Índex* – Dezembro, 2019

Foram derrubados os muros da cidade

o Muro Alto

não existia mais.

 Plantaram jardins conjuntos,

 escreveram livros

 para uns aos outros ler.

 Era bom aquele começo,

 com a esperança no coração.

[“A cidade universitária”, A menina do olho verde em 7 por 11, Patricia Gonçalves Tenório, (2016 in) 2019]

Se eu fosse um

Passarinho

Esqueceria as

Folhas mortas

Do passado

Arrancaria as

Ervas daninhas

Do presente

E passearia

Suavemente

No céu azul

 

Mas como

Não sou um

Passarinho

Vivo à cata

De migalhas

Vivo em busca

De palavras

Assim

Pequenininhas

Que possam

Traduzir

Por um segundo

A imensidão

De eternidade

Presa aqui

No meu peito

 

[“Quem escreve não se cansa de buscar” em 14, Patricia Gonçalves Tenório, (2016 in) 2019]

Muros derrubados na imensidão da eternidade do Índex de Dezembro, 2019 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Os outros | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

A história por trás de Recife Assombrado: o filme | Adriano Portela (PE – Brasil).

“Missa” em Encantamentos | Ana Paula Braz de Almeida Cavalcanti (PE – Brasil).

Os cadernos de solidão de Mario Lavale | Arthur Telló (RS – Brasil).

Lauren | Irka Barrios (RS – Brasil).

Numa rua perto do centro | Paulo Caldas (PE – Brasil).

O não-lugar em Elizabeth Bishop | Tiago Silva (PB/SE – Brasil).

E o link do mês com Márcia Feitosa (SP/PE – Brasil) na Revista Conexão Literatura:  http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/2019/12/o-mes-de-dezembro-chegou-com-nova.html

Desejo um Natal e um 2020 cheio de Paz, Saúde, Luz, Sonhos, Amor, Alegria, Literatura & Poesia, a próxima postagem será em 26 de Janeiro de 2020, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – December, 2019

The city walls were torn down

the High Wall

no longer exists.

 They planted joint gardens,

 wrote books

 for each other to read.

 It was good that beginning,

 with hope in the heart.

[“The University City”, The Green Eye Girl at 7 by 11, Patricia Gonçalves Tenório, (2016 in) 2019]

If I were one

birdie

I would forget the

Dead leaves

From the past

I would tear

Weeds

Of the present

And would fly

Gently

In the blue sky

 

But because

I’m not one

birdie

I live looking for

Crumbs

I live in search

Of words

Like this

Little ones

That can

Translate

For a second

The immensity

Of eternity

Stuck here

In my chest

[“Whoever writes never tires of searching” in 14, Patricia Gonçalves Tenório, (2016 in) 2019]

Walls collapsed in the immensity of eternity of the December, 2019 Index in Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

The others | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

The Story Behind Haunted Recife: The Movie | Adriano Portela (PE – Brasil).

“Mass” in Enchantments | Ana Paula Braz de Almeida Cavalcanti (PE – Brasil).

Mario Lavale’s notebooks of solitude | Arthur Telló (RS – Brasil).

Lauren | Irka Barrios (RS – Brasil).

In a street near the center | Paulo Caldas (PE – Brasil).

The Non-Place in Elizabeth Bishop | Tiago Silva (PB/SE – Brasil).

And the link of the month with Marcia Feitosa (SP/PE – Brasil) in the Connection Literature Magazine: http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/2019/12/o-mes-de-dezembro-chegou-com-nova.html

I wish a Christmas and a 2020 full of Peace, Health, Light, Dreams, Love, Joy, Literature & Poetry, the next post will be on January 26, 2020, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

  

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Apresentações de amigos tão especiais da Coleção Cinco Livros: em Recife (21/11/2019) com Bernadete Bruto, Dinaldo Lessa, Elba Lins, Raldianny Pereira, Taciana Valença e Vera Nóbrega; em Porto Alegre (25/11/2019) com Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Irka Barrios, Leon Rodriguez, Simone Vasconcellos, Taiane Maria Bonita e Tales Melati.

Os outros | Patricia Gonçalves Tenório*

Uma vez me disseram que o amor perfeito é a literatura.

Concordo quando lembro dos inúmeros romances maravilhosos, contos estupendos, poemas ou ensaios que nos deixaram degustando cada sílaba, palavra, estrofe ou parágrafo, até entranhar em nossos pulmões, e nos fazer levantar para um novo dia.

A literatura nos salva. Nos salva de nós mesmos, das nossas impossibilidades, dos limites que o mundo nos dá, sem ao menos perguntar se teremos condições ou se saberemos superá-los.

A literatura me salva. E lembro dos momentos em que a escrita me retirou do escuro que a vida impôs, e nasceram As joaninhas não mentem, em 2006, Grãos, em 2007, A mulher pela metade, em 2009, D’Agostinho e Diálogos, em 2010, Vinte e um e A menina do olho verde, em 2016. Cada um desses livros respondeu a alguma impossibilidade, eles mostraram que todos somos capazes de chegar ao fundo do poço e retornar à superfície, sentir o frio do escuro da vida e vislumbrar uma luz no fim do túnel.

Mas, principalmente, os outros nos salvam. Li em um poema de Bernadete Bruto (PE, Brasil) que até os inimigos nos acrescentam, porque nos fazem olhar para o próprio umbigo e enxergar nossas imperfeições.

Acredito, e sempre quero acreditar, que viemos para esta vida, para este mundo somente, e apenas somente, para o afeto. Todos queremos amar e sermos amados – este é o amor perfeito. A literatura nos dá o que os seres humanos nos negam. Quem escreve busca nos outros o afeto para o qual fomos feitos, e com o qual fazemos tudo possuir um sentido.

Em novembro de 2019 completei 50 anos de existência. Quantos outros marcaram profundamente a minha vida e que nem pude agradecer o suficiente? Alguns fazem parte inexorável do meu dia a dia. Alguns se foram para uma dimensão diferente da nossa. Alguns estão distantes espiritualmente por causa de desavenças, ou mesmo distantes fisicamente, mas continuam amigos. São para todos os outros da minha vida que dedico cinco livros lançados no meu aniversário, e que contêm um pouco de cada gênero literário que me constituiu escritora, que me forjou pessoa, eles me fizeram ser quem eu sou.

Porque, contradizendo o grande filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre, se permitirmos, o inferno ou o inimigo não são os outros. Somos nós mesmos.

 

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PATRICIA TENORIO (298)

Lançamento de As joaninhas não mentem (Recife, 2006) com Maria Eduarda, Bruno e Vítor.

PATRICIA TENORIO E O POETA CESAR LEAL,

Lançamento de Grãos (Recife, 2007) com o saudoso César Leal.

PATRICIA TENÓRIO E ISIS AGRA

Lançamento de Diálogos e D’Agostinho (Recife, 2010) com Ísis Agra.

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Lançamento de Vinte e um/Veintiuno (Madri, 2016) com Raúl García.

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Lançamento A menina do olho verde (Recife, 2016) com Beatriz Brenner e Maria do Carmo Nino.

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Lançamento A menina do olho verde (Porto Alegre, 2016) com Marcelo Maldonado, a saudosa Fabiana Castelo Branco, Ana Wertheimer, Cristiano Dal Forno e esposa, Gustavo Czekster, María Elena Morán e esposo, Cyro e Alexandra Lopes da Cunha.

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Com a turma do curso de Extensão Estudos em Escrita Criativa – Unicap – Língua Inglesa – 2019.1, convidados especiais Bernardo Bueno (RS) e Elba Lins (PE).

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Com a primeira turma do curso de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS – 2019.2 nas aulas presenciais de Prof. Assis Brasil.

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No Destaque Literário de Novembro, 2019 da Cultura Nordestina, com as amigas que me incentivaram a formar o grupo de Estudos em Escrita Criativa Bernadete Bruto e Elba Lins.

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Lançamento da Coleção Cinco Livros (Recife, 21/11/2019) com amigos artistas e escritores queridíssimos.

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Lançamento da Coleção Cinco Livros (Porto Alegre, 25/11/2019) com os queridíssimos Gisela Rodriguez, Taiane Maria Bonita, Irka Barrios e Fred Linardi.

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E com o tão queridíssimo baluarte da Escrita Criativa no país Luiz Antonio de Assis Brasil no lançamento da Coleção Cinco Livros em Porto Alegre.

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* Escritora, dezesseis livros, mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutora em Escrita Criativa (PUCRS), ministrante dos Estudos em Escrita Criativa e uma das coordenadoras da primeira turma da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

A história por trás de Recife Assombrado: o filme* | Adriano Portela**

 

O flerte com a temática assombrada já me acomete faz mais de treze anos, primeiro com a fantástica descoberta do livro Assombrações do Recife Velho (1955), de Gilberto Freyre e segundo com a realização cinematográfica (curta-metragem), de alguns filmes envolvendo o universo do sobrenatural, a exemplo do documentário Menina Sem Nome (2007) – finalista em vários festivais – e das ficções O Sobrado de São José (2006) e Prenúncio (2009). Hoje, com uma imensa euforia, concretizo esta incursão com o lançamento do longa-metragem Recife Assombrado (2019). O filme é uma homenagem ao mestre Gilberto Freyre e um presente para os pernambucanos que são fissurados nas nossas assombrações, causos, contos, lendas e mitos.

[…]

O elenco de Recife Assombrado é formado quase 100% por atores pernambucanos, alguns estiveram presentes no meu primeiro curta O Sobrado de São José (2005), como Márcio Fecher, ator de Bacurau (2019) e Supermax (2016). Na trama Fecher dá vida ao vilão Jair das Almas. Eu e toda a equipe acreditamos muito no potencial deste personagem. Jair tem algo de real e surreal ao mesmo tempo, uma persona que promete marcar a história do cinema pernambucano. Também estão comigo desde a leva do primeiro filme, o preparador de elenco, Taveira Júnior e o maquiador Vinícius Vieira.

[…]

Encaro Recife Assombrado O Filme como uma deliciosa aventura de quatro anos, quase uma copa do mundo, com pólio garantido ainda na pós-produção, coordenada pelo talentoso Henrique Spencer. Uma felicidade ter quase todo o estado de Pernambuco torcendo pelo êxito do produto, deste filme que deixa de ser meu antes mesmo de estrear. Agradeço o apoio constante dos familiares, amigos, alunos, integrantes da Cobogó das Artes e as equipes excepcionais da Viu Cine e Portela Produções. Devo a Gilberto Freyre e a Carneiro Vilela a inspiração e a pulsão das ideias. E a todos os recifenses que, assim como eu, se encantam com o imaginário popular desta cidade, um viva a esta obra e vida longa às histórias da capital mais assombrada do Brasil!

 

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* Trechos extraídos do Prefácio de A história por trás de Recife Assombrado: o filme. Bruno Antônio, Erickson Marinho, Ulisses Brandão. Colaboração: Afonso Bezerra. Prefácio: Adriano Portela. Apresentação: Vinícius Cavalcanti. Fotos: Diego Hercullano. Ilustrações: Marília Feldhues. Recife: Viu Marcas, 2019.

** Diretor de Recife Assombrado O Filme. Também é jornalista e doutorando em Teoria da Literatura pela UFPE e ministrante da disciplina Literatura e outras artes em 2020.1 na primeira turma da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contato: reporterportela@gmail.com

“Missa” em Encantamentos* | Ana Paula Braz de Almeida Cavalcante**

Missa

 

Manhã de domingo ensolarada. Pássaros sobrevoam a praça, crianças brincam e velhinhos passeiam com seus animais de estimação. Daniel caminha com a família, enquanto contempla o céu anil. Sobe a escadaria, onde se encontram mendigos, entra na catedral, faz o sinal da cruz e procura o local mais próximo do altar para ser visto pelo padre.

Óculos de armação preta, trancelim e relógio de ouro, camisa social amarelo-clara, calça azul-marinho, atacada por cinto marrom que combina com sapatos lustrados da mesma cor. Cabelos curtos, pintados de preto, fios brancos deixados próximos à orelha para parecer que estão na cor natural. Barba e bigode bem feitos, olhar sério.

Percebe a luz entrar através dos vitrais coloridos, que se reflete nas colunas de mármore e no lustre de cristal antigo pendurado no teto com pinturas do Juízo Final. Os desenhos terminam por trás do sacrário dourado, onde há velas acesas e a imagem de Cristo.

– Obrigada, Jesus! Cinquenta anos bem vividos!

Abraça a esposa Amélia, a filha Fátima, ouve a melodia dos coroinhas e cantarola:

–  Hosana, hei! Hosana, rá! Hosana, hei! Hosana, hei! Hosana, rá!…

Conhece as músicas e rituais.

Na hora dos parabéns, Fátima pede licença ao celebrante para falar ao microfone sobre o pai: trabalhador, honesto, religioso e cumpridor de suas obrigações. Ganha um sorriso paterno.

Na saída da igreja, um homem lhe estende a mão. Odor de suor, unhas compridas e sujas, cabelos desgrenhados, rosto cadavérico. Faltam-lhe dentes.

– Esse cara tá todo fim de semana aí. Deve ser um desocupado, alcóolatra ou drogado. Fez por merecer essa vida.

Um senhor com barba cor de neve, ao notar que Daniel não dera a esmola, oferece um trocado ao pedinte e comenta com o aniversariante:

– A gente recebe tanto, né? Eles têm tão pouco e são nossos irmãos, filhos do mesmo Pai. Como podemos dormir, sabendo que estão desemparados?

Os fieis vão embora. Aquele era o único apurado do dia. O mendigo conta as cédulas, olha para a companheira e filho doente ao lado e depois para cima.

– Obrigado, Jesus!

Em seguida, anda em direção a outro pobre que nada recebera.

– Isso aqui dá pra comprar leite, café e pão. A gente divide.

Por trás do pedinte, um painel fixado na parede ensina: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e com toda a tua inteligência. Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

O idoso, percebendo que Daniel observara a cena e agora se voltara para ler o texto, se aproxima:

– A esses dois mandamentos estão sujeitos toda a Lei e os Profetas. Não há outro maior do que esses.

Amélia segura na mão do marido:

–  Ainda vamos comemorar com seus amigos? Não se exceda, querido. Você tem bebido muito nesses encontros.

Pálido, o aniversariante aperta a mandíbula contra o maxilar, coloca as mãos trêmulas nos quadris e mira o vazio do firmamento nublado.

Os passarinhos se escondem nas árvores, que balançam as folhas com a força da ventania. As pessoas abrem os guarda-chuvas e voltam apressadas para as casas.

– Papai, você tá bem? Vamos! Você viu que aquele senhor de barba branca tinha uma aura? Pra onde ele foi?

– Sumiu!

 

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* “Missa” em Encantamentos: escritos da Oficina Literária Paulo Caldas. Curador: Paulo Caldas. Quarta capa: Ana Paula Braz de Almeida Cavalcante. Recife: Bagaço, 2019.

** Ana Paula Braz de Almeida Cavalcante é médica, escreve desde os 15 anos, faz parte da Oficina Literária Paulo Caldas, do Grupo de Estudos em Escrita Criativa e da primeira turma da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contato: apbalmeida76@hotmail.com

Os cadernos de solidão de Mario Lavale* | Arthur Telló**

Anotações sobre fantasmas

1- Blue

 

Estremeço. Guido preocupa-se. Não entende nada. “Quer que eu fique?”, ele pergunta. Não, não precisa, pode ir. Sorrio e digo que está tudo bem. Mas Guido continua parado me encarando. Vai embora!, meus olhos gritam. Mas ele se aproxima e me dá um beijo na testa. Fujo com a cabeça e bato com ela na guarda da cama. Dói. Só uma parte dos lábios toca meus cabelos.

Um defunto. Outro defunto. É o que quero dizer. O beijo do meu marido é frio como o de um defunto. Meus pelos arrepiam e o bico do peito me dói. Meu peito está morto há quanto tempo? Uma semana? Duas? Um mês?

Guido é inteligente, é gentil. Ao sair de casa, deixa um disco tocando. Reconheço o violão, mas ainda não reconheço a música. O que será?

Just before our love got lost you said,

“I am as constant as a northern star.”

And I said, “Constantly in the darkness,

Where’s that at?

If you want me I’ll be in the bar.”

Joni Mitchell. É melhor ouvir Joni Mitchell que o silêncio. Pedi para Guido levar embora as flores. Seria muito triste vê-las morrendo na escrivaninha. Ele deixa as cortinas abertas de propósito, eu sei. Eu não vou me levantar para fechar nada, ele sabe. Olho um pedaço de céu azul pela janela e me irrito: não, não vou me levantar. Eu preciso, ele me diz. Mas não vou. Nunca mais. Senão, vou dar início a algo que pode se desenvolver, nos encher de alegria e morrer nos nossos braços. Culpa minha? Sim, a culpa foi minha. Só pode ter sido eu.

Às vezes Guido tenta me tocar, mas seus dedos são duros, têm calos e me ferem. Meu corpo está em carne viva. E qualquer coisa dói. O ar machuca, o sol queima, as gotas do chuveiro parecem milhares de agulhas caindo sobre a minha cabeça. Nunca mais quero tomar banho, digo a ele. Quero ficar aqui. Sozinha na cama, encolhida como um bebê. Sou o meu próprio bebê agora. E tudo que poderia ter sido (sol, flores, vento) está tudo morto em mim. Guido também. Cada toque dele é o toque de um morto.

Eu o odeio.

Mas, mesmo assim, ele tenta me tocar. Ontem mesmo ele tentou me tocar, depois de quanto tempo? Uma semana, duas semanas, um mês?

“Não tira a minha roupa””, eu disse.

“Por quê?”

“Porque nunca mais quero tocar ninguém.”

“Nem ficar nua”, ele disse. Sim, faz tempo que não fico nua. Não posso estar nua, senão é o vento, é o sol, é o Guido me ferindo a pele.

Daqui a pouco ele vai voltar do trabalho, perguntar o que fiz, se decepcionar porque não fiz nada. O som ao redor vai ser apenas a agulha do toca-discos riscando o silêncio. Guido então vai fechar as cortinas e ligar a luz. O interruptor vai me queimar os olhos, e vou me afundar no travesseiro. Guido sempre troca a cadeira da escrivaninha de lugar, tira livros da estante em frente à cama, caminha lentamente até o armário para pegar outra muda de roupa para mim. A cadeira branca fora do lugar me irrita. Irritam-me os livros faltando na estante, o peso da roupa no meu pé. Quase choro. Ele põe os olhos castanhos sobre mim e espera. Choro toda vez que ele me dá banho. “Guido, me abraça.” Ele me abraça e me leva para o chuveiro. “Não, não tira minha camiseta”, digo, mas ele aos poucos tira minha camiseta e vai contornando meu corpo com o sabão. Suas mãos são frias e as gotas de água, agulhas. Não há como fugir. Apenas choro para dentro de mim mesma. E aos poucos tento entrar em contato com a água. Enquanto não for o mesmo que a água, as agulhas vão continuar me matando.

Até que somos uma! Somos uma! Quentes, escorremos. Guido me prende pelos braços e me leva para a cama. Olho para o teto branco, para os contornos de gesso, para a luminária que comprei na Redenção, que lembra uma lâmpada de escritório. Gosto dela. Quando percebo, começo a chorar de novo. A água represada quer sair de mim, as gotas do meu corpo viram ondas, é uma maré que sobe, é o Guido mergulhando para me resgatar.

Em vão.

Quando acaba, me sinto morta. Dou as costas a ele. Não quero, já disse que não quero. Nunca mais. Guido não entende que qualquer mudança é dar um passo para fora deste quarto, é criar uma crosta de pele mais forte que o ar e o sol, que ele?

 

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* Conto de abertura de Os cadernos de solidão de Mario Lavale. Arthur Telló. Porto Alegre, RS: Zouk, 2019.

** Arthur Telló nasceu em Porto Alegre, em 1989. É formado em Letras-Latim pela UFRGS e Mestre em Escrita Criativa pela PUCRS, onde, além de fazer o doutorado em Teoria da Literatura, é professor de Latim, Grego, Literatura e Escrita Criativa. Tem contos publicados em antologias e revistas. Em 2016, venceu o Prêmio Açorianos na categoria Criação Literária com o romance O tríptico de Elisa (ainda inédito). Os cadernos de Solidão de Mario Lavale é seu primeiro livro de contos. Ministrou em outubro de 2019 a disciplina Oficina de Narrativa I – Contos na primeira turma de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contato: arthurtello@gmail.com

Lauren* | Irka Barrios**

I

 

Ao longe as vozes das pessoas encolerizadas e à frente um aclive a vencer. Lauren corre tanto quanto seu corpo permite, os pulmões inflam e se esvaziam em intervalos curtos, a cãibra insiste em falsear as passadas e um punho imaginário a soca na altura do diafragma.

Dói. Ela se inclina para a frente, apoia-se nos joelhos e toma fôlego. Um instante, um instantinho só, implora. A respiração se esvai em uivo, como se o ar arranhasse por dentro.

Latidos de cães a colocam em alerta. Uma nova injeção de adrenalina percorre seu sangue, ela volta a correr, ainda que não recuperada. Na metade da lomba, diminui a velocidade e olha ao redor. Não vê imagens suspeitas. Não vê nada além da quietude de uma cidade pequena que dorme e acorda sem se questionar. Volta a acelerar o passo, conta as casas que se sucedem ao longo do percurso. É um truque para desviar o pensamento de tudo o que acontece dentro de seu corpo. Ofega, avança, ofega mais. Não havia reparado nas casas, em treze anos de vida, a garota jamais notou as cores pálidas das casinhas de madeira. Nem os telhados, os portões e os jardins, tão ameaçadoramente parecidos. Portas que escondem vidas parecidas. Quem destoa só pode ser rejeitado. “Você destoa, Lauren.”

Tenta afugentar a voz persistente, tem medo que junto a ela retornem as visões, o medo, a vergonha. Volta o olhar para as casas, na esquina há uma de alvenaria. O porquinho mais precavido foi esperto, empenhou-se mais que os outros na construção, a mulher honesta dignifica a casa. Uma casa branca transformada em loja comercial, Wüster autopeças. O senhor Wüster não destoa, o senhor Wüster construiu a casa com tijolos e cimento, e o lobo vai soprar e bufar e não conseguirá mandá-la para o ar. O senhor Wüster vive com uma mulher honesta que dignifica a casa, a senhora Wüster vai abrir a porta e acolher os porquinhos quando o lobo derrubar as casas de madeira.

Desde que eles não destoem.

A comunidade é pacífica, mas você não pode destoar.

Na esquina seguinte um porquinho Prático que acolherá os Cíceros e Heitores quando o lobo chegar. Arfando, Lauren acelera a passada e alcança a praça central, em frente à igreja católica. Ainda não enxerga seus perseguidores, embora os imagine perto. Os gritos, os gritos se aproximam. Logo a encontrarão.

“Lauren bucho, Lauren sapona, Lauren baleia, saco de areia”.

 

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* Abertura de Lauren. Irka Barrios. Nova Lima, MG: Editora Caos & Letras, 2019.

** Irka Barrios é contista e novelista, mestre em Escrita Criativa (PUC-RS). Premiada no Concurso Brasil em Prosa (2015), com o conto “O coelho branco”, participa de diversas antologias de contos. Atua na organização do coletivo Mulherio das Letras – RS. Lauren é seu livro de estreia. Contato: irkabarrios@gmail.com

Numa rua perto do centro | Paulo Caldas**

Cabelos embranquecidos

 

Na sala inaugural, as turmas de Exatas e Humanas enchem o auditório de paredes acinzentadas, janelas largas voltadas para o pátio e o jardim. Sentado à mesa da solenidade, sob um Jesus Crucificado preso por fio de metal vindo do teto, ao lado dos colegas do corpo docente e membros da diretoria, Arthur da Paixão observa uma por uma as alunas do novo grupo, a maioria contida pela timidez do primeiro dia.

Encerrada a cerimônia se desloca a passos resolvidos no sentido de uma delas, a de cabelos castanhos, que chegara atrasada. De perto, simula um ar de riso e ela corresponde.

Minúsculas bolhas de suor equilibradas na ponta do nariz parecem vestígios do sol no limo úmido. Os lábios grossos lembram uma linha sinuosa riscada entre as covinhas, traço sutil, ainda mais quando o riso movimenta o rosto, expondo o jeito inocente quando nasce, mas sensual quando se completa. Volátil, me escapa entre os dedos incrédulos, inseguros, inábeis, inibidos. Mas não faz mal. O ano está só começando.

– Alô, Vilma, hoje foi o primeiro dia da faculdade.

– Que legal, conta aí.

– Cheguei um pouco atrasada, o reitor já estava dizendo umas coisas lá. Fiquei toda sem jeito, me espremi numa cadeira na terceira fila. Quando comecei a dar fé no ambiente, você não imagina.

– O que foi? Conta logo.

– Um professor, minha filha, não tirou os olhos de mim. A cerimônia continuava e ele olho cravado. Eu não tinha mais pra onde virar o rosto, já estava sem jeito.

– Bonitão?

– Só você vendo o cara: assim, esguio, fios dos cabelos e da barba embranquecidos, óculos aro redondo, lentes meio escuras, mas não tanto e outra coisa, sorriso largo, palavra clara, voz mansa, mas uma menina lá se atravessou quando no final ele vinha pro meu lado. Eu gelei. Aí a turma foi saindo, Vítor chegou e saí depressa me esgueirando pelas fileiras do auditório. Dei graças a Deus quando chegamos no hall de entrada.

– Tinha muita gente?

– Lotado. Um calor insuportável.

 

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* Conto de abertura de Numa rua perto do centro. Paulo Caldas. Recife: Bagaço, 2019.

** Paulo Caldas. Finalista dos prêmios Vânia Carvalho 2012, com o romance Porto dos amantes e Edmir Domingues 2016, poesia, com Círculo amoroso, mais de 15 títulos publicados nos segmentos infanto-juvenil e adulto, participação em várias antologias em prosa e verso, mentor da oficina literária que leva seu nome (com 25 participantes sendo seis deles à distância); colunista de literatura da revista Algomais (versão on-line). Paulo Caldas possui 35 anos de militância literária em Pernambuco. Destaque literário da livraria Cultura Nordestina, em maio de 2019.

O não-lugar em Elizabeth Bishop* | Tiago Silva**

Elizabeth Bishop viveu grande parte da vida deslocando-se, transitando por diferentes lugares, ora como turista, ‘etnóloga’, ora como estrangeira radicada no Brasil, sem nunca encontrar um porto onde se atracar definitivamente. Mesmo quando voltou para os Estados Unidos, já com quase sessenta anos, a poeta não voltou para casa, mas para outro pouso, mais um ponto provisório dentro de uma trajetória, sem início e sem fim. Sua obra conserva marcas desse deslocamento crônico, representando evasões psicológicas e físicas de lugares insatisfatórios para fragmentos do espaço nos quais são projetadas esperanças de felicidade, num fenômeno caracterizado por dois polos. Por um lado, a mente se lança em um processo de prospecção de um lugar no qual os problemas e as dificuldades não existem, um lugar de pertencimento afetivo, por outro, o corpo se coloca em um movimento espacial recorrente, uma busca incessante pelo Elsewhere, nome da segunda seção de seu livro Questões de Viagem ou, em outros termos, pelo somewhere da canção Over the rainbow de Harold Arlen e E. Y. Harburg, escrita para o filme O Mágico de Oz, e eternizada por Judy Garland. Marcas de sua identidade, construída no trânsito, são reveladas através de seu mito pessoal (MCADAMS, 1993), uma estória de si, que liga experiências do passado ao presente e às expectativas em relação ao futuro em um constructo narrativo, desenvolvido ao longo da vida, modelando sua individualidade ao mesmo tempo em que determina o mundo por ela ocupado.

 

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* Trecho das páginas iniciais de O não-lugar em Elizabeth Bishop. Tiago Silva. Aracaju: IFS, 2019.

** Tiago Silva é Doutor em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, e professor de língua inglesa do Instituto Federal de Sergipe, Campus Estância. Este é seu primeiro livro, fruto de seu trabalho de doutoramento, desenvolvido entre 2014 e 2018, sob orientação do Professor Roland Walter e coorientação do Professor David Jarraway.

Índex* – Novembro, 2019

Mas estou aqui

Sob os braços

Da árvore

Frondosa

Que é a vida

 

Ela não me pergunta

Se estou certa

Se estou errada

Apenas

Banha-me com os

Acontecimentos

E deles

Retiro

Alimento

 

Para compor

Alguns versos

Escrever umas

Páginas

E respirar

Feliz

(“Porque a vida me chamou”, Patricia Gonçalves Tenório, 26/10/2019, 19h19)

 

A vida chamando para um novo ciclo no Índex de Novembro, 2019 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Lembrete | Lançamentos Cinco Livros – Recife e Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos (PE, PB e RS – Brasil).

Apresentação de Patricia Tenório para o Destaque literário de novembro da Cultura Nordestina, por Elba Lins (PE/PB – Brasil).

Imagens em Transformação | Organização: Ricardo Timm de Souza, Evandro Pontel e Isis Hochmann de Freitas (RS – Brasil).

The Immense Hour | Iacyr Anderson Freitas (MG – Brasil).

E a entrevista com Sandra Bittencourt (Brasil) para o Programa Revista Eletrônica da CBN:

https://www.cbnrecife.com/revistaeletronica/artigo/entrevista-patricia-goncalves-tenorio

Excepcionalmente postamos mais cedo em Novembro, 2019. Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 29 de Dezembro de 2019, abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* November, 2019

But I’m here

Under the arms

From the tree

Leafy

That is life

 

She doesn’t ask me

If I’m right

If I’m wrong

Only

Bathe me with the

Events

And with them

I retreat

Food

 

To compose

Some verses

Write some

Pages

And breathe

Happy

(“Because life called me”, Patricia Gonçalves Tenório, 10/26/2019, 7:19 pm)

 

Life calling for a new cycle in the November 2019 Index of Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Reminder | Launches of Five Books – Recife and Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) and Miscellaneous (PE, PB and RS – Brasil).

Presentation of Patricia Tenório for the November Literary Highlight of the Northeastern Culture, by Elba Lins (PE/PB – Brasil).

Transforming Images | Organization: Ricardo Timm de Souza, Evandro Pontel and Isis Hochmann de Freitas (RS – Brasil).

The immense hour | Iacyr Anderson Freitas (MG – Brasil).

And the interview with Sandra Bittencourt (Brasil) for the CBN Electronic Magazine Program:

https://www.cbnrecife.com/revistaeletronica/artigo/entrevista-patricia-goncalves-tenorio

Exceptionally we posted earlier in November 2019. Thank you for your attention and affection, the next post will be on December 29, 2019, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Árvores da minha vida: Bruno, Maria Eduarda e Vítor (Av. Beira Rio e Jardim do Baobá, Recife – PE, 2017), e ipê da PUCRS (Porto Alegre – RS, 2017). Trees of my life: Bruno, Maria Eduarda and Vítor (Beira Rio Avenue and Baobá Garden, Recife – PE, 2017), and PUCRS ipê (Porto Alegre – RS, 2017).

Lembrete | Lançamentos Cinco Livros – Recife e Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório

Estão chegando os dias. Dia de aniversário. Dias de lançamentos.

E nada melhor do que agradecer a esses maravilhosos amigos que me ajudaram imensamente a tornar esse sonho realidade….

Com vocês, do Recife, Bernadete Bruto, Dinaldo Lessa, Elba Lins, Hugo César, Jaíne Cintra, Raldianny Pereira, Taciana Valença, Vera Nóbrega; de Porto Alegre, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Irka Barrios, Simone Vasconcellos, Taiane Maria Bonita e Tales Melati.

Da esquerda para a direita, as queridíssimas Taciana Valença, Vera Nóbrega, Bernadete Bruto, Elba Lins e Raldianny Pereira convidam para o lançamento dos Cinco Livros na Livraria Cultura do RioMar, em Recife, no 21/11/2019, a partir das 18h30.

O queridíssimo Hugo César, da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS, a convite de Bernadete Bruto, lê um poema de Grãos, que estará em 7 por 11, um dos Cinco Livros a serem lançados em Recife e em Porto Alegre.

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Da esquerda para a direita, os queridíssimos Irka Barrios, Taiane Maria Bonita, Tales Melati, Gisela Rodriguez,  Simone Vasconcellos e Fred Linardi ensaiando a leitura dramatizada do lançamento dos Cinco Livros na Livraria Bamboletras da Nova Olaria, em Porto Alegre, no 25/11/2019, a partir das 18h30.

 

O vídeo dos Cinco Livros que a tão queridíssima designer e amiga Jaíne Cintra está concorrendo no Brasil Design Award 2019, cujo resultado sai… no 21/11/2019!

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E o convite para esses lançamentos feitos com muito carinho, e que ficarei imensamente feliz com a presença de vocês!

 

Abraços do tamanho dos nossos sonhos,

 

Patricia Gonçalves Tenório