Índex* – Novembro, 2016

Arabella cruzou o caminho mais estreito e nem percebeu o buraco da fechadura, a porta que atravessou, do passado para o futuro.

Ela se encantou com o belo dos olhos dele, que transpareciam a juventude cintilante de um menino azul.

Ele lhe ofereceu uma flor, era um simples girassol, que ao seu redor girou e girou, e desembocou nos lábios do primeiro beijo de amor-próprio de Arabella.

(“A estória de uma defesa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 17/09/15, 16h30)

Estórias de Amor Perfeito no Índex de Novembro, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

A Maestrina | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE, Brasil).

(des)carnaval(ha) | Patricia (Gonçalves) Tenório.

“Bífida e outros poemas” | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS, Brasil).

“Inferno Provisório” | Luiz Ruffato (MG/SP, Brasil).

Poeta de Meia-Tigela (CE, Brasil), Carlos Nóbrega (CE, Brasil) & “Pixo”.

Poema de Maria Rizolete (RN, Brasil).

Poema de Cristina Campeanu (Romênia).

“Estação das clínicas” | Iacyr Anderson Freitas (MG, Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 27/11/16 | Com Bernadete Bruto (PE, Brasil) & Elba Lins (PB/PE, Brasil). 

Agradeço a participação de todos, a próxima postagem será em 25 de Dezembro, 2016, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

____________________________________________

Index* – November, 2016

Arabella crossed the narrow path and did not even notice the keyhole, the door she had passed, from past to future.

She was enchanted by the beauty of his eyes, which showed the shimmering youth of a blue boy.

He offered her a flower, it was a simple sunflower, which swirled around her and turned to the lips of the first kiss of self-love of Arabella.

(“The Story of a Defense”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 09/17/15, 4:30 p.m.)

 

Perfect Love Stories in the Index of November, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

The Maestrina | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE, Brasil).

(des)carnival(ha) | Patricia (Gonçalves) Tenório.

“Bifida and other poems” | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS, Brasil).

“Provisional Hell” | Luiz Ruffato (MG/SP, Brasil).

Poeta de Meia-Tigela (CE, Brasil), Carlos Nóbrega (CE, Brasil) & “Pixo”.

Poem by Maria Rizolete (RN, Brasil).

Poem by Cristina Campeanu (Romania).

“Clinic season” | Iacyr Anderson Freitas (MG, Brasil).

Study Group on Creative Writing – 11/27/16 | With Bernadete Bruto (PE, Brasil) & Elba Lins (PB/PE, Brasil).

Thanks for the participation of all, the next post will be on December 25, 2016, big hug and see you then,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

____________________________________________

3423

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A porta estreita no bairro da Liberdade, em São Paulo, Brasil. The narrow door in the Liberdade neighborhood, in São Paulo, Brasil.

A Maestrina* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

16/11/16, 14h40

 

Alex acordou cansado.

Do fundo da cama, no fundo do quarto de pensão, ele acordou cansado.

Pensou que havia sido a viagem de tantas horas de Bento Gonçalves a Porto Alegre, de Porto Alegre a São Paulo. Ou talvez fosse o medo do espetáculo que apresentaria naquela manhã no Theatro Municipal.

Bento Gonçalves já foi conhecida como Cruzadinha e Colônia Dona Isabel. Habitada por índios caigangues nos tempos imemoriais, abriu espaço, no final do século XIX, para a imigração européia, na maioria composta por italianos, assim como por alemães, franceses, espanhóis e polacos.

Em Porto Alegre, Alex percorreu as ruas à pé para sentir no corpo, absorver no corpo o espírito da cidade: a Praça da Matriz com a catedral e o Theatro São Pedro; o Parque Farroupilha – ou também chamado Redenção –, no qual as árvores foram arrancadas no vendaval de 29 de janeiro do mesmo ano; o Parque Moinhos de Vento, ou o Parcão. Comeu uma picanha gaúcha, que de gaúcha só tem o nome que os turistas trazem em suas bagagens e câmeras fotográficas de celular.

Ou quem sabe o cansaço fora em São Paulo, na visita ao Museu da Imagem e do Som, o MIS, com a exposição “Olhares sobre o México” de Frida Kahlo; do lado de fora do MuBE, o Museu Brasileiro de Esculturas, observou e aspirou o aroma de um ipê roxo em flor; na Fundação Ema Klabin com a feira das cidades refugiadas degustou os pratos típicos; no Parque Ibirapuera lembrou distâncias dos pampas da sua terra natal e conseguiu subir numa árvore frondosa e descansar; na Avenida Paulista em dia de feriado escutou a voz de um homem sem braços e pernas cantando The Power of Love; até chegar a segunda-feira e Alex pousar no palco do Theatro Municipal para o primeiro ensaio com a Maestrina.

Ouvira falar da Maestrina durante a seleção para a orquestra experimental. Na época, Alex usava um rabinho de cavalo e óculos de grau bem grossos por causa da miopia.

– Corte os cabelos.

– Use lentes de contato.

Os colegas do conservatório aconselharam e ele prontamente obedeceu.

– Ela é jovem.

– Ela é durona.

Ela é uma deusa do espaço, Alex assim previu, Alex isso sentiu quando a enxergou no meio do palco – os cabelos loiros trançados, o terno azul marinho e os sapatos de salto alto.

O Theatro Municipal de São Paulo foi inaugurado em 1911, construído pelo arquiteto Ramos de Azevedo e inspirado na Ópera de Paris. Foi marco inicial do Modernismo no Brasil por ter abrigado a Semana de Arte Moderna em 1922.

No início do espetáculo, Alex não conseguia tirar os olhos de Isabela – o nome da Maestrina. Ele tocava o violoncelo. Ela ministrava a batuta. E quando trocaram o olhar pela primeira vez, os outros instrumentos, os demais músicos, desapareceram todos para Alex.

Ele pensa que é somente de sua parte – aquela paixão platônica. Mas até Platão possuiu as suas deusas. Então Alex, balançando a cabeça de cabelos cortados, lentes de contato e a gravata fina do terno preto, começa a tocar tudo de si, a dar tudo de si para a sua deusa grega, para a sua Maestrina Isabela, que o conduz por caminhos nunca antes navegados da Aurora Australis de Alexandre Travassos.

 

___________________________________________

* Aos caríssimos professores e colegas do PPGL da PUCRS: infinita gratidão por alargar as minhas fronteiras em 2016…

** Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dez livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013), Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(des)carnaval(ha) | Patricia (Gonçalves) Tenório*

09/03/2011

Acordou bem cedo para dar tempo de filmar o sol nascendo. Pegou a câmera, carteira de motorista e uns trocados…

– Para dar ao ladrão.

Alisou os cabelos da filha dormindo. Os cabelos longos de Ana Clara. Os cabelos longos de Ana Clara dormindo.

No carro, tentou filmar e dirigir ao mesmo tempo, feito quando brigou com Ana Clara; saiu, no meio da chuva para filmar seu primeiro curta, distinguir o sal da terra e as gotas grossas de chuva, de lágrimas?, de raiva, de amor?

Passou pela Ponte Giratória e parou o carro no lugar que desse tempo de ainda filmar o sol nascendo. Correu entre os foliões bêbados de sono, de cachaça, de quatro dias de carnaval, de brigas com o pai da única filha porque o vira dando um beijo no pescoço da colega de trabalho, ali, no Marco Zero das Américas, no Bairro do Recife, há dez anos.

Pudera voltar o tempo e retirar da câmera dos olhos aquela imagem, aquela certeza de que o amor acaba, acaba o carnaval, a gente cresce, não ouve mais mãe, não ouve pai, volta para casa às duas da manhã aos dezesseis anos, aos dezesseis anos voltamos a ser, eu e o pai de Ana Clara, estudávamos na mesma sala do Colégio Salesiano, queríamos ser fotógrafos, ele e eu, para sair gravando todos os instantes especiais de nossas vidas na câmara Kodak amarelinha que meu avô me deu de presente.

Os garis varriam o lixo cintilante do sol que nascera e não consegui filmar. A cadência das vassouras, pareciam inventar uma nova dança, um frevo silencioso que somente eu e minha mente fértil poderia escutar no início daquela quarta-feira de cinzas. Pensei em vir mais cedo, no domingo, na segunda, mas para quê perder a magia de desconstruir o carnaval, deixá-lo como na Idade Média, quando faziam banquetes de carne antes do jejum e abstinência da quaresma, disse-me o padre na missa. Disse a mim e a uns poucos fiéis que resistiram às ladeiras de Olinda, ao Bairro de São José, aos Papa-angus de Bezerros, aos Maracatus, Vassourinhas, Bloco da Saudade, Homem da Meia Noite e a mulher do dia em que Ana Clara, suja de placenta ainda, quente com meu sangue ainda, encostou em mim e meus lábios beijaram a cabecinha peluda da cor dos cabelos do pai.

Entro só na Rua do Bom Jesus. A câmera me protege do passado e abre espaço ao presente que me vem colorido e o que era silêncio ao meu redor, veio de longe, longe, a troça, os últimos foliões, corpos suados, fantasias molhadas de suor e cerveja, cantando a mim e às minhas lembranças que a vida continua no próximo carnaval, novos amores, novas cantigas e uma certeza de que não seremos mais os mesmos com os nossos pais.

 

______________________________________

Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dez livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013), Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

“Bífida e outros poemas”* | Alexandra Lopes da Cunha**

Amanhã

 

Amanhã é possível, penso,

e fecho-me para o dia de hoje,

morto pelo contar das horas.

Não serei sua viúva,

nem chorarei seu passamento.

Um dia que se foi, apenas…

Verei outros dias,

parece-me.

 

Amanhã será, digo e repito,

o alento ao desalento rotineiro.

Adormeço, por fim, exausta.

As palavras, entre os lábios,

dormem também…

 

Deixo-me levar pelas horas,

no intervalo entre dia e noite,

vida e morte,

inexistir e sobreviver,

sonhar e perseverar.

 

Amanhã, apenas amanhã,

Saberei alguma coisa.

Ou saberei coisa alguma,

mas isso será quando o amanhã chegar.

Enquanto isso, coube-me dormir.

 

Bífida

 

Dividida de nascença,

bipartida na origem,

o meu centro, um vazio,

vazo fértil, expectante,

pulsante

hospedeiro de breves sementes.

 

Mulheres são sempre casas:

Abrigam em suas fendas,

envolvem em seus abraços,

saciam sedes e fomes,

de seres unos, indivisíveis,

carentes de seiva e açúcar,

famintos ao nascimento.

 

Bífida, meu corpo uma falta,

ausência ávida,

convite permanente

à invasão firme e potente

de investidas bruscas e doces

de final certo e já sabido:

Explodir em gozos,

alegria em gritos.

 

Enquanto escrevo

 

Enquanto escrevo, permaneço.

Mesmo que tudo o mais desapareça,

eu mesma a esmaecer, envelhecer,

enquanto escrevo,

finco o pé na vida,

gravo em tinta escura o presumido sangue

da minha humanidade.

Arranho a superfície do papel

com os garranchos inábeis de minha mão direita,

algo torpo, presa aos limites

da matéria de que é feita.

Nas palavras riscadas, revolvo, sádica,

as dores de enjeitada, de filha bastarda,

todos nós, filhos de pai desconhecido,

de um deus inexistente,

ou monstruosamente indiferente.

Escrevo a carta ao pai que nunca a lerá,

destilo em versos a minha dor, a tua, a nossa,

as crianças abandonadas, as mulheres mutiladas,

os filhos mortos em guerras, colhidos em campos de batalha,

arrancados do solo pela explosão de obuses obesos.

Enquanto escrevo, permaneço.

Finco os pés na vida e brado,

bato no peito e brado,

o grito surdo do poeta insano,

o grito inútil como tudo o mais em nossa vida.

 

___________________________________

* Bífida e outros poemas. Alexandra Lopes da Cunha. Fotografia: Raul Krebs. São Paulo: Kazuá, 2016.

** Contatosalexcunham@gmail.com e http://cindereladescaida.blogspot.com.br/

“Inferno Provisório” | Luiz Ruffato

From: luizruffato@uol.com.br [mailto:luizruffato@uol.com.br]
Sent: domingo, 13 de novembro de 2016 10:16
To: undisclosed-recipients:
Subject: Inferno provisório

 

A Cia das Letras acaba de lançar uma nova edição do Inferno Provisório – revista, reescrita, reorganizada e em um único volume.
O livro está disponível nas livrarias físicas e virtuais.
Conheça aqui a capa e a sinopse:

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=87034

Abraço e tudo de bom.

Luiz Ruffato

Toda quarta-feira, coluna na edição Brasil do jornal El País:
http://brasil.elpais.com/autor/luiz_fernando_ruffato_de_souza/a/

Poeta de Meia-Tigela, Carlos Nóbrega & “Pixo”

From: poeta de meia tigela [mailto:poetademeiatigela@yahoo.com.br]
Sent: segunda-feira, 14 de novembro de 2016 12:45
To: O. Poeta de Meia-Tigela <opoetademeiatigela@gmail.com>
Subject: Carlos Nóbrega: Pixo

Amigas, amigos

Confiram Carlos Nóbrega recitando “Pixo”, derradeiro poema do acidade, nosso livro-parceria

Abraços de dmt

 

___________________________________

 

Digamos que um dia

Eu queira e me cale

Tudo que eu não fale

Será Poesia

O Poeta de Meia-Tigela

Poema de Maria Rizolete

From: Maria Rizolete Fernandes [mailto:fmariarizolete@yahoo.com.br]
Sent: sábado, 19 de novembro de 2016 18:01
To:
Subject: Enc: Fwd: Enlace para descargar libremente la antología NO RESIGNACIÓN

Amigos,

Compartilho a inclusão do meu poema Coro Feminil na antologia No Resignation, publicada pelo Ayuntamento (Prefeitura) de Salamanca e reunindo poetas de todo o mundo. Convido-os a conferir, às páginas 87/88.

Abraços,

Rizolete

 

Em Sábado, 19 de Novembro de 2016 16:23, Maria Rizolete Fernandes <marrizolete@gmail.com> escreveu:

———- Forwarded message ———-
From: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Date: 2016-11-18 3:44 GMT-03:00
Subject: Enlace para descargar libremente la antología NO RESIGNACIÓN
To: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Queridas(os) poetas y amigas(os):

Aquí les copio el enlace para descargar la Antología NO RESIGNACIÓN, que pueden compartir ‘Urbi et orbi’.

 

http://www.crearensalamanca. com/wp-content/uploads/2016/ 11/no-resignacion-antologia- de-salamanca-interior.pdf

 

Les reitero mis gratitudes mis gratitudes.

Un abrazo, siempre fraterno,

Alfredo

 

 

 

Poema de Cristina Campeanu

Delante el Tribunal de jurados

Y heme aquí recto, delante el Tribunal de jurados:
„Díganos la verdad, me dicen frunciendo el ceño,
¿por qué pisó sobre la hierba?, ¿por qué miró la
alba en llamas?
¿por qué se nutrió con las estrellas y con el cielo?
¿por qué se creyó infinito?, ¿cómo se atrevió?…”
„Condenamos usted a la más dura pena:
De vivir una vez más todo lo que ya vivió”.

FELIZ CUMPLEANOS!

(21/11/2016)

“Estação das clínicas”* | Iacyr Anderson Freitas**

Chave

 

vê como o próprio dia

é despedida

 

como se esgota o parto

de cada segundo

como é cruel

a agonia das cigarras      o tiritar da noite

nas cisternas

os séculos de sementeiras

que ficaram por crescer

 

vê como a vida ferve no lodo

como o mangue ferve

nos esgotos

 

como a própria gênese se faz

entre panos podres

virações vazadas

de inservíveis auroras

 

como é suja

a vida

 

e como em tudo maruja

a penhora

da tua

 

partida

 

Na exata medida

 

quase tudo

pode ser adiado

 

menos a vida

 

ou a morte

(contudo

posta ao largo)

 

é triste saber

que você vai sofrer

 

na exata medida

do inesperado

 

Dizer sim

 

outro domingo se abre

 

para estar em breve

de partida

 

outro domingo

 

e o desafio

de dizer

sim

 

à vida

 

_________________________________

Estação das clínicas. Iacyr Anderson Freitas. São Paulo: Escrituras Editora, 2016.

** Contatoiacyrand@gmail.com

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 27/11/16 | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

Da experiência criadora

Patricia (Gonçalves) Tenório

01/11/2016

 

A doutora em Linguística e Estudos em Línguas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Cecília Almeida Salles, analisa em Gesto inacabado: processo de criação artística,[1] a questão da experiência na produção da obra de arte e os limites impostos pelos próprios artistas a si mesmos para a potencialização da sua poiesis.

Cecília é a favor da perspectiva do trabalho, do processo contínuo, da pesquisa, o que podemos encontrar em vários artistas elencados em Gesto inacabado e que relacionarei com alguns livros estudados por escritores em busca de uma Escrita Criativa, em especial, na Pós-Graduação de mesmo nome da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre – a PUCRS.

Antes de tudo, explico a necessidade extrema de escrever sobre o assunto – a experiência –, e relacionar com os livros elencados. Desde que comecei a escrever, procurei me impor limites a serem ultrapassados, na tentativa de elevar a qualidade da minha escrita: Oficinas Literárias no Brasil (Recife e Porto Alegre – PUCRS), e exterior (Sorbonne – Atelier d’Ecriture), Filmmaking na New York Film Accademy, em Nova York, EUA, Residência de Artistas em Val-David, Canadá, Mestrado em Teoria da Literatura na Universidade Federal de Pernambuco, Aluna Especial e participante da seleção para Doutorado/2017 em Escrita Criativa da PUCRS.

Ao invés de fins, todos esses limites e deslocamentos que impus aos meus corpo e alma trazem à tona aspectos da minha subjetividade que nunca transpareceriam sem a provocação da experiência, e com isso, a escritora que descobri em mim desde 2004 nunca alargaria as suas fronteiras, de maneira lenta, construindo passo a passo, letra a letra, o caminho da melhor escrita possível. E para esse espaço do Grupo de Estudos em Escrita Criativa, o exercício de Novembro, 2016 – feito vocês verão mais abaixo – tem a ver tanto com a experiência quanto com o movimento que ela desperta.

Voltando ao Gesto inacabado, descobrimos que o poeta e diplomata brasileiro João Cabral de Melo Neto no ensaio “A psicologia da composição”, acredita que a seleção de acontecimentos da realidade é a verdadeira originalidade do artista, uma seleção que é composição, que é 5% de inspiração e 95% de trabalho, feito concorda em Iniciação à estética[2] o poeta, escritor, dramaturgo brasileiro Ariano Suassuna, quando afirma que não basta a Forma (ou intuição criadora), mas é preciso a Técnica (ou estudo contínuo) e o Ofício (ou trabalho diário) para transformar em obra de arte e não mero artesanato aquilo que temos em nossas mãos.

“A arte é filha da liberdade”, já dizia o poeta e filósofo alemão Friedrich Schiller. Mas Cecília alerta que a liberdade absoluta é desvinculada à intenção, não leva à ação, ou seja, não gera obras.

O poeta e filósofo russo (Vladimir) Maiakóviski em (Cecília) Salles, em (Patricia) Tenório, em… afirma que procura escrever sobre o que viveu; o dramaturgo brasileiro Dias Gomes é levado a escrever compulsivamente pela angústia, pela insatisfação consigo mesmo; a teórica e artista plástica brasileira, nascida na Polônia, Fayga Ostrower, afirma que nos interessamos e buscamos (em termos de arte) por aquilo que já possuímos em nós, mas de maneira potencial.

Esses artistas – e muitos outros elencados por Cecília Almeida Salles em Gesto inacabado – comprovam o que o semiólogo e romancista italiano Umberto Eco insiste no “Pós-escrito a O nome da rosa”: de que devemos impor obstáculos – e que maiores obstáculos senão os acontecimentos da vida? – para potencializar a obra de arte.

O escritor francês, nascido em Paris, André Gide, no Diário dos Moedeiros Falsos[3]Diário que apresenta a construção do seu romance Os moedeiros falsos[4] – insiste para que deveria escrever como se fosse o “último livro”, “verter-se por inteiro”, e com isso (também) potencializar a criação.

Enquanto isso, em O leitor comum,[5] a escritora e editora inglesa, nascida em Londres, analisa Robson Crusoé, e seu autor, o jornalista e escritor conterrâneo Daniel Defoe, que por sua vez transforma seres reais que vivem na violência e na pobreza em personagens dos quais tudo retira – deixa-os na miséria – para provocar o seu empenho e superação.

Outro livro estudado nesse caminho de aperfeiçoamento da Técnica e do Ofício da Escrita Criativa é A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores,[6] do roteirista americano Christopher Vogler. A partir de sete arquétipos do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (HERÓI, MENTOR, ARAUTO, GUARDIÃO DO LIMIAR, CAMALEÃO, SOMBRA E PÍCARO) e doze estágios da Jornada do Herói do pesquisador em mitologia americano Joseph Campbell (1 – MUNDO COMUM, 2 – CHAMADO À AVENTURA, 3 – RECUSA AO CHAMADO, 4 – ENCONTRO COM O MENTOR, 5 – TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR, 6 – TESTES, ALIADOS E INIMIGOS, 7 – APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA, 8 – PROVAÇÃO, 9 – RECOMPENSA (APANHANDO A ESPADA), 10 – CAMINHO DE VOLTA, 11 – RESSURREIÇÃO, 12 – RETORNO COM O ELIXIR), Vogler vai nos apresentando as dificuldades a serem superadas pelo Herói, pelo escritor, ou pelo ser humano de uma maneira geral para conseguir trilhar da melhor maneira possível a maior viagem de todos os tempos: a nossa própria vida.

Quis neste breve estudo, falar um pouco sobre as restrições de limites (ou de liberdade), ou mesmo a proposição de experiências a todo a artista para alargar, alavancar, potencializar a criação. Além dessas experiências “programadas”, intencionais, a vida nos prepara surpresas, tais como apresentei no arquivo abaixo em anexo “A experiência de um(a) artista da fome” quando na minha viagem para a Romênia-Alba Iulia e para a capital tcheca Praha (Praga) e no fotofilme desta postagem de Novembro de 2016, “(des)carnaval(ha)”.

O exercício proposto às escritoras Bernadete Bruto e Elba Lins foi justamente tentar captar em filme – de celular – esse acaso que nos toca, da mesma maneira que o punctum de Roland Barthes, e nos provoca poemas, contos, ensaios poéticos. E vice-versa. Pois a imagem, quer seja em movimento, quer seja estática, nos ronda em busca de um “receptáculo” a preencher, uma “carcaça” que o poeta romântico inglês John Keats em carta a Woodhouse afirma veementemente: “O poeta é a mais impoética das criaturas de Deus”.[7] Ele está sempre se esvaziando e sendo preenchido pela Poesia, está sempre adentrando e preenchendo outras criaturas, o sol, o mar, a lua. Os rouxinóis.

Que venham as experiências do Grupo de Estudos em Escrita Criativa do mês de Novembro de 2016!

__________________________________

(1) SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: FAPESP: Annablume, 1998.

(2) SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado: Carlos Newton Júnior. 5. ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2002.

(3) GIDE, André. Diário dos Moedeiros falsos. Tradução: Mário Laranjeira. São Paulo: Estação Liberdade, (1927 in) 2009.

(4) GIDE, André. Os moedeiros falsos. Tradução: Mário Laranjeira. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.

(5) WOOLF, Virgínia. O leitor comum. Tradução: Luciana Viégas. Rio de Janeiro: Graphia, 2007.

(6) VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores.  Tradução e prefácio: Ana Maria Machado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

(7) KEATS, John. Ode sobre a melancolia e outros poemas. Organização e tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, 2010.

__________________________________

a-experiencia-de-uma-artista-da-fome-patricia-tenorio-270115

__________________________________

 

Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

(Câmera: Bernadete Bruto)

A caminho de sua própria casa

Experiência Com música e filmagem

Acreditou nela… Perdeu-se no caminho! Não sabe mais qual a direção tomar. Para onde vai.  Como ir sozinho? Olha para o trânsito dentro deste carro que lhe conduz ao mesmo caminho de sempre. Cotidianamente. Sem ânimo. Sem anima. Só. Na confusão do trânsito, olhos procurando por ela… em cada carro. A música tocando fala alguma coisa de casa… Me leve para casa! É o que ele gostaria de poder falar, de ouvir… Se pudesse… Já faz tanto tempo… Por que ele ainda persiste nesta canção, porque o lamento? Ahhhh ah ah ah ah ah ah ah! Ainda? Quem mandou confiar nela? Entregar toda sua confiança sem reservas para uma pessoa. Que ingenuidade! Hum, o  ah ah ah da canção é por isso! Raiva! Ele sente raiva de si ainda. Por ter sido bobo. Porque ficou pedindo não me deixe. Me leve para casa! Ai quanta dor havia naquele ser! O tempo parou com o trânsito. Ele agora olha como ainda está congelado. Mudou seu olhar que leva para outra direção. De volta ao passado como esses carros passando contrariamente a sua direção e vontade. Olhos que buscam um sentido. O sentido foi todo ensinado por ela… Palavra por palavra. Verdade por verdade. Ele ficou vazio. Desconectado.

Hoje, neste carro, a mulher de coração leve, retornando de lembranças amargas, olha finalmente para si. Expande seu olhar, sabendo que foi difícil, mas conseguiu! Sente-se livre após a dor e entende que a sua casa é muito mais além do que alguém. Alguém que talvez nem merecesse que o coração de uma mulher fosse capturado por promessas feitas por sua voz masculina tão insinuante. Coitado desse alguém! Um homem que talvez nem soubesse que não poderia ter comando de seu próprio destino.

De volta ao presente, no meio do trânsito, no fim da música, a mulher enxerga para além da confusão diária. Libera seu coração das promessas ecoadas pela voz daquele pobre homem e vê o caminho que as árvores apontam. A simplicidade da vida, da sua própria natureza celestial. Reconhece sua verdadeira casa, o perdoa e sorri.

 

Recife, 1 de novembro de 2016.

 

__________________________________

Elba Lins

elbalins@gmail.com

(Câmera: Débora Quintans)

Que maravilha de Concerto! O Teatro Santa Isabel em festa, lotação esgotada, os músicos impecáveis aguardavam o sinal do maestro para iniciarem a tão esperada apresentação.

E na plateia, estava eu, ansiosa. Duas horas de muita emoção. Na primeira parte do concerto foram apresentados vários números de blues e na segunda parte o jazz nos encantou.

Voltei para casa ainda sob o fascínio da apresentação e resolvi terminar a noite com vinho e boa música. Após ouvir Astor Piazolla, Nina Simone, Diane Krall, eu ouvi John Coltrane. Estava ouvindo “Aisha”, quando lembrei de Sérgio…

Aquela música tinha sons que me remetiam ao disco de vinil acabando de tocar, e rodando infinitamente, enquanto nós, cansados de amar não tínhamos sequer coragem de erguer os braços para desligar o som.

Fiquei escutando a música e me afastando de toda a alegria que fora minha noite até aquele instante. Só chegava até mim o lamento… e mesmo quando quis dançar para tentar extrair algum som que me animasse, que me fizesse voar para além daquele instante, eu nada consegui. Eu dançava apenas minha solidão. Então caí por terra por não conseguir voar.

 

O anjo que tocou para mim

Arranhou minha alma

Queria voar com ele por entre estrelas

Mas a frágil corda dos meus sentimentos

Se rompeu

E eu que viajaria entre estrelas

Acabei caindo na terra fria

 

 

(Réquiem para um amor Saudade ao som de Blues e Jazz)

Elba Lins 06.11.2016.

Escrita para o GEEC, a partir da música AISHA de John Coltrane.

Com base na história e na música foi feito o Vídeo de mesmo nome)