Índex* – Setembro, 2019

Escrevo

Porque

Não sei mais

Resistir

Não sei como

Desistir

Desses meus sonhos

Todos

 

Poeta

É quem

Faz sair

Do lugar

Próprio

Para um lugar

Outro

 

E acarinha

Com as palavras

Esse frágil

Corpo

Que é

Ser humano

(“Na fragilidade das horas”, Patricia Gonçalves Tenório, 21/09/2019, 09h33)

A fragilidade dos sonhos no Índex de Setembro, 2019 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Os sonhos nascem para todos | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Loucos, loucos | Alcides Buss (PR – Brasil).

Bernadete Bruto (PE – Brasil): Um brinde à vida | Patricia Gonçalves Tenório.

PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CXLIII) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Identidade, diáspora e exílio | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

E o link da entrevista de Patricia Gonçalves Tenório para Frederico Garcia Fernandes (PR – Brasil) no http://www.uel.br/uelfm/audios/29379-26-09-19_COLUNA_LITERATURA_VIVA.mp3

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será excepcionalmente em 20 de Outubro de 2019, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – September, 2019

I write

Because

I don’t know anymore to

Resist

I don’t know how to

Give up

Of all

My dreams

 

A poet

Is someone who

Make it out

Of the place

Own

To a place

Other

 

And cherish

With words

This fragile

Body

That is a

Human being

(“In the fragility of the hours”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/21/2019, 09:33 a.m.)

The fragility of dreams in the September Index, 2019 from Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Dreams are born for everyone | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Crazy, crazy | Alcides Buss (PR – Brasil).

Bernadete Bruto (PE – Brasil): A Toast To Life | Patricia Gonçalves Tenório.

PILLS FOR SILENCE (PART CXLIII) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Identity, Diaspora and Exile | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

And the link of Patricia Gonçalves Tenório’s interview to Frederico Garcia Fernandes (PR – Brasil) in http://www.uel.br/uelfm/audios/29379-26-09-19_COLUNA_LITERATURA_VIVA.mp3

Thank you for your attention and affection, the next post will be exceptionally on October 20, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A fragilidade e a perseverança dos sonhos. The fragility and perseverance of dreams.

 

Os sonhos nascem para todos | Patricia Gonçalves Tenório*

Olho da janela do meu quarto e vejo o mar.

E vejo os “longos, perigosos, tortuosos” caminhos para chegar até aqui. Não sei se consegui chegar a algum “Monte da Resposta Perdida”. Mas fui à beira do abismo, conversei com o corvo Graco, a flor Isabel, abri as asas de Ícaro acolhendo a sacerdotisa do sol Laura. Ajudei Ariana e Manoela a vencerem a vertigem, encontrarem Átila e Pedro, o Amor Perfeito e a própria Voz.

Confessei os meus pecados junto com D’Agostinho, estudei cinema nos meus Diálogos, fui à França com Sans Nom, à Romênia com Fără nume, à Espanha com Veintiuno, à Itália e os prêmios da Accademia Internazionale Il Convivio.

Tudo isso por meio da palavra escrita e tantos mestres: Raimundo Carreiro, Karla Melo, Maria do Carmo Nino, Lourival Holanda… Luiz Antonio de Assis Brasil.

Abri livrarias – a Domenico –, me embrenhei em editoras – a Calibãn –, vasculhei teorias no meio acadêmico da Universidade Federal de Pernambuco (a UFPE), compartilhei a Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul  (a PUCRS) com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto no grupo de Estudos em Escrita Criativa, no I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco da XI Bienal do Livro em 2017, nos encontros das Livrarias Cultura de Recife e Porto Alegre em 2018, no curso de Extensão na Unicap no primeiro semestre de 2019, e na Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa na parceria entre a Unicap e a PUCRS que nasceu em 16 de agosto deste ano.

E aqui me encontro, quinze anos de escrita, quase cinquenta de vida, um mundo de sonhos em minhas mãos. Pedrinhas de sonhos, muitas delas brilhantes, outras, nem tanto assim.

Olho da janela do meu quarto e vejo o mar. E vejo ondas crispadas, ou mesmo, águas calmas e cristalinas.

Tudo depende de se acreditar na própria escrita, na própria voz, que as pedrinhas brilhantes, ao menos para mim, fizeram sentido, acalmaram a alma, fizeram sobreviver mais um dia, e mais outro, e, em novembro de 2019, me lançar em cinco livros, quinze anos de escrita, cinquenta anos de vida, três filhos, e, quem sabe, respirar feliz.

Se eu fosse um

Passarinho

Esqueceria as

Folhas mortas

Do passado

Arrancaria as

Ervas daninhas

Do presente

E passearia

Suavemente

No céu azul

 

Mas como

Não sou um

Passarinho

Vivo à cata

De migalhas

Vivo em busca

De palavras

Assim

Pequenininhas

Que possam

Traduzir

Por um segundo

A imensidão

De eternidade

Presa aqui

No meu peito

(“Quem escreve não se cansa de buscar”. In 14. Patricia Gonçalves Tenório. Designer: Jaíne Cintra. Apresentação: Alves de Aquino e Carlos Nóbrega. Recife: Raio de Sol, novembro de 2019)

 

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Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Dezesseis livros, cinco no prelo, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália), e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS), ministrante dos Estudos em Escrita Criativa  desde 2016 e organizadora das coletâneas Sobre a escrita criativa I (2017), II (2018) e III (prelo, 2020). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

** Cinco Livros a serem lançados em 21/11/2019 (Recife) e 25/11/2019 (Porto Alegre):

7 por 11 (seleção de livros, apresentação Fábio Varela),

12 horas (tese de doutorado em Escrita Criativa, apresentação Assis Brasil),

13 (contos, apresentação Bernardo Bueno),

14 (poemas, apresentação Alves de Aquino e Carlos Nóbrega) e

15 (ensaios, apresentação Fábio Varela).

Loucos, loucos | Alcides Buss*

O amor é a coisa mais linda
do mundo, afirmam os ingênuos.

O amor não existe, garantem os aflitos.

A verdade afunda
no poço da saudade;
no fosso, advertem os desamados.

Soluços e quimeras
se juntam à flor da pele

e depois imergem
na fuligem dos ossos.

Viver é quase tudo, se dizem os loucos
enquanto se calam

e, dentro de si, escutam
o que nem eles sabem.
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* Contatos: http://www.alcidesbuss.com/ e alcides-buss@hotmail.com

Bernadete Bruto: Um brinde à vida* | Patricia Gonçalves Tenório[1]

Setembro, 2019

 

Octavio Paz já dizia no seu O arco e a lira[2]: “O artista é criador de imagens: poeta”.

Talvez esta seja a melhor tradução para Bernadete Bruto: artista criadora de imagens: poeta.

Nascida em Recife, Pernambuco, mas navegante de inúmeras cidades do mundo inteiro, essa metroviária, socióloga de formação, mãe de André e Helena e avó de Olívia, transmuta sua vida em arte, da mesma forma que a arte alimenta e mantém o seu viver.

Hoje já não me imponho

Me exponho!

Já não me encolho,

Canto.

Já não me espanto,

Aceito.

A vida,

As pessoas.

Na tranquilidade

Da maturidade

Não pergunto,

Vivo!

Não questiono

Para onde vou.

Hoje reverencio,

A mim,

O que sou.[3]

 

Tudo começou em 2008. Novo ciclo de vida, mudanças, busca de um espaço para se expressar. Com a herança da mãe que recitava de cor poemas e a admiração nos escritos da irmã mais velha, Berna se lança na poesia performática, se unindo a diversas instituições e grupos que fomentam a arte na cidade do Recife, a cidade do seu coração.

Minha cidade

Não é só paisagem

Para mim

Gosto e cor

Tem cara de festa

E som particular

O Recife do meu coração

É atemporal…

São muitas pessoas

Várias épocas

Tantos lugares…

Tantas imagens na memória

Também é história

A viver eternamente

Em minha recordação.[4]

 

Mas não é só a si mesma que Berna deseja expressar. É ao sonho antigo de outros poetas na cidade, poetas feito ela que procurou um lugar para espalhar suas sementinhas de poesia, seus afetos de palavras que reverberam em outras paisagens, outros mundos. Outros corações.

Neste mundo

Somos flores

Delicadas

Grandes

Pequenas

Coloridas

Diversificadas

Pelos canteiros da vida

precisamos ser

cuidadas

protegidas

Jamais despedaçadas![5]

 

E a vida lhe retorna em múltiplo com o nascimento da primeira netinha, em uma terra distante, lá no frio Canadá. Mas uma certa árvore acolhe a netinha e a poeta que sabe criar imagens.

Olívia nasceu em um lindo dia de outono, no Canadá.

Naquele momento, uma certa árvore estava vestida de marrom.

Aquela cuja folha é símbolo do Canadá: a Maple Tree. [6]

 

É hora de celebrar a vida de Berna, nossa Bernadete Bruto. Um brinde a esses doze anos de escrita, esses tantos de amizades. Esses Sessenta e um poemas para uma vida e que nos trazem a paz.

Quando a vida sucede em ordem

Tão tranquila e suave

Em tudo que se faz

Surge uma alma apaziguada

Seguindo serena na estrada

Sem se preocupar com nada

Chega enfim a estação da paz.[7]

 

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* Apresentação do Destaque Literário de Setembro, 2019 da Livraria Cultura Nordestina.

Bernadete Bruto é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017). Participa de antologias, assim como de diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

[1] Patricia Gonçalves Tenório é escritora, dezesseis livros (cinco no prelo), doutora em Escrita Criativa (PUCRS), ministrante dos Estudos em Escrita Criativa e organizadora das coletâneas Sobre a escrita criativa I (2017), II (2018) e III (prelo, 2020). Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

[2] PAZ, Octavio. O arco e a lira. Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p. 31.

[3] BRUTO, Bernadete. Auto retrato. In Pura impressão. Prefácio: Valéria Loreto. Recife: Comunigraf, 2008, p. 31.

[4] BRUTO, Bernadete. Recife atemporal. In Um coração que canta. Ilustrações da autora. Prefácio: Ana Paula Cavalcanti de Pontes. Recife: Comunigraf, 2011, p. 23.

[5] BRUTO, Bernadete. Somos Flores. In Querido diário peregrino. Fotografias: Wagner Okasaki. Prefácio: Elba Lins. Recife: Ed. do Autor, 2014, p. 64.

[6] BRUTO, Bernadete. A menina e a árvore. The girl and the tree. Ilustrações: André Bruto. Tradução: Dulce Albert. Prefácio: Salete Rêgo Barros. Recife: Ed. do Autor, 2017, p. 10.

[7] BRUTO, Bernadete. Tempo de paz. In Sessenta e um poemas para uma vida. Projeto gráfico, editorial e ilustração: Rozze Domingues. Produção gráfica e diagramação: Joselma Firmino. Revisão: Talita Bruto. Prefácio: Taciana Valença. Pósfácio: Maria das Graças Bruto da Costa Correia (Gracita). Recife: Companhia Editora de Pernambuco – Cepe, 2019, p. 87.

PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CXLIII)* | Clauder Arcanjo**

O setembro traz um vento que vem de longe. E essa ventania o silêncio me anuncia. Quem sabe o vazio de outras eras, em que a paz dos homens mais se nos havia.
O setembro me cheira a flores secas, guardadas num vaso sobre a escrivaninha, de uma antiga invernia. Quem sabe de um amor que murchou, mas que lá, num distante inverno, podia bradar que existia.

 

***

Na esquina da minha cidade, há um casal a avançar em passadas largas, sem se darem as mãos em harmonia. Ouço as pisadas lúgubres e sinto nelas o peso da desastrada rotina. Rotina que, cantante, enterra os ossos dos amantes, sem estes se darem conta da fatal litania.

***

Nada de pássaros nesta manhã ordinária. Nada de risos neste dia de sexta. Nada de surpresas no mundo da política; os mestres desta fazem a feira no erário, locupletam-se enquanto riem da nossa besteira: a fé e a crença no bem comum.

***

Os jornais de ontem, de hoje e de amanhã trazem a contínua manchete: jovens assassinados na esquina das drogas, digladiando-se entre si e em conluio com o oficial armamento. Quero rezar uma prece pelas mães que os gestaram; no entanto, confesso, devo ser parte deste vil momento. Se não por ação, ao menos por omissão no pensamento.

***

No campo da saudade, uma lágrima pungente me relembra de que já foram grandes os meus sonhos, nobres os meus intentos.
Abro a janela e vejo um Rembrandt na parede da sala, cópia da arte do pintor holandês. Sua paisagem me completa com uma melancolia que, de comum, havia nas terras de além-mar, nos tempos de um assaz antigamente.
O setembro traz um vento que vem de longe, de muito longe.

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* Publicado no Jornal Mossoroense, RN em 15 de Setembro de 2019: http://www.omossoroense.com.br/clauder-arcanjo-pilulas-para-o-silencio-parte-cxliii/

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Identidade, diáspora e exílio | Ricardo Timm de Souza*

 

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Ricardo Timm de Souza é ensaísta e professor dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e Letras da PUCRS. Nascido em Farroupilha, RS, em 1962, tem se dedicado em sua formação especialmente à Música e às Ciências Humanas. Doutorou-se em Filosofia pela Universidade de Freiburg, Alemanha, em 1994. É autor de duas dezenas de livros e cerca de cento e cinquenta artigos, obras organizadas, capítulos, traduções e outras publicações. É consultor de publicações, de órgãos de fomento à pesquisa e de conselhos editoriais nacionais e internacionais e membro de várias sociedades científicas brasileiras e estrangeiras. Dedica-se especialmente às áreas de Ética, Estética e Filosofia Política. Contato: timmsouz@pucrs.br

Índex* – Agosto, 2019

Assis criou

Uma personagem

Em mim

Que eu nem

Conhecia

Que eu não

Entendia

O amanhecer

Do meu

Enredo

 

É possível

Ensinar

Escrita Criativa?

Assis pergunta

Eu me pergunto

E insisto

No caminho

De juntar

Letrinhas

Contar histórias

Escrever ficção

(“Assim nasce uma Especialização”*, Patricia Gonçalves Tenório, 17/08/19, 16h40)

*Durante as aulas inaugurais da Especialização em Escrita Criativa Unicap/PUCRS ministradas pelo escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Assim nasce um sonho no Índex de Agosto, 2019 do blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS – Agosto, 2019 | Diversos.

A QUARTA MARGEM DO RIO DO COMPANHEIRO ACÁCIO | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

O HUMOR CONTRA TODOS DE TCHEKOV | Helena Bruto (PE – Brasil).

“Água de Chloé” | João Paulo Gurgel de Medeiros (RN – Brasil).

Agradeço pelo carinho, a próxima postagem será em 29 de Setembro, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* August, 2019

Assis created

A character

In me

That I neither

Knew

That I don’t

Understood

The dawn

From my own

Plot

 

Is it possible

Teaching

Creative writing?

Assis asks

I ask myself

And I insist

On the way

To gather

Little alphabet letters

To tell stories

To write fiction

(“Thus is born a Specialization”*, Patricia Gonçalves Tenório, 08/17/19, 4:40 pm)

* During the inaugural classes of the Unicap/PUCRS Creative Writing Specialization given by writer and teacher Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Thus is born a dream in the Index of August, 2019 from the blog of Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Lato Sensu Specialization in Creative Writing – Unicap/PUCRS – August, 2019 | Several.

THE FOURTH BANK OF THE ACÁCIO’S COMPANION RIVER | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

HUMOR AGAINST ALL OF TCHEKOV | Helena Bruto (PE – Brasil).

“Chloé Water” | João Paulo Gurgel of Medeiros (RN – Brasil).

Thanks for the affection, the next post will be on September 29, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um sonho sempre nasce para todos nós. Fotografia: George Barbosa. A dream is always born for all of us. Photography: George Barbosa.

 

Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS – Agosto, 2019

A primeira Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa na parceria entre a PUCRS e a Unicap nasceu na semana passada. Trouxemos um dos pais da Escrita Criativa no país, o escritor e professor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil.

Foi um final de semana pleno de surpresas boas, textos de qualidade, e o mestre nos guiando pelos caminhos do bem escrever.

Compartilho abaixo alguns textos gentilmente concedidos pelos participantes para emanarmos um pouco do aroma que vivenciamos nesses dois dias tão especiais e que para sempre nos recordaremos…

Abraços cheios de Luz e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Vida também é Arte

Patricia Gonçalves Tenório[1]

16 de agosto de 2019

 

Sentada em uma das cadeiras do anfiteatro, eu posso vê-los chegar, acomodarem-se em seus lugares, surpreenderem-se com o bloquinho de anotações e a caneta bic coloridos, o aroma do girassol sorridente.

A primeira turma da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa da Unicap/PUCRS nasce hoje. É um sonho antigo que se faz novo, atual. Enquanto respiro o instante, relembro tudo o quanto caminhamos para chegarmos até aqui, as inúmeras pessoas que nos ajudaram e somos para sempre gratos, o que sofremos, o que sorrimos.

E vendo seus rostos iluminados, pequenos girassois que bebem da sabedoria e dos ensinamentos do mestre maior da Escrita Criativa no país, Luiz Antonio de Assis Brasil, penso que todos os esforços, os obstáculos, a quase desistência, valeram a pena, frutificaram.

Brotaram em sementinhas numa sexta-feira de agosto de 2019 em nossos corações.

 

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[1] Escritora, doutora em Escrita Criativa (PUCRS, 2018), participante na coordenação da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

 

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Ana Paula Almeida

Contato: apbalmeida76@hotmail.com

Exercício I:

 

A luz do quarto apaga sozinha na hora do jantar. Não posso desperdiçar aquela oportunidade que tanto aguardava. Visto a única calça e camiseta que ainda cabem em mim. Pego uma panela vazia e me encolho ao lado da porta.

Minhas mãos suam e tremem, assim como o meu coração. Ouço um ruído de passos se aproximando. Barulho que sempre surge no mesmo horário à noite. Minha única fonte de percepção do meio externo.

Percebo o som da chave. Levanto-me com um salto e me posiciono como um animal selvagem que é perturbado em sua toca.

No momento em que ele entra no aposento, a lâmpada volta a acender. Ele surge com os olhos cor de sangue, atentos a qualquer movimento. Cheira a suor e graxa. Segura um revólver e uma corda.

Fixo o olhar naquelas armas, sentindo-me como um vidro: estática e frágil. Ele se aproxima. Pego o objeto de alumínio, que escondia por trás das costas, coloco na minha frente e pergunto se trouxe minha refeição.

Não posso fazer mais nada. A luz que tanto me conforta, dessa vez tira-me a coragem. Não será agora que conseguirei lutar por minha liberdade.

 

Exercício II:

Arthur vive a história mais curta de sua vida

 

Arthur senta-se no trono letal. Há três anos, dois meses e três dias pensava diariamente como seria aquela cena.

No início não acreditava que aquilo aconteceria de fato. Achou que, de alguma maneira, conseguiria convencer as autoridades da sua inocência. Passou a sentir muita raiva da situação. Tentou se relacionar com outros detentos na tentativa de articular um plano de fuga, mas nada dava certo. Até que um dia aceitou seu destino.

Sinal dado para que se prossiga com a execução. Não funciona. Presidiário retirado do local para que seja realizada vistoria no equipamento.

Luzes se apagam. Gerador quebrado. Arthur corre no escuro em direção à porta. Percorre todo corredor e, no final, imobiliza um guarda responsável pela segurança. Pega as chaves e a arma, pede para que tire suas roupas, e as veste em seguida.

Continua o percurso até o portão principal e, fardado, consegue sair sem chamar atenção. Pega um taxi, estaciona em frente a sua casa, desce do carro e toca a campainha. Sua filha caçula aparece arregalando os olhos e sorrindo ao mesmo tempo. Pula para os braços do pai e o envolve com beijos.

A energia volta. Presidiário reconduzido à cadeira elétrica. Dispositivo acionado. Procedimento realizado com sucesso.

 

Cleyton Cabral

Contato: ccomunicador@gmail.com

História de fogo

 

Todo dia Barros acorda às seis da manhã. Olha o Instagram antes de se levantar.

Rola o feed: mulheres de biquíni, vizinha, novata do Corpo de Bombeiros.

Like. Like. Like.

Privada, escova de dentes, chuveiro.

Farda, café, um beijo na testa de Emilly e um selinho em Carla.

Bom dia, meu amor!

Bom dia, mozi, feliz nosso dia 04, bom trabalho, te amo!

Te amo, nêga, mais tarde nóis comemora!

Elevador, garagem, engarrafamento.

Like. Like. Like.

Serviço, cafezinho, conversa fiada.

Meio-dia: balança livre, 2 opções de carne, 1 copo de refresco.

Três da tarde: chamado, sirene.

Reconhece a casa.

Fumaça. Fumaça. Fumaça. Água. Água. Água.

Destruídos: geladeira, sofá, camas, roupas, uma bicicleta infantil.

Abre o Instagram: stories de Emilly na escola e Carla no trabalho. Ufa!

Selfie com casa de fundo: orgulho do meu trabalho.

Muitos likes.

 

Cristina Mesquita

Contato: cristinaamesquita@gmail.com

Travessia

 

Andava pelas ruas apressada. Depois de mais um dia em um trabalho que já não me enchia mais os olhos. Ou talvez nunca tenha enchido. Paro, de repente, diante de um sinal vermelho. Na espera para cruzar a faixa e chegar ao outro lado, sinto-me como um copo meio cheio de amarguras. Meio cheio de uma vida que escolheram para mim. Meio cheio da fadiga de uma rotina de papéis. Meio cheio de não ser. Ou seria meio vazio? Continuo a olhar para a luz vermelha, aguardando ansiosamente o momento em que ela me permitirá seguir em frente. Ouço o som de um coração que, até então, batia no silêncio. Mas hoje, por algum motivo, surgiu em mim essa vontade de cruzar a faixa e procurar algo que encha o meu copo. Uma vontade de descobrir o que há por dentro de uma madeira que, por muito tempo, acreditou ser oca. Uma vontade de florescer. A luz ficou verde.

 

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Exercício I:

 

Fujo!

Não sinto chão áspero,

Não temo o vento rasgando minha pele,

Não penso no olhar dos outros.

Estou só!

E nesta cidade de concreto explícito

O que me punge, o que me marca, só o meu olhar pode dizer.

Mas meu olhar  foge de todos.

Meu olhar, perdido num mundo que desenhei só para mim, jamais será capturado por mesquinhos olhares, jamais será transfigurado por paixões banais.

No meu mundo de desenho incerto, onde busco  os cores do ontem  e o sabor do novo,

Só poderei chegar de pés descalços,

Somente poderei alcançar deixando para trás as paixões mundanas que me trouxeram até aqui,

Onde os muros sem cores são meu motivo da fuga.

Da fuga para um lugar azul – longe daqui.

 

Exercício II:

 

Carla vive sua mais curta história

 

Era segunda feira, ela acabara de fazer vinte anos e decidira se dedicar totalmente à dança –  sua maior paixão.

Sim, iria fazer a faculdade de dança.

Para fugir das restrições econômicas da família iria dar aula numa escola de balé,  mas sem deixar de lado seu envolvimento com as causas políticas e sociais de sua comunidade.

Seu objetivo final – dançar profissionalmente – também  proporcionaria uma mudança para os jovens que ela encontrava todos os dias parados na pracinha sem flores e sem alegria. Aquela praça iria mudar, ali as crianças e os jovens dançariam e em conjunto mudariam a história do bairro.

O dia amanhecera lindo, o sol brilhava queimando sua pele e lhe dando o calor necessário para enfrentar a fria realidade junto à família, que pouco se importava com seu sonho.

Andava pela calçada mentalmente planejava a visita à universidade, onde faria o teste final para concorrer à bolsa de estudos. Depois passaria na escola de dança onde trabalharia por duas horas.

A calçada inclinada, copiava o relevo do morro e lhe exigia muito cuidado para não escorregar… suas pernas – seu tesouro –  delas dependia o futuro.

No ponto do ônibus encontrou o amigo Jorge – de moto e lhe oferecendo carona. Ela aceita, insiste no cuidado com o trânsito.

Às 9h da manhã, uma hora após ter saído de casa, Jorge a deixa na porta da universidade sã e salva.

Naquela parte da cidade chovera…

Carla se apressa – o teste ocorrerá dentro de dez minutos.  Tenta alcançar seu destino e não nota que a chuva deixara a entrada da Universidade coberta de musgos escorregadios…

 

Fabiana Plech

Contato: fabianaplech@outlook.com

Exercício I:

 

Fluo, decorro…

não raiz.

Sem alma.

Sinto? Jamais.

Transbordo!

Além de mim, onde somente eu, há.

Não há mais espaço,

Deixo cair pedaços. Deixo?

Eles caem sem ordem.

Uma mutação… vai além do que vejo do lado de fora, a propulsão me leva  a algum lugar. Ainda ando, assim.

Um vácuo me faz divergir de mim… sou eu em todos os simples bloquinhos de minha demolição.

Implosão,  enfim…

O porvir

 

Exercício II:

 

Visando manter sua condição financeira privilegiada, Adelaide, uma senhora de 68 anos, trabalhava como costureira, sem desistir ou dar cabimento ao cansaço.

Mãe de cinco filhos dependentes, ademais o cônjuge, graças à sua personalidade de agente motriz da vida de cada um, tornando-se eterno engenho de fazer dinheiro.

Seu maior medo, a inutilidade. Questãozona de honra era a demonstração de seus dotes cognitivos nas peças de alta costura que projetava, causando cada vez mais veneração.

Naquele dia, o marido, apelativo qual um rebento, solicitava, aflito, para que ela colocasse um bolso enorme em suas calças, afim de que um meliante não conseguisse subtrair seus pertences, antes que ele flagrasse.

Adelaide, debruçou-se sobre a calça, com maestria, colocou o alforje bem na braguilha da calça. Causando o desespero e um grande desentendimento entre eles. Como iria ele abrir a roupa bem na braguilha em plena via pública?

Este dia foi talvez o dia mais curto e mais terrível de suas vidas. Curto porque foi ali que tudo acabou. Todos os sonhos todo glamour de ser uma costureira de renome.  Instalava-se com isso algo desesperador. Após retumbantes fracassos, tudo se arrebentava e cada vez mais no começo.

O dia mais curto de sua vida era todo ele em que começava a existir. Esqueceu quem seria, esqueceu como comeria, esqueceu que nome teria. Então Adelaide, passou a ter uma formatação nula, sequer saber que existia, certamente Alois Alzheimer saberia dizer o porquê da vida de Adelaide ter perdido a cor. A demência seria, pois, tudo o que ela mais temia.

 

Heloísa Ramos Lacerda

Contato: helramoslacerda@gmail.com

Clara vive a mais curta história da sua vida

 

Clara chegou para mais um dia da sua pesquisa. Estava feliz por ter alcançado o seu espaço, pesquisar novos medicamentos para o câncer de pâncreas. Havia reunido suas economias, recebera ajuda da família e partiu para mostrar ao pai que sim, mesmo sendo uma filha mulher, conseguiria ter sucesso e fazer diferença no mundo.

Não diria a ninguém que passou a noite chorando com saudade dos amigos e da família no Brasil. Já percebeu, nas entrelinhas, que sua colega disputa com ela o sucesso da pesquisa, e, receia ter seu experimento modificado numa noite qualquer. Não estava nada fácil para Clara firmar-se nesse caminho.

Hoje passou o dia bem concentrada no trabalho, e teve a feliz surpresa de avaliar um paciente que está muito bem, dois anos após o início da quimioterapia que desenvolveu no laboratório. Em se tratando de câncer de pâncreas em estágio avançado, é o melhor resultado já descrito. Ficou louca para ligar e anunciar ao mundo, principalmente ao pai.

Ao final do dia de trabalho, pegou sua bolsa e olhou o celular. Surpresa, contabilizou muitas ligações do Brasil. Não sabia se ficava feliz ou alarmada e decidiu ligar. Quem atende é a mãe, que confirma ter tentado falar com ela:

– Estou muito aflita, acho que precisamos da sua ajuda.

– O que houve, mãe, algo grave, alguma doença?

– Pois é linda, seu pai começou a perder peso há 30 dias, os olhos ficaram amarelados. Fomos ao médico hoje, que indicou uma tomografia de urgência. Ele nos informou que seu pai está com câncer de pâncreas.

 

Hugo Peixoto

Contato: hugocpcoutinho@gmail.com

Lauro vive a mais curta história de sua vida

 

Fechou a porta de madeira com força e olhou para os lados, do cruzamento até a ponta da rua, para ver se tinha alguém observando. Fazia isso todas as vezes que fechava o bar, mas na sexta-feira, dia de música ao vivo e quando os boêmios prolongavam as conversas dramáticas até quase a alvorada, tinha mais cuidado e dava uns empurrões na porta para ver se estava trancada.

No caminho até a casa, ali perto, fez as contas do dia e da semana. Estava difícil, movimento fraco, talvez a mulher dele estivesse certa. Só a sexta salvava, mas parte do que arrecadava era para pagar ao músico, então dava no mesmo. Um rato gordo cruzou a calçada e o distraiu. Bicho nojento, mas é esperto e está comendo bem.

Abriu a porta de casa tentando não fazer barulho, mas, assim que entrou, viu a luz fraquinha por baixo da porta do quarto de Arturzinho. Mais perto, ouviu tiros, explosões e gritos desesperados. Abriu sem bater.

– Já falei que não quero jogo de videogame até essa hora.  Vamos, desliga.

– Você não é meu pai.

– Não importa, desliga. Eu e sua mãe já conversamos sobre isso.

– Mãe não está.

– Não?

– Saiu umas quatro da tarde. Pedro do Táxi que veio buscar.

Lauro correu até o quarto e procurou as duas malas que ficavam em cima do guarda-roupas. Procurou também no cantinho, do lado da cama. Encontrou apenas um envelope com seu nome sobre o travesseiro rasgado, como se ele fosse notar apenas quando deitasse para dormir.

 

Lara Ximenes

Contato: larafximenes@gmail.com

Lourdes vive a mais curta história de sua vida

 

Lourdes busca todos os dias parar de fumar. Começou o hábito muito cedo, aos 14 anos, mas teme o câncer de pulmão mais do que a morte em si — o câncer é mais lento e doloroso, ela pensava. Ainda mais para alguém como Lourdes, que não tem plano de saúde. Ela também recusava totalmente a ideia de ser cuidada, mesmo que pelos filhos. Achava fraqueza depender de alguém. Última vez que dependeu, viu-se à deriva, e sentir-se pairando na instabilidade (emocional, financeira e física) era a coisa que ela menos gostaria de viver novamente.

Desde então, diz para si mesma que só ela cuidaria de si e dos seus desejos, sonhos e necessidades, pois ela e somente ela estaria sempre ali. Alguém com essa filosofia não pode jamais ficar à mercê do câncer. Mesmo assim, Lourdes ainda não tinha conseguido vencer aquele vício. Hoje com 50 anos, sente-se presa aos velhos hábitos, como fumar, pintar as unhas com o esmalte Gabriela e assistir Domingão do Faustão quando não está emendando turnos no bar onde trabalha, na Zona Sul da cidade, para fazer um dinheirinho a mais no fim do mês.

Numa terça-feira incandescente, às 14h50, a garçonete aproveitou o intervalo no trabalho para comprar cigarros. Ao lado do fiteiro, notou um novo empreendimento numa galeria aparentemente vazia. As letras em neon e vitrines escurecidas em fumê revelavam que se tratava de um sex shop. A garçonete encarou a porta por 20 segundos antes de abrir. Como o calor do verão recifense não dá trégua, até que seria bom entrar e aproveitar pelo menos um pouco daquele ar-condicionado. Entre balões vermelhos e pretos, estavam em promoção de inauguração vários óleos, fantasias eróticas e brinquedos que ela não sabia o nome. Pousou os olhos em um muito pequeno, cromado e esteticamente agradável. Descobriu em seguida que aquele era um vibrador que se chamava bullet, e estava custando apenas R$30,00 de acordo com a simpática atendente que não falou seu nome. Nesse dia, Lourdes não comprou cigarros. No dia seguinte, também não. Conseguiu, enfim, parar de fumar.

 

Raldianny Pereira

Contato: raldianny.pereira@gmail.com

Escultura hiper realista em madeira

 

Senti cada golpe

A talhadeira me marcava

O estilete me marcava

Me fiz assim

Um eterno quase ir

Olhar perdido

Um chão sempre fixo

 

 

 

A QUARTA MARGEM DO RIO DO COMPANHEIRO ACÁCIO* | Clauder Arcanjo**

Companheiro Acácio, cinquentão, amigo do recolhimento e das surpresas (pelo visto já recuperado da última intercorrência que o levou a alguns dias de hospitalização, bem como a refletir sobre a Indesejada das Gentes), foi visto por mim, semana última, à beira do rio da minha aldeia. Explico.

Eu viajara a Licânia a fim de visitar o meu velho pai: nosso bom Zequinha, deveras alquebrado pelas enfermidades dos anos e sempre mergulhado num silêncio abissal. Segundo os médicos, consequência da senilidade; segundo Acácio, forma de protesto e de repúdio a tanta asneira dos discursos mercuriais, descargas de fogo e sangue, que grassa pelo país, de norte a sul, de leste a oeste. Pois bem, voltemos às ribeiras do nosso Tejo.

— Acácio!?…

Ele, impassível, continuou a rabiscar no leito das águas do Acaraú.

De imediato, agachei-me, ladeando-o.

— O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia…

Acácio olhou-me com as veias do pescoço intumescidas, senti-o com a garganta invadida por um grito, protesto seu contra o lugar-comum; mas, antes que ele vomitasse golfadas de impropérios sobre mim, abracei-o. O afago e o perdão sempre interromperam sua sequência de disparo. Acácio bom, Acácio generoso, Acácio dadivoso no perdão.

— Chegaste quando a Licânia, Companheiro Acácio?

Após letrar mais alguns parágrafos nas águas turvas do rio de Licânia, ele respondeu-me, com a voz embargada por algo que eu, até então, não conseguira atentar:

— Precisava vir aqui, o retorno à província se me fazia questão de honra, algo inadiável. Aqui é o meu torrão, cá quero tornar quando me encan… — E as palavras recuaram, embargadas perante a presença da emoção.

Desta feita, fui eu a rabiscar garatujas na superfície do remanso, tão emocionado quanto o Companheiro.

— Não rabisque os meus escritos, seu… — disparou, quase aos berros, Acácio. — Não vê que estou a escrever algo importante!? Procure outra ribanceira, seu filho de uma…

— Companheiro!?… Perdeste os bons modos? — Defendi-me, confesso que mais com o fito de recuperar a respiração, atordoado que estava depois daquele coice de direita do nosso Companheiro.

Ele serenou os ânimos, voltou a agachar-se frente ao nosso Jordão; e, minutos depois, tornou a batizar o leito com sua letra miúda e ilegível.

Tentei, Champollion do sertão de Licânia, entender aqueles rabiscórios naquela espécie de Roseta líquida. “A quarta margem do rio… mora… no… ”.

— Quarta margem do rio?!… Queres agora superar o Guimarães Rosa? Quarta margem?!… Por essa, confesso aqui, eu não contava, eu nunca esperava! Por acaso, tu também tens pastos, buritis plantados no teu apartamento?! Explique-me — indaguei-o, em ar de menoscabo, com as mãos na cintura, como a desafiá-lo com um espadim de embira.

Companheiro Acácio se virou lentamente em minha direção e, sem delongas e com a fala mansa de costume, sibilou algo ao vento, suspeito que mais para si próprio do que para outrem:

— Não se volte para o interesse dos outros, cabrão. Não se preocupe em ser como cortiça n’água, o homem que merece a alcunha de ser pensante tem que se encontrar consigo próprio, mergulhar nas águas fundas do mistério, “quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso”. Melhor, “parece chamar tudo para dentro de si”. Não se satisfaça com a primeira, nem com a segunda margem. Ao se deparar com o enigma da terceira margem, rosianamente não tenha medo de desafiar-se, de superar as nonadas do cotidiano e se abeirar da quarta margem do rio. Sim, companheiro Acácio, a quarta margem…

Mal declarou aquela profusão de filosofices — “já todo inventado, saramicujo, fazendo muita serenância” —, algumas para mim tão enigmáticas, notei que Companheiro Acácio levantou-se, fitou o céu azul licaniense, bateu uma poeira imaginária na camisa branca, olhou para mim (não sei se com um sentimento de pesar ou de provocação) e, antes de tomar o rumo do Serrote da Rola, propagou em tom de pastor de nuvens:

— Um homem vale pelo que busca e não pelo que encontra. Buscar é preciso, porque viver não nos basta, além de termos um devir impreciso. Outro dia, li: “Essas coisas ocorrem nuns escuros, é custoso de saber se a gente deve se aprovar ou confessar um arrependimento: nos caroços daquele angu, tudo tão misturado, o ruim e o bom”. Ah, viver é uma nonada. “Somos que vamos.”

E Companheiro Acácio saiu, com passos messiânicos, de “miúda dureza”, por entre a mataria espinhenta, a caminhar pelas sendas de pedras — “sem nem por isso afrouxar do fôlego de ar que Deus empresta a todos” —, tão marcadas pelos passos dos nossos caboclos ancestrais. Ele, sempre “espritado”, com a biloca dos olhos fincada no cocuruto do firmamento.

Quanto a mim?! “Eu permaneci com as bagagens da vida.”

 

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* Publicado em 19 de agosto de 2019 no site Segunda Opinião: https://segundaopiniao.jor.br/a-quarta-margem-do-rio-do-companheiro-acacio-por-clauder-arcanjo/

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

O HUMOR “CONTRA TODOS” DE TCHEKHOV* | Helena Bruto**

“Um homem extraordinário e outras historias” foi a minha primeira imersão no universo de Anton Pavlovitch Tchekhov, autor russo mais conhecido pelos seus contos, muito embora também tenha produzido conteúdo em outras áreas, como: novelas, cartas e peças teatrais.

Como não tinha conhecimento sobre o estilo do autor, fui tentando entendê-lo ao longo dos diferentes temas abordados nas dezoito histórias apresentadas neste livro. Contraposição de classes, realismo fantástico, fábulas de amor e até algo próximo a uma esquete de humor. Mas, ao final, de qual maneira esses variados temas se unem? Apesar de explorar diversos prismas da alma humana, Tchekhov faz a sua análise quase sempre com uma pitada de humor ácido.

Quanto às críticas, o escritor não apresenta restrições na hora de apontar alvos: classe média, poetas contemporâneos, os mais humildes, as fobias humanas e até vícios individuais de uma família. Todos são “vítimas” dos gracejos e julgamentos do escritor.

No caso, acredito que os dois primeiros capítulos podem ser melhor apreciados se forem lidos de forma conjunta. No primeiro – “Desgraça alheia” –, o autor foca na maneira presunçosa com a qual o jovem de classe média trata um camponês falido, rogando-lhe críticas pela falência e comentando de forma paternalista como poderia ter evitado seu malogro. No segundo momento – o conto: “O sapateiro e a força maligna” – ele demonstra a falsa percepção com a qual o engraxate observa e deseja a existência daqueles que vivem no luxo. Inveja esta que se transforma em decepção após uma breve experiência no calcado dos outros.

O conto “Pavores” inicialmente nos remete às histórias fantásticas de Guy de Maupassant, até que chega o momento da conclusão, onde, no lugar de tentar assustar o leitor, ele senta-se ao seu lado para que possam divertir-se com as crendices alheias.

“Trapaceiros à força – Historinha de Ano Novo” é uma história mais leve e que se assemelha ao modelo de uma esquete de humor, com os personagens alterando o tempo de acordo com a sua própria conveniência durante o último dia do ano.

Em “Amor de peixe”, a fábula do amor platônico de um peixe por uma garota russa é usada como pano de fundo para apontar a melancolia e o pessimismo da época.

Também merece destaque “O relato do jardineiro-chefe”, onde o humor aparece em segundo plano em detrimento da crença na bondade e empatia humana, embora até essas questões sejam abordadas com o auxílio do humor.

Sobre o capítulo que divide o título com o livro, a história do homem extraordinário trata da figura de uma pessoa com uma visão bem definida, embora estreita, de mundo e que, por esta razão, os seus pequenos vícios se sobrepõem até a grande virtude ser uma boa pessoa. É interessante destacar que a expressão “homem extraordinário” é utilizada em outro conto do livro, mas com o sentido oposto.

Ao final, com apenas este livro de parâmetro, Tchekhov apresenta características em comum com outros escritores russos clássicos, principalmente com relação à análise da sociedade de sua época. O escritor mostra vícios, medos, paixões e tragédias humanas. Tudo em uma narrativa leve de ser lida e acompanhada de um humor ácido.

 

19 de julho de 2019.

 

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* Exercício do VI Encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019 sobre Os russos.

** Contato: helenabruto@gmail.com