Índex* – Maio, 2019

Acordo

Em meio

À tempestade

Mas não me sinto

 

Uma aluna vem

E agradece –

Outra soa

Um conto

Que se faz

Fazendo

 

E todo

Um sonho antigo

Reverbera no ar

Espanta furacões

Inimigos imaginários

Cabem hoje

Na palma da

Mão

Enquanto escrevo

Um poema

De começo

(“Enquanto”*, Patricia Gonçalves Tenório, 04/05/2019, 13h55)

* Após o IV Encontro sobre o Leste Europeu dos Estudos em Escrita Criativa 2019 – Unicap, com Milan Kundera, Wislawa Szymborska, Geórgia Alves, Arthur Telló.

 

Enquanto os novos começos não vêm no Índex de Maio, 2019 no blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Pigmaleão | Arthur Telló (RS – Brasil).

Poema & foto | Cilene Santos (PE – Brasil).

Conto de Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Estado de Guerra ou John Locke de Saias | Geórgia Alves (PE – Brasil).

Um conto de Osmar Barbalho (PE – Brasil).

Textos de Susana Mello (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2019 | Diversos.

E o link do mês: José Nunes (DF – Brasil) entrevista Patricia Gonçalves Tenório: https://comoeuescrevo.com/patricia-goncalves-tenorio/

Gratidão infinita pela participação, a próxima postagem será em 30 de Junho de 2019, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* May, 2019

 I wake up

In between

The storm

But I do not feel

Lonely

 

A student comes

And thanks –

Another one sounds

A tale

Which is made

Making

 

And all

An old dream

Glisters in the air

Scares hurricanes

Imaginary Enemies

They fit today

In the palm of

Hand

As I write

A poem

Of  beginning

(“While” *, Patricia Gonçalves Tenório, 05/04/2019, 1:55 p.m.)

* After the 4th Conference about Eastern European on Studies in Creative Writing 2019 – Unicap, with Milan Kundera, Wislawa Szymborska, Georgia Alves, Arthur Telló.

 

While the new beginning do not come in the Index of May, 2019 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Pygmalion | Arthur Telló (RS – Brasil).

Poem & Photo | Cilene Santos (PE – Brasil).

Tale of Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

State of War or John Locke on Skirts | Geórgia Alves (PE – Brasil).

A tale by Osmar Barbalho (PE – Brasil).

Texts by Susana Mello (PE – Brasil).

Studies in Creative Writing – May, 2019 | Several.

And the link of the month: José Nunes (DF – Brasil) interviews Patricia Gonçalves Tenório: https://comoeuescrevo.com/patricia-goncalves-tenorio/

Endless gratitude for the participation, the next post will be on June 30, 2019, a very big hug  and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O novo começo sempre nos alcança. The new beginning always reaches us.

Pigmaleão* | Arthur Telló**

 a Amilcar Bettega

 

1 – Uma jovem de cabelos castanhos salta uma poça na rua. Por um segundo, a saia sobe mais do que devia e a coxa torneada anima meus olhos prometendo prazeres indiscretos. O sol vermelho e brilhoso estende suas mãos nas paredes enegrecidas dos prédios antigos. São quatro da tarde e os dedos gordurosos dos raios de sol tocam o rosto da jovem. Ela detém o passo e sorri para um senhor de idade atravessando a rua. Ela não sorri para mim, mas, ao tocar seu rosto, a luz do sol me revela seus olhos verdes, musguentos.

Morena de cabelos castanho-claros, a jovem vive em meio a uma cidade determinada por buzinas, sujeira rançosa, baratas e um desejo de urgência que meus olhos pedem e ela não sabe. Os cabelos cacheados emolduram seu rosto, caem dos seus ombros e, quando molhadas, as madeixas devem ultrapassar os seios para depois lentamente se enroscarem. Ao passar pelos mamilos (rosados? Pequenos?), o contato frio dos cachos arrepia a pele. Eu vejo a jovem, mas ela não vê o rapaz sentado nem a mesa de rua da cafeteria, nem meu rosto sobre a xícara de café. Ela não vê o desejo que brilha nos meus olhos.

Ela sorri para o sol.

Eu sorrio de volta.

Entre nós um ônibus para, ela desaparece e então eu a vejo através da janela.

 

2 – Uma palavra depois da outra: o puro movimento. O lápis na mão, Miguel escreve na caderneta. As palavras iluminam os cabelos cacheados da jovem, eles emolduram seu rosto e caem dos seus ombros. Uma frase depois da outra e Miguel poderá estar junto dela, seus dedos a sentir a maciez da pele morena.

3 – Uma palavra depois da outra: o puro movimento. Uma jovem de cabelos castanhos salta uma poça na rua. Por um segundo, a saia sobe mais do que devia e a coxa torneada provoca meus olhos prometendo prazeres indevidos. O lápis na mão, eu escrevo na caderneta. Sozinha, a palavra não faz nada. Eu disponho palavras no papel. Com força e gravidade, uma palavra chama a outra, elas se provocam e se ligam, criando imagens novas. O sol vermelho e brilhoso estende suas mãos nas paredes enegrecidas dos prédios antigos. Os dedos gordurosos dos raios de sol tocam o rosto da jovem, que sorri para um senhor de idade atravessando a rua. Ela não sorri para mim, mas o toque do sol no seu rosto me revela seus olhos verdes, musguentos. A garota existe em meio a uma cidade determinada por buzinas, sujeira rançosa, baratas e um desejo de urgência que meus olhos pedem e ela não sabe. A partir do movimento da escrita, a coisa vai acontecendo. As palavras iluminam os cabelos cacheados da jovem, eles emolduram seu rosto e caem dos seus ombros. Molhadas, as madeixas ultrapassariam os seios e lentamente se enroscariam. Ao passar pelos mamilos rosados, o contato frio dos cabelos arrepiaria a pele. Eu vejo a jovem, mas ela não vê o rapaz sentado nem a mesa de rua da cafeteria, nem meu rosto sobre a xícara de café e a caderneta. Ela não vê o desejo que brilha nos meus olhos. Uma frase depois da outra e poderemos estar juntos, meus dedos a sentir a maciez da sua pele morena.

Ela sorri para o sol.

Eu sorrio de volta.

Um ônibus para entre nós, ela some e então eu vejo seu rosto através da janela.

 

4 – Dora tem muitas manias. A mania de andar de bicicleta sem capacete, de gostar de milk-shake de pistache e de começar o dia preenchendo a sessão de palavras-cruzadas do jornal. Depois, embora afirme não acreditar e ironize os amigos que se guiam pelos astros, Dora lê o horóscopo de Gêmeos: Evite se envolver com pessoas que só querem se aproveitar de você e da sua inocência. Nada é mais importante que se amar. Em dez minutos, ela vai sair de casa para ir à faculdade de psicologia e se esquecer desses conselhos. No meio da tarde, andando de bicicleta na orla do Guaíba, enquanto recebe uma carícia dos últimos raios de sol e admira as cores roxas e alaranjadas do crepúsculo, os reflexos metálicos das luzes no rio vão distrair Dora, a bicicleta vai chocar-se contra uma pedra, e Dora vai cair no chão e machucar o joelho direito. Quem a ajudará a erguer-se será Miguel, jovem com ambições literárias, que sempre corre nesse horário.

“Oi”, ele vai dizer, ajudando Dora a se levantar. Os dedos dele têm calos e por eles perpassa um arrepio eletrizante ao sentirem a maciez da pele da jovem.

 

5 – Miguel escreve. Ele está apaixonado. Dora é uma jovem alta, arrojada e fogosa. É muito bonita comparada às outras. Os livros nas estantes do escritório são uma pesada mão sobre Miguel e a poeira dos móveis sufoca suas narinas. Mas isso não é nada se comparado à maneira como Dora sufoca o desespero dele.

De pés ligeiros, Dora irrompe a cada instante. Ela salta e os cabelos se agitam como o das Bacantes. É bela de se ver. O toque na pele dela evoca o trabalho, a loucura, a mentira, a doença. A paixão. Jamais a esperança. Dora tem seus próprios planos, suas próprias ideias. Até quando ela estará com Miguel? Beneditino, na solidão do escritório, ele dispõe palavras e cria imagens. As mãos pequenas de Dora, embora macias, destoam do resto do corpo. As maçãs do rosto são salientes e diminuem seus olhos quando ela sorri. Por mais que Miguel a veja, Dora sempre lhe escapa.

 

7 – Não nos víamos há uma semana. Dora se aproximou de mim, a fenda do vestido se abriu e mais uma vez revelou as pernas de coxas firmes. O tornozelo fino era um detalhe tocante sobre o qual se erguia a mulher alta, de 1,73m, de olhos penetrantes como duas agulhas e sobrancelhas castanhas, grossas e bem desenhadas.

“Oi”, ela disse, me encarando.

Seus olhos me deixavam nervoso. Sempre fico nervoso com a promessa de intimidade. Falei besteiras sobre o tempo, o céu azul de poucas nuvens, o frio gostoso que nos obriga a vestir casacos. Evitei falar do sol que iluminava seu rosto e deixava seu sorriso mais branco. Quando gaguejei em meio a uma frase, Dora riu e a mão dela tocou meu ombro. Os dedos transmitiram arrepios por toda minha espinha. Se ela pedisse, naquele momento eu mataria meus pais e incendiaria minha casa.

“Oi?”, ela brincou e seu sorriso de dentes alinhados novamente me oprimiu.

As palavras morreram na minha boca e o calor me subiu o rosto.

Dora abriu os lábios e da sua língua vermelha pendiam fios espessos de saliva. Por que eu estava tão vermelho?, ela perguntou. Eu não aguentei mais: peguei Dora pelo braço e, enquanto a beijava (beijos em que minha cabeça tentava descer pela garganta dela para meu corpo habitá-la desde dentro), o casaco dela se abriu revelando os mamilos pequenos (ela não usava sutiã!, eu pensei, animado). Nossas roupas no chão, as unhas dela grudaram nas minhas costas. Eu urrei e senti o sangue quente escorrer. Com o toque do ar, o sangue esfriou e meus pelos eriçaram. Quando eu me ajoelhei para lamber o sexo molhado e palpitante de Dora, o clitóris desprendeu-se na minha língua e rolou pelo chão fazendo o barulho suave de um tecido que cai. Os grandes lábios derreteram e da cavidade vaginal surgiram pregas feito um ânus. O ânus se contraiu para mim antes de transformar-se em um X negro na pele uniforme, macia e lisa, sem rastro de orifícios. No meu espanto, olhei para Dora, gotículas de suor brilhavam em sua testa. Ela sorria esperando minha língua surpreendê-la.

 

8 – Miguel acordou às duas da manhã com uma discreta ereção. Olhou para Dora, a franja sobre os olhos fechados, achou-a bonita e um pouco infantil dormindo com a boca levemente aberta. Através das persianas, a luz penetrava o quarto do casal, riscando o rosto e o corpo de Dora com listras azuis. Em dois meses o cabelo comprido de Dora se reduzirá a um corte Joãozinho, e o ombro que agora está descoberto exibirá a tatuagem de uma rosa encarnada. Miguel ainda não sabe disso. Não sabe que em dois meses ele será apenas parte do passado de Dora. Uma parte incômoda, que ela deixou para trás.

O corpo de Dora está quente e o hálito dela transmite a Miguel a estranha sensação de acolhimento. Miguel nota a ereção, se aconchega à namorada e começa a massagear os ombros dela impondo uma leve pressão com os dedos. Quando ela se mexe e estica o pescoço, Miguel passa os lábios em torno a ele, a pele sedosa convida a mordida, mas a mão se antecipa e desce em direção às coxas dela. Ela nunca usou calcinha e Miguel volta com a mão para acariciar a nuca de Dora. Ela resmunga, o rosto se contrai. Ela se afasta. Ele insiste: abre a boca, inspira o cheiro de erva-doce dos cabelos e com a ponta do nariz dá fungadas no pescoço dela. Excitado, ele abocanha o lóbulo da orelha. Dora toca o rosto de Miguel enquanto ele chupa o lóbulo quente e, quando ela parece prestes a abrir os olhos, ele já se adianta e desce com a boca em direção ao pescoço. Os dedos chegam ao sexo, descobrem o clitóris, começam a massageá-lo. As coxas dela apertam a mão dele, impossibilitando o toque. Dora ainda está de olhos fechados, ela volta aos poucos do sonho como se saísse de uma angustiante manhã nebulosa que deixa todas as luzes líquidas e difusas. Dora abre os olhos e se depara com um volume escuro de cabelos desalinhados, uma coisa ofegante que lhe dá asco e a assusta. Ela não pensa em Miguel, mas quando ouve a voz dele pedindo calma, Dora começa a chorar.

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* Conto apresentado no IV Encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019, Unicap.

** Arthur Telló é mestre em Escrita Criativa pela PUCRS, onde hoje faz doutorado na mesma área. Atualmente atua como professor de Latim, Grego, Literatura e Escrita Criativa na Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016). Em 2016, ganhou o prêmio Açorianos de Criação Literária Narrativa Longa com o romance “O Tríptico de Elisa”. Contato: arthurtello@gmail.com

 

Poema & foto | Cilene Santos*

VIVER

18/05/2019

 

Ah! Como é bom viver!

E toda esta euforia

Logo cedo irradia

Quando abro os olhos

E vejo o alvorecer

De um novo dia.

Neste instante eu vislumbro

Pedacinhos de uma nuvem

Rosicler

Clareando o céu,

Ainda turvo,

Que lentamente se prepara

E me mostra os seus adornos

Para a grande atração da natureza.

E eu, espectadora, deleito-me

Com a beleza infinda

Deste azul profundo

Que se exibe

E me estonteia

Num segundo.

 

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Fotografia - Cilene Santos

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Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e a vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Conto* de Clauder Arcanjo**

Mulheres fantásticas (XVI)

A Mulher Nuvem

 

 

O dia estava quente. As paredes da casa pareciam suar. Melquíades, inquieto e tenso, mordia os fios do bigode ralo, reunindo coragem para entrar no quarto. Juntando os fiapos de decisão, resolver bater à porta:

— Meu céu?!…

Enxugou a testa, apurou os ouvidos, mas nada de resposta.

Deu mais uma volta na sala, alisou a testa larga e deu pelo céu desprovido de nuvens. Engoliu a seco, prevendo a longa e sofrida noite.

Melquíades aproximou-se, mais uma vez, da porta do quarto de casal, encostou o ouvido direito na folha de madeira, na vã tentativa de flagrar algum comentário da esposa. Silêncio. Como se tudo mergulhado na modorra de fim de tarde.

— Meu cé…

— Pare de me chamar de céu! Para você, hoje, serei…

E um ribombar de respostas relâmpagos, num trovejar seco e inclemente, desabou sobre Melquíades.

Ajoelhou-se ao canto da porta e lá ficou. Oraria, se cresse na força das orações. Fora, contudo, educado pelo padrinho Carlos Dornival, homem materialista, avesso ao credo da Igreja, bem como às crendices do povo.

 

***

 

O dia raiara fresco, o firmamento encoberto de nuvens pejadas de esperança. Nas praças de Licânia, o passaredo pontuava a manhã com um trinado festivo.

Melquíades despertou com as costas em miséria. Dormira no chão, junto ao quarto. Levantou-se, abriu as janelas e deu pelo céu em adereço de chuva.

Alisou o bigode, ajeitou o cabelo, e rumou para o quarto. Altaneiro e decidido. Quando chegou bem próximo, a porta se abriu e Lenilda saiu. O cabelo fresco do banho, a roupa cheirando a alfazema, os olhos de gata manhosa. Ela o abraçou, e soprou-lhe nos ouvidos:

— Por que não vamos…

Não concluiu o convite, ao perceber a falsa birra de Melquíades.

— Você ontem à noite não me disse que você não era o meu céu!? Disse ou não disse? — protestou Melquíades.

Nisso, um vento fresco cruzou a sala, trazendo um cheirinho de chuva.

— Serei sempre o seu céu, seu bestão!

E, enquanto proferia tal resposta, Lenilda foi descobrindo o corpo de Melquíades, retirando sua roupa; ao tempo em que o cobria com o seu frescor de rapariga em festa. Levou-o para o muro, aos fundos da casa. Amaram-se no chão de terra batida, no batismo da chuva. Num coito febril, apesar da manhã banhada pelo frescor outonal.

 

***

 

— Padre Araquento, ajude-me!

— Em que posso servi-lo, filho de Deus?

— Minha companheira vive ao sabor das nuvens. Se céu limpo, nada de nada. Se céu nublado, uma fartura de amor. Diga, seu reverendo, o que é que eu faço?

O padre abençoou Melquíades, não sem antes orientá-lo. Ao final, pediu-lhe a sua conversão: “Todos os caminhos nos levam a Cristo!”.

Hoje, Melquíades, mal surge o verão, muda-se para o seu pequeno sítio no Serrote da Rola. E, quando a invernada se aproxima, desce para a cidade, direto para os braços de Lenilda.

Comentam na pequena província que o padre Araquento, também, obteve a conversão de Lenilda. Isto, após longas e sucessivas visitas do prelado à residência da pobre mulher abandonada.

— O nosso vigário é um homem milagroso! — assacam os pinguços do Mercado, quando a veem passar, sob o céu inclemente de Licânia, para a missa de domingo.

 

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Conto publicado no Jornal O Mossoerense, RN, em 19/05/2019.

** Clauder Arcanjo é escritor, editor, engenheiro e trabalha em uma plataforma cercado pelo mar. Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Estado de Guerra ou John Locke de saias* | Geórgia Alves**

 

Izabel não prestava atenção aos dias. Naquele domingo faria esforço até obter algum resultado. Encarregada de ajudar nas filmagens da família. Não havia roteiro, desenho das cenas e isso lhe encheu de tensão.

Acordou antes das cinco. O carro seguiria às oito e meia. Houvesse compromisso, era comum acontecer com ela: despertava antes do marcador. Tentou e não conseguiu voltar ao sono. As horas arrastadas. Chegado o momento, de ligar a câmera, estava exausta. Por circunstância, teve que ser fotografada com um vestido de noiva e arrastar sua longa cauda. Como se não bastasse.

Ao chegar na locação, viu-o. A infância ensinou a chamá-lo de tio. Estava a duas reuniões de família com aquilo. Há uma semana recebera ligações. O homem com fala dissimulada, foi perguntando se estava em aperto financeiro. Quando Izabel quis saber onde estava a tia, foi rápido:

— Quero ver você.

Ela desligou. Ligou para o pai.

Ele não acreditou, e minimizou a gravidade.

Ela esperou voltar à casa para acusá-lo diante de todos.

Outro tio teve atitude diferente. Advertiu o canalha. Acompanharia a sobrinha na denúncia caso houvesse outro telefonema. O canalha ironizou.

Izabel voltou para casa. Revolveu livros da época da faculdade. Releu tratados da natureza, estado e de governo civil.

Uma Jonh Locke em silêncio.

Em estado de guerra, conseguiu dormir, até o meio dia.

 

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* Conto apresentado no IV Encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019, Unicap.

** Geórgia Alves é jornalista de formação e batente, pesquisadora, revisora de livros com especialização e mestrado em Teoria da Literatura. Tem duas obras publicadas: Reflexo dos Górgias (2012) e Filosofia da Sede (2014), além de participação em quatro coletâneas: Recife de Amores e Sombras (2017); Antologia Cronistas de Pernambuco (2010) e Além da Terra Além do Céu I e II (2015 e 2017, respectivamente). Tem, ainda, dois curtas, um deles premiado: O Triunfo (2007, 10 min) e Grace (2009, 3 min), disponíveis na internet. Contato: georgia.alves1@gmail.com

Um conto de Osmar Barbalho*           

A pregação do Crente Corno     

Moro na Rua do Príncipe, bem perto do centro do Recife. Resolvi pegar o ônibus da linha Bomba do Hemetério. Era de manhã por volta das 8h. Como o ônibus estava cheio me vali da condição de idoso para pedir ao motorista para entrar pela porta traseira. O motorista gentilmente abriu a porta do meio e eu subi ouvindo o fim de uma frase “eu estou a serviço de Jesus, eu sou um soldado do Senhor!”. É muito comum a gente vê uma pregação de um Crente  dentro do ônibus. Me sentei e absorto com os meus pensamentos ouvi: “…Ela me traiu!”. Saí imediatamente dos meus pensamentos e passei a prestar atenção no homem pregador. Ele era baixo, branco, devia ter uns 50 anos, estava de paletó, mas sem gravata. Segurava em uma das mãos um elemento que caracteriza um pregador: uma Bíblia. A medida que ele pregava ele andava pelo corredor do ônibus tentando e forçando a atenção das pessoas. Falava alto e usava os braços e as mãos com a Bíblia para enfatizar o que dizia. Quando ouvi ele dizer : “…Ela me traiu!” não entendi aonde ele queria chegar com esta afirmação. Será que ele estava confessando que era um Corno? Ser Corno no Recife é uma cultura. Os amigos tiram onda uns com os outros se chamando ou chamando o outro de Corno. É muito comum isso. E no Recife em vários bairros tem bares que tem o nome de “Bar dos Cornos”. No Mercado da Madalena tem um desses Bares que na entrada tem um sino com uma placa que diz “Se você é Corno, toque o sino para todos saberem que chegou mais um Corno”. Mas tudo isso é brincadeira, é greia como a gente costuma chamar a nossa irreverência. Mas assumir de público ser Corno é um ato de coragem. Não resta dúvida. O pregador continuava sua fala sem intervalos. Comecei a entender que a pregação dele era sexista. Ele estava ferido. Sim, ele afirmava que tinha sido traído pela companheira. Ele afirmava que ela havia caído nas tentações mundanas. Ele afirmava que ela não tinha Jesus no seu coração. Nos intervalos dessas afirmações ele dizia : “…Ela me traiu!”. Comecei a prestar atenção aos passageiros. Tinha sete mulheres e comigo três homens. Foi aí que entendi que a pregação era para aquelas sete mulheres. Ele pregava que a mulher tem que ser subordinada ao homem. E essa seria a explicação da traição. A companheira dele não ficou subordinada a ele. De repente ele repetiu veementemente três vezes : “…Ela me traiu!”, “…Ela me traiu!”, “…Ela me traiu!”. Em seguida fez a pergunta “Como é que eu me sinto?”. Rapidamente pensei ele deve se sentir Corno, claro. Ele devia estar se sentindo como aqueles Cornos descritos nas inúmeras músicas bregas. Será que antes da companheira, ele nunca tinha tomado um chifre? Muitos dizem que todo Corno é dramático. Olhei para os passageiros e todos olhavam pra baixo ou para os lados com vontade de rir. Eu mesmo queria rir, mas respeitando o pobre do Corno me contive. Na minha frente tinha uma adolescente que estava fazendo um esforço grande olhando para trás para disfarçar o riso. Uma senhora dos seus 60 anos balançava a cabeça acho que incrédula com o que ouvia, o que via. Eu não tirava o olhos dele. Eu estava encantado pela sua coragem de confessar dentro de um ônibus e para desconhecidos que era Corno. Isso era mais do que coragem. Ele como todo bom Corno estava se punindo de público pelos horrores que estava enfrentando. Comecei a pensar curioso. Que tentações mundanas levaram a companheira a traição? Como foi que ele descobriu que era Corno? Foi ela que contou? Foi alguém que contou? Um amigo? O vizinho? Será que ele foi o último a saber? Isso não importa. Na minha frente eu via um Corno com C maiúsculo de Corno. Com a dignidade das suas palavras ele se vingava de alguém que ele amou. Ele não carregava o par de chifres que de início todo bom Corno carrega. Ele demonstrava ter passado por essa fase. A medida que ele falava não se preocupava com o riso das pessoas. Ele queria só passar uma mensagem. Relatar sua experiência. Ele tinha esperanças de comover ou converter uma daquelas sete mulheres. Ele falava com sinceridade.  Na hora de descer do ônibus concluí que Ele… era um Corno conformado.

E… isso não é da conta de ninguém.

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* Osmar Barbalho participou do Curso de Extensão Estudos em Escrita Criativa 2019 na Unicap. Contato: osmarbarbalho@gmail.com

Textos* de Susana Mello**

16/02/19

 

Viajar.

Pisar em chão virgem –

Com sapatos confortáveis,

Pisadas que se somam ao que ali já estava.

 

Conhecer.

Sentar, de novo, numa sala de aula.

Por muitos já usada, já usufruída.

Ouvir o que não sabia,

E o que se soma ao que ali já estava.

 

Escrever.

Enfrentar a mão presa,

O coração inibido,

As ideias por vir.

Palavras por muitos já usadas,

Mas que estão ali, soltas no tabuleiro,

Suplicando novas inspirações.

 

Deixar sair o que não sabia

O que não ousava

O chão ainda não pisado.

 

E com sapatos confortáveis.

De preferência.

 

16/03/19

 

Não precisava sair de Lisboa para conhecer o mundo.

Não precisava pisar outro chão, ver outra gente, beber de outra água.

Era ali que ela vivia. Era aquele o seu mundo.

E de uma forma ingênua, talvez desavisada, sentia que aquilo era tudo, aquilo bastava.

Bastava Bernardo, a quem assistia passar todos os dias, às cinco da tarde, meio escondida

no canto da janela entreaberta.

Bastava Dona Sophia, a quem devia todo o seu contido afeto por ter sido por ela afastada de

um destino por demais precário.

Bastava o pequeno Fernando, o filho magrinho da gorda vizinha, com suas brincadeiras, sua

alegria de criança e seus protestos contra os banhos diários, para ele completamente

desnecessários.

Aquilo bastava. Aquilo era o suficiente para fazê-la acordar, viver, sonhar e dormir novamente.

Não precisava sair de Lisboa.

Lisboa já era muito. Já era um mundo.

 

06/04/19

 

Se enche de coragem e pega o telefone. Ligo ou não ligo?

E se a resposta não for boa? E se não tiver conseguido…?

 

Ao mesmo tempo em que pensa: mas é muita ousadia essa minha…

Eles, os de lá, estudam e convivem com esses que eu ‘só leio’…

Para mim autores, para eles professores…, amigos quem sabe.

 

Eles, os de lá, com aquele sotaque de televisão,

aquela autoconfiança de quem nunca vai ter problema de coluna

por ter aprendido a se curvar sem sentir.

Ela, de cá, tão cheia de cuidados e boas maneiras.

De ‘com licenças’ e ‘desculpem-me’ tão pra além do necessário.

Como assim querer ouvir seu nome numa lista de aprovados?

 

Ligo agora?

Melhor esperar.

Mas esperar o que?

Pelo prazo que eles deram o resultado já saiu.

 

Liga, enfim.

Com seu sotaque, suas dúvidas, sua desconfiança pulsante.

Alguém apressado, com seus ‘esses’ espichados

e frases de pronúncia mais demoradas do que precisaria, responde:

Sim, passou.

Em quarto lugar.

 

‘Décimo quarto?’, ela pergunta,

certa de que nesta classificação não teria a bolsa de estudos que garantiria

o sustento apertado naquela ousada empreitada de estudar no Rio de Janeiro.

 

‘Quarto’, responde a voz impaciente com ares de final da tarde de sexta feira.

 

E a Macabeia que até ali lhe habiatara CRESCE. Ganha corpo e forma.

‘Eu vou’.

 

04/05/19

 

ERA ELA CONTRA ELE. O PAPEL.

O BRANCO DESCANSADO, SEM PRESSA, ALI DESDE SEMPRE.

 

ERA ELA COM ELE. O PAPEL.

A TELA QUE SE EMPRESTAVA ÀS TINTAS,

O CHÃO QUE SE OFERTAVA AOS PASSOS POR ANDAR.

 

ERA ELA APESAR DELE. O PAPEL.

UM CONVITE, UM CHAMADO,

COMO UM AMANTE QUE EXAUSTO, MAS SEDENTO, DIZ ‘VENHA’.

 

ERA ELA E ERA ELE. O PAPEL.

ERAM ELES ALI SE OLHANDO E SE PENSANDO E SE PERDENDO.

INDO E VOLTANDO. FUGINDO E ENCONTRANDO.

UM ENCONTRO ESPERADO, UMA MISTURA DE CORPOS, UMA FUSÃO PROMETIDA.

 

ERAM ELES MISTURADOS.

ELA TÃO GRÁVIDA DE IMAGENS, DE PALAVRAS E SONS E CORES E LUGARES E

PESSOAS E ACONTECIMENTOS E DETALHES…

ELE ALI PRESENTE. PRONTO PARA RECEBER. DISPONÍVEL. CURIOSO. ANSIOSO.

 

EIS QUE NASCE.

NASCE UM TEXTO.

 

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* Textos apresentados nos quatro Encontros dos Estudos em Escrita Criativa 2019, Unicap.

** Susana Mello participou dos EECs 2019, na Unicap. Contato: susanaclmello@gmail.com

Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2019

Os Estudos em Escrita Criativa 2019 na Unicap estão chegando ao fim. Tivemos em maio a alegria de viajar para o Leste Europeu com Milan Kundera (República Tcheca), Wislawa Szymborska (Polônia), e os nossos Geórgia Alves (PE – Brasil) e Arthur Telló (RS – Brasil).

O próximo e último encontro dos EECs 2019 será em 01/06. E viajaremos para mais longe: a Ásia. E Haruki Murakami, Sei Shônagon (os dois do Japão, o primeiro do século XX, a segunda do século X). Bernadete Bruto (PE – Brasil) e Amilcar Bettega (RS – Brasil).

Que venham então os textos maravilhosos produzidos durante o nosso encontro e confiram ainda na postagem de maio, 2019 textos de Arthur Telló, Geórgia Alves, Osmar Barbalho e Susana Mello!

Abraços cheios de sonhos,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

www.patriciatenorio.com.br

 

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Senhora da história

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Observava ao longe, à parte, as tomadas da filmagem. Lá estava ela! Olhos verde-musgo se destacando na noite. Já tivera cabelos castanhos, hoje de um louro-blonde, perfeita combinação com suas feições, a iluminar ainda mais o belo rosto. Em cena, saltara uma poça para quase em seguida passar pelo fatídico bueiro.

Ao longe, percebia o quão distante estávamos! Talvez a ficção encenada, todo aquele aparato para a filmagem nos separando, cintilasse como um aviso. Não seriam aqueles ínfimos passos que me fariam chegar até ela… Logo, sua saia despetalada por entre suas mãos saltaria dos joelhos, abrindo-se como um imenso guarda-sol quebrado, expondo nossos mais secretos e íntimos sentimentos.

Naquele exato momento, muito além dos flashes espocando na minha dianteira, onde encenava-se todo nosso destino cinematograficamente, tive esse breve instante de lucidez,  algo que de vez em quando nos assola, nos desencanta antes mesmo da ocorrência, chega na frente, como o frio na espinha.

Ao ler aquele trecho, instantaneamente reportou-se a uma cena. Reconheceu o dilema pungente daquele que escreveu a história, daquela que a fracionou, quadro a quadro e pude sentir bem perto, a latente aflição das perdas, das calças, das saias, até mesmo de um espectador tão distante no tempo e espaço. E no exato momento que Marilyn pousava para fotos de todas as capas de revistas do mundo, Geórgia enquadrava sentimentos, Arthur divagava expectativas e eu, em tempo,  assenhoreava-me desta história.

 

Camilla Vileicar

Contato: camilla.vileicar@gmail.com

 

– Reparo no silêncio de ausência das vozes humanas dentro da sala. Pode-se ouvir o ar-condicionado e o som de canetas e lápis a encontrar com os papéis. Ruídos de remanchados nas cadeiras, rostos franzidos e olhares vidrados no papel. Os alunos escritores debatem-se consigo mesmos para escrever em 15 min a tarefa lançada com intuito de desbloqueio criativo. Dedos coçam as cabeças. Mais silêncio. De repente uma virada de página impetuosa ecoa, alguém pegou no tranco. E mais outra e depois outra. Seguem a desbloquear  a criatividade. Eu, como mera observadora, observo que passaram os 15 min e me animo para ouvir o que a criatividade dos colegas criara. –

 

De Aroma e Musgo

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

Não sei como surgistes na minha vida. Eu tinha apenas quinze minutos, estava só e pensava no longo tempo que te esperava.

Novamente na minha cabeça surgiu tua imagem, que um dia desenhei no papel, lembrando aquele café forte, aquele aroma marcante, que agora chegava até mim, quem sabe vindo do fundo da sala.

Outra vez eu podia te conjurar e já te via chegando de mansinho, enquanto eu me preparava para dançar para ti as danças árabes do meu passado.

Estavas junto a mim e meus olhos cor de musgo verde te fizeram afundar, te prenderam por fim. E tu, Golan, te transformaste em homem.

E meu lápis te pôs no papel.

 

Eu preciso escrever

Helena Bruto

Contato: helenabruto@gmail.com

 

Gostaria de escrever, mas agora não posso. O meio de uma festa não é o lugar ideal para isso, apesar de ser uma rica fonte de inspiração. Ah, se eu tivesse trazido o meu bloquinho, mas nessas bolsas de festa mal cabe um alfinete. Quando chegar em casa vou escrever.

Estou dirigindo quando me bate uma grande ideia. Não posso perder esse momento! No entanto, também agora não tenho como escrever. Quem sabe não gravo um áudio? Ah, não posso. Algum guarda poderia me multar. Vou mentalizar bem direitinho tudo o que pensei, pois tão logo eu chegue em casa vou direto escrever.

Em plena reunião eis que me bate uma nova história. Até consigo ver os personagens se materializando ao meu redor. Em compasso, também vem o desespero: quero, preciso, devo escrever! Será que os outros não notariam que as minhas anotações não têm conexão alguma com o trabalho? Melhor não arriscar, preciso de um trabalho para poder continuar a escrever.

Cheguei em casa. Ah, que felicidade! Finalmente vou poder escrever. Só é uma pena que agora me sinto tão cansada… O dia foi longo e careço de um bom descanso. Minhas pernas doem, minha cabeça pesa e os papeis estão na bagunça de sempre. Não tem problema, enquanto pego no sono juro a mim mesma que amanhã eu vou sim escrever.

 

 

A Vida Surpreende

– 15 Minutos –

João Alderney

Contato: joaoalderney@hotmail.com

 

O ser humano sabe o que quer.

Há muitos caminhos, na vida, pra seguir.

O que se quer é escolher o melhor entre eles.

Mas, qual será?

A vida é dinâmica, uma sucessão de coisas, de acontecimentos.

O que é bom hoje, pode não ser tão bom amanhã. Surgem alternativas, inesperadas, melhores, mais convenientes, mais avançadas. Há tantas oportunidades, qual caminho devo seguir? Por onde devo ir?

A emoção e a razão chocam-se, às vezes.

Ao seguir a razão, em prejuízo da emoção, quando dá certo, tudo bem, porém, se dá errado, perde-se duas vezes.

Ah, se eu adivinhasse. Ora, ninguém adivinha. Isso é impossível, fora de cogitação. Digo de outro modo: Ah, se eu tivesse posto os pés sobre o birô em vez de pôr as mãos, os braços, a cabeça, numa busca incessante, num trabalho ininterrupto.

Com os pés sobre o birô produz-se infinitamente mais do que o contrário, isto é, do que mantê-los sempre no chão.

Ao longo da minha vida pus os pés uma única vez sobre o birô. Nessa única, vez produzi mais do que tudo que produzi, além, somado.

Nem assim aprendi a pôr os pés sobre o birô. Já ouvi de um parceiro empresarial: O homem tem dificuldade para mudar os hábitos. Bota dificuldade, nisso. Pôr os pés sobre o birô foi a coisa mais difícil, entre tantas coisas difíceis que encontrei, pelas veredas da vida!

 

Bar de Hotel

Maria Eduarda Fernandes

Contato: mefernandesdemelo@gmail.com

 

A vi pela primeira e única vez no bar do hotel. Sempre que penso em bares de hotel, penso em locais glamourosos com garçons de gravata borboleta e mulheres com longos vestidos saídos de filmes noir dos anos 1940. Mas não havia nada disso naquele hotel à beira do aeroporto, no qual eu ficaria apenas uma noite, antes de pegar o voo de volta para casa.

Eu havia passado o dia vagando pelas ruas deste país onde ninguém falava a minha língua, e agora, exausta, bebia sozinha no bar daquele hotel, o que, pensando bem, era bem mais deprimente que beber sozinha no meu quarto.

Mas a ida ao bar valeu a pena, pois a vi. Ela também estava sozinha, mas não parecia tão cansada – talvez hotéis à beira de aeroportos fossem recorrentes na vida dela.

Em dois minutos, eu criei toda a história dela, e imaginei que falasse ao menos uma de minhas línguas.

Imaginei tudo o que eu poderia fazer: pagar-lhe uma bebida, sentar-se à sua mesa e descobrir que temos milhares de coisas em comum, o que resultaria em horas de conversa antes de subirmos para o quarto, que seria o dela, porque pela manhã eu timidamente ensaiaria ir embora sem acordá-la, mas ela não deixaria, implorando que eu cancelasse a passagem e prometendo que ficaríamos naquela cama até encontrarmos um lugar para viver nossa vida juntas.

Naqueles poucos segundos que passei a olhando no bar do hotel, imaginei nossa casa à beira da praia, John Coltrane tocando ao fundo enquanto bebíamos vinho em uma noite fria de inverno, eu na manhã seguinte correndo para não me atrasar para o trabalho enquanto ela fazia o café, insistindo para que eu não saísse sem comer nada, nossa cama desarrumada nos finais de semana e ela em cima de mim, o cabelo dela uma cortina no meu rosto, me fazendo acreditar que o mundo inteiro era nosso e nós éramos o mundo inteiro.

Imaginei discussões sobre nomes de filhos e sobre cores para a parede da sala, natais e aniversários e jantares com amigos e o olhar dela procurando o meu para dizer “já chega, estou cansada, vamos embora”.

Imaginei brigas, porque nem em sonhos os relacionamentos podem ser perfeitos, mas brigas que acabavam na cama ou no chão ou na mesa da cozinha. Imaginei tudo o que se pode imaginar, e, tão perdida na vida que criei na minha cabeça, não percebi quando ela pagou a conta e foi embora.

Poderia ter ido atrás dela, mas já era tarde demais. No fim das contas, minhas ideias sempre me escapam.

 

Poema sobre Clarice Lispector

Patricia Alves

Contato: alvespat@yahoo.com.br

 

O mar de Sophia

Trouxe-nos Clarice

Clarice que nasceu para salvar a mãe…

 

Não conseguiu salvar a mãe…

Mas, com sua escrita

Ela salvou a si mesma…

E nos brindou com seus belos romances…

 

Andarilha pelo mundo…

Escolheu o Brasil como

O seu lugar para viver e morrer…

 

E com seu romance “A Hora da Estrela”

Ela nos deixou fisicamente..

Mas, ficou em nossos corações

Como uma Estrela… Viva e brilhando sempre.

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Recife, 04/05/2019

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Sala de Imprensa

Diário de Pernambuco - Opinião - 030519

 

Próximo e último encontro dos EECs 2019

Cartaz A3 e Banner_PAlegre

Índex* – Abril, 2019

Cercada

Pela escuridão

Insiste em mim

Um doce

Despertar

De esperança

Uma suave

Ilusão

Que me mantém

Em pé

E permite

Mais um passo

E outro

E mais outro

Até chegar

Ao meio-dia

(“Anunciação”*, Patricia Gonçalves Tenório, 06/04/2019, 05h14)

* Anunciação do antes, durante e depois do III Encontro dos Estudos em Escrita Criativa – Unicap e do I Lançamento Nacional de Escrever ficção, de Luiz Antonio de Assis Brasil.

 

Mais um passo rumo à Escrita Criativa no Índex de Abril, 2019 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Três Contos de Viagem | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Escrever ficção | Luiz Antonio de Assis Brasil (RS – Brasil).

Porto do tempo | Chico Alves d’Maria (RN – Brasil).

Dois pequenos trechos de Moema Vilela (MT/RS – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2019 | Diversos.

Mais uma vez agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 26 de Maio, 2019, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – April, 2019

Fenced

Through the darkness

Insists on me

A candy

Awakening

Of hope

A smooth

Illusion

That keeps me going

Standing

And allows

One more step

And another

And another one

Until arrive

Noon

(“Annunciation” *, Patricia Gonçalves Tenório, 04/06/2019, 05h14)

* Annunciation of before, during and after the Third Encounter of Studies in Creative Writing – Unicap and of the I National Launch of Writing Fiction, by Luiz Antonio de Assis Brasil.

 

One more step towards Creative Writing in the April, 2019 Index of Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Three Tales of Travel | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Writing fiction | Luiz Antonio de Assis Brazil (RS – Brasil).

Port of Time | Chico Alves d’Maria (RN – Brasil).

Two small stretches of Moema Vilela (MT / RS – Brasil).

Studies in Creative Writing – April, 2019 | Several.

Once again thank you for the attention and the affection of always, the next post will be on May 26, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um passo após o outro pelo centro do Recife, PE – Brasil. One step after the other in the center of Recife, PE – Brasil.

Três Contos de Viagem – Patricia Gonçalves Tenório*

A Ladeira da Misericórdia**

Novembro/2007

 

Decidi ser aquele meu último carnaval em Olinda. Enxergava o maracatu, as sombrinhas coloridas dos passistas, o Homem e a Mulher da Meia Noite. Sorvia lentamente um capeta de sirigüela – passava se arrastando apertado pelas amídalas, senti o gelado tombar no meu estômago vazio.

Sentei na calçada dos Quatro Cantos. Observava. As fantasias mais coloridas, o calor sufocando, o sol queimando minhas pupilas verdes. Um trem de pessoas entoava uma marchinha antiga. Parecia ver carnavais de outras épocas, nos chapéus com plumas da porta  bandeira, o vestido armado se encontrando com os sapatos cobertos de glíter prateado; na cabeça, peruca barroca.

Acompanhava os casais de namorados em cada pequeno gesto, um beijo na nuca suada da mocinha, abraços apertados de um vilão em frente ao muro pichado de grafite. Crianças molhando umas às outras. O sol quebrava-se em prismas de cor nos jatos de água, repousando numa cabecinha marrom.

Os cachos desciam e subiam a ladeira dos ombros, ao som de Vassourinhas encolhiam-se, expandiam-se acompanhando a minha respiração ofegante: não teria cinco anos a menina. Usava uma fantasia de papel machê, mal lhe cobria o corpo roliço, macio. As sapatilhas azuis, quase cinzas, mostravam a trilha dos muitos passos dados naquela manhã de Sábado de Zé Pereira.

Não havia mãos dadas com alguém. Me acompanhava na despedida de quem éramos, cúmplices no desejo de um mesmo personagem. Se ela Colombina, eu um Pierrot disfarçado; se eu uma Julieta velha, ela um Romeu travestido. Não nos importávamos com os olhos alheios, eu tantas vezes antes não me importara, levando crianças de igual idade ao meu atelier, dando-lhes bombons coloridos e viciados, jogando cartas até surtirem efeito, despindo-os em canções de ninar. Somente então tomava-lhes o corpo miúdo emprestado, saindo minha alma deste cansado e doente, contaminando-as em carne e espírito, esperando absolvição no próximo carnaval.

Adorava esculpir na madeira depois de enterrá-los. No jardim, as estátuas marcavam o lugar dos caixõezinhos e lhes davam apelidos: Bolinha de Gude, Pipa, Boneca de Pano, Caminhãozinho. Uma vez tive muito trabalho com dois negrinhos irmãos, chuparam mais pirulitos que o necessário, entrei em êxtase muito antes dos pares de olhos esbugalharem, das minhas mãos longas cravejarem a espátula nas costas cor de jambo.

Plantei-os debaixo do pé de jabuticaba e no verão seguinte os frutos eram mais escuros e doces, tendo eu que aproveitá-los em compotas e geléias frescas. Vendi toda a produção no Mosteiro de São Bento. Ri imaginando os monges degustarem com torradas os negrinhos que antes eu havia me deliciado.

Acariciei os caracóis da menina sozinha, perguntei-lhe o nome.

Eugênia.

Numa suavidade saíam dos lábios as sílabas, minha cabeça girava querendo voltar ao passado e desistir do futuro.

Só mais uma vez.

Puxei a pulseira de Maomé e rezava na direção de Meca pedindo socorro para a tentação. Rezava as frases lentamente, com vigor e fé, mas não pedira àquelas mãozinhas gorduchas para desenhar minhas sobrancelhas, descer por meu nariz torto, descansando sobre os meus lábios.

Havia de ser a última chance.

Subimos a Ladeira da Misericórdia. Ela cantava o Hino do Elefante com a língua enrolada da idade, mais tarde se enrolaria nela mesma, eu começava a sentir o antigo formigamento nos dedos do pé esquerdo, as pernas, tronco e braços; quando encontrassem as unhas da mão seria tarde, o sol posto, o Mar Vermelho e o Rio Nilo descendo a ladeira, nos juntando ao Capibaribe e ao Beberibe formando o Oceano Atlântico.

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Um olhar sobre Istambul***

 

A primeira vez que vi Istambul meus olhos semi-cerrados descortinavam na janela do avião uma paisagem insólita, em nada parecida com as Mil e Uma Noites, Sherazade e os Quarenta Ladrões de Ali Babá. Encontrei edifícios altos e quadrados, torres finas de mesquitas rasgando espaço entre eles até o mais alto céu, terrenos inclinados, odores e cores do Grande Bazar, onde as especiarias saltavam gotas de saliva de minhas papilas, os cinco sentidos sendo despertados involuntariamente pelos passantes e turistas.

A lua cheia nunca me pareceu tão próxima. Banhava o rio do Estreito do Bósforo, meu peito apertou lembranças de quando eu era pequena e li Malba Tahan pela primeira vez.

O Homem que Calculava.

A imagem que me faziam os turcos não se alterava ainda. Os via como grandes comerciantes, negociadores do Estreito que encurtava distâncias marítimas entre o Ocidente e o Oriente. Comecei a retirar o véu da história, relembrei Constantinopla, Alexandre, o Grande, a escrita cuneiforme. As conexões com as culturas européias me vinham então à memória, não era apenas a conexão física: os turcos serviram de canal de pensamentos e religiões, se manifestando em alto e bom som, nas mesquitas espalhadas na cidade, as palavras do Profeta:

 

Não há outro Deus que Deus

Não há outro Deus que Alá

Deus é o maior

Maomé é o seu Profeta

Venha salvar-te

Venha rezar

Deus é o maior

Não há outro Deus que Alá

 

Os cantos das preces ressoam como em eco, mas são independentes e não parecem se importar comigo. Procuro entender essa cultura tão diversa da minha. Na Turquia, apesar das mulheres não serem obrigadas a cobrir o rosto com o véu, muitas o usam por não se sentirem capazes de agir diferente da tradição. Nisso encontro um ponto de apoio, me agarro a esse ponto para tecer o véu do pensamento, deslizando da realidade para o imaginário do artista.

Entro no harém do Palácio Topkapi. Imagino-me uma das concubinas, laço um nome recém chegado aos meus ouvidos: Ivgênia. Imagino-a de uma tez cobre, olhos verdes amplos, inquisidores. Eles querem uma resposta por estar ali aos treze anos, entre outras meninas, as mais belas, doadas ou arrancadas de suas famílias. Não entendo o que vejo, ao mesmo tempo maravilhada com os lustres de cristal vermelho, os tapetes longínquos com desenhos apenas de flores e arabescos, onde a figura humana não era representada por causa da religião.

Sou dopada todos os dias para não querer fugir daquele ambiente quase hermético se não fossem as clarabóias. Antigas mulheres do sultão, eunucos e filhas me vigiam, me educam, alimentam, cobrem meu corpo com óleos e véus. Se eu for rejeitada pelo sultão, serei entregue aos guardas fora do harém para ser usada como o rejeito exige. Se engravidar de um dos eunucos, na maior das impossibilidades, morrem eu, a criança e o eunuco, pois não existem eunucos que não sejam negros aqui no palácio.

Sabemos tudo sobre o sultão, nós, as concubinas. Dormimos em qualquer parte, em camas de campanha, ou quando muito em quartos mais simples que o das quatro esposas de nosso dono e senhor.

 

Beylerbeyi Sarayi

(Palácio do Senhor dos Senhores)

 

Saio do harém, não quero mais ser Ivgênia, nem faltar-me o ar todos os dias, nem tornar-me louca aos vinte anos. Desejo aprender as palavras soltas e cantadas nas mesquitas, os prefixos que tudo dizem e significam, numa lógica contrária à minha, me desestrutura e faz começar tudo novamente, vestir-me de herege, alcançar a mais alta torre para da pequena janela do avião cerrar meus olhos e sonhar com outro tempo.

 

 

Oráculo****

 

Levaria uma hora de carro entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. Cíntia uma vez foi de ônibus, precisava misturar-se com o suor de um dia de trabalho, o aroma das frutas e verduras nas sacolas de feira, a tontura das curvas fechadas; no volante o motorista jovem.

– Adélcio.

Perguntei várias vezes enquanto caminhávamos até o estacionamento do aeroporto. Lembrei de uma maneira de se gravar um nome.

– Quantos minutos para chegar a Sete Lagoas, seu Adélcio?

– Está muito frio estes dias, seu Adélcio?

– O senhor pode desligar o rádio, seu Adélcio?

Saímos no outro dia bem cedo para Cordisburgo. A cidade do coração.

Existe uma cidade onde nosso coração se instala? Ou seria aquela onde depositamos sonhos de criança, esperando um outro que nos reconheça?

– O senhor é aquele ator da novela das oito?

Ajeitei os óculos escuros, abri a janela do carro, fotografei as nuvens.

As nuvens.

Nuvens que me abraçam, nuvens calmas, nuvens silenciosas. Elas queimavam ontem ao pôr do sol. Hoje sussurram segredos, provocam mistérios.

– A estação de trem defronte à casa de Guimarães Rosa.

Será por isso sua busca por outras paragens? Viajar abandonando a si para ser o outro? Na pele do personagem, a minguilim Polyana recita trechos, musica palavras.

– Somente na voz de um mineiro essas palavras brilham.

(Polyana pediu um autógrafo.)

Na venda de seu Fulô, encontro cavalinhos de madeira, bacias de alumínio em que minha avó Rita juntava as mangas-rosas e distribuía com os vizinhos; fazia suco, peito de velha – um picolé dentro de um saquinho comprido.

Visitei as bordadeiras. Comprei uma colcha para mamãe, uma colcha com palavras e imagens do Grande sertão: dali por diante poderia navegar nas veredas de outro João e não me cobrar visitas constantes enquanto papai viajava.

Os cupinzeiros, barro açúcar-e-canela à luz do sol, espalhados pelos campos

Nas estalactites vejo os castelos de areia ao contrário, quando pingávamos, eu e Paola, irmãos de carne e sangue, pingávamos areia e água do mar formando torres altíssimas de onde eu a salvaria de ogros e dragões de fogo. Paola ganhou o mundo na garupa de um vendedor de pulseirinhas e a última vez que soube notícias estava no Paraguai. Não houve Bolo de Casamento, nem o Véu da Noiva, feito de carbonato de cálcio, enquanto aquela em forma de Abóbora é de magnésio de ferro.

– Estamos num leito de rio.

Edson Alixandre.

– Há quanto tempo trabalha aqui?

– Ah, faz tempo com força.

(A força daquele olhar.)

– Não tem medo de ficar preso aqui embaixo?

– Não. É só pensar que cada gruta é uma janela.

Da janela do meu quarto no hotel, dá para ver uma das lagoas que são mais de Sete Lagoas. Posso caminhá-la sem pensar em Laura e na briga que tivemos no set de filmagem.

(A falta das palavras.)

Subindo à Curvelo, deparei com a igreja de São Geraldo e me perguntei por que não falo mais com meu pai. Diante da escultura em papel do Ecce Homo que o santo fez, faço-me uma promessa diante de anjos e querubins que um dia, diante daquele mesmo altar, traria a graça de ter meu pai de novo ao meu lado.

Gosto da comida mineira. Tutu, o feijão tropeiro, lingüiça, couve, carne de porco. Para rebater, uma boa cachaça. Doce de leite e queijo branco para tirar o sal da boca, depois café para tirar o doce, água para tirar o café; depois começa tudo de novo.

Corinto é árida, de uma falta de mel para adoçar meus lábios, verde para colorir os olhos, brisa para aquietar calor. Talvez aqui Riobaldo melhor crescesse. Riobaldo com suas inquietações. No deserto quando cai chuva nasce oásis; em Minas, buritizeiro.

Corri os olhos nas planícies e as árvores me enganavam em buriti quando eram na verdade árvores de coquinhos, ou a Barriguda, ou Ipês roxos, amarelos, vermelho cru.

– É preciso entrar na arte desarmado, sem artifícios.

Então não seria eu um artista, Cíntia? Não seria eu detentor da interpretação divina da Palavra?

Em Morro da Garça finquei o pé entre lágrimas, O recado do morro e o Cruzeiro dos Martírios.

– Daqui só saio se me abençoares!

E uma senhora bem velhinha, vestido branco, carvão na pele, largou panela e fogão à lenha para se declarar.

– Fui muito feliz aqui. Um moço feito o senhor, não devia de estar chorando. Pois eu larguei tudo só para ver essa belezura mais de perto. Olhe, eu me chamo Isabel de Zuína.

Nem me deu graça nem me reconheceu. Dali saí voltando com o seu Adélcio, a noite caindo rápida com as estrelas anunciando a lua cheia.

Lua cheia. Moeda dourada que se prateia e vem cantar

Não há

            Oh, gente

            Oh, não

            Luar como este

            Do Sertão

 

Na ida a Três Marias, pedi a Adélcio para dirigir. Ele me guiando, ele me dizendo o certo e o errado e de tanto ouvir decorei seus passos, ensinei seu nome.

A chapada. Os buritis. De um instante ao outro todo o mistério se revelava e o que era depois virou presente. As flores guardei para devolver a Laura que me disse antes quem realmente eu era e ainda nem sabia.

Fotos, fotos, fotos. E não dá para captar o meu sentimento de sertão.

– Não vai dar dez minutos e o São Francisco chega.

O mar doce. Pedi em nome do Pai que Ele me batizasse novamente: não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas. Sorri com o frio da água na nuca, os pés descalços, a calça jeans suspendida até os joelhos. De joelhos me refiz e o homem novo levantou-se das pedras e sobre as pedras edificou o seu caminho.

E se Manuelzão não quisesse me receber em Andréquicé? Um novo João a ele perguntava, para entre a barba longa suspirar-lhe algum segredo? Quicé de André, quiçá de Maria. Quem sabe do João que sabia que ele não sabia?

Buritis

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* Patricia Gonçalves Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem 11 livros publicados e 5 no prelo. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE, 2015) e Doutora em Escrita Criativa (PUCRS, 2018). Ministra o Curso de Extensão Estudos em Escrita Criativa na Unicap. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

** Texto publicado em Sonhos de Carnaval, 2009, Organização Cássio Cavalcanti.

*** Texto extraído de Vinte e um, Patricia (Gonçalves) Tenório, 2016, a ser relançado em novembro de 2019 em 7 por 11 pela Editora Raio de Sol.

**** Percorrendo o Circuito Guimarães Rosa – Minas Gerais. Texto extraído de Diálogos, Patricia Tenório, 2010, a ser relançado em novembro de 2019 em 7 por 11 pela Editora Raio de Sol.