Índex* – Julho, 2016

Me perguntam

Se o passado

Por acaso

Já passou

E deixou as suas

Marcas

Por acaso

Incandescentes 

Por enquanto

Incongruentes 

Nesse mapa

De tarô

Eu aqui

Em meio ao

Sono

Lembrando o

Sonho

Que passou

Vejo uma

Estrela cadente

Vejo um

Dia nascente

Com seu rastro

De temor

De que eu

Não consiga

Mais

Nesse dia

Espelhar

O rosto que trago 

Guardado

No suave

Despertar

(“O sonho não acabou”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 15/07/16, 05h03)

 

Que o sonho nunca acabe no Índex de Julho de 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

O que estão falando sobre “A menina do olho verde”, de Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

“Ensaios de Transcendência” | Camilo Matar Raabe (Porto Alegre – RS, Brasil).

Dois poemas | Dos poemas | Two poems | Două poezii | Cristiana Campeanu (Romênia).

El buitrero | Iacyr Anderson Freitas (Juiz de Fora – MG, Brasil).

Última aula de Teorias da Criação Poética | com Marcelo Maldonado (Rio de Janeiro – RJ/Porto Alegre – RS, Brasil).

E o link de Rizolete Fernandes (Natal – RN, Brasil):

www.crearensalamanca.com/poemas-para-despertar-conciencias-benavides-uruguay-dregrazia-brasil-fernandes-brasil-y-naranjo-colombia/

Muito obrigada pela participação, a próxima postagem será em 28 de Agosto de 2016, um abraço bem grande e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – July, 2016

They ask me

If the past

By chance

Has passed by

And left its

Marks

By chance

Incandescents 

For a while

Incongruents 

In this map

Of  tarot

I’m here

In the middle of the

Sleep

Remembering the

Dream

That passed by

I see a 

Falling star

I see a

Rising day

With its trail

Of fear

That I

Get

No longer

In this day

Reflect

The face I bring 

Garded

In the soft

Awake

(“The dream isn’t over”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 07/15/16, 05h03 a.m.)

That dream is never over in the Index of July, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

What are they talking about “The green eye girl”, from Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

“Trancendents Essays” | Camilo Matar Raabe (Porto Alegre – RS, Brasil).

Dois poemas | Dos poemas | Two poems | Două poezii | Cristiana Campeanu (Romênia).

El buitrero | Iacyr Anderson Freitas (Juiz de Fora – MG, Brasil).

Last class of Poetic Creation Theories | with Marcelo Maldonado (Rio de Janeiro – RJ/Porto Alegre – RS, Brasil).

And the link of Rizolete Fernandes (Natal – RN, Brasil):

www.crearensalamanca.com/poemas-para-despertar-conciencias-benavides-uruguay-dregrazia-brasil-fernandes-brasil-y-naranjo-colombia/

Thank you for the participation, the next post will be on  August 28, 2016, a big hug and see you there,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O nascer (1) e o pôr-do-sol (2 e 3) são os mesmos em Recife – PE, Brasil (1 e 3) e Salvador – BA, Brasil (2). Sunrise (1) and sunset (2 and 3) are the same in Recife – PE, Brasil (1 and 3) and Salvador – BA, Brasil (2).

O que estão falando sobre “A menina do olho verde”*, de Patricia (Gonçalves) Tenório**

Comentário sobre a su“A Menina do Olho Verde”

 

A história infantil, ingênua e romântica a princípio evoluiu como mensagem abrangente, universal e filosófica. Os substantivos comuns apresentados com letras maiúsculas, para diferenciá-los, deram personalidade e importância a coisas como Tempo, Espaço, Passado, Presente, conferindo originalidade à obra.

Manoela, “A Menina do Olho Verde”, não come e nem gasta tempo com coisas humanas, não é gente, é uma menina-anjo, uma espécie de profeta que traz mudanças transformadoras. Pedro, o seu amor é um menino-adulto, que tem crises existenciais.

A perda da inocência de Manoela com o Mestre machuca Pedro, que também não é totalmente humano, pois vê e sabe de coisas à distância. O tempo não corre igual para todos. Ora acelera, ora corre devagar. Os personagens da pequena cidade parecem não ser corpóreos, sendo espectros, que de alguma forma interferem no andamento da história dos meninos e depois dos jovens, Pedro e Manoela. Ele é filho do carteiro, aquele que traz livros. Estes, assim como a cultura e a professora Mariana são fatores de modificação da sociedade e isso fica claro. A obra acaba sendo, em parte, uma ode ao saber.

[…]

Engana-se quem pensa que o livro, por ter poucas páginas, desenhos e personagens algo mitológicos possa ser classificado como superficial. Após “O Fim” ter outro capítulo chamado “O Início” demonstra que uma boa história não se acaba, mas permanece, assim como o mistério e a curiosidade despertados por ela.

“A Menina do Olho verde” contém ensinamentos que não podem ser facilmente decifrados, ou banalizados. É para ler, reler e reter.

Mara Narciso, Escritora, Montes Claros – MG, 15/07/16

 

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Ler o seu “A menina do olho verde” foi um gosto. A ideia de escrever romance no molde de fábula e como se fora para criança, é sempre muito atraente. Acresce, a meu ver, nessa sua retomada, a grande sacada de trazer à cena problemas característicos da atualidade, com os quais, portanto, somos obrigados a conviver. Assim os muros altos, assim a tendência ao pensamento único, a rotina quase “fordiana”, etc. de nossa vida em sociedade. Mas você cria os personagens que: extrapolam o muro; pensam e se portam de modos diversos; acolhem o diferente, etc. e constroem outro mundo, para o que foi preciso desconstruir o anterior. Tudo expresso através de bem construídas metáforas, tecendo uma estória inteligente, séria e, ao mesmo tempo, leve, delicada, graciosa e instigante, para alegria de nosoutros, os adultos-crianças de todas as idades. Seu livro é lindo (inclusive capa e diagramação) e – permita-me – eu adoraria tê-lo escrito. Se prosear soubesse.

Parabéns e siga em frente, mocinha! Abraço-a,

 

Rizolete Fernandes, Poeta, Natal – RN, 05/07/16

 

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Patricia (Gonçalves) Tenório, minha caríssima,

a capa dura em P&B, com um pequeno detalhe (título em verde que te quero ver[de]), já nos indica o esmero que se faz no texto – na leitura já iniciada, nesta viagem meio-naif, nesta viagem pelas verdes angústias e fantasias de uma menina que se faz maior que a pedra [Pedro] em que, de certo modo, se apóia nas primeiras horas da ‘clorofila invadindo o mundo’.

Agradeço pelo mimo: objeto e escrita.

O objeto: esmero gráfico-estético que as minhas mãos não cansam de acariciar. Meus olhos lambem com voracidade o miolo geo-figurativo.

a escrita: já estou a viajar…

Caríssima, agradeço pelo embelezamento do mundo criado pelas suas obras.

Parabéns! Evoé!!!

 

Luciano Bonfim, Professor & Poeta, Sobral – CE, 29/06/16

 

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Nossa. Hoje fui ao lançamento do livro “A menina do olho verde”, da minha amiga e também colunista do portal Parlatório, Patricia Tenório. De volta pra casa, fui direto à rede e me agarrei com a obra; motivado, confesso, principalmente pela provocação da segunda capa “Este livro pode ser lido como se fosse um filme de 90 minutos”. Aceitei o desafio e o li em 70.

Ao término da leitura, lembrei-me de uma frase da minha professora e orientadora Ermelinda Ferreira: “Os escritores não escrevem mais sobre o amor”. Este pensamento acabou de morrer em minha mente. O livro de Patricia, se fosse para ter um título clichê, seria “O livro do amor”. A obra é fantasticamente linda; parece que a autora se transportou para outra esfera e a produziu. Personagens incríveis, metáforas e alegorias muito bem planejadas e estrategicamente colocadas. Na leitura parece que eu também encontrei, finalmente, um entendimento para o movimento da estrela cadente: “Elas se esvaziam de sentido. Não têm por que existir. Não têm por que persistir presas ao Mapa Astral. Elas se abandonam de si mesmas, são estrelas suicidas. E se jogam no abismo do Céu para a Terra, assim, num piscar de olhos”. (TENÓRIO, 2016, p. 39).

Bom, não vou escrever mais nada. Esse é um livro que não precisa de crítica, precisa ser lido. Por favor, não deixe de degustá-lo. Ah… e a ilustração de Duda Tenório também é sensacional. Você vai amar! Parabéns, Patricia!

 

Adriano Portela, Professor, Produtor Cultural & Escritor, Recife – PE, 29/05/16

 

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Só agora “parei”, deixei a agitação,  para me deter na leitura do seu livro.

Você tem um dom de contadora de histórias. Desde a leitura de “As Joaninhas Não Mentem” que me chamou a atenção o tom, o ritmo, que você imprime nos seus escritos. …ao ler parece que estamos contando (ou ouvindo uma história). Tanto é que ao iniciar esta leitura da “A Menina do Olho Verde” fiquei lembrando da minha professora de contação de histórias e sua forma de escrever, cheia de fantasia e  criatividade.

Naveguei nesta bela fábula que tão bem reflete a vida, a maneira como nos posicionamos diante dela e como só nós podemos desenhar o que queremos para nós. Se queremos nos conformar com a cidade onde todos são iguais,  onde todos têm olhos pretos, onde tudo acontece da forma prevista ou se teremos coragem de desafiar esta situação de comodidade e antes que nossos olhos se tornem pretos como os dos demais, decidamos sair e buscar a resposta que está em “Nós Mesmos”.

Lembrei em alguma parte dela o final do poema de F. Pessoa (Eros e Psiquê)

“…e viu que ele mesmo era a princesa que dormia…”

Somente nós temos condições de decidir se queremos buscar a resposta nos rituais da Ancestralidade como Manoela ou recriar estes rituais da forma mais pertinente a si como fez Letícia. O importante é seguirmos nosso caminho,  reconhecê-lo, não deixar que ele se perca entre os tantos caminhos que a sociedade nos tenta impingir.

Grande abraço.

Elba Lins, Poeta, Recife – PE, 10/02/16

 

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Capa A menina do olho verde - Menor

* BookTrailer:

* Livro físico: www.livrariacultura.com.br/p/a-menina-do-olho-verde-46286777?id_link=8787&adtype=pla&gclid=CJKZ2MX7mM4CFYUGkQodyYcEWw

* Livro virtual: www.livrariacultura.com.br/busca?N=102281&Ntt=A+menina+do+olho+verde 

 

** Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dez livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013)), Vinte e um / Veintiuno [Mundi Book, Espanha, lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016], e A menina do olho verde (livros físico e virtual lançados na Livraria Cultura RioMar Recife em 28 de maio de 2016 e na Livraria Cultura Bourbon Country Porto Alegre em 11 de junho de 2016).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, a ser publicada no segundo semestre de 2016 pela editora  Omni Scriptum GmbH & Co /Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

“Ensaios de Transcendência” | Camilo Matar Raabe*

Miragens  

 

Em miragens no deserto

Por areias me escaldava

Céu descalço passo incerto

Entre cobras me acoberto

No mistério que espreitava

 

Poços de sede sangrados

O universo me ausentava

No ar rubi cravejado

Em sal três reis facetado

Profecia anunciada

 

Lassos passos fui chegando

Cavernas lagos profetas

Em silêncio desencanto

Pedras finas cardos mantos

Comungando a austera meta

 

Vertigem lustros da morte

E o sol coroado advento

Fez-se em mim seu grande porte

Renascendo minha sorte

Das cinzas que fui ao vento.

 

Sensação 

 

Ausência

que se vê

mas não se toca…

Presença

que arde

e me é olvido…

 

A matéria sofre

lampejos

do que é raio

no peito d’alma.

 

Transmutação  

 

Despi-me de tuas vestes carnes mortas

Ó fúria! te desprezo e sigo em frente

Deixando a dor que em dor se faz nascente

A vida que fecunda e me transborda.

 

Arranjo  

 

Solidão! Treme o compasso

Dos passos dados no escuro

Ao muro intentos passados

Dos rasgos nosso futuro

 

Incerto assim como tudo

Mudo perante o destino

Passivo rendo-me ao jugo

Augúrios do sem-sentido

 

Na ausência da dor atino

Que vivo! – salvo regaço

E aos traços surge esculpido

O fino véu do compasso.

 

Movimento  

 

O tempo suspira

o vento suspira

eu vivo…

 

A mudança eterna

a vida eterna

mudança.

 

Andanças que passo

nos dias desperto

respiro.

 

Só não muda

o que está morto;

mas cabe renascer.

 

Pelos ocorridos…

 

Das cinzas fogo enxofre

Linhas que vão tecendo

Velas que vão gemendo

No pranto consumir

O manto do existir

Verdade! a morte e a vida

Faces do mesmo dia

 

Broto  

 

Brotou da ilusão

Rasgando nas trevas

A fruta capela

Bendito sermão

 

Então pus-me ao chão

Rendi-me a sua alteza

Nascente certeza

Que inspira a razão

 

A palma da mão

De chagas concretas

Nos cravos sua oferta

Abriu-me o clarão

 

A trilha do são

Calada beleza

Por velas solfeja

Cantares de unção.

 

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* Contatocamiloraabe@hotmail.com

Dois poemas | Dos poemas | Two poems | Două poezii | Cristiana Campeanu

JUL
1
Como un rayo / Ca o rază

Como un rayo pasamos, amada mía, por el mundo
como una chispa ardiente en un horizonte
encendido por un soplo presuroso bajo la luna roja
en el tumulto del mar perdidos en la lejanías seremos
llevados sobre las olas de los azules tardíos…

Te acuerdas como, enlazados,
llevamos nuestro óbolo a tantas aduanas enemigas,
como nuestro vuelo no fue quebrado por las
tempestades crueles
Como si existiéramos desde el principio del mundo
como si por la brisa del mar compitiéramos muchas
veces con los vencejos,
mujer olvidada por el tiempo en mi beso,
enviada desde el Paraíso para dar fruta
en mi sangre,
Beata que naciste, que me tuviste y que te tuve,
rica para siempre desde el principio
hecha para dar gozo al instante que duele
en el nacimiento de todo lo que nace y muere
!Ay!, si podría hacer regresar el tiempo
para que seamos en el mundo solo nosotros dos,
para que nos amemos de nuevo con locura
en el mar
estremeciendo las estrellas fugaces del cielo…
Sobre las cumbres de luz volemos los dos
permaneciendo allí en alto para vigilar la tarde,
nosotros, dos acontecimientos destinados a doler…

Ca o rază

Ca o rază am trecut noi, Iubito, prin lume
ca un licăr fierbinte pe-o zare încinsă
de-o boare grăbită sub luna aprinsă
în mugetul mării pierduţi în departe vom fi purtaţi
pe valuri de albastruri târzii…
ţi-aduci aminte că-ngemănaţi ca unul singur
am dat obolul atâtor vămi vrăşmaşe
că zborul nu ni l-au înfrânt furtunile vrăşmaşe
Parc-am fi fost de la-nceputul lumii parcă prin briza mării
ne-ntreceam adesea cu lăstunii
femeie uitată de timp în sărutul meu, trimisă din Rai
să rodeşti în sângele meu
Prea fericito că te-ai născut,
că m-ai avut şi te-am avut
bogată-n vecie de la început
făcută să bucuri clipa ce doare
în zămislirea a tot ce naşte şi moare

O, de-aş putea să dau timpu-napoi
pe lume să fim doar noi doi
ca doi nebuni să ne iubim iarăşi în mare
înfiorând stele pe cer căzătoare…

(din volumul bilingv român-spaniol Poemas Paganos, în traducerea scriitorului Christian Tămaş)

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JUL
12
As if / Ca şi cum

As if I pretended to be asleep
to stop time in my dreams
As if the happy dream gave birth to me again
to make me rule over Everything and Nothing
As if rains of light bear fruit
blossoming in my soul on the plain
As if cortèges of butterflies made love
to the cherry-trees boiling with soft flowers
As if I wanted to have you
wrapped up in longing beside me
for us to be in the always of all
and make Sahara blossom within ourselves…
As if everything existed only in imagination
dancing like a fog carried away by wind
As if, my darling, I waited for you forever
to take our oath at the margins of light…

Ca şi cum

Ca şi cum m-aş preface că dorm
timpul în somn să-l opresc
Ca şi cum visul fericit m-ar renaşte
peste Tot şi Nimic să domnesc
Ca şi cum ploi de lumină rodesc
în sufletu-mi înflorind pe câmpie
Ca şi cum alaiuri de fluturi nuntesc
cireşii clocotind de floarea ce-adie
Ca şi cum aş vrea să te am
pierdută de dor lângă mine
în mereul din toate să fim
Sahara din noi s-o-nflorim…
Ca şi cum totul există doar în închipuire
dansând ca o ceaţă purtată de vânt
Ca şi cum, Iubito, te-aştept de-o vecie
la marginea luminii să facem legământ…

El buitrero* | Iacyr Anderson de Freitas**

Para Fernando Fagundes

            Durante a viagem até Leopoldina, fiquei pensando no que o telefonema de Lisboa me revelava: uma irmã do outro lado do Atlântico. Irmã unilateral, da parte de pai. Ou seja, da parte mais obscura da minha vida. E mais impressionante ainda, essa irmã, sete anos mais nova do que eu, ostentava o mesmo nome de minha mãe – Natália.

Não cheguei a conhecer meu pai. Em minha casa não havia sequer uma fotografia dele. Meus documentos não especificam seu nome. Tenho na memória aquele que minha mãe não confiou, a contragosto, com a voz sempre embargada de ódio, nas raras vezes em que eu a inquiria acerca do assunto. José Gonzalo Roca. E ponto final.

Guardo também as inúmeras vezes em que meu pai deixou de cumprir com as promessas de me levar ao jardim zoológico, ao Corcovado, ao Leblon ou à sorveteria que ficava no final de minha rua. Não tenho conta dos sábados e domingos em que o esperei, de banho tomado, com a melhor roupa, sentado inultimente no sofá da sala, olhando para uma porta que jamais se abriu para lhe dar passagem, tentando ouvir uma campainha que não tocava de jeito algum. Depois, triste, concordar com os comentários nada consoladores da natureza torpe e egoísta desse personagem chamado José Gonzalo Roca. Minha mãe empenhava todo o seu furor nesses comentários, com brilhantismo ímpar.

Não tardou muito para que qualquer assunto vinculado a meu pai fosse evitado a todo o custo. Por conta das inúmeras promessas não cumpridas, acredito que ele também tenha deixado de fazer contato com minha mãe. Ou que ela tenha se recusado a atendê-lo, não sei ao certo. Dois anos após minha formatura, fui obrigado a suportar o terrível acidente de trânsito que vitimou minha mãe. Nunca cheguei, assim, a desvendar o enigma.

Agora eu precisava apelar para a única pessoa que talvez tivesse informações confiáveis acerca de José Gonzalo Roca: Tia Lira, radicada em Leopoldina desde que se aposentou do cargo de professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Minha mãe, filha única, sempre me dizia que Tia Lira – ou Lirinha, como ela a chamava – não era apenas uma amiga ou companheira de serviço, já que nenhum laço de sangue as unia, era a irmã que os cartórios não lhe deram. Ambas trabalharam, durante mais de duas décadas, em departamentos distintos da UFRJ, e se encontravam quase todos os dias. A morte de minha mãe obrigou Tia Lira a lutar contra uma depressão profunda, incapacitante, que só agora dava sinais de visível declínio.

Como eu mesmo esperava, não foi nada fácil encetar a conversa com Tia Lira. Expliquei-lhe tudo: o convite encaminhado pela Casa da América Latina, minha viagem a Portugal, a surpresa do telefonema recebido de uma nova Natália – irmã desconhecida, com quem, aliás, eu deveria encontrar em Lisboa –, o falecimento de meu pai. Tentei não ocultar nenhum detalhe. Tia Lira procurava disfarçar o seu desconforto diante do assunto. De início, mostrou-se arredia, pediu desculpas, demorou a organizar as ideias. Depois, disse-me que eu deveria estar preparado para absorver o fel das verdades que minha nãe, infelizmente, não tivera tempo nem condições emocionais de me confiar. Só então, com uma voz trêmula e flutuante, Tia Lira decidiu retirar os véus do mistério que me levara até Leopoldina.

“Conheci Natália em Brasília, em 1978. Morávamos no mesmo prédio. Eu trabalhava, na época, como professora do ensino médio em duas escolas da periferia. Sua mãe era supervisora de um curso pré-vestibular situado quase ao lado do nosso prédio. Como não me adaptei muito bem ao ritmo de Brasília, alimentava o sonho de voltar para o Rio de Janeiro, cidade em que passei boa parte da minha adolescência. Sua mãe, no entanto, me parecia bastante ajustada ao ambiente da Capital. Éramos solteiras, combinávamos bem, por isso decidimos dividir o mesmo apartamento, de modo a reduzir nossas despesas, fato que ocorreu no início de 1979. Foi em meados desse ano, creio, que seu pai surgiu. Homem elegante, bonitão, quase quinze anos mais velho do que Natália, de origem espanhola, fluente em diversos idiomas, prestando serviços temporariamente no Brasil, a pedido de um departamento de pesquisa tecnológica da Aeronáutica, se não me falha a memória. Pois bem, o tal José Gonzalo Roca soube cortejar sua mãe. Ela também, é preciso que se diga, ficou bastante caída por ele, naturalmente. Com o passar dos meses, entretanto, foi percebendo a grande aura de mistério que o cercava. Em primeiro lugar, não havia como entrar em contato com ele. Por conta das muitas viagens que fazia – sempre a serviço –, cabia a ele entrar em contato com a Natália. As incógnitas a respeito dele eram muitas.

“É importante que você saiba que vivíamos, ainda, apesar das propagandas oficiais, sob plena ditadura militar. O que se chamou de Abertura, com grande entusiasmo e enorme repercussão na imprensa, não era levado muito a sério por ninguém daquele conturbado período. À direita ou à esquerda. Logo, mistérios desse tipo, do tipo que envolvia seu pai, eram comuns, corriqueiros até. Mas a coisa se complicou quando um amigo meu, daqui de Leopoldina mesmo, recém-chegado do exílio, me informou que José Gonzalo Roca era, na verdade, uma perigosa peça de ficção. Ele nunca existiu. Tratava-se de um nome falso. Seu pai foi, na verdade, um militar de alta patente, sim, mas pertencente ao exército argentino. Esteve envolvido na Operação Condor, prestou serviços no Chile e no Uruguai. Ao que tudo indicava, sua alta patente servira aos mais baixos ofícios: principalmente torturas e assassinatos. Treinado nos Estados Unidos, com carta branca para agir em diversas republiquetas da América do Sul, ele estava no Brasil sofrendo um tipo de férias forçadas. Os ventos estavam mudando. Homem astuto e inteligente, creio que ele tenha percebido, antes de seus pares, as consequências de tais alterações políticas. Era preciso encontrar um país capaz de recebê-lo, sem que, no entanto, sua verdadeira identidade fosse revelada. Quando contei tudo isso para a Natália, ela caiu em desespero. Chorou três noites seguidas, teve muitas náuseas, não conseguiu dormir direito durante quase uma semana. Depois me confidenciou que estava grávida. Grávida de dois meses. Para complicar ainda mais a situação, o argentino tivera conhecimento da gravidez, cinco dias antes da falácia acerca de José Gonzalo Roca me ser revelada. Todavia, nós não podíamos deixar que tal revelação chegasse ao conhecimento dele, não sabíamos que tipo de reação aquele homem teria. Daquele momento em diante, nossas vidas tornaram-se um só pesadelo. Você precisa compreender… Espero que você compreenda, por Deus, tais fatos não podem ser analisados assim, à distância, fora de seu contexto histórico e sentimental…”

Tia Lira fez uma pausa mais longa. Sua expressão vacilava. Com dificuldade, tentando ocultar os olhos marejados, retomou o fio da meada:

“Sua mãe chegou a procurar uma clínica de aborto. O preço era exorbitante. O local, um lixo. Um conhecido médico de Brasília, depois eleito deputado, era o dono daquela espelunca. Que a verdade seja dita… Não há outra forma de compreender aqueles dias de terror e desamparo. Sua mãe tinha medo de tudo, da reação de seu pai, da mancha de ódio e vingança que ele carregava consigo. Das milhares de pessoas que o queriam supliciado até a morte. Ele era um grande incômodo para os seus pares, por tudo o que sabia e praticara, e um estorno para os seus inimigos e opositores. Quantas dessas pessoas não poderiam se voltar contra você ou contra ela mesma, visando acertar contas com um homem que torturou e matou diversos inocentes?

“Tudo se deu muito rápido, então. Ela pediu demissão do emprego e deixou uma carta para o seu pai. Redigimos a tal carta com todo o cuidado. Coube a mim entregá-la, quando o dito-cujo, sem ter como entrar em contato com ela, me procurasse. Isso ocorreu quase uma semana depois da partida de sua mãe para Belo Horizonte. A referida carta dizia que ela sofrera um aborto, e que tal malogro a fizera refletir melhor acerca da relação que tivera com ele. Enfim, que tudo não passara de um grande erro, que ela não o amava como deveria. Logo, era melhor que o relacionamento terminasse assim, sem mais delongas, apesar dos pesares. Solicitou, ao final, que ele a perdoasse, mas que não a procurasse nunca mais, que o esquecimento seria o remédio ideal para todo aquele enorme equívoco. Contra as mentiras do senhor José Gonzalo Roca, nada melhor do que uma carta bem melodramática, ao estilo hollywoodiano – e igualmente repleta de mentiras, não é mesmo? Sua mãe voltou então para Belo Horizonte, cidade onde você nasceu.

“Fiz concurso para a Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1981. Estudei feito uma louca. Como lhe disse, era meu sonho voltar a morar no Rio. Fui aprovada e comecei a trabalhar naquele mesmo ano. Sempre mantive contatos com a sua mãe. De vez em quando, eu a visitava em Belo Horizonte. Quando tive notícia da abertura de vaga para professor na Pedagogia, avisei-a imediatamente. Ela se preparou bem e, em meados de 1984, se não me engano, tomou posse na UFRJ. Moramos juntas, de novo, durante um curto período. Depois, ela acabou alugando um apartamento a algumas quadras de onde eu morava na Tijuca.

“Acontece que, embora sua mãe não tivesse deixado qualquer rastro, qualquer notícia do seu paradeiro, quando abandonou de vez Brasília, eu não tive o mesmo cuidado. Afinal de contas, o senhor José Gonzalo Roca era, para mim, um pesadelo ancorado no passado de uma grande amiga. Foi um erro brutal, o meu. No final de uma manhã de primavera, lembro como se fosse hoje – e estamos falando de 1984 –, num belo dia de sol, por sinal, eu e sua mãe nos deparamos com ele, na saída da universidade. Estava bastante mudado: alguns quilos a menos, a barba rala e quase branca, uma boina xadrez pouco condizente com o restante do vestuário. Aproximou-se de nós, com o olhar fixo em sua mãe: ‘Quero ver meu filho, passar uma tarde com ele, pelo menos uma tarde por semana. É meu direito’. Seu rosto parecia transtornado, repleto de ódio.

“Nunca passei por um pavor tão intenso. Diante daquele homem de mil nomes, de mil disfarces, de mortes por atacado, perdi a voz. Perdi minha voz completamente. Afinal de contas, ele nos olhava, literalmente, de cima, e fazia questão de externar o seu ódio e o seu desprezo. E foi então que eu conheci um outro lado da sua mãe, até aquele momento completamente escondido sob os modos gentis e fraternos da mulher que atendia pelo nome de Natália – e que a todos cativava. Ela tornou-se uma fera, verdadeiramente agressiva diante dele. Subindo o tom ríspido com o qual o canalha nos abordara, a pequena Natália colocou o dedo em riste e proferiu todos os impropérios que lhe vieram à boca. Foi um verdadeiro espetáculo. Ela afirmou que sabia perfeitamente quem ele era, e que poderia compartilhar com o filho, sem o menor problema, a miséria que representava esse conhecimento. Disse-lhe que o rol de mentiras elaboradas pelo senhor José Gonzalo Roca – uma risível peça de ficção – não o autorizava a assumir o papel de pai. Por fim, referiu-se ao momento político brasileiro. Ela agora possuía alguns canais… Isso era blefe. Puro blefe. Um ardil tramado pelo desespero. Mas que funcionou perfeitamente, pois nunca mais tivemos qualquer notícia dele.

“Quanto a você, bem, suas inúteis esperas de sábados e domingos… Os passeios frustrados ao Corcovado, à praia, à sorveteria, ao cinema… Que posso dizer? Talvez tudo isto seja uma dolorosa extensão do blefe anterior. Seu pai nunca agendou nenhum desses passeios. Uma vez, numa das muitas visitas que fiz ao apartamento de sua mãe, vi você todo animado, com um brinquedinho nas mãos, dizendo que estava à espera de seu pai. Você deveria ter uns seis ou sete anos de idade. Talvez oito, não sei. Aquilo cortou meu coração. Cheguei a ser ríspida com a Natália. Justo ela, que sempre foi uma mãe exemplar, tão carinhosa e dedicada a você… Então ela me disse, com os olhos em brasa: ‘o ódio também se ensina, Lirinha, também é possível domesticar alguém para o ódio. Mas fique tranquila: não é este o caso aqui… Você leu o jornal que eu deixei no seu escaninho ontem?’ Tratava-se de um dos jornais de esquerda que circulavam naquele período. Bem no alto da primeira página, o anúncio de um dossiê sobre o carrasco argentino El buitrero,[1] como era conhecido o seu pai nos cárceres da América do Sul.

“Nunca fui muito boa para guardar nomes. Ainda mais assim, quando um só sujeito é tão profissional a ponto de ostentar mais de uma dezena deles. Cheguei a anotar aqueles que o jornal declarava. Por exemplo, aqui está o verdadeiro nome de seu pai: Gamaliel Bustamante Azar. Ingressou no exército argentino em 1955 e passou parte dos anos 1960 nos Estados Unidos, aprendendo técnicas específicas de combate às guerrilhas. Adotou diversos nomes: Xavier Hernández, peruano, Juan Luis Peralta, chileno, Hidalgo Martín Ferrari, mexicano etc. E olhe que o espanhol José Gonzalo Roca sequer constava da lista apresentada pelo jornal. Todavia, quando circulava pelas masmorras, todos os seus companheiros de caserna o chamavam, com extrema deferência, de El buitrero. Ali, o tal dossiê, de cada dez prisioneiros que caíam nas garras de El buitrero, apenas dois saíam vivos. Vivos, mas imprestáveis para a vida: alienados, paranóicos, com inúmeras sequelas físicas e mentais. Logo, tudo o que se sabe sobre a atuação dele nos chegou através de pessoas que não foram interrogadas ou torturadas diretamente por aquele monstro, mas que estavam em celas próximas ou tiveram companheiros de cárcere envolvidos, nos processos de reconhecimento e de acareação. Dizem, inclusive, que durante as suas sessões de tortura, no auge dos procedimentos mais sádicos, ele declamava cantos inteiros do Inferno de Dante. E ostentando um italiano impecável, veja bem. Aliás, você não deve ter apenas essa irmã em Lisboa…”

Nova pausa. Oscilando ao fundo, uma angustiante tentativa de retomar o fôlego.

“Quando as sessões de tortura contemplavam mulheres jovens e bonitas, El buitrero não perdia a viagem. Incluía no seu ritual sádico o estupro. Uma estudante chilena declarou que sua companheira de cela foi violentada várias vezes por ele. Grávida, pariu a criança na prisão, sem a mínima condição de higiene. Como queriam arrancar da parturiente a localização de um guerrilheiro chamado Pablo, até o pobre do recém-nascido foi utilizado como instrumento de coação. Ainda assim, sem sucesso. Essa estudante chilena delarou que a jovem mãe não resistiu à ira do matador de abutres. Seu corpo foi retirado da masmorra naquela mesma noite. Provavelmente lançado ao mar no dia seguinte. Era a prática dos assassinos. Quanto à criança, ao que tudo indica, foi adotada por uma família uruguaia.

“Numa das páginas internas do jornal aparecia uma fotografia antiga, incluindo diversos militares argentinos, creio que se tratava de alguma cerimônia de formatura… ou coisa parecida. O rosto de seu pai vinha demarcado, com um círculo. Eu mesma não fui capaz de reconhecê-lo. A impressão do jornal não era das melhores. Mas eu tenho uma surpresa para você… Salvei esta fotografia do incêndio particular que fizemos pouco antes de sua mãe deixar Brasília, no início de 1980, embarcando às pressas para Belo Horizonte. Queimamos tudo o que poderia indicar o relacionamento dos dois: cartas, telegramas, presentes, fotografias etc. Tudo virou cinza. Sem que sua mãe percebesse, no entanto, eu salvei esta lembrança. Por quê? Sinderamente não sei. Talvez para entregá-la ao filho da minha maior amiga, de minha verdadeira irmã, quase trinta anos depois. Não vejo outro sentido, para o que fiz naquela época.”

 

O avião começou a traçar um longo círculo no céu de Lisboa. Não descansei um só minuto durante toda a viagem. De vez em quando, retirava da agenda a fotografia que Tia Lira salvara dos escombros. Minha mãe era mesmo uma jovem muito bonita. A figura do argentino Gamaliel Bustamante Azar, quer dizer, do espanhol José Gonzalo Roca, era esse o seu personagem naquele dia, um homem alto e magro, de rosto expressivo, sorriso largo, não me saía da memória. Minha mãe e ele, de mãos dadas. Algumas árvores circundando o lago refletido ao fundo. O verde intenso da grama. Sim, eles formavam um belo casal. A aterrissagem se deu dentro do horário previsto. Ao chegar ao hotel, tentei dormir um pouco, antes que Natália viesse a meu encontro. Fui assaltado, no entanto, por um pesadelo terrível. A porta de meu quarto se abriu de repente e um senhor, com o mesmo rosto de meu pai, veio até meu leito e se apresentou, de forma bastante cordial: “Prazer, José Gonzalo Roca, a seu dispor”. Talvez eu esperasse, como a criança que ficou no sofá da antiga sala, com um brinquedo qualquer nas mãos. Em seguida, outro senhor, também com o rosto de meu pai, cumpriu o mesmo ritual de apresentação: “Prazer, Hidalgo Martín Ferrari, a seu dispor”. Não faço ideia de quantos homens cumpriram o referido ritual ao adentrar no meu quarto. Todos, naturalmente, com o mesmo rosto e a mesma cordialidade. Chamava-me a atenção, apenas, a diversidade de roupas e dos nomes. Por fim, quando o cômodo estava quase repleto, entrou um senhor todo vestido de negro, com boa parte do rosto imersa na zona de sombra do tumulto recém-formado. “Prazer, eu sou seu pai”. E estendeu-me a mão manchada de sangue.

Natália parecia nervosa. Depois de algumas indagações superficiais acerca de minha viagem e da palestra que eu deveria apresentar na Casa da América Latina, disse que meu pai, ao saber que estava com câncer no fígado, mas já em avançado processo de metástase, decidiu escrever uma longa carta de justificativa. Essa carta foi reescrita diversas vezes, sempre que a doença o permitia. A última versão, com algumas emendas, ficou pronta uma semana antes de sua morte. Entregou-me, então, o envelope lacrado, contendo meu nome como destinatário. Sua justificativa, por incrível que pareça, estava endereçada a mim. Por quê? Peguei o envelope com cuidado, conferi a letra tremida e incerta, observei o nome gravado na parte destinada à especificação do remetente. Ela olhou para as minhas mãos e disse: “Que giro… tu não te pareces muito com ele. A não ser pelas mãos. Tuas mãos denunciam. São iguais as dele. É impressionante!”

“O teu nome”, perguntei, “como se deu a escolha do teu nome? Natália foi uma bela escolha.”

“Muito obrigada. A escolha foi dele, integralmente dele. Minha mãe queria, na verdade, homenagear sua tia materna, Sophia. Assim… grafado com um imponente ph no meio. No final das contas, venceu a obstinação de meu pai.”

Natália abriu sobre a mesa o álgum de fotografias. Lá estava o mesmo rosto expressivo, agora um pouco mais triste, sem o sorriso largo de outrora. Será que aquele sorriso pertencia apenas a José Gonzalo Roca? Como seria, então o sorriso do temido El buitrero quando, declamado um canto completo do Inferno, dava por encerrado, com louvor, o seu trabalho? Com o envelope nas mãos, os olhos ainda cravados no remetente, argumentei: “Deve haver algum engano. Fala-me um pouco sobre teu pai, quer dizer, sobre Leopoldo Lunel Varela”. Era este o nome do remetente.

“Ora”, estranhou Natália, “ele era uruguaio, nascido em Montevidéu em 1935. Formou-se em Letras ainda no Uruguai, trabalhando como tradutor durante um tempo. No Brasil, obteve o diploma de contabilista e passou a atuar na área de comércio exterior, em operações de exportação de minérios, representando uma grande siderúrgica situada no Vale do Aço, em Minas Gerais… Estou certa? Esse Vale do Aço fica em Minas Gerais, não é mesmo? Falava diversas línguas, adorava declamar o Inferno de Dante. Em italiano, claro. Sabia alguns cantos de cor. Seu inglês era fluente também. Veio para Portugal em 1986, já aposentado. Conheceu minha mãe nesse mesmo ano – ela era funcionária de uma agência postal situada ao lado do prédio em que ele morava – e casaram-se no ano seguinte. Infelizmente minha mãe faleceu no final da década passada, de complicações cardíacas. Logo que soube do câncer, do avançado processo de metástase, ele me disse que possuía um filho no Brasil, de nome Luís Antônio Pereira, nascido em 1980, em Belo Horizonte. Disse-me também que esse filho se formara em Comunicação no Rio de Janeiro e que trabalhava num tradicional jornal carioca. Todos os dias, pela internet, ele acompanhava as tuas matérias e os teus artigos. Sua grande mágoa, nos últimos meses de vida, era o distanciamento existente entre vocês, motivado, segundo me contara, por um desentendimento que tivera com a tua mãe. Algo tolo, inexplicável”.

Fiz uma pequena pausa. Natália não sabia nada sobre o argentino Gamaliel Bustamante Azar, não demonstrava conhecer a história de El buitrero ou do espanhol José Gonzalo Roca. Ou das dezenas de outros nomes envolvidos no labirinto que, para a sua felicidade, chamava-se apenas Leopoldo Lunel Varela, um uruguaio talvez exemplar, trabalhador honrado, bom pai, quem sabe até um excelente marido. Natália não demonstrava saber nada a respeito de nossos outros irmãos, aqueles que o matador de abutres gerara, à força, em diversos cárceres da América do Sul. Entrar para a família, neste caso, teria um preço. Eu não poderia ficar sozinho no inferno que esse homem de mil nomes gerara em torno de si mesmo.

“De fato, há um grande equívoco aqui” – disse-lhe, devolvendo a carta –, “não sou eu o verdadeiro destinatário desta correspondência. Meu verdadeiro pai chamava-se José Gonzalo Roca. Era espanhol e mulherengo. Trocava de país como as mulheres trocam de roupa. Nascido em Sevilha, herdara de seus antepassados ciganos essa louca vontade de estar em todos os lugares do mundo, se possível ao mesmo tempo. Embora seu nome não conste do meu registro de nascimento – e em nenhum documento oficial que me identifique –, eu tive a oportunidade de conhecê-lo, no Rio de Janeiro, poucos meses após ingressar na universidade. Devo confessar, no entanto, que tal encontro não me traz boas recordações. Não houve empatia alguma. Na verdade, achei-o vulgar, um sátiro levado a nocaute pelo advento da terceira idade. Por outro lado, meu nome é extremamente comum no Brasil. Não faço idéia de quantas pessoas, registradas sob o guarda-sol banal de Luís Antônio Pereira, existem apenas na cidade do Rio de Janeiro. Ou no meu bairro. Esse fato pode ter induzido teu pai ao erro, infelizmente. Mas, olhando de outro ângulo, me fez ganhar um leitor cativo aqui em Portugal.”

Natália parecia estar em transe, os olhos fixos em minhas mãos. “Estou sem palavras, não é possível…”, pronunciou como que para si mesma, “peço-te desculpas, meu Deus, desculpas do incômodo que te causei. Como fui parva… Eu deveria…” Tratei logo de interromper seu pedido de desculpas: “Olha, essas coisas acontecem. Como meu pai era um femeeiro incorrigível, também fui induzido ao mesmo erro”. Natália sorriu ainda atordoada.

 

Ter muitos nomes é o mesmo que não ter nenhum. Eis o que pensei quando alcancei a rua, deixando para trás, entre os velhos móveis de seu apartamento, uma Natália repleta de interrogações. Domei com os olhos as luzes tênues do Chiado. Se minhas mãos guardam alguma semelhança com as mãos que fizeram a história de Gamaliel Bustamente Azar – e o olhar acusador de Natália ainda me assusta –,  creio que posso colocar este parricídio na conta de meu próprio pai. Foi por uma causa nobre. E uma morte a mais, na longa contabilidade funerária de El buitrero, não fará muita diferença. Se eu soubesse, de cor, um canto inteiro do Inferno, ou mesmo um só dos seus melhores tercetos, juro que o declamaria aqui mesmo, bem no meio desta pequena praça.

Ah, sim, em italiano, naturalmente.

 

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El buitrero. In FREITAS, Iacyr Anderson et al. Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai. 1ª e única edição. Juiz de Fora, MG: Edições Pasárgada, 2010, p. 57-71.

** Iacyr Anderson Freitas (Patrocínio do Muriaé, MG/1963) é autor de vinte livros de poesia e três de ensaio literário. Detentor do título de mestre em Letras pela UFJF, publicou também o volume de contos Trinca dos traídos (Nankin/Funalfa). Sua obra está traduzida para diversas línguas. Destaque-se ainda os três volumes que reuniram sua obra poética completa: A soleira e o século (2002), Quaradouro (2007) e Primeiras letras (2007), todos editados pela Nankin/Funalfa Edições, que patrocinaram a sua mais recente obra, Viavária (2010). Pelas Edições Pasárgada publicou o livro Terra além mar (2005). Contato: iacyrand@gmail.com

(1) Buitrero (s.m.): vocábulo espanhol que significa abutreiro ou caçador de abutres.

Última aula de Teorias da Criação Poética* | com Marcelo Maldonado**

Ministrada pela Prof. Dra. Ana Maria Lisboa de Mello no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS.

** Contatomaldonado.mm@gmail.com

Índex* – Junho, 2016

Quando a vejo

Ao luar

Parece uma serpente 

Que por algum desvio

No destino

Perdeu o poder

De matar

*

Brilha a lua

Brilha a minha

Face obscura

Por saber

Que existe

Uma saída

Por sentir

Que insiste

Uma ideia

De vencer 

Um pouco mais

De mim mesma

(“Os dois lados da minha moeda”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 19/06/16, 17h20)

 

Vencendo um pouco mais de mim mesma no Índex de Junho, 2016 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Um Elogio à Loucura: Devaneios para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

O homem despedaçado | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Compulsão Agridoce | Antonio Aílton (MA – Brasil).

Coisas: poemas etc | Pedro Américo de Farias (PE – Brasil).

Memórias de um hiperbóreo & Antologia Cosmopolita | Oleg Almeida (Bielo-Rússia/DF – Brasil).

Pílulas para o silêncio | Píldoras para el silencio | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

 

E os links do mês:

Maria Rizolete Fernandes envia poeta e pintor salmantinos, Alfredo Alencart e Miguel Elias (Salamanca – Espanha)www.salamancartvaldia.es/not/119724/drama-refugiados-desde-sensibilidad-alencart-miguel-elias

O site de Laila Ribeiro Silva (MG/RS – Brasil)www.sobrelivros.com.br

 

Agradeço a participação, a próxima postagem será em 31 de Julho de 2016, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Index* – June, 2016

 

When I see her

At the moonlight

She looks like a snake

Which for some deviation

In destiny

Lost power

To kill

*

Shines the moon

Shines my 

Hazy face

Knowing

That exists

An exit

Feeling

That insists

An ideia

To win 

A little more

From myself

(“Both sides of my coin”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/19/16, 5h20 p.m.)

 

Winning a little more of myself on the Index of June, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

A Praise of Folly: Daydreams for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

The broken man | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Compulsion Bittersweet | Antonio Aílton (MA – Brasil).

Things: poems etc | Pedro Américo de Farias (PE – Brasil).

Memoirs of Hyperborean & Cosmopolitan Antology | Oleg Almeida (Belarus/DF – Brasil).

Pills for silence | Píldoras para el silencio | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

 

And the links of the month:

Maria Rizolete Fernandes sends the salmantins poet and painter Alfredo Alencart and Miguel Elias (Salamanca – Spain)www.salamancartvaldia.es/not/119724/drama-refugiados-desde-sensibilidad-alencart-miguel-elias

The site of Laila Ribeiro Silva (MG/RS – Brasil)www.sobrelivros.com.br

 

I thank for the participation, the next post will be on July 31, 2016, a big hug and see you there,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Os lançamentos de “A menina do olho verde” – Recife e Porto Alegre… The launchings of “The green eye girl” – Recife and Porto Alegre.

Um Elogio à Loucura: Devaneios para uma Escrita Criativa*|Patricia (Gonçalves) Tenório[1]

Maio, 2016

 

O Sonho de Albert Béguin

Quando o escritor, crítico, editor suíço, nascido em Chaux-de-Fonds, Albert Béguin (1901-1957) abre o seu A alma romântica e o sonho: ensaio sobre o romantismo alemão e a poesia francesa (1937), flutuo rumo a conexões possíveis com outros teóricos e poetas investigados na disciplina, a que assisto como aluna especial, Teorias da Criação Poética, ministrada pela Profª. Dra. Ana Maria Lisboa de Mello, no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), além de relacionar com as temáticas de Loucura e Devaneio aplicadas à Escrita Criativa que eu pesquisava no momento.

“Toda época do pensamento humano poderia definir-se, de maneira suficientemente profunda, pelas relações que estabelece entre o sonho e a vigília. Sem dúvida nos admiraremos sempre de viver duas existências paralelas, mescladas uma à outra, mas entre as quais não chegamos nunca a estabelecer uma perfeita concordância. Cada criatura se encontra, tarde ou cedo, e com maior ou menor clareza, continuidade e sobretudo urgência, diante desta pergunta insistente: Sou eu o que sonha? Pergunta de aspectos infinitos, que interessa a nossas razões vitais, à eleição que devemos fazer entre nossas possibilidades interiores e o problema do conhecimento tanto como o da poesia.”[2]

Albert Béguin sonha. E, em seus sonhos na Universidade de Bâle (1937-1946), onde leciona na cátedra de Literatura Francesa, preocupa-se com a inquietude existencial (Léon Bloy ou Georges Bernanos), o Paraíso Perdido (Alan-Fournier), com a dimensão espiritual da Criação Poética (Paul Claudel ou Gérard de Nerval). Ou mesmo quando cria (1942) e dirige os Cahiers du Rhône, ou publica nomes, tais como Charles Péguy, Louis Aragon, Paul Éluard, Pierre Emmanuel, Loys Masson, Pierre Jean Jouve, em resistência durante a Segunda Guerra Mundial na luta dos escritores franceses pelos valores da França em meio à Europa ocupada pelo nazismo. Ou quando, após a morte de Emmanuel Mounier (em 1950), ocupa-se até o fim da vida na direção da revista Esprit. O sonho de Béguin torna-se o meu sonho, e busco, na sua escrita, uma fresta para me inserir no estudo sobre a Loucura e o Devaneio.

“Nos sonhos noturnos, e nos sonhos ainda mais misteriosos que me acompanham ao longo do dia – tão próximos à superfície que afloram ao primeiro choque –, há uma existência cuja presença permanente e fecunda se revela através desses e outros signos. O que passa por alto e o que desce ao esquecimento torna a sair um dia inesperadamente, mas transformado e enriquecido com uma substância que eu ignorava, como o germe depositado na terra cresce, flor ou árvore.”[3]

E nesse vai e vem de sonhos, flutuo para uma primeira conexão entre o pensamento germinal de Albert Béguin, o Elogio da loucura, de Erasmo de Rotterdam, e a Escrita Criativa.

 

Meu nome é Loucura

Na entrada do Museu do Inconsciente, antigo Hospital Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, existe uma frase que pertence à médica psiquiatra brasileira, nascida em Maceió, Alagoas, Nise da Silveira (1905-1999).

“A diferença entre o louco e o artista é que o louco vai e não volta; o artista vai e volta.”

O filme lançado em 21 de abril de 2016, “Nise – o coração da loucura”,[4] retrata bem esse limiar tênue entre a loucura e a “sanidade”, até que ponto somos “loucos”, até que ponto somos “normais”, e, principalmente, para o que interessa a este estudo, o limiar entre a loucura e a arte, o fazer artístico, a Escrita Criativa que encontro no livro do teólogo holandês, nascido em Gouda, perto de Rotterdam, Erasmo Desidério, mais conhecido como Erasmo de Rotterdam (1469-1536), Elogio da loucura (1508).[5]

Erasmo nasceu bastardo, filho de um padre e da filha de um médico. Tentou pertencer à Igreja Católica consagrando-se padre em 1492, mas travou uma luta por toda a vida para reformar a igreja em que nasceu, não pela força e pela cisão feito Lutero, mas pela volta aos primórdios do Cristianismo, aqueles que Erasmo acreditava como os idealizados e pregados pelo próprio Cristo. A humildade, a simplicidade, a contenção das paixões mundanas em prol de um além-vida, além-morte, num reino que, para nós, foi preparado pelo filho de Deus em sua passagem terrestre.

Trazendo para a Literatura – e até mesmo para as artes conjugadas (Poesia, Artes Plásticas, Artes Visuais…) –, encontro em Elogio da loucura pistas a serem seguidas por aqueles, aquelas que se aventurem nas “belas letras”, na escrita ficcional ou poética. Como? Você pode me perguntar. Começo então pelo “começo”, falando desse estudo concebido e escrito em oito dias na residência do amigo de Erasmo, o poeta, cantor, escritor, advogado, e primeiro leigo no cargo de chanceler do reino de Henrique VIII da Inglaterra Thomas Moore (1478-1535 – aquele que escreveu Utopia (1516)).

Erasmo veste a pele da personagem e dedica a seu amigo Moore, cujo nome vem de Morus, Moria que em grego significa “Loucura”. Descubro no livro A loucura e as épocas (1994), do escritor, psicólogo, professor universitário brasileiro, nascido em São Bernardo do Campo, São Paulo, Isaias Pessotti (1933) – livro que traça um panorama da história da loucura nos textos, da antiguidade clássica com Homero, Ésquilo, Eurípedes, Hipócrates, Galeano, passando pelos exorcistas dos séculos XV e XVI, o enfoque médico da alienação mental nos séculos XVII e XVIII, até chegar aos textos do século XIX, que tratam da psicopatologia do período –, descubro no livro de Pessotti a origem de Moria, ou Moira, nas obras do autor grego (ou autores que a humanidade nomeou de) Homero, em especial na Ilíada.

Pessotti afirma que, até os tempos pré-socráticos, os seres humanos não se conheciam, ainda não existia uma “concepção estruturada da ‘natureza humana’”, um “conhece-te a ti mesmo”. Os deuses eram os senhores dos destinos humanos, e tudo o que acontecia fora do normal com o homem era proveniente dos castigos ou vinganças divinas. O professor paulista cita Agamêmnon na Ilíada, de Homero, desculpando-se por ter roubado a amante de Aquiles, como se tivesse sido possuído ou sido influenciado por uma Atê, espécie de agente intermediário entre o homem e os deuses. Segundo Pessotti [segundo Tenório (segundo…)], “na tragédia, a atê adquire o significado de desastre, de desgraça objetiva, de evento.”

“Para “explicar”, ou melhor, para justificar os desastres pessoais, os azares ou infortúnios da vida individual surgirá o conceito de moira, entendido como o implacável destino individual. Mas é importante lembrar que, tanto o desastre objetivo como o infortúnio pessoal, a rigor, não são desgraças que, acidentalmente se abatem sobre o homem. Não há acidentes, para Homero. Tudo é determinado. Não há culpas e não há remorsos, pelas ações insensatas (desafortunadas ou lesivas aos outros). Cada ato insensato é produto de uma atê causada, produzida por Zeus, derivada dele como uma filha (Il, 19,91).”[6]

Volto para Erasmo. Ele resolve, a princípio, aparentemente em tom de brincadeira, tecer um elogio àquela Senhora tão expurgada e relegada pelos seres humanos ditos “normais” ou de “bom senso”. Percorre a Retórica, a Política, Príncipes e Cortesãos, Monges, Papas, Bispos, até chegar a Jesus Cristo e aos Primeiros Padres que fundaram a Igreja Católica.

Encontro na Loucura de Erasmo de Rotterdam toda a formação de uma personagem convincente, coerente com sua substância, sua essência primordial. Ela se autoelogia quando se diz a origem da Vida; quando dá aos jovens a paixão para vivê-la; aos velhos, o esquecimento para suportar a sua partida.

“E, certamente, nenhum mortal poderia suportar essa velhice, se as misérias da humanidade não me obrigassem a vir mais uma vez em seu auxílio. Tal como os deuses dos poetas, que, quando os mortais estão prestes a perder a vida, os aliviam por alguma metamorfose, também eu transformo os velhos que estão à beira do túmulo e os trago de volta, tanto quanto posso, à idade feliz da infância.”[7]

O Casamento, a Amizade, o Pensamento antigo dos gregos e do Renascimento, todos são visitados pela Senhora Loucura, retirando os véus da hipocrisia de quem não concede a si o reconhecimento pelos bens que lhes fornece. Quando alerta que “Não acrediteis, porém, que o que digo seja uma dessas artimanhas que os oradores empregam geralmente para enaltecer seu espírito”,[8] a Loucura me faz lembrar do poeta e diplomata brasileiro, nascido em Recife, Pernambuco, João Cabral de Melo Neto (1920-1999), quando trata de “A inspiração e o trabalho de arte”, estudado durante a disciplina Teorias da Criação Poética, da Profª. Ana Lisboa.[9]

“É evidente que numa literatura como a de hoje, que parece haver substituído a preocupação de comunicar pela preocupação de exprimir-se, anulando, do momento da composição, a contraparte do autor na relação literária, que é o leitor e sua necessidade, a existência de uma teoria da composição é inconcebível. O autor de hoje trabalha à sua maneira, à maneira que ele considera mais conveniente à sua expressão pessoal.”[10]

O que se encontra livre para a Loucura parece encontrar-se excludente em Cabral: ou a arte, no caso a poesia, é criada pelos poetas chamados “bissextos”, regidos pela Musa inspiradora, ou é criada no trabalhador da obra de arte, no ourives do verso, e que trago também para a prosa ficcional. Vejamos, eu e você, Leitor(a), o que a Loucura fala em Erasmo.

“O sábio, com o nariz sempre colado nos livros dos antigos, aprende apenas palavras sutilmente combinadas; o louco, ao contrário, exposto constantemente a todos os caprichos da fortuna, aprende em meio aos revezes, penso eu, a conhecer a verdadeira prudência.”[11]

Sei que, durante seu estudo, Cabral se redime ao afirmar a possibilidade de conciliação entre essas duas esferas da Criação, entre a “inspiração” e o “trabalho de arte”. Mas sinto no ar “o aroma” de sua preferência, ou seja, pela segunda esfera. O que me faz recordar um outro teórico – poeta também – preocupado com o fazer artístico, e o quanto o estudo do “trabalho de arte” pode contribuir (ou não) para a sua construção. Estou falando do filósofo, escritor, poeta francês, nascido em Sète, (Ambroise-)Paul(-Tousssaint-Jules) Valéry (1871-1945). Na “Primeira Aula do Curso de Poética” no Collège de France, Paris, em 1937, Valéry alerta:

“Um estudo assim não é uma imposição. Podemos julgá-lo inútil e podemos até achar que essa pretensão é quimérica. Além disso: certas pessoas acharão essa pesquisa não apenas inútil, mas também prejudicial; e talvez até sintam-se obrigadas a considerá-la assim. Admite-se, por exemplo, que um poeta possa legitimamente temer alterar suas virtudes originais, sua força imediata de produção pela análise que fizer. Instintivamente ele se recusa a aprofundá-las de outra forma que não através do exercício de sua arte e a dominá-las completamente através do raciocínio demonstrativo.”[12]

Erasmo, sob a pele da Loucura, “se preocupa com essa preocupação” excessiva dos gramáticos – e acrescento, dos escritores de hoje em dia. “Há tantas gramáticas quanto gramáticos”, diz Erasmo/Loucura. “Há tantas poéticas quanto poetas”, ecoa João Cabral de Melo Neto. E com isso chego a mais um poeta-teórico: o poeta, dramaturgo, místico irlandês, nascido em Dublin, William Butler Yeats (1865-1939).

Yeats, em “O simbolismo da poesia” (1900), [13] afirma que os escritores, assim como os artistas, devem possuir “alguma filosofia”, alguma “forma de crítica de sua arte”. E é justamente essa “crítica”, essa “filosofia”, que os “inspira”, os faz entrar em estado criativo – em Escrita Criativa, eu poderia acrescentar. Talvez esses artistas/escritores não buscassem algo novo, mas apenas a gênese de todas as artes, o que está contido em todo ser humano por ser o artífice do símbolo, que, por sua vez, continua Yeats, é infinitamente superior à simples metáfora.

Volto (novamente) para o nosso, meu e seu, teólogo da Loucura, Erasmo (Desidério) de Rotterdam – e esse “Desidério”, esse “Desejo” de Erasmo também é símbolo, além de todas as palavras e nomes próprios. Encontro reflexões sobre a construção de uma obra de arte narrativa – e tomo para o âmbito do ficcional – quando Erasmo trata do discurso de (ilustres) oradores da Igreja Católica.

“Em terceiro lugar, eles vos relatam, em forma de narração, alguma passagem do Evangelho, que explicam às pressas e como de passagem, sem pensar que é unicamente nessa explicação que deveria consistir todo o discurso. Em quarto lugar, mudam repentinamente de personagem e levantam uma questão teológica que às vezes não convém em absoluto ao tema principal, e isso é também chamado uma maravilha da arte.”[14]

“Não devemos fugir do tema de nosso texto” (ficcional), pareço ouvir Loucura/Erasmo/Mestre de Escrita Criativa me orientar. “Não devemos mudar de personagem sem avisar ao leitor”, continua a(o) Mestre.

Encontro uma sutileza ao final de Elogio da loucura própria dos escritores/poetas modernos. Trata-se da metaficção que o ensaísta, romancista, escritor de literatura infantil e juvenil Gustavo Bernardo (1955) aborda em O livro da metaficção (2010).[15]

A metaficção seria um texto no qual os mecanismos da produção literária estariam expostos claramente ao leitor, como se este estivesse em uma queda contínua sobre si mesmo, e não soubesse mais se se encontra na “vida real” ou na “ficcional”. Extraio um exemplo do próprio Elogio da loucura.

“Mas ouço já chiar esses pequenos doutores em grego que, com suas novas observações, procuram nos deslumbrar e nos fazer acreditar que os teólogos são ignorantes. Se meu caro Erasmo não é o primeiro, é pelo menos o segundo desses novos doutores; nomeio-o com frequência porque é o melhor de meus amigos e quero homenageá-lo.”[16]

Ao final da leitura de Elogio da loucura, fica o sentimento que deveria ser não somente o maior da cristandade, mas também de todo ser humano: a Humildade. Cercados que somos, nós, artistas, escritores, pela Senhora Vaidade, façamos uma mea culpa e vistamos a pele da Humildade, inundemo-nos do Amor Perfeito, quando saímos de nós e estamos no Outro, e cometemos a maior das Loucuras que é “Amar ao próximo como a si mesmo”. E mais: “Como eu vos amei.”

“De fato, quem ama com ardor não vive mais em si mesmo, vive no objeto que ele ama; e, quanto mais se afasta de si mesmo para ligar-se a este objeto, mais ele sente aumentar sua alegria e sua felicidade. Ora, não é louco o homem quando seu espírito, elevando-se acima da matéria, parece sair do corpo para delirar? De outro modo, o que significariam estas expressões vulgares: Ele está fora de si… caia em si… ele voltou a si…? Enfim, quanto mais perfeito é o amor, maior a loucura e mais sensível a felicidade.”[17]

 

Das Flutuações aos Devaneios

Pouso novamente em Albert Béguin. Ele me aguarda (ainda) entre sonhos com a pergunta: “Qual a parte de nossa vida em que aceitamos nos reconhecer?”[18] Paro. Olho em seus olhos. Dou-lhe a minha mão. E o escuto soar uma canção estranha, mas ao mesmo tempo conhecida minha.

“Com efeito, a obra de arte e de pensamento interessa a essa parte mais secreta de nós mesmos em que, desprendidos de nossa individualidade aparente, mas voltados face a nossa personalidade real, só temos uma preocupação, a de abrir-nos às advertências e aos signos e conhecer por eles o estupor que inspira a condição humana contemplada um instante em toda sua estranheza, com seus riscos, sua angústia total, sua beleza e seus limites falazes.”[19]

Béguin me convida a novas associações nessa rede da Criação Poética, nessa teia da Escrita Criativa, que vai se tecendo ao mesmo tempo em que tomo o teclado e, na tela do computador, digito uma letra, uma palavra, uma frase que me faz sentido e deixo meu pensamento flutuar novamente e pousar no filósofo, romancista, teórico e músico suíço, nascido em Genebra, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em seu Os devaneios do caminhante solitário.

Entre 1776 e 1778, nos dois últimos anos de vida, Rousseau flutuou em Paris e seus arredores, observando os passantes, colhendo, para catalogar, exemplares da vegetação – a flora era uma de suas maiores paixões –, refletindo sobre a exclusão que havia sofrido da sociedade.

“Sozinho para o resto de minha vida, visto que encontro apenas em mim o consolo, a esperança e a paz, só devo e quero me ocupar de mim. É neste estado que retomo a continuação do exame severo e sincero que chamei outrora minhas Confissões. Destino meus últimos dias a estudar a mim mesmo e a preparar com antecipação as contas que não tardarei a prestar sobre mim. Entreguemo-nos por inteiro à doçura de conversar com minha alma, pois ela é a única que os homens não me podem tirar.”[20]

Nos devaneios do filósofo, do teórico, do poeta ou ficcionista – do artista – é que se abre a fresta para a Criação. Rousseau, mais adiante, agradece quando “os homens me obrigaram a viver sozinho”, porque com isso “eles haviam feito mais por minha felicidade do que eu soubera fazer por mim mesmo”.[21]

Eu, Béguin, Rousseau. Caminhamos pelos arredores da Paris imaginária. Pareço ouvir Béguin iniciar o seu diálogo com Rousseau.

– “O conhecimento de nossa existência mais “única” – que nosso mesmo amor-próprio nos dissimula profundamente – é tão difícil de alcançar como a imagem desconhecida de nosso rosto ou de nossos ombros nas efígies mortas que deles podem nos dar o espelho ou a fotografia. Para compreender esta harmonia ou esta lei particular, não existe outro meio que escapar ao tempo pela contemplação do tempo e perceber entre todas as demais, com o ouvido alerta, a melodia que é nosso Destino.”[22]

(Pareço ouvir os deuses gregos – resgatados por Isaias Pessotti – quando castigam os homens por desobedecerem ao seu Destino.)

No que Rousseau responde:

– “Quando a noite se aproximava, eu descia dos cumes da ilha e em geral sentava na beira do lago, sobre a areia, em algum refúgio escondido; ali o barulho das ondas e a agitação da água, fixando meus sentidos e afastando de minha alma qualquer outra agitação, a mergulhavam em um devaneio delicioso em que muitas vezes a noite me surpreendia sem que eu percebesse. O fluxo e o refluxo dessa água, seu ruído contínuo e retomado a cada intervalo, atingindo sem parar meus ouvidos e meus olhos, substituíam os movimentos internos que o devaneio apagava em mim e bastavam para me fazer sentir com prazer minha existência sem me dar ao trabalho de pensar.”[23]

Então, ouvimos ao longe o crepitar de uma chama se aproximando, um’A psicanálise do fogo (1949), do filósofo, poeta francês, nascido em Bar-sur-Aube, Gaston Bachelard (1884-1962), que nem todo encontro das águas, nosso, meu, de Béguin e Rousseau, poderia apagar.

 

Na psicanálise de Gaston Bachelard

Gaston Bachelard se aproxima de nosso grupo de poetas-teóricos com um novo olhar. Albert Béguin, apesar de resistente ao método psicanalítico, por considerar sua “pretensão de curar o poeta de sua poesia e evitar-lhe o fracasso”,[24] como foi o caso de Charles Baudelaire e seu As flores do mal, resolve se desarmar e escutar o novo companheiro no devaneio.

– “Mas o devaneio junto à lareira tem aspectos mais filosóficos. O fogo, para o homem que o contempla, é um exemplo de pronto devir e um exemplo de devir circunstanciado. Menos abstrato e menos monótono do que a água que flui, mais rápido inclusive em crescimento e mudança do que o pássaro no ninho vigiado a cada dia nas moitas, o fogo sugere o desejo de mudar, de apressar o tempo, de levar a vida a seu termo, a seu além.”[25]

Observo com atenção os três homens sentados ao meu lado. Investigo com o olhar o que Rousseau estaria pensando, “devaneando”, e, de repente, como se adivinhando meu pensamento, como se “adentrando” meu pensamento, ele começa a falar.

– “Tudo tem uma compensação. Se meus prazeres são raros e breves, os experimento com mais intensidade, quando ocorrem, do que se me fossem familiares; rumino-os, por assim dizer, com frequentes recordações, e, por mais raros que sejam, se fossem puros e uniformes, talvez eu fosse mais feliz do que em minha prosperidade. Na extrema miséria, com pouco ficamos ricos.”[26]

Bachelard continua:

– “Para nós, que nos limitamos a psicanalisar uma camada psíquica menos profunda, mais intelectualizada, cumpre substituir o estudo dos sonhos pelo estudo do devaneio, mais especialmente, neste pequeno livro, o devaneio diante do fogo. Em nossa opinião, esse devaneio é extremamente diferente do sonho pelo próprio fato de se achar sempre mais ou menos centrado num objeto. O sonho avança linearmente, esquecendo seu caminho à medida que avança. O devaneio opera como estrela. Retorna a seu centro para emitir novos raios.”[27]

Noto que retornamos aonde iniciei este estudo. Retornamos ao sonho de Albert Béguin. Então, resolvemos, os quatro, as quatro faces de “Um Elogio à Loucura”, nos “Devaneios para uma Escrita Criativa”, aplicarmos, ou ao menos tentarmos aplicar, tudo o quanto devaneamos, tudo o que enlouquecemos em dois pequenos textos, um ficcional e o outro poético, para pousarmos os pés no chão, apesar de as nossas cabeças continuarem a voar.

 

Dois estudos de casos: Loucura e Devaneio na Escrita Criativa

Quando o teórico, poeta, escritor francês, nascido em Tinchebray, Orne, André Breton (1896-1996) abre o seu primeiro Manifesto do Surrealismo, em 1924, reinvindica e adota o tom da Liberdade na Criação Poética, Literária, Artística, em especial a Liberdade que a Loucura fornece.

“Resta a loucura, “a loucura que se trancafia”, como já houve quem dissesse tão acertadamente. Esta ou a outra… Sabem todos, com efeito, que a única razão pela qual os loucos estão internados é um pequeno número de atos legalmente repreensíveis e que, na ausência de tais atos, a liberdade deles (aquilo que se vê da liberdade deles) não estaria ameaçada. Que eles, em maior ou menor grau, sejam vítimas de sua imaginação, estou pronto a admiti-lo, no sentido de que ela induz não observar determinadas regras cuja inobservância faz com que nossa espécie se sinta ameaçada, como todos têm o desprazer de saber.”[28]

Na Loucura e na Infância os limites não existem, ou são abertos, de par em par, os Portões da Liberdade. E Breton forja a Tríade do Imaginário, da Escrita Criativa, acrescentando o Sonho, que vai beber nas águas do Pai da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939).

“A extrema diferença de importância, de gravidade, que aos olhos do observador ordinário têm os acontecimentos da vigília e os do sono, sempre me encheu de espanto. É que, ao cessar de dormir, o homem é, acima de tudo, um joguete da memória, a qual, em circunstâncias ordinárias, se compraz em retraçar-lhe debilmente as circunstâncias do sonho, em privar este último de quaisquer consequências atuais e em fazer com que o único determinante parta do ponto em que ele imagina tê-lo deixado algumas horas antes: esta firme esperança, aquela preocupação.”[29]

Descubro no pequeno conto “Olhos mortos de sono”, do médico, escritor, dramaturgo russo, nascido em Taganrog, Anton (Pavlovich) Tchekhov (1860-1904), essa mistura exatamente dos três elementos elencados por mim no Manifesto de Breton, ou seja, a Loucura, o Sono/Sonho, a Infância.

Tchekhov narra a história de Varka, uma menina de treze anos, que toma conta de outra criança, um bebê, enquanto passa dias e noites sem dormir. E a Vigília se mistura com o Sonho de maneira violenta e assustadora, até que o Sonho se impõe no final.

“Bruxuleia o candeeiro. A mancha verde e as sombras põem-se em movimento, entram pelos olhos entrecerrados, imóveis, de Varka, confundem-se, em seu cérebro meio adormecido, em imagens nebulosas. Ela vê nuvens escuras, que se perseguem pelo céu, gritando como aquela criança. Mas eis que soprou o vento, sumiram as nuvens, e Varka vê uma estrada larga de macadame, coberta de lama quase líquida. Sobre aquela estrada, carroças deslocam-se devagar em fila, arrastam-se homens de alforje ao ombro e perpassam sombras estranhas. De ambos os lados, vê-se uma floresta, através do nevoeiro gélido. De repente, os homens de alforje e as sombras caem por terra, na lama semilíquida. “Para que isso?”, pergunta Varka. “Dormir, dormir!”, respondem-lhe. E eles adormecem profunda e docemente.”[30]

Nessa floresta de sonhos, Varka devaneia, e sonha, e enlouquece, misturando e se misturando com a Vida e a Realidade, entre a Teoria e a Ficção na Escrita Criativa de Anton Tchekhov. O Devaneio, fusionado com a Loucura, provocado pela falta de dormir, os “Olhos” que já estão “mortos de sono” antes mesmo do final estrondoso do conto, o final totalmente compreensível do conto, por sabermos viver em Varka uma das possibilidades da nossa natureza humana.

“Mas a criança grita, extenua-se de tanto berrar. Varka vê novamente o macadame lamacento, os homens de alforje às costas, Pielagueia, pai Iefim. Compreende tudo, reconhece a todos, mas, através da modorra, somente não consegue compreender aquela força que lhe amarra pés e mãos, que a esmaga e impede-lhe a vida. Olha ao redor, procura aquela força, para se livrar dela, mas não a encontra. Por fim, extenuada, concentra todas as energias, e todo o seu olhar espia para cima, para a mancha verde que bruxuleia e, prestando atenção aos gritos, encontra o inimigo que a impede de viver.

O inimigo é a criança.”[31]

Mas quando o poeta, escritor, astrólogo, crítico, tradutor português, nascido em Lisboa, Fernando (António Nogueira) Pessoa (1888-1935) analisa seus múltiplos heterônimos, descubro o ápice da Loucura misturada com o Devaneio na Escrita Criativa, ao menos nesse escritor, considerado por muitos a expressão maior da Poesia portuguesa.

“Há autores que escrevem dramas e novelas; e nesses dramas e nessas novelas atribuem sentimentos e ideias às figuras, que as povoam, que muitas vezes se indignam que sejam tomados por sentimentos seus, ou ideias suas. Aqui a substância é a mesma, embora a forma seja diversa.

A cada personalidade mais demorada, que o autor destes livros conseguiu viver dentro de si, ele deu uma índole expressiva, e fez dessa personalidade um autor, com um livro, ou livros, com as ideias, as emoções, e a arte dos quais, ele, o autor real (ou porventura aparente, porque sabemos o que seja a realidade), nada tem, salvo o ter sido, no escrevê-las, o médium de figuras que ele próprio escreveu.”[32]

Tomo o heterônimo de Alberto Caeiro em minhas mãos. Em carta datada de 13 de janeiro de 1935 ao poeta, crítico, tradutor português, nascido em Porto, Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), Pessoa narra a maneira “histérica” – feito ele mesmo se autodenomina – em que gestou o poeta pastoral Alberto Caeiro.

“Ano e meio, ou dois anos depois [em relação a 1912], lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de março de 1914 –, acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.”[33]

No prefácio de Ricardo Reis encomendado pelos parentes de Alberto Caeiro para a edição de seus Poemas completos, Reis – heterônimo de Pessoa que mora no Brasil – conta que “Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a [16] de abril em 1889, e nessa cidade faleceu, tuberculoso, em […] de 1915”.[34]

Reis afirma que na vida de Caeiro “não há nele de que narrar. Seus poemas são o que viveu”.[35] E encontro no II Poema de O Guardador de Rebanhos aquilo que penso reunir, resumir, simbolizar este estudo que fiz sobre a Loucura, o Devaneio, o Sonho na Escrita Criativa, tanto Poética, quanto Ficcional, e que, em uma Chave de Ouro, muito bem encerra “Um Elogio à Loucura: Devaneios para uma Escrita Criativa”.

“O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

E aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo comigo

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo…

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender…

O mundo não se faz para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência.

E a única inocência é não pensar…”[36]

 

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* Para baixar o arquivo em PDF: Um Elogio à Loucura – Devaneios para uma Escrita Criativa – Patricia (Gonçalves) Tenório

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* Artigo final da disciplina Teorias da Criação Poética, ministrada pela Prof. Dra. Ana Maria Lisboa de Mello, de Março a Julho de 2016, no Programa de Pós-Graduação em Letras – Escrita Criativa da PUCRS, que assisti como Aluna Especial.

(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dez livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (2013)), Vinte e um / Veintiuno [lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016], e A menina do olho verde (livros físico e virtual lançados na Livraria Cultura RioMar Recife em 28 de maio de 2016 e na Livraria Cultura Bourbon Country Porto Alegre em 11 de junho de 2016).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof.ª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2) BÉGUIN, Albert. El Alma Romántica y el Sueño: Ensayo sobre el romanticismo alemán y la poesía francesa. Traducción (para el español) de Mario Monteforte Toledo. Revisada por Antonio y Margit Alatorre. Mexico, Madrid, Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, (1936 in) 1978, p. 11 – Tradução livre ao português para este estudo.

(3) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 12.

(4) Nise – o coração da loucura. 2015. 1h48. Brasil. Direção: Roberto Berliner. Com Glória Pires, Simone Mazzer, Julio Adrião, entre outros.

(5) DESIDÉRIO, Erasmo. Elogio da loucura. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, (1508 in) 2011.

(6) PESSOTTI, Isaias. A loucura e as épocas. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994, p. 16-17, itálico da edição.

(7) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 21.

(8) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 13.

(9) Com exceção de Erasmo de Rotterdam, Jean-Jacques Rousseau e Gaston Bachelard, a partir desta passagem, fica subentendido que os teóricos e poetas citados foram estudados na disciplina Teorias da Criação Poética, ministrada pela Profª. Ana Maria Lisboa de Mello.

(10) NETO, João Cabral de Melo. A inspiração e o trabalho de arte. In Obra completa. Edição organizada por Marly de Oliveira com assistência do autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 724.

(11) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 41.

(12) VALÉRY, Paul. Primeira Aula do Curso de Poética. In Variedades. Organização e introdução: João Alexandre Barbosa. Tradução: Maiza Martins de Siqueira. Posfácio: Aguinaldo Gonçalves. São Paulo: Iluminuras, 1991, p. 181.

(13) YEATS, William Butler. El simbolismo de la poesía. In Cómo se Escribe un Poema. Selección, prólogo e introducciones de Daniel Freidemberg y Edgardo Russo. Buenos Aires, Argentina. El Ateneo Editorial, 1999, tradução livre para este estudo.

(14) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 99.

(15) BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Ilustrações: Carolina Kaastrup. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010.

(16) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 117.

(17) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 131, itálico da edição.

(18) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 13.

(19) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 15.

(20) ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Tradução: Julia da Rosa Simões. Porto Alegre, RS: L&PM, (1776-1778 in) 2008, p. 12, itálico da edição.

(21) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 13.

(22) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 16.

(23) ROUSSEAU, Jean-Jacques. Op. cit., (1776-1778 in) 2008, p. 68.

(24) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 21.

(25) BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução: Paulo Neves. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, (1949 in) 2008, p. 25 – (Tópicos).

(26) ROUSSEAU, Jean-Jacques. Op. cit., (1776-1778 in) 2008, p. 122.

(27) BACHELARD, Gaston. Op. cit., (1949 in) 2008, p. 22.

(28) BRETON, André. Manifestos do surrealismo. Tradução: Sergio Pacha. 1ª edição. Rio de Janeiro: Nau Editora, (1924 in) 2001, p. 17.

(29) BRETON, André. Op. cit., (1924 in) 2001, p. 24.

(30) TCHEKHOV, Anton. Olhos mortos de sono. In Os melhores contos de loucura. Organização: Flávio Moreira da Costa. Tradução: Boris Schnaiderman. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, p. 45.

(31) TCHEKHOV, Anton. Op. cit., 2007, p. 49.

(32) PESSOA, Fernando. Obras em prosa. Volume único. Organização: Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p. 82.

(33) PESSOA, Fernando. Op. cit., 1974, p. 96, colchetes meus, itálico da edição.

(34) PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. Edição: Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 11, colchetes da edição.

(35) PESSOA, Fernando. Op. cit., 2005, p. 11.

(36) PESSOA, Fernando. Op. cit., 2005, p. 19.

O homem despedaçado* | Gustavo Melo Czekster**

Um mundo de moscas

Influenciado pelos estudos de Pascal e Newton, Montanelli afirmou, no princípio do século XVIII, que os homens não passavam de um delírio das moscas. Essa declaração incendiou o mundo civilizado, encontrando entre seus defensores Fleming, Jones e Desnèuve. Contudo, foi no século XX, com Anton Lopez, de Madri, que ela mais se desenvolveu, reforçando inclusive as ideias de Lamarck no que diz respeito à teoria dos caracteres adquiridos.

Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa. Lopez admitia a hipótese das moscas memorizarem os mortos para posterior reconstrução deliral, linha de raciocínio seguida pelos admiradores de Montanelli, circunstância que o absolveu diante dos seus iguais. A declaração que equiparava Deus às moscas, feita no seio de um país católico, despertou compreensível furor, forçando Lopez a buscar refúgio em outro local.

As selvas da América do Sul eram o lugar ideal para desenvolver seus estudos: as moscas, as chuvas abundantes, o calor onipresente. Além disso, foi de especial razão para a escolha do local a obra de temática indígena escrita pelo padre Caetano Moraes, pois algumas lendas tratavam do mesmo assunto pesquisado pelo espanhol. Um desses mitos mencionava o Curupak-in-Otre, ou Homem-Mosca, um ser que, mesmo tendo forma humana, pensava como mosca; chamava atenção a impossibilidade de tal criatura banhar-se, temendo a fragmentação.

Utilizando parâmetros matemáticos definidos por Descartes e Pitágoras (com uma leve influência nunca admitida do indiano Bakhti), Lopez definiu que, para cada pessoa do mundo, existe um número de moscas correspondente ao seu número de células. Essa conclusão pode ser sintetizada no seguinte postulado: Ncel = m, Ɐp, onde p é uma pessoa qualquer, Ncel é o volume das células deste marco referencial e m é o número de moscas correspondente a essa pessoa.

Na época em que a fórmula foi idealizada, não se sabia com precisão o número de células de uma pessoa, que é de natureza variável. Grandes matemáticos (entre os quais Gillan, McPherson e Oppenheimer) concentraram nesse ponto as suas críticas, pois Ncel seria um termo impossível de ser calculado em grupos, somente de forma individual, o que retiraria o mérito da descoberta.

Sem saber das polêmicas que viria a despertar, Lopez produziu o único trabalho científico da sua vida, divulgado na edição de maio de 1949 do American Journal of  Philosophy. Com o título de Um mundo de moscas, Lopez suscitou conhecimentos cabalísticos, teorias físicas e biológicas, excertos católicos, fatos da História, movimentos topogeográficos e delírios sonhadores, condensando em exíguas cinco páginas sua ideia a respeito do fim do mundo. Ao aplicar a equação criada, expandindo ao máximo o seu alcance, ele atribuiu um valor arbitrário para Ncel (quatro milhões) e concluiu: se, para cada pessoa, existem quatro milhões de células, por conseguinte, o mesmo número de moscas está presente, altamente compactado, na proporção de um para um.

Cada mosca mede cerca de um centímetro e pesa em torno de 0,1 miligrama. Quatro milhões de moscas equivalem a quatro milhões de centímetros de quatrocentos mil miligramas, o que implica dizer que cada pessoa da Terra é igual a quarenta quilômetros e 0,4 quilo de moscas. Tomando por base a população média da Terra na época, ele chegou a um total de moscas capaz de cobrir toda a superfície do planeta em cinco camadas sobrepostas, além de possuir um peso descomunal.

Com base nesses sólidos cálculos, Lopez afirmou que o maior perigo para a sobrevivência humana seria o fenômeno chamado de diáspora, a separação das moscas que tornam as pessoas coesas. Defendeu ainda a ideia de um rígido controle das moscas que trafegam impunes pelo mundo, pois poderiam estar carregando consigo pessoas já falecidas ou criar novas e esdrúxulas combinações de seres humanos, como uma fusão de Napoleão e Dickens. Esse estudo foi recebido com estardalhaço nos meios científicos, e há evidências de que grandes indústrias de armamentos investiram em pesquisas sobre venenos contra moscas.

Após publicar o estudo, Anton Lopez refugiou-se em uma floresta. As poucas pessoas que conseguiram encontrá-lo deparavam-se com um homem nu, de barba comprida e olhos insanos, dedicado à compreensão das moscas. Elas enchiam todo o lugar com seu zumbido insistente, e os visitantes ocasionais encantavam-se ao ver o domínio que o recluso exercia sobre as pequenas criaturas.

Certo dia, Anton Lopez desapareceu. Restaram somente os seus desenhos de homens formados por moscas, obras que, pela simetria e noção do corpo humano, assemelhavam-se aos esboços de Leonardo da Vinci e aos quadros de Archimboldo. A última pessoa que viu Anton Lopez foi o homem que levava a comida uma vez por semana ao sítio. De acordo com a sua versão: “O senhor Lopez estava vestido, o que não era normal, e as moscas estavam dentro da sua roupa, mexendo de um lado para o outro. Às vezes, uma saía da boca, outra do nariz, outra da orelha. Ele não parava de andar e não dizia coisa com coisa”. Infelizmente, a veracidade do depoimento nunca foi confirmada: dias depois, encontraram a testemunha dentro de um valo, coberta de moscas.

Há relatos de que Anton Lopez deixou um diário, intitulado Compendius muscarum, boato também carecendo de confirmação. As moscas que infestavam a sua casa desapareceram. Uma frase rabiscada no chão, última herança do pensador espanhol, até hoje é fruto de controvérsia: “Os homens são delírios das moscas, que não passam de uma ilusão dos homens”.

 

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CZEKSTER, Gustavo Melo. Um mundo de moscas. In O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011, p 19-22.

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“Compulsão agridoce”* | Antonio Aílton**

O jardim de Po Chü-yi

 

Dizem aí que Fulano é um grande poeta

que tem estilo, e até consegue imitar

a si mesmo, para conservar sua marca

Que é como Picasso depois de Les Demoiselles

Quanto a mim, sei que meu pequeno jardim

não é como o das grandes casas de portões vermelhos

dos poetas que olham desdenhosos o outro lado do bulevar

Não é como os planejados para a entrada dos grandes colégios

nem como os que embelezam ainda mais os fluxos do sol

que rebatem nas vitrines das grandes empresas

Em meu pequeno jardim, eu sei, há flores

grandes e minúsculas, coloridas e tristes, às vezzes

perfumadas

e há também flores falsas como é natural das plantas

flores enjambradas e ervas daninhas que tenho preguiça

de tirar, ou não sei como

então deixo aos poucos amigos quando vêm beber vinho

olharem e dizer: “ô, isso cresceu aí…”, e respiondo: “foi mesmo…”

Então vamos beber um pouco mais de vinho, e aponto

uma velha espreguiçadeira herdada de Po Chü-yi

poeta mais sábio que todos nós juntos, e que após ouvir

o alaúde

perguntava:

“Por que suspirar por grandes terraços, açudes

quando um pequeno jardim é tudo quanto basta?”

 

Hayao Miyazaki

 

Grande é o mundo, nós o dominaremos

com a pequenina flor salpicada de crianças

e vendavais

um bastão, uma velhinha, um carrinho quebrado

que sobrou da última guerra

Mas o espírito é como uma fagulha, um vento singelo

que sopra ainda tenro dos pés de limão

de onde nasce a primavera e as gargalhadas da infância

La vêm elas,

as pequeninas correndo pelos campos

espalhando novas sementes nos balancinhos

novas lentes para cegueira

desentranhando a catarata do meu olho

Agora vejo o que parece Totoro, quase no meio da chuva

o mundo é vasto quando estamos dentro

nós o dominamos ao nascermos sempre

e de novo

entre suas viagens e paisagens

pântanos e bolinhas de fuligem

até completarmos o ciclo de volta

para nossa mãe,

a casa

 

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AÍLTON, Antonio. Compulsão Agridoce. Prefácio: Lourival Holanda. Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2015, p. 18 e 40.

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