatar que o bem ou o mal são escolhas – contínuas – que consolidam um caráter à medida que são tomadas, para um caminho ou para o outro.

            Tragamos à luz dois outros textos, aparentemente distintos, que corroboram esse pensamento. Santo Agostinho em suas Confissões nos revela:

            “Também pude entender que são boas as coisas que se corrompem. Se fossem sumamente boas, não poderiam se corromper, como tampouco o poderiam se não fossem boas de algum modo.” [4]

E

            “… adaptados à parte inferior de tua criação, com a qual também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais diferem de ti [Deus], assim como os justos se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a ti [Deus].” [5]

            Em O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde confessa:

            “– Eu gostaria de poder amar (…) Mas parece que perdi a capacidade de sentir paixão e esqueci o desejo. Estou por demais concentrado em mim mesmo.” [6]

Ou

            “Teria sido apenas a vaidade que o fizera cometer sua única boa ação? (…) Ou a paixão de representar um papel que, às vezes, nos leva a fazer coisas mais belas do que nós?” [7]

            Sem querer fazer apologia do mal nem sustentar o poder a qualquer custo, O príncipe nos força a enfrentar a própria imagem no espelho e retirar a máscara da falsa bondade. Oscar Wilde nos adverte:

             “Os livros que o mundo chama imorais são os livros que lhe mostram sua vergonha.” [8]

            Maquiavel nos aconselha a preservação da espécie, o estabelecimento dos limites, a imposição do respeito que, desde a mais tenra idade, é preciso incutir no ser humano.

            “… os homens, afinal, atentam contra os outros homens ou por ódio ou por medo.” [9]

(…)

            “Crueldades proveitosas (se é lícito tecer elogios ao mal) pode-se chamar aquelas das quais faz-se uso uma única vez – por necessidade de segurança –, um uso no qual não mais se insiste e cujos efeitos revertem tanto quanto possível em favor dos súditos.” [10]

(…)

            “O mal, portanto, deve-se fazê-lo de um jacto, de modo que a fugacidade do seu acre sabor faça fugaz a dor que ele traz. O bem, ao contrário, deve-se concedê-lo pouco a pouco, para que seja melhor apreciado o seu gosto.” [11]

            Mas a maior lição que podemos apreender de Maquiavel é a confiança em si. Contar consigo apesar da crítica alheia, apesar dos dons e talentos que aos outros pertencem: usarmos o que nos é próprio.

            “Quando Davi foi à presença de Saul oferecer-se para lutar contra Golias – filisteu que desafiara-o –, Saul, na intenção de encorajá-lo, passou-lhe a sua própria armadura. Davi, após tê-la vestido, recusou-a, alegando que com ela não poderia valer-se das suas próprias forças, preferindo ir ao encontro do seu inimigo armado com a sua funda e com a sua faca. Numa palavra, a armadura de um outro, ou ela te cairá dos ombros, ou pesará demais sobre eles, ou te comprimirá.” [12]

 

____________________________________

Obs.: Os trechos aqui retirados dos livros não foram revisados. Respeitou-se as respectivas traduções.

(1) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, pp. 15 e 18.

(2) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 19.

(3) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 26.

(4) Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, Série Ouro, p. 155.

(5) Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, Série Ouro, p. 158.

(6) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 232.

(7) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 249.

(8) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 246.

(9) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 40.

(10) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 45.

(11) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 46.

(12) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 68-69.

* Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Acaba de receber o Prêmio Marly Mota da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto de sua obra e lançar em Paris Fără nume/Sans nom (2013), poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente se prepara para o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

Revisitando Patricia Tenório* – Março, 2013

 

Na edição deste mês, revisito “Diásporas”, postado pela primeira vez em Outubro de 2010: um diálogo entre vários tipos de textos, finalizando com “Intervalo”, extraído de Grãos, 2007.

Link Permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=540

Diásporas

30/10/10

 

Há momentos em que a vertigem me consome e imagino meu corpo ocupando o lugar do amanhã.

“Ao se transportar aos limites do dizer, numa mathesis da linguagem que não quer ser confundida com a ciência, o texto desfaz a nomeação e é essa defecção que o aproxima da fruição.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Soletro as palavras na tentativa de expurgar feridas, absorver sentidos, deixar o rio que por mim passa e faço parte do mesmo rio.

A escritura em voz alta (…) o que ela procura (numa perspectiva de fruição) são os incidentes pulsionais, a linguagem atapetada de pele, um texto em que se possa ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda: a articulação do corpo, da língua, não a do sentido, da linguagem”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

“A dor pode ser-lhe um despertador excelente, com o qual Deus faz você despertar de seus sonhos irreais ou de seus sonos profundos sem nenhum resultado.

A dor pode aproximá-lo de Deus, se é que você sabe sofrer a dor, pois do contrário talvez lhe sirva para afastá-lo mais de Deus.

Tudo depende da maneira como você se decidir a suportar a sua dor.” (Cinco Minutos de Deus, Alfonso Milagro)

Naquela página, encontro a letra de outros tempos, em lápis ainda subscrevo o pensamento onde calei um dia, no instante em que me reconheci inteira.

 “A arte forma um reino intermediário entre a realidade que faz barreira ao desejo e o mundo imaginário que o realiza.” (Sigmund Freud em O interesse da psicanálise – citado em Arte e psicanálise, Tania Rivera).

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=QG1Y05p2ezw

“O domador de bolas de sabão”**

 

Aquieto o coração mais um instante; um desejo que em mim pulsa emana os poros cheirando a jasmim.

“Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz as boas novas e anuncia a libertação, que diz a Sião: teu Deus reina!” (Isaías 52, 7)

“Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” (Isaías 55, 10-11)

Para desalojar o que penso ser sábio em mim, certo em mim, começo tudo de novo na esperança de me entender um dia.

“Reerguerás as ruínas antigas, reedificarás sobre os alicerces seculares; chamar-te-ão o reparador de brechas, o restaurador das moradias em ruínas.” (Isaías 58, 12)

Escolho rumos por onde ir, caminhos novos que poderei trilhar.

“A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória que não se pode medir. Porque não olhamos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas.” (São Paulo em 2 Cor 4, 17-18)

““Na natureza”, escreve Goethe, “nunca vemos nada isolado, mas tudo em conexão com alguma outra coisa que está diante, ao lado, sob e sobre ela.”” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Quebro a rotina com pedaços de mim que retiro aos poucos; eles vão congruindo, formando um rosto embaçado; não o reconheço ainda, mas pulsa em mim uma certa transparência. 

“Para Eisenstein, a montagem é escrita figurativa, assim como os ideogramas chineses – como os rébus no sonho, diríamos.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Espalho pelo Universo o tom da minha essência; aguardo reverberações, ressonâncias do instrumento que se afina até o final dos tempos.

“São os intervalos entre os movimentos e não os próprios movimentos, nem as imagens em movimento – que constituem o cinema.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

 

Intervalo 

(Extraído de Grãos, Patricia Tenório, 2007)

 

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando     embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.                                      

 O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

__________________________________

* Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br