Índex* – Fevereiro 2020

Aprendi

A escrever um

Romance

E nunca mais

Ponho os pés

No chão

E nunca mais

Desejo transformar

O personagem

Mas vivê-lo

A cada mínimo

Instante

E senti-lo

No pulsar

Do dia-a-dia

E agora

Já não sou

Mais

A mesma

(“Transformação”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/02/2020, 05h48)

 

A escrita sempre em transformação no Índex de Fevereiro de 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa 2020 On-line | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Abralic 2020 | Simpósio Escrita Criativa para o século XXI | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil), Moema Vilela (MT/RS – Brasil) e Patricia Gonçalves Tenório.

Pílulas para o Silêncio Parte CLVI | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

XXXV Encontro Nacional da Anpoll | Frederico Fernandes (PR – Brasil).

E os links do mês:

 – Ana Elizabete e José Neto (PE – Brasil): https://www.borapralacomigo.com.br/2020/02/museu-do-amanha-rio-de-janeiro.html?m=1

 – Manuela Bertão (Porto – Portugal):

https://sussurrovento.blogspot.com/?m=1

 

Agradeço a participação, a próxima postagem será em 22 de Março de 2020, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* February, 2020

 

I learned

Writing a

Romance

And I’ll never set

Again

My foot

On the floor

And I’ll never want

Again

To transform

The character

But live it

At every minimum

Instant

And feel it

In the pulse

Of everyday life

And now

I’m no longer

More

The same

(“Transformation”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/08/2020, 05h48 a.m.)

 

An ever-changing writing in the February 2020 Index on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Creative Writing Studies 2020 Online | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Abralic 2020 | Creative Writing Symposium for the 21st century | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil), Moema Vilela (MT/RS – Brasil) and Patricia Gonçalves Tenório.

Pills for Silence Part CLVI | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

XXXV National Anpoll Meeting | Frederico Fernandes (PR – Brasil).

And the links of the month:

– Ana Elizabete and José Neto (PE – Brasil): https://www.borapralacomigo.com.br/2020/02/museu-do-amanha-rio-de-janeiro.html?m=1

– Manuela Bertão (Porto – Portugal):

https://sussurrovento.blogspot.com/?m=1

 

Thank you for the participation, the next post will be on March 22, 2020, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Cheia, minguante, nova, crescente. A lua sempre em transformação. Full, waning, new, growing. The moon is always changing.

Estudos em Escrita Criativa 2020 On-line | Patricia Gonçalves Tenório*

Escritores do mundo inteiro já falaram de suas técnicas de maneira incansável. Descobrimos nas Cartas exemplares que Guy de Maupassant bebia em Gustave Flaubert. Virgínia Woolf compartilha os segredos da sua escrita em O leitor comum. Henry James derrama a própria técnica em A arte da ficção. Edgar Allan Poe explica, de trás para frente, como escreveu seu poema mais conhecido, “O corvo”, em “A filosofia da composição”. Milan Kundera revela os bastidores de A insustentável leveza do ser em A arte do romance. Orhan Pamuk conta da profecia paterna quanto ao Prêmio Nobel de Literatura que recebeu em 2006 em A maleta do meu pai. Por outro lado, Franz Kafka declara que tudo o que escreveu foi para ser respeitado na sua nunca entregue longa Carta ao pai.

Acredito que a Escrita Criativa está em tudo o que lemos e escrevemos, quer sejam textos ficcionais e poéticos, quer sejam textos teóricos, pois é preciso muita criatividade para conectar diferentes pensadores e recriar um pensamento próprio, com a nossa própria voz. Os Estudos em Escrita Criativa On-line nasceram dessa necessidade em extrair técnicas de criação dos romances, novelas, contos e poemas, e até mesmo de ensaios e artigos, e, agregadas à nossa bagagem de leitura e de vida, forjarmos com essas técnicas algo original, pois sob o nosso olhar único e insubstituível.

A interface da Literatura com outras formas de artes são agentes provocadores de escrita. Por isso o estímulo em se colocar diante de pinturas, esculturas, filmes, músicas, fotografias, espetáculos de teatro e dança. As artes possuem um fio sensível que transita entre elas – se comunicam. Quando aprecio um quadro de Edward Burne-Jones, ou uma música de Ludwig van Beethoven, partes do meu cérebro são despertadas, imagens vêm à tona e podem fazer brotar poemas, contos ou até mesmo romances.

A relação da Literatura com outras áreas de conhecimento também é uma ferramenta importantíssima para os nossos Estudos. Quando lemos um Gaston Bachelard e o seu A psicanálise do fogo, ou um Henry Bergson com Duração e simultaneidade e Roland Barthes e A câmara clara é possível vislumbrar esse fogo criador, por serem tais teóricos e outros estudados nos EEC On-line de uma poeticidade ímpar na forma que escrevem, e Poesia/Poiesis é criação.

E, principalmente, os EEC On-line nasceram da minha necessidade de compartilhar o universo infinito da Escrita Criativa. Tudo começou em 2016 com Bernadete Bruto e Elba Lins, em Recife, e o desejo de conversar sobre tudo o que eu apreendia no doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Em 2017, um grupo de alunos da PUCRS (eu, inclusive) se reuniu para pensar em maneiras novas de divulgar o nosso trabalho em ambientes extra-acadêmicos. A partir dessa demanda, buscamos apoio na própria PUCRS e na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco que aconteceria naquele mesmo ano. Com a boa receptividade na Bienal, criamos o projeto dos Estudos em EC, em Recife e Porto Alegre, nas Livrarias Cultura, em 2018, o que nos deu experiência para propormos o curso de Extensão na Unicap realizado no primeiro semestre de 2019, e a nossa primeira turma de Especialização Lato Sensu em EC Unicap/PUCRS, iniciada no segundo semestre.

No nosso curso on-line que iniciaremos em 10 de março de 2020, navegaremos por diversas regiões, línguas e países. Estudaremos escritores, poetas, teóricos e artistas do mundo inteiro. Descortinaremos técnicas presenteadas por criadores de todos os tempos, diversas culturas, diferentes linguagens. Através de vídeos curtos, gratuitos e semanais, tentaremos alcançar a máxima do nosso saudoso mestre Ariano Suassuna no seu Iniciação à estética, no qual nos alerta para estarmos sempre em busca da técnica, ou estudo contínuo, e do ofício, ou escrita diária, para quando a forma ou imaginação criadora descer do sol feito ave de rapina estarmos preparados para darmos o salto e criarmos uma obra de arte.

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* Escritora, dezesseis livros publicados, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e @estudosemescritacriativa (Instagram e Facebook).

** Na gravação dos Estudos em Escrita Criativa 2020 On-line, com Jaíne Cintra, Mariana Guerra, Juliana Aragão, e a (quase) participação especial de Preta. 

 

Abralic 2020 | Simpósio Escrita Criativa para o século XXI

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Prezadas(os) professoras(es) e pesquisadoras(es),

 

É com imensa satisfação que convidamos para participarem do simpósio Escrita Criativa para o século 21, que será realizado pela Abralic no período de 22 a 26 de junho de 2020, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É o simpósio de número 28.

As submissões de comunicações para o simpósio devem ser encaminhadas até o dia 29 de fevereiro de 2020 por meio do link: http://www.abralic.org.br/inscricao/comunicacao/

 

 

Atenciosamente,

Luís Roberto de Souza Júnior,

Moema Vilela Pereira,

Patricia Gonçalves Tenório.

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SIMPÓSIO ESCRITA CRIATIVA PARA O SÉCULO XXI

 

Prof. Dr. Luis Roberto de Souza Júnior (PUCRS)

Prof(a). Dr(a). Moema Vilela Pereira (PUCRS)

Prof(a). Dr(a). Patricia Gonçalves Tenório (UNICAP)

 

Resumo: Em 2020, a mais antiga oficina literária do país em funcionamento contínuo completa 35 anos de existência, tendo formado numerosos escritores brasileiros e estrangeiros e estimulado a criação de um primeiro programa completo de graduação e pós-graduação em Escrita Criativa no Brasil. Em um cenário de crescimento da área no país, com aumento de pós-graduações oferecidas e também da procura de interessados por cursos e oficinas de criação literária, é fundamental investigar e debater as pesquisas desenvolvidas em ambiente acadêmico para pensar caminhos para a Escrita Criativa no século XXI.

O presente simpósio pretende investigar os caminhos dessa área de pesquisa relativamente jovem no Brasil. A origem da Escrita Criativa vem dos tempos ancestrais. Reza a lenda que a mãe de Virgílio, o autor da Eneida, sonhou quando grávida com um loureiro. Consultou um mágico e este revelou, para alegria da futura mãe, que o filho seria um grande poeta. Mas o mágico advertiu: ela deveria enviar Virgílio para Roma para que aprendesse com os grandes poetas da época. Escritores do mundo inteiro já falaram de suas técnicas de maneira incansável. Descobrimos nas Cartas exemplares que Guy de Maupassant bebia em Gustave Flaubert. Virgínia Woolf compartilha os segredos da sua escrita em O leitor comum. Henry James derrama a própria técnica em A arte da ficção. Edgar Allan Poe explica, de trás para frente, como escreveu seu poema mais conhecido, “O corvo”, em “A filosofia da composição”. Milan Kundera revela os bastidores de A insustentável leveza do ser em A arte do romance. Orhan Pamuk conta da profecia paterna quanto ao Prêmio Nobel de Literatura que recebeu em 2006 em A maleta do meu pai. Por outro lado, Franz Kafka declara que tudo o que escreveu foi para ser respeitado na sua nunca entregue longa Carta ao pai.

No segundo volume da trilogia Sobre a escrita criativa, o escritor e professor da PUCRS Luís Roberto Amabile traça um panorama da área no exterior: “No meio acadêmico, as oficinas deram origem a um campo de estudos nos Estados Unidos, na década de 1930-40: a Escrita Criativa, que floresceu após a II Guerra. E naquele momento, em meados da década de 1980, quase todas as universidades norte-americanas e muitas europeias possuíam seus programas de Creative Writing. Além disso, em países da América Latina, como México e Argentina, crescia o número de oficinas de criação, mesmo sem vínculo acadêmico” (AMABILE, 2018, p. 257).

No Brasil, data de 1962 um dos primeiros cursos dessa natureza (LAMAS/ HINSTZ, 2002), ministrado pelo escritor e professor Cyro dos Anjos, na Universidade de Brasília (UnB). Quatro anos depois, Judith Grossmann fundou, na Universidade Federal da Bahia, as oficinas de criação literária. Na década seguinte, em 1975, no Rio de Janeiro, ocorreu uma oficina ministrada por Silviano Santiago e Affonso Romano de Sant’Anna (este último participou do Program in Creative Writing, iniciado pela Iowa University). E desde 1985, funciona, de maneira ininterrupta e inserida no Programa de Pós-Graduação em Letras, a Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil.

Chegamos ao cerne do simpósio: quais as possibilidades de desenvolver pesquisas sobre a Escrita Criativa em ambiente acadêmico? Em abril de 2019, Assis Brasil publica o livro Escrever ficção, resultado de sua experiência na área. Em agosto do mesmo ano, na aula inaugural da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS em Recife, Assis Brasil aponta o crescimento da área no país, com aumento expressivo de Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu e Lato Sensu em Escrita Criativa.

Os alunos-escritores das pós-graduações em EC – tendo como pioneiro no país o caso da PUCRS, com graduação (2015), mestrado (2006), doutorado (2012), cursos de extensão e a especialização em parceria com a Unicap (2019) – se alimentam do fazer artístico dos escritores clássicos e contemporâneos, assim como da teoria da literatura, e outras áreas de conhecimento (filosofia, psicanálise, semiótica), outras artes conjugadas (cinema, fotografia, artes plásticas), que o ambiente acadêmico proporciona e facilita.

Em 21 lições para o século 21, o Ph.D. em História pela Universidade de Oxford, e atualmente professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, Yuval Noah Harari, nos alerta da necessidade de estarmos sempre nos recriando, porque, no futuro, as profissões serão líquidas, as vocações, mutáveis, os cenários, imprevisíveis. Nada mais pertinente, nos 35 anos da oficina idealizada e conduzida por Luiz Antonio de Assis Brasil, trazermos para o XVII Congresso Internacional da Abralic “Diálogos Transdisciplinares”, em Porto Alegre, a capital brasileira da Escrita Criativa, trabalhos que abordem as mais diversas possibilidades da área neste século e além.

 

Referências bibliográficas:

AMABILE, Luís Roberto. Escrita criativa, a aventura começa. In Sobre a escrita criativa II. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Prefácio: Bernardo Bueno. Recife: Editora Raio de Sol, 2018.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio. Escrever ficção: Um manual de criação literária. Colaboração de Luís Roberto Amabile. São Paulo: Cia das Letras, 2019.

FLAUBERT, Gustave. Cartas exemplares. Tradução: Carlos Eduardo Lima Machado. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005.

HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século 21. Tradução: Paulo Geiger. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

JAMES, Henry. A arte da ficção. Tradução e prefácio: Daniel Piza. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011.

KAFKA, Franz. Carta ao pai. Tradução: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, (1919 in) 2007.

KUNDERA, Milan. A arte do romance. Tradução: Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

LAMAS, Berenice Sica; HINTZ, Marli Marlene. Oficina de criação literária: um olhar de viés. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

PAMUK, Orhan. A maleta do meu pai. Tradução: Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. In Poemas e ensaios. Tradução: Oscar Mendes e Milton Amado. Revisão e notas: Carmen Vera Cirne Lima. 3ª ed. revista. São Paulo: Globo, 1999

WOOLF, Virgínia. O leitor comum. Tradução: Luciana Viégas. Rio de Janeiro: Graphia, 2007.

Minibiografia dos coordenadores:

Luís Roberto de Souza Júnior (Amabile) (Assis/SP, 1977) estudou Teatro e Jornalismo na USP e trabalhou na imprensa paulistana por mais de uma década. É mestre em Letras e doutor em Teoria da Literatura na PUCRS, onde atualmente cursa o doutorado e é professor da graduação em Escrita Criativa. Teve contos e peças incluídos em antologias no Brasil, em Portugal e na Espanha. O amor é um lugar estranho (Grua, 2012), seu livro de estreia, foi finalista do Prêmio Açorianos 2013. O livro dos cachorros (Patuá, 2015) havia anteriormente vencido a chamada para publicação do Instituto Estadual do Livro do RS. Também colaborou com Luiz Antonio de Assis Brasil em Escrever ficção: Um manual de criação literária, que a Companhia das Letras lançou em 2019. Contato: luisrobertoamabile@gmail.com

Moema Vilela Pereira é Doutora em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Professora adjunta na Escola de Humanidades da PUCRS, lecionando nos cursos de Escrita Criativa e de Letras. Uma das coordenadoras do curso de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Mestra em Letras – Estudos de Linguagens (Linguística e Semiótica) pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e em Letras (Escrita Criativa) na PUCRS. Graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela UFMS. Autora dos livros Ter saudade era bom (2014), finalista do Prêmio Açorianos, Guernica (2017), Quis dizer (2017) e A dupla vida de Dadá (2018). Publicou contos, poesias, artigos e ensaios em diversas antologias e revistas literárias brasileiras.

Contatos: moemavilela@gmail.commoema.pereira@pucrs.br

Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dezesseis livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutora em Escrita Criativa (PUCRS), organizadora e ministrante dos Estudos em Escrita Criativa (2016 a 2019.1). Uma das idealizadoras e coordenadoras do curso de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS, e ministrante, em março de 2020 (juntamente com a Profa. Moema Vilela Pereira), da disciplina Empreendedorismo Literário.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

Pílulas para o Silêncio Parte CLVI* | Clauder Arcanjo**

O retrato na parede não lembra as mulheres de Licânia. Não sei o motivo; suspeito que, para mim (ser-criança), as verdadeiras damas devem ter a tez de minha mãe.

Se Freud explica?! Pode ser, este austríaco foi um grande filho de uma mãe.

 

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Nos olhos, a nódoa de uma tristeza antiga. Daquela de tingir o olhar de um cinza tão indescritível que a cabeça queda, (res)sentida com tanta desventura.

 

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— Alto lá! — Anunciou-lhe o anjo.

— Arcanjo Gabriel, eu preciso entrar. Subi aos céus, na esperança de entrar e aqui ficar. Sofri muito na Terra, renunciando às ditas “tentações”. Nem sei como consegui. Nos últimos dias, ó Senhor!, estava quase caindo em tenta… — argumentou o cristão, os olhos rubros de desespero e fúria.

— Serenai! O mundo de Jeová está próximo… Calma! Pelo amor do Pai!… — Alegou o guardião das hostes celestiais, enquanto tentava identificar, no Livro de Deus, o destino daquela alma.

— Eu quero entrar. E vou fazer isto agora. Dá-me o que é meu, e lá vou eu! Saia do meio. Ora bolas! Se não… a minha vida não valeu a pena. E chega de intermediário! Faça-me o favor de convocar: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Fui claro? — Ordenou, enquanto o firmamento, entre aleluias, parava no Tempo.

 

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Quando punimos o próprio filho, por mais terrível que seja a sua falta, o penitenciado somos nós.

 

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Alegria é difícil. Felicidade, raridade. Vida feliz, quimera inalcançável.

 

Só os tristes sobrevivem aos desaforos do mundo. Salve, então, Sra. Melancolia!

 

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* Publicado n’O mossoroense em 09/02/2020 no http://www.omossoroense.com.br/clauder-arcanjo-pilulas-para-o-silencio-parte-clvi/

** Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras. Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Mobilidade [inter]urbana-performativa* | Elilson**

“Vestindo camisa polo cinza e calça jeans, iniciei a ação na Rua Buenos Aires, uma das principais vias de passagem e acesso para o mercado da Saara. Alguns passos e alcancei com os olhos uma mão esticada para fora de um prédio. Pedi o panfleto, explicando a proposta. Antes de escolher o ponto do meu corpo, Verônica compartilhou: ‘Eu tô daqui de dentro colocando só a mão pra rua, pois panfletar no Rio de Janeiro é ilegal, você sabia? Se eu der um passo pra calçada, o guarda já pode me multar. Aqui eu tô assegurada na legalidade, trabalho pra essa clínica odontológica há muitos anos’. Me contou quanto recebia e frisou que tem todos os seus direitos assinados. Mas é comum os panfleteiros serem legalizados? ‘Ih, nada! Arrisco que serei a única.’ Destaquei o alfinete e ela decidiu: ‘Já que sou a primeira, vou centralizar meu anúncio bem aqui, no teu coração, pra dar boa sorte nos caminhos’.” (p. 50)

 

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* Trecho extraído de Mobilidade [inter]urbana-performativa. Elilson. Projeto apoiado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2017-2018. Rio de Janeiro, 2019.

** Elilson (Recife, 1991) é mestre em Artes da Cena – performance (UFRJ) e graduado em Letras (UFPE). Trabalha principalmente com performance, escrita e instalação. Tem participado de festivais e exposições em cidades como Assunção, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2017, publicou “Por uma mobilidade performativa” (Editora Temporária). Em 2018, foi contemplado com o Rumos Itaú Cultural e com o Prêmio EDP nas Artes do Instituto Tomie Ohtake, realizando por meio deste, uma residência no ateliê R.A.R.O (Buenos Aires). www.elilson.com

 

XXXV Encontro Nacional da Anpoll | Enviado por Frederico Fernandes

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Amoras* | Natalia Borges Polesso**

Flor, flores, ferro retorcido

 

Os cabelos crespos lhe escorriam como rios rebeldes pelos ombros. Talvez fosse o fato de estar sempre de chapéu e alpagartas que lembrasse um pouco o Renato Borghetti, o cara da gaita. Toda vez que penso naquele tempo e lugar e tento me lembrar do rosto das pessoas e talvez da voz, o que me vem de mais marcante é a imagem dela.

Em 1988, mas, pensando agora, parecia tudo muito mais antigo. Na frente da minha casa ficava o mercado do seu Kuntz, uma peça de chão batido com paredes sem reboco. Era ali que eu passava as tardes com a Celoí, filha do seu Kuntz. A mãe da Celoí tinha morrido de parto, o que os tornava, o seu Kuntz e a Celoí, uma dupla muito séria. Eu gostava de ir lá porque era exatamente na frente da minha casa e porque ela tinha o último álbum da Xuxa, aquele com Ilariê, Abecedário e Arco-íris, e a gente ficava dançando na frente da vendinha até mais ou menos as seis e trinta, porque sabíamos que às sete horas o transformador da rua explodia. Sim, era sempre às sete horas da noite. O transformador, acho, não aguentava tanta gente assistindo novela, tomando banho, ligando rádio, usando o liquidificador, quem sabe, e começava a fazer barulhos e soltar faíscas, até que bum! Todos ficavam sem luz por algumas horas, como se estivéssemos em uma remota aldeia amazônica. A rua não tinha calçadas feitas, os paralelepípedos eram completamente irregulares, o que arrancava muitas unhas de nós, crianças, que estávamos aprendendo a jogar bola, andar de bicicleta ou simplesmente dançar a música mais tocada do momento. Nada mal para aquele bairro pobre na divisa entre Campo Bom e Novo Hamburgo.

Minha casa ficava entre duas oficinas: a da família Klein, todos loiros de olhos perturbadoramente azuis, pai, mãe e filhinha pequena, não lembro o nome deles; e a da figura mais marcante da minha infância, cujo rosto eu vi uma única vez e nunca mais me esqueci. As duas oficinas tinham clientela boa, mas havia uma tensão entre os terrenos, tensão que atravessava as paredes da minha casa por ambos os lados.

Meus pais eram amigos da família Klein e, com frequência, almoçávamos juntos nos fins de semana. Meu irmão e eu brincávamos com a menina deles. Acho que ela tinha a idade do meu irmão, mas está tudo impreciso. O fato que mais se enraizou na minha memória desses almoços foi um dia em que ouvi a seguinte frase: como pode uma machorra daquelas? E eu, curiosa que era, rapidamente perguntei o que era uma machorra. Silêncio completo, minha mãe começou a rir de um jeito esquisito, era embaraço. Os homens coçaram a cabeça e se enfiaram rápidos dentro dos copos de cerveja que bebiam. A mãe da família Klein estava tão estarrecida que aquela palavra tivesse ido parar na minha boca que começou a rir também. Minha mãe tentou remediar. Cachorra, minha filha, cachorra. Mas eu tinha certeza que tinha ouvido machorra e insisti. Eles mudaram de assinto e me ignoraram. O que eles não estavam esperando era que eu ficasse de orelhas em pé, ligada em tudo o que falavam, e, quando voltaram ao assunto, eu preferi ficar quieta ouvindo, fingi interesse em uma boneca, mas minha atenção estava completamente direcionada a eles. Então eu entendi que falavam da vizinha da oficina. Ela era uma machorra.

No outro dia, fiquei plantada no muro para ver se a encontrava e, quando ouvi as alpagartas arrastadas se aproximando, me estiquei mais ainda por cima da cerca. E caí. Ela veio correndo me socorrer e me lembro de uma voz de fada me perguntando se eu estava bem, se tinha me machucado. Minha mãe saiu correndo de casa, me ergueu pelos pulsos e me puxou de volta para o pátio. Ouvi um obrigada por parte da minha mãe, um de nada por parte da vizinha, seguido de um ronco de cuia. Olhei para a minha mãe e perguntei por que ela era machorra. O ronco da cuia parou. Minha mãe enrubesceu e, enquanto me arrastava para dentro de casa, perguntou onde é que eu estava ouvindo uma coisa daquelas. Eu respondi que tinha sido no almoço do dia anterior. As alpagartas estalaram na terra dura em direção ao galpão da mecânica. Minha mãe se escorou na pia com as duas mãos no rosto e suspirou de um jeito muito preocupado. Eu fiquei em pé, limpando a terra dos meus cotovelos e verificando se estava tudo certo comigo, afinal, eu tinha caído por cima de uma cerca; estranhamente, minha mãe não estava preocupada com isso. Minha filha, você não pode dizer essas coisas para as pessoas. Eu perguntei de que coisas e de que pessoas ela estava falando, porque honestamente não me lembrava, e a resposta veio na forma de um tabefe no ombro. Não doeu, mas eu fiquei muito magoada e fui para o quarto chorar. Entre um soluço e outro, eu ficava tentando entender o que era uma machorra e por que aquilo tinha ofendido a vizinha e preocupado a minha mãe. Cheguei à conclusão de que deveria perguntar mais uma vez.

É uma doença, minha filha. A vizinha é doente. Voltei para o quarto quase satisfeita. Se era doença, por que não tinham me dito logo? Fiquei pensando se era contagiosa, mas concluí que não era, porque a mecânica estava sempre cheia. Voltei para a cozinha. Doença de que, mãe? Minha mãe mais uma vez colocou a mão no rosto e respirou fundo. De ferro retorcido que tem lá naquele galpão. Eu não sabia que se podia pegar doenças de ferro retorcido, mas me dei por satisfeita quando no outro dia a professora explicou sobre o tétano.

Na manhã seguinte, eu fiz o que qualquer pessoa faria por um doente, ou o que eu entendia, na minha cabeça de criança, que qualquer pessoa faria: levei flores. Eu tinha visto na tevê. Peguei as flores que cresciam atrás da minha casa, flor de mato mesmo, umas amarelinhas e um punhado de margaridas. Fui até a mecânica bem cedo sem que ninguém me visse e deixei as flores na porta dela, dentro de um copo d’água. Deixei também um bilhete desejando melhoras e pedindo que, por favor, colocasse as flores num vaso e devolvesse o copo, porque minha mãe poderia dar falta. Ao meio-dia, quando eu voltava da escola, vi que as flores não estavam mais lá e sorri contente, porque ela as tinha recolhido. Entrei em casa feliz e saltitante, mas minha alegria foi quebrada em pedacinhos quando vi a cara da minha mãe, com o copo na mão, perguntando o que eu tinha na cabeça. Eu expliquei para minha mãe que, se a vizinha estava mesmo com machorra, seja lá que doença fosse aquela, alguém precisava ir lá e desejar boas melhoras. E foi o que eu fiz. Minha mãe me abraçou bem forte e disse que eu era uma ótima menina e que por isso eu não devia brincar perto da oficina. Eu perguntei de qual e ela disse que era a da vizinha. Então eu perguntei se eu podia brincar perto da oficina do senhor Klein e ela disse que sim. Eu saí para falar com a Celoí, porque não me interessava brincar em oficina nenhuma.

A Celoí colocou o disco da Xuxa e nós ficamos dançando entre os sacos de feijão e a pilha de cera vermelha para piso. Lembrei, naquela hora, que minha mãe sempre comprava aquela cera e eu não entendia porque nosso chão não era vermelho, mas, quando eu fui perguntar para a Celoí sobre a cera, a vizinha entrou. Eu parei de dançar e fiquei petrificada. Meu primeiro pensamento foi de que uma doente não deveria sair de casa, então, perguntei: a senhora está melhor? Ela virou para mim com os cabelos molhados em cima do rosto e, com uma boca bem rosada e uns olhos carinhosos cor de mel, me disse que nunca esteve tão bem. Agradeceu as flores e se ajoelhou para me dar um beijo. Nessa hora, minha mãe apareceu e me puxou pelos cabelos. Ouvi o pai da Celoí dizendo não se preocupe, Flor.

Flor, o nome dela era Flor. E ela parecia uma flor mesmo. Na verdade, o nome dela era Florinda. Eu perguntei para a Celoí no dia seguinte e comentei sobre a história da doença. A Celoí revirou os olhos como quem chama alguém de ignorante, não disse nada, me pegou pela mão e me levou até o quarto dela, pegou um ursinho peposo e duas barbies. Muito bem, não eram duas barbies, eram imitações, mas davam para o gasto e serviram muito bem para o que ela me explicou. Eu tinha oito anos, a Celoí tinha onze ou doze. Ela pegou uma boneca e o ursinho e começou a explicação. Esse é o homem e essa é a mulher, quando os dois se amam, vão para o quarto e ficam assim – e colocou um em cima do outro –, teu pai e tua mãe fazem isso e é por isso que tu existe e teu irmão também. Eu sacudi a cabeça e tentei acompanhar o raciocínio. Depois ela pegou as duas bonecas, fez a mesma coisa e disse que tinha gente que fazia daquele jeito. Isso é machorra, mas é feio falar disso, meu pai disse.

O seu Kuntz era um homem bem quieto, mas sabia dar atenção às pessoas. Ele e a Flor eram amigos, seguido eu via os dois tomando chimarrão no pátio dela ou na frente da vendinha. Até pensei que eles fossem namorados e perguntei para a Celoí. Ela me deu um sopapo e irritada quis saber se eu não tinha aprendido nada com a explicação das bonecas. O fato era que bonecas eram bonecas, ursos eram ursos e machorras eram machorras. A Celoí tentou de novo: vamos ver, por exemplo, tu gosta mais de boneca ou de carrinho? Depende qual boneca e qual carrinho. A Celoí revirou os olhos daquele jeito. Prefere dançar Xuxa ou brincar de pegar? Eu não sabia responder, porque tudo dependia e eu não estava entendendo aonde ela queria chegar. Tá bem, gosta de rosa ou azul? Gosto de verde. Meu deus, essa é sua última chance, gosta mais de mim ou do Claudinho? O Claudinho era um guri da rua que a Celoí achava lindo. De ti, é claro, eu respondi. Então tu é machorra, ela falou sem paciência.

Voltei para casa cabisbaixa naquele dia e, ao atravessar a rua, dei de cara com a Flor, escorada entre o meu portão e o contador de luz. Pequena, por que está com essa carinha triste? Porque a Celoí acha que eu estou doente também, que eu tenho o mesmo que a senhora. Arrastei os tênis no cascalho. Ela se agachou e colocou a mão na minha testa, como se para conferir alguma febre. Bobagem, tu tá ótima. Não há nada de errado contigo. Eu ergui os olhos para ver se ela tinha uma cara honesta. Ela tirou os cabelos da frente do rosto e o transformador explodiu. As faíscas que caíam iluminaram os olhos dela e, naquele momento, ela era a flor mais bonita que eu já tinha visto.

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* Conto extraído de Amora. Natália Borges Polesso. Porto Alegre: Não Editora, 2015, p. 56 a 63, e lido em 08/02/2020 durante a disciplina Oficina de Narrativa II – O romance e a novela da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa ministrada pela autora.

** Natalia Borges Polesso (Bento Gonçalves, 6 de agosto de 1981) é uma escritora, pesquisadora e tradutora brasileira. Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado com bolsa CAPES (PNPD), na Universidade de Caxias do Sul. É doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS (2017). Concluiu o mestrado em letras pela Universidade de Caxias do Sul com uma dissertação sobre a obra de Tânia Faillace. Seu primeiro livro, Recortes para álbum de fotografia sem gente, venceu o Prêmio Açorianos de 2013 na categoria contos. Ganhou o Prêmio Jabuti de 2016 com o livro de contos Amora. Em 2017, foi incluída na lista Bogotá39, que reúne os 39 escritores mais destacados da América Latina. Em 2019, lançou seu primeiro romance, Controle. A autora tem seu trabalho traduzido para o inglês e o espanhol e sua obra está publicada em diversos países.

 

Índex* – Janeiro, 2020

Você

Que me deu a mão

Um dia

Que sorriu

Quando eu estava

Triste

Que deslizou as mãos

Nos meus cabelos

E disse que eu serei

Feliz

 

Você

Que acordou

Sem esperança

Voltou a ser criança

Pedindo colo

De mãe

 

Estou aqui

E agradeço

A honra de

Haver lhe conhecido

Ter compartilhado

Um pouquinho

Da sua essência

Linda

Leve

Livre

 

E ter lhe feito

Um pouquinho

Feliz

(“Você”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/01/2020, 08h02)

 

Surpresas boas e esperança no Índex de Janeiro, 2020 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Cinco Livros | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

[Espaço] jornalista Martins de Vasconcelos | Organizadores Clauder Arcanjo, David Leite, Johann Freire (RN – Brasil) | Enviado por Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Na próxima postagem, em 16 de Fevereiro, 2020, teremos uma surpresa que, tenho certeza, vocês gostarão muito.

Abraços cheios de Luz e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – January, 2020

You

Who gave me the hand

One day

Who smiled

When I was

Sad

Who slid your hands

In my hair

And said I will be

Happy

 

You

Who woke up

Hopeless

Who became a child again

Asking lap

From mother

 

I’m here

And thank you

The honor of

Have known you

Have shared

A little bit

Of your essence

Beautiful

Light

Free

 

And have made you

A little bit

Happy

(“You”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/11/2020, 08h02 a.m.)

 

Good surprises and hope in the January Index, 2020 from Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Five Books | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

[Space] journalist Martins de Vasconcelos | Organizers Clauder Arcanjo, David Leite, Johann Freire (RN – Brasil) | Sent by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

In the next post, on February 16, 2020, we will have a surprise that, I am sure, you will like very much.

Hugs full of Light and see you soon,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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**

 

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Uma surpresa boa que vem… A good surprise that comes…

Cinco Livros | Patricia Gonçalves Tenório*

Em 2019, lancei a coleção Cinco Livros em homenagem aos meus cinquenta anos de existência e quinze de escrita.

Em 2020, apresento alguns trechos dos Cinco Livros que, em breve, estarão nas quinze Livrarias Cultura do Brasil inteiro.

Ofereço com muito carinho a minha coleção de aniversário: boa leitura!

Abraço grande,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Capa 7 por 11

7 por 11:

 

As joaninhas não mentem (2006):

 

“A Torre… Para lá se dirigia Ariana. Colocou o elmo na cabeça, apertado era o elmo. Jeito de camponesa permitindo dores, respirou fundo, conseguiu encaixar sobre os cabelos longos, cor de sol, peleterra. Nos olhos castanhos, mar de sonhos brilhava na direção da Torre. Ariana não vendo a torre segurava firme as rédeas do cavalo Branco apertando com as pernas longas. Longos seriam os caminhos, tortuosos seriam os caminhos, perigosos seriam os caminhos. Mas ela prometeu. A si e à Irmã Clara. Lá estaria o que sempre sonhou. E por que temia? Por que tremia?” (p. 14)

 

Grãos (2007):

 

“Intervalo”:

 

“Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, deixava-se seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo com algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco  de  mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.

O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, sujaria de novo seus pés, entranharia em suas roupas. Moraria na caixa de madeira.” (pp. 76-77)

 

“Reverência”:

 

“Hoje na escola me perguntaram qual a história mais rápida que vivi. Bah, eu me acho um bom contador de histórias. Não é à toa que os guris do mirante no bairro de Santa Tereza me chamam quando os gringos vão ver a vista da cidade.

[…]

O passarinho voou bem perto, logo quando estava na Praça da Matriz com o estilingue de lado; preparei a pedra, a pontaria certeira – o poeta me puxou a camisa, balançou a cabeça e disse pra eu passar mais tarde n’A rua dos Cataventos. Eu que não me meto com poesia; deixa pra lá, só sei contar histórias. E a mais curta? O sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores vai tocar daqui um pouquinho; correndo chego a tempo de ficar embaixo, de costas, o tilintar no pé da barriga. Feito quando ficava boiando e boiando no rio Guaíba, a Rua da Praia ainda nem existia, a gente pulava e o sol esquentando rosto, os pés e as mãos, a água entrando pelos ouvidos e se guardando no coração.” (p. 91)

 

“O Tempo”:

 

“A grande verdade descortina em azul

E a cor dos teus olhos esvaece

No horizonte perdido dos meus dias

Sozinhos.

Na áurea da juventude esquecida

Nos poucos rubros que escondo

No rosto exposto que vejo

Na flor que murcha e se esquece.

E tudo o que fui me aparece

A tela pintada se agita

Vendo a distância construída

Na efêmera fumaça perdida.” (p. 100)

 

“Fotografia”:

 

“Fotografia se perdendo

Nos caminhos vivos, verdes

Linhas procuram contorno de um rosto

Amarele-sendo, amarele-sendo

Descobre que não mais se sabe.” (p. 102)

 

“Nome”:

 

“Eu queria prender teu nome

E guardar na profundidade de mim

Onde possa procurar teu sentido e descobrir

Porque não sais dos meus pensamentos

Encontrando um lugar tranquilo

Para ali deixar anônimo

Eu pergunto e não respondes

Porque tu sabes, oh, meu querido

Tu sabes que não existe a verdade.” (p. 118)

 

A mulher pela metade (2009):

 

“Luto por um retorno à natureza. Ao despir-me de vaidades, orgulhos, bens desnecessários à real sobrevivência humana. Por que não nos juntamos, eu, você, e quem mais conseguirmos convidar numa aldeia indígena em uma das poucas praias de mata virgem do litoral brasileiro, antes que o sonho se realize? O sonho que se transforma em realidade. O sonho que sonhei de Séphora, o sonho em que ela é a emissária do poder divino, eu sou um simples captador de imagens, interpreto-as cada vez mais próximo da verdade, e a verdade me transformará.” (p. 138)

 

[…]

 

“Te aceito

Te escolho

Jogo os dados

Entre a parede e o chão de mármore

Eles vêm plenos de apostas

Às respostas

Que por ti fiz um dia

 

Abro a janela do quarto

É azul

É sol que brilha

Incendeia esta matéria efêmera

Que se chama corpo

Que já foi tua

Ainda é tua

 

Lembro a primeira vez

Aquieto o coração

Brinco de esconde-esconde

Entre um pulsar e outro

Tu estás lá

Tu me sondas

 

Encho os pulmões com

A tua presença

Implodo na natureza

Dos teus sentidos

Sou a parte que me destes

Nesta caminhada terrena

Que volta

Retrocede

Até o grão de mostarda” (p. 158)

 

 

D’Agostinho (2010):

 

“Pastor de estrelas”:

 

“Quando envelhecer

Despirei dos olhos sonhos novos

Vestirei luvas de aço nas mãos dadas

Cobrirei as rugas de insensatez

 

Fincarei os pés no chão

Não alcançarei estrelas

Nem asas de gaivotas

 

Então

O verão me vestirá

Com os últimos raios de sol” (p. 173)

 

“O Tejo-Poderoso”:

 

“No rio Tejo

Corto caminho

A um lugar seguro

Agarro as margens

Como se fosse isca de anzol

Como se fosse peixe de pescar

Como se fosse haste de bambu

 

Carrego nos ombros

O mundo inteiro

Como se fosse Deus Todo-Poderoso

Como se fosse bicho que não teme

Como se fosse homem que não sofre

 

Volto às margens

Como se nunca tivesse nascido

Como se sempre soubesse quem sou

Como se não houvesse a morte” (p. 189)

 

“D´Agostinho”:

 

“Os lábios sussurram beijos

De um beija-flor

Assustado com os próprios olhos

Nas pétalas do girassol

Girou em si

E não percebeu

O pôr do sol longínquo e reticente

 

Às margens de mim

Persigo a imagem

Do que fui um dia

Para beber a sabedoria

Na audácia de uma criança

 

Cubro-me em púrpura –

Desvendar olhos alheios

E fazê-los enxergar o que em parte sinto

Mas bato o pó das sandálias

E caminho até a eternidade” (p. 202)

 

“La isola”:

 

“Daquela matéria fui feita

Daquela matéria amada

Nem por mim

Nem por ninguém

De um nada

Me encontro

E pronto

Eu me vejo só

 

Sobre os rochedos

Nas cachoeiras

Abrindo passagens

Entre as sereias

Visgo cantante

Cor de arco-íris

Que no céu acaba

Não me deixa

Potes

Toques de Midas

Apenas entardecer

E incerteza

 

Finco o pé

No âmago

No abismo

No nada

Em que me encontro

E pronto

 

Eu me vejo só” (p. 218)

 

“Leitura”:

 

“Cartas eu fiz

Para te mostrar um dia

Uma palavra

Desfiará centenas

Milhares

De explicações

 

Certas

Erradas

Pedaços de mim que sondas

Perplexa

De imaginar que um dia

Passei por caminhos

Estreitos

Confusos

Concisos de dor

De agonia

 

Cavei nas palavras

Cores

Flores

Para te dar um dia

Elas murcharam

Ao meu toque

Reflorescem

No roçar dos teus olhos” (p. 232)

 

Diálogos (2010):

 

“Escadaria”*:

 

“Procurei um lugar tranquilo para me sentar na livraria. A seção de romances era a mais populosa, os best-sellers, os jornais literários com os autores célebres que apareciam na TV nos programas de variedades, participando de entrevistas ridículas e sem nenhuma razão de ser.

A seção de poesia era a mais vazia, em ressonância com a necessidade do silêncio quando queremos experimentar o sentimento de solidão do poeta. Eu caminhava entre Rimbaud, Mallarmé, Fernando Pessoa, Drummond e eles me trouxeram tanta melancolia que eu não pude mais suportar.

O envelope fechado. Eu abria minha bolsa com cuidado me perguntando: É a vida? É a morte? Olhava a seção de livros para crianças, ninguém estava lá, milagrosamente não estava lá. Um domingo, de tarde, e as crianças não haviam chegado. Por quê? Talvez um sinal, a resposta para a minha pergunta, o resultado, positivo, negativo que carregava nas mãos?

Quando percebi, estava no meio da escada coberta com pequenos vasos de flores que vira antes em algum livro de J. M. Simmel durante minha adolescência. Como se chamava? Ah, “Não Matem as Flores”.” (p. 256)

* Na escadaria da Livraria Cultura – Recife – Pernambuco.

 

“O retorno das lentes cor-de-rosa”*:

 

“Por mim – aquela que se esconde assustada por trás do rosto – voltava ao colo materno, ficava olhando o móbile sob o mosquiteiro.

Faltam-me as letras, fartam os livros, pesam-me os sonhos – onde estão eles? Segui pela estrada reta, corri, corri para espantar as lágrimas, secar os risos, e de nada adiantou tantas árvores, tantos ramos, poucas rosas, muito espinho.

Naquela esquina, num outro canto, aquietarei a alma? Sorverei delícias? Sobe, sobe, passarinho verde, sai das grades onde te puseste. Quem sabe encontres a menina de tranças e lentes cor-de-rosa, doce e amargo a escorrer pela face, para um dia, talvez, subir o monte e admirar a planície.” (p. 260)

* Relendo “Lentes cor-de-rosa”, meu primeiro texto publicado em 2004.

 

“Em busca do gato de Schrödinger”:

 

“Hoje não fui à missa, não rezei rosários, nem picotei jornais velhos: propus a mim encontrar o gato de Schrödinger.

Uma amiga tentou uma vez e ficou com as mãos tortas de tanto apalpar o dia inteiro para ver se o gato estava no umbigo ou debaixo do travesseiro. Acho que ela não procurou direito, porque às vezes vejo rabos de gatos e camundongos com suas patinhas fugindo pela fresta da janela em noites de lua cheia.

Pode ser que os lobos não uivem mais depois que eu encontrá-lo. Mas para que me servem nuvens escuras escondendo luas e o sangue escorrendo no pescoço se não sinto mais o palpitar nas próprias veias?

O gato saberá, decerto. E se não responder, corto seus bigodes longos e os faço de espanador de estrelas para que elas realizem logo os meus desejos. Casar, ter filhos, morar numa casinha de campo? Quem saberá o que se esconde sob os meus sonhos? Vai ver o gato me perguntando o que não respondo pode atravessar o espelho que me impõe e fazer companhia. Poderá deitar-me nua sobre a relva e arranhar-me as costas? Lamber o pescoço? Provocar arrepios?

Esse gato, assim manhoso, se enrolará entre as minhas pernas e fará moradia. E nem que a lua saia detrás das nuvens escuras, o sangue estanque, os lobos uivem, arrancarei minhas raízes da sua terra úmida – me farei novelo de lã vermelha para que ele me desfie.” (p. 266)

* Diante do texto Gato de Schrödinger, de Anderson Fonseca.

 

“Oráculo”*:

 

“Levaria uma hora de carro entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. Cíntia uma vez foi de ônibus, precisava misturar-se com o suor de um dia de trabalho, o aroma das frutas e verduras nas sacolas de feira, a tontura das curvas fechadas; no volante o motorista jovem.

– Adélcio.

Perguntei várias vezes enquanto caminhávamos até o estacionamento do aeroporto. Lembrei uma maneira de se gravar um nome.

– Quantos minutos para chegar a Sete Lagoas, seu Adélcio?

– Está muito frio estes dias, seu Adélcio?

– O senhor pode desligar o rádio, seu Adélcio?”

[…]

“Fotos, fotos, fotos. E não dá para captar o meu sentimento de sertão.

– Não vai dar dez minutos e o São Francisco chega.

O mar doce. Pedi, em nome do Pai, que Ele me batizasse novamente: não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas. Sorri com o frio da água na nuca, os pés descalços, as calças jeans suspendidas até os joelhos. De joelhos me refiz e o homem novo levantou-se das pedras e sobre as pedras edificou o seu caminho. E se Manuelzão não quisesse me receber em Andréquicé? Um novo João a ele perguntava, para entre a barba longa suspirar-lhe algum segredo? Quicé de André, quiçá de Maria. Quem sabe do João que sabia que ele não sabia?” (p. 261 e 264)

* Percorrendo o Circuito Guimarães Rosa – Minas Gerais.

 

“O domador de bolas de sabão”:

 

“Tu me plocs me pla, eu me plocs me plon. E ploc lá, ploc qui, não ploca plocon. No placa plo, no placa pli, plaquê, plaqui, não plaploquê.

No se plaque a plocon de plocagem de um ploc plocante, não se ploquê pla.

Placa ploc pla, plisser plum plonger plinecante.

Plic, ploc e plonc.” (p. 273)

* Em Paris, no pátio do Museu Georges Pompidou, assistindo a uma apresentação de O domador de bolas de sabão.

 

Vinte e um (2016):

 

“Alice no espelho”:

 

“Alice ainda não havia se visto no espelho. Sentada, as duas perninhas dobradas, os bracinhos estendidos até as mãos tocarem as mãos.

Mas que surpresa o gelado do espelho! O gelado das minhas mãos!

Me levantei devagar, do tamanho das pernas, meio tonta, caminhei de lá para cá. A outra Alice parecia se divertir com o passeio, pois sorria, como se fosse me contar algum segredo.

De repente, papai chegou: a porta era por onde papai chegava e mamãe saía, aprendi. Mas babá não me deixava chegar perto da porta para não me machucar.” (p. 284)

 

“Clube de Suicidas”:

 

“No princípio era para ser um clube de suicidas. Chegava-se, cadastrava-se, pulava do décimo terceiro andar, no décimo terceiro prédio, da avenida Treze de Maio.

Ou nos degraus da escadaria do Cristo Redentor, na frente dos trilhos, o bondinho da floresta da Tijuca, Santa Teresa, no Palácio do Catete, onde Getúlio se matou.

Mas se José chegasse, se cadastrasse e pulasse, tudo assim continuaria, tudo assim permaneceria um eterno se matar. Porque José chegou com sonhos, desses que não se vendem, se dão. Desses que não se têm, se imaginam. E alguns dos suicidas, em vez de se jogar, iam lá, bem de mansinho, ouvir os sonhos de José, os sonhos que ele não sabia escrever, só falar; não sabia o porquê, só o lembrar.” (p. 293)

 

“O dia da minha vida”*:

Dia de minha vida!

Rumo à noite, lá vai!

Há ardor em teu olho

semividrado,

goteja lágrimas teu orvalho,

desliza quieta sobre mares brancos

a púrpura de teu amor,

tua última, tímida bem-aventurança.

Ditirambos de Dionísio, Friedrich Nietzsche

1.

“Provavelmente, eram elefantes no meio da sala.

Seus pesos e suas medidas estreitavam a mesa até o chão, desfazendo a madeira em fibras corrediças, moendo, moendo, virando bagaço.

Das janelas de açúcar se via a mãe com o pote de água na cabeça. A mãe, no alto do monte, a chamar a menina. A mãe com as nuvenzinhas de algodão percorrendo riachos e cachoeiras quando riscavam o céu em relâmpagos e trovões.

Por entre o canavial o tatupeba se escondia das formigas tanajura de tão grandes ancas, por medo de se engasgar.

Paredes de portões altos não impediam o rasgar do sol ao meio-dia nem a freira moça que se escondera do príncipe encantado.

O príncipe caiu do cavalo, e não me pergunte por que eu não estava lá para reerguê-lo, eu que sempre adivinho a queda antes do recomeço.

E nas pernas expus meus músculos que os elefantes cismavam esmagar, transformando a madeira em pó moído, o bagaço, em cristal, doce mel dos usineiros.” (p. 295)

* Diante de telas do pintor pernambucano Lula Cardoso Ayres (1910-1987).

 

“O Grito”:

No começo foi o grito.

Anésia Pacheco e Chaves

Acendo o abajur e a lâmpada queimada não ajuda a chegar ao banheiro, lavar o rosto, olhar no espelho quebrado.

Me olhar no espelho quebrado.

Crescem rugas no meu rosto estranho. Não pertenço a este lugar? Desde ontem vejo coisas, sinto coisas e não sei o que dizer.

– Aceita este homem…

Bebo um café bem forte. Tão forte o café que a garganta arrepia as amídalas, desperta as papilas.

– … na saúde e na doença…

Tomo um banho demorado. Faço espuma com o sabão, ensaboo o corpo inteiro à procura de mim mesma.

– … respeitando-se…

Que sorte ser feriado! Não preciso levar as crianças ao colégio, a roupa na lavanderia, o cachorro para passear…

– … como seu futuro ex-marido?” (p. 301)

 

“Eu, comigo e Deus”:

 

“Ficava em 20, Maresfield Gardens, num subúrbio de Londres. Vindo de metrô, descia na estação de Hampstead Northern, atravessava a rua e subia uma ladeira. Eu me perdi duas vezes até encontrar a placa da casa-museu, uma casa de dois andares, tipicamente inglesa. A rua estava calma, com as folhas das árvores levitando pelo chão.

Ao entrar, encontrei uma senhora, bem velhinha, que vendia os bilhetes e souvenirs. Ela me disse que não podia fotografar, mas me chamou a um canto da loja e perguntou:

– Quer ver onde Freud encontrou Deus?

Parei um instante com a pergunta. Poderia ficar séculos remoendo em minha mente uma resposta digna de meus estudos, digna da lucidez, digna de…

– Não acredito em Deus. Ela me olhou de mansinho. Passou a mão enrugada no meu rosto jovem. Puxou-me pelo braço.

– Venha mesmo assim.

Eu não sabia se ia ou corria embora. Mas resolvi arriscar e caminhar pelo pequeno jardim; sentei-me em uma das espreguiçadeiras, onde um dia sentou Freud com o suposto visitante.

– Foi aqui. Ela me deixou a sós. A sós com meus pensamentos. A sós com a possibilidade de ser Freud algum dia, um dia de verão londrino, sentando a uma espreguiçadeira, com uma jarra de limonada rósea na mesa ao lado.

– Deus está aqui.” (p. 305)

 

“Vinte e um”:

Ele perguntou o que era terça;

ela, perigosamente, não respondeu.

 

“O que não se sabe sobre os terroristas é que eles levam uma vida perfeitamente normal. Apaixonam-se, desiludem-se, iludem-se com as promessas de vida eterna e dezenas de virgens flutuantes.

Oham sabia das virgens, cria nas virgens como ao próprio corpo armado, coberto com a túnica preta e o turbante branco. O que Oham não sabia era que uma das virgens atravessava o seu espaço no exato instante em que iria disparar as bombas.

– O senhor sabe quando é terça?

Ela lhe perguntou. Com tantos ao redor. Com olhos de pantera, ela perguntou. Será que sabia? Será que lhe adivinhou?

Yasmine era filha única, neta única de marajá. Ela poderia estar em casa, com as tantas amas, os muitos escravos, a pensar em nada, a não pensar. Mas para que deixar de viver a vida, experimentar a vida no seu sabor, nos aromas, no calor do mercado, o colorido das especiarias, que sabor tem o açafrão para Yasmine?

– O que tem na terça-feira?

O rapaz lhe perguntou. O rapaz de olhos vivos, mais vivos do que os seus, mais vida nos lábios grossos e os dentes de marfim, o turbante branco emoldurando o rosto, a túnica preta cobrindo o corpo alto, esguio.

Ele não desconfiou que o perigo ali se achava. Naqueles dedos finos. Naquele véu de púrpura. Os olhos de pantera adentravam os olhos seus, sondavam a alma por mistérios, e ali, no centro, no âmago do espaço seu, Yasmine o desvendou, Yasmine lhe sentiu a cintura, sentiu as bombas, o disparador.

– O que tem na terça-feira?” (p. 323)

 

A menina do olho verde (2016):

 

“A cidade universitária”

 

“Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais. Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler. Era bom aquele começo, com a esperança no coração.” (p. 351)

[…]

“Que sabor tem um Beijo? Para ele? Para ela? Tem o gosto de encontro, encontro assim meio de lado, a cabeça de Manoela deitada de lado para receber o Beijo de Pedro. Era feito um aconchego aquela cabeça deitada no ombro de seu amado. O Beijo assim torto parecia. Mas não era torto, era místico, e ali se fazia um santuário.

Naquele instante celestial, um Raio de Sol tocou a Cabeça de Manoela. A Cabeça da menina permanecendo deitada, pendendo assim para o lado, era mais fácil o Raio de Sol a tocar e se inserir no pensamento. Houve então uma Epifania. Todos os momentos vividos, o antes, o agora, o depois explodiram em Manoela, como se fossem um instante só. E a menina-mulher podia no corpo de Pedro entrar, no corpo do homem-menino penetrar, feito o ar em seus pulmões.” (p. 362)

 

Capa 12 horas

12 horas (2019):

 

“Qual o perigo de se aproximar de alguém enquanto não acontece a queda do avião? Enquanto narra a história que pode salvar-lhe a vida, tal como uma Sherazade, a moça de tez suave permite ao rapaz ao lado se aproximar dos seus cabelos. Os cabelos estão soltos, desgrenhados, assanhados por causa da turbulência do avião. A máscara de oxigênio caída há décadas de segundos, há séculos de minutos, lá atrás, no início da turbulência. Ele retira a própria máscara e segura com as duas mãos o rosto de Arabella, que não teme o perigo de se aproximar de alguém enquanto não acontece a queda. O oxigênio não faz falta naquele instante de silêncio. O oxigênio vem dos pulmões para a boca, e abre a boca, feito um gesto salva-vidas. E beijam a boca um do outro naquele instante de silêncio. E se despedem da vida, dos amores, do passado e do futuro, de quem são e de quem nunca serão. E beijam os lábios. E oxigenam o cérebro. E apagam o silêncio. Até chegarem à partícula de Deus.” (p. 67-68)

 

Doze horas é uma novela ensaística em três camadas. Narrada na terceira pessoa do singular, conta a história de Arabella Fantini, quarenta e cinco anos, solteira e sem filhos, nascida em Recife, residente em Porto Alegre, e museóloga do Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS. Ela traz à tona artistas desconhecidos, e, uma bela tarde, recebe a carta com fotografias da obra de Fernandes Vieira, artista português que o remetente afirma ter conhecido seu pai, desaparecido desde os treze anos da museóloga.

Arabella viaja de Porto Alegre para Lisboa a convite do remetente, um curador renomado, e escreve “um diário imaginário” no laptop durante as doze horas de voo. Ao seu lado senta-se Marcelo Bergson, cinquenta anos, solteiro e sem filhos, professsor de literatura de uma “universidade próxima ao apartamento de Arabella no centro de Porto Alegre”, que guarda os segredos de ter se envolvido com uma aluna menor de idade e ser o causador da morte do irmão mais novo em um acidente de carro.” (p. 94)

 

Capa 13

13 (2019):

 

“O carro”:

20/11/2018

 

“Na mesa ao lado, uma moça, cabelos cacheados e curtos, rosto vermelho queimado de sol, lê um livro que não consigo ver a capa direito, mas parece que é Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. A moça folheia as últimas páginas como se o mundo acabasse no próximo segundo.

Olho a tela do celular. A agência de turismo avisa do passeio de amanhã. Que eu leve um boné. Use protetor solar 50. Vá com uma camisa de malha clara por cima da sunga.

O garçom atende a moça que lê. Ela pergunta o que ele sugere de sobremesa, e olham ao mesmo tempo para o meu prato que acaba de chegar.

Uma mulher vestida de branco observa a cena. Ela escreve num caderno de papel pautado. Levanta o rosto e diz:

– Desculpe perguntar, mas qual é o crepe que o senhor está comendo?” (p. 13)

 

“Um conto de novembro”:

27/11/2018

 

“Poly saiu de casa triste e cansada. Não aguentava mais ser maltratada pela família.

Saiu pelas ruas da cidade sem rumo ou destino. Qualquer lugar seria melhor que a sua casa, sem puxões de orelha, chutes nos quadris, cárcere num canto escuro, racionamento de água e alimento.

As ruas estavam escuras naquela hora do dia. Apesar de novembro, sempre vem uma chuva antes do verão, antes que o sol queime o corpo inteiro, abrindo feridas no pelo das costas ou no dorso.

Andou, andou, e quando pensava que não aguentaria mais, andava mais um pouquinho. E mais um pouco, até ouvir uma música de piano.” (p. 20)

 

“O astronauta”:

04/12/2018

 

“Imagine a cena: olho para a plataforma metálica de uns trinta metros, o foguete pintado de azul-escuro, daqueles azuis que não sabemos o que vai dar no outro lado.

Lembro as conversas com tio Cândido, amigo de papai e considerado um gênio. Ele trabalhava com Estatística, e numa tarde de domingo – estaria ele bêbado? – olhou para mim, no auge dos meus sete anos, e disse:

– Augusto, você tem de ser astronauta um dia!

Daí em diante eu não pararia de pesquisar, não pararia de estudar para a difícil seleção, para a impossível situação de pairar por cima das nuvens, da estratosfera, da camada de ozônio furada em milhares de quilômetros; acima de tudo isso estaria eu um dia e o sonho de um menino de sete anos.” (p. 40)

 

“O exercício”:

11/12/2018

Para Bernadete

 

“Saí de casa hoje cedo, no Parnamirim, para ir à casa de Patricia, em Boa Viagem, e a nossa última aula do ano.

Desde 2016 seguimos esta rotina boa: nós nos encontramos uma vez por mês para conversarmos sobre literatura, cinema, artes plásticas – e tudo o que nos der na telha. Fazem parte do grupo Elba, Patricia, Luisa, Talita e eu. Elba escreve poesias e resenhas maravilhosas e a conheci numa aula de dança de salão lá na zona norte – hoje o trânsito está fogo na roupa! Vou tirar uma foto e mandar pras meninas no WhatsApp.

Patricia, conheci numa reunião da Confraria das Artes. Eu estava tão nervosa porque ia apresentar algo sobre Goa – cidade das minhas raízes. Mas, na hora H, tudo se dissipou, o medo desapareceu, e eu era outra no meio de gente amiga. E ali, do outro lado da mesa redonda, estava uma Patricia maravilhada.” (p. 55)

 

“A lista”:

19/12/2018

 

“Tomar café rapidinho.

Levar a cachorrinha para passear.

Fazer a feira de frutas, legumes.

Consertar a pia do banheiro.

Ligar para mamãe e contar como foi a prova.

Colocar a roupa para lavar na máquina.

Levar a cachorrinha para passear de novo.

Passar, na volta do passeio com Poly, na padaria, e pedir da calçada, pois o padeiro não deixa Poly entrar, aquele pão de coco que eu gosto tanto.

Lanchar pão de coco, rechear com requeijão, beber leite com Nescau. Ligar para Sérgio, como se quisesse saber como foi a prova, mas na verdade é só para ouvir a voz dele. Ficar uma hora com Sérgio ao telefone, e na rádio toca Oceano, de Djavan.

Tomar banho demorado…

… escovar os dentes…

… hidratante no corpo…

… lavanda atrás das orelhas…

… e nos pulsos…

… me vestir…

… e ir à universidade tentar me encontrar com Sérgio, para vermos juntos, os dedos cruzados, o frio na barriga, a lista da seleção de doutorado.” (p. 86)

 

Capa 14

14 (2019):

 

“Mim mesis mesma”

05/10/2013

 

“Ouço Tom

E o tom acalma

As minhas células cerebrais

Ativadas

Esgotadas

Com as perguntas

Que um amigo fez

 

As perguntas

Que são apostas

Às respostas

Que me fiz um dia

 

E quem diria

Que da música do maestro

Em mim brotasse a letra

Aquela embalsamada

Em óleos ancestrais

 

Que flutuava e flutuava

Pelo espaço” (p. 16)

 

“Um presente de rei ou o lobo da estepe”:

19/07/2014

 

“Dizem que o amor

É para os loucos

É para os poucos

É para os bons

 

Você me deu

Uns poemas assim

Do tamanho

Dos meus sonhos

E eu aqui

Com o seu presente

Embrulhado em jornal

 

Para lembrar

Que a vida é

Tão pequenina

Que o meu tempo

De menina

Transparece agora

Nos seus olhos de cristal” (p. 27)

 

“1969 ou magma ou a origem do poema?”:

16/09/2014

 

“Nasci

Quando o homem

Foi para a Lua

E nunca mais

Pus os pés no chão

Vivo a sonhar

Com um mar de estrelas

Um mar de palavras

Que se juntam

Num mesmo leito

Mesmo oceano

De sentidos

Até atingir

O centro da Terra” (p. 34)

 

“No Theatro São Pedro”:

19/03/2016

 

“Que o sonho

Não se transforme

Em velho

Vai e vem

Do dia a dia

 

Que a hora

Em mim

Apague

Qualquer impressão

De angústia

Qualquer invasão

De penúria

 

Aposto

Num texto bom

Que há de vir

Entre uma linha

E outra

Entre uma palavra

E o som

Da minha própria Voz

 

Até

Imaginar-me

Nua

Diante da

Plateia escura

Dos meus

Ais” (p. 43-44)

 

“Quem escreve não se cansa de buscar”:

06/08/2016

 

“Se eu fosse um

Passarinho

Esqueceria as

Folhas mortas

Do passado

Arrancaria as

Ervas daninhas

Do presente

E passearia

Suavemente

No céu azul

 

Mas como

Não sou um

Passarinho

Vivo à cata

De migalhas

Vivo em busca

De palavras

Assim

Pequenininhas

Que possam

Traduzir

Por um segundo

A imensidão

De eternidade

Presa aqui

No meu peito” (p. 50-51)

 

Capa 15

“Estudos em Escrita Criativa 2018”:

 

“Em agosto de 2016, por sentir a necessidade de compartilhar o que apreendia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, em Porto Alegre, iniciamos, as escritoras e poetisas Bernadete Bruto (PE), Elba Lins (PB/PE) e eu, um grupo de Estudos em Escrita Criativa, em Recife. Eram encontros quinzenais que, na continuidade, passaram a ser mensais. Nos encontros conversávamos sobre os teóricos estudados por mim na PUCRS, fazíamos conexões com ficcionistas, poetas e outras áreas de conhecimento além da teoria da literatura, tais como psicanálise, filosofia, física, sociologia, história e outras artes, como cinema, fotografia, teatro, artes plásticas, música.

O grupo foi crescendo com as escritoras Luisa Bérard (AL/PE) e Talita Bruto (PE) em abril de 2017. Em conversas com colegas da PUCRS, percebemos a necessidade de divulgar nossos trabalhos em espaços extra-acadêmicos e por outras cidades do Brasil. Levamos o projeto à Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, na figura de Rogério Robalinho, e à PUCRS, representada pelos profs. drs. Luiz Antonio de Assis Brasil, Cláudia Brescancini e Maria Eunice Moreira, que nos apoiaram. E assim nasceu, em outubro de 2017, o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco na XI edição da Bienal, com a presença de escritores gaúchos e pernambucanos.

A boa receptividade no I Seminário nos incentivou a ampliar o projeto e propor à Livraria Cultura o grupo de Estudos em Recife e Porto Alegre. A ideia inicial seria termos oito encontros mensais e temáticos – o tempo, o mito, a viagem, a música, o amor, o sonho, a imagem, o fogo. Os temas foram intuídos tanto dos textos canônicos quanto dos contemporâneos da literatura ocidental. Utilizando o mesmo formato do grupo original – dividir o encontro em uma parte teórica e outra prática –, acrescentamos um momento de conversa com os escritores locais, o que atenderia à necessidade de divulgar os trabalhos dos colegas da PUCRS em espaços extra-acadêmicos. Por intermédio da parceria com a União Brasileira de Escritores de Pernambuco, representada pelo presidente e escritor Alexandre Santos, nós o convidamos para os oito encontros, além de mais sete escritores locais – Flávia Suassuna, Fátima Quintas, Jacques Ribemboim, Ana Maria César, Adriano Portela, Maria do Carmo Nino e Lourival Holanda; em Porto Alegre, com a parceria da PUCRS, convidamos, para os sete  encontros, quatorze colegas que fazem mestrado ou doutorado em Escrita Criativa – Júlia Dantas, Guilherme Azambuja, Débora Ferraz, Tiago Germano, Alexandra Lopes da Cunha, Gustavo Melo Czekster, Annie Müller, Luís Roberto Amabile, Gisela Rodriguez, Fred Linardi, María Elena Morán, Daniel Gruber, Andrezza Postay e Camilo Mattar (caso único da Teoria da Literatura, mas grande poeta).

É com imensa alegria que compartilho a parte teórica dos nossos oito encontros dos Estudos em Escrita Criativa, 2018.” (p. 103-104)

 

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Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dezesseis livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália) e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutora em Escrita Criativa (PUCRS), organizadora e ministrante, desde 2016, dos Estudos em Escrita Criativa. Uma das idealizadoras e coordenadoras do curso de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

 

 

 

[Espaço] jornalista Martins de Vasconcelos | Organizadores Clauder Arcanjo, David Leite, Johann Freire | Enviado por Rizolete Fernandes

INTRODUÇÃO

 

Há dois anos, a editoria do Jornal de Fato convidou o escritor Clauder Arcanjo para coordenar a página 2 do periódico, dentro de um projeto de reformulação deste. De pronto, Clauder aceitou o desafio, convidando diversos escritores, intelectuais e professores a cooperarem, “de forma aberta, honesta e franca”, com seus textos.

Nascia, assim, algo plural e aberto, e o espaço não poderia levar outro nome a não ser o do inesquecível Jornalista Martins de Vasconcelos. Apodiense adotado por Mossoró que, segundo Raimundo Nonato, era “um homem simples, trabalhador e bom. Retrata o caráter de um sincero idealista, cujos dias, embora lhe tenham decorrido fartos de decepções, deixaram-lhe contudo, lugar para as manifestações de entusiasmo, do bom humor e de um sadio e permanente otimismo”. Detentor de “espírito polimático, o diretor de ‘O Nordeste’ foi, à sua época, o tipo representativo do homem de letras da província, do artista que realizou uma obra intelectual duradoura, num meio pequeno, numa cidade mercantil, muito mais preocupada com os lucros do que com os problemas da literatura”.

Aécio Cândido, Ângela Rodrigues Gurgel, Cadu Paiva, Clauder Arcanjo, David Leite, Dom Marcelo, Dulce Cavalcante, Flávia Arruda, Johann Freire, José de Paiva Rebouças, Kalliane Amorim, Klarice Holanda, Lilia Souza, Manoel Onofre Júnior, Raimundo Antonio de Souza Lopes, Rizolete Fernandes, Thiago Gonzaga, Vanda Jacinto… foram, de início, nomes que, com seus estilos, opiniões e lirismo, transformaram o Espaço numa trincheira opinativa e literária que orgulha, sobremaneira, o jornalismo potiguar. A esta grande equipe de colaboradores, juntaram-se outros valorosos nomes: César Calheiros, Edmílson Caminha, Enéas Athanázio, Francisco Obery Rodrigues, Hildeberto Barbosa Filho, Ítalo Gurgel, Padre Guimarães Neto, Vera Lúcia de Oliveira… tornando o espaço cada vez mais plural e eclético, homens e mulheres “sonhadores, idealistas, combativos, daqueles que não envelhecem com a idade”. Tudo para honra e graça à memória do multifacetado e inquieto mestre Martins de Vasconcelos.

Com o tempo, e com o incentivo dos leitores, o pedido para que reuníssemos, em livro, uma coletânea das páginas então publicadas. Resolvemos (Clauder Arcanjo, David Leite e Johann Freire), de pronto, coordenar uma edição em que cada autor selecionaria três dos textos já publicados.

A seguir, caro leitor, a primeira coletânea do Espaço Jornalista Martins de Vasconcelos: crônicas, ensaios, contos, resgates históricos, opiniões, memória, aforismos, perfis… Enfim, à moda do mestre que nos guia, um tributo ao bom, sério, plural e perene jornalismo.

Boa leitura!

Antonio Clauder Alves Arcanjo, David de Medeiros Leite e Johann Freire

(Organizadores)

Setembro de 2019

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* Introdução de [Espaço] jornalista Martins de Vasconcelos. Organizadores: Clauder Arcanjo, David Leite, Johann Freire. Mossoró: Sarau das Letras, 2019.