Índex* – Julho, 2020

Amar é guerra

De medo e paz

De mel e fúria

Dos desesperados

Que se lançam

Ao mar de sonhos

Sem saber do

Amanhã

Se existe um

Amanhã

Onde possam

Pousar os pés no

Chão

E deixar a cabeça nas

Nuvens

Branquinhas

Branquinhas

Feito praia

Virgem

(“Quando Setembro chegar”, Patricia Gonçalves Tenório, 16/07/2020, 06h50)

Quando Agosto, Setembro… chegar no Índex de Julho, 2020 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Julho, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

“A baronesa” | Charles Allington (Inglaterra/Áustria) | Cinco primeiros capítulos.

“Para tempos suspensos” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

“As viagens de Zequinha: no terreno dos chorões” | Marcia Maria Silva Feitosa (SP/PE – Brasil).

E o link do mês:

Como uma onda – ética e criação literária através da poesia | Gisela de Moraes Rodriguez (RS – Brasil): https://revistaseletronicas.pucrs.br/index.php/scriptorium/article/view/35758

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 30 de Agosto de 2020, abraços cheios de Saúde & Luz e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* July, 2020

Love is war

Of fear and peace

Of honey and fury

Of the desperate

That launch

To the sea of ​ ​dreams

Without knowing

Tomorrow

If there is a

Tomorrow

Where they can

Put their feet on

Floor

And leave their head in

Clouds

White

White

Like virgin

Beach

(“When September arrives”, Patricia Gonçalves Tenório, 07/16/2020, 06h50 a.m.)

When August, September … arrive at the July Index, 2020 from Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online – July, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Miscellaneous.

“The baroness” | Charles Allington (England / Austria) | First five chapters.

“For suspended times” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

“Zequinha’s travels: in the field of chorões” | Marcia Maria Silva Feitosa (SP/PE – Brasil).

And the link of the month:

Like a wave – ethics and literary creation through poetry | Gisela de Moraes Rodriguez (RS – Brazil): https://revistaseletronicas.pucrs.br/index.php/scriptorium/article/view/35758

I thank you for your attention and affection, the next post will be on August 30, 2020, hugs full of Health & Light and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando o novo tempo chegar quero estar com vocês… When the new time comes I want to be with you …

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2020

Estudos no outro lado do mundo

Patricia Gonçalves Tenório*

Viajamos milhares de quilômetros sem decolar das páginas de O livro do travesseiro, de Sei Shônagon, para a única região/país/língua que (ainda) não foi visitada na vida real pela ministrante dos Estudos em Escrita Criativa On-line.

No período Heian (794-1192), viveu a dama Sei Shônagon, nome de nascença Nagiko, e neta do poeta Kiyoharano Fukayabu. Shônagon serviu à corte de Teishi, na cidade de Heiankyô, atual Quioto, Japão. Em 994, a consorte recebeu um volume considerável de papéis. Inspirada nos travesseiros de poemas – tropos de poesia ou emprego figurado de palavras ou locução –, Shônagon deita sobre aquelas páginas a vida real, mas esteticamente metamorfoseada.

Chegamos à metade da nossa jornada de oito módulos dos EEC On-line. Para sedimentar os conhecimentos, fazemos uma retrospectiva, e encontramos, no primeiro módulo, o caso de O conto da aia, cuja narrativa é em primeira pessoa do singular, narrativa oral sem registros escritos, enquanto em O livro do travesseiro tudo é registrado nos papéis recebidos pela dama da consorte imperial.

Ao navegarmos para o nosso segundo módulo, descobrimos narrativas de viagens de Shônagon sem mesmo sairmos de Quioto, sem mesmo sairmos da Lisboa de Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Fernando Pessoa, da cidade do Porto de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Trouxemos o conceito de autobioficção da nossa tese em EC (PUCRS) tanto para o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, no segundo módulo sobre Portugal, quanto para A hora da estrela, de Clarice Lispector, e O homem da mão seca, de Adélia Prado, no terceiro módulo sobre o Brasil.

Em forma de fragmentos, encontramos diferenças e semelhanças entre o livro de Shônagon, A insustentável leveza do ser, do escritor tcheco Milan Kundera e até mesmo os Poemas, da escritora polonesa Wislawa Szymborska, que estudamos no quarto módulo dos EECs.

O segundo escritor do outro lado do mundo que apresentamos no quinto módulo dos EEC On-line é também nascido em Quioto: Haruki Murakami. No livro de ensaios Romancista como vocação, Murakami narra o início de sua trajetória como escritor. Avesso às academias, Haruki buscou a formação nos livros, sendo “ler muito” o primeiro e grande passo para quem deseja escrever. O segundo passo: observar detalhadamente os acontecimentos, mas sem julgá-los, sem chegar a conclusões rápidas.

Finalizamos o quinto módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com o Japão e a Escrita Criativa.    

* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com  e http://www.estudosemescritacriativa.com/

 

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Módulo 5 – Aula 1:

Módulo 5 – Aula 2:

Módulo 5 – Aula 3:

Módulo 5 – Aula 4:

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Exercícios de Desbloqueio – Módulo 4 – Leste Europeu:

Ágata Cruz

Contato: agatamg7@gmail.com

No escrever há o ser

O criar

O gerar

O fazer

Ter então a essência do ser-fazer.

Quem tem, gera em si

Dentro se forma

Ganha forma quando sai

E vai

Criando.

Escrever é ver o visto

Sentir o sentido

Criativo criar

Escrever é criar palavras que estão órfãs.  

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Para Milan Kundera, com admiração.

Surgiu na minha frente assim miúda, boca grande e sorridente. Um ar sapeca, como quem quer brincar, ao invés de expor uma história. Vejo uma garota espevitada de short e camiseta caminhando descalça em direção a sua casa depois de muitas brincadeiras nas redondezas. Está acompanhada de três irmãos também miúdos, em tamanho variados como se fossem uma escadinha, e vestidos do mesmo modo. O maior e todo metido a mandão ordena ao pequeno grupo que apresse o passo. Os dois menores o seguem sem protestar. A garota vai mais devagar, um pouco atrás, como quem desafia aquela autoridade que desconhece.

Os quatro adentram por um portão bem maior do que eles. A casa é invisível do lado de fora, porque é coberta por um muro bem alto pintado de branco e aquele portão também elevado, estreito e cinzento, faz um barulho peculiar quando se fecha. Há um caminho calçado, ladeado por uma aleia de arbusto que leva a casa cortando um grande jardim gramado. O jardim assim dividido em duas partes, tem diversas flores, plantas ornamentais, dois pinheiros, um de cada lado do jardim, um flamboyant pequeno e muitos copos de leite.  As crianças param nesse caminho e se dispersam.

 O maior, vai para o beco estreito que há no lado direito da casa. Segue em direção ao quintal. Vai tentar juntar-se aos meninos maiores e barganhar um lugar no jogo de futebol. O menorzinho, coitado! Foi pego pelas duas senhoras, sua mãe e sua tia, para ser levado ao banho. Segue calado por entre as duas senhoras que tagarelam comentando sobre seu estado, sem reclamar, obediente que é. A outra pequena sobe as escadas atrás deles e para no terraço onde se encontram as mocinhas. Vai ficar por lá escutando as conversas, se achegando como uma gatinha, esperando sua vez do banho.

A garota da nossa história permanece no jardim. Apenas vai para o lado esquerdo, por trás do pinheiro de corte arredondado, onde tem uma espécie de praça com dois bancos de granito, um defronte do outro, no centro da praça um pequeno flamboyant. Passeia pelo local. Inventa lugares, personagens. Histórias que ela ao mesmo tempo em que cria, também participa e organiza da melhor forma, como sente que seja melhor. Se não gostar, reconstrói e pronto, pois o divertimento é dela! De lá, por trás do flamboyant, ela me olha e pisca um olho. Sorri acenando para mim, apontando para o começo da escrita.  É lá no fundo das histórias, no lugar de era uma vez, do faz de conta, que toda criança encontra com seu inesgotável baú de narrativas, naquela pequena e criativa “caixola”.

A autora acha graça na personagem que dita um caminho. A caneta desliza pelo papel numa alegria desmedida, o prazer de deixar fluir a narrativa de forma leve. A personagem se chamará Berta! Esse som bem combina com aquela garota que recorda outra. E o título da história que irá desenvolver, já sabe de cor: A LEVEZA INSUSTENTÁVEL DE SER.

Recife, 25 de Junho de 2020.   

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Giovana Teixeira

Contato: gigiteixeira.pereira@gmail.com

A ficção

Costumava achar, quando li meu primeiro livro, que as personagens ali eram feitas de carne e osso. O papel era mero detalhe. O que descobri mais tarde, junto com todas as coisas tristes, foi que histórias não nascem com vida. Não importa o quão só estejamos o ato de coloca-las no papel não as torna reais. Qual é a função de quem escreve então? Bom, não posso deixar de pensar que a função de quem escreve é a de fingir e não, talvez, a de dar vida. Porém, fingimento esse que, ao contrário da vida, deve ter esboço. Quem cria raramente explica como o faz e, por isso, concepções de que clássicos literários surgem do nada são feitas. Mas a verdade é: nada surge do nada. O caos é a origem de todas as coisas fingidas, é impossível um improviso ser melhor do que uma peça ensaiada. Dessa forma, quando leio hoje me vem à mente que a ficção não é a vida, mas sim algo melhor do que ela. É um lugar que nasce debaixo da terra, cresce e permeia a humanidade.

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Joel Martins Cavalcante

Contato: jmartinscavalcante@gmail.com

Demônios e a escrita

         Escrever é exorcizar meus demônios internos. Não apenas quando relato acontecimentos reais. Criar situações e personagens que, de alguma forma, expressam meus sentimentos e visões de mundo, ajuda a tirar do meu interior o que me perturba, me abala, me sufoca.

         Os demônios internos, diga-se de passagem, não necessariamente são ruins. Na tradição cristã que fui criado, sobretudo a evangélica neopentecostal na minha adolescência, esses seres espirituais são sempre ruins, estão constantemente fazendo o mal, e expulsá-los é um dever para que o bem, Deus, possa habitar.

         Mas meus demônios internos são uma força criadora também. Tem algo negativo. Mas, ao mesmo tempo, me ajudam a prosseguir, a ter uma causa, a melhorar, a escrever, a ser mais humano. Parece contraditório, não é? Como um demônio ajuda no meu processo constante de humanização? Porque eles são como um espelho que eu me vejo. Sou o bem e o mal. A propósito, nunca esqueci do que um amigo, em uma noite de farra, me disse há uns anos: a vida é como um fio de energia, tem o lado negativo e o positivo, os dois são fundamentais para gerar a luz.

            Assim, quando escrevo, seja um texto real ou ficção/autobioficção (que comecei a partir deste curso de Escrita Criativa), aquele demônio interno sai e ganha uma outra vida. Ao expor meus medos, desejos, frustrações, sonhos, alegrias ou qualquer outro sentimento na escrita sinto uma leveza na alma no fim do processo criativo.

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Johany Medeiros

Contato: johanymedeiros6@gmail.com

Não lembro meu nome,

minha idade, de onde sou,

e para onde quero ir.

Não saber não me sufoca,

me liberta!

Principalmente quando minha caneta dança

pela folha em branco.

Agora na leveza do meu ser,

tudo vejo com novos olhos,

e meus dedos ágeis de fotografia,

registram cada cena tocante

ou insignificante.

O sofá velho no canto da sala,

o abajur em forma de gente,

os milhares de livros que talvez eu tenha lido,

as roupas com cheiro de naftalina,

o eco da minha garganta doente,

as minhas mãos enrugadas

e até as fotos de desconhecidos na parede

fazem sentido, mesmo sem fazer.

Mesmo esquecida de tudo,

diante do papel, minhas mãos ganham vida própria

e agora, consigo entender.

TUDO É POESIA. 

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Júnior Melo

Contato: juniormelo2005@gmail.com

Eu sinto o gosto amargo da angústia

As notas do piano não acalmam a alma perfuram-na

O gelo dos campos arde a pele e os olhos

Não sabemos o horizonte.

Sempre é inverno na alma mesmo que brilhe o sol

Nossas crianças pálidas e tristes, são como fantasmas vivos nossas retinas

Onde acharemos descanso a não ser no sono final?

Vem, amiga silenciosa, e abraça-me…

Mas o fio de prata ainda não se rompeu

Nem a roda junto ao poço cessou de ranger

O latido medonho dos cães me despertou

Encontrar significado no caos é a resposta

Ainda que em nosso vale, a sombra da amiga silenciosa seja quase palpável

As antigas palavras prometem redenção

O sal de minhas lágrimas perfurou o gelo nas retinas

Ergo-me como trigo após a chuva

Agora sou aço, puro e inoxidável aço

A vida não permite esboços ou ensaios

Ela é uma estreia contínua

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Lis Diniz

Contato: lisgranjeiro@gmail.com  

Primeira aparição

A palavra surgiu da necessidade.

Ao máximo possível segurou o silêncio, pois assim estaria na melhor posição:

em descoberta plena, até ser confrontada parindo uma frase inteira.

O gosto? Era sequioso de se afogar, como ser embalada a vácuo ou viver em eterna paralisia do sono.

Nada poderia contra a palavra, ela era sua títere.

E no meio dos VHS rebobinados e do teatro vazio, já em uma caixa, sentia-se pela primeira vez algo de uma natureza frágil e inútil, ao passo que em sua boca esperava o retorno dos cupins.

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Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br

Saturação do sentir

03/07/2020

O gole de vinho

perdido

no dia.

O gole de vida

sentido

todos os dias.

O ar que respiro

não flui

como antes.

Do que se trata?

dos tempos revoltos

sem eira nem beira

nem condescendência.

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Paulo Roberto de Jesus

Contato: poujesus@hotmail.com

A escrita criativa é um processo ótimo para desenvolver novas maneiras ou processos de escrever. Ela põe o escritor em movimento ao criar condições para que produza algo dentro de determinadas circunstâncias. É importante porque há escritores que vivem deixando pra depois o que apodem fazer agora. Incluo-me.

Ela faz o escritor produzir algo diferenciado do que normalmente costuma produzir. Tira o escritor de seu lugar comum e o desafia, retirando-o do conforto. Deste processo saem obras maravilhosas. A escrita criativa é necessária para desenvolver novas maneiras de produção. Ao conhecer o modus operandi de diversos escritores, o oficinista, sem perceber, acaba captando algo de cada autor visto ou estudado e, somado ao seu modus operandi de produzir, sai um novo processo produtivo.

Particularmente sinto-me desafiado quando alguém coloca algum texto e condições para que este texto seja produzido. Tenho um poema de nome Brincadeira de Criança na Síria que versei a partir da sugestão de um poeta chileno. Ele sugeriu que escrevêssemos sobre as crianças na guerra da Síria anos atrás. Uma produtora curitibana acabou gravando minha declamação do poema. Conto isto para provar a importância do desafio. Se uma sugestão de tema provoca isso, imagina um curso de escrita criativa.

Gosto de fazer cursos de escrita criativa porque o autor que fez o curso poupa-me de fazer a pesquisa que ele(a) fez para produzi-lo. Isso possibilita-me fazer outras pesquisas relativas à literatura neste período.  A leitura de cada ser do que quer que tenha lido é única, logo a pesquisa e recorte que o escritor que ministra a oficina faz também é único, e isto propicia uma troca de saberes, uma apropriação de saberes por parte daqueles que recebem o conteúdo de quem preparou. Acho 10. Fazia tempo que não produzia um texto e seu desafio de produzir um em 15 minutos tirou-me do ócio e colocou-me em movimento. Grato, escritora Patricia.

“A baronesa” | Charles Allington | Cinco primeiros capítulos

Com Adriano Portela, Jaíne Cintra, Juliana Aragão, Mariana Guerra & Patricia Tenório.

Capítulo 1:

Na transição entre o fim do século XIX e início do século XX, Viena, capital da Áustria, vivenciava um fin-de-siècle dos mais profícuos, em que Sigmund Freud, Gustav Klimt, Hugo von Hofmannsthal, Arthur Schnitzler e Otto Wagner protagonizavam transformações que viriam a mudar radicalmente o pensamento ocidental.

Em uma efervescente cena cultural, as conexões entre variadas formas de cultura – psicanálise, artes plásticas, narrativa teatral, arquitetura e urbanismo – se reinventavam em meio a uma crise político-social. É nesse pano de fundo que se desenrola a trama de “A baronesa”, que narra a história de Natália Schoemberg, cantora de ópera e integrante na nobreza vienense às voltas diante da acusação pelo assassinato do marido.

Baixe aqui o primeiro capítulo de “A baronesa”

A novela, de minha autoria, é assinada por Charles Allington, um heterônimo meu que, ao mesmo tempo em que narra a história, participa dela como protagonista. A intrigante trama de “A baronesa” estreou em 28/06/2020 sob a forma de uma novela foto-áudio-ensaística em vídeos e podcasts narrada por mim e por Adriano Portela, com design de Jaíne Cintra, roteiro e divulgação de Juliana Aragão, edição de Mariana Guerra. Os dez capítulos do livro – uma trama marcada por detalhes e pelo mergulho profundo nos aspectos psicológicos dos personagens – serão postados semanalmente e estarão disponíveis para streaming e download no meu site.

Capítulo 2:

A Baronesa · A Baronesa – capítulo 2

Depois do primeiro capítulo em vídeo, lançamos mais um episódio de “A baronesa”, uma novela foto-áudio-ensaística de autoria de Patricia Tenório que, a partir de agora até o penúltimo capítulo, será publicada em formato de podcast.

Leia o segundo capítulo de “A baronesa”

Neste novo capítulo, acompanhamos a gravidez de Natália e a preocupação dos pais dela com o futuro da filha, que deveria se casar com o marquês de Timboury, a quem havia sido prometida. Por conta da paixão por Viktor – que carrega a fama de homem boêmio e namorador na sociedade vienense do fim do século XIX e início do século XX – e do filho que espera, Natália vai ver sua vida transformada.

O nascimento da criança, a fundação da companhia de ópera de Viktor, a estreia de Natália em “La Bohème” e uma descoberta que vai mudar profundamente a relação do casal conduzem a trama deste novo episódio.

Capítulo 3:

No terceiro capítulo de “A baronesa”, novela foto-áudio-ensaística de autoria de Patricia Tenório aqui apresentada sob a forma híbrida de podcasts e de vídeos, testemunhamos a Companhia Azul estrear a ópera Elektra, de Richard Strauss, com Natália no papel principal.

Ao mesmo tempo, acompanhamos o início das investigações sobre a suposta morte de Viktor, a cargo do detetive Charles Allington, ao mesmo tempo em que, intrigado, o investigador-narrador reflete sobre os sentimentos dúbios que afloram à medida que ele se aproxima da cantora, principal suspeita pelo desaparecimento do marido.

Leia o terceiro capítulo de “A baronesa”

Capítulo 4:

A Baronesa · capítulo 4

No quarto capítulo de “A baronesa”, somos levados de volta ao baile no qual Viktor e Natália – então prometida ao marquês de Timboury – se conhecem e, mais de dez anos depois, acompanhamos as primeiras suspeitas dela sobre as traições do marido. Testemunhamos o encontro de Natália com Lou Salomé, suas mudanças de postura e os esforços para ignorar as saídas noturnas de Viktor, cujos casos extraconjugais já não são segredo para ninguém em Viena.

Leia o quarto capítulo de “A baronesa”

E então vem o flagrante de uma das traições e as reflexões de Natália, que envolvem inveja e arrependimento, e as preocupações do filho do casal sobre a tristeza da mãe. Paralelamente, a trama narra o caminhar das investigações conduzidas por Charles Allington, que busca nos detalhes da festa onde o casal foi visto pouco antes do desaparecimento de Viktor indícios que possam ajudar a solucionar o mistério.

Capítulo 5:

A morte do pai de Charles Allington, ao mesmo tempo personagem e heterônimo da autora de “A baronesa“, traz um evento inesperado e contundente à vida do investigador, que costura a trama da novela durante a apuração dedicada e incansável do desaparecimento e possível morte do barão Viktor Shoemberg.

E enquanto Viena fervilha nas ruas e nas reuniões privadas como a que o pai de Natália participa na casa de Sigmund Freud, a novela nos faz viajar por vários tempos distintos. Acompanhamos as lembranças de Charles sobre a infância dele em Londres, quando nem nos maiores devaneios o investigador imaginaria que um dia estaria vivendo na Áustria e trabalhando em um dos casos mais emblemáticos de sua carreira.

Leia o quinto capítulo de “A baronesa”

A narrativa segue nos envolvendo no desenrolar da apuração do suposto crime, com o depoimento de Natália e o complexo trabalho de Charles na tentativa de juntar as pontas soltas da história enquanto a dubiedade dos sentimentos nutridos por ele com relação à principal suspeita do possível homicídio ganha corpo.

“Para tempos suspensos” | Leonam Cunha

http://www.patriciatenorio.com.br/wp-content/uploads/2020/07/2020-Para-tempos-suspensos-OK-Leonam-Cunha.pdf

“As viagens de Zequinha: no terreno dos chorões” | Marcia Maria Silva Feitosa

Sobre este livro

Há quinze anos, trabalhando com aulas de música em um estúdio de gravação de um grande amigo, nos deparamos com uma realidade perturbadora aos nossos olhos e corações: os jovens estavam cada vez mais distantes de nossas raízes musicais e mais próximos da música estrangeira. Não tinham ideia de como a Música Popular Brasileira foi tão importante para a construção da identidade cultural e social dos brasileiros.

Então, eu e meu amigo criamos o Musicandarte. Um projeto para pesquisar, resgatar e divulgar mais de 150 anos de história da MPB. Através de formatos diversos e lúdicos, levamos os principais estilos e compositores deste período para os mais variados públicos, principalmente, os mais jovens. E com isso, procuramos instigar os mesmos a se tornarem multiplicadores deste ideal.

Após muitas apresentações musicais sentimos a necessidade de transformar aqueles momentos mágicos compartilhados com o público em algo que pudesse se perpetuar fisicamente, não apenas na lembrança. Foi aí que surgiu a ideia de escrever a série de livros “As Viagens de Zequinha”. Livros onde o leitor possa viajar no tempo junto com o personagem para cada estilo da nossa música, conhecer mais dela e criar suas próprias conexões pessoais com a mesma.

Acredito que a música é a base da nossa história e saber quem somos culturalmente nos torna mais fortes. Construir caminhos de acessibilidade à essa história é algo não apenas prazeroso, mas necessário para todos aqueles que amam a brasilidade e sua essência!

A autora.

Índex* – Junho, 2020

Quem sou eu

Para falar de

Estrelas

E você

Me pede

Chão?

Que o sol

Brilha para

Todos

E você

Entre chuvas

E redemoinhos?

Não sei

Só sei

Que

Deus

Cosmos

O próprio sol

Ou o nome

Que desejar

Me fez

Tomar

Papel

Caneta

E lhe

Escrever

Que tudo

Irá passar

(“Para quem se sentir triste”, Patricia Gonçalves Tenório, 04/06/2020, 11h21)

 

O raio de sol da escrita no Índex de Junho, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Junho, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

“A baronesa”: Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos | Com Adriano Portela (PE – Brasil), Jaíne Cintra (PE – Brasil), Juliana Aragão (PE – Brasil), Mariana Guerra (PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Telefonata in “Microcosmo” | Alfredo Tagliavia (Itália).

“2020” | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Drops de Clarice Lispector | Débora Mutter (RS – Brasil).

24, vi-vos | elilson (PE/SP – Brasil).

Infinita gratidão pelos envios, a próxima postagem será em 26 de Julho de 2020, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* June, 2020

Who am I

To talk about

Stars

And you

Ask me

For ground?

*

That the sun

Shines for

All

And you

Between rains

And swirls?

*

I do not know

I just know

That

God

Cosmos

The sun itself

Or the name

You want do call

Made me

Take

Paper

Pen

And write

You

That everything

Will pass by

(“For those who feel sad”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/04/2020, 11:21 am)

 

The sunshine of writing in the June Index, 2020 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies – June, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Miscellaneous.

“A baroness”: A photo-audio-essay novel in two voices and ten chapters | With Adriano Portela (PE – Brasil), Jaíne Cintra (PE – Brasil), Juliana Aragão (PE – Brasil), Mariana Guerra (PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Telefonata in “Microcosm” | Alfredo Tagliavia (Italy).

“2020” | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Drops by Clarice Lispector | Débora Mutter (RS – Brasil).

24, I saw-you | elilson (PE/SP – Brasil).

Infinite gratitude for the contributions, the next post will be on July 26, 2020, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Fotografia George Barbosa

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O raio de sol da escrita preenchendo os cem dias de quarentena. Fotografia: George Barbosa. The sunshine of writing filling the hundred days of quarantine. Photography: George Barbosa.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Junho, 2020

A escrita do Leste Europeu

Patricia Gonçalves Tenório*

 

Viajamos com os Estudos em Escrita Criativa On-line quase 24 horas para estarmos aqui, no restaurante Bellevue, na Smetanovo nabrezi em Praga, com vista para a Ponte Carlos sobre o rio Vltava. O corpo, ainda modificado pelo fuso horário da viagem, encontra-se aberto para toda percepção, para qualquer sentido que o faça despertar um cenário, uma cena. Um personagem principal.

Chegamos aqui nas asas de Teresa, e Tomas, Sabina, e Franz. Os personagens que nos guiam na Praga dos anos 1960 em A insustentável leveza do ser, do escritor tcheco Milan Kundera.

Descobrimos com o professor e escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil que o seu Escrever ficção é alicerçado em dois pilares: os personagens e o sistema orgânico. Os personagens gerando os eventos imprescindíveis da narrativa. É o que nos aconselha Assis Brasil. É o que realiza Kundera, a começar por Tomas.

O espírito kafkiano impregna as paredes de cimento dos prédios burocráticos da Praga dos anos 1970. Em nós impregna o espírito da cidade, como se soubéssemos escrever em outra língua que não é e é tão diferente da nossa, assim como fizeram Kafka (em alemão) e Kundera (em francês).

Milan Kundera explica essa herança que faz autores tão diversos quanto ele mesmo, Franz Kafka e a poetisa polonesa, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996, Wislawa Szymborska, falarem uma mesma linguagem. A linguagem do silêncio que o totalitarismo, o comunismo, o império russo impregnou na escrita do Leste Europeu, em cidades como Varsóvia, Budapeste, Praga.

Em A insustentável, Kundera possui vários temas: o peso, a leveza, a alma, o corpo, a força, a fraqueza. E vai utilizando-os em forma de digressão, mas sempre atrelados a um personagem, sempre os iluminando e os tornando mais profundos. Enquanto isso, Szymborska, numa seleção de Poemas, navega pela política, pelo mito, e pela própria construção da poesia.

E realizamos mais uma viagem pelo Leste Europeu. Dessa vez viajamos para a Áustria e analisamos a construção da novela A baronesa (obra inédita de minha autoria, e que será lançada no site dos Estudos em formato PodCast) ambientada na época áurea da Viena do fim do século XIX e início do século XX, na qual foram contemporâneos nomes como Gustav Klimt, Otto Wagner, Arthur Schnitzler e do pai da Psicanálise, Sigmund Freud.

Finalizamos o quarto módulo dos Estudos em Escrita Criativa On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com o Leste Europeu e a Escrita Criativa.

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* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

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Módulo 4 – Aula 1: 

Módulo 4 – Aula 2:

Módulo 4 – Aula 3:

Módulo 4 – Aula 4:

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Exercícios de Desbloqueio – Módulo 3 – Brasil:

 

Américo Pinheiro

Contatoamericopinheiro@gmail.com

Prosa Poética

 

Andei pesquisando sobre essa tal prosa poética. É um texto em formato de prosa, porém com um pouco de estética. Parágrafos de puro lirismo, que há demais nisso? Poesia vem de poiesis, e na prosa ela deita sua prece. As palavras precisam ser sabiamente escolhidas, para formar uma combinação de todo específica. Algumas letras podem ser propositalmente repetidas, provocando no leitor uma súbita e sutil sensação de sonoridade, suave. Não parece nada fácil pra mim, mas vou tentando e tentando mesmo assim.

 

Angélica Glória

Contato: angelicagloria@id.uff.br

Te implica!

 

É que antes, pra mim, viver era como a escrita: momentos que brotam enquanto eu só acompanho. Bonito até pensar assim, sempre me achei sensível demais, única, por me deixar levar pelas contingências. É poético. Só que tem um preço. A vida que passa como uma história de fluxo contínuo, sem responsabilização, escapa da liberdade, o que tem maior valor sagrado.

Depois eu entendi que não sou um conceito, minha subjetividade é, sim, construída por mim, são nesses lances de implicação comigo mesma é que me torno mais liberta.

Fumo um cigarro de filtro amarelo sentada na baixa soleira da porta da minha avó, foi isso que me fez lembrar de Elena. Hoje, com as pernas bambas e o olfato prejudicado, minha avó não vai mais repetir as broncas que eu ouvia quando garota, fugindo para fora do casebre para dar tragadas rápidas. Então tenho bastante tempo para encarar meus pensamentos, o que me leva para um passado gelado, quando ficava horas sentada fumando com Elena, na mesa do lado de fora. Eu não tinha mais trabalho nenhum para fazer, mas queria aproveitar qualquer oportunidade para passar mais tempo com ela. Fazia frio e, mesmo agasalhada da cabeça aos pés, eu precisava acender cigarros um após o outro para aguentar a ventania no meu pescoço enquanto seguiam nossas conversas. Nem gostava tanto do cheiro da fumaça nessa época, o gosto amargo de nicotina martirizava minha boca por dentro e eu me esforçava para não transparecer numa cara feia. Posteriormente aprendi a gostar.

De alguma forma eu achava que, por ser quem me ensinou a amar, Elena era figura primordial na minha existência. Eu devia priorizá-la em tudo. Passamos incontáveis finais de semana agarradas, trocando carícias, assistindo séries na televisão pequena de sua sala de casa ou simplesmente deitadas uma ao lado da outra enquanto mexíamos no celular. No começo o silêncio ao lado de Elena era reconfortante, depois foi tornando-se tão sólido, duro, apertando meu peito todas as vezes que eu esticava minhas pernas em seu colo e ela mal me olhava.

Nossa relação foi perdendo um pouco a forma, a magia, mas Elena continuava sempre ali. Às vezes um pouco ausente, um pouco distante, necessitando da frequente corrida de minhas pernas para alcançá-la. Elena sempre me dava bolo em cima da hora ou atrasava ou aparecia no dia seguinte ao combinado e eu me sentia egoísta se não entendesse e aceitasse suas explicações. Como eu poderia julgá-la mal se gostava tanto de mim? Foi um amor confortável até nos seus desconfortos, cujos problemas eu demorei muito tempo para notar. Ficamos juntas por pouco mais de três anos. Por pelo menos metade deles, eu me senti inadequada.

Foi difícil ter forças para sair. Se eu saía, depois de pouco tempo voltava. Quando eu pensava em escapar desse ciclo e viver de uma outra maneira não conseguia porque se eu pensasse em Elena, logo via minha imagem junto a dela. As pessoas sempre nos associavam também, eu chegava em um encontro de amigos na praia ou numa lanchonete e logo perguntavam “a Elena vem?”. Nossas testemunhas sabiam que éramos inseparáveis. Mas ninguém sabia de nada, do que eu sentia, dos vácuos temporais, dos pensamentos autodestrutivos, da falta de valor que eu atribuía a mim, nem Elena. Só eu sabia.

Minha perna sinaliza que tenho uma materialidade, dando indícios que começará a ficar dormente a qualquer momento, troco de posição. Hoje faz realmente muito frio, minha coluna se arrepia e eu penso em ligar para Elena, contar como me senti durante todo aquele tempo, me explicar. Talvez se eu fosse um pouco mais sincera poderíamos ter dado certo.

Cogito um contato que sei que não farei. Foi tortuosa e lentamente, mas aprendi que a minha narrativa não se conta sem meu papel articulando os atores, tudo ficou mais fácil quando escolhi a liberdade de poder ser eu mesma. Não é tão ruim assim ficar sozinha, como eu temia.

Me levanto e volto para dentro. É hora de esquentar a janta da minha avó.

 

Bernadete Bruto

Contatobernadete.bruto@gmail.com

Crônica de uma vida anunciada

 

Mote: “Tudo havia passado, porque nada passa. É agora que tudo é.” – Adélia Prado

 

Neste intervalo de tempo, sinto que o movimento do mundo parece ter diminuído o ritmo, posso ficar aqui sentada procurando entender o que é este agora que fala Adélia Prado.

Neste intervalo de tempo, tomo consciência da finitude da vida e que muito tempo já se passou desde quando tomei conhecimento da dimensão do tempo aprendendo a contar as horas e minutos num desenho de relógio analógico. Tempo avisado por badalar relógios da minha infância.

Agora, muito já é passado. Quase uma vida inteira…vejo uma criança feliz correndo sem preocupação com as horas. Depois, uma mocinha morena na beira da praia, desfrutando o sol despreocupadamente. Mais para frente, já é uma mãe de família que trabalha e se desdobra para estar com os filhos, para tudo que precisa fazer…na escuridão da vida, uma mulher madura enfrentando a solidão, a angustia de uma longa espera de histórias sombrias…até chegar a mulher idosa reconciliada com o tempo.

Neste intervalo tempo, enquanto escrevo, sinto saudades de um passado onde muitos entes queridos ainda viviam. Procuro por eles nesses melhores momentos, no meu álbum de memórias coloridas e minha alma se conforta, porque sinto a forte presença de todos os que se foram batendo forte nesse coração. Sinto também a força de todos os antepassados que nem conheci e estão presentes em mim, através de suas histórias e do meu DNA. Meus bisavós, avós, meus tios, tias, primos e primas têm seu lugar no coração da minha grande família.

Enquanto escrevo, neste intervalo de tempo, tomo consciência da eternidade da existência dentro da vida, tão corrida e breve, que sorrio para o agora que é. Olho de frente o que foi mal passado, entretanto carrego no peito aquele passado bem passado. E porque nada passa, deixo-me levar na plenitude deste amor eterno, agora.

Recife, 27 de maio de 2020.

 

 

Elba Lins 

SENTIMENTO DE SERTÃO

Contatoelbalins@gmail.com 

 

Sentimento de Sertão!

Talvez não tenha sido uma frase vinda da boca (ou do papel) dos escritores da vez, mas quando na aula Patrícia fala em “Sentimento do Sertão” algo se liga no meu pensamento.

 

Sentimento de Sertão!

É algo longínquo no tempo

Algo distante no espaço

Mas que, uma centelha

Me traz de volta:

– O cheiro da terra molhada em dias de chuva.

– As águas enchendo as biqueiras, limpando telhados e escorrendo pelas calçadas.

– Aquela poesia de Guilherme de Almeida sobre o barquinho de papel – Quando a chuva cessava e um vento fino franzia a tarde tímida e lavada.

– Aqueles trovões distantes que de repente iam ficando próximos. O barulho dos trovões cada vez mais próximo da luz que rasgava o céu cinzento e cobria de luz breve a noite escura. Era o céu se preparando para parir, em contrações cada vez mais próximas. Era o céu abrindo seu ventre para muito em breve inundar o meu lugar. [Belíssima imagem!]

–  Os galhos secos do marmeleiro (que também era, a Fazenda do meu avô) que se faziam verdes após as chuvas.

– Os galhos do marmeleiro que tirados do pé, se transformavam em pequenos cavalos de pau. E nós corríamos em cima deles, pelo terreiro da fazenda Marmeleiro, em viagens que marcaram minha infância.

 

Sentimento de Sertão!

– É o queijo quente, feito na grande tigela.

– É a toalha de quadros tentando se despregar da mesa da fazenda para voar livre, ao vento.

– É o cavalo de verdade, onde uma vez minha prima montou e ele saiu em disparada.

 

Sentimento de Sertão!

– É quando o céu está escuro, dizer que “está bonito para chover”.  Diferentemente daqui no litoral onde dizemos que “o tempo está feio”.

 

Sentimento de Sertão!

– É tudo isso que mesmo tantos anos distantes traz à nossa alma esta presença de chão seco/ de vento seco/ de redemoinho empoeirando tudo.

 

Sentimento de Sertão!

– É ser matuto e mesmo na cidade se ver representado no trecho da música que diz

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

(Lamento Sertanejo -Gilberto Gil / José Domingos)

 

 

Gabriela Vieira

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

“o que me comanda não gosta de divisões”, de Adélia Prado.

 

não nasci para me doar em metades.

o universo não levou todos esses anos

para criar a galáxia que dentro de mim vive

só para eu contar nos dedos as estrelas

que deixo cair de meus céus

c u i d a d o s a m e n t e

 

não, meu coração não diz meias verdades.

quando abre a boca não apenas fala,

grita para quem puder ouvir

suas dores, seus amores

porque quando eu deixo alguém aqui entrar

não é só para a vista apreciar

como uma daquelas corriqueiras paixões

mas para receber minha alma por inteiro

s e m   d e v o l u ç õ e s

 

então não ouse

esperar de mim

uma vida contida

porque não se

doar em metades

é indispensável parte

do artista cujo coração

é sua maior obra de arte.

 

Giovana Teixeira

Contatogigiteixeira.pereira@gmail.com 

 

“[…] Pois como eu disse a palavra tem que se parecer com a palavra, instrumento meu. Ou não sou um escritor? […].”

(A hora da estrela, Clarice Lispector, 1977)

 

Não sei se sou alguma coisa. Queria ser, mas me imagino à margem, não sei a qual lugar pertenço. Nada daqui, desse texto e de todos os outros, é digno de nome. Não tenho voz agora e me pergunto se alguma vez já tive. Minha voz costuma ser emprestada dos outros, assim como minha vida também os diz respeito. Tenho sede de palavras, mas elas não são minhas. O que isso faz de mim? Sou eu quem escreve, mas não sou escritora.

Não sei se estou perdendo tempo confessando minha falta de originalidade aqui. Parece-me que estou conversando comigo mesma, coisa que sempre fez sentido. Escrevo por motivos de força maior também, Clarice. Mas mesmo assim sinto que não uso meu próprio instrumento para fazê-lo, assim como também não uso de minhas próprias pernas para viver. Não sei de onde vem esse sentimento que me balança inteira, mas existem momentos que sou página em branco, quem escreve por mim são as palavras que me alimentaram desde a infância. [Belíssima imagem!] Devo sofrer com isso? Talvez não, mas sofro. Entro no campo da confusão: quero ser muito algo que ainda não sou. Vocação é mesmo diferente de talento e eu fui chamada, sim, diversas vezes me chamaram, Clarice, mas não sei como ir.

 

Joel Martins Cavalcanti

Contatojmartinscavalcante@gmail.com 

O pedido de casamento

 

Sinopse baseada na frase: “É preciso necessidade para as coisas acontecerem.” (Adélia Prado em O homem da mão seca)

 

O conto narra o pedido de casamento de João a Luiza. Apesar de trabalharem juntos há muito tempo e sentirem uma atração mútua, nenhum dos dois tinha coragem de expressar seus sentimentos. Quando Luiz, o novo empregado, chega na fábrica, e passa a se aproximar de Luíza, João fica com ciúmes. Certo dia, na hora do intervalo, quando saía do banheiro, João ouve Luiz se declarando para Luíza, interrompe a conversa de supetão, e faz o pedido, antes que ela pudesse responder ao outro.

 

Júnior Melo

Contatojuniormelo2005@gmail.com 

Desbloqueio criativo 3 (C. Lispector e A. Prado)

 

A caneta começou a riscar o papel lentamente, mas o coração batia forte. Não era inspiração, nem nada. Era raiva mesmo. Raiva de mim e dos outros. Raiva de tudo. Eu queria mesmo era sair gritando aos quatro ventos tudo que está na minha garganta feito um bago de jaca parado na goela. Mas, esse sol sobre minha cabeça, arde a alma e paralisa as atitudes. Ainda ontem, vieram me contar sobre ele. Que estava bem, que arranjou um novo amor. Uma mulher nova… não me importo. Quero mesmo é que ele refaça o calvário que teve comigo, já que me deixou. Eu? Eu sou mulher o bastante pra viver sozinha. Não sei porque o mundo masculino se acha imprescindível. Claro que na hora do sexo, sim, mas isso é tão pequeno em relação às grandes lutas. Hoje, o dia amanheceu mais calmo. O senhor do andar de cima não reclamou com a esposa na hora do café. Maria me ligou logo cedo. Mulher, pequena, ágil, nordestina. Veio morar aqui no prédio assim que chegou de Recife. Logo vi que era boa pessoa. Um dia, me percebendo triste, falou com aquela sabedoria das pessoas simples: despeja tua peleja no caderno! Ah… Maria.

 

Lis Diniz

Contato: lisgranjeiro@gmail.com

Coma poético

 

O Sol invade a rotina em anestesia com pouca frequência. Quando acontece, eu me tomo de uma dança interna como se meu corpo todo tivesse memória, mas eu sequer noto uma unha encravada, tampouco uma adaga cravada nesse vazio indigesto.

Ah, a indigestão, as palavras inauditas de um silêncio provocador. O quanto comiserei, quanto poupei o mundo de meus ordinários tropeços pensando ter alguém a assistir. Agora: aplausos para o nada. A cortina fechou.

As poéticas escapam à confusão por serem inconvencionais, disse Adélia. O tempo se confunde nessa caixa, quem diria as palavras acumuladas não transbordaram e sem as pretensiosas revoluções a poesia ficou entalada. Como um cano de esgoto, fétida, cujo caráter cáustico não corrói as paredes do silêncio, diamante de tamanha rareza e deveras lapidado, nostálgico.

Se alguém espera respostas para indagações poéticas, esse livro é mais uma pergunta a propriamente um diário de resoluções. Quem quer resoluções busca por vidas instangramáveis perfeitas e a paupérrima literatura auto-ajuda -avesso de toda poética -, por vezes sonsa e mesquinha.

Menina Clarice tinha a língua presa e além de ruiva em um país de morenos, era clandestina. Decerto romantizaram a sua existência, todo poeta carrega algum incômodo de fundo e toda poeta carrega o silêncio a mais.

Quanto tempo para desengavetar sabendo: de futuro célebre são poucas. Nas palestras um caderno cheio, nada dito. Nos recitais um constante incômodo, como o quebra-panela que fizeram em seu aniversário com uma panela de barro, mal sabiam entre as camadas de barro havia ferro.

Para fluir incólume precisaria de uma força estranha ali. Sem tamanha ousadia dos artistas performáticos e da oralidade mnemônica foi se guardando, até as pedras pesaram seu estômago, mãos e vértices. Virou um corpo poético no além êxtase flutuando sobre a vida.

 

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com 

 

 

A morta-viva

Expirou vida

À beira da morte.

 

Grávida de esperança,

Desfez-se em luz.

 

Sem título

Engasgada pelo passado

Muda pelas palavras não ditas

Cega por tudo aquilo que não queria ver

Coração descompassado por falta de amor.

Cansada

 

Ao dobrar a esquina

Descobriu-se grávida.

Grávida de esperança

Pelo que estava por vir.

 

Cai o pano.

 

Mariana Moura

Contatomariana.moura88@gmail.com

O amor às palavras

 

Aquele que gosta de escrever

Parece tradutor da vida

Ele descreve em palavras, sentimentos

Descreve pequenos grandes momentos

Como quando se vê depois de dias de mal tempo

O sol aparecendo em uma fresta entre as nuvens

Ou como quando os olhos brilham ao ver pela primeira vez

Aquele que pode ser o próximo grande amor

Ou ainda o sorriso da criança ao ver uma simples taça de sorvete

que se abre como um botão de flor

É, a poesia e a prosa são nossas portas para o mundo

E aqueles que têm em escrever mais que vontade

Uma necessidade

São a ponte.

 

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br

Folha em branco

 

O temor da folha em branco transforma o sentir em concretude. Mais do que isso, transforma o vazio existencial que parecia vago e abstrato, porque egoisticamente me pertencia, em algo compartilhado porque confrontado. A folha branca me confronta. Confronta-me com minha miséria de ideias, de conexões e de conhecimentos. Empobrecida, vejo-me transformada em uma máquina reprodutora de pensamentos alheios repetidos atrás dos muitos sinônimos que a rica língua portuguesa oferta. Não há tempo para maturar. É tempo de reproduzir à luz do fordismo, taylorismo e todos os ismos em que nós passivamente nos inserimos. Folha em branco, vazio concretizado, pânico instaurado. Fugir dessa branquitude é um remédio que insidiosamente torna-se um poderoso veneno. Preencher a folha de qualquer forma para escapar da angústia nos empobrece. Não é para isso que vivo. Isso é apenas sobreviver. Isso é apenas manter um controle ilusório sobre algo que adormece e logo despertará. Pensar é um ato, dizia Lispector. É um ato de resistência, talvez o único ato em que posso me singularizar, em que posso me recriar e, por meio do qual posso viver.

 

Paulo Roberto de Jesus

Contatopoujesus@hotmail.com 

 

“Não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas”, disse André pensativo. Joãozinho que o escutava atentamente disparou: ”explique, Sujeito, o que quer dizer. Para mim parece uma dessas frases de efeito”. “Frase de efeito, João? Pô, cara! Parece que não me conhece. E a frase é autoexplicativa. A interpretação faz parte do pacote”. Joãozinho gargalhou com vontade e disse: “Não falei que estava enrolando? Saiu esta frase e você disse a esmo.” O outro insatisfeito com o comentário do amigo disse: “frase de efeito é o…  tenho o meu desejo nas coisas você pode entender de maneiras diferentes. A primeira é auto evidente. Pô! Não tenho tudo que desejo, mas desejo estas coisas e por deseja-las tenho meu desejo nelas, entendeu, Caroço?” O outro coçou o nariz e disse: “Caroço é a senhora que te pariu e acho que entendi. Tenho cara de burro por acaso? E qual seria outra maneira de entender?” André disse: “Caroço, você é um caroço. E se falar da minha mother novamente o bicho vai pegar. Fique esperto, Caroço. O outro modo é que se tenho o meu desejo nas coisas é só porque tenho as coisas que desejo, só tenho as coisas que me são úteis. Óbvio. Porque teria coisas que não me fossem úteis? Neste caso não teria nelas o meu desejo, entendeu?” “Entendi, Senhor Cabeção, mas não concordo. A segunda interpretação por vós exposta não passa de enrolação, porque o mote diz que não tenho todas as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas, o que implica dizer que não são somente as coisas que possui mas estão também inclusas neste conjunto as coisas que não possui e por isto tem o seu desejo nelas, entendeu, Crânio?” “Sim, Caroço, acho que tem razão, pisei no melão…” “Caroço é a velha que te pariu”, disse Joãozinho que saiu rapidamente do lugar antes que o clima esquentasse entre os amigos.

 

“A baronesa” | Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos

De Charles Allington

Com Patricia Tenório e Adriano Portela

 

É com imensa alegria que apresento A baronesa: Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos, de Charles Allington.

Durante a pandemia de Covid-19, cada pessoa em sua residência, eu e o escritor, professor e cineasta Adriano Portela fizemos a leitura dramatizada das vozes feminina e masculina de A baronesa, sob orientação da designer Jaíne Cintra (identidade visual), Mariana Moura (edição de áudio e vídeo) e Juliana Aragão (roteiro e divulgação).

A ideia é apresentar cada capítulo nos sábados à tarde, como se fossem aquelas rádio-novelas de antigamente.

O detetive Charles Allington narra a história da baronesa Natália Shoemberg, acusada de desaparecimento e assassinato do marido, o barão Viktor Schoemberg. O cenário é a Viena do final do século XIX, início do século XX, período áureo da cidade no qual eram contemporâneos os artistas Gustav Klimt e Kolom Moser, os arquitetos Otto Wagner e Adolf Loos, os escritores Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, a estilista Emilie Flöge, além do pai da Psicanálise, Sigmund Freud, e do compositor Gustav Mahler.

Com vocês: A baronesa.

 

A baronesa – Charles Allington – Capítulo 1 – PDF

 

Quadro Gustav Klimt - Portrait Of Emilie Floge - 1902

Retrato de Emilie Flöge, Gustav Klimt

Telefonata in “Microcosmo” | Alfredo Tagliavia

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Telefonata

 

 

Sì?

Pronto João?

Chi parla?

Sono Don Geraldo.

Padre, che piacere! Tutto bene?

Mica tanto.

Che succede?

Ho notizie per te, João, importanti.

Di che si tratta? Niente di grave, spero.

Insomma.

Padre, non mi faccia preoccupare. Cosa è successo?

Allora vado subito dritto al punto, tanto è inutile perdersi in cerimoniali, che non c’è nemmeno tanto tempo.

Tempo per fare cosa?

João, ti sto chiamando da una cabina fuori Recife, ho preso la Rodoviária, sono su una strada di campagna che dovrebbe portare a Caruaru, un confratello mi ha detto che era l’unico posto al sicuro dalla censura.

Padre, non so cosa dire, parli lei, l’ascolto.

Sto verificando la sicurezza del posto, voglio vedere prima se ci sono cimici o altri aggeggi piazzati su punti strategici, ma non mi pare : sono in aperta campagna, vedo soltanto la strada sterrata, le sterpaglie, il cielo… tu stai pensando che io sia impazzito tutto a un tratto, vero João?

Non so davvero cosa pensare, Padre, ma continui pure, la prego.

Dunque, João, te lo dirò nel modo più breve e diretto. Il motivo di questa telefonata è un appuntamento : dobbiamo vederci stasera alle sette sull’Avenida Boa Viagem, all’altezza della panetteria, sul lato opposto della strada, quello che dà sul mare, ma non avremo molto tempo.

Tempo per fare cosa? Io non sto capendo proprio niente, può spiegarsi un po’ meglio?

Non è facile spiegare, ma mi rendo conto anche che per te non sia facile capire. Dunque, stammi bene a sentire, il fatto è questo : io verrò in taxi, quando mi vedrai uscire dovrai entrare dalla portiera opposta facendo finta di non conoscermi, lascerò  per te sul sedile posteriore una borsetta contenente ventimila cruzeiros e un biglietto, il taxi ti porterà direttamente all’aereoporto.

Ma che significa? Don Geraldo, io comincio davvero a pensare che sia uno scherzo di pessimo gusto, mi dica che non è così!

Magari fosse uno scherzo, purtroppo non lo è. Il biglietto è un volo aereo per l’Italia, Roma. Parte alle nove e mezza stasera e tu dovrai prenderlo. Ah, portati anche una valigia con un po’ di vestiti e beni indispensabili, ma la più piccola e la meno vistosa che hai, mi raccomando, dovesse dare adito a qualche sospetto, non si sa mai.

Italia, Roma… Ma che ci vado a fare a Roma? Io non conosco nessuno lì, e non so nemmeno una parola d’italiano!

Per questo non preoccuparti, João, ho già pensato a tutto io. All’aeroporto di Fiumicino verrà a prenderti Don Luigi, un giovane sacerdote italiano, una persona molto buona, impegnata nel sociale come noi. Ti porterà nella sua parrocchia, che si trova in un quartiere della periferia romana, e nel primo periodo ti aiuterà ad ambientarti. Tra l’altro Don Luigi è stato più volte qui da noi a Recife e se la cava pure bene con il portoghese, quindi all’inizio potrà farti da interprete.

Padre, io sto capendo che la questione è abbastanza grave, ma mi vuole spiegare cosa sta accadendo? Cosa c’è dietro? Altrimenti in queste ore che ci separano dall’appuntamento diventerò matto.

E va bene, João, non volevo perdere troppo tempo qui alla cabina telefonica, sai che sono in pericolo anche io? Ma mi rendo conto che qualcosa devo pur dirti, non posso mandarti a Roma nel giro di poche ore senza nemmeno una spiegazione. Tu lo sai che giorno è oggi?

Sissignore, oggi è il 24 aprile 1964.

Ecco, e lo sai che esattamente da ventiquattro giorni, dallo scorso primo aprile in cui ci hanno regalato un bel pesce, la situazione politica qui in Brasile è totalmente cambiata?

Sì padre, ho letto qualcosa sui giornali e sentito qualche voce per strada, ma in realtà non ne so molto di più.

João, João, mi meraviglio di te, capisco che sei un ragazzo, ma qui di questi tempi bisogna tenere occhi e orecchi ben spalancati, informarsi e tenersi sempre aggiornati. E poi tu stai facendo anche il primo anno di Scienze Politiche, possibile che all’università non hai sentito nessuna voce più precisa? Che so, un dibattito, un’assemblea del collettivo studentesco…

No, non ho sentito niente di preciso.

E allora ti devo davvero spiegare tutto io. Qui da qualche settimana la situazione non è più sicura, per quelli come me e neanche e soprattutto per quelli come te.

Per quelli come me? Ma cosa ho fatto io, Don Geraldo? Non ho mai fatto del male a nessuno, glielo posso giurare.

João carissimo, non è questione di fare del male direttamente a qualcuno, la questione è che qualcuno in alto ritiene che tu possa fare del male a lui e ai suoi amichetti.

Proprio io? E chi sono io per fare male a un governo?

Semplice : sei un educatore di strada.

E cosa c’entra questo con il governo?

João, vedo che tardi a comprendere e ci stiamo dilungando già troppo. Ti faccio una sola domanda : qual è il progetto sociale a cui stai collaborando?

Lo sa anche lei, Don Geraldo : è il progetto Piazze di Cultura, quello sponsorizzato anche dalla sua parrocchia per cui ci vediamo tutti i sabati mattina al Sitio da Trindade.

Bene. E qual è lo scopo di questo progetto?

Me lo ha spiegato lei per primo, Don Geraldo. Il progetto mira all’inclusione sociale della popolazione, ad esempio a insegnare a leggere e a scrivere alle persone analfabete attraverso l’utilizzo delle arti, del teatro, della musica.

Perfetto, su questo vedo che continui ad essere molto preparato. Ora ti faccio un’altra semplice domanda : chi è il coordinatore di questo progetto?

È il professor Paulo Freire.

Ecco. E lo sai che fine ha fatto Paulo Freire? Questo forse non lo sai e te lo dico io. Paulo Freire la scorsa settimana è stato portato via da Recife dalla polizia militare ed è stato condotto in prigione a Rio de Janeiro. Ora gli faranno scegliere o la condanna a morte o l’esilio.

O mio Dio, don Geraldo, ma questa è una notizia terribile! Ma che male ha fatto quest’uomo che tanto sta facendo per l’alfabetizzazione e la crescita culturale del nostro paese?

E va bene João, oramai siamo in ballo e balliamo. Vorrà dire che se qualcuno registrerà questa telefonata farò la fine di Paulo anche io. L’accusa che è stata mossa a Freire è di appartenere a un gruppo comunista sovversivo, ma è un’accusa ridicola che nemmeno si regge in piedi. Tutti sanno anche nelle istituzioni che Paulo è un moderato di sinistra e un cattolico, infatti parte della chiesa appoggia il suo lavoro.

E allora qual è il problema?

Il problema è proprio il lavoro che sta svolgendo, in particolare quello di alfabetizzazione, perché c’è qualcuno nel cosiddetto “governo” del primo aprile a cui non va giù il fatto che il popolo stia imparando a leggere e a scrivere in fretta e in gran massa.

Ma non ci posso credere! E perché mai non gli andrebbe giù?

Vogliono cancellare il diritto di voto, João, anzi, lo hanno già fatto. E il primo presupposto per mantenere una dittatura senza elezioni è avere cittadini che non siano in grado di scegliere, di discernere, e al limite nemmeno di leggere e scrivere : idioti insomma.

Questa storia ha davvero dell’incredibile, Don Geraldo, mai ci avrei potuto pensare da solo. Ma continuo a non capire cosa c’entro io…

Il salto non è così grande, João. Non sei tu un educatore di strada in questo progetto? Non ti riunisci tutti i sabati mattina con la popolazione del tuo quartiere per insegnare il Metodo Paulo Freire agli analfabeti?

Ma io non sono mica una persona di potere, non ho nessun ruolo io. Sono povero come loro. L’unica differenza è che so leggere e scrivere perché ho potuto studiare. A chi posso interessare io?

João, a loro non importa chi sei o quanto potere hai. A loro importa solo il lavoro che svolgi. E se il lavoro che svolgi va contro la volontà del governo risulti persona “non gradita”, per usare un’espressione addolcita. Sono così questi signori della morte che hanno espugnato il nostro povero paese.

E questo cosa vorrebbe dire, Don Geraldo? Che devo andarmene? Che devo lasciare tutto e tutti qui a Recife? Mia madre, la mia fidanzata, i miei compagni di università, i miei alunni del progetto? No, non è possibile. Mi dica che non è una storia vera, che è uno scherzo, oppure che sto sognando…

Purtroppo è la realtà João, la nuda e cruda realtà. E non è una scelta, è una condizione imprescindibile. Non so se hai capito o fai ancora finta di non capire : ti hanno già schedato. Se non te ne andrai tu, ti verranno a prendere loro. E sarà ben peggio, dammi retta. Io posso rimanere qui solo perché sono protetto dalla forza della chiesa, e non so nemmeno per quanto tempo ancora rimarrò. Ma per le persone comuni come te non c’è pietà : se sei segnato rimani in lista finché in un modo o nell’altro “la questione non è risolta”, come dicono loro.

Lo so, João, sei ancora molto giovane ed è una realtà difficile da accettare. Anche a me se avessi la tua età pioverebbe addosso come qualcosa di totalmente inaspettato, di incomprensibile. Ma questa è la vita e bisogna accettarla. Nel libero arbitrio, ognuno ha un destino da compiere. E oggi il tuo destino è fare quello che ti ho detto e volare in Italia.

E finiscila di piangere, João, ormai sei un uomo, e anche se non lo sei ancora dovrai diventarlo in fretta, che tu lo voglia o no. Dio ti sta chiamando a una sfida molto difficile e importante.

Allora ci vediamo stasera alle sette sulla Boa Viagem. Abbi cura di te. Sia fatta la volontà di Dio.

 

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** Alfredo Tagliavia è nato a Roma nel 1978. Dottore di ricerca in Pedagogia, attualmente insegnante precario, ha svolto diversi viaggi di studio in Brasile. Per i tipi della EMI ha pubblicato il libro L’eredità di Paulo Freire. Vita, pensiero, attualità pedagogica dell’Educatore del mondo (2011). Per le edizioni IPOC ha tradotto il testo del filosofo brasiliano Marco Heleno Barreto Immaginazione simbolica. Riflessioni introduttive (2012) e La bambina dagli occhi verdi (2016), della scrittrice brasiliana Patricia Gonçalves Tenório. Per le edizioni Book Publish è uscita il suo primo libro di narrativa Un giorno qualunque, una raccolta di racconti a sfondo pedagogico, ambientati fra Italia e Brasile. Contatto: alftag@alice.it

** Alfredo Tagliavia nasceu em Roma em 1978. Doutor em Pedagogia, professor atualmente substituto, realizou várias viagens de estudo para o Brasil. Pela Editora EMI publicou o livro O legado de Paulo Freire. Vida, Pensamento, Educador pedagógico atual do mundo (2011). Para a Editora IPOC traduziu o texto do filósofo brasileiro Marco Heleno Barreto Imaginação simbólica. Reflexões introdutórias (2012) e A menina do olho verde (2016), da escritora brasileira Patricia Gonçalves Tenório. Pela Editora Book Publish foi lançado o seu primeiro livro de ficção Qualquer dia, uma coleção de histórias curtas para a formação educacional, ambientado entre a Itália e o Brasil. Contato: alftag@alice.it

“2020”* | David de Medeiros Leite**

À GUISA DE INTRODUÇÃO

 

– Feliz Ano Novo, Guiomar!

– Feliz 2020, Zezinho!

Apertei ainda mais sua mão direita, pois a esquerda estava imobilizada pelo acesso do soro. Aquele ambiente hospitalar, de UTI, não era aprazível para uma noite de réveillon. Mas, apesar de quase um mês de internação, Guiomar mantinha razoável humor.

Naquele momento, inesperadamente, ela me fez jurar que escreveria o tão esperado livro. Assunto que nos era bastante familiar, desde sempre. Aliás, durante os quarenta e nove anos de nosso casamento, nunca deixamos de falar sobre. Em alguns períodos, tratávamos do tema de forma mais intensa, contrastando com outros lapsos temporais em que o assunto subjazia.

Enquanto estava trabalhando, ou “na ativa”, como dizem, mantive a desculpa de esperar minha aposentadoria. Após esta, a cobrança amiudou-se. E, naquele momento, Guiomar voltou à carga:

– Quero que você me prometa que irá escrever seu livro, agora, neste ano que começa amanhã. E não vale mais a desculpa de não saber usar o computador, depois das aulas que lhe dei.

– Prometo! – disse, levando minha mão direita ao peito e, propositalmente, esboçando um rosto sério, desfazendo o quase-riso que sustentava nas visitas.

– Qual o título? Isto nunca decidimos – completei, como forma de dar continuidade à conversa.

– 2020! – respondeu-me incisiva.

– 2020? E aqueles outros? Ouro do Carmo? Ouro e Pecado?

– Esqueça todos. Você sempre falou que o título seria escolha minha… então, será 2020.

Aproximei-me para beijar-lhe a testa e, com isso, selar o nosso pacto. Por trás daquele gesto, existia uma larga caminhada. Desde nosso casamento, ruminávamos a “história” que prometia, um dia, contar em livro. Guiomar sempre argumentando contra desculpas que “inventei” ao longo do tempo. Possíveis melindres, em relação a alguém que estivesse vivo e que, por acaso, soubesse da publicação, sempre foi por mim suscitado. Guiomar sustentava o contra-argumento de que a própria distância temporal, conjugada com o artifício de citar codinomes, desaguaria numa autobiografia romanceada e, assim sendo, transporia quaisquer dos receios.

De outra parte, havia quatorze anos que estava aposentado e, por conseguinte, eu perdera a argumentação de “falta de tempo”. E, por fim, esquivei-me, um bom período, sob a desculpa de não saber lidar com o computador, considerando que nunca me afeiçoei às novas tecnologias. Paralelo a isso, Guiomar comprou o equipamento, aprendeu a utilizá-lo e ensinou-me, pelo menos, a usar o editor de texto, desconstruindo minha derradeira cidadela esquivadora.

Só nos faltava uma situação de compromisso quase solene, como a que ocorreu naquela noite na UTI. E hoje creio, piamente, que ela o fez com certa premonição. Foi sua última vontade. E nosso último diálogo. Nos dias seguintes houve agravamento do quadro, entubação e óbito. Guiomar lutava contra um câncer pulmonar havia meses. Sem ter sido fumante, diga-se de passagem.

Mesmo abatido e pesaroso, somente esperei passar a missa de sétimo dia e desvencilhar-me um pouco das obrigações burocráticas do pós-morte, para mergulhar no cumprimento da promessa. Aquela narrativa contada, recontada e repisada entre nós dois finalmente seria transposta para publicação. Ou, pelo menos, esboçaria, em forma de um pretenso livro, uma história que tinha se passado comigo. A sequência dos acontecimentos que seriam narrados, a ênfase nesse ou naquele episódio, os recursos literários que deveria buscar quando a memória não alcançasse o pormenor… tudo, absolutamente tudo, já havia sido escrutinado entre nós. Até mesmo nuances que poderiam causar ciúmes a um casal nunca foram suscitadas por Guiomar.

Vale dizer que cheguei a cogitar, mais de uma vez, que ela própria escrevesse, tamanho era seu entusiasmo. No entanto, ela nunca aceitou tal propositura. Em tom de blague, dizia que, além de “consultora”, somente lhe caberia intitular a obra. Assim ocorreu. Por tudo isso, considerei rabiscar essas linhas introdutórias, ao invés de uma mera e burocrática dedicatória.

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* Texto de abertura de 2020. David de Medeiros Leite. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2020.

** David de Medeiros Leite nasceu em Mossoró-RN (1966). É professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutor pela USAL (Universidade de Salamanca) – Espanha.

Sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP); sócio-correspondente da Academia Apodiense de Letras (AAPOL), além de pertencer à Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Norte (AMLERN) e Academia Mossoroense de Letras (AMOL). Com o escritor Clauder Arcanjo, idealizou a editora Sarau das Letras, onde, atualmente, compõem o Conselho Editorial. Contato: davidmleite@hotmail.com