Índex* – Junho, 2019

Um herói

Nasce

Em cada

Gesto meu

Em cada

Monte alto

Que escalo

Em busca

De um novo

Sonho

Em luta

Por uma nova

Estrela

Que cabe

Aqui

Na minha mão

Que prego

Aqui

No meu peito

E nada

Ninguém

Consegue

De mim

Separar

(“Sonho de uma Escrita Criativa”, Patricia Gonçalves Tenório, 19/06/2019, 15h34)

 

Um sonho de Escrita Criativa se realiza no Índex de Junho, 2019 do blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Especialização em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS e EEC de Junho, 2019 | Diversos.

Metafísica do poema | Alcides Buss (PR – Brasil).

O voo da trapezista | Amilcar Bettega Barbosa (RS – Brasil).

“Cerzir” | Antonio Ailton (MA – Brasil).

“Desconstrucción de los rostros y otros poemas” | Luis Raúl Calvo (Argentina).

O CURATO DE BOM JARDIM | Marly Mota (PE – Brasil).

“A estética da indiferença” | Sidney Rocha (PE – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 28 de Julho, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – June, 2019

A hero

Is born

In each

Gesture of mine

In each

Tall mountain

That I climb

In search

Of a new

Dream

In fight

For a new

Star

That it fits

On here

In my hand

That I nail

On here

In my chest

And nothing

Nobody

Can

Of me

Separate

(“Dream of a Creative Writing”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/19/2019, 15h34)

 

A dream of Creative Writing takes place in the June, 2019 Index on the blog of Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Specialization in Creative Writing – Unicap/PUCRS and EEC of June, 2019 | Several.

Metaphysics of the poem | Alcides Buss (PR – Brasil).

The flight of the trapeze artist | Amilcar Bettega Barbosa (RS – Brasil).

“Cerzir” | Antonio Ailton (MA – Brasil).

“Deconstruction of faces and other poems” | Luis Raúl Calvo (Argentina).

THE CURATO OF GOOD GARDEN | Marly Mota (PE – Brasil).

“The aesthetics of indifference” | Sidney Rocha (PE – Brasil).

Thank you for the attention and affection of always, the next post will be on July 28, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Foto João Alderney

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Os longos, tortuosos, perigosos passos de um sonho. The long, tortuous, dangerous footsteps of a dream.

 

Especialização em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS e EEC de Junho, 2019

Sonho de uma Escrita Criativa

Patricia Gonçalves Tenório[1]

Junho, 2019

 

Em abril de 2017, eu tive um sonho. O sonho não era só meu, mas também do escritor, professor e orientador de doutorado Luiz Antonio de Assis Brasil.

Sonhei em trazer para Recife um pouco do tanto que apreendia sobre a arte do bem escrever ficção, poesia, ensaios teóricos com os colegas e professores do Programa de Pós-Graduação em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a PUCRS.

Então acontecem: o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco com o apoio da Bienal Internacional do Livro e da PUCRS, de 13 a 15 de outubro de 2017; os quinze encontros temáticos e mensais dos Estudos em Escrita Criativa (os EECs) na Livraria Cultura de Recife e de Porto Alegre, em 2018, novamente com o apoio da PUCRS e também da UBE-PE; os cinco encontros (temáticos e mensais) dos EECs em forma de curso de Extensão na Universidade Católica de Pernambuco, a Unicap, no primeiro semestre de 2019.

Muito além das instituições citadas neste artigo, existem pessoas que acreditaram no sonho, juntaram-se a ele, quer seja apoiando e/ou participando como escritores convidados, quer seja escrevendo textos de qualidade durante os encontros – mesmo sendo no tempo exíguo de quinze minutos. Textos que demonstram a necessidade da escrita como ferramenta na elaboração e na conexão dos sentidos, áreas de conhecimento e artes.

E o sonho se faz real com a aprovação da primeira Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa do Recife sob a parceria da PUCRS e da Unicap, no segundo semestre de 2019. Parceria que trará os escritores gaúchos Assis Brasil, Bernardo Bueno, Moema Vilela, Altair Martins, Arthur Telló, Natalia Polesso, Julia Dantas para se juntarem com os nossos Lourival Holanda, Robson Teles, Adriano Portela e essa sonhadora que vos escreve.

Porque, como já dizia Glauber Rocha, e que, desde 2004, recito tal qual um mantra: “O sonho é o único direito que não se pode proibir.”

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[1] Escritora, doutora em Escrita Criativa (PUCRS, 2018), ministrante do curso de Extensão da Unicap Estudos em Escrita Criativa (2019.1), e participante, com Profs. Robson Teles e Moema Vilela, na coordenação da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa PUCRS/Unicap (2019.2). Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Artigo DP 240619

Diário de Pernambuco, coluna Opinião, 24/06/2019

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Inscrições: http://www.unicap.br/home/especializacao-em-escrita-criativa-unicap-puc-rs/

 

Estudos em Escrita Criativa – Unicap – Junho, 2019

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NO DIA PRIMEIRO DO MÊS DO SÃO JOÃO

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Muitas aulas se passaram, como num lindo sonho, na rua o príncipe! Os livros indicados se acumularam na cabeceira da cama e depois de lidos organizados na prateleira como uma joia rara guardada numa caixa. Muitas listas de tarefas se fizeram presentes marcando o que teríamos para estudar, para aprofundar. Para o ato de escrever, a condição era no agora e em quinze minutos!

Nesse período, muitos encontros de preferências, de alma, de conhecimento foram todos conduzidos pela luz da lamparina, daquela menina encantada, que projetando na tela, de forma tão atraente, nos fez percorrer uma grande viagem pelo mundo da literatura, e durante todo esse tempo, como hoje, na retrospectiva, meu coração preenchido suspirou:

 

NO SILÊNCIO DA CRIAÇÃO

O SUSSURRO DO VAZIO

BROTANDO DO CORAÇÃO.

 

Recife, 1º de junho de 2019.

 

 

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

Língua Inglesa

(Estados Unidos, Inglaterra e Canadá)

Portugal

Brasil

Leste Europeu

Ásia

ATWOOD

PESSOA

ALLAN POE

 

Inglaterra, Estados Unidos, Canadá

Viajo pela distopia de Atwood

Pela poesia de Dickinson

Pelo mistério de Edgar Allan Poe

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AS LISTAS

Faço listas sem fim.

Me embriago ao som do Jazz

Faço listas

De romances, poemas, ensaios…

Me embriago de mar

Mergulho em Pessoa

Nos mares de Sophia

Descubro um mundo novo.

Chego um dia à Bahia

Tão perto de Pernambuco

Que recebeu Clarice.

Depois, por terra, caminho…

Buscando ouro e Minas

As terras, os prados de Adélia.

E mesmo que, de minha terra,

Eu possa ver o mundo todo

Recebo uma mensagem

E singro em direção ao resto do mundo…

 

 

A Patricia Gonçalves Tenório

Quinze Minutos

João Alderney Pires

Contatojoaoalderney@hotmail.com

 

O cara trabalhou a vida toda, desde os quinze prestava serviços à empresa industrial do pai, fornecedora de pluma de algodão, quando ia às indústrias de tecido pernambucanas resolver assuntos negociais, eram quase vinte existentes, à época, todas fechadas, hoje, devido ao surgimento das fibras sintéticas e ao avanço tecnológico chinês redundando em concorrência impraticável. Naquele tempo os tecidos preferidos pelo grande público eram de algodão, o afamado ouro branco, o nordeste era produtor mundial dos mais respeitáveis, o sertão viveu período afortunado, porquanto.

Aos dezoito deu o grito de independência, fez concurso e conseguiu excelente emprego no Banco do Brasil, tida, até então, como carreira de futuro promissor, hoje nivelada com os demais bancos.

Único dos doze filhos a não depender do “pai rico” para se emancipar e se graduar.

Depois deu guinada, fez concurso para Auditor Tributário o que lhe garantiu posição de destaque. Nesse ínterim, haja atividades paralelas: comerciante; pequeno industrial; empresas de serviços, numa delas representante exclusivo em PE/ PB de fabricante de elevadores sociais do Rio Grande do Sul.

A grande cartada veio na qualidade de corretor de imóveis quando conseguiu, com a cara e a coragem, comprar lado de rua nobre, terreno invadido pertencente ao INSS, quando pleiteia e consegue baixar o valor da entrada, estabelecido no edital de concorrência, de vinte para dez por cento do preço mínimo. Entretanto tudo que possuía era o apartamento residencial que representava apenas cinco por cento. Bem, devolver os cinco por cento conseguidos por empréstimos com amigos e bancos, indenizar quase cinquenta posseiros e pagar os noventa por cento restantes ao vendedor estatal são outra história.

Ao mesmo tempo, cursou e concluiu Ciências Econômicas na UFPE.

Família, três filhas do casamento, separação, filho de novo relacionamento, nova separação, a partir daí, haja casamentos. A idade avança.

Aquele homem que sempre respirou negócios, dá adeus a eles, agora, pra sempre.

Apaixonou-se pela arte poética, escreveu cerca de mil poemas.

Escreveu contos.

Edita livros.

Com recursos próprios, construiu museu em honra à memória do pai.

Hoje, só vê à sua frente literatura, poesia, criações.

Que bom que existe Raimundo Carrero. Que bom que existe Patrícia Tenório. Que bom que eles disponibilizam cursos de Escrita Criativa. Salve!

 

 

Fada de xale

Osmar Barbalho

Contatoosmarbarbalho@gmail.com

 

Perguntei ao vigilante onde seria o Seminário de Escrita Criativa? Ele fez uma cara que não entendeu e perguntou “…é o Seminário?…é no final do corredor!” apontando com o braço. Eu tinha acabado de tomar um espresso e vi que o corredor era longo. Não parecia que depois daquela porta no final do corredor iria se falar de Escrita Criativa. Com o pique que o espresso me deu caminhei, abri a porta e vi várias pessoas de costas entretidas com o conteúdo das pastas. Tinha várias cadeiras com pastas. Eu quase desisto de fazer o Seminário. Li no JC (Jornal do Commércio) sobre o Seminário e fui comprado pelo o que ele se propunha a entregar. Quando enviei o e-mail solicitando a inscrição veio a primeira frustração: não havia mais vagas. Ficaria na lista de espera. No outro dia: “…tem vaga, mas você precisa vir a Unicap para fazer a inscrição e pegar o boleto para pagar…”. O primeiro boleto não consegui pagar. O próprio caixa do Itaú informou que o código de barras não estava “…cadastrado!”. Me deram o segundo boleto. Também não. O terceiro, também não… Com muita simpatia, a Coordenação disse que eu poderia começar o Seminário e depois pagava. Quando Mirella veio me abordar, toda solícita, para assinar a Lista de Presença, o meu nome não estava lá! Mas eu tava lá e era tarde para desistir. A minha decisão foi certa porque a cada sábado dos cinco previstos, ouvi várias vezes em vários momentos as palavras “Amo” ou “Amei” da Fada que sempre estava de xale!

Aí eu AMEI!!!

 

 

Para Patricia

Raldianny Pereira

Contato: raldianny.pereira@gmail.com

 

O desassossego de Pessoa. De cada pessoa.

O mar de Sophia. O mar de Recife. O mar de todos nós.

O personagem de Assis. Um Brasil de personagens.

O teatro de Binho. Todos nós feitos personagens.

O que ficou.

O que ainda falta?

Poemas de Szymborska, que faltei.

Amor à primeira vista. Meu amor à primeira vista, que foi embora.

Futuros estudos

em escrita criativa.

Porque o livro… da vida

está sempre aberto. No meio.

 

 

Metafísica do poema | Alcides Buss*

07/06/2019

 

Escrevo poemas
porque a vida me ordena a escrevê-los.

Mais fácil seria
deixá-los à deriva
em meio às coisas não escritas.

São tantas que ninguém
se daria por faltarem ou por ali estarem,
pedrinhas na pedreira que é viver.

Mal tenho tempo, no entanto,
e eis-me aflito, debruçado
no garimpo impiedoso.

Ao fim de horas – de dias, muitas vezes – ,
um punhado de grãos
desafia a luz que os expõe.
É a vida vertendo de si mesma.

Se não me entrego
ao seu pulsar, a morte me trava
no andar do que respira.

De que serve esse brilho assim fugaz?
Bobagem – sugere a intrometida brisa.
De nada serve
– mas é preciso não servir.
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* Contatohttp://www.alcidesbuss.com/

O voo da trapezista* | Amilcar Bettega Barbosa

O trem gemia suas engrenagens como se fossem sons de um esqueleto cansado. No vagão, os poucos passageiros sacolejavam ao ritmo da máquina, enfastiados por tantas e tão longas horas de viagem. Os bancos duros de madeira traziam nomes, datas e desenhos inscritos a canivete. A menina corria o indicador sobre o sulco de uma casa entalhada no banco em frente e dirigia-se à boneca pousada na perna. E o fazia como uma professorinha a ensinar que aquilo era uma casa e que lá dentro morava uma família.

Ao lado, sentava uma mulher excessivamente magra e triste. Mas seu rosto, apesar das faces cavadas, ainda guardava um quase nada de harmonia, próprio das coisas que já foram bonitas. A tristeza vinha era dos olhos. A intervalos curtos, ela consultava o relógio e mirava a solidão da paisagem à janela.

A garota dormiu, os braços ao longo do corpo e a coluna pregada ao espaldar: sua roupa de domingo ainda mantinha os vincos do ferro à brasa e um resquício da colônia de jasmim borrifada no colarinho rendado. A mulher recostou a cabeça da criança no seu braço. Começaram a surgir casas à beira dos trilhos.

Fez-se um barulho de coisa se desmanchando e o trem parou com um guincho comprido diante da plataforma. Apenas as duas desembarcaram na estação quase abandonada. A mulher segurou com força a mão da menina e sentiu, com gosto, que os tendões ainda tinham certa firmeza. Sentaram num banco, de frente para outro onde um velho ressonava com o jornal no colo. A mulher abriu a sacola e verificou o dinheiro no bolso interno. Dirigiram-se ao café. Sobre a mesa sem toalha foram servidos um pastel e um refrigerante. A garota comeu em silêncio, sob o olhar esvaziado da mulher.

Saíram da estação para a luz branca da rua, sob um sol a prumo que queimava sobre a cidade recolhida às casas. Cruzaram a praça central em direção ao sobrado erguido em frente ao busto do primeiro prefeito. No portão de ferro, a placa em bronze confirmou o nome. A mulher passou o lenço na testa suada e secou também o rosto da menina.

O acesso em pedra de grés entre os ramos das folhagens, uma fonte de chafariz, alguns degraus e a campainha com barulho de sino.

Quem atendeu foi uma jovem senhora que cheirava a lavanda. Através da porta entreaberta a menina viu a mobília bem arrumada, os quadros na parede, tapetes de lã felpuda e uma janela de vidros coloridos ao fundo. Achou que o cheiro era da casa e não da mulher.

– A essa hora o meu marido está no consultório. – Ela desceu os olhos para a garota e voltou à mulher: – Se o caso é urgente, vá até lá.

Foram.

O doutor visitava um paciente, assegurou a enfermeira, mas poderia atendê-las na volta. Apontou o queixo na direção da sala de espera e acrescentou:

– Não sem antes atender toda essa gente.

A mulher sentou no banco junto à parede e colocou a menina no colo. A garota repetiu o gesto com a boneca. As pessoas olharam para as duas e logo voltaram à passividade da espera. O silêncio era como o do picadeiro imóvel, da arquibancada em expectativa diante do balanço vazio do trapézio. Parecia que a qualquer momento romperia a banda com um estalar de pratos e acordes de trompete a dissipar a tensão.

A saleta foi esvaziando devagar. Eram mais de cinco horas quando a enfermeira mandou que elas entrassem. O consultório já fechara.

O doutor as recebeu com um sorriso mecânico e indicou-lhes as cadeiras enquanto fazia anotações na ficha do paciente que acabara de sair.

– Muito bem. – Ele largou a caneta sobre o bloco de receituário. – Qual é o problema?

Calada desde a porta, a mulher só olhava o chão. Ele repetiu a pergunta, debruçando-se um pouco sobre a mesa. Com esforço, ela respondeu:

– É ela. – E acenou com a cabeça para o lado, onde a garota sentara.

A menina não desgrudava os olhos do médico, da sua fronte alta e brilhosa, os ombros largos, a mão, aquela enorme mão com anel no dedo.

– O que ela está sentindo?

– É muito sozinha. – A mulher falava baixo.

– Tem dificuldade para se relacionar? – Quanto mais baixa era a voz dela, mais alta ficava a dele.

– Não. É muito simpática.

– Então o que incomoda?

– Tem dez anos.

A menina levantara e caminhava pela sala, observando a mesa de exame, a balança, o armário de vidro.

– Ela é esperta – prosseguiu a mulher. Já sabe bastante coisa. Pode até ajudar na casa.

O doutor mexeu-se na poltrona, a testa franzida.

A mulher desentravou: não achava justo a criança sair errando por aí se havia a possibilidade de uma vida menos dura, uma casa, uma cama quente, não queria nada para si, por favor o doutor não confundisse; era difícil ficar lembrando aquelas coisas mas não tinha outra maneira; e falar assim, nessa situação, dava dor no peito, sim senhor, uma vontade de não existir até. Disse muito mais. E ao fim, uma grande bolha de ar encheu-lhe a garganta.

O médico olhava para a mulher, para a menina, mas não encontrava os olhos de nenhuma. Viu apenas a criança correr ao canto da sala e dependurar-se no cabide de ferro pregado à parede, e levantar as pernas em posição perpendicular ao corpo, e rir, e gritar:

– Mãe, olha! La Mujer Alada!

 

Diante da plasticidadde da cena, o doutor percebeu com exatidão o momento em que todos os relógios do mundo pararam. Como se o coração estacasse a meio batimento, a respiração presa em pulmões de pedra, as pálpebras imóveis. Tudo paralisou-se em torno daquela figura suspensa: os braços estendidos, as pernas em posição perpendicular ao tronco. Havia, porém, as palavras. E as palavras vieram, foram, dançaram e pairaram solenes no ar. Como uma trapezista. Como La Mujer Alada. E de longe, lentamente, veio crescendo a música, transbordando aos poucos a taça da memória; e era uma música de circo, o rufar do tarol, o silêncio reverencioso da plateia rasgado pelo som do corpo cruzando o ar, pra lá e pra cá. Havia, sim, um jovem na primeira fila, as mãos suadas pelo perigo dos movimentos lá no alto, pela graça da trapezista, e pela proximidade da sua hora de macho.

 

Agarrada ao cabide, a menina continua rindo. O doutor vira-se para a mulher, ela agora o encara. Ele então recebe inteiro o peso do tempo e sente que envelhece de repente. Tem cansaço e até um certo asco. Ele levanta da cadeira e caminha até a criança. Afaga-lhe a cabeça, abre a boca na intenção de dizer qualquer coisa, mas fica emudecido.

A mulher também se ergue:

– O trem parte às seis e meia. Tenho dez minutos para chegar à estação. – Dirige-se à porta e, com a mão no trinco, torna a falar: – Meu nome é Rosália.

– Eu sei – responde o médico, sem a olhar.

Às seis e meia a mulher sobe no vagão que logo começa a se movimentar. Ainda lança sobre as poucas casas da cidade um último olhar. Está sozinha.

 

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* O voo da trapezista. In O voo da trapezista: contos. Amilcar Bettega Barbosa. 2ª ed. Porto Alegre: WS Editor, 1999, p. 49-53.

“Cerzir” | Antonio Ailton*

Matéria A A

*  Contatoailtonpoiesis@gmail.com

“Desconstrucción de los rostros y otros poemas” | Luis Raúl Calvo*

Libro Luis Raúl Calvo Deconstrucción de los rostros y otros poemas

* Contactoluisraulcalvo@gmail.com

O CURATO DE BOM JARDIM* | Marly Mota**

A velhice não me arrefece, me faz sempre recuar em outros  tempos. Quando menina, com a prima Heloisa, da minha idade, no  Colégio Santana,  iniciamos  nossas  aulas  do curso  primário com as freiras alemãs da Ordem  Beneditinas, muitas dessas jovens por vocação religiosa em plena segunda grande  Guerra  Mundial, fugiram  da  Alemanha, França, Bélgica  para o  Brasil. Perseguidas, pelo exército  de Hitler o conhecido, “Fürer,” entre elas, a madre Maurícia, minha mestra de piano e de Heloisa, sob sua enérgica orientação, tocávamos a quatro mãos a Barcarola de Offenbach dos contos de Hoffmann, nas festinhas do colégio, onde  toda cidade comparecia. Tempos depois soubemos que a Madre Maurícia,  nossa mestra  de piano, voltara à Alemanha e morrera louca num hospício de Heidelberg. No Colégio Santana aprendemos de cor e salteado as tabuadas, as cartilhas entre outras lições.

Do século 17, nos chega o lugarejo, a humilde capela devotada à Sant´Ana, o velho Cúria com as obrigações eclesiásticas,  instala-se numa modesta casa cercada de paus d´arcos amarelos, roxos,  nativos do nosso agreste matuto em Pernambuco.  Deixando o Curato, ficou chamado docemente de Bom Jardim. O meu pai, foi o primeiro Auditor Fiscal do Tesouro Nacional, nomeado por concurso, em 1927  pelo Presidente da República Washington Luiz. Lá permanecendo, até a aposentadoria.

Em velho  sobrado  colonial com meus pais e irmãos  moramos enquanto crianças e adolescentes. Eu filha única,  irmanei-me à prima Heloisa, sempre presente em nossa casa, e nós na dos seus pais, meus tios. O Barroco na arquitetura, dominando fora e dentro da bela matriz de Santana, do meu “Pátio da Matriz”. Com  pesados sinos anunciadores das horas, das  missas, das chamadas dos fiéis para as novenas do mês de  maio, o  Vigário de roquete, o sacristão intervindo  nos conflitos paroquiais como as beatas correligionárias de uma Dona Francisca do Monte, do romance PEDRA BONITA, do grande escritor  José Lins do Rego, meu pai seu leitor, ambos meninos de engenho, nascidos em 1901. Conheci Zé Lins do Rêgo, no Rio de Janeiro, final da década de 1950, com sua mulher Naná, a filha Cristina, de quem fiquei amiga, em jantar no apartamento de Álvaro Lins, grande crítico literário, Chefe da Casa Civil do governo de Juscelino Kubitschek. Álvaro Lins, também da A B L, amigo fraternal de Mauro Mota,  o indicou  à cadeira de  nº 26  da Academia Brasileira de Letras.

Em Bom Jardim o barbeiro Olímpio Guerra subia ao Pátio para “cortar  cabelo, barba e bigode” dos fregueses que não frequentavam a Barbearia. Da calçada de Dona Expedita, um gaito grita debochado: “Pra fazer gosto a macho, só encontro o barbeiro, passa o pente, alisa a  cara, ainda lhe bota cheiro”. Olímpio, usava em nós meninas e senhoras, sempre o mesmo corte:  “demi-Garçonne,” que eu detestava.  Heloisa  não cortava suas tranças.

Neste mês Mariano, uma das noites, foi  patrocinada  com muito Zelo e devoção pelos meus avós do Engenho Independência. Os encarregados da noite seguinte, pessoas humildes, pediram para eles deixarem os enfeites.  Solicitação gentilmente concedida. Um dos parentes,  não concordando, sorrateiramente retirou todos os enfeites. Quando vovó soube do incidente, ficou em coma profundo, por três dias. Numa madrugada fomos surpreendidos, com alegria. Vovó acordara, queria a família ao redor da sua cama, falando com todos perguntando pelos ausentes, como uma despedida, morreria logo depois no dia 29 de maio, de 1936. Muito gorda, como as senhoras de engenho do seu tempo, velha aos 56 anos. Até então, nos meus 10 anos guardei o canto suave da sua voz, no aconchego do seu colo ao balanço da  velha  cadeira de jacarandá, que me foi dada tempos depois. Nela balancei a minha filha cujo nome lhe foi dado pelo pai, Mauro Mota. Teresa Alexandrina Maura da Motta e Albuquerque, em homenagem à avó e bisavó de ambos.

Daqui expresso minha tristeza pelo falecimento da amiga e companheira Maria Thereza Neto, Ex-Presidente da Academia de Artes e Letras de Pernambuco.

Ao poeta Moisés da Paixão, em agradecimento ao seu belo livro “O Gênesis em poesia”, também como  eficaz presidente atual da Academia de Artes e Letras de Pernambuco.

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Crônica publicada no Diário de Pernambuco, coluna Opinião, em maio de 2019.

** Contatomarlym@hotmail.com

“A estética da indiferença” | Sidney Rocha*

Sidney Rocha

 

https://arte1play.com.br/colecoes/degustacao-2742/arte1-comtexto%3A-sidney-rocha-35033
| T04 | EP13 | 2019 | L |
Em conversa com o crítico literário Manuel da Costa Pinto, o contista e romancista Sidney Rocha fala sobre “A Estética da Indiferença”, segundo livro da trilogia “Geronimo” – iniciada em 2015 com “Fernanflor”. Além de comentar sobre a escolha dos títulos de seus livros, o escritor aponta as influências presentes em “O Destino das Metáforas”, livro ganhador do prêmio Jabuti de 2012, e fala sobre como a linguagem é a protagonista de sua produção literária.
direção: Iano Coimbra
categoria: LITERATURA

Contatosidneyrocha1@gmail.com

Índex* – Maio, 2019

Acordo

Em meio

À tempestade

Mas não me sinto

 

Uma aluna vem

E agradece –

Outra soa

Um conto

Que se faz

Fazendo

 

E todo

Um sonho antigo

Reverbera no ar

Espanta furacões

Inimigos imaginários

Cabem hoje

Na palma da

Mão

Enquanto escrevo

Um poema

De começo

(“Enquanto”*, Patricia Gonçalves Tenório, 04/05/2019, 13h55)

* Após o IV Encontro sobre o Leste Europeu dos Estudos em Escrita Criativa 2019 – Unicap, com Milan Kundera, Wislawa Szymborska, Geórgia Alves, Arthur Telló.

 

Enquanto os novos começos não vêm no Índex de Maio, 2019 no blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Pigmaleão | Arthur Telló (RS – Brasil).

Poema & foto | Cilene Santos (PE – Brasil).

Conto de Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Estado de Guerra ou John Locke de Saias | Geórgia Alves (PE – Brasil).

Um conto de Osmar Barbalho (PE – Brasil).

Textos de Susana Mello (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2019 | Diversos.

E o link do mês: José Nunes (DF – Brasil) entrevista Patricia Gonçalves Tenório: https://comoeuescrevo.com/patricia-goncalves-tenorio/

Gratidão infinita pela participação, a próxima postagem será em 30 de Junho de 2019, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* May, 2019

 I wake up

In between

The storm

But I do not feel

Lonely

 

A student comes

And thanks –

Another one sounds

A tale

Which is made

Making

 

And all

An old dream

Glisters in the air

Scares hurricanes

Imaginary Enemies

They fit today

In the palm of

Hand

As I write

A poem

Of  beginning

(“While” *, Patricia Gonçalves Tenório, 05/04/2019, 1:55 p.m.)

* After the 4th Conference about Eastern European on Studies in Creative Writing 2019 – Unicap, with Milan Kundera, Wislawa Szymborska, Georgia Alves, Arthur Telló.

 

While the new beginning do not come in the Index of May, 2019 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Pygmalion | Arthur Telló (RS – Brasil).

Poem & Photo | Cilene Santos (PE – Brasil).

Tale of Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

State of War or John Locke on Skirts | Geórgia Alves (PE – Brasil).

A tale by Osmar Barbalho (PE – Brasil).

Texts by Susana Mello (PE – Brasil).

Studies in Creative Writing – May, 2019 | Several.

And the link of the month: José Nunes (DF – Brasil) interviews Patricia Gonçalves Tenório: https://comoeuescrevo.com/patricia-goncalves-tenorio/

Endless gratitude for the participation, the next post will be on June 30, 2019, a very big hug  and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O novo começo sempre nos alcança. The new beginning always reaches us.

Pigmaleão* | Arthur Telló**

 a Amilcar Bettega

 

1 – Uma jovem de cabelos castanhos salta uma poça na rua. Por um segundo, a saia sobe mais do que devia e a coxa torneada anima meus olhos prometendo prazeres indiscretos. O sol vermelho e brilhoso estende suas mãos nas paredes enegrecidas dos prédios antigos. São quatro da tarde e os dedos gordurosos dos raios de sol tocam o rosto da jovem. Ela detém o passo e sorri para um senhor de idade atravessando a rua. Ela não sorri para mim, mas, ao tocar seu rosto, a luz do sol me revela seus olhos verdes, musguentos.

Morena de cabelos castanho-claros, a jovem vive em meio a uma cidade determinada por buzinas, sujeira rançosa, baratas e um desejo de urgência que meus olhos pedem e ela não sabe. Os cabelos cacheados emolduram seu rosto, caem dos seus ombros e, quando molhadas, as madeixas devem ultrapassar os seios para depois lentamente se enroscarem. Ao passar pelos mamilos (rosados? Pequenos?), o contato frio dos cachos arrepia a pele. Eu vejo a jovem, mas ela não vê o rapaz sentado nem a mesa de rua da cafeteria, nem meu rosto sobre a xícara de café. Ela não vê o desejo que brilha nos meus olhos.

Ela sorri para o sol.

Eu sorrio de volta.

Entre nós um ônibus para, ela desaparece e então eu a vejo através da janela.

 

2 – Uma palavra depois da outra: o puro movimento. O lápis na mão, Miguel escreve na caderneta. As palavras iluminam os cabelos cacheados da jovem, eles emolduram seu rosto e caem dos seus ombros. Uma frase depois da outra e Miguel poderá estar junto dela, seus dedos a sentir a maciez da pele morena.

3 – Uma palavra depois da outra: o puro movimento. Uma jovem de cabelos castanhos salta uma poça na rua. Por um segundo, a saia sobe mais do que devia e a coxa torneada provoca meus olhos prometendo prazeres indevidos. O lápis na mão, eu escrevo na caderneta. Sozinha, a palavra não faz nada. Eu disponho palavras no papel. Com força e gravidade, uma palavra chama a outra, elas se provocam e se ligam, criando imagens novas. O sol vermelho e brilhoso estende suas mãos nas paredes enegrecidas dos prédios antigos. Os dedos gordurosos dos raios de sol tocam o rosto da jovem, que sorri para um senhor de idade atravessando a rua. Ela não sorri para mim, mas o toque do sol no seu rosto me revela seus olhos verdes, musguentos. A garota existe em meio a uma cidade determinada por buzinas, sujeira rançosa, baratas e um desejo de urgência que meus olhos pedem e ela não sabe. A partir do movimento da escrita, a coisa vai acontecendo. As palavras iluminam os cabelos cacheados da jovem, eles emolduram seu rosto e caem dos seus ombros. Molhadas, as madeixas ultrapassariam os seios e lentamente se enroscariam. Ao passar pelos mamilos rosados, o contato frio dos cabelos arrepiaria a pele. Eu vejo a jovem, mas ela não vê o rapaz sentado nem a mesa de rua da cafeteria, nem meu rosto sobre a xícara de café e a caderneta. Ela não vê o desejo que brilha nos meus olhos. Uma frase depois da outra e poderemos estar juntos, meus dedos a sentir a maciez da sua pele morena.

Ela sorri para o sol.

Eu sorrio de volta.

Um ônibus para entre nós, ela some e então eu vejo seu rosto através da janela.

 

4 – Dora tem muitas manias. A mania de andar de bicicleta sem capacete, de gostar de milk-shake de pistache e de começar o dia preenchendo a sessão de palavras-cruzadas do jornal. Depois, embora afirme não acreditar e ironize os amigos que se guiam pelos astros, Dora lê o horóscopo de Gêmeos: Evite se envolver com pessoas que só querem se aproveitar de você e da sua inocência. Nada é mais importante que se amar. Em dez minutos, ela vai sair de casa para ir à faculdade de psicologia e se esquecer desses conselhos. No meio da tarde, andando de bicicleta na orla do Guaíba, enquanto recebe uma carícia dos últimos raios de sol e admira as cores roxas e alaranjadas do crepúsculo, os reflexos metálicos das luzes no rio vão distrair Dora, a bicicleta vai chocar-se contra uma pedra, e Dora vai cair no chão e machucar o joelho direito. Quem a ajudará a erguer-se será Miguel, jovem com ambições literárias, que sempre corre nesse horário.

“Oi”, ele vai dizer, ajudando Dora a se levantar. Os dedos dele têm calos e por eles perpassa um arrepio eletrizante ao sentirem a maciez da pele da jovem.

 

5 – Miguel escreve. Ele está apaixonado. Dora é uma jovem alta, arrojada e fogosa. É muito bonita comparada às outras. Os livros nas estantes do escritório são uma pesada mão sobre Miguel e a poeira dos móveis sufoca suas narinas. Mas isso não é nada se comparado à maneira como Dora sufoca o desespero dele.

De pés ligeiros, Dora irrompe a cada instante. Ela salta e os cabelos se agitam como o das Bacantes. É bela de se ver. O toque na pele dela evoca o trabalho, a loucura, a mentira, a doença. A paixão. Jamais a esperança. Dora tem seus próprios planos, suas próprias ideias. Até quando ela estará com Miguel? Beneditino, na solidão do escritório, ele dispõe palavras e cria imagens. As mãos pequenas de Dora, embora macias, destoam do resto do corpo. As maçãs do rosto são salientes e diminuem seus olhos quando ela sorri. Por mais que Miguel a veja, Dora sempre lhe escapa.

 

7 – Não nos víamos há uma semana. Dora se aproximou de mim, a fenda do vestido se abriu e mais uma vez revelou as pernas de coxas firmes. O tornozelo fino era um detalhe tocante sobre o qual se erguia a mulher alta, de 1,73m, de olhos penetrantes como duas agulhas e sobrancelhas castanhas, grossas e bem desenhadas.

“Oi”, ela disse, me encarando.

Seus olhos me deixavam nervoso. Sempre fico nervoso com a promessa de intimidade. Falei besteiras sobre o tempo, o céu azul de poucas nuvens, o frio gostoso que nos obriga a vestir casacos. Evitei falar do sol que iluminava seu rosto e deixava seu sorriso mais branco. Quando gaguejei em meio a uma frase, Dora riu e a mão dela tocou meu ombro. Os dedos transmitiram arrepios por toda minha espinha. Se ela pedisse, naquele momento eu mataria meus pais e incendiaria minha casa.

“Oi?”, ela brincou e seu sorriso de dentes alinhados novamente me oprimiu.

As palavras morreram na minha boca e o calor me subiu o rosto.

Dora abriu os lábios e da sua língua vermelha pendiam fios espessos de saliva. Por que eu estava tão vermelho?, ela perguntou. Eu não aguentei mais: peguei Dora pelo braço e, enquanto a beijava (beijos em que minha cabeça tentava descer pela garganta dela para meu corpo habitá-la desde dentro), o casaco dela se abriu revelando os mamilos pequenos (ela não usava sutiã!, eu pensei, animado). Nossas roupas no chão, as unhas dela grudaram nas minhas costas. Eu urrei e senti o sangue quente escorrer. Com o toque do ar, o sangue esfriou e meus pelos eriçaram. Quando eu me ajoelhei para lamber o sexo molhado e palpitante de Dora, o clitóris desprendeu-se na minha língua e rolou pelo chão fazendo o barulho suave de um tecido que cai. Os grandes lábios derreteram e da cavidade vaginal surgiram pregas feito um ânus. O ânus se contraiu para mim antes de transformar-se em um X negro na pele uniforme, macia e lisa, sem rastro de orifícios. No meu espanto, olhei para Dora, gotículas de suor brilhavam em sua testa. Ela sorria esperando minha língua surpreendê-la.

 

8 – Miguel acordou às duas da manhã com uma discreta ereção. Olhou para Dora, a franja sobre os olhos fechados, achou-a bonita e um pouco infantil dormindo com a boca levemente aberta. Através das persianas, a luz penetrava o quarto do casal, riscando o rosto e o corpo de Dora com listras azuis. Em dois meses o cabelo comprido de Dora se reduzirá a um corte Joãozinho, e o ombro que agora está descoberto exibirá a tatuagem de uma rosa encarnada. Miguel ainda não sabe disso. Não sabe que em dois meses ele será apenas parte do passado de Dora. Uma parte incômoda, que ela deixou para trás.

O corpo de Dora está quente e o hálito dela transmite a Miguel a estranha sensação de acolhimento. Miguel nota a ereção, se aconchega à namorada e começa a massagear os ombros dela impondo uma leve pressão com os dedos. Quando ela se mexe e estica o pescoço, Miguel passa os lábios em torno a ele, a pele sedosa convida a mordida, mas a mão se antecipa e desce em direção às coxas dela. Ela nunca usou calcinha e Miguel volta com a mão para acariciar a nuca de Dora. Ela resmunga, o rosto se contrai. Ela se afasta. Ele insiste: abre a boca, inspira o cheiro de erva-doce dos cabelos e com a ponta do nariz dá fungadas no pescoço dela. Excitado, ele abocanha o lóbulo da orelha. Dora toca o rosto de Miguel enquanto ele chupa o lóbulo quente e, quando ela parece prestes a abrir os olhos, ele já se adianta e desce com a boca em direção ao pescoço. Os dedos chegam ao sexo, descobrem o clitóris, começam a massageá-lo. As coxas dela apertam a mão dele, impossibilitando o toque. Dora ainda está de olhos fechados, ela volta aos poucos do sonho como se saísse de uma angustiante manhã nebulosa que deixa todas as luzes líquidas e difusas. Dora abre os olhos e se depara com um volume escuro de cabelos desalinhados, uma coisa ofegante que lhe dá asco e a assusta. Ela não pensa em Miguel, mas quando ouve a voz dele pedindo calma, Dora começa a chorar.

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* Conto apresentado no IV Encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019, Unicap.

** Arthur Telló é mestre em Escrita Criativa pela PUCRS, onde hoje faz doutorado na mesma área. Atualmente atua como professor de Latim, Grego, Literatura e Escrita Criativa na Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016). Em 2016, ganhou o prêmio Açorianos de Criação Literária Narrativa Longa com o romance “O Tríptico de Elisa”. Contato: arthurtello@gmail.com