Índex* – Abril, 2017

Perdi

A capacidade de dizer

Bom dia

Senti

A necessidade de dizer

Te amo

Mas as palavras 

Não estavam lá

Não estão aqui

Dentro do meu

Peito

Soltas na minha

Língua

Para saírem

Quando quiserem

Quando puderem

Fazer um mundo

Mais colorido

Trazer o sonho

Para o dia-a-dia

E amanhecer em mim 

Um gosto bom

De infância

(“O fim das lentes cor-de-rosa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 23/04/17, 05h02)

 

A capacidade de transmutar Vida em Poesia no Índex de Abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto circense (e prefigural) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

Un Poema de Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 28 de Maio de 2017, um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – April, 2017

I’ve lost

The ability to say

Good Morning

I felt

The need to say

I love you

But the words

They were not there

They were not here

Inside my

Chest

Loose in my

Tongue

To get out

When they want

When they can

Make a world

More colorful

Bring the dream

To the day by day

And dawn on me

A good taste of

Childhood

(“The end of the pink lenses”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/23/17, 05h02)

 

The ability to transmute Life in Poetry in the Index of April, 2017 in Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Little circus (and prefigural) tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

About “There is no tomorrow”, from Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

About “The Book of Puppies”, from Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

A Poem by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing – April, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the affection and participation, the next post will be on May 28, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Transmutando Vida em Poesia no Jardim do Baobá, em Recife, PE – Brasil. Transmuting Life in Poetry in the Garden of Baobab, in Recife, PE – Brasil.

Pequeno conto circense (e prefigural)* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

12/04/2017 19h40

 

O problema era querer ser equilibrista e viver na mesma época de Kafka.

O problema era caminhar na corda bamba e ser observado o tempo inteiro por aquele sujeito alto, forte, e sorridente lá embaixo – porque ele, Kafka, era tudo isso, e não franzino, pequeno e triste.

O problema era saber-se objeto de contemplação do escritor inquietante de Praga, e perceber cada movimento sendo captado, sendo transformado em conto literário, conto que narra personagens circenses.

Josué assim sente, assim se emoldura. Ele sabe que de um lado a outro da corda bamba será transmutado em Pequena dor.

Pudera. Josué prefigura o que o personagem de Kafka preencherá, e, de repente, o equilibrista prova um gosto amargo na boca.

A mãe leva Josué ao médico. O pai procura a cartomante e ela prevê – que está próxima a queda do filho, o fim do equilibrista do circo Roskhóv.

Josué (Joshua) não aceita o seu destino. Atravessa a Praça da Staré Město, alcança o Relógio Astronômico, vai à Staroměstské Náměstí 22, e procura Franz (Frantisěk) Kafka. O primeiro se apresenta. O segundo convida a entrar. E sentam. E o chá é servido segundo os costumes da época.

A mãe de Kafka estranha aquele rapaz franzino, pequeno e triste que conversa com o filho na sala. Na realidade, o rapaz fala e o filho apenas toma notas numa caderneta de capa dura marrom.

O filho tosse um pouco.

A mãe se preocupa.

E pede ao rapaz franzino, pequeno e triste que volte um outro dia, quem sabe eles conversem uma outra hora sobre o problema que precisam resolver.

Mas ainda não.

Kafka, quando vê a mãe caminhando para a sala, adianta ao personagem:

– Da próxima vez em que atravessar a corda bamba, olhe para baixo como se fosse a última vez.

 

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Escrito a partir de: a-experiencia-de-uma-artista-da-fome-patricia-tenorio-270115

** Patricia Gonçalves Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados e defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no Doutorado em Escrita Criativa.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br      

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 12h49

 

Esta é a terceira vez que narro a paralisia que me invade quando tento ler um livro bom. Aconteceu com O mar, de John Banville. Com os livros do escritor e professor universitário paulista-pernambucano, residente em Aracajú, SE, Fernando de Mendonça (1984), Detalhe em H[1] e 23 de Novembro.[2] Sei que é um livro bom – já fui impactada anteriormente por suas faíscas –, mas insisto em permanecer paralisada, bloqueada, feito em um espelho de cristal.

Feito em um espelho de águas. Narciso paralisa diante de sua própria imagem. Eu cristalizo diante de Não há amanhã,[3] do escritor gaúcho Gustavo Melo Czekester (1976). Paralisei em 2016 com O homem despedaçado,[4] seu primeiro livro de contos, a ponto de nada conseguir falar, nenhuma palavra balbuciar após a leitura impactante.

Após a leitura inquietante que faço hoje do segundo livro de contos (são 30) de Czekster. Começo com “Não morto, apenas dormindo” e sinto a falta de palavras que prefigurei me preencher novamente, assim como aconteceu em “Um mundo de moscas” do primeiro livro.

“Então, eis o que era morrer – ficar o tempo todo sonhando com mortes, uma atrás da outra, sem receber ligações, esquecido. Através da janela, viu moscas infestando o pátio e, ao olhar o seu braço, gritou ao vê-lo se desfazendo em um mosaico raivoso de zumbidos, voltando a si quando bateu com a cabeça na janela, meu Deus, tinha dormido acordado!” (CZEKSTER, 2017, p. 14)

O braço se desfazendo “em um mosaico raivoso de zumbidos”, feito as moscas que criaram os seres humanos – afirmava Anton Lopez para mim em 2016.

“Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa.” (CZEKSTER, 2011, p. 19)

Eis o inquietante que encontramos em Czekster, Mendonça, Banville… Amabile.[5] “O inquietante”[6] de Sigmund Freud (1856-1939) amplamente analisado no texto de mesmo nome de 1919. O unheimilich  que transita entre o familiar e o desconhecido, entre a palavra e o silêncio, entre a vida e a morte. Freud analisa o termo desde a sua etmologia em várias línguas – inclusive na versão brasileira traduzida do inglês da Standart Edition aparece como “O estranho” –, quanto em um texto do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822), mais conhecido por E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia” (1816).

Em “O homem de areia”, Hoffmann narra a história de Natanael, que é assombrado, desde a infância, com a suposta existência de um homem de areia que arranca os olhos das crianças e dá para alimentar seus filhotes, feito fosse uma espécie de abutre, ou coruja. Em “O inquietante”, Freud alerta para o complexo de castração no personagem principal, Natanael, ao mesmo tempo que me faz lembrar de outro texto seu chamado “Os arruinados pelo êxito”,[7] que aparentemente pertence ao mesmo volume (XIV) das obras completas do pai da psicanálise, no qual analisa a histeria a partir do sucesso, e não do fracasso – como normalmente acontece –, investigando as peças teatrais “Macbeth”, de William Shakespeare (1564-1616), e “Rosmersholm”, de Henrik Ibsen (1828-1906).

Podemos encontrar este “inquietante” em textos de Franz Kafka, Thomas Mann, Friedrich Dürrenmatt, mas também dos mais próximos – mais próximos no duplo sentido do tempo e do espaço – Fernando de Mendonça, Luís Roberto Amabile, Alexandra Lopes da Cunha[7]… e também nos contos do escritor e advogado gaúcho Gustavo Melo Czekster.

 

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(1) MENDONÇA, Fernando de. Um Detalhe em H. Recife: Grupo Paés, 2012. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809

(2) MENDONÇA, Fernando de. 23 de Novembro. Recife: Grupo Paés, 2014. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923

(3) CZEKSTER, Gustavo Melo. Não há amanhã. Porto Alegre: Zouk, 2017.

(4) CZEKSTER, Gustavo Melo. O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6683

(5) Vide em outro post do mês de abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7359

(6)  FREUD, S. “O inquietante”, in: Obras completas vol. XIV, São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 328-373, [FREUD, S. “Das UNHEIMLICHE”, in: FREUD, S. Der Moses des Michelangelo, Frankfurt a. M.: Fischer, 1992(1996), p. 135-172].

(7)  FREUD, S. “A história do movimento psicanalítico”. Volume XIV. Comentários e notas: James Strachey. Tradução sob Direção-Geral e Revisão Técnica: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

(8) Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6963

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 10h33

 

Conheci o escritor paulista, nascido em Assis, residente em Porto Alegre, Luís Roberto Amabile (1977), em outubro de 2015. Virtualmente. Pesquisava sobre a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico para escrever um artigo[1] que em mim pulsava, e ele, “virtualmente”, respondia algumas perguntas minhas.[2] Algumas inquietações.

“– Essa discussão nunca fez muito sentido para mim. Nunca consegui entender porque a Escrita Criativa incomoda tanto as pessoas. Parece-me uma visão mística do escritor como um sujeito escolhido, ou ainda uma visão elitista, só os bem nascidos e que tiveram uma ótima formação cultural, sendo estimulados a ler e escrever desde cedo, podem escrever livros.

Quanto a estar ou não na academia, acho natural que alguém que queira escrever se interesse pelo menos um pouco por teoria e que, para mim, o contato com o ambiente acadêmico, a discussão de textos, torna mais palpável a literatura e a escrita, por mais que na hora do fluxo criativo, quando a coisa está fluindo, eu não pense em teóricos.

Mais duas considerações. Primeiro, os cursos de artes plásticas, cinemas, teatro existem há bastante tempo, inclusive com programas de pós-graduação, e os projetos de conclusão são eventualmente obras de artes, hoje em dia não se discute a validade desses cursos. E, segundo, já foi provado nas experiências em vários países que os cursos de EC na universidade dão bons frutos. Então que faça Escrita Criativa quem acredite ser válido e que fique longe quem não ache válido.” (AMABILE, 2013)

O segundo conhecimento foi há alguns meses no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, onde cursamos o Doutorado em Escrita Criativa. Tornamo-nos colegas, muito em parte por causa daquela entrevista que atravessou o tempo, a distância e a impossibilidade que tornou-se realidade graças ao amor à ficção.

O terceiro conhecimento vem agora com O livro dos cachorros,[3] gentilmente presenteado por Amabile, nessa troca lúdica e utópica de livros entre escritores e que tentarei, infelizmente por causa do tempo – escrevo hoje, no voo de uma hora e meia de Porto Alegre para São Paulo, para postar domingo, 30/04/2017 –, passar de maneira breve algumas impressões.

Amabile segue o fio condutor, ou melhor, a coleira-guia de todos os cachorros do mundo. Cachorros que considera (até) bem melhores que os seres humanos.

“Outro trecho: Cachorro. Não sei por que o nome desse ser tão nobre é usado de forma negativa. É um desrespeito. Um disparate. Cachorros são puros e fiéis. São sinceros e encantadores. Os cachorros nos amam, senhor juiz, e podem inclusive nos fazer felizes. Muito.” (AMABILE, 2015, p. 55)

Mas não se enganem. Os 32 contos (entre eles filhotes-mini-contos) amabilianos não contam apenas cachorros e sua incontestável superioridade neste mundo caótico e frio no qual nos encontramos. Eles nos contam dessa inquietude, desse inquietante[4] tão próprio da natureza humana que, nos parece, a Literatura com L Maiúsculo nos propicia aliviar.

“O senhor K. seria um sonhador, mas, como sonhava apenas pesadelos, era mais um pesadelador. Podia fazer, o senhor K., esse uso do idioma, agregando palavras, porque o falava de um modo alternativo, sobretudo incomum. Na verdade, não era o seu idioma, e não o era duplamente. O senhor K. pertencia a um outro país, a um outro povo, e apenas por falta de opção, e por coerção, praticava aquele idioma.” (AMABILE, 2015, p. 31)

O comandante acaba de anunciar que estamos nos preparando para aterrisar em Congonhas, SP. Devo encerrar esta breve análise de um livro que tem muito mais a nos dizer, a nos contar, a nos granir, a nos sonhar.

Deixo, então, os leitores – assim como eu na escritura – com um gostinho de quero mais, e que esse gostinho de quero mais vença e nos leve até o final das mais de 120 páginas desse livro inquietante chamado O livro dos cachorros, de Luís Roberto Amabile.

 

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(1) Vide “A perda da aura nas Fotografias para Imaginar, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico)” em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7095

(2) Vide “Entrevista: escritor de volta à escola?” de Davi Boaventura a Luís Roberto Amabile no Jornal iTEIA em 09/09/2013: http://www.iteia.org.br/jornal/entrevista-escritor-de-volta-a-escola

(3) AMABILE, Luís Roberto. O livro dos cachorros. São Paulo: Patuá, 2015.

(4) Sobre esse “inquietante”, tratamos em “Sobre Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekester, nesta mesma postagem do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório. Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7356

Un Poema de Rizolete Fernandes

From: Maria Rizolete Fernandes [mailto:fmariarizolete@yahoo.com.br]
Sent: quarta-feira, 19 de abril de 2017 09:22
To: Patricia Tenório <patriciatenorio@uol.com.br>
Subject: Enc: Fwd: Apreciadas poetas, por aquí aparece vuestro texto de NO RESIGNACIÓN (Saludos fraternos, Alfredo)

 

Caríssima,

 

No ano que passou, foi publicada na Espanha uma antologia de poemas acerca da violência contra a mulher, contando com dezenas de poetas de todo o mundo. Repercutiu enormemente na imprensa virtual e escrita e o trabalho de divulgação tem prosseguimento. Aqui, inclui-se o meu Coro Feminil, entre o de cinco outras poetisas. Para seu conhecimento.

Um abraço fraterno,

 

Rizolete

 

 

Em Quarta-feira, 19 de Abril de 2017 9:01, Maria Rizolete Fernandes <marrizolete@gmail.com> escreveu:

 

 

———- Forwarded message ———-
From: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Date: 2017-04-18 15:59 GMT-03:00
Subject: Apreciadas poetas, por aquí aparece vuestro texto de NO RESIGNACIÓN (Saludos fraternos, Alfredo)
To: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
http://salamancartvaldia.es/ not/146831/poetas- iberoamericanas-antologia- salamanca/

 

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017

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Um mês e parece um ano… Quanto aconteceu desde o último encontro do Grupo de Estudos em Escrita Criativa… Novas participantes. Novas leituras e inquietações.

Seguimos no rastro da Crítica Genética com a intuição de quando investigamos o nosso próprio processo criativo nos abrimos mais para investigarmos o do outro – assim como o cisco no olho do irmão que “vemos”, ao invés de “enxergarmos” a trave em nossos olhos nublados pela vaidade e prepotência, tão comuns nos escritores, nos artistas de uma maneira geral… Mas, principalmente: para melhor nos conhecer e sermos mais conscientes na nossa escrita.

No mês de abril, nos detivemos no esboço. O esboço que encontramos em O museu imaginário (1965), do escritor francês, nascido em Paris, André Malraux (1901-1976). Descobrimos que, além do Museu Imaginário ser aquele que insere obras desconhecidas em um contexto mais abrangente, o esboço, em certas obras, é infinitamente maior do que as obras ditas finalizadas. Outro teórico que analisa o esboço e que podemos acrescentar às nossas pesquisas chama-se Louis Hay, quando, em “Autobiografia de uma gênese”, investiga a gênese passo a passo de Os moedeiros falsos, do escritor francês, nascido em Paris, André Gide, a partir do seu Diário dos Moedeiros Falsos.

É com esse desafio que as participantes do Grupo de Estudos em Escrita Criativa “por vir” apresentam seus questionamentos sobre o próprio processo criativo, nessa tentativa de conciliação entre a Teoria e a Poesia, a Crítica e a Ficção, a Vida e a Arte, tentativa que acredito ser alimento à Criação.

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

CRÍTICA GENETICA DE TEXTO PRODUZIDO PARA O GRUPO DE ESTUDO DE ESCRITA CRIATIVA

Um texto são palavras imobilizadas no papel pela química da tinta.

O visível é apenas uma linha discreta que sugere o invisível,

o sem nome, o que não pode ser dito.

Estórias são como poemas. Não são para serem entendidas.

 (RUBEM ALVES in Lições de feitiçaria)

Passaremos a analisar, com base na Critica Genética, o primeiro texto que produzi para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa, Jornada Rumo à Poesia da Vida, cujo esboço apresentamos abaixo:

jornada rumo a poesia da vida .cg_1 (1)

jornada rumo a poesia da vida .cg_2

jornada rumo a poesia da vida .cg_3

 

Observa-se que, no primeiro momento, após a ideia surgir em mente, ela foi transcrita para um caderno de anotações. Em primeiro lugar, nota-se o parágrafo inicial escrito com um tipo de caneta, para no seguinte ser escrito com outro  (provavelmente pela facilidade de escrita com caneta de ponta mais fina, a preferência da escritora). O que recordo é que o texto foi escrito num só momento. Nota-se que o titulo foi escrito após o encerramento do texto, pois a cor da caneta revela esta situação e é comum acontecer esta dinâmica no meu processo produtivo. As alterações observadas no texto são seguramente fruto de uma segunda leitura, reorganizadas em um segundo momento, inclusive aquela marcada por um asterisco (também me recordo desta ocorrência).

A elaboração do texto apresentada acima é indicada por Roberto Zular (1).

“Essas interferências entre um sistema e outro, da mesma forma que o diálogo entre texto e pensamento, entre notas de leitura e obra lida, embarcam o pesquisador em uma nova aventura: a estética da criação. Porque, ao comparar dois processos, já não estamos estudando o processo de criação de uma obra literária ou artística determinada. Estamos tentando encontrar matrizes da criação, ou diferenças, procurando entender o funcionamento dos processos criativos como um todo.”

Partindo desta análise, podemos constatar as palavras que foram trocadas, corrigidas, substituídas ou até mesmo suprimidas e podemos entender o processo criativo do escritor, como diz Cecilia Moreira Salles (2):

“O foco de interesse, portanto, é o valor que o artista dá aos diversos momentos da obra em construção, levando a optar por esta ou aquela versão. Ficamos conhecendo, assim, os valores (ou alguns valores) estéticos daquele artista que conduzem a construção de suas obras e não os valores do crítico.”

Ou seja, ela (2) afirma que: “O papel do crítico genético é, portanto, acompanhar o processo criador a partir de uma determinada perspectiva crítica, na busca por explicações sobre o ato criador.”

Afirmação confirmada com o primeiro olhar sobre o texto que analiso, quando me debruço sobre a observação do texto escrito e suas rasuras, fica aqui bem exemplificado quando Cecília (2) diz:

“Além disso, o crítico genético vê que o processo criativo não é feito só de insights inapreensíveis e indiscerníveis, como romanticamente alguns gostam de pensar. Há, sim, esses momentos sensíveis da criação, aos quais não temos acesso; momentos que são fonte de ideias novas, ou seja, momentos de criação. O crítico genético assiste à continuidade, no fluxo do processo criativo, desses instantes iluminados. A pesquisa genética concentra-se na continuidade do pensamento que se vai desenvolvendo em direção à concretização desses momentos de descoberta.”

Visto isso, passamos a analisar o texto digitado, percebendo que já é fruto de uma nova elaboração, decorrente das correções efetuadas da leitura em grupo, e ação da própria digitação que proporciona as correções devidas. Esta é a vantagem de fazer uma análise critica sobre uma obra própria. Poder recordar de algo que influenciou o texto e não se encontra registrado no papel. Talvez por isso, deduzo que num estudo de outro autor, fosse interessante uma entrevista sobre o seu processo criativo, antes de proceder à análise.

No caso em particular desta análise, houve o texto anterior escrito à mão. Muito embora não havendo, também se poderia pelos recursos da informática observar as modificações sofridas no texto digitado conforme bem explica Philippe Willemart (3)… 

“Destaca também o objeto da crítica genética que não é necessariamente o que antecede a obra, mas os processos de criação e, enfim, ressalta o lugar essencial da crítica genética na era do computador, já que o disco rígido mantém todas as mudanças provocadas pelas rasuras ou substituições se tiver o software adequado.”

Com relação ao processo histórico de nosso texto, notamos que foi digitado com data de 28 de julho de 2016, época em que foi produzido manualmente, pois a escritora tem o costume de colocar a data que realizou a produção escrita. O arquivo digital está salvo com a data de 20 de agosto de 2016, data em que foram efetuadas as últimas modificações do texto conforme veremos a seguir, podendo observar que houve um acréscimo de um pensamento antecedendo o texto, pensamento que foi incluído no sentido de enfatizar o dom de contar uma história e também foi modificada a ordem do título do texto ao final, modificação sugerida pela organizadora do grupo de estudos. Eis o texto final:

“O dom essencial da história tem dois aspectos: que no mínimo reste uma  criatura que saiba contar histórias e que, com esse relato, as forças maiores do amor, da misericórdia, da generosidade e da perseverança sejam continuamente invocadas a se fazer presentes no mundo .

(Clarissa Pinkola Estés in O dom da história)

 

“Eram uma vez palavras mal feitas, desordenadas à procura de um significado próprio que lhes concedesse uma estética ideal no profundo vazio da caneta e do papel submetido ao intrínseco inconsciente do Escrevinhador.

Um dia, a mente do Escrevinhador de tanto rodar à cata do ideal, mergulhou no universo íntimo das palavras, pronto para o desafio lançado pelo mundo exterior e, de repente, foram surgindo todo tipo de palavras!

As primeiras vieram manifestando-se no peso do negativismo assim: ”não sei!”, “não vai dar certo!”. Não! Não! Eram palavras que voam daquele universo esbarrando de encontro à mente do Escrevinhador.

Por algum tempo foi dessa maneira, até que timidamente foram surgindo alternadamente as palavras estrelares. Apareciam como luzinhas fracas, contudo de um brilho intenso a piscar e transformar-se em palavras coloridas, brilhantes que foram aumentando sua irradiação, aumentando, aumentando até capturarem aquelas cheias de negativismo no laço da verdade que lhes dizia: “vocês são mera ilusão”! “Por trás tudo é bom, belo e afirmativo!”

A partir daquele vislumbre consciente, como que por encanto, as palavras negativas, Puff! Sumiram! Podendo o Escrevinhador dizer com firmeza: “eu agora digo sim! Sim às palavras boas, criativas”. E foi nessa vibração que as palavras boas, as mesmas que os indígenas chamam Porã Hei, desceram em forma de um cocar multicolorido coroando a imaginação do Escrevinhador.

Daí então ele escreve cheio de energia palavras que brilham no papel. Não sabe ainda que essas palavras se organizam direito para fazer a prosa, no entanto, há algum tempo, vive cheio de alegria porque encontrou um caminho na vida e toda a sua poesia!”

(Jornada rumo à poesia da vida – Bernadete Bruto,- 28/Julho/2016)

Verificamos ainda que o texto foi digitado em uma fonte imitando a letra cursiva, no sentido de dar uma personalidade maior ao texto e aproximá-lo mais do leitor (torno a confirmar esta ideia). Tudo isso é objeto da Crítica Genética.

Da mesma forma poderíamos acrescentar à análise algumas observações da grafologia, no sentido de enriquecê-la. Para ficar menos tendenciosa a minha análise, foi solicitado a outra pessoa que identificasse as informações grafológicas  referenciadas na Internet (4). Assim a pessoa constatou haver uma pressão média na minha escrita, revelando uma pessoa relativamente calma e centrada (naquele momento, observação nossa). Também, ainda por esse motivo, há indicação de que a escritora pode ter uma boa percepção ou memória. Foi identificada uma leve inclinação para a direita no texto escrito, indicando que a escritora está ansiosa para escrever ou escrevendo de maneira rápida e enérgica (concordo com a maneira rápida). E em relação ao espaçamento do texto escrito, no caso, há um bom espaçamento entre as palavras, fator apontado por alguns grafólogos como indicativo de pessoa que demonstra pensamentos mais claros e mais organizados. Essas observações da grafologia podem servir como mais um estudo para contribuir à Crítica Genética, mas esses indicativos devem ser utilizados com muita ponderação, pois como o estudo informa, trata-se de uma indicativo, não uma certeza.

Inclusive, porque há uma tendência de no futuro tudo ser muito mais digital, havendo mais facilidade de investigar as modificações dos textos digitados, assim como destaca Philippe Willemart (3):  

“A primeira etapa de qualquer estudo genético com manuscritos – decifrar, datar, classificar e transcrever de um modo legível os textos – será dispensável. Nem precisará do estudo das filigranas, da análise da tinta e do papel para ajudar na datação das versões.”

No entanto, ainda se faz necessário este estudo para compreender melhor o processo criativo, pois no caso em particular, ainda houve o texto escrito.

Por fim, verifica-se com esta análise que, ao procurarmos seguir o raciocínio sugerido pelos geneticistas das palavras, que é o método de destrinchar o texto escrito e digitado, constatamos que na Critica Genética a real importância é o que diz Almuth Grésillon (4):

“Não é a psicologia do autor nem a biografia da obra que importaria narrar, mas é um antetexto, com o conjunto das marcas conservadas, que se deve estabelecer. A partir de então, o geneticista, assumindo sua própria subjetividade (portanto sem procurar imitar a do escritor), construirá hipóteses sobre a trajetória escritural do processo em questão.”

O que posso afirmar ao final desta análise, é que foi extremamente interessante observar na prática o que a teoria indicava. Comprovar na prática muitas das observações da Crítica Genética, o que possibilitou um entendimento muito melhor da parte teórica e um conhecimento do que seja Crítica Genética. Além de possibilitar outro olhar sobre mim, do meu processo criativo. O resto foi puro divertimento! Até as três frases de Rubem Alves, propositalmente escolhidas e apresentadas na abertura desta análise, brinca com tudo que foi dito. Como agora, ao assinar este texto nesta data, corroborando minhas conjecturas, além de ter arquivo digital como minha testemunha.

Recife, 1º de Abril de 2017.

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  1. Zular, Roberto. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2003000200012
  1. Salles, Cecilia Almeida. Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação artística. 3ª ed. revista. São Paulo: EDUC, 2008.
  1. Philippe Willemart: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2008000100010
  1. Grésillon, Almuth: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141991000100002
  1. http://pt.wikihow.com/Analisar-Caligrafia-(Grafologia)

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

DA LOUCURA –

Análise a partir da Crítica Genética

 

A proposta do GEEC para este mês é elaborar a Crítica Genética de um pequeno texto ou poema.

 

Algumas vezes a gênese de um texto e em especial dos poemas,  acontece na cabeça do escritor e já vai tomando  corpo, antes mesmo que se pegue o lápis ou computador. Eles são construídos, quase que completamente, a partir de uma ideia ou frase que surge não se sabe de onde. Depois que se  passa para o papel ou digita-se no computador, alterações julgadas necessárias vão sendo inseridas no texto original. Outras vezes já se inicia a digitação ou a escrita a partir da primeira fagulha que chega à mente. Rosa Monteiro em A Louca da Casa faz referência ao processo de criação que acontece com todo ser humano e suas lembranças, “É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça”. Sobre a Crítica Genética na construção de seus textos identificamos na pág. 12 “Já redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos (…) na minha cabeça vou deslocando as vírgulas, trocando um verbo por outro, afinando um adjetivo”.

 

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Escolho fazer a Crítica Genética do poema Da Loucura, escrito inicialmente como prosa, a partir da leitura do livro O Amante, de Marguerite Duras.

 Após concluir o texto manuscrito, marquei algumas palavras para escolha e substituição conforme assinalado na revisão 0:

Na parte do texto “…mas sem saber que era o falso Amor…” , fiquei inclinada a substituir mas por e, mas não o fiz e alterei para “…mas sem saber que ele era o falso Amor…”.  Fiz esta mudança para dar ao sujeito (falso Amor) mais personalidade.

Marquei vários verbos (perdia, deixava, suplicava, mendigava, se tornava, deixaram, traziam, duraria e fizesse) para decidir se alteraria o tempo verbal e na maior parte deles optei por uma ideia de término, de passado, de finalização e assim substituí o pretérito imperfeito para pretérito perfeito.

No caso específico dos verbos suplicar, mendigar deixei no pretérito imperfeito dando uma ideia de um calvário, e tornar deixei no pretérito perfeito fechando o resultado das duas ações acima.

As mudanças no texto original (rev. 0) foram feitas diretamente no computador mas incluí a revisão 1 para deixar mais didático as várias alterações que trouxe para a versão final digitada.

A revisão 1 nos mostra como ficou o texto a partir das decisões tomadas acima. Vale ressaltar ainda que :

O texto foi criado inicialmente como prosa mas alterado para poesia (ou prosa poética) para dar melhor ritmo na leitura.

Substituí “A partir daí já não era mais ela” por “A partir daí ela não era mais a Solidãopara caracterizar a situação da personagem antes de se envolver com o Amor.

Retirado do texto “se permitir”, “agora” e feitas mais algumas pequenas alterações para otimizar o poema.

 

“A Solidão encontrou o Amor e sem saber que ele era o falso amor, se deixou seduzir e ser invadida pela Paixão.

A partir daí, ela não era mais a Solidão, era um ser apaixonado, escravizado,

Que por medo de perder o estado de graça, de cair na desgraça, se deixou massacrar,

Se fez dependente, de uma palavra, de um gesto…

Suplicava amor,
Mendigava paixão,
Se tornou loucura.

E onde ficou seu orgulho, que a deixava aqui, ouvindo impropérios

Que não lhe permitia fugir da vergonha, da loucura,

De percorrer ruas vazias em busca do que pensava amor.

Ela agora trazia no corpo e na alma as marcas deste Amor/Desamor.
Que durou dias, meses, anos…
Até que a força do hábito a fez optar

E mudar outra vez o seu nome, para Solidão.”

(“Da Loucura” –
Elba Lins
02.01.2017
Durante a leitura de O Amante, de Marguerite Duras)

 

Índex* – Março, 2017

Foi às portas do

Inferno

E provou

O gosto árduo

De amar e

Não ser amada

*

Mesmo só

No infinito

Purgatório

Experimentou

Gotas de orvalho

Que desciam

Suavemente

Lá do

Céu

*

Avistou São Pedro

E suas chaves

Douradas

E os portões

Dourados

Que se abriam

De par em par

Como se para Beatriz

Fossem

Como se para Beatriz

Abrissem

Um sem fronteiras

De bênçãos

E felicidade

*

Pedro sorriu para Beatriz

Ele que negou

Três vezes

Ele que sofreu

Três vezes

O suplício de negar

A quem muito

Amava

*

Ele estendeu a mão

Ela se encolheu

Ele deu mais um passo

Ela compreendeu

Que o verdadeiro

Amor

É aquele que tudo

Com a consciência de talvez

Nunca

Receber nada em troca

(“Dante ao contrário”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/03/2017, 15h05)

O Amor sem receber nada em troca no Índex de Março, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

A volta de um”A menina do olho verde” | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Alfredo Pérez Alencart (Salamanca – Espanha) | Poemas.

Geórgia Alves (PE – Brasil) | “Reflexo dos Górgias”.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Luís Augusto Cassas (MA – Brasil) | “A Poesia sou Eu”.

Marta Braier (Argentina) | Por Rolando Revagliatti (Argentina).

E os links do mês:

– O lançamento de “Não verás amanhã” (29/03/2017), de e no blog de Gustavo Melo Czekester (RS – Brasil): www.homemdespedacado.wordpress.com

– A fotografia de Tatiana Barroso de Oliveira (“Dona Mariana”) no Singular e Plural: www.singulareplural.wixsite.com

– A tradução e apresentação de Tiago Silva da escritora Namrata Poddar na Revista da UEPB: www.revista.uepb.edu.br/index.php/sociopoetica/article/view/3427/1873

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 30 de Abril, 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – March, 2017

 

She went to the doors of

Hell

And proved

The hard taste

Of loving and

Not being loved

*

Even alone

In the infinite

Purgatory

She tasted

Dew drops

That descended

Gently

There from

Heaven

*

She sighted St Peter

And his golden

Keys

And the golden

Gates

That opened

Wide

As for Beatriz

Were

As for Beatriz

Opened

One without borders

Of blessings

And happiness

*

Peter smiled at Beatriz

He who denied

Three times

He who suffered

Three times

The punishment of denying

Who he much

Loved

*

He held out his hand

She cringed

He took another step

She understood

That the true

Love

It’s the one which

One gives

With the consciousness of maybe

Never

Receive nothing in return

(“Dante to the contrary”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/03/2017, 15:05)

 

The Love without receiving anything in return in the Index of March, 2017 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

The Return of a “The Green Eye Girl” | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Alfredo Pérez Alencart (Salamanca – Spain) | Poems.

Georgia Alves (PE – Brasil) | “Reflection of the Gorgias”.

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Luís Augusto Cassas (MA – Brasil) | “Poetry is Me”.

Marta Braier (Argentina) | By Rolando Revagliatti (Argentina).

And the links of the month:

– The launch of “You will not see tomorrow” (03/29/2017), from and on the blog of Gustavo Melo Czekester (RS – Brasil): https://homemdespedacado.wordpress.com/

– The photo of Tatiana Barroso de Oliveira (“Dona Mariana”) in the Singular and Plural: http://singulareplural.wixsite.com

– The translation and presentation by Tiago Silva of the writer Namrata Poddar in the UEPB Magazine: http://revista.uepb.edu.br/index.php/sociopoetica/article/view/3427/1873

Thanks for the participation and affection, the next post will be on April 30, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Crítica Genética de um Poema. The Genetic Critique of a Poem.

A volta de um”A menina do olho verde” | Patricia (Gonçalves) Tenório

A ALVORADA

(Extraído de A menina do olho verde, Recife: Editora Raio de Sol, 2016)

Os dois se olhavam através da Alvorada. Manoela, no deserto, adivinhava o rosto de Pedro na janela da casa de professora Mariana, de onde ele não saía mais. E Pedro sentia a menina do olho verde com o toque dos raios de Sol em seu rosto envelhecido.

Eles haviam envelhecido, cada qual no próprio Tempo. Mas possuíam ainda um coração de criança, um sentimento de menino e menina da cachoeira. Sabiam-se um ao outro pertencentes, sabiam-se um ao outro congruentes, e venciam aquele abismo de Tempo e Espaço só com a força do pensamento.

O pensamento os salvara de não se sentirem sós. Apesar da distância, apesar do silêncio, sabiam estar entre si conectados, entre si apaixonados, mesmo havendo o Mestre Desconhecido. Manoela não se lembrava mais do encontro com o Mestre Desconhecido. Parecia que havia acontecido com outra pessoa, com uma estranha, que buscava a origem do prazer. Mas o prazer pode assumir tantas formas, e mais se aproxima da plenitude quando se aproxima do Amor.

A menina-mulher resolveu subir o Monte das Respostas Perdidas. Não podia mais adiar. Que houvesse perigos, riscos e informações contraditórias: a todos enfrentaria. É preciso escolher um destino, escolher um caminho a seguir. E então, sem medo, sem qualquer arrependimento, subir o Monte, passo a passo, pé a pé.

Fez para si um sapato confortável para o Monte escalar. Era feito de fibras de algodão colhido no deserto que agora deserto não era mais. Manoela vivia na abundância e a abundância de sentido buscaria. Não mais temor de não ser suficiente, pois suficiente nunca se é. Nos aproximamos do suficiente, roçamos o suficiente, mas a nós alguma coisa sempre faltará.

E é nessa falta que se insere a Criação. É na falta mais intensa, na falta mais sofrida que a Palavra se apresenta como a salvação derradeira. Manoela sabia disso, aprendera isso naqueles dias no deserto, na solidão mais profunda. Aprendeu que veio só e voltará só para detrás da cachoeira. Mas antes de voltar para o lugar de onde veio havia uma missão a cumprir. E essa missão se completa em comunidade, não se completa só.

A subida do Monte era íngreme e lembrava Manoela uma subida anterior. Havia se esquecido de fatos antigos, de histórias que vivera como se houvesse escrito em um outro livro. E esse livro esquecido, o Livro da Vida Anterior da menina do olho verde precisava ser resgatado, para ao Passado entender, ao Presente aplicar, no Futuro encontrar o seu destino.

Na metade da subida parou para descansar um instante. Era dali muito bela aquela vista. O Espaço Imaginário criado por Manoela. E era tão bom criar… Um calor brotou de seu peito ainda jovem, ainda cheio de esperança da Resposta Perdida encontrar. E a encontraria, a menina afirmou no meio daquele Espaço, no meio da subida árdua que havia começado na Alvorada.

 

L’Alba

(Estratto dal’La bambina dagli occhi verdi, Milano: IPOC, 2016, Traduzione: Alfredo Tagliavia)

I due si guardavano attraverso l’Alba. Manoela, nel deserto, indovinava il viso di Pedro in finestra a casa della maestra Mariana, da dove non era più uscito. E Pedro sentiva la bambina dagli occhi verdi attraverso le carezze dei raggi di Sole sul suo viso invecchiato.

Erano invecchiati, ognuno nel proprio Tempo. Ma avevano ancora un cuore da bambini, il sentimento di quel bambino e di quella bambina del ruscello. Sapevano che appartenevano l’uno all’altra, sapevano che erano fatti l’uno per l’altra, e vincevano quell’abisso di Tempo e Spazio solo con la forza del pensiero.

Il pensiero li salvava dal sentirsi soli. Nonostante la distanza, nonostante il silenzio, sapevano stare insieme, innamorati, anche se c’era il Maestro Sconosciuto. Manoela non si ricordava più dell’incontro con il Maestro Sconosciuto. Sembrava fosse successo con un’altra persona, con un estraneo, che cercava l’origine del piacere. Ma il piacere può assumere tante forme diverse, e si avvicina alla pienezza quanto più si avvicina all’amore.

La bambina-donna salì il Monte della Risposta Perduta. Non poteva più rimandare. Ci fossero stati pericoli, rischi, e informazioni contradditorie : avrebbe affrontato tutto. È giusto scegliere un destino, scegliere un cammino da seguire. E dunque, senza paura, senza nessun pentimento, scalare il Monte, passo dopo passo, piede dopo piede.

Preparò per sé scarpe confortevoli per scalare il Monte. Erano fatte di fibra di cotone colto nel deserto che ora deserto non era più. Manoela viveva nell’abbondanza e cercava abbondanza di senso. Non più timore di non essere all’altezza, perché mai lo si è. Ci avviciniamo alla completezza, sfioriamo la completezza, ma qualcosa sempre ci mancherà.

Ed è in questa mancanza che si inserisce la Creazione. È nella mancanza più intensa, nella mancanza più sofferta che la Parola si presenta come la salvezza estrema. Manoela lo sapeva, lo aveva imparato in quei giorni nel deserto, nella solitudine più profonda. Imparò che era venuta dal ruscello e là sarebbe tornata. Ma prima di ritornare aveva una missione da compiere. E questa missione si compie in comunità, non da soli.

La salita al Monte era ripida e a Manoela ricordava una salita precedente. Si era dimenticata di fatti antichi, di storie che aveva vissuto come fossero state scritte in un altro libro. E questo libro dimenticato, il Libro della Vita Precedente della bambina dagli occhi verdi doveva essere riscattato, per capire il Passato, applicarlo al Presente, incontrare il suo destino nel Futuro.

A metà della scalata si fermò per riposare un istante. Da lì la vista era molto bella. Lo Spazio Immaginario creato da Manoela. E era così bello creare… Un calore bruciò il suo petto ancora giovane, ancora pieno di speranza di trovare la Risposta Perduta. E l’avrebbe trovata, la bambina disse in mezzo a quello Spazio, nel mezzo dell’ardua salita che aveva cominciato all’Alba.

 

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(A menina do olho verde na Livraria Cultura do Shopping RioMar – Recife – PE)

* BookTrailer:

* Livro físico: www.livrariacultura.com.br/p/a-menina-do-olho-verde-46286777?id_link=8787&adtype=pla&gclid=CJKZ2MX7mM4CFYUGkQodyYcEWw

* Livro virtual: www.livrariacultura.com.br/busca?N=102281&Ntt=A+menina+do+olho+verde 

Alfredo Pérez Alencart | Poemas

De: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Data: 04/02/2017 16:14
Para: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Assunto: Saludos de A. P. Alencart

 

Queridos/as poetas y amigos/as:

 

Les hago conocer dos selecciones de mis poemas hechas desde la antología  AQUÍ ES EL CIELO /  TU JE NEBO. Se publicaron en las revistas NAGARI y METAFOROLOGÍA, ambas editadas en Estados Unidos y en español. Pronto saldrá una tercera muestra, esta vez en la revista argentina LA POESÍA ALCANZA.

 

Aquí el poema ‘Forastero’ y otros más, ahora que está tan ‘de moda’ cuestionar al extranjero

 

http://www.nagarimagazine.com/forastero-y-otros-poemas-de-una-antologia-croata-alfredo-perez-alencart/

http://metaforologia.com/aqui-es-el-cielo-alfredo-perez-alencart/

 

Saludos siempre fraternos,

 

Alfredo

 

 

Geórgia Alves* |”Reflexo dos Górgias”**

Há um abismo entre eles. O mar e o desfiladeiro. O único acesso se dá pelo caminho de chão batido, haverá um não? Pode ser este significado de geração que os separa? O que há no reflexo dos espelhos que miram? O que impregnou em cada um?

Foi desejo à primeira vista. Ele a quis. Deu o primeiro passo. Estavam no Interior, ele expressou desejo de amá-la, com insistência. Queria tê-la em qualquer lugar, um banheiro que fosse. Na lembrança dela, chegou a teimar mesmo. Porque ela queria, mas não tinha pressa, nem medo de perdê-lo de vista. Conseguiu, ao menos, o beijo.

De volta aos lugares de origem, cercados de confiança e atenção, ficavam. Até que numa noite de lua e festa, entrou nela com intensidade.

Penetrou sua abertura de passagem secreta até tornar-se a representação mais completa do ser humano. Pelo menos para ela. Foram incontáveis encontros conjugados, com algo mais que o verbo. As conversas varavam as madrugadas. Velara ausências em descanso. O cansaço passou a ser medido pelos carinhos fixados. Vênus em virgem. Ele era um bicho atirado e quieto, arvorava-se tímido.

Discreto na expressão dos sentimentos, por outro lado, amante completo. Entrega plena. Como um vinho reservado em tensão de indecifrável enigma. Deixa chama acesa nela. Maior a cada encontro. Brasa viva. Queima língua. Mesmo no vento mudo, inseguro, tende retrair porque teme incomodar. Mantinha no rumo. Durável e duro.

Ao lado dele, Górgia sentia como se não houvesse outro mundo. Nada com que comparar. Como estivesse ao lado da melhor pessoa do universo. Talvez pelo senso de convivência dele.

Aquele homem, anos mais novo que ela, provocava estímulos mais poderosos. Fazia do entorno mais intenso e criativo. Ele a admirava pelos melhores motivos. Górgia seguiu seu desejo e instinto, num impulso de natureza. Preservando a saudade da inocência. Foram indo.

Se os vazios se interpuseram? Sim. Sentiram preenchidos, principalmente na fantasia, e não queriam estar na vida um do outro, exceto naqueles momentos. Górgia tinha Vênus em escorpião. Ele em Virgem. Era o que o céu lhes reservara. Nenhum limite entre paixão e amor. Embora soubesse: São diferentes. Amavam e eram livres. Assim seriam até.

O fato é que: depois de conhecê-lo, ninguém interessava mais. Mesmo que não acreditasse em monogamia ou fidelidade. Homem e mulher doavam-se e, ao redor deles, estavam em sentimentos incompletos. Urgências de corpo. Selaram amizade em encontros marcados.

Isso não seria tudo? Não porque quando ditava a casualidade não desgrudavam. Até o dia seguinte. Depois que ficaram, não seriam mais os mesmos. Ele conquistou vida própria, cama e casa. Ela tinha compromisso e disciplina. Menos liberdade. Passou a fazer somente o que sempre quis.

Fez da vida pé na estrada, a contar histórias em euforia indomada. Para além dos limites da cidade natal, que era a capital. Numa noite torrencial de chuva dura e água corrente frouxa por sobre as calçadas. Ambos torpes o suficiente para não esquecer nada. E deixar solto o espírito. Não havia neles autocrítica, ou retração, ou controle sobre o desejo. Solto, pelo que sentiram.

Impulso que veio durante a tempestade. Ambos fora do eixo. Em vontades de beijos e verdade. Tire suas conclusões pela história que começa agora. É narcótica entrega?

 

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* Geórgia Alves é mãe, mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE, jornalista e cineasta. Contato: georgia.alves1@gmail.com

** Extraído de Reflexo dos Górgias, Geórgia Alves. Recife: Grupo Paés, 2012.