Índex* – Abril, 2021

Posso

Dormir por

Mil anos

E o cansaço

Não escorrerá

Pelo meu corpo

Nu

*

Mas

Vejo o teu

Corpo

Manhãzinha

O vento

Brincando

A tua camisa

De algodão

Levando

Jangada

Para

Imensidão

Do mar

*

Trazer

Peixinhos

Alimentar

Família

Filhos

Pequenininhos

*

E os

Mil anos

Desaparecem

No átimo de instante

Em que

Meus olhos

Encontram

Os teus

(“Idílio”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/04/2021, 07h07)

O amor por cada ser humano no Índex de Abril, 2021 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Abril, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

Escrita Criativa em mim – Capítulo 9 – Os outros | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema e lançamento do livro de Altair Martins (RS – Brasil).

Poema de Cilene Santos (PE – Brasil).

Manual de empreendedorismo e fé | Deborah Barros (PE – Brasil).

A caixa-preta | Geórgia Alves (PE – Brasil).

Oficina de Escrita Acadêmica | Prof. Lívia Magalhães (PE – Brasil) | enviado por Catarina Raquel (PE – Brasil).

E os links do mês:

O novo livro traduzido por Isabelle Macor (França): https://www.editions-lanskine.fr/actualites

A entrevista de Rozze Domingues (PE – Brasil) no Arte Agora: https://youtu.be/f2pxtEWiEsY

O artigo de Sidney Nicéas (PE – Brasil) no Ver Agora: https://www.veragora.com.br/tesaoliterario/artigo/sidney-niceas-o-ceu-e-um-sorriso-de-canto-de-boca

O novo livro de Tiago Germano (PB – Brasil): https://www.catarse.me/especies

A próxima postagem será em 30 de Maio de 2021, agradeço a atenção de sempre, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – Avril, 2021

I can

Sleep by

A thousand years

And tiredness

It will not drain

Through my naked

Body

*

But

I see your

Body

Morning

The wind

Playing

Your shirt of

Cotton

Leading

Raft

For

Immensity

Of the sea

*

Bring

Little fishes

To feed

Family

Sons

Little ones

*

And the

Thousand years

Disappear

In the last instant

On which

My eyes

Find

Yours

(“Idyll”, Patricia Gonçalves Tenório, 04/09/2021, 07h07)

The love for each human being in the April Index, 2021 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online – April, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Miscellaneous.

Creative Writing in Me – Chapter 9 – The others | Patricia Gonçalves Tenório.

Altair Martins’ (RS – Brasil) poem and book launch.

Poem by Cilene Santos (PE – Brasil).

Entrepreneurship and faith handbook | Deborah Barros (PE – Brasil).

The black box | Georgia Alves (PE – Brasil).

Academic Writing Workshop | Prof. Lívia Magalhães (PE – Brasil) | sent by Catarina Raquel (PE – Brasil).

And the links of the month:

The new book translated by Isabelle Macor (France): https://www.editions-lanskine.fr/actualites

The interview with Rozze Domingues (PE Brasil) at Arte Agora: https://youtu.be/f2pxtEWiEsY

Sidney Nicéas’ (PE Brasil) article in Ver Agora: https://www.veragora.com.br/tesaoliterario/artigo/sidney-niceas-o-ceu-e-um-sorriso-de-canto-de-boca   

Tiago Germano’s (PB Brasil) new book: https://www.catarse.me/especies

The next post will be on May 30, 2021, I thank you for your attention, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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**

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O despertar do idílio pelo mundo inteiro. The awakening of idyll for all over the world.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Abril, 2021

Continuamos em nossas viagens pelos mundos de dentro de escritoras e escritores brasileiros. Em abril de 2021, navegamos pelas Vidas secas, de Graciliano Ramos, nascido em Quebrangulo, com casa-museu em Palmeira dos Índios, ambas cidades das Alagoas.

*

Primeira Aula do Módulo 4:

*

*

Na primeira aula do módulo, comparamos a escrita de Graciliano Ramos (Vidas secas) com as pinturas de Candido Portinari (“Os retirantes”) e a semelhança entre seus respectivos personagens (Fabiano e o palaninho, alter egos de seus autores); investigamos a prisão da linguagem, do corpo e das roupas em Fabiano, comparando-o com Sinhá Vitória; e realizamos o diálogo entre Vidas secas e o existencialismo de Jean-Paul Sartre.

*

Segunda Aula do Módulo 4:

*

*

Visitamos, de maneira virtual, os muitos lares de Graciliano; fizemos a comparação, mesmo que abismal, entre a prisão de Graciliano relatada em Memórias do cárcere e o isolamento social em tempos de pandemia; continuamos investigando a linguagem como prisão para Fabiano e sinhá Vitória, ao mesmo tempo que instrumento de libertação – citamos brevemente o livro História, memória: o testemunho na era das catástrofes, de Márcio Seligmann-Silva – e apresentamos alguns filmes sobre Graciliano e a Escrita Criativa.

*

Terceira Aula do Módulo 3:

*

E é com imensa alegria que convidamos para a live, no nosso canal do YouTube, na próxima quarta-feira, 28/04/2021, a partir das 19h, com a escritora, poetisa, jornalista, mestra em Comunicação, doutora em Sociologia e especialista em Escrita Criativa, Raldianny Pereira, que irá nos brindar com seu processo de criação, e, juntas, homenagearmos um dos maiores conhecedores de Graciliano Ramos, o filósofo, poeta e professor Lourival Holanda. Não percam!

*

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

*

Exercícios de desbloqueio:

*

Módulo 1 – Osman Lins:

*

Dilma França

Contato: dilma_franca@hotmail.com

*

O HÓSPEDE**

*

Foi ao cair da tarde de um belo dia de verão que ele chegou. Parecia ser o mais jovem morador daquele pensionato. Porte de atleta, olhar sedutor que deixava transparecer a alegria de viver. Essa alegria era contagiante e passava, para mim, a “estonteante sensação de estar viva.”

Amei… ou, como se diz por aqui, foi amor à primeira vista. Passados poucos dias, já estávamos juntos e parecia que nos conhecíamos há bastante tempo. Era bom estar com ele. Eram momentos mágicos que, juntos, transformávamos em poesia. A minha vida mudou. O mundo mudou. Tudo mudou.

Entre uma pausa e outra da faculdade aproveitávamos para namorar. Eu, “de olhos cerrados, nada escutava do que acontecia no exterior.” Enquanto ele, apaixonadamente, sussurrava ao meu ouvido: “Quero-te com uma loucura do que nunca me imaginei capaz.” Era, simplesmente, MARAVILHOSO!!!

** As frases entre aspas são do livro O visitante, de Osman Lins.

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com    

*

Janelas de minha alma

*

Todo dia vejo o mundo através de minha janela.

São os barulhos da manhã de segunda-feira em pleno verão de Porto Alegre, onde um barquinho cruza as águas de um rio que talvez seja lago ou lagoa, não sei bem. Diferença do dia de ontem, onde o silêncio do domingo se fazia opressor. Gosto das segundas por isso. Tem coisa de vida que reinicia, tem cheiro de esperança.

Esperança talvez tenha disso, ser a força que leva adiante, ser o que sinaliza que a vida continua. Apesar da dor. Apesar da ausência. Apesar do medo.

Confesso. Já via a vida através das minhas janelas. Nunca fui das ruas, meu mundo interno é vasto. O contato social, nem tanto. Talvez por isso, o isolamento não tenha sido tão forçado. Sei lidar com o ficar em casa.

Sei?

Nem tanto. Outra confissão desses dias em que minhas certezas se esgotaram e só vivo deixando a vida me levar. Hora de retesar os cordéis, empunhar os corcéis nessa rima pobre.

A casa. Como eu, precisando de desapegos. Acúmulos de lembranças que trazem pó e não resolvem o presente. Passado que atravanca o futuro.

Olho a janela e vejo movimento.

A vida é feita dele. Ação e reação. Neste ano de 2021, meu pai faria 100 anos. Estou organizando um ebook sobre ele. Será para os familiares. Mas a visita ao seu mundo, suas palavras, fotos e lembranças me trouxeram muito dele que era sonhador e prático. Talvez a mensagem seja resgatar essa herança dentro de mim.

A janela? Continua minha visão de mundo predileta. Sinto cheiros vindo da rua. O que, nesses tempos covídicos, sempre é um alívio. Ontem falava com um amigo sobre como populações desorientadas acabam por atrair um predador. Ironicamente, como em a Guerra dos Mundos, a tecnologia acaba vencida por um vírus, algo que não podemos ver, mas que abala nossas defesas.

E a casa? Guardiã de nossa segurança, nosso abrigo básico desde o tempo das cavernas e fogueiras que acendiam imagens de bisontes e lutas.

Enquanto teço imagens em minha própria alma, a vida lá fora se faz sobrevivência. A gata mia, uma urgência doméstica me chama. O trabalho espera com suas prioridades. Olho a janela e o mundo começa a acontecer. Tenho esse privilégio.

A alma? Voa pelas frestas, alcança o céu e coloca um sorriso nos meus olhos.

Continuo.

*

Módulo 2 – Manuel Bandeira:

*

Elenara Leitão

*

Das ruas da minha infância

*

Tão grandes as ruas da minha infância! Maiores por ser eu tão pequena. Eram seguras, convidativas para um caminhar, um brincar de amarelinha.

Novo Hamburgo, uma cidade próxima à Porto Alegre, com ruas tão limpas que parecia não haver habitantes. Nossa casa, branca como as nuvens, ficava em cima de um morro. Nos verões escaldantes, faltava água. Íamos de sacolinhas, a pé, até o Clube Aliança. Piscina e o banho que, fora de casa, tomava ares de aventura.

Anos depois, fui passar um carnaval em Laguna/SC, na casa de um pescador. Eu e uma turma de jovens urbanos. Além do piolho, que pegamos na noite em colchões conjuntos, também a água faltava. O jeito era pegar um barquinho, atravessar as águas e ir tentar um banho no camping local, rezando para que nos confundissem com os barraqueiros de lá. Ou comprar um no barzinho simpático, cujo banheiro tinha uma janela enorme que dava para uma mata. Tomara não tivesse ninguém ali. Bons tempos em que o celular não tinha sido inventado, nem as câmeras fotográficas eram tão comuns. O voyeurismo ficava apenas na memória de quem viu. Se é que viu.

Mais um recorte, já é Natal. O pai chega do banco, nos coloca no carro e vamos ver as vitrines da Rua da Praia. Eram anos 60. Meu irmão não curte aquela caminhada e fica dormindo no banco do carro, que permanece aberto. Não só podíamos andar à noite, em passeio familiar no centro de Porto Alegre, como o carro podia ficar uma quadra distante sem trancas e com um pirralho dormindo dentro. Hoje parece inconsequência, mas eram tempos tão mais inocentes. Lembro das luzes da rua, fervilhando de pessoas encantadas com os bonecos e enfeites que se mexiam. Não lembro o nome da loja, ficava na quadra antes da Massom, cada ano as vitrines se superavam. Meus olhos de criança brilhavam com aquelas magias.

Outra rua que me fascinava era uma avenida. Carlos Gomes. Meu pai tinha um aero willys azul com bancos vermelhos. Ele adorava passear de carro. Não só nos fins de semana, mas a cada anoitecer, quando chegava do trabalho, nos colocava no veículo e dava uma volta pela cidade. Fui saber dele, já adulta, que era das coisas que mais gostava na vida. Acho que lhe dava uma sensação de liberdade, de ver coisas novas, mesmo que conhecidas, ele que tinha olhos de descobertas para a vida. A Carlos Gomes era tão ampla! Meus olhos adolescentes, já acostumados às esplanadas de Brasília, onde morara, não mais reconheciam a avenida de minha infância naquela rua agora tão acanhada. Como mudam os conceitos quando novos parâmetros surgem em nossas mentes.

No planalto central deixei o velho conhecer as ruas pelos nomes. Passaram a ter siglas. Minha mente lógica se acostumou logo, achando algo completamente encantador. Era muito mais fácil de entender uma cidade assim. Ao Leste a L alguma coisa. Ao Oeste as W (west em inglês) 1, 2, 3 e assim por diante. SQS 315 passou a ser meu endereço ao invés da Rua Duque de Caxias. Algo muito mais apropriado ao século XX!

Os espaços se ampliaram, a luz era mais intensa, não mais abrigadas pelos prédios e ruas estreitas. As visões de D. Bosco olhavam um local que reunia gente de todo o Brasil e que ali, me fez sentir o tamanho real de meu país. A geografia tomou forma e nome. Eram sotaques, experiências e vidas de todos os estados. Meu sotaque sulino extraía risadas em salas de aula. Nunca me senti tão gaúcha como quando longe de meus pagos.

As ruas que vivi se mesclam em memórias e ficção. Já não as lembro com detalhes, apenas com sentimentos.

Eram acolhedoras e seguras como casa da gente. Cada uma guarda seus nomes e referências em algum lugar dentro da lembrança. Na verdade, saudade mesmo é da infância.

*

Módulo 3 – Ferreira Gullar:

*

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

*

O ESGOTO

*

Água suja escorria

Pelas ruas do morro

Pobremente cuidadas

Descendo ladeira abaixo

Em velocidade

Pelos becos entre curvas se curva

Lá embaixo ao pé do morro

No encontro com a praça

Abandonada

Despeja nutrientes

Num canteiro sem vida

Aos poucos hidrata aquela terra

Estéril

A vida renasce

Plantinhas brotam e dançam

Ao toque macio do vento

Florescem

E convertem água suja

E mal cheirosa

Em um jardim

Lindo!

Perfumado!

Colorido!

*

Dilma França

*

CARUARU, CIDADE-POEMA!

*

Quanto mais o tempo passa, mais bonita, mais formosa e mais acolhedora fica a nossa cidade. Mas por que cognominá-la de “Cidade-poema”? O que faz com que seja considerada, por alguns, como uma cidade-poema? O que ela nos ensina, o que ela nos mostra e o que ela transmite aos que por aqui passam? 

Depende muito dos olhos de quem a vê. De quem sabe transformar o “barro sujo” em poesia, fazendo brilhar o Alto do Moura, a terra do Mestre Vitalino; de quem sabe dar a forma poética à “água escura” que escorre do Monte do Bom Jesus e transforma a sua escadaria, enchendo-a de canteiros multicores, além de nos proporcionar a apreciação de um belo entardecer.

Referir-se a Caruaru como Cidade-poema, consiste em querer mostrar ao mundo que, aqui, temos inúmeros predicados em relação à cultura de um povo. Povo simples, honesto, trabalhador, que vive a arte e que respira a arte. Aqui, tudo é beleza, enlevo, sedução… Sensibilidade, carinho e paixão! Na minha Caruaru, tudo é poesia!

*

Elenara Leitão

*

*

Módulo 4 – Graciliano Ramos:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

*

*

LEMBRANÇAS DO CÁRCERE

*                                                                                                       

Faz quase um ano que aprisionadas estamos. Para mim, que nesse tempo usei a escrita para não calar perante o abismo da alma, sinto que foi uma benção. Tudo aconteceu há quase um ano, mas parece que muitos mais anos se passaram desde que foi decretado o isolamento e nos obrigaram a ficar em casa.

Afortunados estarmos em casa com tudo chegando em nossas mãos, recebendo tudo que precisamos, basta apenas um digitar no telefone. Toda a comodidade vem por delivery. Estamos bem providos e muito bem cuidados. Casa limpa e higienizada com um percentual grande do vírus não entrar pela porta adentro. Desventurados os que ficaram desempregados, os que precisam estar na rua. Os quem não tiveram escolha. Fecho os olhos e na impossibilidade de palavras para relatar a prisão dos que se foram sem consolo. Chove aqui dentro do peito com a mesma força de lá fora nesse mês chuvoso de abril de 2021.

Escuro foi o tempo de um ano atrás… quando dois dos meus se foram. Muitas águas correram pelos olhos, por tantas noites… desabaram de um coração aflito por providências eficazes. Havia um estado de alerta constante, a necessidade de tomar decisões acerca da vida dos outros, para no final restar somente medidas para duplos e consecutivos enterros.  Não consigo dizer por escrito a dor de perder entes queridos, de acompanhar enterro com espaço delimitado. De nem poder enterrar meus irmãos, de assistir missa online… apenas sinto no meu coração profundamente e demonstro na minha fala, quando eu ler estas lembranças.

Como relatar os dias finais que não sei o que eles passaram? Imagino que tiveram o grande medo do desconhecido e talvez uma enorme aflição nos derradeiros tempos. O grande medo de perder suas almas aprisionadas nesse corpo terreno. O medo de deixar a casca que sinto com mais profundidade nesses tempos. Talvez, pelo calvário dos meus, pude me identificar com os do lado de fora, porque neste mundo de dentro estou confortavelmente segura. Não devo me lamentar. Mesmo assim, é difícil narrar a agonia das pessoas moradoras de rua. As que estão nos hospitais talvez possam imaginar, pois conheço relatos angustiados, de solidão e isolamento, de falta de carinho e amparo. Tenho consciência que os que estão do lado de fora é que estão vivendo o verdadeiro pesadelo. Por isso, silencio hoje sobre tudo que já passei, pois é ínfimo perante o sofrimento alheio. Faltam-me palavras e sobra a raiva dos interesses e interessados nas vantagens que podem tirar em meio dessa crise mundial. De pessoas brigando por espaços políticos, de políticos fazendo muito pouco por seus eleitores… Não, o meu cárcere particular não merece nem ser descrito. Vivi num paraíso, uma ilha, no meio do caos para tantas almas que suspiram pela noite adentro. Muitas, quiçá, ainda perdidas nesse mundo. Com a chuva vêm as lagrimas que se misturam ao silencio da noite trazendo um pouco de alivio. É no silencio aqui de dentro que vou dormir agasalhada das mazelas do mundo de fora. Minha porta está fechada como o desenho que termino. E como só imagino, não consigo expressar verdadeiramente a dor que vem do lado de fora, escrevo um poema.

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Abril, 2021

Capítulo 9 – Os outros

            Desde 2012 que ingressei no universo maravilhoso do ambiente acadêmico na área de Literatura. Graduada em Ciências da Computação pela Unicap, somente me descobri escritora de poesia, crônica e ficção em 2004, quando fechei as portas da Livraria Domenico, e investiguei diversas oficinas literárias pelo Brasil e pelo mundo – Raimundo Carrero (Recife), Assis Brasil (Porto Alegre), Sorbonne e Isabelle Macor (Paris), Val-David e Flavia Cosma (Canadá), Norwich (Reino Unido) …

            Mas nada se compara aos colegas-amigos-amantes da boa escrita que tive o privilégio de conhecer ao longo dos anos. São tantos e tão bons que correria o risco de esquecer de alguém, e, com isso, magoar uma amizade literária que prezo tanto.

           Contudo, não posso jamais deixar de agradecer a três pessoas que me apoiaram e influenciaram em tudo o que fiz, faço e (espero) farei. Do início de tudo, trago ao centro Bernadete Bruto e Elba Lins. Berna e Elba – como costumo chamá-las, que, de tão parecidas, muitas vezes troco os nomes –, acreditaram no meu potencial como professora, e, dessa fé, nasceram os Estudos em Escrita Criativa presenciais (2016, 2017 e 2018) e on-line (2020 e 2021), o curso de extensão de mesmo nome na Unicap (2019.1) e a primeira turma de especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2).

           Do final de ciclo/início de outro, trago Adriano Portela, que lá nos idos de 2014, quando eu apreendia a escrita teórica no mestrado da UFPE, me adotou como madrinha literária, eu assumindo com imenso prazer este papel, orgulhosa pelo desempenho maior e melhor do que o meu (motivo de orgulho para qualquer professor/a – que se preze – ver um/a aluno/a superá-lo/a), quando passa em primeiro lugar na seleção de mestrado, quando consegue fechar na garra e na coragem, em tempos tão difíceis, a segunda turma da especialização acima citada.

            A parceria-amizade-literária com Adriano não para por aí. Gravamos, em plena pandemia e sem nos encontrarmos uma só vez, A baronesa, um vídeopodcast da leitura dramatizada deste texto meu de 2019.

            E, em dezembro de 2021, teremos uma outra novidade, eu e meu afilhado tão querido. Para não dizer que não falei das flores, apesar de tantos espinhos nos guetos literários que narrei no capítulo 8 da Escrita Criativa em mim.

Flores para uma Escrita Criativa em mim, Budapeste, Hungria, julho de 2018.

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[1] Coluna publicada mensalmente nos blogs
www.patriciatenorio.com.br e www.veragora.com.br/tesaoliterario.     

[2] Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeopodcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa     

Poema* e lançamento do livro** de Altair Martins***

48. A IMAGEM COMO UM FURTO
Dentro da imagem,
o mundo não mais desperdiça
e ao contrário: se caixa
onde (quadrado) se alberga.
Dentro da mesma imagem
também se definitiva
o chão onde agora
o mundo pisa.
*
Ali onde o mundo é
excisão de si mesmo ontem:
ponta de unha de unha amputada
que jaz e sem história.
Ali onde os veleiros param
e a água fecha a boca
a fim de que nada seque
do que sedento segue.
Ali onde duas pessoas
são nucas e costas e braços
e pernas eternos.
Ali onde folhas e franjas,
na perpendicular do corte
são indício (talvez poda)
da árvore que não existe.
Ali onde o céu se rebaixa
e até o pecado descansa.
*
Portanto
é sobre o dentro da imagem
que escrevo
como quem sutura
ou cobra uma pensão.
É pra dentro da imagem
que arrasto o furto
(o fundo e as figuras).
Porque é dentro da imagem
que convoco a intervir
o perfume e a voz
do que vivo foi e agora:
múmia de rio e vela e folha
e homem e mulher e muro
confinados ao intervalo
do fio de cabelo
que sempre passa
e silencia.
Dentro da imagem:
tudo que agora se avulsa
e que o mundo não reconhecerá
como filho.
*
A imagem: mundo condensado
e manejável de gaiola.
A imagem: pedaço de mundo
que escapou da execução.

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AUDIO-2021-04-22-11-06-30 – Altair

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* Poemas postados no Jornal Nova Folha, Guaíba, RS. Fotografia: Valmir Michelon. www.novafolha.com.br/altair-martins

*** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar(Porto Alegre: EdiPucrs, 2019) e o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) são suas últimas publicações. Ministrante, em setembro de 2019, da disciplina Oficina de Poesia na primeira turma de especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br

Poema de Cilene Santos*

AS ESTRELAS

Às vezes acordo cedo
Quando ainda é madrugada
Abro a cortina e reclino
No peitoril da sacada
Aproveito o silêncio
Daquele fugaz momento
Pra conversar com as
estrelas
E acolher seu alento
Atentas elas me escutam
Aconselham-me certeiras
E guardam os meus segredos
Já se tornaram parceiras
Algumas, as mais antigas
Já dormem e estão apagadas
Outras piscam vez em quando
Para o sono disfarçar
As mais novas permanecem
Fazendo-me companhia
Até os primeiros traços
Do raiar de um novo dia.

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AUDIO-2021-04-04-08-05-41 – Cilene

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* Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e A vida de Joel Pontes, em cordel. Participa dos Estudos em Escrita Criativa desde 2018. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Manual de empreendedorismo e fé* | Deborah Barros

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AUDIO-2021-04-23-12-01-45 – Deborah

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* Manual de empreendedorismo e fé: 100 reflexões para transformar você e seu negócio. Deborah Barros. Recife: Provisual, 2021.

A caixa-preta* | Geórgia Alves**

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AUDIO-2021-04-23-13-18-55 – Geórgia

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* A caixa-preta, Geórgia Alves. 1a ed. Maringá: Viseu, 2021.

Oficina de Escrita Acadêmica | Prof. Lívia Magalhães | enviado por Catarina Raquel

https://doity.com.br/escritaacademica2

Índex* – Março, 2021

Nasce

Em mim

O amor

Pelo mundo

Inteiro

*

Feito

A florzinha

Que não pede

Ao mato

Para brotar

*

Feito

A água da

Cachoeira

Que não pede

À pedra

Para tombar

*

Feito

O navio

Que não pede

Ao mar

Porque

Navegar,

Navegar,

Navegar

(“Porque viver também é preciso”, Patricia Gonçalves Tenório, 03/03/2021)

Nasce o amor pelo mundo inteiro no Índex de Março, 2021 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Março, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

Coleção Quarentena | de Patricia Gonçalves Tenório | por Bruno Vinícius (PE – Brasil).

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema de Altair Martins (RS – Brasil).

Flor de Resistência | com Alves de Aquino (CE – Brasil) & Carlos Nóbrega (CE – Brasil).

Poema de Cilene Santos (PE – Brasil).

Curso de João Augusto Lira (PE – Brasil).

Links do mês:

Entrevista com Alves de Aquino: https://vimeo.com/375940476

Texto de Homero Fonseca (PE – Brasil):

https://homerofonseca.medium.com/homenagem-%C3%A0-mulher-brasileira-d2968aed9e64

Sarau Proso-poético no Londrix (com Patricia Gonçalves Tenório & Diversas):

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 25 de Abril de 2021, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* March, 2021

It borns

In me

Love

For the whole

World

*

Like

The little flower

That doesn’t ask

To the bush

To sprout

*

Like

Water from

Waterfall

That doesn’t ask

The rock

To tip over

*

Like

The ship

That doesn’t ask

To the sea

Because

To sail,

To sail,

To sail

(“Because living is also necessary”, Patricia Gonçalves Tenório, 03/03/2021)

Love for the whole world is born in the March, 2021 Index of Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies – March, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Miscellaneous.

Quarantine Collection | by Patricia Gonçalves Tenório | by Bruno Vinícius (PE – Brasil).

Creative Writing in Me | Patricia Gonçalves Tenório.

Altair Martins’ poem (RS – Brasil).

Resistance Flower | with Alves de Aquino (CE – Brasil) & Carlos Nóbrega (CE – Brasil).

Poem by Cilene Santos (PE – Brasil).

Course by João Augusto Lira (PE – Brasil).

Links of the month:

Interview with Alves de Aquino: https://vimeo.com/375940476

Text by Homero Fonseca (PE – Brasil):

https://homerofonseca.medium.com/homenagem-%C3%A0-mulher-brasileira-d2968aed9e64

Prose-poetic soiree at Londrix (with Patricia Gonçalves Tenório & Miscellaneous):

I thank you for your attention and affection, the next post will be on April 25, 2021, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O cuidado com o outro na praia vazia de Boa Viagem (Recife, PE – Brasil) durante a pandemia de Covid-19. Caring for others on the empty beach of Boa Viagem (Recife, PE – Brasil) during the Covid-19 pandemic.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Março, 2021

No mês de março de 2021, investigamos o universo pungente do poeta, crítico de arte e escritor de São Luís do Maranhão, Ferreira Gullar.

Primeira Aula do Módulo 3:

Na primeira aula do módulo, compreendemos com Ferreira Gullar que o corpo é uma casa que morre; narramos uma breve biografia de Ferreira Gullar e algumas cidades que habitou (São Luís, Rio de Janeiro, Buenos Aires); apresentamos o componente imagético e a manifestação sinestésica na poesia do autor; detectamos a transformação das palavras sujas (urina, lepra, podre, ferrugem, mijo, lama) do poeta estudado em pedra, ouro, sol e mar, através de uma quebra de sentido, como se fosse um murro no estômago; e constatamos uma relação entre a escrita de Ferreira Gullar e a arte de René Magritte com sua quebra de sentido das palavras.

Segunda Aula do Módulo 3:

Continuação da análise de algumas técnicas encontradas nos poemas de Gullar além da limpeza das palavras sujas, em especial, as listas de Sei Shônagon, o refrão “bom dia” em “Ocorrência” e novamente Edgar Allan Poe visto em Manuel Bandeira; o conceito de objeto que encontramos em Romances de cordel, “A casa” e “Poema” do livro Dentro da noite veloz, relacionando com a letra órfã de pai ausente do discurso de Jacques Rancière no seu Políticas da escrita, além da indicação de filmes sobre Ferreira Gullar e a aplicação do exercício de desbloqueio.

Terceira Aula do Módulo 3:

E é com imensa alegria que convidamos para a live com o poeta, escritor, doutor em Teoria da Literatura (UFPE), o também maranhense Antonio Aílton, na próxima quarta-feira, 31/03/2021, a partir das 19h, no nosso canal do YouTube. Não percam!

https://www.youtube.com/watch?v=El8Bip298pg

Exercícios de desbloqueio:

Módulo 1 – Osman Lins:

Diego Felipe

Contato: diegopereiranoleto@hotmail.com

Marina abriu apressada a porta do quarto. O corpo agitado, o rosto saliente para a sala, e sua voz retumbante: “alguém me chamou?”, disse. Em outro tom, em outras palavras: “Mãe, o que é?”.

Foi invadida por um silêncio de domingo, uma apreensão de igreja, e já dava umas passadas e pisou num chão úmido e escorregadio. É provável que Anita estivesse a limpar os cômodos. Sentiu o cheiro de pinho e lavanda. Estacou culpada da imundície dos seus pés olhando as prateleiras na sala.

Quem lhe dera? Admirada pelo pequeno jarro sob a cômoda. Um tampo de barro avermelhado, e um talo verde a subir a apontar o forro. Quis tocar-lhe o tronco, talvez agora mais robusto, mas aquela casca fria e espinhenta, umas pontas finíssimas e luminosas pelo claro da manhã. Apenas curvou-se, o rosto cuidadoso, uma alfinetada de uma lembrança dolorida, a mão ingênua no cacto.

Agora dava com aquele verde, o vermelho do pote, um prato forrando-lhe, em contraste com as tábuas de madeira tão assim amarelas? Achou feio. E como era que não notara antes, essa dissonância? Quando cortava o cabelo curto demais, logo o semblante se contorcia no espelho, que para coisas feias nada se basta. Um dia nublado se nota e se cansa, ou uma mancha em roupa alva, ou os móveis fora do lugar, e logo se percebe assim a mudança das coisas, e ela, nem tão bonita, não se conforma com a feiura. No entanto, não dera com aquilo, e quis chamar Anita, não, melhor a mãe, não, que ela mesma o fizesse. Mas o quê?

Teve medo.

Postaram aquela planta sobre a mesa, um broto tão inofensivo, a mãe a colher uns grãos de terra, a tia a sorrir de tão desajeitada criatura. O que era?, perguntara, e a mãe lhe negara o nome, olhos sérios, o dedo ríspido: “Não toque”. Mas ela gostava daquilo, um bicho verde, um animal de estimação, e pôs a mão firme, fechou com força e tanto ímpeto, que demorou para que gritasse, e mais alguns segundos para saber que dela partia aquele turvo sonoro alto e fino, como são os gritos de uma menina. A mão úmida e vermelha, uma revoada de mulheres, como patas desvairadas, e o primeiro choro de dor.

Ouvira uns passos em outro cômodo. Arrastavam-se uns pés de coisa grande e pesada. Um suspiro de força e cansaço.

“Anita?”. Confusa, ela deixou escapar. “Mãe?”, com uma força mais para quem sabe romper uma parede, e diante daquele vazio só o pequeno cacto, já protuberante e altivo que lhe respondeu. Fora em silêncio, imóvel como tantas outras coisas por ali, espalhadas e vivas, coisas que tinham formas e cores, ela notava, e a casa como um grande baú cheio, as lembranças que brincavam com ela tão títere e sozinha.

“Tens quantos anos”, disse em tom piegas, mas rapidamente repreendido, o dedo em brasa para a ponta da planta. Espetou-lhe com um remorso ardente de dor, e conteve a custo o grito, achando-o um tanto assim tão lindinho.

“Mãe? Anita?”, forçara a garganta, e no instante seguinte só lhe veio um eco lá de dentro.

Módulo 2 – Manuel Bandeira:

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

A RUA 15 DE NOVEMBRO

                                                                 QUERO A DELÍCIA DE PODER SENTIR AS COISAS MAIS SIMPLES.

(MANUEL BANDEIRA)

Era ali que acontecia a grande Feira de Caruaru, cantada e decantada pelo compositor Onildo Almeida e pelo cantor Luiz Gonzaga. A rua que me viu crescer. Ou foi o contrário? Eu que a vi crescer. Bem, caminhamos juntas. Aos nove anos de idade, era comum, aos sábados, dia da feira, acompanhar mamãe nas compras de frutas, legumes, hortaliças e outros mantimentos para abastecer a nossa casa. E tomávamos o melhor caldo de cana do mundo.

Logo no início da rua, ficava a Feira de Panelas (de barro). Grande era o meu deslumbramento diante daquela exposição de obras de arte. Um sortimento de objetos, cores e formatos produzidos pelos artesãos do Alto do Moura. Entre eles, o ilustre Mestre Vitalino que comercializava as suas obras, inclusive o famoso Boi de Vitalino. Do barro, veio toda a mobília da minha casinha de bonecas. Caminhando um pouco, encontro a casa número duzentos e quinze, onde ficava o consultório e a residência do Dr. Geminiano Campos, a quem procurei aos doze anos. Foi ele quem atestou que eu estava “apta a submeter-me aos exames de Admissão ao Ginásio.”

Aos quinze anos, senti despertar os primeiros sonhos do amor romântico. Nas festas de final de ano, que ocorriam na mesma rua, com as amigas desfilávamos ao redor da praça, com olhares fugidios para os rapazes que, em grupos, soltavam galhofas, quando passávamos. E ficávamos contentes.

Também na Rua Quinze, encontrei o meu primeiro emprego formal e o Colégio Santa Inês, que me deu “régua e compasso” com que tracei os meus caminhos. Ao concluir o Curso Pedagógico, ali mesmo iniciei a minha jornada como professora. Lembro bem que na rua havia um alto-falante que divulgava notícias e músicas, A canção francesa F… Comme Femme, do cantor belga Salvatore Adamo faz parte, até hoje, da minha trilha sonora. Aquelas notas musicais inundavam o ar e caiam macio, nos corações apaixonados das meninas da minha geração.

Continuando e concluindo a minha saga pela Rua Quinze de Novembro, em dois mil e vinte, aos setenta anos, fui empossada como membro da Academia Caruaruense de Cultura Ciências e Letras, sediada na Rua Quinze, no mesmo casarão onde consultei o Dr. Geminiano Campos, aquele que me liberou para cursar o Ginasial. E o inesperado foi que assumi a cadeira treze, cujo Patrono é o Dr. Geminiano Campos. Por todas essas eventualidades, a Quinze de Novembro é a rua da minha vida.

Diego Felipe

Hoje, ele precisou lembrar. Como dizia o poeta, “uma flor que desabrocha no asfalto”, e entre pés, pedras, o asfalto negro e pneus aquele botão de flor. Já adulto, não há tanto encanto, mas, quando criança, nunca sonhara assim com algo tão inesperado. Aquele primeiro rasgo, aquela fissura, desencadearia a chegada deles? Sim, e numa tarde, Miguel correra de porta em porta para dizer que eles estavam chegando, que a primeira pedra estava plantada para todos.

Só nesse momento que lhe deu saudade daquela rua. Os meninos correndo, com a água da chuva descendo o córrego, e seus barcos de papel, e a volta pela ladeira em que havia a neve dos pequenos insetos alados, uns pequenos insetos, a lhes mostrarem o caminho de volta. Quando dobraram a esquina, tão visíveis e úmidas as fachadas das casas, corriam para chegar primeiro, as grades do portão de enlaço, um abraço do corredor cheirando a móvel velho, a sala do fundo, quente como um útero.

Ele e os outros meninos saíram das suas portas, um dia o seu fim de janeiro, aquele bordado cinza sob o cume das casas e das árvores, e lá na esquina as senhoras e os cachorros velavam a pedra.

Era ali que costumávamos patinar. O veludo negro do asfalto a lhe acariciar os pés desde tempo imemoriais, muito antes de toda sua infância, como uma herança. Perguntara certa vez em casa desde quando aquele chão ali repousara, quem o lhe havia posto, se um homem só ou um bando; mais curioso, quis saber até onde ia o fim daquela estrada. Na casa do Antônio, três quadras depois, o Sérgio e a Amélia lá pras bandas da ruela Vila. Na cabeça que o mundo lhe parecia mais vasto, as distâncias davam sempre um prazerzinho, um gosto de desconhecido. Lamentava, nesse instante, ter crescido tanto a ponto de se tornar cético.

Ele agachou-se, tocou a lasca de asfalto. Era uma pedra quente, os dedos grudando e manchados de visco. Dentro, um tanto assim de pontos luminosos, e o prazer de apalpar um pedaço de céu, que, como agora, sufocara um sentimento. Aquele pedaço que se deslocava do chão, de todos ali, e por tanto tempo, foi transposto de mão em mão. Primero, as crianças, vigorosas e a voracidade em comer; depois os adultos e velhos, curiosos, satisfeitos e de olhos de lamento, de uma tristeza daquela flor tão bela ser tragada de dentro, toda raiz, todo encontro.

Não passava de pedra, que, por algum motivo, foi corroendo-se por dentro e se abria em frestas, que nos pareciam sorrisos, mas depois largos demais, profundos, as caras a mapear tristezas, e ele procurava explicar para si mesmo porque Bruno fora embora, e dos outros que logo também tomariam outros caminhos, sem nada, mesmo hoje depois de tantos anos.

Falou, assim, vagamente, da rua onde morava e de como algo mudara naquela tarde em que um pedaço de chão se partira. Sentia agora, abandonado no sofá, que ali não fora o fim, mas um começo, e que logo se dispersaram, rumo a seus lares.

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

À MODA DOS ORIXÁS

Dancei um dia!

Dancei!

Eu,

Mesmo branca de neve,

Mesmo sem lugar de fala

Na dança me espalhei.

E sem descer dos meus saltos

Dancei para todos os deuses

Fui rainha orixá.

A pele da cor de prata

O corpo girando em círculos

Me fez cigana bonita

De pele da cor de ouro.

Meu vestido era vermelho

E com uma espada de fogo

Eu girava sem parar.

Depois me desfiz em vento

Sempre a rodopiar.

Sem temer raio ou trovão

Continuei a dançar.

Só quando a música cessou

Quando a noite virou dia

É que findou a magia

E eu parei de girar.

Fabíola Lucena

Contato: falucena@gmail.com

Declaração de amor ao carnaval do Recife

Essa noite eu sonhei que estava em Recife, havia chegado de Portugal onde vivo e desembarcava para as prévias do carnaval. No sonho, eu caminhava nas ruas no entorno do mercado de São José e Cais de Santa Rita onde os camelôs disputam espaços. De lá segui caminhando pelas velhas calçadas da rua Nova, rua Direita, igreja do Carmo, Dantas Barreto. Ali vão vendendo o colorido do nosso carnaval naquela bagunça pitoresca típica do centrão do Recife que, ao mesmo tempo, assiste o galo a ser montado na ponte Duarte Coelho onde corre por baixo o velho Capibaribe, testemunha ocular da cidade. Sigo andando por entre as pontes de um lado para o outro, apresso-me pela Aurora para conferir as novidades carnavalescas da rua Imperatriz. Atravesso de volta a ponte mais uma vez até chegar à Casa da Cultura e aproveito para comprar alguns artesanatos para minha casa. Lembro que esse ritual de ir dias antes do carnaval é um preparo para minha alma carnavalesca, é uma espécie de confirmação cultural de que ao menos durante essa época o recifense deixa de lado os inúmeros problemas sociais e econômicos para viver a magia do carnaval pernambucano. Um simples ambulante sorrir, exibe seu produto com orgulho porque ele também sente com a alma essa época. Desconfio que só quem cresceu em Recife entenderá esse meu sentimento. O sábado de Zé Pereira era o pontapé do meu carnaval. Os poucos anos que faltei deixaram-me um nó na garganta, uma espécie de carnaval não validado. Naquelas ruas castigadas do Recife eu sentia minha raiz, minhas cores, meu brilho, meu orgulho de ter nascido ali. E esse sentimento, mesmo a quase 8000 km de distância da cidade, me visitou em sonho. A dor da ausência de estar nas ruas do Recife Antigo, de encontrar as pessoas mascaradas e fantasiadas, de ir ao encontro na rua do Bom Jesus dos blocos antigos, citados em muitas músicas carnavalescas que parecem que nem existem mais, mas existem sim, muitos ainda estão lá. Como dizia o Maestro Nelson Ferreira: “Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois Fun, dos carnavais saudosos”. No sonho eu via o colorido das fantasias, pinturas, máscaras com tanto detalhe que podia garantir que fui teletransportada. Acordo em pleno sábado de inverno com uma dor no peito, uma dor de saudade! O que me conforta é que a magia do carnaval em Recife não vai acabar e um dia eu estarei lá novamente e esse sonho vai ser uma mera lembrança que hoje resolveu me assaltar.

Ilana Kaufman

Contato: ilakau7@gmail.com

À noite, ou de dia, caminhar até a orla de Ipanema, em Porto Alegre, é um espetáculo à parte. A partir da rua Déa Coufal, se avista umas Aroeiras-saldos e uns Hibiscus dispersos. É reconfortante andar pelas ruas deste bairro tão acolhedor. Ao chegar à avenida Guaíba, o rio se apresenta manso e límpido. Costumava sentar-me por longos e tranquilos minutos em um banco de pedra que facilitava a observação mais prolongada da paisagem. Como era agradável continuar o percurso encontrando plantas, aves e casas enobrecendo o horizonte. Algumas vezes, se deliciar com um picolé fazia parte daquela rotina.  Ao voltar para casa, depois de um dia de trabalho, nuvens rosas acompanhavam o trajeto.

Maria Clara Lima e Silva

Contato: clara.limas07@hotmail.com

Módulo 3 – Ferreira Gullar:

Bernadete Bruto

Escrita Breve

Ilana Kaufman

Por que respeitar?

 Tem gente que não admite ser gente

 Vive passando por cima de tudo e de todos

 Inconsequentemente.

Por que respeitar?

Comprar exacerbadamente,

Falar demasiadamente,

Fingir complacentemente.

Até quando e quantos sucumbirão por atos de tantos impunemente?