Índex* – Setembro, 2017

Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais.

Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler.

Era bom aquele começo, com a esperança no coração.

(“A Cidade Universitária”. In A menina do olho verde, Patricia Gonçalves Tenório)

Furono rubate le mura della città, il Muro Alto non esisteva più.

Piantarono giardini comunicanti, scrissero libri per leggerli gli uni agli altri.

Era buono quell’inizio, con la speranza nel cuore.

(“La Città Universitaria”. In La bambina dagli occhi verdi, Patricia Gonçalves Tenório,

Traduzione Alfredo Tagliavia, Milano, Italia: IPOC, 2016)

Os muros derrubados pela Escrita Criativa no Índex de Setembro, 2017 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Prêmio Il Convivio, 2017 & “A menina do olho verde” | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil). 

I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco & “Sobre a escrita criativa” | Diversos.

“Separação” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Tecelãs” / “Tejedoras” | Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Setembro, 2017 | Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 29 de Outubro de 2017, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

Index* – September, 2017

The walls of the city were overthrown, the High Wall no longer existed.

They planted joint gardens, wrote books for each other to read.

That beginning was good, with hope in the heart.

(“The University City”. In The Green Eye Girl, Patricia Gonçalves Tenório)

 

The walls overturned by the Creative Writing in the Index of September, 2017 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Prize Il Convivio, 2017 & “The Green Eye Girl” | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

I National Seminar on Creative Writing in Pernambuco & “About creative writing” | Miscellaneous.

“Separation” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Weavers” / “Tejedoras” | Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group on Creative Writing – September, 2017 | Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thanks for the participation and affection, the next post will be on October 29, 2017, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

4 - IMG_4471

2 - IMG_4394

5 - IMG_4581

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Os muros derrubados entre Recife e Porto Alegre no I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco. The walls overturned between Recife and Porto Alegre in the First National Seminar on Creative Writing in Pernambuco.

Prêmio Il Convivio 2017 & “A menina do olho verde”* | Patricia Gonçalves Tenório**

O BEIJO

 

Que sabor tem um Beijo? Para ele? Para ela? Tem o gosto de encontro, encontro assim meio de lado, a cabeça de Manoela deitada de lado para receber o Beijo de Pedro. Era feito um aconchego, aquela cabeça deitada, no ombro de seu amado. O Beijo, assim torto parecia. Mas não era torto, era místico e ali se fazia um santuário.

Naquele instante celestial, um Raio de Sol tocou a Cabeça de Manoela. A Cabeça da menina permanecendo deitada, pendendo assim para o lado, era mais fácil o Raio de Sol a tocar e se inserir no pensamento. Houve então uma Epifania. Todos os momentos vividos, o antes, o agora, o depois explodiram em Manoela, como se fossem um instante só. E a menina-mulher podia no corpo de Pedro entrar, no corpo do homem-menino penetrar, feito o ar em seus pulmões.

 

Il Bacio

Che sapore ha un Bacio? Per lui? Per lei? C’è il gusto dell’incontro, un incontro mezzo nascosto, il capo di Manoela chino su un lato per ricevere il Bacio di Pedro. Stava come comodo, quel capo appoggiato sulla spalla dell’amato. Il Bacio, sembrava così di traverso. Ma non era di traverso, era mistico, e là avrebbero costruito un santuario.

In quell’istante celestiale, un Raggio di Sole toccò il Capo di Manoela. Il Capo della bambina mentre rimaneva appoggiata, pendendo da un lato : così era più facile che il Raggio di Sole la toccasse ed entrasse nel suo pensiero. Fu un’Epifania. Tutti i momenti vissuti, il prima, l’ora, il dopo, esplosero dentro Manoela, come fossero un solo istante. E la bambina-donna poteva entrare nel corpo di Pedro, penetrare nel corpo dell’uomo-bambino, come aria nei suoi polmoni.

(Traduzione di Alfredo Tagliavia In La bambina dagli occhi verdi, Patricia Gonçalves Tenório. Milano, Italia: IPOC, 2016)

 

Premiati per sezione 2017

 

___________________________________

* A menina do olho verde. Patricia Gonçalves Tenório. Recife,PE: Editora Raio de Sol, 2016.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em Outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em Outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da prof. dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no doutorado em Escrita Criativa, sob a orientação do prof. dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

 

I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco & “Sobre a escrita criativa” | Diversos

cartaz_escrita_criativa (1)13/10/2017 10 horas – 13 horas

Oficina/workshop: “Mercado editorial e autopublicação”

Daniel Fernando Gruber (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Autopublicação: um caminho possível”

Daniel Perroni Ratto (Ceará) – Palestrante: “Mercado editorial”

Cida Pedrosa (Pernambuco) – Palestrante: “Mercado editorial”

 

13/10/2017 15 horas – 18 horas

Oficina/workshop: “Estimulando a leitura através da Escrita Criativa”

Gustavo Melo Czekster (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Leitura e Escrita Criativa”

Fernando de Mendonça (professor UFS) – Palestrante: “Experiência de Criação Literária: da sala de aula ao Clube de Leitura Criadora”

Igor Gadioli Cavalcante (professor UFS) – Palestrante: “Leitura de Prosa e Poesia: Alimentando a Escrita Criativa”

Lourival Holanda (professor UFPE) – Palestrante: “Leitura e Escrita Criativa”

 

13/10/2017 19 horas – 21 horas

Mesa: “A importância de um ambiente estimulante na Criação Artística”

Luís Roberto Amabile (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Será Porto Alegre uma festa?”

Patricia Gonçalves Tenório (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “Vida: uma experiência criativa”

Luiz Antonio de Assis Brasil (professor PUCRS) – Palestrante: “A Escrita Criativa no Brasil”

Valesca de Assis (Rio Grande do Sul) – Palestrante: “A mulher e o chamado da Literatura”

Sidney Nicéas (Pernambuco) – Palestrante: “Inspiração e ação: os gatilhos da Criatividade na Escrita e o sentir e o agir no Texto Literário”

Raimundo Carreiro (Pernambuco) – Palestrante: “A Escrita Criativa no Brasil”

Lançamento Sobre a escrita criativa,  Editora Raio de Sol, Recife-PE, 2017, Organização: Patricia Gonçalves Tenório, Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil, com artigos dos participantes do Seminário.

 

capa_final_grafica

 

14/10/2017 10 horas – 13 horas

Oficina/workshop: “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”

Patricia Gonçalves Tenório (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”

Bernadete Bruto (Pernambuco) – Palestrante: “Viagem ao fundo da Poesia: uma recomposição de trabalhos à luz da Teoria”

Elba Lins (Pernambuco) – Palestrante: “A Escrita Criativa – dando asas à minha Prosa e novas formas à Poesia”

Luisa Bérard (Pernambuco) – Palestrante: “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”

Talita Albuquerque Bruto da Costa (UFPE) – Palestrante: “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”

 

14/10/2017 15 horas – 18 horas

Oficina/workshop: “Devaneios Fílmicos, Cósmicos e Poéticos”

Fernando de Mendonça (professor UFS) – Coordenador/Palestrante: “Devaneios Fílmicos, Cósmicos e Poéticos”

Maria do Carmo de Siqueira Nino (professora UFPE) – Palestrante: “Pequenas narrativas com Aventura

Robson Teles (professor UNICAP) – Palestrante: “Olhos de Encenador frente a Intergenericidades Poéticas”

 

14/10/2017 19 horas – 21 horas

Mesa: “Era das narrativas e o herói cansado. Problematizações em torno da viagem do herói, suas possibilidades, limites e insuficiências.”

Daniel Fernando Gruber (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “O herói cansado”

María Elena Morán Atencio (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “As histórias que (não) nos contam”

 

15/10/2017 10 horas – 13 horas

Oficina/workshop: “Oficina de Escrita Criativa – Poesia”

Alexandra Lopes Da Cunha (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “A Poesia como percurso”

Cida Pedrosa (Pernambuco) – Palestrante: “Oficina de Poesia”

Carlos Enrique Sierra Mejía (Colômbia) – Palestrante: “A dificuldade da Escrita e o Prazer Criador”

 

15/10/2017 15 horas – 18 horas

Oficina/workshop: “Oficina de Escrita Criativa – Prosa – Contos e Roteiros”

Luís Roberto Amabile (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Oficina de Contos e Roteiros”

María Elena Morán Atencio (PUCRS) – Coordenadora/Palestrante: “Oficina de Contos e Roteiros”

Guilherme Azambuja Castro (PUCRS) – Palestrante: “De onde vêm as histórias?

 

15/10/2017 19 horas – 21 horas

Mesa: “Quem tem medo da Literatura Fantástica?”

Gustavo Melo Czekster (PUCRS) – Coordenador/Palestrante: “Escrever Literatura Fantástica no Brasil do Século XXI”

Adriano Siqueira Ramalho Portela (professor ESM/FAMA-PE) – Palestrante: “Quando o Espírito é quem manda: um mergulho no Roteiro Fantástico de Osman Lins”

André Balaio (Pernambuco) – Palestrante: “Quem tem medo da Literatura Fantástica?”

 

“Separação”* | Clauder Arcanjo**

I

Casaram-se há poucos meses: Maria e José; namorados e noivos felizes, agora enlaçados para sempre. “Marido e mulher, até que a morte os separe.”

Na festa, íntima, a presença dos familiares e alguns amigos mais próximos. Coisa fechada. Ele, por ser inimigo das grandes comemorações. Ela, a preferir o momento de juras e intimidade entre os seus. Em especial, quando ela estivesse perante Cristo.

Religiosa, e de família católica, Maria escolhera a capela da igrejinha do bairro, local sagrado que sempre frequentara. Ela e os seus antepassados. Seu avô paterno orgulhava-se, confiando o seu longo bigode branco, de que doara todo o madeiramento do telhado da pequena nave. Sem esquecer de citar que completara as últimas carreiras dos bancos de madeira, quando o pároco já corria descabelado pela sacristia, com receio da missa inicial com a igrejinha incompleta. “Isto não seria agradável ao Senhor!”

Nove da manhã, noivo e noiva, testemunhas e poucos convidados frente ao altar. Padre Roque a conduzir o matrimônio.

– No matrimônio, caros irmãos e irmãs, o padre tem mera função auxiliar. Apenas, hoje, mais uma vez, exercerei o meu papel de coadjuvante perante o juramento destes dois.

Silêncio. Lá fora, algumas buzinas e um trinado festivo dos pássaros nas árvores diante da casa paroquial.

– José, aceita como sua legítima esposa…

– Sim, aceito.

– Maria, aceita como seu legítimo esposo…

– Sim, aceito.

– Estão casados, perante Deus e os homens. O noivo pode beijar a noiva – e baixou a cabeça, como se para evitar constranger os nubentes.

Seu Marivaldo, sempre afeito às fanfarras, gritou com sua voz anasalada:

– Viva os noivos!

Ninguém lhe fez coro; apenas se ouviu uma salva de palmas. Palmas contidas.

Os recém-casados desceram do altar e receberam os cumprimentos dos presentes ainda no interior da igrejinha. Na casa paroquial, foi servido um café da manhã. Sem grandes arroubos.

“Coisa fraca e sem muito gosto, apenas para estômagos fracos”; segundo comentário do Seu Marivaldo. Ele, que sonhara com uma champanhota para abrir os festejos naquela sexta-feira, já olhava de esguelha para os pais da noiva. Na certa, julgando-os uns sovinas.

Antes das onze, o sumiço dos noivos. Assim como entraram, saíram. Pela porta da frente. Só que, desta feita, juntos, de braços dados.

Os vizinhos não conheram nos olhos de Maria o viço da paixão. Os rapazes do bairro, um pouco magoados pelo evento fechado, nem sopraram piadas picantes na passagem dos recém-casados.

Fecharam-se na casa nova, presente do pai de José. Um telhado de duas águas, uma varanda na frente, dois quartos, uma cozinha e um quintal que prometia, em razão das mudas plantadas com esmero pela mãe do noivo. Dona Julieta, sempre amiga das flores e dos frutos.

A notícia correu as ruas há menos de mês. De início, de forma discreta e protocolar. Com pouco, num assomo de fúria e como se contada com o ferro quente da vingança. José e Maria não foram mais vistos juntos na missa dominical.

Maria, sozinha, a rezar no banco da frente, com um xale escuro a encobrir a face pálida. Com olhos postos no madeiro da Cruz. José, de tronco nu e com a face afogueada, a cuidar do quintal durante todas as manhãs de domingo. Agora a sonhar com o trinado festivo dos pássaros nas suas árvores, como no dia do seu enlace matrimonial.

___________________________________

Primeiro capítulo de Separação. Clauder Arcanjo. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2017.

** Contatoclauderarcanjo@gmail.com

“Tecelãs” / “Tejedoras”* | Rizolete Fernandes**

Tétis

(Grécia, entre 1.300 – 1.200 a.C.)

 

De saber Titã empoderada

dei vida a três mil rios; entre

aqueles no Inferno situado há

o Estige, ou Água do Silêncio

 

Minhas divinas irmãs puderam

deuses desposar, a mim porém

foi destinado o mortal Peleu

então o nosso filho semideus

 

A proteger sua metade humana

orientaram-me cedo os oráculos

a submergi-lo inda recém-nascido

nas prodigiosas águas do Estige

 

Deusa das águas obedeci convicta

de que após o aconselhamento ritual

seu corpo fecharia, invulnerável

a espadas flechas feras outro mal

 

Esmerada educação lhe fiz dar Quiron

 

Impetuoso e amado cresceu Aquiles

sinônimo de bravura audácia virtude

admirado por reis princesas armadas

temido em Grécia e mundo conhecido

 

Mas ao perder dileto amigo em Troia

olvidou o guerreiro a divina herança

e tomado pela ira fulminou Heitor –

vingança anula a magnanimidade

 

Em castigo Vênus aos troianos afeita

faz ver a Páris o calcanhar de Aquiles

única parte vulnerável do seu corpo

onde o segurei no mergulho do rio

 

Para o tendão guiou Apolo a seta

pelo filho de Príamo disparada

e porque oráculos não erram

foi-se o herói, sua fama estará

para todo sempre imortalizada

 

Nereida-mãe, teci um fio da mitologia

 

Tétis

(Grecia, entre 1300 – 1200 a.C.)

 

De titánico saber empoderada

di vida a tres mil rios; entre

los que están en el Infierno existe

el Estige, o Agua del Silencio

 

Mis divinas hermanas podrian

desposarse con dioses, pero a mi

me fue destinado el mortal Peleo

entonces mi hijo fue un semidios

 

Muy temprano los oráculos me enseñaron

a proteger su mitad humana

a sumergilo aun recién nacido

en las prodigiosas aguas del Estige

 

Diosa de las aguas obedeci convencida

de que después del ritual aconsejado

su cuerpo se cerraria, quedando invulnerable

a las espadas flechas fieras u otro mal

 

Esmerada educación hice que le diera Quirón

 

Impetuoso y amado creció Aquiles

sinónimo de valentia audacia virtud

admirado por reyes princesas armadas

temido en Grecia en el mundo conocido

 

Mas al perder al querido amigo en Troya

se olvidó el guerrero de la divina herencia

y possído por la ira fulminó a Héctor –

la venganza anula la magnanimidad

 

En castigo Venus daña a los troyanos

revela a Paris el talón de Aquiles

única parte vulnerable de su cuerpo

por onde lo sostuve al sumergilo en el rio

 

Apolo guió la saeta directo al tendón

disparada por el hijo de Priamo

y porque los oráculos no se equivocan

se marchó el héroe, su fama estará

immortalizada para siempre

 

Nereida-madre, teji un hilo de la mitologia

 

_______________________________

Primeiro poema de Tecelãs. Tejedoras. Rizolete Fernandes. Tradutora: Jaqueline Alencar. Mossoró, RN: Sarau das Letras; Salamanca [Espanha]: Trilce, 2017.

** Contatofmariarizolete@yahoo.com.br

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Setembro, 2017

O exercício do mês de Setembro de 2017 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa foi “Escrever sobre escrever”, “Escrever sobre assistir”.

Trago ao centro dois textos que penso representarem bem esses “exercícios de desbloqueio”. Porque a escrita é um subir de montanhas, é subir “o monte da resposta perdida” para tentar encontrar a si mesmo, a sua própria voz, única, intransferível. Insubstituível.

Dois sonhos se encontram no mês de Setembro anunciando o mês de Outubro de 2017. O Primo Premio Assoluto da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália para a fábula lúdico-adulta A menina do olho verde, livro que, entre as primeiras pessoas a acreditarem, estavam Bernadete Bruto e Elba Lins.

E o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco, Seminário no qual vários(as) outros(as) escritores(as) do Brasil e exterior acreditaram, mas que é fruto, flor e árvore da semente plantada lá no início, em agosto de 2016, no Grupo de Estudos em Escrita Criativa, e que com imensa alegria estarão lançando seus primeiros livros – Elba Lins & Do outro lado do espelho – O feminino em estado de poesia, Luisa Bérard & Nas montanhas do Marrocos –, e o primeiro livro infantil de Bernadete Bruto, A menina e a árvore.

Boa leitura!

 

Patricia Gonçalves Tenório

__________________________________

 

Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

A PAIXÃO PELA ARTE OU A ARTE DA PAIXÃO?

                                                                                                          

Hoje assisti a dois filmes:  A Arte da Paixão (2013) e  Effie Gray: uma paixão reprimida (2014) e passo a comentar visando apenas a forma de fazer arte.

No primeiro, há duas formas de conceber arte. Uma, viver intensamente a arte, expressá-la, vivenciá-la, fluir com ela. Na liberdade, assim como da mesma forma amar. Algo parecido com que Vinícius diz sobre o amor: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito, enquanto dure.” A outra forma, sentir a vida, introjetá-la e extravasar na escrita. Como se o diário fosse uma espécie de confessionário.

O filme A Arte da Paixão (Summer in February) trouxe visões distintas sobre a arte e como fazê-la. Baseado no diário pessoal de Gilbert Evans, conta a história do triângulo amoroso entre o pintor Alfred Munnings, seu amigo Evans e sua esposa Florence Carter-Wood, também pintora. A história se desenrola na Cornualha numa cidade que agrega um grupo de artistas denominado Grupo Lammorna. Uma história real, que gerou um livro escrito por Jonathan Smith, foi transformada num roteiro muito interessante, e em outro tipo de arte. (Que beleza!)

De cara me identifiquei com A.J., assim denominado Alfred Munnings. Sua sede de viver e de expressar a arte. Talvez até porque, logo no início do filme ele recita o poema “O corvo”, poema que muito aprecio, que além da beleza da forma, a recitação é primorosa e o ator o faz de maneira magistral. Eu, aqui do sofá, fui arrebatada! Muito embora tenha uma paixão pela expressão poética, reconheço que outras formas da linguagem têm igual valor. Como também a forma que os artistas queiram vivenciar a sua arte. Acredito não haver receitas. Depende das escolhas com que mais nos identifiquemos. Inclusive, porque o que apreciei em A.J. como artista, não morri de amores pelo homem! Neste assunto, a sensibilidade de Gilbert me atrairia mais.

No caso de A.J., ele era feliz ali naquela comunidade de artistas conforme declarou em discurso, que apresentamos em seguida e que fez sintonia no meu coração:

 

Meus amigos. Minha família da Cornualha por assim dizer.

Que encara o mundo como eu, que capta o seu pulsar, que vê a luz do mar, a pelagem brilhante de um cavalo e o esplendor de uma beldade em um lindo dia.

 

Não conhecia o artista A.J. Munnings e gostei de ver suas pinturas e saber algo sobre ele, sobre Florence e em especial a tela da mulher sobre o cavalo, e não é que descobri várias telas de mulheres a cavalo?

Foi um filme muito agradável e apesar do final triste, em algum momento A.J. até confessa que o casamento e a sua forma de viver a arte não estavam fluindo bem: era tudo tão fácil! Beber, pintar, andar a cavalo. Mas isso, acaba comigo. Deste filme, escolhi ficar com o exemplo do companheirismo de Laura e Harold Knight que viveram com autencidade tanto na arte quanto na vida, e extraí essa mensagem: “amar só não basta. Certas artes são como o sacerdócio e compatibilidades é o que mais necessitamos.”

O segundo filme, Effie Gray: uma paixão reprimida, novamente o triângulo amoroso entre um crítico de arte e crítico social britânico John Ruskin, sua esposa Euphemia “Effie” Gray e o artista John Everett Millais, também outra adaptação da uma história real sobre a primeira mulher na Inglaterra que pediu divórcio.

Embora o filme comece com a famosa frase ERA UMA VEZ, nada indicava um conto de fadas e romance. Tive a impressão que a protagonista era a arte e não Effie. A arte estava em primeiro lugar na vida de Ruskin, que também foi poeta e desenhista e vivia no pedestal que ele foi colocado pelos pais e pela sociedade. Seu conceito de arte apresentado num evento durante o filme, já nos remete à sua forma de vivenciá-la:

 

Qual o propósito da arte? Idealizar? Sentimentalizar? O propóstio da arte é revelar a verdade. É revelar Deus.

 

Talvez por Effie ter sido em criança sua musa, para quem ele escreveu um livro, não pudesse tornar-se nem mulher, nem real para ele, na sua concepção neurótica.  Também encontrei no filme uma alusão de que o artista faria um livro escrevendo sobre a “maldade” de sua mulher, o que me deixou a meditar se ela não estaria sendo um experimento para aquele futuro livro. Ruskin me deixou a impressão de que certos artistas se dedicam tanto à sua arte, que não há espaço para nada mais na vida.

No caso em particular, o final não foi feliz para Ruskin que teve sua vida exposta à sociedade da época, todavia Effie casou com Millais e teve 8 filhos. Isso, descobri em pesquisa, como outros detalhes sórdidos sobre Ruskin e Effie, que não interessam para a nossa análise. Um filme muito romântico, apesar dos momentos de infelicidade, e com final feliz, a marca registrada dos roteiros de Emma Thompson, que participa deste filme, assim como de outros que ela produz, roteiriza, e que me agrada bastante.

Por fim, porque ambos os filmes abordam o assunto da arte, fica a pergunta inicial no título de como se manifestou a arte e a vida nessas produções.

 

Recife, 20 de Agosto de 2017.

 

 

Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

 

Por ser de lá do Sertão, lá do Cerrado
Lá do interior do mato
Da Caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.(2)

Gilberto Gil e Dominguinhos

 

 

 

A leitura do conto “Lonesome Town”(1), de Luís Roberto Amabile, me emocionou. Quiçá porque, tratando-se de uma paisagem seca, do sertão, mais especificamente do Sertão do Pajeú, me fez lembrar do meu próprio lugar incrustado no Sertão do Cariri.

Assim, comecei a ler e me identificar com a paisagem, a entender os sonhos de tantos que abandonam por instantes o pensar seco, árido e vazio e ousam voar em devaneios poéticos. Penso no dono do Café e no seu sonho de uma grande competição onde as vozes de Caetano Veloso, Bom Jovi e Laura Pausine cantam a solidão e enaltecem o nome do lugar, colocando luz e colorido na monotonia vigente.

E a inusitada imagem da Greta Garbo de Solidão, me trouxe lágrimas aos olhos. “Greta Garbo! A maior estrela de cinema da sua época, a mais reclusa entre todas as celebridades que já existiram. Greta Garbo, a mulher mais bonita de todos os tempos, que escolheu a solidão…” (AMABILE, 71). Greta Garbo, havia escolhido Solidão.

E eu, talvez por ser uma amante da dança e saber que num átimo, num passo de dança,  maravilhas acontecem, sonhos se realizam e diferentes solidões se entrelaçam e deixam-se levar num redemoinho cósmico, sinta tão fortemente essa imagem. Depois daquela dança a vida em Solidão jamais voltou a ser a mesma para aquela velha dama em azul. Aquela que num momento ímpar se “fez bonita como há muito tempo não queria ousar (3)”. Depois daquela dança, Solidão, Greta Garbo, e até mesmo eu nunca mais fomos os mesmos!

 

(TAMBÉM  EXISTEM SONHOS NO CAFÉ SOLIDÃO

Após a leitura do conto “Lonesome Town” no livro O amor é  um lugar estranho, de Luís Roberto AmabileElba Lins  18.09.2017)

 

Referências

1 – “Lonesome Town” no livro O amor é  um lugar estranho – Luís Roberto Amabile

2 – “Lamento Sertanejo” – Gilberto Gil e Dominguinhos

3 – “Valsinha” – Chico Buarque

Índex* – Agosto, 2017

As palavras

Dos outros

Atravessam

As minhas mãos

Atravessam

Os meus ouvidos

E já não 

Posso dizer

Se são minhas

Se são desses

Escritores

Que me escrevem

E me impelem

A ser uma

Pessoa maior

E me cedem

Um pouco de

Inspiração 

E ofício 

E técnica

Para o que

Escrevo

Soar melhor

Em minhas mãos

(Sobre a Escrita Criativa, Patricia Gonçalves Tenório, 02/08/17, 18h06)

 

 

As palavras dos outros que me atravessam no Índex de Agosto, 2017 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Quando Capitu chorou | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Fernando Luz (AL – Brasil).

Diálogos | Bernadete Bruto (PE – Brasil), Carlos Sierra (Colômbia), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

“Exercícios literários: Café & Poesia” | Com Célia Medeiros (RN – Brasil) & Clauder Arcanjo (RN – Brasil), entre outros.

“O amor que não sentimos e outros contos” | Guilherme Azambuja Castro (RS – Brasil).

“Demorei a gostar da Elis” | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

“Demônios domésticos” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil), Marcos Torres (PE – Brasil) & Uilian Novaes (BA – Brasil). 

A partir de 28 de Agosto de 2017 estarão abertas as inscrições para o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco (PUCRS – Brasil) que acontecerá de 13 a 15 de Outubro de 2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. As inscrições são gratuitas, vagas limitadas, e realizadas, com maiores informações, no link:

http://www.bienalpernambuco.com/i-seminario-nacional-em-escrita-criativa-de-pernambuco/

O lançamento do livro Sobre a Escrita Criativa, com artigos dos participantes do Seminário, será em 13 de Outubro de 2017, às 19h00.

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 24 de Setembro de 2017, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

Index* August, 2017

The words

Of the others

They cross

My hands

They cross

My ears

And no longer

I can say

If they are mine

If they are from these

Writers

That write to me

That urge on me

To be a

Greater person

And give me

A bit of

Inspiration

And craft

And technique

For what

I write

Sound better

In my hands

(About Creative Writing, Patricia Gonçalves Tenório, 08/02/17, 6:06 p.m.)

 

 

The words of the others that cross me in the Index of August, 2017 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

When Capitu wept | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Fernando Luz (AL – Brasil).

Dialogues | Bernadete Bruto (PE – Brasil), Carlos Sierra (Colombia), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

“Literary Exercises: Coffee & Poetry” | With Célia Medeiros (RN – Brasil) & Clauder Arcanjo (RN – Brasil), among others.

“The love we do not feel and other tales” | Guilherme Azambuja Castro (RS – Brasil).

“I took too long to like Elis” | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

“Domestic Demons” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Study Group on Creative Writing | Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil), Marcos Torres (PE – Brasil) & Uilian Novaes (BA – Brasil). 

From August 28, 2017 it will be opened the entries for the 1st National Seminar on Creative Writing of Pernambuco (PUCRS – Brasil), which will take place from October 13 to 15, 2017 at the XI International Book Biennial of Pernambuco. Entries are free, limited and made available, with more information, in the link:

http://www.bienalpernambuco.com/is-seminario-nacional-em-escrita-criativa-de-pernambuco/

The launch of the book About Creative Writing, with articles by participants of the Seminar, will be on October 13, 2017 at 7:00 p.m.

Thanks for the participation and affection, the next post will be on September 24, 2017, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_6371

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Guaíba de Porto Alegre se encontrando com o Capibaribe de Recife formando o Oceano Atlântico do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco. The Guaíba of Porto Alegre meeting with the Capibaribe of Recife forming the Atlantic Ocean of the 1st National Seminar on Creative Writing of Pernambuco.

 

Quando Capitu chorou* | Patricia Gonçalves Tenório** & Fernando Luz***

 

I Capítulo – Um passeio pelo parque

 

Ela saiu do flat bem cedinho para receber os primeiros raios de sol no Parque Farroupilha.

IMG_6405

Era nova ali. Era uma nova vida. Passara na seleção de mestrado em Escrita Criativa e só conhecia Porto Alegre de retrato.

Saiu do flat bem cedinho e levou o celular escondido no casaco, apesar dos conselhos da mãe. Não saia com o celular à vista, Capitu!, a mãe lhe disse, a mãe lhe orientou. Mas Capitu queria fotografar os cantos daquela cidade nova.

A caminho do parque, viu a Faculdade de Medicina com os portões frondosos, frondosos feito as árvores que iria encontrar no Parque da Redenção.

IMG_6406

O Parque da Redenção era o outro nome do Parque Farroupilha, e o parque recebeu aquele outro nome por causa da precoce redenção da escravatura na cidade em 1884. Enquanto que Farroupilha se deve à revolução de mesmo nome, quando a várzea do parque ficou fora dos domínios da Vila de Porto Alegre.

IMG_6408

Uma senhora praticava sozinha yoga quando Capitu entrou no parque. O frio da manhã arrepiava o corpo encolhido dentro do casaco, apesar dos primeiros raios de sol.

IMG_6424

Lá estava ele. O sol. Desnudando os cabelos castanhos, a pele morena clara, os olhos da ressaca de tantas horas de avião.

IMG_6413

De Recife para Porto Alegre eram seis horas de avião. Isso quando não atrasava. Em Recife, quem levou Capitu para o aeroporto foi Bentinho – o pai e a mãe da menina não paravam de chorar.

Bentinho, silencioso. Bentinho, casmurro feito iria ser um dia. E é justamente para Bentinho que a moça da ressaca tira no celular aquelas fotografias do Parque da Redenção.

IMG_6431

____________________________________

***

____________________________________

* Exercício em Wattpad da disciplina Literatura e Linguagem Digital ministrada no doutorado em Escrita Criativa do PPGL da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS pelo Prof. Dr. Bernardo Bueno em 2017.2.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008) por As joaninhas não mentem, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da prof. dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no doutorado em Escrita Criativa, sob a orientação do prof. dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

*** Publicidade da Dior enviada por Fernando Luz. Contato: fernandinholuz@hotmail.com

Diálogos | Bernadete Bruto*, Carlos Sierra**, Elba Lins*** & Patricia Gonçalves Tenório

Hoje

Eu escrevi um

Poema

Que você disse

Que não gostou

Que você disse

Que não provou

O sabor da

Eternidade

 

Mas o que é

A eternidade

Para quem nunca

Amou?

Para quem jamais

Sonhou

Com uma vida

Lado a lado

Com uma história

Dentro de uma

História

Que o abismo

Do amor

Nos dá?

 

Que a vertigem

Do amor

Coloca

Em nossa

Imaginação fértil

Em uma

Composição tardia

Que nasce

Agora das minhas mãos

Assim

Como um poema

Morto

Assim

Como um beijo

Torto

Que você jamais

Provou

 

(“Poema sujo”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/08/2017, 20h29)

 

Se perfeita a linha

Traçada com sentimento

e conhecimento

É poema limpo

Límpido

Lindo

Estampado

Na pura caligrafia

Do consentimento

De quem

Careceria?

 

(“Sobre um Poema Limpo”, Bernadete Bruto, 14/08/2017, 12h01)

 

Quando o último homem

Descobriu que estava só

Que a sua raça seria esquecida

Teve a necessidade de dar testemunho

De escrever a bíblia

Enxergou nos frutos luminosos

Do passado

E descobriu que sua longa vida

Foi uma forma de suicídio

Uma linha mal costurada

No tecido do infinito

 

(“Linha”, Carlos Enrique Sierra, 14/08/2017, 08h31)

 

______________________________________

O poema

Gritou comigo

Lutou

Bradou

Para que

Eu não o deixasse

Preso

Na gaveta

 

Veio o vento

E o espalhou

Nos quatro cantos

Do planeta

A semente

Lutou

Brotou

E nasceram

Flores raras

Poemas em folhas

Claras

Iluminando o meu

Dia

Aliviando a minha

Noite

E me fazendo

Dormir

 

(“Flores raras”, Patricia Gonçalves Tenório, 16/08/2017, 06h56)

 

Para Patricia por seu poema “Flores raras”

O poema gritou com ela

E seus ecos chegaram até mim

Eram estampidos

Os sons de gavetas se abrindo

Gavetas jogadas ao chão

De onde saiam

Folhas coloridas

Repletas de poesias

Que voavam pela casa

Fugiam pelas janelas

Batiam em portas fechadas

E se faziam borboletas

Coletando pólen

De novos poemas

De novas flores

Que se espalhavam

Pelo mundo

Que coloriam o cinza dos tristes

O cinza das horas

E davam novas cores

A quem ousasse tocá-los.

 

(“De poesia, cores, borboletas e gavetas violadas”, Elba Lins, 20.08.2017, 09h50)

______________________________________

* Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de Gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores-UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa  da Confraria das Artes e do Grupo de Estudos em Escrita Criativa. Tem três livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011) e Querido diário peregrino (2014), participação em antologias, assim como diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

** Carlos Enrique Sierra Mejía (Itagüí, Colômbia, 1967) é poeta, narrador, crítico, jornalista cultural e editor colombiano. Obras publicadas, entre outras: Habitación desnuda (Fondo Editorial Ateneo, Medellín, 1997), La estación baldía (Secretaría de Educación y Cultura de Medellín, 1998), Noticias del Espejo (Transeúnte Editor, Medellín, 2008), Do amor e da guerra, Antologia poética Português – espanhol (Mangue Editora, Recife, 2015). Prêmios:  Prêmio de Poesia León de Greiff, Alcaldía de Medellín, 1997, Prêmio de Poesía Ciudad de Itagüí, 2006, Beca de investigação em crítica literária, Ministério de Cultura, 1998, Menção “Melhor comentarista de livros de Colômbia”, Câmara Colombiana del Libro, (pelos seus trabalhos no jornal El Colombiano), 1994, Beca de Investigação em Artes Escénicas, Colcultura, 1994, Prêmio de Estímulos a Publicações Culturais, da Alcaldía de Medellín, 2007 y 2009. Como artista plástico foi co-diretor  do grupo de Performance R-Acción e atualmente, trabalha com o escritor Sidney Nicéas no grupo Mangue Cultural onde tem dado continuidade a esse trabalho. Contatos: sierracarlosenrique@gmail.com

*** Elba Santa Cruz Lins (Monteiro/PB, 1957) é formada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1979), fez MBA em Gestão de Negócios (EAD) pela PUC-PR. Trabalhou durante 34 anos na área de Telecomunicações da CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco). Atualmente aposentada, dedica-se à escrita. Fez curso de Contação de Histórias no Zumbaiar (Recife). Faz poesias e há um ano participa do GEEC – Grupo de Estudos em Escrita Criativa, sob a coordenação de Patricia Tenório. Lançará em Outubro, 2017 seu primeiro livro, Do outro lado do espelho: O feminino em estado de poesia. Contatos: elbalins@gmail.com

“Exercícios literários: Café & Poesia” | Com Célia Medeiros* & Clauder Arcanjo**, entre outros

Cinzas

Célia Medeiros

 

Nessa ânsia desenfreada para desaparecer e reviver

Depois dos sonhos que ficaram antes do pôr do sol

Cerra os olhos, pende o corpo, e em estado latente

Vê-se estática, num estado de deplorável morbidez.

Não tem forças, não consegue sequer mirar o horizonte

Que era cinza e agora é azul vibrante,

Não tem alma, não tem olhos, nada vê

Embora traga um desejo revestido de esperança.

Nada muda, tudo continua como está.

O sol sumiu, a chuva cai, e cresce a sua embriaguez.

Quer sumir por outros campos, por outros tantos caminhos,

Que não precise pisar firme nesse chão, que não se esforce,

Pois todo esforço nesse instante é vão.

Apenas quer alçar voo, e depois de algum tempo, renascer

Como a Fênix, que ressurge das cinzas e volta a viver.

 

Cinzas

Clauder Arcanjo

 

– Foi tudo tão ligeiro…

A fumaça ainda anunciava a força das labaredas.

– Você está preso!

Os olhos lhe ardiam, dadas as cinzas que a tudo cobriam.

Quase dois anos, desde a tragédia até o júri popular.

Hoje, o juiz a anunciar:

– Crime: homicídio premeditado. Trinta anos, em regime fechado.

– Foi tudo tão ligeiro…

 

Remissão

Célia Medeiros

 

Depois que se fez noite em meus dias,

Sob o véu negro do pecado, o meu rosto disfarçou

Aquela lágrima dorida que embaçou o meu olhar.

O pensamento feito um turbilhão

Voou para aquele templo abençoado

Onde me vi aos pés da cruz ajoelhada,

Refletindo sobre a minha vida,

Guiada pelo livre-arbítrio;

Quanto fiz certo e quanto fiz errado…

Ali clamei ao Senhor, nosso Deus!

Ó Pai, bondoso e justo, a Ti peço clemência,

Embora não seja merecedora, pois sou alma errante.

Venha em meu auxílio; perdoa os meus pecados,

Fazendo-me mais leve, consciente e amorosa,

Apagando de minha mente todos os rancores,

E, do meu coração, os desamores.

Como nos ensina o Vosso mandamento

Maior, sobre a lei do amor,

Quando enviastes Teu amado Filho,

Como ser perfeito a ser seguido,

Que se doou por completo para nos salvar.

Concede-me, enfim, a remissão de meus pecados,

Fazendo-me digna de amar e ser amada,

Um ser de luz, por Ti abençoada.

 

Remissão

Clauder Arcanjo

 

– Perdeu a língua, foi?

Na penitenciária, ninguém sabia da sua voz. Apenas, do seu silêncio.

Era o mais antigo prisioneiro. Há quase trinta anos, sempre sozinho, a mão numa fotografia e a outra a debulhar um terço. Infinitas contas. Dia e noite, noite e dia. Na cela e no pátio.

– Perdeu a língua, foi?

 

________________________________

* Contato: cely.marry.love@hotmail.com

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com