Índex* – Junho, 2016

Quando a vejo

Ao luar

Parece uma serpente 

Que por algum desvio

No destino

Perdeu o poder

De matar

*

Brilha a lua

Brilha a minha

Face obscura

Por saber

Que existe

Uma saída

Por sentir

Que insiste

Uma ideia

De vencer 

Um pouco mais

De mim mesma

(“Os dois lados da minha moeda”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 19/06/16, 17h20)

 

Vencendo um pouco mais de mim mesma no Índex de Junho, 2016 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Um Elogio à Loucura: Devaneios para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

O homem despedaçado | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Compulsão Agridoce | Antonio Aílton (MA – Brasil).

Coisas: poemas etc | Pedro Américo de Farias (PE – Brasil).

Memórias de um hiperbóreo & Antologia Cosmopolita | Oleg Almeida (Bielo-Rússia/DF – Brasil).

Pílulas para o silêncio | Píldoras para el silencio | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

 

E os links do mês:

Maria Rizolete Fernandes envia poeta e pintor salmantinos, Alfredo Alencart e Miguel Elias (Salamanca – Espanha)www.salamancartvaldia.es/not/119724/drama-refugiados-desde-sensibilidad-alencart-miguel-elias

O site de Laila Ribeiro Silva (MG/RS – Brasil)www.sobrelivros.com.br

 

Agradeço a participação, a próxima postagem será em 31 de Julho de 2016, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Index* – June, 2016

 

When I see her

At the moonlight

She looks like a snake

Which for some deviation

In destiny

Lost power

To kill

*

Shines the moon

Shines my 

Hazy face

Knowing

That exists

An exit

Feeling

That insists

An ideia

To win 

A little more

From myself

(“Both sides of my coin”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/19/16, 5h20 p.m.)

 

Winning a little more of myself on the Index of June, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

A Praise of Folly: Daydreams for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

The broken man | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Compulsion Bittersweet | Antonio Aílton (MA – Brasil).

Things: poems etc | Pedro Américo de Farias (PE – Brasil).

Memoirs of Hyperborean & Cosmopolitan Antology | Oleg Almeida (Belarus/DF – Brasil).

Pills for silence | Píldoras para el silencio | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

 

And the links of the month:

Maria Rizolete Fernandes sends the salmantins poet and painter Alfredo Alencart and Miguel Elias (Salamanca – Spain)www.salamancartvaldia.es/not/119724/drama-refugiados-desde-sensibilidad-alencart-miguel-elias

The site of Laila Ribeiro Silva (MG/RS – Brasil)www.sobrelivros.com.br

 

I thank for the participation, the next post will be on July 31, 2016, a big hug and see you there,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Os lançamentos de “A menina do olho verde” – Recife e Porto Alegre… The launchings of “The green eye girl” – Recife and Porto Alegre.

Um Elogio à Loucura: Devaneios para uma Escrita Criativa*|Patricia (Gonçalves) Tenório[1]

Maio, 2016

 

O Sonho de Albert Béguin

Quando o escritor, crítico, editor suíço, nascido em Chaux-de-Fonds, Albert Béguin (1901-1957) abre o seu A alma romântica e o sonho: ensaio sobre o romantismo alemão e a poesia francesa (1937), flutuo rumo a conexões possíveis com outros teóricos e poetas investigados na disciplina, a que assisto como aluna especial, Teorias da Criação Poética, ministrada pela Profª. Dra. Ana Maria Lisboa de Mello, no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), além de relacionar com as temáticas de Loucura e Devaneio aplicadas à Escrita Criativa que eu pesquisava no momento.

“Toda época do pensamento humano poderia definir-se, de maneira suficientemente profunda, pelas relações que estabelece entre o sonho e a vigília. Sem dúvida nos admiraremos sempre de viver duas existências paralelas, mescladas uma à outra, mas entre as quais não chegamos nunca a estabelecer uma perfeita concordância. Cada criatura se encontra, tarde ou cedo, e com maior ou menor clareza, continuidade e sobretudo urgência, diante desta pergunta insistente: Sou eu o que sonha? Pergunta de aspectos infinitos, que interessa a nossas razões vitais, à eleição que devemos fazer entre nossas possibilidades interiores e o problema do conhecimento tanto como o da poesia.”[2]

Albert Béguin sonha. E, em seus sonhos na Universidade de Bâle (1937-1946), onde leciona na cátedra de Literatura Francesa, preocupa-se com a inquietude existencial (Léon Bloy ou Georges Bernanos), o Paraíso Perdido (Alan-Fournier), com a dimensão espiritual da Criação Poética (Paul Claudel ou Gérard de Nerval). Ou mesmo quando cria (1942) e dirige os Cahiers du Rhône, ou publica nomes, tais como Charles Péguy, Louis Aragon, Paul Éluard, Pierre Emmanuel, Loys Masson, Pierre Jean Jouve, em resistência durante a Segunda Guerra Mundial na luta dos escritores franceses pelos valores da França em meio à Europa ocupada pelo nazismo. Ou quando, após a morte de Emmanuel Mounier (em 1950), ocupa-se até o fim da vida na direção da revista Esprit. O sonho de Béguin torna-se o meu sonho, e busco, na sua escrita, uma fresta para me inserir no estudo sobre a Loucura e o Devaneio.

“Nos sonhos noturnos, e nos sonhos ainda mais misteriosos que me acompanham ao longo do dia – tão próximos à superfície que afloram ao primeiro choque –, há uma existência cuja presença permanente e fecunda se revela através desses e outros signos. O que passa por alto e o que desce ao esquecimento torna a sair um dia inesperadamente, mas transformado e enriquecido com uma substância que eu ignorava, como o germe depositado na terra cresce, flor ou árvore.”[3]

E nesse vai e vem de sonhos, flutuo para uma primeira conexão entre o pensamento germinal de Albert Béguin, o Elogio da loucura, de Erasmo de Rotterdam, e a Escrita Criativa.

 

Meu nome é Loucura

Na entrada do Museu do Inconsciente, antigo Hospital Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, existe uma frase que pertence à médica psiquiatra brasileira, nascida em Maceió, Alagoas, Nise da Silveira (1905-1999).

“A diferença entre o louco e o artista é que o louco vai e não volta; o artista vai e volta.”

O filme lançado em 21 de abril de 2016, “Nise – o coração da loucura”,[4] retrata bem esse limiar tênue entre a loucura e a “sanidade”, até que ponto somos “loucos”, até que ponto somos “normais”, e, principalmente, para o que interessa a este estudo, o limiar entre a loucura e a arte, o fazer artístico, a Escrita Criativa que encontro no livro do teólogo holandês, nascido em Gouda, perto de Rotterdam, Erasmo Desidério, mais conhecido como Erasmo de Rotterdam (1469-1536), Elogio da loucura (1508).[5]

Erasmo nasceu bastardo, filho de um padre e da filha de um médico. Tentou pertencer à Igreja Católica consagrando-se padre em 1492, mas travou uma luta por toda a vida para reformar a igreja em que nasceu, não pela força e pela cisão feito Lutero, mas pela volta aos primórdios do Cristianismo, aqueles que Erasmo acreditava como os idealizados e pregados pelo próprio Cristo. A humildade, a simplicidade, a contenção das paixões mundanas em prol de um além-vida, além-morte, num reino que, para nós, foi preparado pelo filho de Deus em sua passagem terrestre.

Trazendo para a Literatura – e até mesmo para as artes conjugadas (Poesia, Artes Plásticas, Artes Visuais…) –, encontro em Elogio da loucura pistas a serem seguidas por aqueles, aquelas que se aventurem nas “belas letras”, na escrita ficcional ou poética. Como? Você pode me perguntar. Começo então pelo “começo”, falando desse estudo concebido e escrito em oito dias na residência do amigo de Erasmo, o poeta, cantor, escritor, advogado, e primeiro leigo no cargo de chanceler do reino de Henrique VIII da Inglaterra Thomas Moore (1478-1535 – aquele que escreveu Utopia (1516)).

Erasmo veste a pele da personagem e dedica a seu amigo Moore, cujo nome vem de Morus, Moria que em grego significa “Loucura”. Descubro no livro A loucura e as épocas (1994), do escritor, psicólogo, professor universitário brasileiro, nascido em São Bernardo do Campo, São Paulo, Isaias Pessotti (1933) – livro que traça um panorama da história da loucura nos textos, da antiguidade clássica com Homero, Ésquilo, Eurípedes, Hipócrates, Galeano, passando pelos exorcistas dos séculos XV e XVI, o enfoque médico da alienação mental nos séculos XVII e XVIII, até chegar aos textos do século XIX, que tratam da psicopatologia do período –, descubro no livro de Pessotti a origem de Moria, ou Moira, nas obras do autor grego (ou autores que a humanidade nomeou de) Homero, em especial na Ilíada.

Pessotti afirma que, até os tempos pré-socráticos, os seres humanos não se conheciam, ainda não existia uma “concepção estruturada da ‘natureza humana’”, um “conhece-te a ti mesmo”. Os deuses eram os senhores dos destinos humanos, e tudo o que acontecia fora do normal com o homem era proveniente dos castigos ou vinganças divinas. O professor paulista cita Agamêmnon na Ilíada, de Homero, desculpando-se por ter roubado a amante de Aquiles, como se tivesse sido possuído ou sido influenciado por uma Atê, espécie de agente intermediário entre o homem e os deuses. Segundo Pessotti [segundo Tenório (segundo…)], “na tragédia, a atê adquire o significado de desastre, de desgraça objetiva, de evento.”

“Para “explicar”, ou melhor, para justificar os desastres pessoais, os azares ou infortúnios da vida individual surgirá o conceito de moira, entendido como o implacável destino individual. Mas é importante lembrar que, tanto o desastre objetivo como o infortúnio pessoal, a rigor, não são desgraças que, acidentalmente se abatem sobre o homem. Não há acidentes, para Homero. Tudo é determinado. Não há culpas e não há remorsos, pelas ações insensatas (desafortunadas ou lesivas aos outros). Cada ato insensato é produto de uma atê causada, produzida por Zeus, derivada dele como uma filha (Il, 19,91).”[6]

Volto para Erasmo. Ele resolve, a princípio, aparentemente em tom de brincadeira, tecer um elogio àquela Senhora tão expurgada e relegada pelos seres humanos ditos “normais” ou de “bom senso”. Percorre a Retórica, a Política, Príncipes e Cortesãos, Monges, Papas, Bispos, até chegar a Jesus Cristo e aos Primeiros Padres que fundaram a Igreja Católica.

Encontro na Loucura de Erasmo de Rotterdam toda a formação de uma personagem convincente, coerente com sua substância, sua essência primordial. Ela se autoelogia quando se diz a origem da Vida; quando dá aos jovens a paixão para vivê-la; aos velhos, o esquecimento para suportar a sua partida.

“E, certamente, nenhum mortal poderia suportar essa velhice, se as misérias da humanidade não me obrigassem a vir mais uma vez em seu auxílio. Tal como os deuses dos poetas, que, quando os mortais estão prestes a perder a vida, os aliviam por alguma metamorfose, também eu transformo os velhos que estão à beira do túmulo e os trago de volta, tanto quanto posso, à idade feliz da infância.”[7]

O Casamento, a Amizade, o Pensamento antigo dos gregos e do Renascimento, todos são visitados pela Senhora Loucura, retirando os véus da hipocrisia de quem não concede a si o reconhecimento pelos bens que lhes fornece. Quando alerta que “Não acrediteis, porém, que o que digo seja uma dessas artimanhas que os oradores empregam geralmente para enaltecer seu espírito”,[8] a Loucura me faz lembrar do poeta e diplomata brasileiro, nascido em Recife, Pernambuco, João Cabral de Melo Neto (1920-1999), quando trata de “A inspiração e o trabalho de arte”, estudado durante a disciplina Teorias da Criação Poética, da Profª. Ana Lisboa.[9]

“É evidente que numa literatura como a de hoje, que parece haver substituído a preocupação de comunicar pela preocupação de exprimir-se, anulando, do momento da composição, a contraparte do autor na relação literária, que é o leitor e sua necessidade, a existência de uma teoria da composição é inconcebível. O autor de hoje trabalha à sua maneira, à maneira que ele considera mais conveniente à sua expressão pessoal.”[10]

O que se encontra livre para a Loucura parece encontrar-se excludente em Cabral: ou a arte, no caso a poesia, é criada pelos poetas chamados “bissextos”, regidos pela Musa inspiradora, ou é criada no trabalhador da obra de arte, no ourives do verso, e que trago também para a prosa ficcional. Vejamos, eu e você, Leitor(a), o que a Loucura fala em Erasmo.

“O sábio, com o nariz sempre colado nos livros dos antigos, aprende apenas palavras sutilmente combinadas; o louco, ao contrário, exposto constantemente a todos os caprichos da fortuna, aprende em meio aos revezes, penso eu, a conhecer a verdadeira prudência.”[11]

Sei que, durante seu estudo, Cabral se redime ao afirmar a possibilidade de conciliação entre essas duas esferas da Criação, entre a “inspiração” e o “trabalho de arte”. Mas sinto no ar “o aroma” de sua preferência, ou seja, pela segunda esfera. O que me faz recordar um outro teórico – poeta também – preocupado com o fazer artístico, e o quanto o estudo do “trabalho de arte” pode contribuir (ou não) para a sua construção. Estou falando do filósofo, escritor, poeta francês, nascido em Sète, (Ambroise-)Paul(-Tousssaint-Jules) Valéry (1871-1945). Na “Primeira Aula do Curso de Poética” no Collège de France, Paris, em 1937, Valéry alerta:

“Um estudo assim não é uma imposição. Podemos julgá-lo inútil e podemos até achar que essa pretensão é quimérica. Além disso: certas pessoas acharão essa pesquisa não apenas inútil, mas também prejudicial; e talvez até sintam-se obrigadas a considerá-la assim. Admite-se, por exemplo, que um poeta possa legitimamente temer alterar suas virtudes originais, sua força imediata de produção pela análise que fizer. Instintivamente ele se recusa a aprofundá-las de outra forma que não através do exercício de sua arte e a dominá-las completamente através do raciocínio demonstrativo.”[12]

Erasmo, sob a pele da Loucura, “se preocupa com essa preocupação” excessiva dos gramáticos – e acrescento, dos escritores de hoje em dia. “Há tantas gramáticas quanto gramáticos”, diz Erasmo/Loucura. “Há tantas poéticas quanto poetas”, ecoa João Cabral de Melo Neto. E com isso chego a mais um poeta-teórico: o poeta, dramaturgo, místico irlandês, nascido em Dublin, William Butler Yeats (1865-1939).

Yeats, em “O simbolismo da poesia” (1900), [13] afirma que os escritores, assim como os artistas, devem possuir “alguma filosofia”, alguma “forma de crítica de sua arte”. E é justamente essa “crítica”, essa “filosofia”, que os “inspira”, os faz entrar em estado criativo – em Escrita Criativa, eu poderia acrescentar. Talvez esses artistas/escritores não buscassem algo novo, mas apenas a gênese de todas as artes, o que está contido em todo ser humano por ser o artífice do símbolo, que, por sua vez, continua Yeats, é infinitamente superior à simples metáfora.

Volto (novamente) para o nosso, meu e seu, teólogo da Loucura, Erasmo (Desidério) de Rotterdam – e esse “Desidério”, esse “Desejo” de Erasmo também é símbolo, além de todas as palavras e nomes próprios. Encontro reflexões sobre a construção de uma obra de arte narrativa – e tomo para o âmbito do ficcional – quando Erasmo trata do discurso de (ilustres) oradores da Igreja Católica.

“Em terceiro lugar, eles vos relatam, em forma de narração, alguma passagem do Evangelho, que explicam às pressas e como de passagem, sem pensar que é unicamente nessa explicação que deveria consistir todo o discurso. Em quarto lugar, mudam repentinamente de personagem e levantam uma questão teológica que às vezes não convém em absoluto ao tema principal, e isso é também chamado uma maravilha da arte.”[14]

“Não devemos fugir do tema de nosso texto” (ficcional), pareço ouvir Loucura/Erasmo/Mestre de Escrita Criativa me orientar. “Não devemos mudar de personagem sem avisar ao leitor”, continua a(o) Mestre.

Encontro uma sutileza ao final de Elogio da loucura própria dos escritores/poetas modernos. Trata-se da metaficção que o ensaísta, romancista, escritor de literatura infantil e juvenil Gustavo Bernardo (1955) aborda em O livro da metaficção (2010).[15]

A metaficção seria um texto no qual os mecanismos da produção literária estariam expostos claramente ao leitor, como se este estivesse em uma queda contínua sobre si mesmo, e não soubesse mais se se encontra na “vida real” ou na “ficcional”. Extraio um exemplo do próprio Elogio da loucura.

“Mas ouço já chiar esses pequenos doutores em grego que, com suas novas observações, procuram nos deslumbrar e nos fazer acreditar que os teólogos são ignorantes. Se meu caro Erasmo não é o primeiro, é pelo menos o segundo desses novos doutores; nomeio-o com frequência porque é o melhor de meus amigos e quero homenageá-lo.”[16]

Ao final da leitura de Elogio da loucura, fica o sentimento que deveria ser não somente o maior da cristandade, mas também de todo ser humano: a Humildade. Cercados que somos, nós, artistas, escritores, pela Senhora Vaidade, façamos uma mea culpa e vistamos a pele da Humildade, inundemo-nos do Amor Perfeito, quando saímos de nós e estamos no Outro, e cometemos a maior das Loucuras que é “Amar ao próximo como a si mesmo”. E mais: “Como eu vos amei.”

“De fato, quem ama com ardor não vive mais em si mesmo, vive no objeto que ele ama; e, quanto mais se afasta de si mesmo para ligar-se a este objeto, mais ele sente aumentar sua alegria e sua felicidade. Ora, não é louco o homem quando seu espírito, elevando-se acima da matéria, parece sair do corpo para delirar? De outro modo, o que significariam estas expressões vulgares: Ele está fora de si… caia em si… ele voltou a si…? Enfim, quanto mais perfeito é o amor, maior a loucura e mais sensível a felicidade.”[17]

 

Das Flutuações aos Devaneios

Pouso novamente em Albert Béguin. Ele me aguarda (ainda) entre sonhos com a pergunta: “Qual a parte de nossa vida em que aceitamos nos reconhecer?”[18] Paro. Olho em seus olhos. Dou-lhe a minha mão. E o escuto soar uma canção estranha, mas ao mesmo tempo conhecida minha.

“Com efeito, a obra de arte e de pensamento interessa a essa parte mais secreta de nós mesmos em que, desprendidos de nossa individualidade aparente, mas voltados face a nossa personalidade real, só temos uma preocupação, a de abrir-nos às advertências e aos signos e conhecer por eles o estupor que inspira a condição humana contemplada um instante em toda sua estranheza, com seus riscos, sua angústia total, sua beleza e seus limites falazes.”[19]

Béguin me convida a novas associações nessa rede da Criação Poética, nessa teia da Escrita Criativa, que vai se tecendo ao mesmo tempo em que tomo o teclado e, na tela do computador, digito uma letra, uma palavra, uma frase que me faz sentido e deixo meu pensamento flutuar novamente e pousar no filósofo, romancista, teórico e músico suíço, nascido em Genebra, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em seu Os devaneios do caminhante solitário.

Entre 1776 e 1778, nos dois últimos anos de vida, Rousseau flutuou em Paris e seus arredores, observando os passantes, colhendo, para catalogar, exemplares da vegetação – a flora era uma de suas maiores paixões –, refletindo sobre a exclusão que havia sofrido da sociedade.

“Sozinho para o resto de minha vida, visto que encontro apenas em mim o consolo, a esperança e a paz, só devo e quero me ocupar de mim. É neste estado que retomo a continuação do exame severo e sincero que chamei outrora minhas Confissões. Destino meus últimos dias a estudar a mim mesmo e a preparar com antecipação as contas que não tardarei a prestar sobre mim. Entreguemo-nos por inteiro à doçura de conversar com minha alma, pois ela é a única que os homens não me podem tirar.”[20]

Nos devaneios do filósofo, do teórico, do poeta ou ficcionista – do artista – é que se abre a fresta para a Criação. Rousseau, mais adiante, agradece quando “os homens me obrigaram a viver sozinho”, porque com isso “eles haviam feito mais por minha felicidade do que eu soubera fazer por mim mesmo”.[21]

Eu, Béguin, Rousseau. Caminhamos pelos arredores da Paris imaginária. Pareço ouvir Béguin iniciar o seu diálogo com Rousseau.

– “O conhecimento de nossa existência mais “única” – que nosso mesmo amor-próprio nos dissimula profundamente – é tão difícil de alcançar como a imagem desconhecida de nosso rosto ou de nossos ombros nas efígies mortas que deles podem nos dar o espelho ou a fotografia. Para compreender esta harmonia ou esta lei particular, não existe outro meio que escapar ao tempo pela contemplação do tempo e perceber entre todas as demais, com o ouvido alerta, a melodia que é nosso Destino.”[22]

(Pareço ouvir os deuses gregos – resgatados por Isaias Pessotti – quando castigam os homens por desobedecerem ao seu Destino.)

No que Rousseau responde:

– “Quando a noite se aproximava, eu descia dos cumes da ilha e em geral sentava na beira do lago, sobre a areia, em algum refúgio escondido; ali o barulho das ondas e a agitação da água, fixando meus sentidos e afastando de minha alma qualquer outra agitação, a mergulhavam em um devaneio delicioso em que muitas vezes a noite me surpreendia sem que eu percebesse. O fluxo e o refluxo dessa água, seu ruído contínuo e retomado a cada intervalo, atingindo sem parar meus ouvidos e meus olhos, substituíam os movimentos internos que o devaneio apagava em mim e bastavam para me fazer sentir com prazer minha existência sem me dar ao trabalho de pensar.”[23]

Então, ouvimos ao longe o crepitar de uma chama se aproximando, um’A psicanálise do fogo (1949), do filósofo, poeta francês, nascido em Bar-sur-Aube, Gaston Bachelard (1884-1962), que nem todo encontro das águas, nosso, meu, de Béguin e Rousseau, poderia apagar.

 

Na psicanálise de Gaston Bachelard

Gaston Bachelard se aproxima de nosso grupo de poetas-teóricos com um novo olhar. Albert Béguin, apesar de resistente ao método psicanalítico, por considerar sua “pretensão de curar o poeta de sua poesia e evitar-lhe o fracasso”,[24] como foi o caso de Charles Baudelaire e seu As flores do mal, resolve se desarmar e escutar o novo companheiro no devaneio.

– “Mas o devaneio junto à lareira tem aspectos mais filosóficos. O fogo, para o homem que o contempla, é um exemplo de pronto devir e um exemplo de devir circunstanciado. Menos abstrato e menos monótono do que a água que flui, mais rápido inclusive em crescimento e mudança do que o pássaro no ninho vigiado a cada dia nas moitas, o fogo sugere o desejo de mudar, de apressar o tempo, de levar a vida a seu termo, a seu além.”[25]

Observo com atenção os três homens sentados ao meu lado. Investigo com o olhar o que Rousseau estaria pensando, “devaneando”, e, de repente, como se adivinhando meu pensamento, como se “adentrando” meu pensamento, ele começa a falar.

– “Tudo tem uma compensação. Se meus prazeres são raros e breves, os experimento com mais intensidade, quando ocorrem, do que se me fossem familiares; rumino-os, por assim dizer, com frequentes recordações, e, por mais raros que sejam, se fossem puros e uniformes, talvez eu fosse mais feliz do que em minha prosperidade. Na extrema miséria, com pouco ficamos ricos.”[26]

Bachelard continua:

– “Para nós, que nos limitamos a psicanalisar uma camada psíquica menos profunda, mais intelectualizada, cumpre substituir o estudo dos sonhos pelo estudo do devaneio, mais especialmente, neste pequeno livro, o devaneio diante do fogo. Em nossa opinião, esse devaneio é extremamente diferente do sonho pelo próprio fato de se achar sempre mais ou menos centrado num objeto. O sonho avança linearmente, esquecendo seu caminho à medida que avança. O devaneio opera como estrela. Retorna a seu centro para emitir novos raios.”[27]

Noto que retornamos aonde iniciei este estudo. Retornamos ao sonho de Albert Béguin. Então, resolvemos, os quatro, as quatro faces de “Um Elogio à Loucura”, nos “Devaneios para uma Escrita Criativa”, aplicarmos, ou ao menos tentarmos aplicar, tudo o quanto devaneamos, tudo o que enlouquecemos em dois pequenos textos, um ficcional e o outro poético, para pousarmos os pés no chão, apesar de as nossas cabeças continuarem a voar.

 

Dois estudos de casos: Loucura e Devaneio na Escrita Criativa

Quando o teórico, poeta, escritor francês, nascido em Tinchebray, Orne, André Breton (1896-1996) abre o seu primeiro Manifesto do Surrealismo, em 1924, reinvindica e adota o tom da Liberdade na Criação Poética, Literária, Artística, em especial a Liberdade que a Loucura fornece.

“Resta a loucura, “a loucura que se trancafia”, como já houve quem dissesse tão acertadamente. Esta ou a outra… Sabem todos, com efeito, que a única razão pela qual os loucos estão internados é um pequeno número de atos legalmente repreensíveis e que, na ausência de tais atos, a liberdade deles (aquilo que se vê da liberdade deles) não estaria ameaçada. Que eles, em maior ou menor grau, sejam vítimas de sua imaginação, estou pronto a admiti-lo, no sentido de que ela induz não observar determinadas regras cuja inobservância faz com que nossa espécie se sinta ameaçada, como todos têm o desprazer de saber.”[28]

Na Loucura e na Infância os limites não existem, ou são abertos, de par em par, os Portões da Liberdade. E Breton forja a Tríade do Imaginário, da Escrita Criativa, acrescentando o Sonho, que vai beber nas águas do Pai da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939).

“A extrema diferença de importância, de gravidade, que aos olhos do observador ordinário têm os acontecimentos da vigília e os do sono, sempre me encheu de espanto. É que, ao cessar de dormir, o homem é, acima de tudo, um joguete da memória, a qual, em circunstâncias ordinárias, se compraz em retraçar-lhe debilmente as circunstâncias do sonho, em privar este último de quaisquer consequências atuais e em fazer com que o único determinante parta do ponto em que ele imagina tê-lo deixado algumas horas antes: esta firme esperança, aquela preocupação.”[29]

Descubro no pequeno conto “Olhos mortos de sono”, do médico, escritor, dramaturgo russo, nascido em Taganrog, Anton (Pavlovich) Tchekhov (1860-1904), essa mistura exatamente dos três elementos elencados por mim no Manifesto de Breton, ou seja, a Loucura, o Sono/Sonho, a Infância.

Tchekhov narra a história de Varka, uma menina de treze anos, que toma conta de outra criança, um bebê, enquanto passa dias e noites sem dormir. E a Vigília se mistura com o Sonho de maneira violenta e assustadora, até que o Sonho se impõe no final.

“Bruxuleia o candeeiro. A mancha verde e as sombras põem-se em movimento, entram pelos olhos entrecerrados, imóveis, de Varka, confundem-se, em seu cérebro meio adormecido, em imagens nebulosas. Ela vê nuvens escuras, que se perseguem pelo céu, gritando como aquela criança. Mas eis que soprou o vento, sumiram as nuvens, e Varka vê uma estrada larga de macadame, coberta de lama quase líquida. Sobre aquela estrada, carroças deslocam-se devagar em fila, arrastam-se homens de alforje ao ombro e perpassam sombras estranhas. De ambos os lados, vê-se uma floresta, através do nevoeiro gélido. De repente, os homens de alforje e as sombras caem por terra, na lama semilíquida. “Para que isso?”, pergunta Varka. “Dormir, dormir!”, respondem-lhe. E eles adormecem profunda e docemente.”[30]

Nessa floresta de sonhos, Varka devaneia, e sonha, e enlouquece, misturando e se misturando com a Vida e a Realidade, entre a Teoria e a Ficção na Escrita Criativa de Anton Tchekhov. O Devaneio, fusionado com a Loucura, provocado pela falta de dormir, os “Olhos” que já estão “mortos de sono” antes mesmo do final estrondoso do conto, o final totalmente compreensível do conto, por sabermos viver em Varka uma das possibilidades da nossa natureza humana.

“Mas a criança grita, extenua-se de tanto berrar. Varka vê novamente o macadame lamacento, os homens de alforje às costas, Pielagueia, pai Iefim. Compreende tudo, reconhece a todos, mas, através da modorra, somente não consegue compreender aquela força que lhe amarra pés e mãos, que a esmaga e impede-lhe a vida. Olha ao redor, procura aquela força, para se livrar dela, mas não a encontra. Por fim, extenuada, concentra todas as energias, e todo o seu olhar espia para cima, para a mancha verde que bruxuleia e, prestando atenção aos gritos, encontra o inimigo que a impede de viver.

O inimigo é a criança.”[31]

Mas quando o poeta, escritor, astrólogo, crítico, tradutor português, nascido em Lisboa, Fernando (António Nogueira) Pessoa (1888-1935) analisa seus múltiplos heterônimos, descubro o ápice da Loucura misturada com o Devaneio na Escrita Criativa, ao menos nesse escritor, considerado por muitos a expressão maior da Poesia portuguesa.

“Há autores que escrevem dramas e novelas; e nesses dramas e nessas novelas atribuem sentimentos e ideias às figuras, que as povoam, que muitas vezes se indignam que sejam tomados por sentimentos seus, ou ideias suas. Aqui a substância é a mesma, embora a forma seja diversa.

A cada personalidade mais demorada, que o autor destes livros conseguiu viver dentro de si, ele deu uma índole expressiva, e fez dessa personalidade um autor, com um livro, ou livros, com as ideias, as emoções, e a arte dos quais, ele, o autor real (ou porventura aparente, porque sabemos o que seja a realidade), nada tem, salvo o ter sido, no escrevê-las, o médium de figuras que ele próprio escreveu.”[32]

Tomo o heterônimo de Alberto Caeiro em minhas mãos. Em carta datada de 13 de janeiro de 1935 ao poeta, crítico, tradutor português, nascido em Porto, Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), Pessoa narra a maneira “histérica” – feito ele mesmo se autodenomina – em que gestou o poeta pastoral Alberto Caeiro.

“Ano e meio, ou dois anos depois [em relação a 1912], lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de março de 1914 –, acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.”[33]

No prefácio de Ricardo Reis encomendado pelos parentes de Alberto Caeiro para a edição de seus Poemas completos, Reis – heterônimo de Pessoa que mora no Brasil – conta que “Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a [16] de abril em 1889, e nessa cidade faleceu, tuberculoso, em […] de 1915”.[34]

Reis afirma que na vida de Caeiro “não há nele de que narrar. Seus poemas são o que viveu”.[35] E encontro no II Poema de O Guardador de Rebanhos aquilo que penso reunir, resumir, simbolizar este estudo que fiz sobre a Loucura, o Devaneio, o Sonho na Escrita Criativa, tanto Poética, quanto Ficcional, e que, em uma Chave de Ouro, muito bem encerra “Um Elogio à Loucura: Devaneios para uma Escrita Criativa”.

“O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

E aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo comigo

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo…

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender…

O mundo não se faz para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência.

E a única inocência é não pensar…”[36]

 

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* Para baixar o arquivo em PDF: Um Elogio à Loucura – Devaneios para uma Escrita Criativa – Patricia (Gonçalves) Tenório

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* Artigo final da disciplina Teorias da Criação Poética, ministrada pela Prof. Dra. Ana Maria Lisboa de Mello, de Março a Julho de 2016, no Programa de Pós-Graduação em Letras – Escrita Criativa da PUCRS, que assisti como Aluna Especial.

(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dez livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (2013)), Vinte e um / Veintiuno [lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016], e A menina do olho verde (livros físico e virtual lançados na Livraria Cultura RioMar Recife em 28 de maio de 2016 e na Livraria Cultura Bourbon Country Porto Alegre em 11 de junho de 2016).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof.ª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2) BÉGUIN, Albert. El Alma Romántica y el Sueño: Ensayo sobre el romanticismo alemán y la poesía francesa. Traducción (para el español) de Mario Monteforte Toledo. Revisada por Antonio y Margit Alatorre. Mexico, Madrid, Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, (1936 in) 1978, p. 11 – Tradução livre ao português para este estudo.

(3) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 12.

(4) Nise – o coração da loucura. 2015. 1h48. Brasil. Direção: Roberto Berliner. Com Glória Pires, Simone Mazzer, Julio Adrião, entre outros.

(5) DESIDÉRIO, Erasmo. Elogio da loucura. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, (1508 in) 2011.

(6) PESSOTTI, Isaias. A loucura e as épocas. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994, p. 16-17, itálico da edição.

(7) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 21.

(8) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 13.

(9) Com exceção de Erasmo de Rotterdam, Jean-Jacques Rousseau e Gaston Bachelard, a partir desta passagem, fica subentendido que os teóricos e poetas citados foram estudados na disciplina Teorias da Criação Poética, ministrada pela Profª. Ana Maria Lisboa de Mello.

(10) NETO, João Cabral de Melo. A inspiração e o trabalho de arte. In Obra completa. Edição organizada por Marly de Oliveira com assistência do autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 724.

(11) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 41.

(12) VALÉRY, Paul. Primeira Aula do Curso de Poética. In Variedades. Organização e introdução: João Alexandre Barbosa. Tradução: Maiza Martins de Siqueira. Posfácio: Aguinaldo Gonçalves. São Paulo: Iluminuras, 1991, p. 181.

(13) YEATS, William Butler. El simbolismo de la poesía. In Cómo se Escribe un Poema. Selección, prólogo e introducciones de Daniel Freidemberg y Edgardo Russo. Buenos Aires, Argentina. El Ateneo Editorial, 1999, tradução livre para este estudo.

(14) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 99.

(15) BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Ilustrações: Carolina Kaastrup. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010.

(16) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 117.

(17) DESIDÉRIO, Erasmo. Op. cit., (1508 in) 2011, p. 131, itálico da edição.

(18) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 13.

(19) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 15.

(20) ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Tradução: Julia da Rosa Simões. Porto Alegre, RS: L&PM, (1776-1778 in) 2008, p. 12, itálico da edição.

(21) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 13.

(22) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 16.

(23) ROUSSEAU, Jean-Jacques. Op. cit., (1776-1778 in) 2008, p. 68.

(24) BÉGUIN, Albert. Op. cit., (1936 in) 1978, p. 21.

(25) BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução: Paulo Neves. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, (1949 in) 2008, p. 25 – (Tópicos).

(26) ROUSSEAU, Jean-Jacques. Op. cit., (1776-1778 in) 2008, p. 122.

(27) BACHELARD, Gaston. Op. cit., (1949 in) 2008, p. 22.

(28) BRETON, André. Manifestos do surrealismo. Tradução: Sergio Pacha. 1ª edição. Rio de Janeiro: Nau Editora, (1924 in) 2001, p. 17.

(29) BRETON, André. Op. cit., (1924 in) 2001, p. 24.

(30) TCHEKHOV, Anton. Olhos mortos de sono. In Os melhores contos de loucura. Organização: Flávio Moreira da Costa. Tradução: Boris Schnaiderman. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, p. 45.

(31) TCHEKHOV, Anton. Op. cit., 2007, p. 49.

(32) PESSOA, Fernando. Obras em prosa. Volume único. Organização: Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p. 82.

(33) PESSOA, Fernando. Op. cit., 1974, p. 96, colchetes meus, itálico da edição.

(34) PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. Edição: Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 11, colchetes da edição.

(35) PESSOA, Fernando. Op. cit., 2005, p. 11.

(36) PESSOA, Fernando. Op. cit., 2005, p. 19.

O homem despedaçado* | Gustavo Melo Czekster**

Um mundo de moscas

Influenciado pelos estudos de Pascal e Newton, Montanelli afirmou, no princípio do século XVIII, que os homens não passavam de um delírio das moscas. Essa declaração incendiou o mundo civilizado, encontrando entre seus defensores Fleming, Jones e Desnèuve. Contudo, foi no século XX, com Anton Lopez, de Madri, que ela mais se desenvolveu, reforçando inclusive as ideias de Lamarck no que diz respeito à teoria dos caracteres adquiridos.

Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa. Lopez admitia a hipótese das moscas memorizarem os mortos para posterior reconstrução deliral, linha de raciocínio seguida pelos admiradores de Montanelli, circunstância que o absolveu diante dos seus iguais. A declaração que equiparava Deus às moscas, feita no seio de um país católico, despertou compreensível furor, forçando Lopez a buscar refúgio em outro local.

As selvas da América do Sul eram o lugar ideal para desenvolver seus estudos: as moscas, as chuvas abundantes, o calor onipresente. Além disso, foi de especial razão para a escolha do local a obra de temática indígena escrita pelo padre Caetano Moraes, pois algumas lendas tratavam do mesmo assunto pesquisado pelo espanhol. Um desses mitos mencionava o Curupak-in-Otre, ou Homem-Mosca, um ser que, mesmo tendo forma humana, pensava como mosca; chamava atenção a impossibilidade de tal criatura banhar-se, temendo a fragmentação.

Utilizando parâmetros matemáticos definidos por Descartes e Pitágoras (com uma leve influência nunca admitida do indiano Bakhti), Lopez definiu que, para cada pessoa do mundo, existe um número de moscas correspondente ao seu número de células. Essa conclusão pode ser sintetizada no seguinte postulado: Ncel = m, Ɐp, onde p é uma pessoa qualquer, Ncel é o volume das células deste marco referencial e m é o número de moscas correspondente a essa pessoa.

Na época em que a fórmula foi idealizada, não se sabia com precisão o número de células de uma pessoa, que é de natureza variável. Grandes matemáticos (entre os quais Gillan, McPherson e Oppenheimer) concentraram nesse ponto as suas críticas, pois Ncel seria um termo impossível de ser calculado em grupos, somente de forma individual, o que retiraria o mérito da descoberta.

Sem saber das polêmicas que viria a despertar, Lopez produziu o único trabalho científico da sua vida, divulgado na edição de maio de 1949 do American Journal of  Philosophy. Com o título de Um mundo de moscas, Lopez suscitou conhecimentos cabalísticos, teorias físicas e biológicas, excertos católicos, fatos da História, movimentos topogeográficos e delírios sonhadores, condensando em exíguas cinco páginas sua ideia a respeito do fim do mundo. Ao aplicar a equação criada, expandindo ao máximo o seu alcance, ele atribuiu um valor arbitrário para Ncel (quatro milhões) e concluiu: se, para cada pessoa, existem quatro milhões de células, por conseguinte, o mesmo número de moscas está presente, altamente compactado, na proporção de um para um.

Cada mosca mede cerca de um centímetro e pesa em torno de 0,1 miligrama. Quatro milhões de moscas equivalem a quatro milhões de centímetros de quatrocentos mil miligramas, o que implica dizer que cada pessoa da Terra é igual a quarenta quilômetros e 0,4 quilo de moscas. Tomando por base a população média da Terra na época, ele chegou a um total de moscas capaz de cobrir toda a superfície do planeta em cinco camadas sobrepostas, além de possuir um peso descomunal.

Com base nesses sólidos cálculos, Lopez afirmou que o maior perigo para a sobrevivência humana seria o fenômeno chamado de diáspora, a separação das moscas que tornam as pessoas coesas. Defendeu ainda a ideia de um rígido controle das moscas que trafegam impunes pelo mundo, pois poderiam estar carregando consigo pessoas já falecidas ou criar novas e esdrúxulas combinações de seres humanos, como uma fusão de Napoleão e Dickens. Esse estudo foi recebido com estardalhaço nos meios científicos, e há evidências de que grandes indústrias de armamentos investiram em pesquisas sobre venenos contra moscas.

Após publicar o estudo, Anton Lopez refugiou-se em uma floresta. As poucas pessoas que conseguiram encontrá-lo deparavam-se com um homem nu, de barba comprida e olhos insanos, dedicado à compreensão das moscas. Elas enchiam todo o lugar com seu zumbido insistente, e os visitantes ocasionais encantavam-se ao ver o domínio que o recluso exercia sobre as pequenas criaturas.

Certo dia, Anton Lopez desapareceu. Restaram somente os seus desenhos de homens formados por moscas, obras que, pela simetria e noção do corpo humano, assemelhavam-se aos esboços de Leonardo da Vinci e aos quadros de Archimboldo. A última pessoa que viu Anton Lopez foi o homem que levava a comida uma vez por semana ao sítio. De acordo com a sua versão: “O senhor Lopez estava vestido, o que não era normal, e as moscas estavam dentro da sua roupa, mexendo de um lado para o outro. Às vezes, uma saía da boca, outra do nariz, outra da orelha. Ele não parava de andar e não dizia coisa com coisa”. Infelizmente, a veracidade do depoimento nunca foi confirmada: dias depois, encontraram a testemunha dentro de um valo, coberta de moscas.

Há relatos de que Anton Lopez deixou um diário, intitulado Compendius muscarum, boato também carecendo de confirmação. As moscas que infestavam a sua casa desapareceram. Uma frase rabiscada no chão, última herança do pensador espanhol, até hoje é fruto de controvérsia: “Os homens são delírios das moscas, que não passam de uma ilusão dos homens”.

 

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CZEKSTER, Gustavo Melo. Um mundo de moscas. In O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011, p 19-22.

** Contatogusczekster@gmail.com

“Compulsão agridoce”* | Antonio Aílton**

O jardim de Po Chü-yi

 

Dizem aí que Fulano é um grande poeta

que tem estilo, e até consegue imitar

a si mesmo, para conservar sua marca

Que é como Picasso depois de Les Demoiselles

Quanto a mim, sei que meu pequeno jardim

não é como o das grandes casas de portões vermelhos

dos poetas que olham desdenhosos o outro lado do bulevar

Não é como os planejados para a entrada dos grandes colégios

nem como os que embelezam ainda mais os fluxos do sol

que rebatem nas vitrines das grandes empresas

Em meu pequeno jardim, eu sei, há flores

grandes e minúsculas, coloridas e tristes, às vezzes

perfumadas

e há também flores falsas como é natural das plantas

flores enjambradas e ervas daninhas que tenho preguiça

de tirar, ou não sei como

então deixo aos poucos amigos quando vêm beber vinho

olharem e dizer: “ô, isso cresceu aí…”, e respiondo: “foi mesmo…”

Então vamos beber um pouco mais de vinho, e aponto

uma velha espreguiçadeira herdada de Po Chü-yi

poeta mais sábio que todos nós juntos, e que após ouvir

o alaúde

perguntava:

“Por que suspirar por grandes terraços, açudes

quando um pequeno jardim é tudo quanto basta?”

 

Hayao Miyazaki

 

Grande é o mundo, nós o dominaremos

com a pequenina flor salpicada de crianças

e vendavais

um bastão, uma velhinha, um carrinho quebrado

que sobrou da última guerra

Mas o espírito é como uma fagulha, um vento singelo

que sopra ainda tenro dos pés de limão

de onde nasce a primavera e as gargalhadas da infância

La vêm elas,

as pequeninas correndo pelos campos

espalhando novas sementes nos balancinhos

novas lentes para cegueira

desentranhando a catarata do meu olho

Agora vejo o que parece Totoro, quase no meio da chuva

o mundo é vasto quando estamos dentro

nós o dominamos ao nascermos sempre

e de novo

entre suas viagens e paisagens

pântanos e bolinhas de fuligem

até completarmos o ciclo de volta

para nossa mãe,

a casa

 

__________________________________

AÍLTON, Antonio. Compulsão Agridoce. Prefácio: Lourival Holanda. Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2015, p. 18 e 40.

** Contatoailtonpoiesis@gmail.com

Coisas: poemas etc* | Pedro Américo de Farias

Poética do desassossego

1

Silêncio           sim

resvalo

pelo ralo

silêncio            não

 

desassossego

 

verbo rebelde

cego de reima

revel sou

não sem visão

 

revelo             não

resvalo

raiva de aflição

pelo ralo

 

revelo               sim

desassossego

silêncio             não

resvalo

 

revelo               sim

pelo ralo

 

2

Não me calo

profissão de fé

poeta

calo serei não por acaso ou

prazer

ouvir e cantar de sim e

não

de não calar se o calo

aperta

coisa de negar não de

esquecer

não é por nada nem por

querer

minha língua rude roída

rói

sagrado dogma

abaixo do qual ferve a

fogueira

verve fogosa queima o

silêncio

sobre a labareda

 

3

Fantasma em fúria

quebro quebrantos

 

sem leme nem rumo

cato gravetos da memória

na preamar do esquecimento

 

bandeira a meio pau

vela e mastro quebrados

 

escolho as máscaras

do figurino que me desenha

na face a cicatriz da derrota

mastigo agouros e agruras

em cadeias aprisionadas

 

4

Corvo de Poe

signo da angústia

vigia noturno

espera notícia

que possa levar

da comédia humana

 

5

Resto de paisagem e sombra

a brisa do desejo atrasa

adia-se a primavera

passarinhos migram

silencia o canto

 

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FARIAS, Pedro Américo de. Coisas: poemas etc. Prefácio: Lourival Holanda. Recife: Linguaraz Editor, 2015, p. 14-16.

Memórias dum hiperbóreo* & Antologia Cosmopolita** | Oleg Almeida***

* ALMEIDA, Oleg. Memórias dum hiperbóreo. Apresentação: Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, p. 9-11.

 

I.

 

Quem sou eu?

Uma gota de tinta lilás

que balança na ponta da pena,

contendo em si toda a sabedoria do mundo

a começar por Tales?

A própria pena arrancada a um ganso qualquer

pela destra dum sábio hipermetrope?

O ganso que mora num sítio,

de tão sossegado, quase paradisíaco,

e passa dias inteiros a chapinhar,

junto com outros gansos e patos,

numa lagoa esverdeada?

O sítio que se situa

no meio duma vasta campina

rica em ervas daninhas e flores exuberantes:

ninguém consegue localizá-lo,

porém todos sabem que existe?

Essa tal de campina,

cujo nome autêntico me saiu da cabeça,

fazendo parte dum país extraordinário,

dado a brincadeiras e cheio de desespero?

Esse país singular,

o da esfera e do losango,

dos músculos duros e corações macios,

que conquistara – disso não tenho dúvida – todo o planeta,

se fora menos sentimental?

O nosso planeta veloz

que voa através do espaço

e muda, e por vezes, de cor e de rumo,

embora de sua órbita nunca se ausente

nem deixe de ser azul?

O espaço caótico e gelado

que engloba milhões de planetas iguais ao nosso,

berço do evangelho e da barbárie,

apenas um pingo de tinta lilás

que balança, teimoso, na ponta da pena divina:

está por cair, mas não cai?

Quem sou eu neste jogo de sombras,

pergunto-me a mim mesmo,

não acho resposta satisfatória

e adormeço zangado.

…………………………………………………………………………………………………………………….

Olhai, ó Senhor, para mim

com Vosso sorriso bondoso e complacente,

dai-me um pouco de luz olímpica;

perdoai a vontade insana

de ler o final da história, antes que seja escrito,

de quebrar, com alarde, a casca da noz sagrada

e comer o miolo,

de penetrar o impenetrável!…

Sei que não sei de nada;

confesso, a contragosto, que nada conheço,

que sempre me escapa a verdade sutil,

e fica a saudade do Éden desmoronado.

A minha quadra tem cinco alexandrinos,

o meu passado carbonizado

está presente em tudo o que faço hoje.

Sinto-me oco.

Preciso de paz, ó Senhor,

de afeto, de compreensão,

duma força a guiar-me.

Sou homem…

Foram medíocres as escolas que terminei,

foram ruins as ideias que me inspiraram,

talvez tenham sido inúteis os meus sacrifícios.

Quem sabe perder, nunca perde a luta!

…………………………………………………………………………………………………………………….

Sou Crates de Tebas,

o último dos mendigos que se arrasta –

réprobo, maltrapilho, filósofo –

pela estrada da vida,

entrando nas casas alheias sem papas na língua

nem boas-vindas.

Sou Hermes, o Mensageiro,

que ultrapassa a correr o tempo alígero

e salta as maiores montanhas.

Sou ínfimo e sublime,

como só pode ser um pedaço de carne dotado de espírito:

a minha vitória resulta das minhas fraquezass,

o cosmo, que me enclausura, íntegro cabe no meu pensamento.

Sou um molusco tirado da concha

e uma das bólides que desafiam o céu noturno.

Sou homem.

 

** ALMEIDA, Oleg. Antologia Cosmopolita. Apresentação: Affonso Romano de Sant’Anna. 1. ed. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013, p. 9 e 21.

 

Introdução  

 

Leiam-me, por favor.

Não precisam gostar de meus textos, contanto que os conheçam. Escritos, ao longo dos anos, em português, russo ou francês, far-lhes-ão companhia. Se lidos de modo cordial, darão margem a críticas e sorrisos; se lidos por ócio, produzirão, sabe lá o diabo, certo incômodo. Mesmo quem os detestar não terá prejuízo.

Leiam-me a qualquer momento: de noite e de dia, nas horas vagas e saturadas, em pleno verão e no ápice do inverno. Leiam-me em toda parte: à mesa de seu jantar e na sala de espera do médico, recostados em seus sofás e de pé na parada de ônibus. Não existem lugar nem horário ruins para lerem um livro. Saciem-se de poesia, misturem-na com churrascos e noticiários – eis o meu desafio!

Leiam-me por motivos sérios e nulos, cientes de a leitura imotivada ser muito melhor que a compulsória. Talvez fiquem bravos com minha filosofia e meu estilo lhes cause estupor. Não carreguem o cenho: até o veneno da cascavel planteia seu lado se não salutar pelo menos útil.

Uma vez lido, ponham este meu livro em sua estante ou joguem-no fora. Pouco importa o paradeiro futuro dele. Podem esculhambá-lo quanto quiserem, mas não me censurem por tê-lo escrito: fiz isso movido pela necessidade de conversar com alguém que me compreendesse. A compreensão é um dos pilares da irmandade universal.

Não procuro por seus favores: o público justifica, em si, o trabalho do escritor. O fato de uma obra cair no esquecimento, colhendo a outra louros e galardões, não altera nada. O essencial é que ambas as obras tenham leitores, escassos ou numerosos.

E não se encabulem, se pegos com minhas quimeras na mão, porque ler é regar as sementes da imortalidade.

 

Clímax

 

Neste momento

não há mais temor nem decência, nem mesmo bom-senso:

nosso desejo é a primeira e única lei do mundo.

Gira, ó mundo, e pula da órbita fora e faz-te em pedaços –

somos teus amos selvagens, teus anjos seviciadores!

Neste momento

as nossas moléculas se arrojam, se juntam e se ajustam,

dando início à explosão duma supernova,

nossas salivas fervilham e nossas mãos estão livres

para fazer tudo quanto quiserem, e nossos corpos se tornam

vastos, imensuráveis, de sorte a englobarem

todas as alegrias terrenas, até a última chispa.

Neste momento,

que passa e nunca volve (caso volvesse,

seria a réplica trivial duma obra-prima),

desafiamos a Convenção e mandamos a Regra às traças

em nome da cósmica força que nos atrai um à outra,

e tu me chamas, terna e simplesmente, de teu amado

e adormeces, cansada e cheia de dengues, cá no meu peito,

sem suspeitar que sejamos, por um sexagésimo de segundo,

Cronos e Reia, sem mais nem menos, gulosos

pais soberanos do próximo século d’ouro.

 

___________________________________

*** Contatooleg_almeida@hotmail.com

Pílulas para o silêncio* | Píldoras para el silencio* | Clauder Arcanjo**

 

XII

Novidades descabidas

Novedades descabelladas

 

Sabe da última? O homem mata o homem e põe a culpa no destino.

Sabe da novidade? O homem prevê o fim do mundo e põe a culpa em Nostradamus.

Sabe da derradeira? O homem “adora” velhas novidades e põe a culpa em… pobres de nós: “malditos poetas-prosadores”.

 

¿Sabe la última? El hombre mata al hombre y echa la culpa al destino.

¿Sabe la novedad? El hombre intuye el fin del mundo y echa la culpa a Nostradamus.

¿Sabe lo definitivo? El hombre “adora” vieja novedades y echa la culpa a… pobres de nosotros: “malditos poetas-prosistas”.

***

 

Ontem sonhei com o hoje; e tive pesadelos, velhos e revelhos, com o futuro de amanhã.

Seria eu um precipitado egocêntrico?

 

Ayer soñé con el hoy, y tuve pesadillas, viejas y reviejas, acerca del futuro de mañana.

¿Es que soy un egocéntrico anticipado?

***

 

Nos dias de hoje, em casa de ferreiro – devido à santificação da modernidade – espeto não há.

 

En días de este tiempo, en casa del herrero – debido a la santificación de la modernidad – pincho no hay.

***

 

De Davi, a funda certeza. De Nonato, a não vida. De Jó, a teimosa paciência. De Cristo, a arguta parábola. De Sansão, a paixão por Dalila.

E, de todos eles, a dependência eterna de ser: homem.

 

De David, la profunda certeza. De Nonato, la no vida. De Job, la terca paciencia. De Cristo, la aguda parábola. De Sansón, la pasión por Dalila.

Y, de todos ellos, la dependencia eterna de ser: hombre.

***

 

Se o escritor amansar a pena, a prosa fenecerá… E o visgo da vida, indômito por nascença, se fará mero enxame de parágrafos, ao se tornar contido e sem fel na folha posta, e indisposta.

 

Si el escritor amansa la pluma, la prosa desfallecerá… Y la seta de la vida, indómita por naturaleza, se hará simple enjambre; al volverse contenido y sin fiel en la hoja puesta, resulta desmotivante.

***

 

Diálogo entre dois psicólogos da província.

– Você é um seguidor de Freud ou de Jung?

– De nenhum deles, caro colega. Aqui na província, ao contrário dos grandes centros, nada prescrito por esses dois grandes teóricos funciona.

– Como assim?

– Tenha um pouco de paciência. Nos meses vindouros, publicarei uma obra acerca do Complexo de Jeca Provinciano. Uma revolução nos tratados da moderna psicanálise, acredite.

– …

 

Diálogo entre dos psicólogos de la provincia.

– ¿Tú eres seguidor de Freud o de Jung?

– De ninguno de ellos, apreciado colega. Aquí en la provincia, al contrario de las grandes ciudades, no funciona nada de lo prescrito por esos dos grandes teóricos.

– ¿Cómo es eso?

– Tenga un poco de calma. En los próximos meses publicaré una obra acerca del Complejo del Paleto Provinciano. Una revolución en los tratados del psicoanálisis moderno, créalo.

– …

 

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ARCANJO, Clauder. Pílulas para o silêncio. Píldoras para el silencio. Tradução de Alfredo Pérez Alencart. Revisão: David Leite, José Nicodemos, Lilia Souza, Manoel Onofre Júnior e Sânzio de Azevedo. Mossoró, RN: Sarau das Letras / Salamanca – Espanha: Trilce Ediciones, 2014, p. 47-49.

** Contatoclauderarcanjo@gmail.com

Índex* – Maio, 2016

Que sabor tem um Beijo? Para ele? Para ela? Tem o gosto de encontro, encontro assim meio de lado, a cabeça de Manoela deitada de lado para receber o Beijo de Pedro. Era feito um aconchego, aquela cabeça deitada, no ombro de seu amado. O Beijo, assim torto parecia. Mas não era torto, era místico e ali se fazia um santuário.

            Naquele instante celestial, um Raio de Sol tocou a Cabeça de Manoela. A Cabeça da menina permanecendo deitada, pendendo assim para o lado, era mais fácil o Raio de Sol a tocar e se inserir no pensamento. Houve então uma Epifania. Todos os momentos vividos, o antes, o agora, o depois explodiram em Manoela, como se fossem um instante só. E a menina-mulher podia no corpo de Pedro entrar, no corpo do homem-menino penetrar, feito o ar em seus pulmões.

(Trecho de A menina do olho verde, de Patricia (Gonçalves) Tenório)

 

O Amor em cada instante do Índex de Maio, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Lembrete da Editora Raio de Sol, Livraria Cultura & Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife, PE – Brasil) | lançamentos dos livros físico e virtual “A menina do olho verde”.

Entrevista e Crítica de Raúl Galache García (Madri, Espanha) | “Vinte e um” / “Veintiuno”, de Patricia (Gonçalves) Tenório).

Amor Amor | Alcides Buss (SC – Brasil).

A vaidade de Pedro | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

Pérolas em “Amor e outros desastres” | Alexandra Lopes da Cunha (Brasília, DF / Porto Alegre, RS – Brasil).

Convite de Antonio Aílton (São Luís, MA – Brasil) | “Compulsão agricode”.

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 26 de Junho de 2016, um abraço bem grande e até lá.

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – May, 2016

What flavor has a kiss? For him? For her? It has the taste of meeting, meeting so sideways, the head of Manoela lying on her side to receive the kiss of Peter. It was like a warmth, that lying head, on the shoulder of his beloved. The Kiss, so crooked it looked. But it was not crooked, it was mystical and there was made a sanctuary.

That heavenly moment a Sunbeam touched Manoela’s head. The girl’s head remained lying, and hanging to the side, it was easier the Sunbeam to touch her and insert in her thought. Then there was an epiphany. All moments lived, before, now, after burst into Manoela, like an only moment. And the girl-woman could enter in the body of Peter, in the man-boy’s body penetrate, like the air in his lungs.

(Excerpt from “The girl’s green eye”, Patricia (Gonçalves) Tenório)

Love in every moment of the Index of May, 2016 in Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Reminder from Raio de Sol Publisher, Livraria Cultura & Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife, PE – Brasil) | launching of the physical and virtual books “The girl’s green eye”.

Interview and Critic from Raúl Galache García (Madrid, Spain) | “Twenty-one” / “Veintiuno,” Patricia (Gonçalves) Tenório).

Love Love | Alcides Buss (SC – Brasil).

Vanity Peter | Clauder Arcanjo (Mossoro, RN – Brasil).

Pearls in “Love and other disasters” | Alexandra Lopes da Cunha (Brasília, DF – Brasil / Porto Alegre, RS – Brasil).

Invitation Antonio Ailton (São Luis, MA – Brasil) | “Compulsion agricode”.

I appreciate the participation and kindness, the next post will be on June 26, 2016, a big hug and see you there.

Patricia (Gonçalves) Tenorio.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O nascimento de um”A menina”… Fotos: Jaíne Cintra (Moreno, PE – Brasil). The birth of  “A girl”… Photos: Jaíne Cintra (Moreno, PE – Brasil).

Lembrete Editora Raio de Sol, Livraria Cultura & Patricia (Gonçalves) Tenório | lançamentos dos livros físico e virtual “A menina do olho verde” em Recife, PE e Porto Alegre, RS

Convite A menina do olho verde - Patricia (Gonçalves) Tenório

 

“Este livro pode ser lido

Como se fosse um filme de 90 minutos,

Como se fosse uma fábula lúdico-adulta,

Como se fosse você que entrasse na pele de

Manoela, Letícia, Pedro, Jonatas,

Professora Mariana, o Prefeito José,

E investigasse que lugar lhe pertence no mundo:

Um lugar do olho preto,

Ou um lugar do olho verde?”

 

Lançamentos dos livros físico e virtual “A menina do olho verde”, de Patricia (Gonçalves) Tenório

BookTrailer:

Ilustrações: DS Tenório

Design e Vídeo: Jaíne Cintra

Narração e Música: Karla Linck

 

Maiores informações: www.patriciatenorio.com.br

 

Evento Recife:

http://www.livrariacultura.com.br/loja/livraria-cultura-shopping-riomar-2100015/evento/lancamento-do-livro-a-menina-do-olho-verde-com-patricia-goncalves-tenorio-6007508

 

Evento Porto Alegre:

http://www.livrariacultura.com.br/loja/livraria-cultura-bourbon-shopping-country-2100008/evento/lancamento-do-livro-a-menina-do-olho-verde-6007415

Entrevista e Crítica de Raúl Galache García (Madri, Espanha) | “Vinte e um” / “Veintiuno”, de Patricia (Gonçalves) Tenório).

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Entrevista:

http://www.azayartmagazine.com/entrevista-a-la-escritora-patricia-tenorio/

Link para compra de Vinte e um / Veintiuno:

http://www.mundibook.com/producto/vinte-e-um-veintiuno/

 

Raúl Galache García

Escritor, profesor de Lengua y Literatura y crítico literario

13/04/2016

 

Llega este libro de la mano de Editorial Mundibook en edición bilingüe. Acierta la editorial al ofrecer la palabra original y la traducida, pues es esta, la palabra, sin duda, una de las protagonistas de la obra.

Patricia (Gonçalves) Tenório no es nueva en esto de la literatura. Escritora desde 2004, cuenta con ocho obras publicadas. Una autora polifacética que se mueve con soltura en la poesía, la novela y el cuento, seguramente porque, al fin y al cabo, la creación es una para quien se vale de la palabra bien forjada. No en vano su obra ha sido galardonada en varias ocasiones.

Veintiuno es un libro de veintiún relatos breves, de esos en los que la condensación juega a favor de la autora y del lector. Como bien dice el escritor Diego Vadillo en su esclarecedor prólogo:

“Los relatos que el lector encontrará en este libro pertenecen a un universo —ese, particular, de la autora que los concibió—, un universo atrapado en el universo-libro“.

Pero no solo es eso. Más bien, cada cuento configura su propio universo, su propia realidad alumbrada y limitada por el lenguaje. Por ello, no es de extrañar que el primero de los relatos, “Alicia en el espejo”, tenga como argumento el de la primera palabra pronunciada por una niña. “Al principio existía la palabra”, dice la cita bíblica. Y así es. Solo conocemos la realidad por medio del lenguaje y solo el lenguaje configura la realidad; como dijo Wittgenstein: “Los límites de mi lenguaje son los límites de mi mundo”. En este primer relato, vemos cómo la protagonista ya conoce su propia realidad y se la explica a sí misma. El paso que da del lenguaje interior al lenguaje exterior lo hace, meramente, por complacer a los adultos. Tras este primer cuento, que abre el libro a modo de “Génesis”, comienza una serie de piezas de fuerte expresividad. En todas ellas destaca la capacidad de Patricia Tenório para crear un microcosmos sólido en un espacio muy breve. Son sus personajes los que crean esa realidad a la que asiste el lector. Es una palabra artística, o lo que es lo mismo, poética; es decir, creadora. Leemos en “Alicia ante el espejo”:

“Me desperté con el bigote de mi padre dándome un beso. No sé de dónde vino, tal vez fue el sofá, blandito, bonito, que juntó una ppp con la aaa y las colocó en mi boca, para complacer a papá”.

Pero, como decíamos, el lenguaje tiene dos dimensiones: la interior y la exterior. El lenguaje interior es el que nos explica nuestro pensamiento. Es este otro de los puntos clave del libro. Los personaje deVeintiuno crean su propia realidad, pero esta acaba enfrentada a la del mundo. Lo vemos en el segundo relato, “María-María”:

“No podían besarse, abrazarse, acariciarse. Pero se miraban la una a la otra como para teletransportase, y miraban bien a lo lejos y cada vez más cerca la piscina azulada creada a través de la cantera”.

La protagonista queda suspendida en el vacío y es su propia mente la que da sentido a ese momento, al margen de lo que el resto de personajes que asiste a la escena entienden que sucede.

Las ensoñaciones forman parte fundamental de la obra. En “Una mirada hacía Estambul”, el título lo dice todo. La forma de mirar la realidad de la protagonista crea la ciudad. La narradora se imagina en otro tiempo, presa en “el harén del palacio de Topkapi”, y la imagen se carga de tal fuerza que el lector la da por cierta.

Al fin y al cabo, no hay más certeza que la que uno ve, no hay más realidad que la que cada cual contempla y crea. En “Estudio 2100″, asistimos a una distopía, un futuro en el que “los libros están registrados bajo el derecho de autor y el orden elegido por la Curia Mayor de Intelectuales”. En tal mundo, el protagonista se sabe escritor:

“Siente las letras pulsando por sus venas, pidiendo pasar de las manos al papel, de los sueños a la realidad”.

“Pasar de los sueños a la realidad”; tal vez sea este el secreto de la escritura para Patricia Tenório. La ensoñación se hace cierta al materializarse en palabras. Como dice el narrador de este mismo cuento:

“Escribe para coger estrellas”.

El don de la palabra creadora, que solo es dado a algunos, pero, eso sí, a cambio de un precio, como le sucede a Pedro, el protagonista de “Estudio 2100″: “De tanto amar, está triste”.

Como ya podrá intuirse, los personajes de Tenório viven a corazón abierto. Se dejan traspasar por la vida, y, al mismo tiempo, la toman al asalto. “El club de los suicidas” tiene como protagonista a José, cuya pasión por vivir ahuyenta las ansias de morir. Dice así el narrador:

“Y algunos de los suicidas, en vez de arrojarse, iban allí, bien callados, a escuchar los sueños de José, los sueños que él no sabía escribir, solo contar; no sabía el porqué, solo recordaba”.

Precisamente en este cuento, “El club de los suicidas”, apreciamos otra de las habilidades de la autora: su capacidad para configurar una realidad onírica, a veces cercana a la pesadilla, lindando en ocasiones con el Surrealismo; y lo hace con muy pocas palabras. Así comienza, por ejemplo, “Incendio”:

“Había cadáveres, allí tumbados, arrojados, dejados en el suelo. En el pasillo del hospital, se veían niños, adultos, viejitos con los rostros medio quemados, medio cortados, medio lavados por el fuego portentoso”.

Patricia Tenório crea imágenes vibrantes y potentes, de las que atrapan al lector y no lo sueltan hasta que concluye el relato. Acudimos de nuevo al prólogo de la obra, donde dice Diego Vadillo, con mayor acierto que nosotros:

“No sabría decir con exactitud si en estos relatos se hace cotidiano lo inaudito o, al contrario, se empuja a lo cotidiano hacia el borde del precipicio de la más sugestiva e imprevisible dislocación lírica”.

Finalmente, el conjunto de palabras, personajes, imágenes y situaciones —microcosmos, en suma—crea una visión particular de la realidad, la de Patricia Tenório, una mirada trascendente. De nuevo acudimos a Vadillo, que dice así:

“Cada relato es un flanco existencial contemplado trascendentemente por Tenório”.

Nada es superficial en este libro. Como en toda buena obra literaria, se le deja al lector la opción de elegir. Él es quien decidirá hasta qué punto quiere ahondar en este universo-libro que es Veintiuno.

(Em www.azayartmagazine.com/veintiun-microcosmos-de-palabras-veintiuno-mundibook-2016-de-patricia-goncalves-tenorio/)