Índex* – Julho, 2019

O cansaço invade

O meu corpo nu

De palavras

E canções

De abismos

E paixões

 

E nem sei

Ao menos

Para onde vai

Este corpo antigo

Na busca

De um lugar ao

Sol

Na luta

Por um sonho amigo

No encontro

Do eu mesma

Comigo

(“Se lutar um dia alcança”, Patricia Gonçalves Tenório, 20/07/2019, 10h37)

 

Um sonho amigo que se aproxima no Índex de Julho, 2019 no blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS – 2019.2 | Diversos.

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2019 | Diversos.

Desenlace | Cilene Santos (PE – Brasil).

Imensa gratidão pela força e pelo carinho, a próxima postagem será em 25 de Agosto, 2019, grande abraço e até lá!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* July, 2019

Tiredness invades

My naked body

Of words

And songs

Of abyss

And passions

 

And I don’t even know

At least

Where it goes

This ancient body

In the search

Of one place under the

Sun

In the fight

For a friendly dream

In the encounter

Of me

With myself

(“If we fight one day we reach”, Patricia Gonçalves Tenório, 07/20/2019, 10:37 a.m.)

 

A friendly dream approaching at the July Index, 2019 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog (PE – Brasil).

Lato Sensu Specialization in Creative Writing – Unicap/PUCRS – 2019.2 | Several.

Studies in Creative Writing – July, 2019 | Several.

Denouement | Cilene Santos (PE – Brasil).

Immense gratitude for the strength and affection, the next update will be on August 25, 2019, big hug and until then!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um sonho amigo que se aproxima. A friendly dream approaching.

 

 

 

Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS – 2019.2

Recife tem primeiro curso de especialização

em Escrita Criativa vinculado à PUCRS

 

Universidade gaúcha é pioneira no país, com mestrado e doutorado na área

O primeiro curso de especialização em escrita criativa feito em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) acontece, no Recife, a partir do dia 16 de agosto. Com renomados professores gaúchos e pernambucanos, serão 14 meses de aulas presenciais e à distância.

As inscrições já estão disponíveis no site da Unicap (http://www.unicap.br/home/especializacao-em-escrita-criativa-unicap-puc-rs/). Serão 30 vagas, disponíveis para graduados em Letras e em áreas afins, como Comunicação, Direito, Tecnologia da Informação, entre outras.

O curso contará com 8 disciplinas e 11 professores, sendo 7 de Porto Alegre. As disciplinas, de 45 horas/aula cada, serão: História e Alcance Acadêmico da Criação Literária, Oficina de Narrativa I – Contos, Oficina de Poesia, Crítica Genética, Empreendedorismo Literário, Oficina de Narrativa II – O Romance e a Novela, Literatura e Outras Artes e Oficina de Criação – Texto não Ficcional e Outras Linguagens. As aulas ocorrerão uma vez por mês, sempre às sextas-feiras, das 18h às 22h; e aos sábados das 8h às 12h e das 14h às 18h, sendo apenas um final de semana a cada mês de encontro presencial.

A exceção, porém, será no primeiro mês. Serão dois finais de semana presenciais:  dias 16 e 17 de agosto, com o professor Assis Brasil, que ministra a aula inaugural; e dias 23 e 24 de agosto, com o professor Robson Teles.

Com a coordenação compartilhada entre Pernambuco e Rio Grande do Sul, à frente os professores Patricia Tenório, Robson Teles e Moema Vilela, o curso terá aula até junho de 2020, com o prazo de 60 dias para elaboração e entrega do trabalho de conclusão. Não é cobrada taxa de inscrição, ficando o valor em 14 parcelas de R$ 560,00.

Os professores já estão confirmados:  Adriano Siqueira Ramalho Portela (PE),  Altair Teixeira Martins (RS),  Arthur Beltrão Telló (RS),  Bernardo de Moraes Bueno (RS),  Julia Barbosa Dantas (RS), Lourival Holanda (PE), Luiz Antônio de Assis Brasil (RS), Moema Vilela Pereira (RS), Natalia Borges Polesso (RS),  Patricia Gonçalves Tenório (PE) e  Robson Teles Gomes (PE),

Sucesso – O curso é mais um passo na consolidação da escrita criativa em Pernambuco, processo iniciado em 2017, com a realização do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco, na programação da Bienal do Livro; com os Encontros em Escrita Criativa em Recife e Porto Alegre, ao longo de 2018, com apoio da PUCRS e da União Brasileira dos Escritores – PE.

Nesse ciclo, incorporou-se o curso de extensão promovido na Unicap no primeiro semestre deste ano, surgindo espaço para a pós-graduação, que possibilitará aos alunos que queiram seguir na carreira acadêmica utilizar até duas disciplinas em futuros mestrados ou doutorados em Escrita Criativa na PUCRS.

 

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Calendário 2019

Calendário 2020

 

16 e 17/08/2019 – História e Alcance Acadêmico da Criação Literária (aulas presenciais) 

Luiz Antonio de Assis Brasil (RS)

 

07 e 08/02/2020 – Empreendedorismo Literário (aulas presenciais)

Patricia Gonçalves Tenório (PE)

 

De 10 a 29/02/2020 – Empreendedorismo Literário (aulas EAD)

Moema Vilela Pereira (RS)

 

03 e 04/04/2020 – Literatura e Outras Artes (aulas presenciais e EAD)

Adriano Ramalho Siqueira Portela (PE)

 

15 e 16/05/2020 – Texto não Ficcional e Outras Linguagens (aulas presenciais e EAD)

Bernardo de Moraes Bueno (RS)

 

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2019

 

Em 19/07/19, nos reunimos, Bernadete Bruto, Elba Lins, Helena Bruto, Luisa Bérard e eu, para falarmos sobre Os russos.

Estava extasiada com a infinidade de técnicas da Escrita Criativa que descobri em Anna Kariênina, de Liev Nikoláievitch Tolstói (Iásnaia Poliana, Rússia, 1828-1910). Técnicas tais como Repetições, Listas, e o conceito de Figura que permeia (quase) todos os encontros dos nossos Estudos, desde agosto de 2016, quando nos reunimos pela primeira vez, Bernadete, Elba e eu, para compartilharmos essa imensidão de conhecimentos que a área que adotei de coração, e que tentaremos trazer para Recife na Unicap vindo lá da PUCRS, em Porto Alegre, nos dá.

Mas Liev Tolstói não está só. As meninas (as chamo assim) leram profundamente Fiódor Dostoiévski (Moscou, 1821-1881), Anton Pavlovitch Tchékhov (Taganrok, 1860-1904), Nikolai Vasilievich Gogol (Velyki Sorochyntsi, Ucrânia, 1809-1852) e os poemas de Anna Akhmátova (Odessa, Ucrânia, 1889-1966). Eis alguns textos que nasceram do sexto encontro de 2019 dos Estudos em Escrita Criativa.

Uma boa viagem/leitura e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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A RUA QUARENTA E OITO

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Como são limpas e varridas suas calçadas e, Deus, quantos pés deixaram nelas seus rastros

(Nikolai Gógol, Avenida Niévski)

 

A Rua Quarenta e Oito é uma das ruas da Cidade do Recife situada no bairro do Espinheiro. Não é longa como a Avenida Niévski, porém sua história é antiga. Num relance, cenas desenrolam-se na frente, como se fossem imagens de rolo de filme daquelas que projetavam no cinema Espinheirense, cinema de bairro localizado no número 224, no quarteirão que vai da Rua da Hora até a Agamenon Magalhães. Tempos atrás, nos primórdios de sua história, a Rua Quarenta e Oito foi um sítio. Naquele período, o movimento da localidade era de revolta e desejo de liberdade. Lá reuniram-se integrantes da Revolução Praieira ocorrida no ano de 1848 e daí advém o nome da rua, uma homenagem a revolução, recebendo o nome do ano abreviado: 48. Quanto ao quarteirão do cinema, havia uma casa na esquina da Rua 48 que cruza com a Rua da Hora, onde hoje é um prédio da Queiroz Galvão. No início dos anos 70, ainda via-se no local  de número 261 o casario antigo no fundo do terreno e um caramanchão, bem próximo da esquina, como se fosse uma guarita. Ah, quantas moçoilas devem ter ficado em seu interior aproveitando o dia, esperando pelo amor de suas vidas ou esperado em vão, o coração batendo no ritmo do potpourri “Tu não te lembras da casinha pequenina onde do nosso amor nasceu. Tinha um coqueiro ao lado que coitado de saudades já morreu… Não tinha coqueiro ao lado não, tinha um caramanchão. E eu fiquei chorando quando foste embora, quem sente saudades é quem chora.”

Quase no final da Rua 48, perto da Avenida Agamenon Magalhães, havia uma casa de número 117, que mais parecia um enxame de abelhas de tanto entra e sai de gente. De lá, a toda hora, saía uma pessoa, várias pessoas ou entravam muitas. Logo pela manhã, as crianças, os jovens fardados caminhavam para  a escola junto a uma senhora de cabelos grisalhos e olhos grandes, que continuaria o caminho angustiada até seu trabalho. Logo em seguida, o portão maior da casa 117 se abria. Era a vez de um senhor gordo que num carro, acompanhado de filhos mais velhos, seguiriam para o trabalho em direção ao centro da cidade.  Perto das 10 horas, era a vez de uma senhora miúda apressada que ficaria no ir e vir por aquela rua, de casa para o açougue, de casa para a padaria, da casa para a mercearia, voltava carregando tão grandes pacotes que muitos imaginam que tivesse algum negócio! A mesma senhora, em algum momento vai à missa numa Matriz situada alguns quarteirões mais à frente.

Durante todo o dia, o vai e vem das pessoas que chegavam e saíam da casa de número 117, velhos, adultos e crianças, a circulação era grande, no entanto, a rua tinha seu próprio movimento. Na Rua 48, pela manhã, bem cedinho o apito anunciava o cuscuz molhadinho vendido em tabuleiro. Passavam, em seguida, uma série de vendedores anunciando os serviços com pregões:  “Olha o amolador!”; um vendedor com dois cestos cheios de frutas amarrados de cada lado de um varão que prende na altura do pescoço diz: “Jaca e mangaba, olha a pinha, mangaba!”. Uma carroça recoberta de verduras passa pela rua ao som de “Verdureiro!” e o entra e sai de donas de casa fazendo suas compras, a regatear preços, a conversar com os vendedores, já conhecidos seus de longas datas.

Perto da hora do almoço, voltavam as crianças, os jovens, a senhora  angustiada para a 117 e iniciava a vinda dos mendigos, batendo de porta em porta, com suas cuias de queijo do reino onde seriam colocadas a refeição em plena rua. Depois do almoço, era e vez da mulher do porco, vir com seu balde, aproveitar os restos dos alimentos para dar a seus animais.

No quintal da casa 117 o movimento era de rodar pião, empinar papagaios, jogar bola de gudes, chutar bolas ou brincar de pega-pega, barra-bandeira, esconde-esconde, cantigas de roda, ao mesmo tempo que na rua o desfile das guloseimas os atrai de tempos em tempos para fora. O vendedor de pirulitos toca um apito e todos correm para escolher naquela tábua furada, onde estão enfiados enormes pirulitos de açúcar, embrulhados no papel fino cor-de-rosa, que às vezes grudava no pirulito, às vezes nos dentes. Depois seria a vez do algodão-doce, cujo vendedor, da mesma forma, passa com seu som característico a faca na bacia de alumínio que faz as crianças correrem novamente para a rua, ver a mágica transformação do açúcar em nuvem. E a cocada de vários sabores vendida nos tabuleiros tinha som diferenciado pelo apito triangular, além dos cavaquinhos guardados num saco de plástico, o vendedor tocando no triângulo “tilimlim”. Com o passar do tempo, a vez seria da carroça de pipoca com a buzina “foc-foc” ou o carrinho de sorvete da FriSabor, o vendedor tocando um sininho, os adolescentes comprando o picolé, sorvete de casquinho de copo com palito de madeira.

À noitinha, seria  hora do senhor gordo junto com seus filhos maiores regressarem para a casa 117. Todos sentavam-se à mesa e o jantar transcorreria numa grande torre de babel de tantos falarem ao mesmo tempo. O movimento da Rua 48 à noite acontecia na proximidade do cinema. Na frente, o porteiro impediria menores de assistirem algum filme proibido ou cuidaria da entrada para alguém não entrar de graça.

Na Rua 48, os eventos ocorriam como guiados pelo calendário. Em fevereiro ou março vinha o Carnaval. Crianças e jovens brincado de mela-mela, jogando água nos carros com bombas de cano de ar comprimido, ou até com baldes. Ou fugindo assustados dos caboclinhos que, passando pela rua, se apresentavam de casa em casa… Em noites de Carnaval, os jovens e adultos passavam pela rua, iriam num jipe em direção ao corso na Avenida Conde da Boa Vista. Em outros dias, para os bailes no clube, saindo em grupo com fantasias e voltando da rua, entrando em casa cheios de histórias engraçadas das paqueras arranjadas. Durante o Carnaval, o som que se ouvia naquela rua, no princípio, era “Tenho um recado pra você preste bem atenção ela mandou dizer que não lhe quer mais não….” Chega, ao mesmo tempo, a lembrança de um jovem apaixonado pela vizinha que fez sua declaração de amor em plena rua, quando bêbado do trote da faculdade. Sóbrio, contornaria o quarteirão por muito tempo, só para não ter de passar em frente à casa da jovem, aquela de número 213 que ficava perto da casa do caramanchão. Depois, no último Carnaval na Rua 48, bem no fim, daquela história por lá, a música seria assim: “Atrás do trio elétrico só não vai que já morreu…”

No início de maio, na Rua 48, havia procissão pelo Mês de Maria. A imagem da santa saia de uma casa para outra caminhando em cortejo. Todos de vela na mão embrulhada num cone de papel branco para a chama não apagar. O andor ia na frente, todos no meio da rua atrás da imagem entoando a canção “A treze de maio na cova da Iria no céu aparece a Virgem Maria…ave, ave, ave maria….”

Naquele mesmo mês, muda o ar da Rua 48, quando começavam os preparativos para o São João. Na rua, como em várias, ocorriam ensaios para a festa de São João. Muitos rapazes e moças tinham a oportunidade de dançar com seus amados. Cada um feliz, ou reclamando do par que se formou, empurrado pelo organizador da quadrilha, para a sua sorte, azar ou para seu bel prazer. O mês todo é o movimento de anavantu e anarriê de jovens pela Rua 48 que se arruma para as festividades com bandeirolas, as palhas de coqueiros entrelaçadas estiveram enfeitando a entrada do portão da garagem da casa 117, onde se dançaria a quadrilha

Já nas festas de fim de ano, a Rua 48 adquiria um outro ar. Quando chegava o Natal, as famílias saíam a pé em direção à missa do galo. Na ida e na volta cumprimentando os vizinhos. O movimento da casa 117 era para a de número 207, que neste período reunía todos os parentes, pois lá habitam as senhorinhas portuguesas, parentes mais velhas,  No Ano Novo, a Rua 48 era uma festa após a meia-noite. Eram muitos fogos explodindo no céu e todas as casas iluminadas, os desejos de feliz ano para todos os parentes juntos e abraçados novamente na casa 207. Depois crianças iriam dormir e jovens, vestidos para festa organizarem-se na rua dentro dos carros para seguirem para o réveillon.

Na Rua 48 ficaram estacionados, através dos anos, carros como SINCA, Itamaraty, Rural, Fusca. Passaram pela rua Gordinis, Karmanguias, Galaxi, motocicletas Vespa, nas cores verde, azul, Hyamarra e nas férias, corriam as bicicletas Monark ou Caloi tomando as calcadas, as ruas, em passeios ao redor do quarteirão. Já havia passado o tempo dos patinetes coloridos de madeira, que na calçada deslizavam junto com os carros de rolimã.

Nela existiram também personagens típicos, como os de uma cidade de interior. Aquele vigia meio doido que morava num terreno baldio, era apelidado portuga e as crianças quando passavam pelo terreno gritavam: “Portuga, Salazar morreu!” e corriam muito para não receberam as pedradas do coitado, e todo dia essa rotina era repetida, para raiva do portuga brasileiro e diversão das crianças. Ah, e o rapaz enlouquecido caminhando maltrapilho pela rua? Sua passagem era acompanhada com dó, sem ousar importuná-lo. Diziam na rua que era filho de um senhor abastardo, morador da rua,  que de tanto estudar enlouqueceu… Ninguém se aproximava do jovem de olhar nublado caminhando pela rua afora.

Que belos momentos passados na 48! Das músicas de Roberto Carlos escapando das casas em direção à rua: “Un gato nel blu guarda la stelle non vuol tornare in casa senza te. Sapessi quaggiùu che notte bella che se un gran dolore si cancella?” E quantas copas do mundo vencidas que aquela rua assistiu espelhando a alegria dos seus habitantes nos anos de 58, 62, 70 ?

No século XXI, do túnel verdejante de oitizeiros que se abraçavam no céu, propiciando um vento fresco pelo caminho da Rua 48, hoje, poucas árvores restam. Não há mais cinema, um outro negócio está no local. Assim como as casas de número 117, 207, a do caramanchão e outras mais, todas derrubadas para surgirem edifícios. O trânsito é forte e passa por lá até ônibus! As pessoas passaram, se mudaram, alguns perderam a fantasia daqueles dias… Como o tempo passou rápido! Essa constatação foi entendida ontem, naquela mesma rua, um dia, quando a menina caminhava pela calçada em direção à casa 207, deu-se conta do tempo e confidenciava às primas, que sua idade já não cabia mais na mão, pois já passava dos 5!!!! E a vida passa, como suas histórias, que acontecem como se estivéssemos passando por uma rua, sem deixar rastros, caso não houvesse alguém que relembrasse, como quem atiça a brasa para reacender a fogueira da memória. Talvez por isso, ainda hoje, lá do fundo da Rua 48, ressoa uma antiga canção:  “O balão tá subindo, Tá caindo a garoa, O céu é tão lindo. E a noite é tão boa. São João, São João, acende a fogueira do meu coração.”

 

Recife, 12 de julho de 2019.

 

 

Talita Bruto

Contato: talitabruto@gmail.com

(A partir da leitura de Anna Akhmátova)

 

Achei que cresci

e disseram que muralhas separavam

e gritos ecoavam de uma caverna distante

onde as sombras eram luzes

E as luzes eram ninfas

inspirações daqueles que sonham

acordados no tempo do bom agora

as mães chamavam os filhos

que descobrem sós o que são mães

ausências e expirações

suspiros

do outro lado, o beijo azul

das mãos imploravam

por seus dedos quantos estivessem quantos fossem

no inverno rigoroso

e esperavam

a colheita

quando o primeiro e último,

quando, por assim dizer, o único,

orvalho surge

e se põe, essencialmente,

efêmero

um grão de mostarda

no ventre graúdo

daquelas aquelas, sim,

das mãos, as mesmas, que tocavam pianos

e silêncios

e pausas.

Um cordão unido, um modo de falar: te ligo.

Achei que relembrei

e sussurraram que muralhas preenchiam

os espaços vazios dos espíritos

encarnados

por aquelas mães

que esbranquiçadas

tremendo

tentavam achar os seus

filhos

na partida

porta

de um tempo

acabado

sumido

escondido

por uma grande faixa preta

engavetada

puída

de fel

e morte

ardida.

Achei.

E encontrei.

Vi.

Na unha afiada

um pequeno lasco

de pele

uma súplica.

Cadê?

 

Desenlace | Cilene Santos*

09/07/2019

 

Numa estrada colorida

Caminhávamos tu e eu

Tua mão na minha mão

E teu coração era meu

E o meu coração amante

Era a ti que pertencia

Somente felicidade

Nessa nossa parceria.

Na certeza do instante

Nosso mundo era completo

Nada além interessava

E aquém somente afeto.

Mas um vento buliçoso

Desarrumou nosso mundo

Espalhou nossa alegria

E o sentimento profundo

Que pensamos ser amor

Ultimou-se num segundo.

 

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* Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e A vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Índex* – Junho, 2019

Um herói

Nasce

Em cada

Gesto meu

Em cada

Monte alto

Que escalo

Em busca

De um novo

Sonho

Em luta

Por uma nova

Estrela

Que cabe

Aqui

Na minha mão

Que prego

Aqui

No meu peito

E nada

Ninguém

Consegue

De mim

Separar

(“Sonho de uma Escrita Criativa”, Patricia Gonçalves Tenório, 19/06/2019, 15h34)

 

Um sonho de Escrita Criativa se realiza no Índex de Junho, 2019 do blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Especialização em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS e EEC de Junho, 2019 | Diversos.

Metafísica do poema | Alcides Buss (PR – Brasil).

O voo da trapezista | Amilcar Bettega Barbosa (RS – Brasil).

“Cerzir” | Antonio Ailton (MA – Brasil).

“Desconstrucción de los rostros y otros poemas” | Luis Raúl Calvo (Argentina).

O CURATO DE BOM JARDIM | Marly Mota (PE – Brasil).

“A estética da indiferença” | Sidney Rocha (PE – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 28 de Julho, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – June, 2019

A hero

Is born

In each

Gesture of mine

In each

Tall mountain

That I climb

In search

Of a new

Dream

In fight

For a new

Star

That it fits

On here

In my hand

That I nail

On here

In my chest

And nothing

Nobody

Can

Of me

Separate

(“Dream of a Creative Writing”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/19/2019, 15h34)

 

A dream of Creative Writing takes place in the June, 2019 Index on the blog of Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Specialization in Creative Writing – Unicap/PUCRS and EEC of June, 2019 | Several.

Metaphysics of the poem | Alcides Buss (PR – Brasil).

The flight of the trapeze artist | Amilcar Bettega Barbosa (RS – Brasil).

“Cerzir” | Antonio Ailton (MA – Brasil).

“Deconstruction of faces and other poems” | Luis Raúl Calvo (Argentina).

THE CURATO OF GOOD GARDEN | Marly Mota (PE – Brasil).

“The aesthetics of indifference” | Sidney Rocha (PE – Brasil).

Thank you for the attention and affection of always, the next post will be on July 28, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Foto João Alderney

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Os longos, tortuosos, perigosos passos de um sonho. The long, tortuous, dangerous footsteps of a dream.

 

Especialização em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS e EEC de Junho, 2019

Sonho de uma Escrita Criativa

Patricia Gonçalves Tenório[1]

Junho, 2019

 

Em abril de 2017, eu tive um sonho. O sonho não era só meu, mas também do escritor, professor e orientador de doutorado Luiz Antonio de Assis Brasil.

Sonhei em trazer para Recife um pouco do tanto que apreendia sobre a arte do bem escrever ficção, poesia, ensaios teóricos com os colegas e professores do Programa de Pós-Graduação em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a PUCRS.

Então acontecem: o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco com o apoio da Bienal Internacional do Livro e da PUCRS, de 13 a 15 de outubro de 2017; os quinze encontros temáticos e mensais dos Estudos em Escrita Criativa (os EECs) na Livraria Cultura de Recife e de Porto Alegre, em 2018, novamente com o apoio da PUCRS e também da UBE-PE; os cinco encontros (temáticos e mensais) dos EECs em forma de curso de Extensão na Universidade Católica de Pernambuco, a Unicap, no primeiro semestre de 2019.

Muito além das instituições citadas neste artigo, existem pessoas que acreditaram no sonho, juntaram-se a ele, quer seja apoiando e/ou participando como escritores convidados, quer seja escrevendo textos de qualidade durante os encontros – mesmo sendo no tempo exíguo de quinze minutos. Textos que demonstram a necessidade da escrita como ferramenta na elaboração e na conexão dos sentidos, áreas de conhecimento e artes.

E o sonho se faz real com a aprovação da primeira Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa do Recife sob a parceria da PUCRS e da Unicap, no segundo semestre de 2019. Parceria que trará os escritores gaúchos Assis Brasil, Bernardo Bueno, Moema Vilela, Altair Martins, Arthur Telló, Natalia Polesso, Julia Dantas para se juntarem com os nossos Lourival Holanda, Robson Teles, Adriano Portela e essa sonhadora que vos escreve.

Porque, como já dizia Glauber Rocha, e que, desde 2004, recito tal qual um mantra: “O sonho é o único direito que não se pode proibir.”

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[1] Escritora, doutora em Escrita Criativa (PUCRS, 2018), ministrante do curso de Extensão da Unicap Estudos em Escrita Criativa (2019.1), e participante, com Profs. Robson Teles e Moema Vilela, na coordenação da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa PUCRS/Unicap (2019.2). Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Artigo DP 240619

Diário de Pernambuco, coluna Opinião, 24/06/2019

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Inscrições: http://www.unicap.br/home/especializacao-em-escrita-criativa-unicap-puc-rs/

 

Estudos em Escrita Criativa – Unicap – Junho, 2019

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NO DIA PRIMEIRO DO MÊS DO SÃO JOÃO

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Muitas aulas se passaram, como num lindo sonho, na rua o príncipe! Os livros indicados se acumularam na cabeceira da cama e depois de lidos organizados na prateleira como uma joia rara guardada numa caixa. Muitas listas de tarefas se fizeram presentes marcando o que teríamos para estudar, para aprofundar. Para o ato de escrever, a condição era no agora e em quinze minutos!

Nesse período, muitos encontros de preferências, de alma, de conhecimento foram todos conduzidos pela luz da lamparina, daquela menina encantada, que projetando na tela, de forma tão atraente, nos fez percorrer uma grande viagem pelo mundo da literatura, e durante todo esse tempo, como hoje, na retrospectiva, meu coração preenchido suspirou:

 

NO SILÊNCIO DA CRIAÇÃO

O SUSSURRO DO VAZIO

BROTANDO DO CORAÇÃO.

 

Recife, 1º de junho de 2019.

 

 

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

Língua Inglesa

(Estados Unidos, Inglaterra e Canadá)

Portugal

Brasil

Leste Europeu

Ásia

ATWOOD

PESSOA

ALLAN POE

 

Inglaterra, Estados Unidos, Canadá

Viajo pela distopia de Atwood

Pela poesia de Dickinson

Pelo mistério de Edgar Allan Poe

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AS LISTAS

Faço listas sem fim.

Me embriago ao som do Jazz

Faço listas

De romances, poemas, ensaios…

Me embriago de mar

Mergulho em Pessoa

Nos mares de Sophia

Descubro um mundo novo.

Chego um dia à Bahia

Tão perto de Pernambuco

Que recebeu Clarice.

Depois, por terra, caminho…

Buscando ouro e Minas

As terras, os prados de Adélia.

E mesmo que, de minha terra,

Eu possa ver o mundo todo

Recebo uma mensagem

E singro em direção ao resto do mundo…

 

 

A Patricia Gonçalves Tenório

Quinze Minutos

João Alderney Pires

Contatojoaoalderney@hotmail.com

 

O cara trabalhou a vida toda, desde os quinze prestava serviços à empresa industrial do pai, fornecedora de pluma de algodão, quando ia às indústrias de tecido pernambucanas resolver assuntos negociais, eram quase vinte existentes, à época, todas fechadas, hoje, devido ao surgimento das fibras sintéticas e ao avanço tecnológico chinês redundando em concorrência impraticável. Naquele tempo os tecidos preferidos pelo grande público eram de algodão, o afamado ouro branco, o nordeste era produtor mundial dos mais respeitáveis, o sertão viveu período afortunado, porquanto.

Aos dezoito deu o grito de independência, fez concurso e conseguiu excelente emprego no Banco do Brasil, tida, até então, como carreira de futuro promissor, hoje nivelada com os demais bancos.

Único dos doze filhos a não depender do “pai rico” para se emancipar e se graduar.

Depois deu guinada, fez concurso para Auditor Tributário o que lhe garantiu posição de destaque. Nesse ínterim, haja atividades paralelas: comerciante; pequeno industrial; empresas de serviços, numa delas representante exclusivo em PE/ PB de fabricante de elevadores sociais do Rio Grande do Sul.

A grande cartada veio na qualidade de corretor de imóveis quando conseguiu, com a cara e a coragem, comprar lado de rua nobre, terreno invadido pertencente ao INSS, quando pleiteia e consegue baixar o valor da entrada, estabelecido no edital de concorrência, de vinte para dez por cento do preço mínimo. Entretanto tudo que possuía era o apartamento residencial que representava apenas cinco por cento. Bem, devolver os cinco por cento conseguidos por empréstimos com amigos e bancos, indenizar quase cinquenta posseiros e pagar os noventa por cento restantes ao vendedor estatal são outra história.

Ao mesmo tempo, cursou e concluiu Ciências Econômicas na UFPE.

Família, três filhas do casamento, separação, filho de novo relacionamento, nova separação, a partir daí, haja casamentos. A idade avança.

Aquele homem que sempre respirou negócios, dá adeus a eles, agora, pra sempre.

Apaixonou-se pela arte poética, escreveu cerca de mil poemas.

Escreveu contos.

Edita livros.

Com recursos próprios, construiu museu em honra à memória do pai.

Hoje, só vê à sua frente literatura, poesia, criações.

Que bom que existe Raimundo Carrero. Que bom que existe Patrícia Tenório. Que bom que eles disponibilizam cursos de Escrita Criativa. Salve!

 

 

Fada de xale

Osmar Barbalho

Contatoosmarbarbalho@gmail.com

 

Perguntei ao vigilante onde seria o Seminário de Escrita Criativa? Ele fez uma cara que não entendeu e perguntou “…é o Seminário?…é no final do corredor!” apontando com o braço. Eu tinha acabado de tomar um espresso e vi que o corredor era longo. Não parecia que depois daquela porta no final do corredor iria se falar de Escrita Criativa. Com o pique que o espresso me deu caminhei, abri a porta e vi várias pessoas de costas entretidas com o conteúdo das pastas. Tinha várias cadeiras com pastas. Eu quase desisto de fazer o Seminário. Li no JC (Jornal do Commércio) sobre o Seminário e fui comprado pelo o que ele se propunha a entregar. Quando enviei o e-mail solicitando a inscrição veio a primeira frustração: não havia mais vagas. Ficaria na lista de espera. No outro dia: “…tem vaga, mas você precisa vir a Unicap para fazer a inscrição e pegar o boleto para pagar…”. O primeiro boleto não consegui pagar. O próprio caixa do Itaú informou que o código de barras não estava “…cadastrado!”. Me deram o segundo boleto. Também não. O terceiro, também não… Com muita simpatia, a Coordenação disse que eu poderia começar o Seminário e depois pagava. Quando Mirella veio me abordar, toda solícita, para assinar a Lista de Presença, o meu nome não estava lá! Mas eu tava lá e era tarde para desistir. A minha decisão foi certa porque a cada sábado dos cinco previstos, ouvi várias vezes em vários momentos as palavras “Amo” ou “Amei” da Fada que sempre estava de xale!

Aí eu AMEI!!!

 

 

Para Patricia

Raldianny Pereira

Contato: raldianny.pereira@gmail.com

 

O desassossego de Pessoa. De cada pessoa.

O mar de Sophia. O mar de Recife. O mar de todos nós.

O personagem de Assis. Um Brasil de personagens.

O teatro de Binho. Todos nós feitos personagens.

O que ficou.

O que ainda falta?

Poemas de Szymborska, que faltei.

Amor à primeira vista. Meu amor à primeira vista, que foi embora.

Futuros estudos

em escrita criativa.

Porque o livro… da vida

está sempre aberto. No meio.

 

 

Metafísica do poema | Alcides Buss*

07/06/2019

 

Escrevo poemas
porque a vida me ordena a escrevê-los.

Mais fácil seria
deixá-los à deriva
em meio às coisas não escritas.

São tantas que ninguém
se daria por faltarem ou por ali estarem,
pedrinhas na pedreira que é viver.

Mal tenho tempo, no entanto,
e eis-me aflito, debruçado
no garimpo impiedoso.

Ao fim de horas – de dias, muitas vezes – ,
um punhado de grãos
desafia a luz que os expõe.
É a vida vertendo de si mesma.

Se não me entrego
ao seu pulsar, a morte me trava
no andar do que respira.

De que serve esse brilho assim fugaz?
Bobagem – sugere a intrometida brisa.
De nada serve
– mas é preciso não servir.
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* Contatohttp://www.alcidesbuss.com/

O voo da trapezista* | Amilcar Bettega Barbosa

O trem gemia suas engrenagens como se fossem sons de um esqueleto cansado. No vagão, os poucos passageiros sacolejavam ao ritmo da máquina, enfastiados por tantas e tão longas horas de viagem. Os bancos duros de madeira traziam nomes, datas e desenhos inscritos a canivete. A menina corria o indicador sobre o sulco de uma casa entalhada no banco em frente e dirigia-se à boneca pousada na perna. E o fazia como uma professorinha a ensinar que aquilo era uma casa e que lá dentro morava uma família.

Ao lado, sentava uma mulher excessivamente magra e triste. Mas seu rosto, apesar das faces cavadas, ainda guardava um quase nada de harmonia, próprio das coisas que já foram bonitas. A tristeza vinha era dos olhos. A intervalos curtos, ela consultava o relógio e mirava a solidão da paisagem à janela.

A garota dormiu, os braços ao longo do corpo e a coluna pregada ao espaldar: sua roupa de domingo ainda mantinha os vincos do ferro à brasa e um resquício da colônia de jasmim borrifada no colarinho rendado. A mulher recostou a cabeça da criança no seu braço. Começaram a surgir casas à beira dos trilhos.

Fez-se um barulho de coisa se desmanchando e o trem parou com um guincho comprido diante da plataforma. Apenas as duas desembarcaram na estação quase abandonada. A mulher segurou com força a mão da menina e sentiu, com gosto, que os tendões ainda tinham certa firmeza. Sentaram num banco, de frente para outro onde um velho ressonava com o jornal no colo. A mulher abriu a sacola e verificou o dinheiro no bolso interno. Dirigiram-se ao café. Sobre a mesa sem toalha foram servidos um pastel e um refrigerante. A garota comeu em silêncio, sob o olhar esvaziado da mulher.

Saíram da estação para a luz branca da rua, sob um sol a prumo que queimava sobre a cidade recolhida às casas. Cruzaram a praça central em direção ao sobrado erguido em frente ao busto do primeiro prefeito. No portão de ferro, a placa em bronze confirmou o nome. A mulher passou o lenço na testa suada e secou também o rosto da menina.

O acesso em pedra de grés entre os ramos das folhagens, uma fonte de chafariz, alguns degraus e a campainha com barulho de sino.

Quem atendeu foi uma jovem senhora que cheirava a lavanda. Através da porta entreaberta a menina viu a mobília bem arrumada, os quadros na parede, tapetes de lã felpuda e uma janela de vidros coloridos ao fundo. Achou que o cheiro era da casa e não da mulher.

– A essa hora o meu marido está no consultório. – Ela desceu os olhos para a garota e voltou à mulher: – Se o caso é urgente, vá até lá.

Foram.

O doutor visitava um paciente, assegurou a enfermeira, mas poderia atendê-las na volta. Apontou o queixo na direção da sala de espera e acrescentou:

– Não sem antes atender toda essa gente.

A mulher sentou no banco junto à parede e colocou a menina no colo. A garota repetiu o gesto com a boneca. As pessoas olharam para as duas e logo voltaram à passividade da espera. O silêncio era como o do picadeiro imóvel, da arquibancada em expectativa diante do balanço vazio do trapézio. Parecia que a qualquer momento romperia a banda com um estalar de pratos e acordes de trompete a dissipar a tensão.

A saleta foi esvaziando devagar. Eram mais de cinco horas quando a enfermeira mandou que elas entrassem. O consultório já fechara.

O doutor as recebeu com um sorriso mecânico e indicou-lhes as cadeiras enquanto fazia anotações na ficha do paciente que acabara de sair.

– Muito bem. – Ele largou a caneta sobre o bloco de receituário. – Qual é o problema?

Calada desde a porta, a mulher só olhava o chão. Ele repetiu a pergunta, debruçando-se um pouco sobre a mesa. Com esforço, ela respondeu:

– É ela. – E acenou com a cabeça para o lado, onde a garota sentara.

A menina não desgrudava os olhos do médico, da sua fronte alta e brilhosa, os ombros largos, a mão, aquela enorme mão com anel no dedo.

– O que ela está sentindo?

– É muito sozinha. – A mulher falava baixo.

– Tem dificuldade para se relacionar? – Quanto mais baixa era a voz dela, mais alta ficava a dele.

– Não. É muito simpática.

– Então o que incomoda?

– Tem dez anos.

A menina levantara e caminhava pela sala, observando a mesa de exame, a balança, o armário de vidro.

– Ela é esperta – prosseguiu a mulher. Já sabe bastante coisa. Pode até ajudar na casa.

O doutor mexeu-se na poltrona, a testa franzida.

A mulher desentravou: não achava justo a criança sair errando por aí se havia a possibilidade de uma vida menos dura, uma casa, uma cama quente, não queria nada para si, por favor o doutor não confundisse; era difícil ficar lembrando aquelas coisas mas não tinha outra maneira; e falar assim, nessa situação, dava dor no peito, sim senhor, uma vontade de não existir até. Disse muito mais. E ao fim, uma grande bolha de ar encheu-lhe a garganta.

O médico olhava para a mulher, para a menina, mas não encontrava os olhos de nenhuma. Viu apenas a criança correr ao canto da sala e dependurar-se no cabide de ferro pregado à parede, e levantar as pernas em posição perpendicular ao corpo, e rir, e gritar:

– Mãe, olha! La Mujer Alada!

 

Diante da plasticidadde da cena, o doutor percebeu com exatidão o momento em que todos os relógios do mundo pararam. Como se o coração estacasse a meio batimento, a respiração presa em pulmões de pedra, as pálpebras imóveis. Tudo paralisou-se em torno daquela figura suspensa: os braços estendidos, as pernas em posição perpendicular ao tronco. Havia, porém, as palavras. E as palavras vieram, foram, dançaram e pairaram solenes no ar. Como uma trapezista. Como La Mujer Alada. E de longe, lentamente, veio crescendo a música, transbordando aos poucos a taça da memória; e era uma música de circo, o rufar do tarol, o silêncio reverencioso da plateia rasgado pelo som do corpo cruzando o ar, pra lá e pra cá. Havia, sim, um jovem na primeira fila, as mãos suadas pelo perigo dos movimentos lá no alto, pela graça da trapezista, e pela proximidade da sua hora de macho.

 

Agarrada ao cabide, a menina continua rindo. O doutor vira-se para a mulher, ela agora o encara. Ele então recebe inteiro o peso do tempo e sente que envelhece de repente. Tem cansaço e até um certo asco. Ele levanta da cadeira e caminha até a criança. Afaga-lhe a cabeça, abre a boca na intenção de dizer qualquer coisa, mas fica emudecido.

A mulher também se ergue:

– O trem parte às seis e meia. Tenho dez minutos para chegar à estação. – Dirige-se à porta e, com a mão no trinco, torna a falar: – Meu nome é Rosália.

– Eu sei – responde o médico, sem a olhar.

Às seis e meia a mulher sobe no vagão que logo começa a se movimentar. Ainda lança sobre as poucas casas da cidade um último olhar. Está sozinha.

 

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* O voo da trapezista. In O voo da trapezista: contos. Amilcar Bettega Barbosa. 2ª ed. Porto Alegre: WS Editor, 1999, p. 49-53.

“Cerzir” | Antonio Ailton*

Matéria A A

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“Desconstrucción de los rostros y otros poemas” | Luis Raúl Calvo*

Libro Luis Raúl Calvo Deconstrucción de los rostros y otros poemas

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