Posts com Crítica

Índex* – Junho, 2017

Hoje

Ouvi estórias

Que me fizeram

Arrepiar

Que me fizeram

Acreditar

Em mera

Inspiração 

*

Mas 

Inspiração é

Carne

Inspiração é

Osso

Onde o frio

Penetra

Até o mais 

Insuportável 

*

De se criar

*

De se escrever

*

Uma estória criativa

Uma escrita criativa

A partir

De textos seus

Em busca

De textos meus

(“Ode à Escrita Criativa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 07/06/17, 18h00)

Uma Festa da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Correr com rinocerontes” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“O Jardim das Hespérides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“O amor é um lugar sozinho” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Ocaso: contos de entreluz” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco | Diversos.

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 30 de Julho de 2017, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Index* – June, 2017

Today

I heard stories

That made me

Bristle

That made me

Believe

In mere

Inspiration

*

But

Inspiration is

Meat

Inspiration is

Bone

Where the cold

Penetrates

Until the

Unbearable

*

To create

*

To write

*

A Creative Story

A Creative Writing

Starting

From your texts

In search

Of my texts

(“Ode to the Creative Writing”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/07/17, 6:00 p.m.)

 

A Creative Writing Feast in the June, 2017 Index of Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Tales for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Running with rhinos” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“The Garden of the Hesperides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“Love is a place alone” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Sundown: fairy tales” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Clear night: a romance (and a woman) in fragments” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Creative Writing Studies Group & I National Seminar on Creative Writing | Miscellaneous of authors.

Thanks for the participation and the affection, the next post will be on July 30, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Festa Criativa da turma Oficina de Criação Literária I – Narrativa, 2017.1, ministrada pelo Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUCRS – Brasil. The Creative Feast of the Classroom of Literary Creation I – Narrative, 2017.1, taught by Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, at PUCRS – Brasil.

 

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2017 & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco

Trazemos para o meio do ano de 2017, o meio do caminhar na Escrita Criativa, a importância das leituras de outros autores na nossa própria leitura e escrita de mundo. No mês de Junho, 2017 postamos neste blog trechos de autores do sul, sudeste e nordeste do Brasil que estão se influenciando, que estão se estimulando no processo do bem escrever.

Correr com rinocerontes, do professor e escritor nascido em Caxias do Sul, RS, Cristiano Baldi, nos joga no rosto, nos esmurra o estômago da nossa hipocrisia em nos sentirmos menos canalhas do que os outros, do que todos ao redor. Iremos encontrar essa verdade “jogada no rosto” em O amor é um lugar sozinho, do jornalista e escritor paulista nascido em Assis, radicado em Porto Alegre desde 2011, Luís Roberto Amabile: a verdade de não sermos nem tão bons assim, não sermos nem tão ruins assim, mas sermos apenas seres humanos – o que a narrativa contemporânea tem enfatizado veementemente.

O Jardim das Hespérides, do escritor nascido em Nova Hamburgo, RS, Daniel Gruber, desconstrói esse mito do “amor épico” e o torna mais próximo da carne, mais dentro do sangue das nossas próprias veias, com o cotidiano saturado e desgastante, a vida nos mergulhando na falta de sentido para nos agarrarmos à Arte, à Literatura, feito Homero ao mastro do navio e não se afogar com as sereias.

A “Festa” (Ocaso: contos de luz), do professor, filósofo e inquietante escritor nascido em Farroupilha, RS, Ricardo Timm Souza, nos brinda com uma estranheza semelhante àquela que encontramos nos contos do escritor de Praga, Franz Kafka, e ambos, Timm e Kafka, nos remetem a nós mesmos, e nos abandonam à solidão de nosso destino.

O escritor pernambucano Sidney Nicéas recolhe os fragmentos de uma vida e tece um romance fragmentado, fragmentário, Noite em clara, em consonância com os autores sulistas e com as escritoras e poetas Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, feito veremos mais adiante.

Esse desejo de unir as pontas de um país, em um momento em que o egoísmo, a desonestidade, a corrupção, negam o natural do ser humano que é o Amor, a Paz, a União, no momento em que nada mais reúne, a Arte vem e salva a Vida, e aponta para o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco, que acontecerá de 13 a 15 de Outubro de 2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, Recife – PE, com nomes tais como Adriano Portela (PE), Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS), André Balaio (PE), Bernadete Bruto (PE), Cida Pedrosa (PE), Daniel Gruber (RS), Elba Lins (PB/PE), Fernando de Mendonça (SP/PE/SE), Gustavo Melo Czekster (RS), Luís Roberto Amabile (SP/RS), Luisa Bérard (AL/PE), Luiz Antonio de Assis Brasil (RS), Maria do Carmo Nino (PE), María Elena Morán (Venezuela/RS), Patricia (Gonçalves) Tenório (PE), Raimundo Carreiro (PE), Robson Teles (PE), Talita Bruto (PE), Valesca de Assis (RS). Isso tudo sob a organização e maiores informações de Patricia (Gonçalves) Tenório (patriciatenorio@uol.com.br), Rogério Robalinho (rogerio@cia-eventos.com) e Sidney Nicéas (sidneyniceas@gmail.com).

E o exercício do mês de Junho, 2017 reflete esse diálogo entre escritores de todo o Brasil: a partir de “textos meus” postados no início desta edição do blog (“Intervalo” (Grãos), “O Grito” (Vinte e um) e trecho de A menina do olho verde), estimular “contos”, “poemas”, “textos seus”, trazidos ao centro por Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, nessa “Festa” literária chamada Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

Recife, 19 de Junho de 2017,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

 

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

 

No intervalo do intervalo

                                                                     

                                                        Intervalo Berna                                           

 

Escapo. Lá está ela! Um livro no colo, com nosso cigarro importado entre os dedos soltando fumaça, olhar perdido… Ainda não me viu, alheia está em suas conjecturas que chego a ler seus pensamentos… Não sou eu quem os contará! Deixa ela mesma digitar tim tim por tim tim tudo que lhe vai em mente, quando for a hora.

Alisa os grãos da areia a sua frente quase em câmara lenta com o cigarro na metade, cinzas quase caindo, divagando pela vida, alheia… Ausente da sua própria vida? Foi quando me viu. Um déjà vu… Já me viu antes. Agora acompanha meus movimentos. Finjo não notar, para quê assustá-la? Vou ganhando força. Vida própria, a cada movimento monitorado.

Ela procura algo na bolsa numa pressa danada, enquanto me sento na calçada no banco de cimento e coloco a caneca de lado. As pessoas se aproximam e ela também sentou alguns metros de orelha em pé.  De repente, não está mais tão perto, parece que se perde no meio dos pensamentos e algo a traz de volta. Ah, vejo que ela retorna quando seus olhos pousam no livro de Rilke que trouxe comigo. Ahá! Agora sei que ela deve estar imaginando o que faço com um livro desses, sendo um homem, neste mundinho pequeno. Discuto o tratado do amor com Paulo, só para agradá-la, pois sei que me ouve. Ainda que falasse a língua dos homens… Deixo-a imaginar quem seria, submeto-me aos seus julgamentos. Deixo-a divagar juntamente com sua saia rodada de festa, que balança ao vento. Seus pensamentos voam tanto que reverberam junto a mim. E neste momento, ela fecha o caderno de anotações, e olho para ela num pequeno instante. No intervalo que pode durar um século, quando os olhos se encontram num entendimento. Neste ínterim, sumo carregando comigo todos os maus pensamentos. Um personagem também tem o dom de cura.

Mateus se levanta, bate os grãos que grudavam seus pés, nas roupas, levanta-se e segue o caminho de volta a sua vida. Nem sequer nota a presença daquela Pérola. Vai de encontro ao seu destino, sem nem perceber que um pouco dele ficou naquela praia e será repartido com os outros. Pérola, vestida de festa, renascida na dor naquela praia, permanece sentada na areia com a cabeça cheia de ideias, uma caderneta fechada aprisionando um personagem e o livro de Rilke no colo cuja página marcada, passada e repassada ao vento, lhe aconselha:

“por isso, minha cara senhora, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si própria e sonde as profundidades onde sua vida brota; na sua fonte encontrará a resposta à pergunta “Devo criar?” Aceite a resposta, tal como lhe é dada, sem tentar interpretá-la. Talvez chegue à conclusão de que a arte a chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e na Natureza à qual toda a sua vida é devotada.”(*)

E o personagem chamado Mateus, lá dentro da caderneta, sorri.

Recife, 19 de maio de 2017, reformulado em 4 de junho de 2017.

* Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta. Modificação do gênero para melhor servir ao texto.

 

Texto elaborado a partir do conto “Intervalo” do livro Grãos de Patrícia Tenório.

 

Prelúdio para uma escrita criativa

Prelúdio Berna

Durante 21 dias, no intervalo de uma vida a outra, seu Muniz com olhos cheios de Grãos rondava Mateus que não achou graça, nem gostou daquela companhia. Foi quando a escritora, sentada na praia, deu um Grito alucinante reconhecendo-os de outros carnavais!!!!

Perdida com aquela situação peculiar, sem nome, mudou-se para a Cidade Universitária onde A menina de olho verde lhe esperava de braços abertos para lhe contar que se Ícaro voasse, poderia ver do alto que A mulher pela metade era aquela que não sabia que As joaninhas não metem e o melhor estava por vir. Começou a sentir o mundo como as palavras de D’Agostinho, pura poesia que voava nas mãos e resultava em Diálogos simples que chegavam aos ouvidos passando pelo coração das pessoas.

Daí em diante, a sua escrita ficou tão criativa, mas tão criativa, que formou um grupo e saiu disseminando conhecimento como o Major intuíra desde sempre.

E ela foi feliz para sempre sem Intervalos.

 

Recife, 29 de Maio de 2017 reformulado em 3 de Junho de 2017.

Texto elaborado a partir dos nomes do livros da Escritora Patricia Tenório e uma homenagem ao Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

 

E DE REPENTE SEUS OLHOS

Recife, 28 de maio de 2017.

 

“ Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído, deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.”(1)

 

Este foi o primeiro pensamento que surgiu na minha cabeça, há cinco anos quando vi Augusto pela primeira vez – o jeito engraçado dele andar.

Depois, ele chegou mais perto e de repente vi seus olhos… eram olhos azulados, da cor do mar. Do mar para onde me levaria e onde, pescador, me aprisionaria na rede e no seu olhar marinho.

Cada dia seu, desenhava o meu, pois não conseguia me libertar dos seus braços âncoras.

 

“Reconheci no teu canto

Um convite pra te amar

Retiramos nossos mantos

Descobri tuas riquezas

A pérola do teu sorriso

O brilho do teu olhar

 

Exploraste meus segredos

Saciaste meus desejos

Provei o sal do teu beijo

Passeei entre as estrelas

E ancorei no teu cais”. (2)

 

Meu caminho era agora azul, minha rota era o mar. Augusto me fez sereia, e meu canto o seduziu até o dia em que mergulhou sozinho e me deixou a esperar no cais, agora pedra, agora espuma…

Só vejo chuvas, águas barrentas, não mais o azul a lavar minha alma e iluminar o meu olhar.

Augusto possivelmente se foi, se tornou sal, se quedou para sempre no fundo do mar.

Mas aqui sozinha ainda espero o sol e pelo menos a cor azul do seu olhar.

 

– TENÓRIO, Patrícia. GRÃOS – Conto “Intervalo”. Calibán, 2007

– LINS, Elba. Poema Sem Pecado 22.08.2009

 

 

Até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó hás de tornar. (Gen. 3,19)

 

“O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas. Moraria na caixa de madeira.”  (ref. 1)

Finalmente, Mateus!

Eu não ficaria a te olhar de longe

Ansiando por tocar na tua pele

 

Agora

Viajaria no vento amigo

Que entra em todas as casas

Que assanha cabelos

E para o qual nada é segredo

 

E, nesta viagem infinda,

Aportaria nos teus braços

Invadiria tuas reservas

Teu corpo enfim,

Seria meu

Seria eu

Grão de areia

A invadir segredos

A passear pelos bolsos

Nas tuas calças e camisa

 

Faria carícia

Arranhando teu peito

E enfim descobriria,

Os segredos da caixa de madeira

Que tantas vezes

Me transformou em curiosa.

 

 

Referências:

– TENÓRIO, Patrícia. GRÃOS – Conto “Intervalo”. Calibán, 2007

– ANDRADE BARBOSA, Rogério. O FILHO DO VENTO. DCL, 2013

 

(Eu Sou o Pó e Retornarei

Elba Lins – 02.06.2017

Após reler “Intervalo” e ao escrever lembrei O Filho do Vento)

 

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Luisa Bérard

falecom@luisaberard.com.br

 

ALIANÇA DE BRILHANTE

 

O brilho promissor de uma nova vida

Que se desejou esplendorosa e bela,

Desponta ofuscante, valiosa e eterna

Na aliança que um dia me presenteou.

 

Em que pese a desventura do fim,

Permeada de tristeza e desilusão,

Não tenho forças para dela me desfazer

Por simbolizar o seu amor por mim!

 

Como foi dolorido ter de lhe esquecer,

Para deixar de sofrer e poder sobreviver,

Quando o meu romântico coração

Só desejava amor, paixão e compreensão.

 

E na estrada fria e distante da separação,

Aquela aliança é a forma de manter

Gravada na minha saudosa memória

Os sonhos perdidos da nossa história.

 

O DESPERTAR DA ESCRITA

 

Escrever…

Por quê?!

Senão a necessidade de expurgar a dor;

Fantasiar mundos;

Viver outras identidades;

Divagar em infindáveis possibilidades;

Numa incessante tentativa de recriar

A realidade ao meu redor.

 

No descortinar das emoções,

Onde escrever é viver!

Os personagens ganham independência,

Preenchendo os vazios da existência.

Se o despertar da escrita

Deu-se pela solidão do dia-a-dia,

Ouso ironicamente dizer:

Ao menos teve uma utilidade o meu sofrer!

 

 

Índex* – Maio, 2017

Tempo morto

Aquele de

Se esperar

E nunca

Alcança

Aquele de

Ver o mar

E não enxergar

A paisagem 

Aquele de 

Abrir os olhos

E não ter

Porque viver

*

Tempo torto

Que vive

Embriagando

As minhas buscas

Que traça

A imensidão 

Do meu destino

E me deixa

Parada entre os caminhos

*

Tempo solto

Que faz

Endoidecer 

Os meus ouvidos

Que floresce

Nas saias de meus vestidos

E concede

Um pouco de paz

Um pouco de amor

(“Triplo presente”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 16/05/17, 07h40)

*

Tempo morto

quello per aspettare

e mai raggiungere

quello per vedere il mare

e non guardare il paesaggio

quello per aprire gli occhi

e non sapere perchè vivere

*

Tempo contorto

che ubriaca le mie ricerche

che traccia l’immensità del mio destino

lasciandomi ferma tra i percorsi

*

Tempo liberato

che fa impazzire le mie orecchie

che fiorisce tra le pieghe del mio vestito

e concede un po’ di pace

un po’ d’amore.

(TRIPLO PRESENTE (Patricia Tenorio), Traduzione dal portoghese: Alfredo Tagliavia, 21/05/2017)

*

O Tempo solto entre os Espaços, entre os Signos, entre as Artes no Índex de Maio, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Conto intersemiótico | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Semiose poética” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“À Cidade” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

A automedicação na prática | Mara Narciso (MG – Brasil).

A caixa e seus guardados | Marly Mota (PE – Brasil).

“Vida em veios”, de Regina Rapacci  (SP – Brasil) | Apresentação de Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Agradeço a atenção e delicadeza, a próxima postagem será em 25 de Junho, 2017, um abraço bem grande e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – May, 2017

Dead time

That of

Waiting

And never

Reaching

That of

Seeing the sea

And not seeing

The landscape

That of

Openning the eyes

And not having

A reason to live

*

Crooked time

That lives

Intoxicating

My searches

That traces

The immensity

Of my destiny

And leaves me

Stopped between the paths

*

Loose time

That goes 

Freaking out

My ears

That flourishes

In the skirts of my dresses

And grants

A little bit of peace

A little bit of love

(“Triple present”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 05/16/17, 07h40)

*

The Loose Time between Spaces, between the Signs, between the Arts in the Index of May, 2017 of the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Intersemiotic Tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Poetic Semiosis” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“To The City” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

Self-medication in practice | Mara Narciso (MG – Brasil).

The box and its saved | Marly Mota (PE – Brasil).

“Life in veins”, by Regina Rapacci (SP – Brasil) | Presentation by Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Study Group on Creative Writing – May, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Thanks for the attention and delicacy, the next post will be on June 25, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Entre Recife e Porto Alegre, a Teoria e a Ficção, a Vida e a Arte. Between Recife and Porto Alegre, Theory and Ficcion, Life and Art. 

“Vida em veios”, de Regina Rapacci* | Apresentação de Fred Linardi**

Velamos os mortos, mas queremos mesmo é velar a morte. Uma das maiores questões humanas é também aquela para a qual somos menos preparados para lidar. Em nossa cultura, o luto prefere a cor preta da tristeza à possível alvura e leveza do eterno descanso.

Há quem prefira o branco (ou azul) e, com essa clareza, se faz corajosa e abre as portas da compreensão para falar sobre a finitude da vida. É o que acompanhamos neste ensaio narrativo que vem a público dez anos depois que Regina Rapacci viu sua mãe ser consumida por uma rara e indócil doença. Ao lado de sua irmã, Ana, começou a corrida pela descoberta, tratamento para a cura e, por fim, a lucidez para lidar com a dor do outro e de si.

Antes da morte, no entanto, há vida e seus emaranhados de relações que a mitologia clássica e a psicologia se empenharam em traduzir através de suas histórias e análises. Diante de nossos relacionamentos, falar sobre a morte carnal parece ficar bem mais simples. Afinal, quantas vezes precisamos, simbolicamente, matar nossos pais em vida para podermos encontrar nossos próprios caminhos?

Da relação de Regina e sua mãe, a morte veio para fazer do nó um laço que, organizado fio a fio, fez desse tecido uma forte e atemporal ligação entre mãe e filha. Disso, a tradução melhor do que é o amor de fato.

Do mundo tecnológico e sintético da ciência à lembrança de que somos seres regidos por uma natureza mais forte, havemos de nos lembrar de que – não importa o que nos apoia – ainda somos seres sujeitos à dor e ao sofrimento. E que eles sejam bem-vindos para aqueles que buscam uma vida plena, finita de fato enquanto matéria, mas não necessariamente como memória.

Que a vida se revele.

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* Extraído de Vida em veios. Regina Rapacci. Apresentação de Fred Linardi. Ilustrações de Frederico Boldrin Ferraciolli. São Paulo: Biografias e Profecias, 2016.

** Contatofred.linardi@gmail.com

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2017 | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

A experiência do mês de Maio, 2017 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa é tecer uma comparação entre o ensaio “A Filosofia da Composição” (1846) do escritor, poeta, crítico e editor estadudinense, nascido em Boston, Massachusetts, Edgar Allan Poe (1809-1849), e o Diário dos Moedeiros Falsos (1927), no qual o escritor francês, nascido em Paris, André Gide (1869-1951), analisa a construção do seu único romance Os Moedeiros Falsos (1925).

A criação é inerente ao ser humano, já dizia em Criatividade e processos de criação (1977 in (1987)) da artista plástica e teórica de arte, nascida em Łódź, Polônia, e residente no Brasil a partir de 1934, Fayga Ostrower (1920-2001). Em cada ato, reflexão, verso escrito, pincelada, ou lapidação do mármore, na construção de um romance, o artista enfrenta a tensão psíquica necessária para que exploda a Criação.

Vejamos o que têm a nos dizer, neste mês de Maio, 2017, os escritores e poetas, de hoje, de ontem, de amanhã, André Gide e Edgar Allan Poe, Bernadete Bruto e Elba Lins.

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

Meu corvo da sorte

No meio do caminho

Diferentemente do poema

Num repetido fonema

Falando de morte

 Ver um animal de poder

Bem na minha frente

Propiciando-me a sorte!

                                                                                    

O que podia causar horror

Pousava esta alegria 

Em poder até dizer 

Ao invés do nunca

Para sempre

Sempre mais

Mais e mais

Para sempre

 Viva!

(Bernadete Bruto, 01 de Maio de 2017)

 

André Gide e Edgar Allan Poe : dois exemplos de escrita criativa

 

Muitos escritores produzem e acompanham sua produção por meio de algum registro. Analisamos aqui a criação dos escritores André Gide e Edgar Allan Poe.

O escritor André Gide escreveu um romance chamado os Moedeiros Falsos e, ao mesmo tempo, criou um diário enquanto escrevia esta obra: O Diário dos Moedeiros Falsos. É muito interessante acompanhar o desenvolvimento do raciocínio feito por Gide no decorrer do seu diário, que também foi publicado.

Por outro lado, Edgar Allan Poe nos presenteia com um estudo do seu famoso poema “O Corvo” no capítulo “A Filosofia da Composição” do livro Poemas e ensaios. Neste, Allan Poe decompõe sua ideia demonstrando que elaborou o poema nos mínimos detalhes, no sentido de causar o efeito que causa em que o lê.

Observamos duas formas diferentes dos escritores apresentarem o esboço de sua obra. O primeiro escritor parece que foi anotando consecutivamente no seu diário as observações de suas ideias para chegar à construção do livro. O segundo parte do poema já construído e nos informa como ele concebeu a sua obra, passo a passo.

Imagino se esses escritores fossem construtores, nós teríamos com Gide uma descrição detalhada de todo o processo da construção da sua obra e no caso de Allan Poe, teríamos uma obra pronta com comentários sobre como ela foi edificada.

A princípio fico imaginando que temos muito mais riqueza no Diário dos Moedeiros Falsos, que é um processo gradativo do método criativo do escritor e de sua obra.  Pois, ponderaria que no caso de Allan Poe teríamos muito mais uma descrição do autor de como ele formou a ideia de preparar o poema “O Corvo e de que modo a conceber elementos que atingissem ao público, sendo um poema bem arquitetado. Talvez por isso, noto que Allan Poe explana um processo nada próximo à inspiração, contudo de uma construção proposital. O poema é magistral! Na história, na sonoridade, como no prenúncio de sua própria história futura (alguém que perde a adorada e fica sem conseguir deglutir este dor – a perda da pessoa amada).

Com Gide, observamos o sentimento mais presente na organização da sua obra, assim nos sentimos ao ler o diário. Muito embora, penso que, provavelmente, também o diário foi reorganizado em formato a ser publicado, ou talvez pela história que André Gide conta no livro, quem sabe fosse esta a intenção desde o início? O que igualaria os dois no papel de construtores bem racionais das obras aqui analisadas.

No entanto, não há garantias… Ambos nos entregam um trabalho sobre um trabalho, com toda certeza foram elaborados e reelaborados.  Nisso vemos que em ambos havia a preocupação em explicar seu processo criativo. Talvez como forma de ensinamento a outros que pretendam escrever, ou porque era de ambos a profissão de critico literário? Ou na certeza de que seus trabalhos valiam tanto, que seria importante deixar mais essa contribuição sobre a concepção da obra.

Destaco aqui algumas observações de outros sobre cada um dos escritores, com a finalidade de uma opinião diversa enriqueça esta análise.

Sobre Allan Poe, temos entre várias, esta observação de Filipe V. Almeida:

“Nessa obra poética, assim como em seus trabalhos em prosa há um elemento de estranheza que gera o clima de melancolia, medo e suspense. Embora tudo esteja no limiar entre fantasia e realidade improvável, nesse ensaio ele esclarece que o seu intuito é o de nunca ultrapassar aquilo que é realmente possível. No poema ele imagina o estudante dialogando com um corvo que só sabe repetir “nunca mais”, todavia essa disposição do estudante em ouvir as respostas que ele já prevê e fazer perguntas que se encaixem vêm, de acordo com Poe, da “sede por se torturar” e “em parte por superstição”. Ainda assim, ele entende que essa abordagem calculada e distanciada pode comprometer a qualidade artística da obra.”(1)

Sobre Gide temos o comentário de Luiz Horácio Rodrigues:

“Edouard, assim como Gide, escreve um diário. As semelhanças entre esses escritos permitem ao leitor a percepção de um livro dentro do livro. Diário dos moedeiros falsos permite visualizar a construção dos personagens e deixa nítidas as marcas meta-literárias.” (2)

Por fim, sobre o processo criativo dos escritores em geral temos a seguinte observação:

“Não gostaria de afirmar que sempre, mas, às vezes até na contramão, o diário do escritor revela alguma coisa sobre sua postura criativa. Blanchot argumenta que Virginia Woolf  escreve seu diário para “não se perder naquela prova que é a arte, que é a exigência sem limite da arte”. Isso diz muito da poética de Woolf, de seu rigor com relação a sua própria literatura. Mas o diário não explica um romance, por exemplo. A “Gênese do Dr. Fausto” de Thomas Mann, que é um relato sobre a construção da obra, não aumenta nossa compreensão do livro. Nem o Diário dos moedeiros falsos de Gide ilumina a obscuridade da ficção. Ao, aparentemente, tentá-lo, Mann e Gide escrevem novas obras, não explicam as anteriores.”

O certo mesmo é que gostei de ambos os trabalhos, porque cada um me proporcionou um ensinamento diferenciado. Pude ler algo mais sobre eles e sinto que ambos foram muito criativos e meticulosamente artífices de excelentes obras da literatura, portanto estou muito agradecida!

Merci, André Gide! Thank you, Edgar Allan Poe!

 

Texto elaborado em Recife, 9 de Maio de 2017, reformulado em 15 de Maio de 2017 e efetuada correções após a aula em 20 de Maio de 2017.

  1. Almeida, Filipe V. http://www.pantagruelista.com/blog/poe-como-escrever-o-corvo
  2. Rodrigues, Luiz Horácio. http://omundodeligialopes.blogspot.com.br/
  3. Ávila, Myriam. http://qorpus.paginas.ufsc.br/%E2%80%9C-a-procura-de-autor%E2%80%9D/edicao-n-21/entrevista-com-myriam-avila/

 

        OBS: Em cada link tem muito mais!!!!

 

 

Elba Lins

elbalins@gmail.com

Poesias.

Não exigem planos,

Planejamentos, planilhas,

Como num trabalho de engenharia.

 

Ela nasce do impulso,

Vem pronta.

Não aceita correções,

Revisões,

Edições 1, 2, 3…

 

Brota inteira

Brota ligeira

E vive por si só.

(POESIAS 04.02.2004 15:30h)

 

Comparação entre a análise do poema O Corvo de Edgar Allan Poe em A Filosofia da Composição e o processo de construção dos Moedeiros Falsos por André Gide a partir do Diário dos Moedeiros Falsos.

Recife, 17 de maio de 2017.

 

Para atender à solicitação do Grupo de Estudos em Escrita Criativa a partir d’“A Filosofia da Composição” e d’O Diário dos Moedeiros Falsos esboçei as semelhanças e diferenças na forma de escrever de Edgar Allan Poe e André Gide.

Antes mesmo de iniciar minhas impressões gostaria de chamar atenção para um ponto: enquanto no Diário dos Moedeiros Falsos, André Gide vai escrevendo sobre a construção do seu Os Moedeiros Falsos seguindo a cronologia da criação, Poe escreve sobre uma obra já realizada, embora diga que nunca teve a menor dificuldade de relembrar os passos progressivos de nenhuma de suas obras.

Desde os primeiros parágrafos, Edgar Allan Poe deixa clara a importância de que, na criação de um texto ou poesia, primeiramente sejam elaboradas todas as intrigas, antes de se iniciar a escrita. Daí devem se direcionar o enredo e os fatos de tal forma que seja atingido o fim projetado.

“Nada é mais claro do que deverem todas as intrigas, dignas desse nome, ser elaboradas em relação ao epílogo, antes que se tente qualquer coisa com a pena. Só tendo o epílogo constantemente em vista, poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de consequência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua intenção.” (Ref.3, pág.101).

André Gide por sua vez, fala logo de início que tem muita matéria para um livro e por este motivo fez o Diário. Pelo que fica claro Gide vai escrevendo sobre vários assuntos, para só depois encaixá-los ou não no romance.

 “Acredito que haja matéria para dois livros e estou começando este caderno para tentar deslindar os elementos de tonalidade demasiado diferentes. ” (Ref.4, pág.18).

Embora a princípio estas duas colocações não pareçam tão divergentes, vamos observando as diferenças a partir das diversas colocações dos dois autores.

Sobre a condição de analisar a construção de uma obra, Poe afirma não ter o menor problema e escolhe “O Corvo” por ser mais conhecida e diz que nada na sua composição foi obra do acaso ou intuição. Afirma que a construção do poema foi planejada com rigor matemático que o levasse ao final, ao clímax esperado. Para o resultado perseguido, pouco houve de insight ou inspiração, mas muito esforço e pesquisa.

“… não se deve encarar como falta de decoro de minha parte, o mostrar o modus operandi pelo qual uma de minhas obras se completou. Escolhi “O Corvo”, como mais geralmente conhecida. É meu desígnio tornar manifesto que nenhum ponto de sua composição se refere ao acaso, ou à intuição, que o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com a precisão e a sequência rígida de um problema matemático” (Ref.3, pág.103).

Edgar Allan Poe chega ao ponto de fazer uma cronologia dos aspectos considerados na elaboração do poema (Ref.3, pág. 103 a 107) de modo a obter o efeito desejado:

A intenção – compor um poema que agradasse à crítica e ao público;

A extensão – ele optou por uma extensão de cerca de cem versos e o poema ficou com cento e oito versos;

Uma impressão ou efeito – A beleza como efeito, para a excitação ou elevação agradável da alma;

O tom – Escolheu a Tristeza, pois entende a melancolia como o mais legítimo dos tons poéticos;

– Um efeito artístico agudo, uma nota-chave, “um eixo básico sobre o qual toda a estrutura devesse girar”– escolheu o Refrão /monotonia do som/refrão breve/refrão sonoro/ uma única palavra, Never More (Nunca Mais). Com esta combinação de elementos ele decide por usar como motivação dois amantes afastados pela morte da jovem, além da melancolia e do lúgubre representado pelo corvo para traduzi-los na poesia planejada.

Com as decisões tomadas acima, Poe tem em mãos todas as ferramentas e cria o poema a partir do final “por onde devem começar todas as obras de arte”.

Enquanto Poe afirma sem pudor todo um controle sobre a obra, Gide vai anotando tudo o que surge como possibilidade, mas se mostra indeciso da atratividade do assunto quando se aproxima o momento da execução da obra.

“Sempre chega um momento, que precede bem de perto o da execução, em que o assunto parece despojar-se de todo atrativo, de todo encanto, de toda atmosfera; (…) ao ponto de que, desapaixonados dele, amaldiçoamos essa espécie de pacto secreto ao qual estamos presos, (…). Gostaríamos de abandonar a partida…” (Ref.4, pág.21).

Enquanto Poe caracteriza sua poesia com um caráter de precisão matemática, vê-se na construção de Guide uma certa organicidade, onde o material coletado por ele vai se transformando, se moldando ao texto final como se fosse um organismo vivo. Tanto que em certo ponto ele coloca no seu diário:

“O livro, agora parece às vezes dotado de vida própria; dir-se-ia uma planta que se desenvolve, e meu cérebro não é mais que o vaso cheio de terra que a alimenta e a contém. Até me parece que não é conveniente tentar ‘forçar’ (em parênteses na referência 4) a planta; que é melhor deixar seus brotos se incharem, as hastes se estenderem, os frutos se adoçarem lentamente; pois que procurando antecipar a época de maturação natural, compromete-se a plenitude do seu sabor. ” (Ref.4, pág.89 e 90).

Para se ter uma ideia do caráter orgânico e não definitivo do projeto de Guide para os Moedeiros Falsos relaciono algumas colocações feitas ao longo do diário:

– Mesmo tendo iniciado o projeto do livro anotando cenas, diálogos, personagens, que podem vir a ser aproveitados no romance, alguns pontos não são a princípio definidos por Guide, como a época da ação,

“Por certo não é oportuno situar a ação deste livro antes da guerra, e incluir nele preocupações históricas; não posso ao mesmo tempo ser retrospectivo e atual. ” (Ref.4, pág.18).

– O personagem Lafcadio não chega a ser usado no romance, entretanto as suas características e até situações anotadas vão ser usadas para compor mais de um personagem.

– Caracterizando a constante otimização do seu romance

“Profitendieu deve ser redesenhado completamente. Não o conhecia suficientemente quando se lançou em meu livro. Ele é muito mais interessante do que eu sabia. ” (Ref.4, pág.98).

Finalizo com os mesmos argumentos usados no seu início. Tendo em vista que a análise feita por Poe é posterior à obra, na minha percepção ficou mais fácil para ele colocar certas peças, ou as peças certas, no quebra-cabeça. As anotações de Guide por outro lado, são feitas durante o processo, o que dá mais legitimidade ao registro, onde se consegue captar, com o fervilhar de sua mente criativa no dia a dia, durante a preparação e execução da obra. Entramos em contato com o que despertou seu interesse, com as suas expectativas sobre certa cena escrita que muitas vezes nem será utilizada ou será de uma forma diversa da planejada. É como ter à sua disposição muitas peças de quebra-cabeça com características tais que podem ser usadas em diversas posições, até mesmo pelo lado contrário, ou podem até mesmo ser subdivididas, de modo a dar uma melhor imagem ao quadro.

A partir de tudo que já foi colocado eu diria que Poe privilegia a FORMA enquanto Gide privilegia o CONTEÚDO. Poe planeja a forma ideal e vai inserindo o conteúdo.  Gide vai coletando/esboçando o conteúdo para dar posteriormente a forma ao romance.

 

Referências:

 

1  –  “O Corvo” (Edgar Allan Poe). Tradução Fernando Pessoa em Fernando Pessoa – Obra Poética – Editora Nova Aguilar. Páginas 631 a 633.

2 – “O Corvo” (Edgar Allan Poe). Tradução de Milton Amado.   http://www.casadobruxo.com.br/poesia/e/edgar06.htm.

3 – A Filosofia da Composição – do livro Poemas e Ensaios de Edgar Allan Poe. Tradução Oscar Mendes e Milton Amado. Editora Globo.

4 – Diário dos Moedeiros Falsos – André Gide. Editora Estação Liberdade.

5 – Os Moedeiros Falsos – André Gide. Editora Estação Liberdade.

Índex* – Abril, 2017

Perdi

A capacidade de dizer

Bom dia

Senti

A necessidade de dizer

Te amo

Mas as palavras 

Não estavam lá

Não estão aqui

Dentro do meu

Peito

Soltas na minha

Língua

Para saírem

Quando quiserem

Quando puderem

Fazer um mundo

Mais colorido

Trazer o sonho

Para o dia-a-dia

E amanhecer em mim 

Um gosto bom

De infância

(“O fim das lentes cor-de-rosa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 23/04/17, 05h02)

 

A capacidade de transmutar Vida em Poesia no Índex de Abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto circense (e prefigural) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

Un Poema de Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 28 de Maio de 2017, um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – April, 2017

I’ve lost

The ability to say

Good Morning

I felt

The need to say

I love you

But the words

They were not there

They were not here

Inside my

Chest

Loose in my

Tongue

To get out

When they want

When they can

Make a world

More colorful

Bring the dream

To the day by day

And dawn on me

A good taste of

Childhood

(“The end of the pink lenses”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/23/17, 05h02)

 

The ability to transmute Life in Poetry in the Index of April, 2017 in Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Little circus (and prefigural) tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

About “There is no tomorrow”, from Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

About “The Book of Puppies”, from Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

A Poem by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing – April, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the affection and participation, the next post will be on May 28, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Transmutando Vida em Poesia no Jardim do Baobá, em Recife, PE – Brasil. Transmuting Life in Poetry in the Garden of Baobab, in Recife, PE – Brasil.

Pequeno conto circense (e prefigural)* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

12/04/2017 19h40

 

O problema era querer ser equilibrista e viver na mesma época de Kafka.

O problema era caminhar na corda bamba e ser observado o tempo inteiro por aquele sujeito alto, forte, e sorridente lá embaixo – porque ele, Kafka, era tudo isso, e não franzino, pequeno e triste.

O problema era saber-se objeto de contemplação do escritor inquietante de Praga, e perceber cada movimento sendo captado, sendo transformado em conto literário, conto que narra personagens circenses.

Josué assim sente, assim se emoldura. Ele sabe que de um lado a outro da corda bamba será transmutado em Pequena dor.

Pudera. Josué prefigura o que o personagem de Kafka preencherá, e, de repente, o equilibrista prova um gosto amargo na boca.

A mãe leva Josué ao médico. O pai procura a cartomante e ela prevê – que está próxima a queda do filho, o fim do equilibrista do circo Roskhóv.

Josué (Joshua) não aceita o seu destino. Atravessa a Praça da Staré Město, alcança o Relógio Astronômico, vai à Staroměstské Náměstí 22, e procura Franz (Frantisěk) Kafka. O primeiro se apresenta. O segundo convida a entrar. E sentam. E o chá é servido segundo os costumes da época.

A mãe de Kafka estranha aquele rapaz franzino, pequeno e triste que conversa com o filho na sala. Na realidade, o rapaz fala e o filho apenas toma notas numa caderneta de capa dura marrom.

O filho tosse um pouco.

A mãe se preocupa.

E pede ao rapaz franzino, pequeno e triste que volte um outro dia, quem sabe eles conversem uma outra hora sobre o problema que precisam resolver.

Mas ainda não.

Kafka, quando vê a mãe caminhando para a sala, adianta ao personagem:

– Da próxima vez em que atravessar a corda bamba, olhe para baixo como se fosse a última vez.

 

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Escrito a partir de: a-experiencia-de-uma-artista-da-fome-patricia-tenorio-270115

** Patricia Gonçalves Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados e defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no Doutorado em Escrita Criativa.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br      

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 12h49

 

Esta é a terceira vez que narro a paralisia que me invade quando tento ler um livro bom. Aconteceu com O mar, de John Banville. Com os livros do escritor e professor universitário paulista-pernambucano, residente em Aracajú, SE, Fernando de Mendonça (1984), Detalhe em H[1] e 23 de Novembro.[2] Sei que é um livro bom – já fui impactada anteriormente por suas faíscas –, mas insisto em permanecer paralisada, bloqueada, feito em um espelho de cristal.

Feito em um espelho de águas. Narciso paralisa diante de sua própria imagem. Eu cristalizo diante de Não há amanhã,[3] do escritor gaúcho Gustavo Melo Czekester (1976). Paralisei em 2016 com O homem despedaçado,[4] seu primeiro livro de contos, a ponto de nada conseguir falar, nenhuma palavra balbuciar após a leitura impactante.

Após a leitura inquietante que faço hoje do segundo livro de contos (são 30) de Czekster. Começo com “Não morto, apenas dormindo” e sinto a falta de palavras que prefigurei me preencher novamente, assim como aconteceu em “Um mundo de moscas” do primeiro livro.

“Então, eis o que era morrer – ficar o tempo todo sonhando com mortes, uma atrás da outra, sem receber ligações, esquecido. Através da janela, viu moscas infestando o pátio e, ao olhar o seu braço, gritou ao vê-lo se desfazendo em um mosaico raivoso de zumbidos, voltando a si quando bateu com a cabeça na janela, meu Deus, tinha dormido acordado!” (CZEKSTER, 2017, p. 14)

O braço se desfazendo “em um mosaico raivoso de zumbidos”, feito as moscas que criaram os seres humanos – afirmava Anton Lopez para mim em 2016.

“Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa.” (CZEKSTER, 2011, p. 19)

Eis o inquietante que encontramos em Czekster, Mendonça, Banville… Amabile.[5] “O inquietante”[6] de Sigmund Freud (1856-1939) amplamente analisado no texto de mesmo nome de 1919. O unheimilich  que transita entre o familiar e o desconhecido, entre a palavra e o silêncio, entre a vida e a morte. Freud analisa o termo desde a sua etmologia em várias línguas – inclusive na versão brasileira traduzida do inglês da Standart Edition aparece como “O estranho” –, quanto em um texto do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822), mais conhecido por E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia” (1816).

Em “O homem de areia”, Hoffmann narra a história de Natanael, que é assombrado, desde a infância, com a suposta existência de um homem de areia que arranca os olhos das crianças e dá para alimentar seus filhotes, feito fosse uma espécie de abutre, ou coruja. Em “O inquietante”, Freud alerta para o complexo de castração no personagem principal, Natanael, ao mesmo tempo que me faz lembrar de outro texto seu chamado “Os arruinados pelo êxito”,[7] que aparentemente pertence ao mesmo volume (XIV) das obras completas do pai da psicanálise, no qual analisa a histeria a partir do sucesso, e não do fracasso – como normalmente acontece –, investigando as peças teatrais “Macbeth”, de William Shakespeare (1564-1616), e “Rosmersholm”, de Henrik Ibsen (1828-1906).

Podemos encontrar este “inquietante” em textos de Franz Kafka, Thomas Mann, Friedrich Dürrenmatt, mas também dos mais próximos – mais próximos no duplo sentido do tempo e do espaço – Fernando de Mendonça, Luís Roberto Amabile, Alexandra Lopes da Cunha[7]… e também nos contos do escritor e advogado gaúcho Gustavo Melo Czekster.

 

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(1) MENDONÇA, Fernando de. Um Detalhe em H. Recife: Grupo Paés, 2012. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809

(2) MENDONÇA, Fernando de. 23 de Novembro. Recife: Grupo Paés, 2014. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923

(3) CZEKSTER, Gustavo Melo. Não há amanhã. Porto Alegre: Zouk, 2017.

(4) CZEKSTER, Gustavo Melo. O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6683

(5) Vide em outro post do mês de abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7359

(6)  FREUD, S. “O inquietante”, in: Obras completas vol. XIV, São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 328-373, [FREUD, S. “Das UNHEIMLICHE”, in: FREUD, S. Der Moses des Michelangelo, Frankfurt a. M.: Fischer, 1992(1996), p. 135-172].

(7)  FREUD, S. “A história do movimento psicanalítico”. Volume XIV. Comentários e notas: James Strachey. Tradução sob Direção-Geral e Revisão Técnica: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

(8) Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6963

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 10h33

 

Conheci o escritor paulista, nascido em Assis, residente em Porto Alegre, Luís Roberto Amabile (1977), em outubro de 2015. Virtualmente. Pesquisava sobre a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico para escrever um artigo[1] que em mim pulsava, e ele, “virtualmente”, respondia algumas perguntas minhas.[2] Algumas inquietações.

“– Essa discussão nunca fez muito sentido para mim. Nunca consegui entender porque a Escrita Criativa incomoda tanto as pessoas. Parece-me uma visão mística do escritor como um sujeito escolhido, ou ainda uma visão elitista, só os bem nascidos e que tiveram uma ótima formação cultural, sendo estimulados a ler e escrever desde cedo, podem escrever livros.

Quanto a estar ou não na academia, acho natural que alguém que queira escrever se interesse pelo menos um pouco por teoria e que, para mim, o contato com o ambiente acadêmico, a discussão de textos, torna mais palpável a literatura e a escrita, por mais que na hora do fluxo criativo, quando a coisa está fluindo, eu não pense em teóricos.

Mais duas considerações. Primeiro, os cursos de artes plásticas, cinemas, teatro existem há bastante tempo, inclusive com programas de pós-graduação, e os projetos de conclusão são eventualmente obras de artes, hoje em dia não se discute a validade desses cursos. E, segundo, já foi provado nas experiências em vários países que os cursos de EC na universidade dão bons frutos. Então que faça Escrita Criativa quem acredite ser válido e que fique longe quem não ache válido.” (AMABILE, 2013)

O segundo conhecimento foi há alguns meses no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, onde cursamos o Doutorado em Escrita Criativa. Tornamo-nos colegas, muito em parte por causa daquela entrevista que atravessou o tempo, a distância e a impossibilidade que tornou-se realidade graças ao amor à ficção.

O terceiro conhecimento vem agora com O livro dos cachorros,[3] gentilmente presenteado por Amabile, nessa troca lúdica e utópica de livros entre escritores e que tentarei, infelizmente por causa do tempo – escrevo hoje, no voo de uma hora e meia de Porto Alegre para São Paulo, para postar domingo, 30/04/2017 –, passar de maneira breve algumas impressões.

Amabile segue o fio condutor, ou melhor, a coleira-guia de todos os cachorros do mundo. Cachorros que considera (até) bem melhores que os seres humanos.

“Outro trecho: Cachorro. Não sei por que o nome desse ser tão nobre é usado de forma negativa. É um desrespeito. Um disparate. Cachorros são puros e fiéis. São sinceros e encantadores. Os cachorros nos amam, senhor juiz, e podem inclusive nos fazer felizes. Muito.” (AMABILE, 2015, p. 55)

Mas não se enganem. Os 32 contos (entre eles filhotes-mini-contos) amabilianos não contam apenas cachorros e sua incontestável superioridade neste mundo caótico e frio no qual nos encontramos. Eles nos contam dessa inquietude, desse inquietante[4] tão próprio da natureza humana que, nos parece, a Literatura com L Maiúsculo nos propicia aliviar.

“O senhor K. seria um sonhador, mas, como sonhava apenas pesadelos, era mais um pesadelador. Podia fazer, o senhor K., esse uso do idioma, agregando palavras, porque o falava de um modo alternativo, sobretudo incomum. Na verdade, não era o seu idioma, e não o era duplamente. O senhor K. pertencia a um outro país, a um outro povo, e apenas por falta de opção, e por coerção, praticava aquele idioma.” (AMABILE, 2015, p. 31)

O comandante acaba de anunciar que estamos nos preparando para aterrisar em Congonhas, SP. Devo encerrar esta breve análise de um livro que tem muito mais a nos dizer, a nos contar, a nos granir, a nos sonhar.

Deixo, então, os leitores – assim como eu na escritura – com um gostinho de quero mais, e que esse gostinho de quero mais vença e nos leve até o final das mais de 120 páginas desse livro inquietante chamado O livro dos cachorros, de Luís Roberto Amabile.

 

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(1) Vide “A perda da aura nas Fotografias para Imaginar, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico)” em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7095

(2) Vide “Entrevista: escritor de volta à escola?” de Davi Boaventura a Luís Roberto Amabile no Jornal iTEIA em 09/09/2013: http://www.iteia.org.br/jornal/entrevista-escritor-de-volta-a-escola

(3) AMABILE, Luís Roberto. O livro dos cachorros. São Paulo: Patuá, 2015.

(4) Sobre esse “inquietante”, tratamos em “Sobre Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekester, nesta mesma postagem do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório. Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7356

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017

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Um mês e parece um ano… Quanto aconteceu desde o último encontro do Grupo de Estudos em Escrita Criativa… Novas participantes. Novas leituras e inquietações.

Seguimos no rastro da Crítica Genética com a intuição de quando investigamos o nosso próprio processo criativo nos abrimos mais para investigarmos o do outro – assim como o cisco no olho do irmão que “vemos”, ao invés de “enxergarmos” a trave em nossos olhos nublados pela vaidade e prepotência, tão comuns nos escritores, nos artistas de uma maneira geral… Mas, principalmente: para melhor nos conhecer e sermos mais conscientes na nossa escrita.

No mês de abril, nos detivemos no esboço. O esboço que encontramos em O museu imaginário (1965), do escritor francês, nascido em Paris, André Malraux (1901-1976). Descobrimos que, além do Museu Imaginário ser aquele que insere obras desconhecidas em um contexto mais abrangente, o esboço, em certas obras, é infinitamente maior do que as obras ditas finalizadas. Outro teórico que analisa o esboço e que podemos acrescentar às nossas pesquisas chama-se Louis Hay, quando, em “Autobiografia de uma gênese”, investiga a gênese passo a passo de Os moedeiros falsos, do escritor francês, nascido em Paris, André Gide, a partir do seu Diário dos Moedeiros Falsos.

É com esse desafio que as participantes do Grupo de Estudos em Escrita Criativa “por vir” apresentam seus questionamentos sobre o próprio processo criativo, nessa tentativa de conciliação entre a Teoria e a Poesia, a Crítica e a Ficção, a Vida e a Arte, tentativa que acredito ser alimento à Criação.

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

CRÍTICA GENETICA DE TEXTO PRODUZIDO PARA O GRUPO DE ESTUDO DE ESCRITA CRIATIVA

Um texto são palavras imobilizadas no papel pela química da tinta.

O visível é apenas uma linha discreta que sugere o invisível,

o sem nome, o que não pode ser dito.

Estórias são como poemas. Não são para serem entendidas.

 (RUBEM ALVES in Lições de feitiçaria)

Passaremos a analisar, com base na Critica Genética, o primeiro texto que produzi para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa, Jornada Rumo à Poesia da Vida, cujo esboço apresentamos abaixo:

jornada rumo a poesia da vida .cg_1 (1)

jornada rumo a poesia da vida .cg_2

jornada rumo a poesia da vida .cg_3

 

Observa-se que, no primeiro momento, após a ideia surgir em mente, ela foi transcrita para um caderno de anotações. Em primeiro lugar, nota-se o parágrafo inicial escrito com um tipo de caneta, para no seguinte ser escrito com outro  (provavelmente pela facilidade de escrita com caneta de ponta mais fina, a preferência da escritora). O que recordo é que o texto foi escrito num só momento. Nota-se que o titulo foi escrito após o encerramento do texto, pois a cor da caneta revela esta situação e é comum acontecer esta dinâmica no meu processo produtivo. As alterações observadas no texto são seguramente fruto de uma segunda leitura, reorganizadas em um segundo momento, inclusive aquela marcada por um asterisco (também me recordo desta ocorrência).

A elaboração do texto apresentada acima é indicada por Roberto Zular (1).

“Essas interferências entre um sistema e outro, da mesma forma que o diálogo entre texto e pensamento, entre notas de leitura e obra lida, embarcam o pesquisador em uma nova aventura: a estética da criação. Porque, ao comparar dois processos, já não estamos estudando o processo de criação de uma obra literária ou artística determinada. Estamos tentando encontrar matrizes da criação, ou diferenças, procurando entender o funcionamento dos processos criativos como um todo.”

Partindo desta análise, podemos constatar as palavras que foram trocadas, corrigidas, substituídas ou até mesmo suprimidas e podemos entender o processo criativo do escritor, como diz Cecilia Moreira Salles (2):

“O foco de interesse, portanto, é o valor que o artista dá aos diversos momentos da obra em construção, levando a optar por esta ou aquela versão. Ficamos conhecendo, assim, os valores (ou alguns valores) estéticos daquele artista que conduzem a construção de suas obras e não os valores do crítico.”

Ou seja, ela (2) afirma que: “O papel do crítico genético é, portanto, acompanhar o processo criador a partir de uma determinada perspectiva crítica, na busca por explicações sobre o ato criador.”

Afirmação confirmada com o primeiro olhar sobre o texto que analiso, quando me debruço sobre a observação do texto escrito e suas rasuras, fica aqui bem exemplificado quando Cecília (2) diz:

“Além disso, o crítico genético vê que o processo criativo não é feito só de insights inapreensíveis e indiscerníveis, como romanticamente alguns gostam de pensar. Há, sim, esses momentos sensíveis da criação, aos quais não temos acesso; momentos que são fonte de ideias novas, ou seja, momentos de criação. O crítico genético assiste à continuidade, no fluxo do processo criativo, desses instantes iluminados. A pesquisa genética concentra-se na continuidade do pensamento que se vai desenvolvendo em direção à concretização desses momentos de descoberta.”

Visto isso, passamos a analisar o texto digitado, percebendo que já é fruto de uma nova elaboração, decorrente das correções efetuadas da leitura em grupo, e ação da própria digitação que proporciona as correções devidas. Esta é a vantagem de fazer uma análise critica sobre uma obra própria. Poder recordar de algo que influenciou o texto e não se encontra registrado no papel. Talvez por isso, deduzo que num estudo de outro autor, fosse interessante uma entrevista sobre o seu processo criativo, antes de proceder à análise.

No caso em particular desta análise, houve o texto anterior escrito à mão. Muito embora não havendo, também se poderia pelos recursos da informática observar as modificações sofridas no texto digitado conforme bem explica Philippe Willemart (3)… 

“Destaca também o objeto da crítica genética que não é necessariamente o que antecede a obra, mas os processos de criação e, enfim, ressalta o lugar essencial da crítica genética na era do computador, já que o disco rígido mantém todas as mudanças provocadas pelas rasuras ou substituições se tiver o software adequado.”

Com relação ao processo histórico de nosso texto, notamos que foi digitado com data de 28 de julho de 2016, época em que foi produzido manualmente, pois a escritora tem o costume de colocar a data que realizou a produção escrita. O arquivo digital está salvo com a data de 20 de agosto de 2016, data em que foram efetuadas as últimas modificações do texto conforme veremos a seguir, podendo observar que houve um acréscimo de um pensamento antecedendo o texto, pensamento que foi incluído no sentido de enfatizar o dom de contar uma história e também foi modificada a ordem do título do texto ao final, modificação sugerida pela organizadora do grupo de estudos. Eis o texto final:

“O dom essencial da história tem dois aspectos: que no mínimo reste uma  criatura que saiba contar histórias e que, com esse relato, as forças maiores do amor, da misericórdia, da generosidade e da perseverança sejam continuamente invocadas a se fazer presentes no mundo .

(Clarissa Pinkola Estés in O dom da história)

 

“Eram uma vez palavras mal feitas, desordenadas à procura de um significado próprio que lhes concedesse uma estética ideal no profundo vazio da caneta e do papel submetido ao intrínseco inconsciente do Escrevinhador.

Um dia, a mente do Escrevinhador de tanto rodar à cata do ideal, mergulhou no universo íntimo das palavras, pronto para o desafio lançado pelo mundo exterior e, de repente, foram surgindo todo tipo de palavras!

As primeiras vieram manifestando-se no peso do negativismo assim: ”não sei!”, “não vai dar certo!”. Não! Não! Eram palavras que voam daquele universo esbarrando de encontro à mente do Escrevinhador.

Por algum tempo foi dessa maneira, até que timidamente foram surgindo alternadamente as palavras estrelares. Apareciam como luzinhas fracas, contudo de um brilho intenso a piscar e transformar-se em palavras coloridas, brilhantes que foram aumentando sua irradiação, aumentando, aumentando até capturarem aquelas cheias de negativismo no laço da verdade que lhes dizia: “vocês são mera ilusão”! “Por trás tudo é bom, belo e afirmativo!”

A partir daquele vislumbre consciente, como que por encanto, as palavras negativas, Puff! Sumiram! Podendo o Escrevinhador dizer com firmeza: “eu agora digo sim! Sim às palavras boas, criativas”. E foi nessa vibração que as palavras boas, as mesmas que os indígenas chamam Porã Hei, desceram em forma de um cocar multicolorido coroando a imaginação do Escrevinhador.

Daí então ele escreve cheio de energia palavras que brilham no papel. Não sabe ainda que essas palavras se organizam direito para fazer a prosa, no entanto, há algum tempo, vive cheio de alegria porque encontrou um caminho na vida e toda a sua poesia!”

(Jornada rumo à poesia da vida – Bernadete Bruto,- 28/Julho/2016)

Verificamos ainda que o texto foi digitado em uma fonte imitando a letra cursiva, no sentido de dar uma personalidade maior ao texto e aproximá-lo mais do leitor (torno a confirmar esta ideia). Tudo isso é objeto da Crítica Genética.

Da mesma forma poderíamos acrescentar à análise algumas observações da grafologia, no sentido de enriquecê-la. Para ficar menos tendenciosa a minha análise, foi solicitado a outra pessoa que identificasse as informações grafológicas  referenciadas na Internet (4). Assim a pessoa constatou haver uma pressão média na minha escrita, revelando uma pessoa relativamente calma e centrada (naquele momento, observação nossa). Também, ainda por esse motivo, há indicação de que a escritora pode ter uma boa percepção ou memória. Foi identificada uma leve inclinação para a direita no texto escrito, indicando que a escritora está ansiosa para escrever ou escrevendo de maneira rápida e enérgica (concordo com a maneira rápida). E em relação ao espaçamento do texto escrito, no caso, há um bom espaçamento entre as palavras, fator apontado por alguns grafólogos como indicativo de pessoa que demonstra pensamentos mais claros e mais organizados. Essas observações da grafologia podem servir como mais um estudo para contribuir à Crítica Genética, mas esses indicativos devem ser utilizados com muita ponderação, pois como o estudo informa, trata-se de uma indicativo, não uma certeza.

Inclusive, porque há uma tendência de no futuro tudo ser muito mais digital, havendo mais facilidade de investigar as modificações dos textos digitados, assim como destaca Philippe Willemart (3):  

“A primeira etapa de qualquer estudo genético com manuscritos – decifrar, datar, classificar e transcrever de um modo legível os textos – será dispensável. Nem precisará do estudo das filigranas, da análise da tinta e do papel para ajudar na datação das versões.”

No entanto, ainda se faz necessário este estudo para compreender melhor o processo criativo, pois no caso em particular, ainda houve o texto escrito.

Por fim, verifica-se com esta análise que, ao procurarmos seguir o raciocínio sugerido pelos geneticistas das palavras, que é o método de destrinchar o texto escrito e digitado, constatamos que na Critica Genética a real importância é o que diz Almuth Grésillon (4):

“Não é a psicologia do autor nem a biografia da obra que importaria narrar, mas é um antetexto, com o conjunto das marcas conservadas, que se deve estabelecer. A partir de então, o geneticista, assumindo sua própria subjetividade (portanto sem procurar imitar a do escritor), construirá hipóteses sobre a trajetória escritural do processo em questão.”

O que posso afirmar ao final desta análise, é que foi extremamente interessante observar na prática o que a teoria indicava. Comprovar na prática muitas das observações da Crítica Genética, o que possibilitou um entendimento muito melhor da parte teórica e um conhecimento do que seja Crítica Genética. Além de possibilitar outro olhar sobre mim, do meu processo criativo. O resto foi puro divertimento! Até as três frases de Rubem Alves, propositalmente escolhidas e apresentadas na abertura desta análise, brinca com tudo que foi dito. Como agora, ao assinar este texto nesta data, corroborando minhas conjecturas, além de ter arquivo digital como minha testemunha.

Recife, 1º de Abril de 2017.

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  1. Zular, Roberto. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2003000200012
  1. Salles, Cecilia Almeida. Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação artística. 3ª ed. revista. São Paulo: EDUC, 2008.
  1. Philippe Willemart: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2008000100010
  1. Grésillon, Almuth: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141991000100002
  1. http://pt.wikihow.com/Analisar-Caligrafia-(Grafologia)

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

DA LOUCURA –

Análise a partir da Crítica Genética

 

A proposta do GEEC para este mês é elaborar a Crítica Genética de um pequeno texto ou poema.

 

Algumas vezes a gênese de um texto e em especial dos poemas,  acontece na cabeça do escritor e já vai tomando  corpo, antes mesmo que se pegue o lápis ou computador. Eles são construídos, quase que completamente, a partir de uma ideia ou frase que surge não se sabe de onde. Depois que se  passa para o papel ou digita-se no computador, alterações julgadas necessárias vão sendo inseridas no texto original. Outras vezes já se inicia a digitação ou a escrita a partir da primeira fagulha que chega à mente. Rosa Monteiro em A Louca da Casa faz referência ao processo de criação que acontece com todo ser humano e suas lembranças, “É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça”. Sobre a Crítica Genética na construção de seus textos identificamos na pág. 12 “Já redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos (…) na minha cabeça vou deslocando as vírgulas, trocando um verbo por outro, afinando um adjetivo”.

 

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Escolho fazer a Crítica Genética do poema Da Loucura, escrito inicialmente como prosa, a partir da leitura do livro O Amante, de Marguerite Duras.

 Após concluir o texto manuscrito, marquei algumas palavras para escolha e substituição conforme assinalado na revisão 0:

Na parte do texto “…mas sem saber que era o falso Amor…” , fiquei inclinada a substituir mas por e, mas não o fiz e alterei para “…mas sem saber que ele era o falso Amor…”.  Fiz esta mudança para dar ao sujeito (falso Amor) mais personalidade.

Marquei vários verbos (perdia, deixava, suplicava, mendigava, se tornava, deixaram, traziam, duraria e fizesse) para decidir se alteraria o tempo verbal e na maior parte deles optei por uma ideia de término, de passado, de finalização e assim substituí o pretérito imperfeito para pretérito perfeito.

No caso específico dos verbos suplicar, mendigar deixei no pretérito imperfeito dando uma ideia de um calvário, e tornar deixei no pretérito perfeito fechando o resultado das duas ações acima.

As mudanças no texto original (rev. 0) foram feitas diretamente no computador mas incluí a revisão 1 para deixar mais didático as várias alterações que trouxe para a versão final digitada.

A revisão 1 nos mostra como ficou o texto a partir das decisões tomadas acima. Vale ressaltar ainda que :

O texto foi criado inicialmente como prosa mas alterado para poesia (ou prosa poética) para dar melhor ritmo na leitura.

Substituí “A partir daí já não era mais ela” por “A partir daí ela não era mais a Solidãopara caracterizar a situação da personagem antes de se envolver com o Amor.

Retirado do texto “se permitir”, “agora” e feitas mais algumas pequenas alterações para otimizar o poema.

 

“A Solidão encontrou o Amor e sem saber que ele era o falso amor, se deixou seduzir e ser invadida pela Paixão.

A partir daí, ela não era mais a Solidão, era um ser apaixonado, escravizado,

Que por medo de perder o estado de graça, de cair na desgraça, se deixou massacrar,

Se fez dependente, de uma palavra, de um gesto…

Suplicava amor,
Mendigava paixão,
Se tornou loucura.

E onde ficou seu orgulho, que a deixava aqui, ouvindo impropérios

Que não lhe permitia fugir da vergonha, da loucura,

De percorrer ruas vazias em busca do que pensava amor.

Ela agora trazia no corpo e na alma as marcas deste Amor/Desamor.
Que durou dias, meses, anos…
Até que a força do hábito a fez optar

E mudar outra vez o seu nome, para Solidão.”

(“Da Loucura” –
Elba Lins
02.01.2017
Durante a leitura de O Amante, de Marguerite Duras)