Posts com Crítica

Índex* – Outubro, 2018

Você pode

Nem me ver

Nem me enxergar

Mas o sol 

Brilha mais forte

No céu

Mais azul

Deslizam nuvens

Branquinhas

A me chamar

Você pode

Não me ouvir

Não me escutar

Mas o bem-te-vi

Cantou mais cedo

O som das folhas nas árvores

A brisa a me contar

Que hoje

É dia de sim

Dia de se acordar

Sair para a vida

De peito aberto

Pés descalços 

Abraçar o mar

(“Porque, afinal, o mar existe”, Patricia Gonçalves Tenório, 28/09/2018, 07h37)

 

O infinito mar da Escrita Criativa no Índex de Outubro, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

“Doze horas”: O mito individual em uma autobioficção | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Uma crônica e um poema de viagem | Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PE/PB – Brasil).

Convite | “Sobre a escrita criativa II” | Diversos.

Amizade de teclado | Mara Narciso (MG – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Outubro, 2018 | Recife e Porto Alegre | Diversos.

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 25 de Novembro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – October, 2018

 

You can

Do not see me

Do not even see me

But the sun

Shines stronger

In the sky

Bluer

Slip clouds

Bright white

Call me

You can

Do not listen to me

Do not even listen to me

But the nightingale

Sang early

The sound of the leaves in the trees

The breeze to tell me

That today

It’s a yes day

Day to wake up

Go out to life

Open-breasted

Bare feet

*

Embrace the sea

(“Because, after all, the sea exists”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/28/2018, 07h37)

 

The infinite sea of Creative Writing in the Index of October, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

“Twelve Hours”: The Individual Myth in an Autobiography | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

A Chronicle and a Traveling Poem | Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PE/PB – Brasil).

Invitation | “About Creative Writing II” | Several.

Keyboard Friendship | Mara Narciso (MG – Brasil).

Studies in Creative Writing – October, 2018 | Recife and Porto Alegre | Several.

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on November 25, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Esse infinito mar chamado Vida. Fotografia: George Barbosa (PE – Brasil). This infinite sea called Life. Photography: George Barbosa (PE – Brasil).  

 

Convite | “Sobre a escrita criativa II”

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A coletânea de artigos Sobre a escrita criativa II traz textos sobre processos criativos em várias áreas de artes, especialmente na literatura. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes da Cunha, Amilcar Bettega, Andrezza Postay, Annie Piaget Müller, Antonio Aílton, Bernadete Bruto, Bernardo José de Moraes Bueno, Camilo Mattar Raabe, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Mendonça, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Paulo Ricardo Kralik Angelini, Patricia Gonçalves Tenório, Ricardo Timm de Souza, Tiago Germano, Sobre a escrita criativa II dá continuidade ao projeto de divulgação do que tem sido feito em termos de escrita criativa no país iniciado no primeiro volume.

Design: Jaíne Cintra

Revisão: Ana Lúcia Gusmão e Sandra Freitas

Impressão: Ricardo Barbosa – Provisual

367 páginas      R$ 40,00     Raio de Sol – Recife/PE

Contato: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com

Índex* – Setembro, 2018**

Não fugir 

Das minhas perdas

Enfrentar 

Os obstáculos 

E mesmo assim

Considerar-me

 

Como vim

À vida

Como voltarei 

Ao mundo

Das palavras

 

E me tornarei

Vestígios de sentido

Que a minha mão

Tomou papel e tinta

E reverberou no universo

(“A partícula de Deus”, Patricia Gonçalves Tenório, 15/09/2018, 05h50)

 

Enfrentar os obstáculos da Escrita Criativa no Índex de Setembro, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Uma escrita coletiva | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

“Cadê Miguel?” | Carol Bradley (PE – Brasil).

“A cigarra e a formiga” | Cilene Santos (PE – Brasil).

Ed Arruda em “O Silêncio das palavras” (PE – Brasil).

“Algumas rimas” | José Genecy Monte (RN – Brasil).

“Ipê amarelo” | Raldianny Pereira (PB/PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Setembro, 2018 – Recife e Porto Alegre | Diversos.

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será, excepcionalmente, em 21 de Outubro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – September, 2018

 

Do not run away

Of my losses

Face

The obstacles

And yet

Consider myself

Lonely

 

How did I come to

Life

How do i come back

To the world

Of the words

 

And I will become

Powder

Traces of meaning

That my hand

Took paper and ink

And reverberated in the universe

(“The particle of God”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/15/2018, 05:50 a.m.)

 

Facing the obstacles of Creative Writing on Index of  September, 2018 of Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

A collective writing | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

“Where’s Miguel?” | Carol Bradley (PE – Brasil).

“The cicada and the ant” | Cilene Santos (PE – Brasil).

Ed Arruda in “The Silence of Words” (PE – Brasil).

“Some rhymes” | José Genecy Monte (RN – Brasil).

“Yellow Ipê” | Raldianny Pereira (PB/PE – Brasil).

Studies in Creative Writing – September, 2018 – Recife and Porto Alegre | Several.

Thank you for the attention and the affection, the next post will be, exceptionally, on October 21, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Foto Índex

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Eu, uma partícula de Deus (Sairé, PE – Brasil). I, a particle of God (Sairé, PE – Brasil).

 

Uma escrita coletiva | Patricia Gonçalves Tenório*

Dizem que a Odisséia, um dos textos atávicos da literatura ocidental, foi recolhida de histórias da narrativa oral e inscrita sob a égide de Homero.

Em 2013, estava eu na Universidade Federal de Pernambuco como ouvinte/aluna especial na disciplina A poética do ensaio, sob os cuidados de Prof. Lourival Holanda (PE). Estava me preparando para a seleção do Mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Literatura e Intersemiose, orientada pela Prof. Maria do Carmo Nino (PE). Contava com colegas brilhantes e acolhedores, que, além de teóricos, eram belíssimos poetas, ficcionistas. Entre eles, Ricardo Nonato (BA), Antonio Aílton (MA), Hudson Silva (PI), Cassiana Grigoletto (RS), Fernando Ivo (PE), André Santos (RJ), Vinícius Gomes (PE), Ingrid Rodrigues (PE), Adriano Portela (PE), Cilene Santos (PE), Joanita Baú (PA), Fernando de Mendonça (SP/PE), e tantos outros, compartilhando os ensinamentos de Holanda, e nos provocando. Estimulando a escrita de textos teóricos, mas, principalmente, poético-ficcionais. Nascia na época o Coffee-Break, grupo de Facebook onde criávamos, quase que diariamente, poemas, contos, de maneira individual, mas mergulhados nessa alma coletiva.

Em 2016, me lancei a outras pairagens. Dessa vez como ouvinte/aluna especial no doutorado do Programa de Pós-graduação em Escrita Criativa da PUCRS, ingressando como aluna vínculo em 2017. Sob a batuta do Prof. Luiz Antonio de Assis Brasil (RS) nas suas Oficinas de Criação I – Narrativa, conheci poetas e ficcionistas do Brasil inteiro, mas principalmente do Rio Grande do Sul, tais como Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS), Gustavo Melo Czekster (RS), Annie Müller (RS), Luís Roberto Amabile (SP/RS), María Elena Moran (Venezuela/RS), Daniel Gruber (RS), Guilherme Azambuja Castro (RS), Tiago Germano (PB/RS), Débora Ferraz (PE/RS), Júlia Dantas (RS), Andrezza Postay (RS), Camilo Mattar (RS), Fred Linardi (SP/RS), Gisela Rodriguez (RS). E tantos outros, e muitos mais, que também me acolheram e descortinaram esse infinito de possibilidades da Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico no país.

Duas cidades. Dois universos tão próximos graças ao amor à literatura, ao desejo extremo do bem escrever. E esses meus dois amores me impulsionaram a tentar uní-los, a realizar em outubro de 2017, em parceria com a XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, na figura de Rogério Robalinho (PE), e com a PUCRS, nas figuras dos Profs. Assis Brasil, Maria Eunice Moreira (RS) e Cláudia Brescancini (RS), o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco, trazendo autores gaúchos para conhecer, e trocar, e começar a construir juntos com autores pernambucanos esse meu sonho-ponte de uma Pós-graduação em Escrita Criativa no Recife.

Para tentar tornar real aquilo que prefigurei em A menina do olho verde (2016) no capítulo A cidade universitária: “Foram derrubados os muros da cidade. O Muro Alto não existia mais. Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler. Era bom aquele começo, com a esperança no coração”.

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* Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e, a partir de outubro de 2018, doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

 

Estudos em Escrita Criativa – Setembro, 2018 | Recife e Porto Alegre

Nos aproximamos dos últimos encontros de 2018 dos Estudos em Escrita Criativa em Recife e Porto Alegre.

E que alegria ver o resultado dessa construção… Textos ficcionais e poéticos de beleza ímpar, inspirados nos teóricos, ficcionistas e artistas da primeira parte dos encontros, nos depoimentos, na terceira parte, dos escritores convidados em parceria com a UBE em Recife, com a PUCRS em Porto Alegre.

Em Setembro, 2018 trabalhamos O sonho. Navegamos pelo inconsciente de Jung, Freud, a ficção de Arthur Schnitzler, Chistopher Nolan, e tantos outros. Recebemos Ana Maria César nas terras pernambucanas. Voamos para nos encontrar com Gisela Rodriguez e Fred Linardi no pampa gaúcho.

Outubro, 2018 será muito especial. Trabalharemos teóricos e ficcionistas, artes plásticas, cinema, música sob o tema da imagem. Receberemos em Recife, no dia 06/10, das 10h às 13h, a nossa queridíssima orientadora de mestrado na UFPE, a artista plástica, professora, curadora Maria do Carmo Nino. Em Porto Alegre, os doutorandos em Escrita Criativa também queridíssimos da PUCRS, María Elena Morán e Daniel Gruber, na noite de 10/10, das 18h30 às 21h. E muito mais!

E apresento os textos maravilhosos dos participantes dos encontros sobre O sonho de Recife e Porto Alegre, já sentindo o gostinho de quero mais que os nossos Estudos em Escrita Criativa vão deixar em todos nós…

Um abraço bem grande da

Patricia Gonçalves Tenório.

 

EEC Setembro Recife

Recife, 01/09/2018

 

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

SONHO DE UMA NOITE DE SONHOS

 

Estaria participando daquela festa? Parecia um palco e nele um aglomerado de pessoas ensaiando várias apresentações. Todas unidas para dar certo, colaborando entre si para o trabalho conjunto.

O local parecia uma quadra. Estava escuro e não dava para observar nitidamente as pessoas. Intuía que fossem várias: homens, mulheres, jovens, crianças. Estaria naquele espaço um pouco distante, como se fosse uma observadora, embora ciente de que entraria, em breve, para junto daquela multidão superatarefada, parecendo um enxame de abelhas de tanto movimento.

Mais além um casal estaria lhe observando os movimentos em outro espaço contíguo ao palco dos artistas. Olhou para o casal, ciente que se uniria a eles numa dança para voltar completa.

De volta ao palco, juntar-se-ia àquela multidão e se dissolveria totalmente naquela coreografia, alegre, vibrante, agora colorida.

Abriu os olhos e pensou que, talvez, um dia (ou mesmo numa noite), enxergaria bem melhor o sonho da verdadeira dança da vida.

 

 

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

A PROVA DO CRIME QUE NÃO COMETI

 

Dos sonhos que tive, poucos eu me lembro. Mas, dos poucos, um me atordoou. Os acontecimentos foram tão claros, decisivos e inequívocos que eu mesma tive que lutar comigo, para me convencer de que eu era inocente. Estava voltando para a minha cidade, quando recebi uma mensagem de uma amiga, do tempo do internato. Naquele final de semana eu ficaria em casa de parentes, que residiam no interior, mas o convite era irrecusável: um final de semana na casa daquela amiga, cuja morada ficava entre as serras. Amigos se encontrariam para uma comemoração, da qual, o motivo seria mantido em segredo. Até a chegada de todos. Comuniquei aos familiares e desviei a minha rota.

Cheguei ao destino no finalzinho da tarde da sexta-feira. Fui recebida pelo dono da casa, que me deixou muito à vontade. A minha amiga Carol, era esse o seu nome, não se encontrava, havia ido ao salão de beleza, preparar-se para a grande noite.  Fui levada à suíte que ocuparia. Aproveitei para relaxar um pouco. Estava cansada da viagem. Quando acordei, já era noite. Tomei um banho quente, estava frio o tempo. Botei uma roupa apropriada para o momento, fiz uma leve maquiagem e desci ao térreo, onde ficava a sala de recepções. Lá, muitos convidados já se encontravam. O ambiente ricamente decorado. Flores, as mais belas. Lindos lustres iluminavam cada recanto da casa. Na varanda, uma orquestra tocava bonitas canções. Alguns casais dançavam. E lá no alto, entre as montanhas, uma lua cheia completava o lindo quadro.

Num momento, a orquestra parou e ouvimos a voz de Carol agradecendo a presença de todos e dando a grande notícia: “estava grávida!” Dali, seguiram-se abraços, beijos, sorrisos e lágrimas de alegria. A orquestra voltou a tocar e o jantar foi servido. Pratos saborosos, acompanhados  de um bom vinho animaram mais aquele momento. À meia-noite, despediram-se os últimos convidados.

Recolhi-me aos aposentos. Dormi rápido e, como sempre, acordei cedo. O sol não havia ainda saído de todo. Só alguns raios sugeriam o amanhecer. Abri as janelas para aproveitar aquele ar puro. Tamanha foi a minha surpresa, ao olhar a piscina, que perdi o controle emocional: um corpo boiava!  Corri ao banheiro, botei um vestido, peguei a bolsa e saí rápido. Ninguém me viu. O temor e o terror dificultaram-me pôr a chave na ignição. Saí a toda velocidade. Já havia me distanciado quando lembrei que havia deixado a roupa de dormir no banheiro. E lembrei também que, desde o tempo do internato, adquirira o hábito de colocar no avesso das minhas vestimentas, as iniciais do meu nome. Acordei apavorada.

 

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

DESASSOSSEGO NOTURNO

 

Lembraria por muito tempo, o desassossego.

Vindo de noites longínquas…

E buscaria explicar, tentaria entender

O significado de tudo aquilo

Eram tentativas inúteis

De expulsar de si

O conteúdo estranho…

Que se nada fosse feito

Bloquearia sua garganta

Se nada fizesse lhe sufocaria…

A cada noite

Se repetiria o gesto

Abriria a boca e puxaria para fora de si

A gosma aparentemente sem fim

Que mesmo depois de muito retirada,

Ainda permaneceria no interior de sua garganta

Sufocando-a…

Acordaria mais um dia e não entenderia o significado do sonho

Buscaria novamente, inutilmente, explicações

E estas viriam por fim no sentido de trair segredos

De expor razões

De mostrar verdades

Que enfim chegariam à luz pela escrita

Que por fim lhe esvaziaria por inteiro.

E lhe preencheria de luz.

 

Gabi Vieira

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

não conseguia dormir.

horas se passavam e

o teto que encarava

não se mexia

e ela começava a

considerar que ele

teimaria em assim permanecer

 

sentia saudades do tempo

em que sonhava.

um tempo de sono fácil

e mundos inteiros criados

no universo de seus olhos fechados.

 

ela ansiava perguntar

o que acontecera

para perder a capacidade de sonho

mas temia que a

mais dolorosa resposta

seria a única verdadeira.

 

então, no fim das contas,

fecharia os olhos em mais

uma tentativa frustrada

de o sono chamar

e só o que desejaria

era poder viver

tudo que um dia

fora capaz de sonhar.

 

 

Guilherme Augusto

Contato: guilhermetrekke@gmail.com

 

estava acordado?

estava dormindo?

não sei ao certo, mas sei que estava voando.

não sei se era sonho.

não sei se era realidade.

mas sei que estava voando.

isso é possível?

como poderia, eu, estar voando?

isso deve ser um sonho.

isso deve ser a realidade.

deve ser a junção do real e do imaginário.

são tantos questionamentos

comecei a cair

senti um peso se instalando em meu peito.

devo continuar levantando?

devo cair?

continuei a cair

então, eu compreendi

a paz que estava em mim me fez voar.

a guerra que estava em mim me fez cair.

no fim, quem iria vencer?

eu quero voar, mas não posso abandonar meus questionamentos

foi quando voltei a voar

decidindo viver no equilíbrio

abri meus olhos

com um sorriso no rosto

pois havia entendido

meu corpo estava na cama

mas minha alma voava

entre a paz, a guerra, o sonho, o real, a razão e o amor.

 

Ina Melo

Contato: ina.melo2016@gmail.com

Imagem de Ina Melo

 

Gostaria de sonhar com um amor encantado nas galáxias e no seu forte e poderoso abraço! Todas as vezes que nos encontrávamos era como se os tentáculos de um polvo me esmagasse. Nessa fusão de corpo e alma tudo era permitido. O amor se fazia  com leveza. A chama ardente do desejo nos oferecia um mundo de emoções do qual não queríamos sair.

Tudo acontecia com os corpos colados e os corações batendo em descompasso!  Mãos ansiosas se encontravam no toque. Bocas sedentas mergulhavam uma na outra deixando as línguas enroladas num mundo de sensações. Naquele  momento o sonho se fazia realidade e um era o outro, respirando o mesmo ar e provando o mesmo sabor doce do amor! Ah! Saudades! Ainda bem que os sonhos são sonhados!

 

João Orlando Alves

Contato: joaoorlandoalves@yahoo.com.br

 

UM SONHO

 

O sonho da vez seria aquele contido na anterioridade da memória consciente. Transcendendo, haveria o personagem Carlitos, expondo à humanidade, por meio de situações adversas, a capacidade do humano de não se aferrar às agruras, emprestando beleza à vida.

Essa evocação teria sido despertada em uma escola de música e dança na periferia da cidade carente de suporte material: crianças e adolescentes em trajes rotos e sem ferramentas adequadas, no entanto, vencendo esses infortúnios com alegria e comprometimento com a arte. O sorriso indicava um ser feliz.

Haveria o sonho possível, às vezes imemorial. Nasceria aquela escola desse evento. Teria um dos protagonistas mirins, sonhado com a música e arrastado tantos outros ao aprendizado.

Sugere-se estaria aquém da percepção imediata de ocorrência de atividade psíquica de que o indivíduo se apropria, àquela com elementos substanciais que levariam ao criar.

Enfim, o sonho além de pacificar a mente, também alcança a dimensão como a de José no Egito antigo.

Cada pessoa é um sonho!

 

Rackel Quintas

Contato: rackelquintas@gmail.com

 

CARTA DE UM IN-SONHE AO AMOR

 

Eu queria que todos os sons. E luzes. E planetas. Me dessem a dignidade de uma noite insone. Gostaria que o amor, assim como o sonho meio-morte, fosse feito de descanso e virtude, como uma maçã durinha, cheia de suco até a semente. Gostaria de cantar hinos, clamores de comemoração a um amor frágil, enlaçado pelo desejo cansado, de permanecer vivo, semeando, gerando. Gostaria que esse amor fosse contado em rede nacional, na rede, no quintal de uma casa feita pra ele crescer. Gostaria que meu dentro não fosse tão barulhento, que aceitasse a chuva fininha, que não mal-dissesse os dias de verão. Gostaria de mais banhos de chuva, e praças escondidas em lugares óbvios da cidade. Gostaria de crises de sinusite, de riso, de choro, com o lugar do desespero ancorado em alguma certeza de que não se sabe, mas se ama.

Gostaria de um véu de leite condensado e rosas, a dar a todas as crianças que ali comparecessem, para aprenderem como é doce, longo e terminável o amor que cura. Gostaria da textura permanente das cadeiras habitadas e depois vazias porque horas, minutos, dias, se contaram a fio até que sumisse para sempre o amor de outrora. Gostaria que as conversas fossem feito amoras, que tivessem sempre uma fogueira como testemunha das prosas, que houvesse tempo de aconchego, e amor. Gostaria de ter coragem de admitir-me berço e vontade, de discriminar as cores das minhas próprias palavras; de poder dizer azul ao amargo e vermelho ao sangue carne da vida que nos apetece. Gostaria de dizer que mesmo sabendo que vivo sem o amor, ainda assim o desejo, para o quanto de vida tiver a gastar. Gostaria, gostava, gosto. Da inveja aos olhos alheios, do som na varanda suspensa e na taça. Das taças. Nossas. Já há algum tempo. Desmascarando mentiras que eu mesma inventei para não amar. Pra bem-dizer o destino amaldiçoado. Eu queria que todas as noites insones me rendessem alguma poesia, mas é o passarinho de barriguinha cheia que pousa em mim, na minha janela, e encanta a vida como se eu quisesse vivê-la e não dormi-la. Como se sonhar fosse uma vida pra dentro e querer uma vida pra fora. Hoje, gosto de Caetano e Chico, do grande amor que não se acaba assim. Hoje, sonho e benzo o amor, Carmim. Puro e machucado por ele, por mim. Hoje eu gostaria. Quero. Um amor assim.

EEC Setembro POA

Porto Alegre, 12/09/2018

 

Ana Paula Bardini

Contato: apbardini@terra.com.br

 

 

A sensação de angústia persistiria pelo longo do dia. Nem bem acordara e já tinha esta certeza. Como poderia uma mãe abrir mão de seu próprio filho? Negando-lhe amor e cuidado, estando tão perto e disponível para o outro filho, irmão gêmeo deste, que acolhera com todo o seu coração? Seria instinto ou egoismo? Enquanto isso, o infante preterido dormia serenamente alheio ao que o destino lhe preparara. No momento ainda não sabia, mas viria a sentir na pele – e calaria na alma –  a dor do abandono materno. Jamais descobriria o motivo de tanto desamor. Cresceria à própria sorte, ainda que em família. Seria isso o bastante? Quais seriam as suas chances perante tamanha barbárie? Estar perto sem estar realmente próximo?

Um desconforto crescente a fez despertar, o sonho lhe parecera tão vívido que custara a acreditar que voltara à realidade. Ainda ofegante, lembrava flashes e revivia o sofrimento que comungara com aquela pobre e indefesa criança. De alguma forma ela se sentira conectada à dor dele que também era sua.

Neste instante o despertador a lembraria de seus compromissos da manhã. Eram muitos nesta quarta-feira chuvosa. Desligou. Aliviada pela bem-vinda interrupção, como quem retorna de um mundo distante, levantou. Organizou mentalmente as tarefas por ordem de prioridade. Primeiro prepararia um café, bem forte, com certeza a ajudaria a distanciar-se do sonho e a encarar o dia. Depois, a rotina se encarregaria do resto. Apostava nisso e  secretamente um pensamento lhe acompanharia pelo restante da semana: Amor de mãe deveria ser obrigatório.

 

*

 

Ando tendo sonhos…

Destes que inquietam

De novos caminhos

Onde se arquitetam

 

Vidas mais leves

Sorrisos mais fáceis

Amores menos breves

 

Ando tendo sonhos…
Destes que acalentam

Intensos, advinhos

E também desassossegam.

 

#APB

 

 

Gabriela Guragna

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

Enquanto as folhas, regadas a vinho tinto, se contorciam em ardor, ela correria buscando as paradas de ônibus da vida. Embarcaria para a Austrália. No rolar das escadas que a conduziriam ao subsolo, perceberia a falta do passaporte.

Entregaria a carteira de identidade da irmã para ela, e a carteira de motorista do pai para ele. A bolsa ficaria leve e encontraria a própria identidade, borrada pelo vinho que banhava as folhas ocultas. Correria pela mata do aeroporto, e puxaria de uma máquina a lista de amores antigos separados por categorias.

Família em segunda-feira

Trabalho em feira de domingo

E ele ali na feira destaque do dia de agora.

 

 

Kênia Medeiros

Contato: kenia_poa@yahoo.com.br

 

PÓS-CRÉDITOS

 

Os créditos começavam a subir, quando a luz foi acessa. Enquanto alguns, preguiçosamente, se dirigiam à saída, outros esperavam adaptar os olhos à claridade. No entanto, fiquei esperando por uma última cena, como um bis num show musical.

Não demorou para que surgisse na tela o herói que, misteriosamente, havia desaparecido em uma das cenas finais do filme. Ele despertaria à beira do rio no qual, imaginava-se, havia se afogado. Quando começou a se levantar, ainda sem saber onde estava, uma luz repentina quase me cegou. Ouvi um barulho estridente, que fez meu coração disparar. De repente, era eu na margem daquele rio. Desorientado, assustado, com medo do que estaria por vir.

Quando, enfim, me acostumei à claridade, percebi onde estava. Já não era um lugar estranho, mas o medo do que viria permaneceu. Estava em meu quarto, com o despertador tocando e com o sol brilhando através da janela. E, diferente do herói que se levantou pronto para encarar qualquer perigo, me levantei resignado para a batalha diária de uma vida sem ação.

 

Susi Franke

Contato: susifrankett@gmail.com

 

Eles são maravilhosos, um casal muito especial, muito amados. Ela, artista, trabalhando xilogravura, telas, filha de produtores de café, do interior paulista. Ele, húngaro, que veio para o Brasil à procura da realização de um sonho, trabalhar com aviação. Acabou se transformando num famoso projetista da Embraer.

Encontrei-os num sonho.

Apesar da idade avançada, continuaram encantadores, cheios de vida, com um sorriso no rosto.

Sairiam para um passeio na casa de campo, numa fazenda aeródromo do interior paulista. Passariam lá alguns dias, com amigos. Um era meteorologista, sua esposa médica, vegetariana, que traria muitos ensinamentos sobre nutrição. Outros, pilotos, sempre os grupos se formando com conversas animadas e um bom violão para animar ainda mais o encontro.

Estariam todos prontos para decolar?

Desapareceriam no azul do céu?

 

Sala de imprensa

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Folha de Pernambuco, 08 e 09/09/2018

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Jornal do Commércio, 26/09/2018

Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Agosto, 2018

Descubro

Na palavra

Um suporte 

No qual me apoiar

Um alívio

Em desabafar

A angústia 

De não ter controle

A Patricia

Sem linha

Caneta

E cor

 

Na palavra

Me descubro

Inteira

Portadora

Do segredo

Mais íntimo

Mais âmago 

Que nem eu mesma

Sabia

 

Sorrio

Quando

A caneta

Sulca o papel

Em letra de forma

E reconheço ali

Todo um sentido

(“Toda poesia”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/08/2018, 15h34)

 

O amor à Escrita no Índex de Agosto, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Uma autobioficção | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Um poema de escrita | Cilene Santos (PE – Brasil).

PALAVRA DE VIAJANTE (Lisboa) | Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Sete anos | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelando | Mara Narciso (MG – Brasil).

“A mulher faminta” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre | Diversos.

E o link do mês com um poema de Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 30 de Setembro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – August, 2018

 

 

I discover

In the word

A support

To support me

A relief

To vent

The anguish

Of not having control

A Patricia

Without line

Pen

And color

 

In the word

I discover myself

Entire

Bearer

Of the most intimate

Secret

More core

Like myself even

Knew

 

I smile

When

The pen

Groove the paper

In shape letters

And I recognize there

A whole sense

(“All poetry”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/14/2018, 3h34 p.m.)

 

The love of Writing in the Index of August, 2018 on the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

An autobiofiction | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

A writing poem | Cilene Santos (PE – Brasil).

WORD OF TRAVELER (Lisbon) | Fred Linardi (SP / RS – Brasil).

Seven years | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelling | Mara Narciso (MG – Brasil).

“The Hungry Woman” | Tiago Germano (PB / RS – Brasil).

Studies in Creative Writing – August, 2018 – Recife and Porto Alegre | Several.

And the link of the month with a poem by Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Thank you for the affection and participation, the next post will be on September 30, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando a Escrita entra pelas Janelas da Alma. When the Writing enters through the Windows of the Soul.

 

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre

Os encontros de Agosto, 2018 em Recife e Porto Alegre falaram sobre O amor. Não somente o amor entre os amantes, mas, principalmente, o amor à escrita. Passeamos pelos encontros do primeiro semestre, revisamos conceitos, e acrescentamos o de carcaça de John Keats, quando o poeta se esvazia de si para se preencher com Poesia,  Ficção, com Escrita Criativa. Encontramos essa carcaça na escrita de Orhan Pamuk, de Ian McEwan, e tantos outros artistas de diversas artes, teóricos de inúmeras áreas de conhecimento…

A partir dessas conexões do octógono dos Estudos em Escrita Criativa, fomos presenteados com textos que se encontram aqui neste post, com os processos criativos de Ana Maria César (Recife), Annie Müller e Luís Roberto Amabile (Porto Alegre), e outros textos que foram além do tempo e do tema do mês e que se encontram em posts individuais.

E nos preparamos para os encontros de Setembro, 2018 em Recife e Porto Alegre que falarão sobre O sonho. Desta vez teremos a honra e a alegria de receber Adriano Portela (Recife), Gisela Rodriguez e Fred Linardi (Porto Alegre) para falarem sobre suas criações artísticas, poéticas, literárias.

Que venha Setembro e uma boa leitura!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Branco

André Souto

Recife, 11/08/2018, V Encontro de Escrita Criativa

Contato: asla56@outlook.com

 

A tela à sua frente. Branca. O cursor pisca. Oscila. Pronto a receber alguém. Alguma coisa, mesmo sem trama nem final.

A tela: insulto e desejo. Sozinho e sentindo a presença. Frio, branco: o olhar do inquisidor mudo.

Compreendeu “a luta mais vã”. Arremeteu contra os seus moinhos de vento.

No cursor inquieto, a pergunta tantas vezes repetida:

— E agora?

 

                                                                    

 

ESCRITA AMOROSA

BERNADETE  BRUTO

Recife, 11 de Agosto de 2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Foi principalmente por amor que pegou o papel e escreveu o primeiro poema. Vieram outros depois, que rasgou por não achar bonito comparado com os da irmã. Aquela sim tinha o dom, a vez, a voz e todos os olhos e amor daquela grande família.

Ali do seu canto, percebeu, também queria ser amada, embora fosse apenas uma menina perante a adolescente cheia de vida. Foi à luta. Insistiu. Alguns olhares se voltaram e pousaram na sua pessoa miúda. A partir dali, ganhou seu espaço e um lugar na família.

Depois o ato de escrever surgiu como confissão de outros amores transitórios, doloridos ou desenganados. Muitas lágrimas pingando no papel, unidas à escrita desenfreada, foram despejadas e, por vezes, o ato tenha ficado meio desbotado.

Somente quando olhou para si e para o outro com amor, o ato de escrever foi tornando-se forte, sereno e eficaz. Hoje, escrever continua sendo um ato de amor, que chega impregnado do grande amor que ela tem por si e pelo outro.

Assim ela imagina que deva ser. É essa busca no seu ato. Quando isso acontecer, um dia, a sua escrita poderá ser conhecida pelo próprio ato que a moldou desde o princípio, podendo ser denominada de AMOROSA.

 

 

O PODER DA PALAVRA

Cilene Santos

Recife, 19/08/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Pudesse ser

Um gesto,

Um olhar,

Uma miragem.

Mas foi uma palavra,

Guiada pelo vento

Que, num relance,

Invadiu-me a alma.

Alojando-se,

De lá fez morada.

Uniu-se aos sentimentos

Que lá já se encontravam.

E, me atormentando.

Suplicava liberdade,

Em forma de poesia.

Relutei. Expliquei.

Não era ainda chegada a

hora.

Não sou liberta.

Sou prisioneira da minha inspiração.

Não me pertence o momento

De a poesia vir à luz.

E a palavra, com rogos instantes,

Não respeitou o meu instante.

De súbito, a explosão.

Fui vencida!

O verbo se fez asas

E alçou voo

Rumo ao infinito

Mundo da escrita.

 

 

ODE A KEATS

ELBA LINS

Recife, 11/08/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Me esvazio de mim

De minha existência sem graça

Quando vejo teus olhos de sombra

A me mostrar confusos caminhos

Por onde a alma transita

Quando de paixões

Quando de dores

Quando de mistérios

Que entrevejo através dos teus olhos.

 

Teus olhos de sombra

São lagos profundos

Onde mergulho

E me perco de mim mesmo.

São bosques escuros

Por onde avanço

Na certeza de me perder

Por onde caminho tresloucadamente

Buscando a vida ou a morte

Buscando enfim, a luz

Dos teus olhos mornos.

 

 

Gabi Vieira

Recife, 11/08/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Aos sete anos, lhe foi dado papel e lápis, não importa mais por quem. Na euforia de sua mente curiosa e de seu jeito espivitado, encarou a folha em branco com uma urgência que só cabe às crianças – e ouviu alguma coisa. Com espanto, percebeu vir daquele papel à sua frente. Um chamado, uma súplica, uma única palavra:

 

“Escreva”.

 

Tão simples, mas tão extraordinária. Tão curta, mas tão longínqua. Tão silenciosa, mas tão desesperada.

 

E então, o que lhe restava? Não podia apenas ignorar aquele pedido, que era de certa forma uma ordem, uma necessidade profunda cujas raízes já sentia brotar no próprio âmago. Era isso. Não tinha jeito.

Se não escrevesse, sufocaria.

Depois disso – depois de se entregar ao papel, às palavras e às ideias – não mais foi somente o que se era. Foi alegria, foi tristeza. Foi ódio, foi amor, e nem sempre soube descrever o que se era. Foi Anna, foi Julia, foi Stella, mas também foi Caio, Davi, Lucas. Foi tanto e ao mesmo tempo foi tão pouco. Seu corpo não era mais composto de água, sangue, carne, osso. Na pele, se imprimiam as paisagens que criara no fundo da mente e depois passara para o papel. Os cabelos esvoaçavam com o vento das risadas daquelas vidas que trouxera à existência, caminhando ao seu lado como velhas amigas. E nas veias, corriam as letras que pulsavam de seu coração, espalhando-se pelo corpo todo e dando-lhe a plena certeza de que ela própria era feita de palavras.

 

 

para um poema de amor

Márcia Maia

Recife, 11/08/2018

Contato: marciamaia@uol.com.br

 

acordei querendo escrever um poema de amor

 

um poema que de amor reluzisse

nessa manhã sem azul

que trouxesse de volta o bem-te-vi sumido

e reinventasse ninhos no pinheiro

e fantasmas amigos na varanda

vivos ou não

 

um poema que verdágua transbordasse

num misto de mar e capibaribe

de paralelepípedo e mangue

e que fizesse florir em pleno inverno os

baobás e todas as acácias

guardando os flamboyants para o verão

 

um poema que se negasse ao corriqueiro

eu te amo e dissesse do amar

com verso e rima

numa voz peculiar de gesto novo

que fosse efêmero como o bronze esverdeado

das estátuas e permanente como o brilho

que há nas bolas de sabão

 

que dissesse de mim sem me dizer

e alardeasse o querer de cada gente

dispensando os como os quando e todos os porquês

 

e que algum dia em um livro em um blogue

onde quer que alguém o visse

que se lhe abrisse um sorriso ao fim de o ler

 

 

Ana Paula Bardini

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: apbardini@terra.com.br

Encontrar palavras que se possa expressar

Sentimentos que insistem em não se mostrar

 Não tem nada de pensado

Muito menos de ensaiado

Vem da alma no momento apropriado

Tomam forma, dando vida ao inanimado

 E, aos poucos, a natureza antes dura

Se matiza e se mistura

Como cores em pintura

Na extrema delicadeza

De sua ímpar beleza

Tem-se então uma sinfonia

Sonhos e desejos em total harmonia

Palavras não se deve procurar

Pois são elas que se fazem encontrar

#APB

 

Nem sempre sou fala, às vezes sou escuta

E é quando escrevo que me sinto ouvida

 

Nem sempre sou clara, às vezes sou escura

E é quando escrevo que me revelo luz

 

Nem sempre sei quem sou, às vezes não sei

E é quando escrevo que me desvendo em mim

 

Nem sempre sou Ana, às vezes sou Paula

Mas sempre que escrevo sou sem-fim

 

Muitas em mim.

#APB

 

 

Escrever-se

Gabriela Guaragna

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

 

Antes mesmo de pousar no oco da boca, o beijo das palavras entregam-se aos pulmões e escorrem, feito água morna, pela ponta de cada dedo que segura uma letra. A caneta finca o papel como se fincasse a musculatura mais profunda e assina nas vísceras as vozes que não encontraram espaço na garganta. Escritor desagua-se sobre o papel e a escrita o escreve em si.

 

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gsabritto@yahoo.com.br

 

Quatro da manhã. Deveria estar exausto, mas meu corpo desconhece senso comum. O ronco de minha mãe desmata o silêncio como uma motoserra. Respiro fundo, sufocando o grito que quase escapa. Meu amigo ouve sem reclamar, como se a reclamação lhe desse identidade. Nunca questionei como um pedaço de papel é meu melhor amigo. Curioso como o inanimado nos dá identidade. Sem palavras, uma folha é somente isso. E sei que é o ato de impor a tinta no papel que me torna um escritor. Tudo bem. Prefiro um pulso dolorido do que um grito no escuro.

 

 

GESTAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

A palavra,

Fecundando a página,

Gerando vida.

Nutrindo sonhos,

Acalentando sentimentos.

 

Vai se formando uma ideia,

Ponto por ponto,

Linha por linha.

 

A tinta pressiona o papel,

Até ficar tudo pronto

Para a derradeira expulsão!

 

 

LIGAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

 

Como letra que forma a palavra,

Sou única.

Como palavra que forma o texto,

Sou só.

Cada palavra,

Cada ser,

Cada um.

Formando um todo.

Um arco-íris cintilante e belo,

Numa ciranda multicolorida.

Iluminando,

Brilhando,

Unindo,

Sendo!

 

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Recife, 11 de Agosto de 2018

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Porto Alegre, 15 de Agosto de 2018

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Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Julho, 2018

Escrevo

Para me libertar

Para expurgar

Esse sol

Que nasce aqui

No meu peito

Que nasce assim

Uma história 

Repleta de

Amanhã 

Prenhe de sonhos

E começo a concretizar

Hoje

Passo a passo

Em cada palavra

Inscrita no papel

Na ideia

Na imaginação 

Que o raio de sol

Ajudou a despertar

(“Poiesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 15/07/2018, 06h04)

 

A Escrita Criativa dando asas à imaginação no Índex de Julho, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Sete textos de viagem | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

Eu amo os advérbios | Cilene Santos (PE – Brasil).

Quem sou eu? | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

À Palomar, de Ítalo Calvino | João Paulo Nascimento de Lucena (PE – Brasil).

Lua de sangue | Natália Setúbal (RS – Brasil).

joelhos curvados | Talita Bruto (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2018 | Recife e Porto Alegre.

 

E os links do mês:

 

O blog de Kênia Medeiros (RS – Brasil), participante dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre: https://bookcaccino.wordpress.com/2018/06/26/subscribe

O livro de Fotografia & Arte, organização Fernando de Mendonça (SP – Brasil), Maria do Carmo Nino (PE – Brasil) e Patricia Gonçalves Tenório: https://issuu.com/ppgavufpeufpbrevistacartema/docs/dossi___arte_e_fotografia

 

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 26 de Agosto de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – July, 2018

 

I write

To set me free

To purge

This sun

That is born here

In my chest

That is born this way

A story

Full of

Tomorrow

Pregnant of dreams

And I begin to realize

Today

Step by step

In every word

Inscribed on paper

In idea

In imagination

That the ray of sun

Helped to wake up

(“Poiesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 07/15/2018, 06h04 a.m.)

 

The Creative Writing giving wings to the imagination in the Index of July, 2018 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Seven Travel Texts | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Movies & Philosophy of Life & Five Short Texts | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

I Love Adverbs | Cilene Santos (PE – Brasil).

Who am I? | Elba Lins (PB / PE – Brasil).

To Palomar, by Italo Calvino | João Paulo Nascimento de Lucena (PE – Brasil).

Blood moon | Natália Setúbal (RS – Brasil).

curved knees | Talita Bruto (PE – Brasil).

Studies in Creative Writing – July, 2018 | Recife and Porto Alegre.

 

And the links of the month:

 

The blog of Kênia Medeiros (RS – Brasil), participant in the Creative Writing Studies of Porto Alegre: https://bookcaccino.wordpress.com/2018/06/26/subscribe

The book of Photography & Art, organization Fernando de Mendonça (SP – Brasil), Maria do Carmo Nino (PE – Brasil) and Patricia Gonçalves Tenório: https://issuu.com/ppgavufpeufpbrevistacartema/docs/dossi___arte_e_fotografia

 

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on August 26, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Sol da Escrita Criativa que nasce aqui no meu peito. The Sun of Creative Writing that is born here in my chest. 

Sete textos de viagem | Patricia Gonçalves Tenório*

 

14/07/2018  09h30

No capítulo “Querida tela… diário e computador” de O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet, o ensaísta e sociólogo francês Philippe Lejeune afirma que a tela do computador permite o distanciamento necessário para uma escrita terapêutica, funcionando como uma quarta parede do teatro.

“A convergência dos cinco depoimentos que vamos ler me impressionou. Todos atribuem ao computador o mérito de ser uma espécie de escuta terapêutica que decanta o que se quer dizer, que permite, graças à neutralidade da tipografia, ser objetivo, fugir de si mesmo, se distanciar. Outros fatores intervêm, como veremos: a posição face a face, a possibilidade de corrigir e, especialmente, a fantasia de ter um leitor desconhecido. O distanciamento benéfico permite que pessoas que sofrem, desgostosas com sua escrita ou bloqueadas no silêncio, encontrem um caminho em direção a si. Há, certamente, um lado dramático nas experiências contadas, mas pode-se concluir que, minimamente, para um certo número de pessoas, o computador permite realizar melhor do que o caderno as funções do diário: a expressão e a deliberação.”[1]

Tentaremos neste (o mais) breve (possível) ensaio, analisar uma viagem realizada pela autora do texto, assim, na primeira pessoa do plural, para ser possível a objetividade que Lejeune propõe, e o desbloqueio quando se aparenta não haver mais nada a ser escrito.

Comecemos pelo motivo da viagem. A proposta seria visitar as cidades de Praga e Budapeste com os filhos da autora, que doravante chamaremos de P.. Na verdade, Praga seria uma revisita, pois P. esteve, há pouco mais de quatro anos, quando em viagem para a Romênia e a República Tcheca.

“São onze horas da manhã. Estou no Café Mozart, primeiro andar da Staroměstské Náměstí 22, em Praga, lugar onde Franz (Frantisěk) Kafka (1883-1924) habitou durante algum tempo. É o décimo dia da viagem em que percorri a Romênia, e, em seguida, conheci a capital tcheca, Praha.”[2]

O filósofo francês Michel Onfray já dizia em Teoria da viagem que o corpo, aberto à nova experiência, retém bem mais estímulos do que de costume. É então que os seis sentidos – sim, o principal sentido é a intuição – da escritora se ampliam e inauguram a viagem literária.

“A viagem, de fato, é uma ocasião para ampliar os cinco sentidos: sentir e ouvir mais vivamente, olhar e ver com mais intensidade, degustar ou tocar com mais atenção – o corpo abalado, tenso e disposto a novas experiências, registra mais dados que de costume. O viajante percebe-se menos preso aos detalhes do cotidiano do que submetido à prova fenomenológica: imerso no real, ele se conhece através do jogo da intencionalidade e da consciência, experimenta ser forçado a emergir como acontecimento e do nada onde são encontrados os resíduos da decisão. Viajar é uma intimação a funcionar sensualmente por inteiro.”[3]

Carta ao pai

P. está lendo Carta ao pai, de Franz Kafka. Ela está no avião de Recife a Lisboa. Ela não consegue dormir.

 

“Pego a tosse

Na mão

E me aproximo

De Kafka

Na tentativa

De com ele me parecer

Em angústia

Para não perecer

No mar profundo

Das palavras

 

Ele me dá a mão

Do outro lado

Da Carta[4]

Do outro lado

Da grade

De artista da fome[5]

Que se impôs

Na busca

De uma cura

Da tosse

E comigo se parecer

E comigo não perecer

No mar profundo

Das palavras”

(“Chegando a Praga”, 30/06/2018, 16h45)

 

O corpo aberto à nova experiência parece se misturar com o corpo de Kafka, com as letras de Kafka que aparentam guiar aquela viagem, aparentam levá-los, P. e dois de seus três filhos, até a porta do Museu de Kafka na Hergetova Cihelná, Cihelná 2b, Malá Strana.

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“Não me imponha

A culpa

Pois a culpa

Está na raiz

Do medo

Que nasce

Da falta

De amor

E isso

Eu te dei

Demais,

Meu filho

 

Chama-me

De monstro

Diante

Da cidade

Diante

Dos cidadãos

De respeito

E admiração

 

Como se eu

Não fosse um

Kafka

Do mesmo

Barro que

Te moldou

 

E que um

Dia se reconhecerá

Fraco

Mas que nunca

Perguntou

Se não era isso

O que realmente

Queria

E não era de mim

Que fugia

Quando se olhava

No espelho”

(“Carta ao filho”, 01/07/2018, 22h39)

 

E se Hermann Kafka houvesse recebido a fatídica Carta? E se, a recebendo, pudesse responder? O “se” da ficção, amalgamado com os sentimentos da autora, reatualiza o mito e inscreve uma possibilidade – a possibilidade de um(a) pai/mãe expor seus motivos.

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Um outro dia. Uma nova história. Poder fazer tudo diferente, ainda que numa cidade que se visitou há quatro anos. O rio Vlatva não é o mesmo, e é o mesmo sob a ponte de Carlos IV. O verão queimando a pele, inebriando os olhos, que busca sombra e silêncio sob as paredes da igreja de São Nicolau.

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“Sento

Na Staré Město

Na igreja

De São Nicolau

 

Vejo o tempo

Fugir nos vitrais

Fluir no teto

Pintado em ondas

 

Passeio

Com meus filhos

No presente

No passado

E quem sabe

O futuro me

Aguardará

Para colher os frutos

Dessas minhas palavras

Lançadas

No ar?”

(“Kostel sv. Mikuláše”, 02/07/2018, 11h54)

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O catolicismo de P.. O judaísmo de K.. Tudo de K. referia-se ao pai, inidicava ao pai, feito setas com destino certeiro. O “nojo” contra qualquer uma das atividades do filho transparecia na indiferença de “Coloca em cima do criado mudo!”[6] do pai, como se o livro não existisse, como se K. desaparecesse por entre suas palavras de fogo.

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P. chega ao Café Mozart. A primeira repetição acontece quando reconhece Yamilet ao piano. Elas trocam olhares, trocam acenos de que um dia se encontraram, e passaram quatro horas sorvidas em músicas do leste europeu.

 

“No Café

Tomei

Sorvi

Cada uma

De tuas

Palavras

Como se fossem

Ouro

Como se fosse

E ao pó

Voltasse

Cada uma de

Minhas células

 

Feri

Meus ouvidos

Alcancei

Tua voz

Inaugurando

Em mim

Um canto

Novo

Livre do sentimento

De culpa

E autocomiseração

Que tua Carta[7]

Ao contrário

Em mim instalou”

 

(“No Café Mozart”, 02/07/2018, 17h30)

 

A segunda coincidência ocorreu no Národiní Dúm Na Vinohradech, a Casa Nacional, com o concerto do melhor de Mozart e Dvořák. O violinista-maestro era o mesmo de quatro anos atrás. Mas ele também não é o mesmo, pois na ocasião fora apresentado pelo violinista-maestro de então.

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Os dias em Praga chegam ao fim. Mas ainda resta um tempo para passear livremente na cidade, para se andar insistente na cidade até gastar a sola dos sapatos e sentir como se não tivesse pés. Eles chegam ao Kampa Park. Os filhos descansam sob a sombra de uma árvore. A mãe se mantém à distância, até porque na distância é que eles poderão voar.

 

“Vejo

Os filhos

Crescerem

Por entre

As folhas

Da árvore

Descortinando

As páginas

Escritas

De uma

Longa história

De amor

Teimosia

E imensa

Dor

 

Eles se parecem

Comigo

Eles são feitos

Da mesma

Matéria de sonhos

Que um dia

Visitou o parque

Ao meio-dia

E na terra

Germinou

Flor”

 

(“Kampa Park”, 04/07/2018, 13h23)

 

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Carro. Aeroporto. Espera. Avião. Budapeste. Eles chegam tarde à cidade dividida, à cidade prometida de belezas e contradições. Por isso o medo de P.. Por isso a decepção de dois de seus filhos – ou a decepção que era dela, mas se projetava na tela dos rostos filiais.

Mas uma noite. O dia recomeça com a esperança. E, ali, a esperança tem cor azul.

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“Procuro

Transparência

Nas paredes

De Budapeste

E encontro

Os dois lados

Da mesma

Cidade

Os opostos

Que se complementam

Não se contradizem

E não me sinto

 

Sento-me

Em um monte

Alto

Às margens

De um rio

E escuto

Os acordes

De uma valsa antiga

Emoldurando

Em tom azul

 

Para que

Eu possa viver

A transparência

Nos dois lados

Da mesma moeda

De Buda a Peste

E sendo uma

Só”

(“A cidade azul”, 07/07/2018, 09h45)

 

14/07/2018  11h33

A prosa vai se aproximando devagar. Ela observa os personagens. Ela trilha seus caminhos. Sente o cansaço. E após os quatro dias na capital húngara, aquela que foi conquistada por mais povos ainda do que Praga, a prosa toma o lugar da poesia ao chegarem, P. e dois de seus três filhos, ao aeroporto de Budapeste rumo à Lisboa. No retorno ao Brasil. No final da viagem literária. A vida que imita a viagem muito mais do que a viagem imita a vida.

“Desde Recife, não haviam se afastado nem um segundo. Uma sabia da história da outra, como se fossem irmãs siamesas.

No voo de Recife para Lisboa, escutou cada acesso de tosse da outra, mesmo não estando lado a lado. A tosse era um sinal de cansaço, a presença do rapaz, mesmo ela havendo terminado o namoro.

No aeroporto de Lisboa ficou esperando que ela almoçasse num restaurante com opção vegana – era mais difícil se alimentar sob restrição de leite e ovos.

Praga emanando o aroma da primavera em pleno mês de julho. Ficou no hotel enquanto ela visitava o Castelo, a ponte Carlos IV, o museu de Kafka… Kafka e seus amores inacabados, e sua tosse interminável, feito a tosse de Manoela.

Mas não havia sangue na tosse de Manoela, e poderiam continuar a viagem. O bairro judeu, a sinagoga Staronová, e a lista de nomes apagados da terra nos campos de concentração das paredes no memorial ao lado do Cemitério Judaico. Ali Manoela se lembraria do documentário “Red Trees”, de Marina Willer, que narra a história de Alfred sob o olhar da filha mais velha. A família de Alfred fugiu da perseguição nazista em Berlim, veio para Praga, e conseguiu emigrar para o Rio de Janeiro.

Uma pausa para visitar o Café Mozart, no mesmo prédio onde Kafka morou na Staroměstské Náměstí 22, na frente do relógio Astronômico. E a pianista é a mesma de quatro anos atrás – a cubana Yamilet, Yamila para os mais próximos –, Manoela escreveu no diário assim que chegou ao hotel.

E estavam as duas tão juntas, mais juntas do que aquela que Manoela perdeu há quatro anos.

Até chegarem a Budapeste. A cidade dividida. A cidade reconstruída a cada conquistador, cada povo, cada língua e cultura, feito um selo de bagagem, um carimbo de passaporte que elas haviam construído passo a passo, viagem a viagem, até chegarem a Budapeste, a cidade dividida, onde iriam se despedir após quatro anos juntas.

Sim, Manoela poderia viver com o básico. Mas as duas juntas fora o mais básico que conseguiu em toda vida. Mesmo após o término do namoro. Mesmo finalizando o doutorado. E depois? O que faria? Aprenderia línguas? Aperfeiçoaria um instrumento? Viajaria o mundo inteiro em 180 dias? Porque algo deveria ser feito com o vazio. No vazio não se põe em pé, não se levanta ao menos da cama, e a cama pareceria estreita no quarto de hotel, forçando Manoela a acordar cedo e caminhar a cidade inteira, até gastar a sola dos sapatos e não sentir os pés.

E não sentiu os pés, como se deslizasse em rodinhas pelas ruas de Budapeste. Primeiro Peste, e o Parlamento ao meio-dia, e o sol queimando a pele branca de Manoela até entrar-lhe nos ossos e dos ossos não saír mais. Buscava nos ossos a razão para a briga com Jonatas, como se jogada fora da barriga da baleia, depois de morte, e três dias, e ressurreição.

No hotel juntas, e Manoela tomando um banho quente para esquecer o passado, para só lembrar o presente e o metrô para Buda, a igreja de São Matias, o Bastão do Pescador, a Galeria Nacional, e havia uma exposição de Frida Kahlo, que preferiu não visitar, para conhecer melhor os artistas húngaros do museu, tais como Viktor Madarasz, Bertalan Székely, Ligeti Miklós, Károly Ferencey e Laszlá Tajképei.

O círculo se fechando com o terminar dos dias, com o final da viagem que as iria separar. Só por umas horas? Mas como se fossem anos, como se o tempo condensasse em tanta informação e não teriam uma à outra para provar a certeza das coisas, para descobrir na materialidade das coisas os átomos de Epicuro, e o centro dos átomos não se tocando jamais, e, na verdade, elas nunca estiveram juntas, desde que Manoela a comprou na viagem para a Romênia e a República Tcheca quando perdeu aquela outra há quatro anos.

Fora tudo uma ilusão. Ao comprar a passagem com direito a uma – e somente uma – bagagem de bordo, não sabia que a bolsa vermelha também contaria, e da companheira se separaria, de Budapeste até Lisboa, com o coração suspenso se na chegada a encontraria, rodando e rodando em círculos, preocupada com a tensão de sua dona, com o perigo que sua dona corria, apesar da briga com a recepcionista do check-in, com o selo de frágil em sua face, com o ticket que garantia o embarque na parte inferior do avião.”

(“Mala”, de Budapeste a Lisboa, 16h10 – 19h, 08/07/2018)

 

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Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

[1] LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Organização: Jovita Maria Gerheim Noronha. Tradução: Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 327.

[2] A experiência de um(a) artista da fome em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6990. Em 16/05/2014.

[3] ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 49.

[4] KAFKA, Franz. Carta ao pai. Tradução: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2007.

[5] KAFKA, Franz. Um artista da fome. In Um artista da fome seguido de Na colônia penal & outras histórias. Tradução: Guilherme da Silva Braga. Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.

[6] KAFKA, Franz. Carta ao pai, p. 69.

[7] KAFKA, Franz. Carta ao pai, p. 69.

Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos* | Bernadete Bruto**

Recife, 18 de julho de 2018

 

Além de diversão, os filmes podem ser fonte de excelentes reflexões sobre a vida, como no filme A Jovem Rainha (2017), uma ficção baseada em história real, a Rainha Cristina da Suécia, uma mulher muito além de seu tempo, incentivou o uso do conhecimento e gosto pelas as artes no seu país, e deste filme, separei parte do discurso de Cristina quando tornou-se rainha e cita o filósofo Descartes: “René Descartes diz que a curiosidade é um grande trunfo. Ele diz que nos predispõe a adquirir conhecimento científico. Ele diz: o melhor remédio para admiração excessiva é adquirir conhecimento de muitas coisas e praticar a apreciação daqueles que parecem ser mais raros e estranhos.”  Sim, a curiosidade e o conhecimento, excelentes trunfos em qualquer época, assim como a apreciação do novo e inusitado. Foi assim com o filme O garoto de Liverpool (2009), também uma ficção baseada na vida do astro John Lennon, o comportamento estranho do jovem inglês na escola fez com que o professor lhe chamasse em particular e sentenciasse: “só conseguirá emprego nas docas, não está indo a lugar nenhum aqui em Quay Back, lugar nenhum.” Engraçado verificar que a sua “profecia” foi por água abaixo: como aquele menino de Liverpool tornou-se um grande músico e mudou costumes. A resposta do menino Lennon no filme já dá essa dimensão: “Esse lugar nenhum está cheio de gênios, senhor? Então deve ser o meu lugar.” Que felicidade comprovar esse final feliz para nós que já presenciamos essa ascensão do menino na vida real, e, como pessoas, abrir nossa mente para enxergar no outro diferente, trazendo o novo e que podemos aprender.

Nesse mesmo foco a questão da diferença reaparece no filme Anomalisa (2017), interessante desenho no qual a protagonista enxerga todos com a mesma aparência e voz até encontrar uma moça, que lhe chama a atenção, talvez por sua diferença dos demais, inclusive na voz,  que ele escuta de forma diferente. No filme que analisa a questão das anomalias, a moça chamada Lisa, recebe o codinome de Anomalisa, que em japonês significa “Deusa do Céu”. E Anomalisa traz muito na sua fala. Tocou-me a observação sobre o Brasil; “o único país que fala português” (uma anomalia) e encontrei imensa sintonia com sua canção preferida, também uma das minhas prediletas, do tempo da juventude, Girls Just Wanna have fun: “Adoro Cyndi Lauper. Ela tem uma ótima voz e não liga para o que diz. Ela é ela mesma, e isso requer coragem.” Por essa informação trazida pela Lisa adorei o filme, que nos estimula a fortalecer nosso comportamento e sempre buscarmos força para sermos nós mesmas apesar de distanciar-se do dito como “normal”. Além da música que me fez retornar ao final dos anos setenta e cantar: Girls just wanna have fun!

Por fim, totalmente encantada como o filme A GANHA PÃO. Meditei sobre o quanto temos em termos de liberdade individual e o quanto ainda tem gente sofrendo nos seus direitos individuais. Pensei ainda, se a condição da mulher no mundo ocidental ainda é precária, como classificar a situação das mulheres em países como o Afeganistão? Triste e inclassificável..infelizmente! E no meio ao sofrimento da história, apresentada com maestria neste desenho, há uma história dentro de uma história, com a contação feita pela protagonista, a menina Parvana. A contação toma ares de fantástico do conto de fadas, um mito do imaginário popular daquele recanto, e, bem perto do final, se mistura  com a história principal, revelando o segredo guardado sobre o irmão de Parvana, cujo paredeiro ninguém mencionava no filme: “Meu nome é Sulayman. Minha mãe é escritora, meu pai professor. Minhas irmãs vivem sempre brigando. Achei um brinquedo na rua e ele explodiu. FIM’

O filme foi tão bem concebido que mesmo no final, fiquei ainda presa naquele povo, que lembra um pouco meus ancestrais, observando o quanto são parecidos, como se irmãos fossem…e desejando que Parvani e todas mulheres e homens do Afeganistão, ou de qualquer outro país, onde a realidade seja semelhante, pudessem alcançar um oásis, um paraíso, que no filme sugeria uma praia em Goa.

Este filme proporcionou muitas reflexões sobre nossa existência, por conta do sofrimento de uma nação. Muito embora, tenha sido profundamente tocada pela beleza da alma de um povo incólume, mostrada na descrição que fazem de si, nos presenteando no final do filme: “Somos uma terra cujo povo é o maior tesouro. Estamos nos limites de impérios em guerra. Somos uma terra dividida nas montanhas do indocuche queimada pelos olhos ardentes dos desertos do norte, escombros negros contra picos de gelo, somos Auriana, a terra dos nobres.”

Filmes nos divertem, mas também nos ensinam como contar histórias de forma diferente, nos instrui e são meios de denúncia de condições humanas, sociais e ambienteis. A filosofia da vida encontramos em vários lugares, na própria natureza, nos livros, nos meios de comunicação, também nas palavras, basta conservar os olhos, ouvidos e coração abertos, em qualquer lugar, até mesmo assistindo a um filme como A Ganha Pão: “Levante suas palavras, não sua voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não o trovão.”

 

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Texto 1: Um buquê para a minha amada

De vermelho a saudade se agarra ao que sobra do mundo particular da juventude, ainda presente lá no fundo do coração. O tempo em que subia sem medo nas árvores e o céu estava perto passou. Presa no chão,  olhos cansados procuram mocinha de sonhos azul que recebia flores…a vista tão longe:…”Adeus menina, linda flor da madrugada!”

Texto 2: Cada uma tem sua Tróia particular

Aprisionada entre quatro linhas daquela história, que pode ser antiga, procura a menina uma saída. Sua mãe observa o enredo, naquele local de degredo, onde todas as mães vão parar na maturidade. Sentada no anfiteatro da vida e na torcida, aguarda o segundo tempo, o fim da guerra, tempos de realizações! Ela estuda o caminho enfrenta a luta, tem foco. Do outro lado, a mãe espera por um futuro como seu nome,  resplandecente!

Texto 3: Eram muitas vezes

A figura caiu no colo do livro inutilizado. Que aborrecimento! E agora? Qual era a história? Livro todo manchado de tinta preta. Nada se vê.  Lamentou. Olhou a imagem que restava. Uma moça vai em busca de algo, vislumbra uma descida ou vai subir na árvore? Quaisquer das ideias poderiam iniciar! Sorriu. Ficou feliz porque descobriu tantas possibilidades, numa só imagem muitas histórias! Assim, começou a escrever.

Texto 4: Nos tempos do quintal

Houve um tempo em que o mundo era pequeno, íntimo e lhe bastava. Um quadrado onde uma menina vestida de vermelho divagava, abraçada ao arvoredo. Tudo era possível para o local se tornar uma terra encantada, do nada! Na segurança do lar e liberdade do pensamento sonhava com fadas, castelos. Mal sabia que era a verdade muito mais bonita que seus sonhos. A doce e encantadora realidade daquele tempo.

Texto 5: Assim na terra como no céu

João subiu na vida por aquela árvore. Maria ficou embaixo, vendo-o cada vez mais distante. Olhando para o céu, segurava a árvore. Olhando para o alto, não vê a terra… Pobre Maria! Perdeu seu chão…Tudo por causa de João! Toma uma atitude menina. Ou sobe lá pra cima ou se mete pela floresta e vai fazer da vida festa aqui mesmo no chão. Quando notar nem saberá mais quem é João! João? Aquele do pé de feijão? Sei não!

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* Resenha apresentada e exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de Gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores-UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017), participação em antologias, assim como diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

*** Birdsong, 1893, Károly Ferenczy.