Três notas sobre o país misterioso de Gustave Moreau* | Marcel Proust** | Parte III

Rumeur des Ages

La Rouchele, França, 2008

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão***

 

(A seguinte tradução foi parcialmente e em outra ordem apresentada no

V FESTLATINO – Recife/PE – Novembro 2011, sob o título

Uma janela para a arte:

Um olhar de Marcel Proust sobre a obra de Gustave Moreau)

 

*

À lembrança do que experimentei diante desse Gustave Moreau, como aquela anterior, invejo as pessoas cuja vida é tão bem regrada que a cada dia podem consagrar algum tempo às alegrias da arte. Por momentos assim, sobretudo vendo como essas pessoas são em outros aspectos menos interessantes que eu, me pergunto se elas não dizem possuir tão frequentemente essas impressões porque não as têm jamais. Aqueles que uma vez amaram sabem como as ligações fáceis, às quais damos o nome de amores, são inferiores ao amor verdadeiro. Talvez se estivesse ao alcance de todos amar uma obra de arte como (parece assim ao menos) a alguém do outro sexo (eu falo do verdadeiro amor), saberíamos realmente o quanto o verdadeiro amor por uma obra de arte é coisa rara e o quanto as inumeráveis alegrias artísticas, das quais falam os dotados e com uma vida regulada de maneira harmoniosa, são distantes desse amor.

Flor mística

Museu Gustave Moreau, Paris

Júpiter e Semele

Museu Gustave Moreau, Paris

Helena sobre os muros de Tróia

Museu do Louvre, Paris

As vozes

A aparição

Museu do Louvre, Paris

Orfeu

Museu D´Orsay, Paris

Salomé (dançando diante Herodes)

Museu de Arte e Centro Cultural Armand Hammer

Los Angeles, EUA

Não há nada mais real para um escritor do que o que pode refletir individualmente seu pensamento, ou seja, suas obras. Que ele seja embaixador, príncipe, célebre, isso não é nada. Que sua vaidade de homem o atinja, isso pode ser funesto para o escritor, mas talvez sem isso ele se deixasse levar pela preguiça, ou embrutecesse pela perversão, ou se consumisse pela doença. Mas, ao menos, ele deveria saber que isso não tem nada de realidade literária.

O jovem poeta

É o que me incomoda em Chateaubriand, que tem o ar contente por ter sido um grande personagem. Mesmo grande personagem literário, o que isso quer dizer? É uma visão materialista da grandeza literária e, por consequência, falsa, porque é totalmente espiritual. No entanto, ele faz bela figura, e no seu charme tem a grandeza. Mas não é porque era nobre.

As circunstâncias, não são nada? Existem momentos em que parece que sim. No entanto, Rodenbach diz que Baudelaire foi Baudelaire porque esteve na América.[3] Para mim, as circunstâncias são qualquer coisa. Mas esta é a probabilidade por um décimo e minha disposição por nove décimos. Esse Gustave Moreau, visto num dia de desorientação, de disposição para escutar as vozes interiores, me valeu toda a viagem à Holanda, feita rapidamente, o coração atento, mas fechado…

*

Gustave Moreau frequentemente, nos seus quadros e suas aquarelas, tentou pintar esta abstração: o Poeta. Dominante sobre um cavalo ornado de pedrarias que lhe dirige um olhar amoroso, a multidão ajoelhada, onde reconhecemos as diversas castas do Oriente, ao passo que ele não pertence a nenhuma, envolvido por brancas musselinas, a mandora de lado, respirando com uma gravidade apaixonada o perfume da flor mística que tem à mão, o rosto marcado por uma doçura celestial, nos perguntamos, para bem lhe observar, se esse poeta não é uma mulher. Talvez Gustave Moreau quisesse dizer que o poeta contém em si toda a humanidade, que possuía as ternuras da mulher; mas se, como eu o creio, ele queria também envolver de poesia o rosto, as vestimentas, a atitude daquele cuja alma é poesia, é somente porque situou essa cena na Índia e na Pérsia que pôde nos deixar hesitantes sobre o sexo do poeta. Se quisesse pintar seu poeta na nossa época e no nosso país e o envolver, todavia, de uma beleza preciosa, ele teria sido obrigado a fazê-lo mulher. Mesmo no Oriente, aliás, mesmo na Grécia, ele por isso é frequentemente persuadido. Agora, é uma poetisa que ele nos mostra, seguindo com uma musa a púrpura de uma vereda montanhosa, onde passa por vezes um deus ou um centauro. É, além disso, numa aquarela enquadrada de flores, como uma miniatura persa, a Péri, a pequena musicista dos deuses, que, montada em um dragão, elevando diante dela uma flor sagrada, viaja em pleno céu. Enfim, numa ou noutra dessas figuras, a arte do pintor deu uma espécie de beleza religiosa: no poeta subjugando a multidão com a sua eloquência; na poetisa inspirada, assim como na pequena viajante do céu persa, cujos cantos são a sedução dos deuses, sempre cri reconhecer Madame de Noailles.

Não sei se Gustave Moreau sentiu o quanto, por uma consequência indireta, essa bela concepção do poeta-mulher era capaz de renovar um dia a economia da obra poética ela mesma. Na nossa triste época, sob nossos meios, os poetas, entenda-se os poetas-homens, no mesmo momento em que lançam sobre os campos em flores um olhar extasiado, são obrigados a se excetuar da beleza universal, a se excluir, pela imaginação, da paisagem. Eles sentem que a graça, na qual eles estão envolvidos, para diante do seu chapéu-coco, sua barba, diante dos seus óculos.

Parte I: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3055

Parte II: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3072

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(3) Será uma “distração” da parte de Marcel Proust? Baudelaire não tendo jamais viajado para a América, não deveria ele de preferência ler Chateaubriand?

* Gustave Moreau (1826-1898) nasceu em 6 de abril de 1826, na Rue des Saint-Pères, número 03, Paris. Filho de Louis Moreau, arquiteto e de Pauline Desmontiers. Tornou-se célebre por ser um dos principais impulsionadores da arte simbolista do século XIX. Moreau começou como pintor realista. Posteriormente, sob a influência dos impressionistas e pré-rafaelitas, evoluiu para uma pintura mais romântica e espiritual, que lhe permitiu entrar nas fileiras do simbolismo, junto com Munch, Ensor, Puvis de Chavanes e Redon. Alguns historiadores de arte preferem se referir a eles como pós-impressionistas. Teve aulas com os mestres Chassériau e Picot em seus respectivos ateliês. Suas obras foram expostas pela primeira vez ao público e à crítica no Salão de 1852 tendo o seu trabalho reconhecido apenas no Salão de 1864, com quase quarenta anos, e por duas vezes tentou o prêmio de Roma, prêmio da Escola de Belas Artes, sem obter sucesso.

** Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (1871-1922) nasceu em 10 de julho de 1871 em Auteuil, França. Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época. Foi romancista, ensaísta e crítico. Teve como principais obras:

 - Les Plaisis et les Jours (Calmann-Lévy, 1896)

- La Bible d´Amiens (Mercure de France, 1904)

- La mort des cathédrales (Le Figaro, 1904)

- Sésame et les lys (1906)

- Pastiches et mélanges (NRF, 1919)

- Chroniques (1927)

- Jean Santeuil (1952)

- Contre Sainte-Beuve (1954)

- Chardin et Rembrandt (Le Bruit du temps, 2009)

- À la recherche du temps perdu (1913-1927)

 Morreu em 18 de novembro de 1822, de uma bronquite mal curada.

*** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

canção (desnorteada) para 2012 – Abílio Pacheco*

02/01/2012

tenho pra mim que este ano será diferente
tudo indica que não será como o que passou
vejam na tv que já começou deveras desigual
não teve mortes, acidentes, desastres ou explosões

começou sem notícias de bebês nascendo,
sem votos de felicidades, sem fogos de artifício
ninguém prometeu mudar, consertar erros,
fazer diferente, emagrecer ou aprender línguas

tenho pra mim que este ano será diferente
sem reformas em ministérios ou secretarias
sem salário de fome acrescentado um pouquinho
sem novos projetos pessoais, familiares ou públicos,

é que a cartilha rota e gasta não deve mais ser usada
e ano novo nasce como nasce um dia novo
sem mais quê nem por quê
mas farto de quês e por quês

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* Abílio Pacheco é professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Pará – Campus de Bragança. Trabalhou por 5 anos no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará – IFPA (antes Centro Federal de Educação Tecnológica – CEFETPa), onde ajudou a instalar o curso de Licenciatura em Letras e foi coordenador do mesmo. Trabalhou por dois anos e meio na Escola Tenente Rego Barros – ligada à Aeronáutica e uma das melhores escolas públicas de Belém (ao lado da escola de aplicação da UFPa). Faz parte do grupo de pesquisa Investigações em Narrativa Contemporânea de Língua Portuguesa.

Tem mestrado em Letras – Estudos Literários pela UFPa, algumas pós-graduações intermediárias, Graduação em Letras pela UFPa – Campus de Marabá e curso técnico de Magistério pela Escola Estadual Dr. Gaspar Vianna (Marabá).

Atualmente mora em Belém, mas nasceu em Juazeiro/Ba, passou a primeira infância em Coroatá/Ma e morou por mais de 20 anos em Marabá. Tem um livro de poemas publicado: ’mosaico primevo’ (2008) e outro em formato semi-artesanal: ‘poemia’ (1998). Alguns poemas e contos foram publicados em sites, blogs, revistas virtuais, livros e antologias.

Recebeu algumas outorgas resultantes de concursos literários, sendo a mais importante delas o 1º lugar ‘Estilo Moderno’ no IX Concurso Nacional de Poesias – Irene Santini, organizado pela Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande, quando tinha 17 anos.

Contato: abilioescritor@uol.com.br

               http://abiliopacheco.com.br

Três notas sobre o país misterioso de Gustave Moreau* | Marcel Proust | Parte II

Rumeur des Ages

La Rouchele, França, 2008

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão***

 

(A seguinte tradução foi parcialmente e em outra ordem apresentada no

V FESTLATINO – Recife/PE – Novembro 2011, sob o título

Uma janela para a arte:

Um olhar de Marcel Proust sobre a obra de Gustave Moreau)

 

*

 

Um quadro é uma espécie de aparição de um lugar do mundo misterioso, do qual conhecemos alguns outros fragmentos, que são os quadros do mesmo artista.

A esfinge vencedora

 Noite e Tristeza

 

 

Hesíodo

 

Estamos num salão, os quadros nos provocam; de repente elevamos os olhos e percebemos um que não conhecemos, mas que distinguimos como a lembrança de uma vida anterior.

Os unicórnios – Museu Gustave Moreau, Paris

Esses cavalos com ar indomado e terno, ornados de pedras preciosas e rosas; esse poeta que tem uma figura feminina, um manto de um azul sombrio e uma lira à mão; e todos esses homens imberbes como uma figura de mulher, coroados de hortênsias e inclinando os galhos de tuberosas; esse pássaro de um azul também sombrio que segue o poeta; o peito do poeta que, elevado por um canto grave e doce, segura os galhos de rosas que o cingem; e a cor de tudo isso, a cor de um mundo onde tal cor tem não a cor que tem no nosso mundo, mas a cor que tem sobre este quadro; e mais ainda, a atmosfera intelectual desse mundo onde o sol se põe frequentemente, onde as colinas selvagens têm a sua frente os templos e, se um pássaro segue esse poeta e se uma flor cresce nesse vale, é em virtude de outras leis, além das de nosso mundo, de leis que permitem ao pássaro distinguir o poeta, segui-lo, permanecer ligado a ele, se bem que em seu voo adeja em torno dele, numa espécie de sabedoria preciosa, e essa flor cresce nesse vale, próxima a essa mulher, porque ela deve morrer, essa flor é a flor da morte e, no caso de ela se haver dirigido para lá, existe como que um pressentimento, e no seu crescimento rápido há uma espécie de ameaça crescente, e parece observá-la, sentir seu derradeiro instante. Imediatamente reconhecemos que o que ali vemos sem jamais ter sido visto, por ter antes tido algumas aparições desse mundo estranho, é um Gustave Moreau.

O triunfo de Alexandre

Museu Gustave Moreau, Paris

O país, cujas obras de arte são aparições fragmentárias, é a alma do poeta, sua alma verdadeira, aquela que está no mais profundo do seu ser, sua pátria verdadeira, mas onde ele não vive senão em raros momentos.

Prometeu

Museu Gustave Moreau, Paris

É por isso que o dia que os ilumina, as cores que aí brilham, os personagens que aí se agitam são um dia cores e seres intelectuais. A inspiração é o momento em que o poeta pode penetrar no interior dessa alma. O trabalho é o esforço de por aí permanecer inteiramente, enquanto ele escreve ou pinta, sem qualquer influência externa. De lá, esse retoque de palavras, cores, diante de um modelo que para o poeta é tão real, tão imperioso como para o pintor, e para este, tão intelectual e tão pessoal quanto para o poeta. Também amamos vê-los, esses quadros relacionados pelo poeta do país misterioso, que ele pode acessar, e que, guardando uma espécie de cor misteriosa, ofusca o ser que retorna ao grande dia, ao meio das realidades do mundo, não a verdadeira, mas a mais comum, aquela que corresponde a nossa alma a mais exterior, aquela que no poeta é quase semelhante a dos outros homens. Esta aqui diante de mim, imobilizada como nunca através do prisma impenetrável, mas tão fácil de quebrar suas tenras cores, que flutuava tão rápido sobre o pensamento exaltado de Gustave Moureau, delicada medusa sobre o rio, mas que nada perdeu da fresca palidez de suas nuances azuis. O cantor persa, assim se chama.

O Poeta Persa (O Cantor Árabe)

Coleção Particular, Paris

 E, com efeito, ele canta, esse cavaleiro com rosto de mulher e de padre, com insígnias de rei, segue o pássaro misterioso, diante de quem as mulheres e os padres se inclinam e inclinam as flores, e observa seu cavalo com um olhar em que vive o espírito que circula em toda a natureza, um olhar terno como se ele o amasse, erguendo ao seu encontro o focinho indomado, como se ele o detestasse e devesse lhe devorar. Ele canta, sua boca está aberta, seu peito dilata os galhos de rosas que o abraçam. É este o momento no qual perdemos o chão, em que não estamos mais sobre a terra firme, e o barco posto ao mar flutua e miraculosamente avança, e a palavra, erguida pelas marés rítmicas, transforma-se em canto. E essa palpitação visível se ergue eternamente no quadro imóvel. É por isso que os poetas não morrem totalmente inteiros, e sua alma verdadeira, essa alma, a mais interior, que era a única em que eles se sentiriam eles mesmos, nos é numa certa medida preservada. Cremos que o poeta está morto, faríamos uma peregrinação a Luxemburgo como se fôssemos simplesmente a uma tumba, iremos como uma mulher carregando a cabeça morta de Orfeu, diante da Mulher carregando a cabeça de Orfeu, e vemos nessa cabeça alguma coisa que nos observa: o pensamento de Gustave Moreau pintado sobre esse quadro, acompanhando-nos com seus belos olhos de cego, que são as cores pensadas.

O pintor nos observa, não ousamos dizer que ele nos vê.

Autoretrato – 1850

Museu Gustave Moreau, Paris

Na verdade, ele não nos vê, e nós, por mais caros que a ele fôssemos, seríamos muito pouco para ele. Sua visão continua sendo vista, ela está diante de nós, isso é tudo de que ele precisa.

A casa de Gustave Moreau, agora que ele morreu, vai se transformar num museu. É o que deve ser. Além do mais, enquanto vivo, a casa de um poeta não é de fato uma casa.

 

Sentimos que o que ali se faz não mais pertence a ele, é agora de todos, e frequentemente, ou mesmo todas as vezes, ele nada mais é que sua alma, a mais interior, como os pontos cardeais do globo, o equador, os polos, o lugar de reencontro de mistérios comuns. Mas é em um homem que essa alma se agita algumas vezes. Sem dúvida, ele permanece de certo modo santificado, como uma espécie de padre, cuja vida é dedicada a servir a essa divindade, a alimentar os animais sagrados que lhe dão prazer e a derramar os perfumes que facilitam suas aparições. Sua casa é metade igreja, metade casa de padre. Nesse momento, o homem está morto, nada mais resta além do que se pôde liberar do divino que havia nele. Numa súbita metamorfose, a casa se transformou num museu antes mesmo de ser organizada dessa forma. Não mais teria de arrumar o leito, acender o forno. Aquilo que por momentos foi deus e vivia por todos, não é mais deus, não existe mais por si, mas pelos outros. Nada em sua casa recordaria um eu que não existe mais. A barreira do eu individual, na qual ele era um homem como os outros, caiu. Retirados os móveis, não precisa mais do que de quadros que se refiram à alma interior, a qual ele buscou frequentemente e para a qual se dirigem todos. Além disso, ele se esforçou em derrubar essa barreira do eu individual, tendo como tarefa o trabalho de excitar a inspiração, ou seja, tornar cada vez mais frequentes os momentos em que podia penetrar sua alma interior, esse mesmo trabalho graças ao qual ele possuía a tarefa de fixar a imagem intacta sem que nada da alma comum aí se misturasse. Pouco a pouco, os quadros cobriam todos os quartos e não havia mais que alguns lugares onde pudesse se refugiar o homem que desejava jantar, receber seus amigos, dormir. Rarefaziam-se os momentos em que ele não era invadido por sua alma interior, nos quais ele era simplesmente um homem. Sua casa era então quase um museu, sua pessoa não era nada mais que o lugar onde se realizava uma obra.

Isso acontece forçosamente com todos aqueles que têm uma alma interior, na qual podem algumas vezes penetrar. Eles são advertidos por uma alegria secreta de que os verdadeiros momentos são somente aqueles que ali passam. O restante de sua vida é uma espécie de exílio frequentemente voluntário, não triste, mas mal-humorado. Porque eles são exilados intelectuais, perderam a lembrança de sua pátria, a única, onde é mais suave viver, mas não sabem como fazer para retornar. Desde que desejem qualquer outro lugar, eles ali não estão mais, apenas o desejo de outra coisa sendo o exílio de um país que é um sentimento. Mas, enquanto eles são eles mesmos, quero dizer, quando não estão exilados, quando eles são sua alma interior, agem por uma espécie de instinto, que, como o dos insetos, é duplicado em um secreto pressentimento da grandeza de sua tarefa e da brevidade de sua vida. E, então, eles renunciam a qualquer outra tarefa para criar a morada onde viverá sua posteridade, depositando-a, prontos a morrer em seguida. Vejam o ardor com que o pintor se põe a pintar sua tela e a aranha a tecer sua teia.

Todas essas almas interiores de poetas são amigas e se chamam umas às outras. Eu era um homem como todos os outros neste salão, levantei os olhos e vi esse Cantor indiano que eu não entendia, que não se mexia, mas cujo peito erguia as rosas que o cobriam, e diante de quem as mulheres depositavam flores. Assim, em mim também o cantor despertou. E nesse momento nada o poderia distrair do que ele tinha a dizer. Um instinto secreto me advertia, palavra por palavra, do que deveria ser dito. E os pensamentos, por mais brilhantes que viessem, que me fizessem parecer mais inteligente, eu os escutava sem poder me afastar da tarefa invisível, mas proposta. Porque o cantor que existe em mim é tão doce feito um padre. E é porque esse país misterioso que se desenrola agora diante de nós existe de maneira bem real, quando o ultrapassamos a galope com tal embriaguês que todas as telas que ele nos lembra, se nós verdadeiramente o procurássemos ali mesmo, quer dizer, se estivéssemos realmente inspirados e  tivéssemos o cuidado de nada ali se misturar da alma comum, ou seja, sido conscienciosos, trabalhado, esses quadros se assemelhariam entre eles. E é por isso que, quando levantei os olhos e percebi o grave e doce cantor sobre seu cavalo de focinho feroz e olhos ternos, ornado de rosas e pedras preciosas sobre o peito, elevando, num impulso de ritmo incompreendido, as rosas que o circulavam, seguido pelo pássaro que o conhecia, diante de um sol poente habitual, eu pude dizer: é um Gustave Moreau. Ele é talvez mais belo que os outros, como as belas palavras, o canto. Como o peito envolto de rosas do jovem cantor, ele se elevou pelo entusiasmo. Mas ele vem, certamente como os outros, do país onde as cores possuem essa cor, onde os poetas têm rosto de mulher e insígnias de reis, são amados pelos pássaros, conhecidos de seus cavalos, cobertos de pedras preciosas e de rosas, ou seja, onde existe a alegoria, que é a lei das existências.

(Continua na próxima semana…)

Parte I :  http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3055

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* Gustave Moreau (1826-1898) nasceu em 6 de abril de 1826, na Rue des Saint-Pères, número 03, Paris. Filho de Louis Moreau, arquiteto e de Pauline Desmontiers. Tornou-se célebre por ser um dos principais impulsionadores da arte simbolista do século XIX. Moreau começou como pintor realista. Posteriormente, sob a influência dos impressionistas e pré-rafaelitas, evoluiu para uma pintura mais romântica e espiritual, que lhe permitiu entrar nas fileiras do simbolismo, junto com Munch, Ensor, Puvis de Chavanes e Redon. Alguns historiadores de arte preferem se referir a eles como pós-impressionistas. Teve aulas com os mestres Chassériau e Picot em seus respectivos ateliês. Suas obras foram expostas pela primeira vez ao público e à crítica no Salão de 1852 tendo o seu trabalho reconhecido apenas no Salão de 1864, com quase quarenta anos, e por duas vezes tentou o prêmio de Roma, prêmio da Escola de Belas Artes, sem obter sucesso.

** Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (1871-1922) nasceu em 10 de julho de 1871 em Auteuil, França. Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época. Foi romancista, ensaísta e crítico. Teve como principais obras:

 - Les Plaisis et les Jours (Calmann-Lévy, 1896)

- La Bible d´Amiens (Mercure de France, 1904)

- La mort des cathédrales (Le Figaro, 1904)

- Sésame et les lys (1906)

- Pastiches et mélanges (NRF, 1919)

- Chroniques (1927)

- Jean Santeuil (1952)

- Contre Sainte-Beuve (1954)

- Chardin et Rembrandt (Le Bruit du temps, 2009)

- À la recherche du temps perdu (1913-1927)

 Morreu em 18 de novembro de 1822, de uma bronquite mal curada.

*** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

 

Nada do que… – Clauder Arcanjo

 

Nada do que foi virá.

Nada do que já veio renascerá.

Tudo se renova naquilo

Que nos encanta, e espanta.

Mossoró-RN, 24/11/2011

(Enviado por Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com)

Premiação – Academia Pernambucana de Letras – 2011 | “Como se Ícaro falasse”, de Patricia Tenório | Prêmio Vânia Souto Carvalho – Ficção

 

ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS

 

RESULTADOS PREMIAÇÃO* – 2011

 

 

 

PRÊMIO Amaro Quintas – HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

 

Patrocinado pela Acadêmica Fátima Quintas

 

Vencedora: Lêda Rejane Accioly Sellaro 

Pelo seu livro “Educação e Religião: colégios protestantes em Pernambuco na Primeira República (anos 20)”

 

PRÊMIO Vânia Souto Carvalho – FICÇÃO

 

Patrocinado pela família da Sra. Ester Souto Carvalho (in memoriam)

 

Vencedora: Patricia Gonçalves Tenório

Pelo seu livro “Como se Ícaro falasse”

MENCÃO HONROSA:

Conferida a Rafael Rocha Neto

Pelo seu livro “Olhos abertos para a morte”

 

 

PRÊMIO Antônio Brito Alves – ENSAIO

 

Patrocinado pela Sra. Lia de Brito Alves

 

Vencedor: Anco Márcio Tenório Vieira

Pelo seu livro “Dante e a construção da forma cristã”

 

 

MENCÃO HONROSA:

 

Conferida a Alfredo Sérgio Magalhães Jambo  

Pelo seu livro “Investigação de Giambattista Vico”

 

PRÊMIO Edmir Domingues – POESIA

 

Patrocinado pela família Edmir Domingues (in memoriam)

 

Vencedor: Marcos Antonio Soares de Andrade Filho

pelo seu livro “SPOLLIVM”

 

 

MENCÃO HONROSA:

 

Conferida a José Antônio da Silva

pelo seu livro “Poe – Arrecifes”

 

 

Conferida a Lúcio Roberto Ferreira

pelo seu livro “A Ponte e a Travessia”

 

PRÊMIO Elita Ferreira – LITERATURA INFANTIL

 

Patrocinado pela Editora Bagaço

 

MENCÃO HONROSA:

 

Conferida a Antônio Nunes Barbosa Filho

Pelo seu livro “Contação: uma historinha para cada dedo da mão”

 

OBSERVAÇÃO:

Não foram concedidos os prêmios referentes às categorias:

*Prêmio Leonor Correa – História de Condado e Goiana

Patrocinado pelo Acadêmico Antonio Corrêa de Oliveira

*Prêmio Waldemar Lopes – Soneto

Patrocinado pelo Acadêmico Amaury Medeiros

*Prêmio Elita Ferreira – Literatura Infantil

Patrocinado pela Editora Bagaço

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* A cerimônia de premiação ocorrerá no dia 26 de Janeiro de 2012, às 20h00, na Academia Pernambucana de Letras, Avenida Rui Barbosa, 1596 – Recife – PE.

Dois livros – Fernando Py*

Tribuna de Petrópolis – RJ, 28 de Outubro de 2011, Caderno Lazer, pág. 5

            A escritora pernambucana Patricia Tenório fez chegar a esta seção um conjunto de dois pequenos livros encadernados, D´Agostinho (poesia) e Diálogos (prosa), acondicionados numa bela caixa e publicados pela editora Calibán (Rio de Janeiro, 2010), com 100 e 80 páginas respectivamente. Segundo a autora, os poemas curtos de D´Agostinho foram escritos a partir de estudos de Confissões de santo Agostinho de Hipona (354-430). No caso, não se trata propriamente de traduzir as confissões do santo em verso, mas, de qualquer modo, todos os poemas assumem a condição de “confissões” da autora, seja quando ela reflete sobre reminiscências de sua vida, seja como anotações acerca de sentimentos variados que a absorvem: o amor, a pureza, a contemplação da natureza, alguns pensamentos e comentários sobre fatos que viveu e que sabiamente transfunde em belos versos de muita economia verbal. Sua preocupação é compreender o que viveu e aceitar o que “está por vir”, como diz em “Ampulheta” (p. 36). De fato, só a compreensão do passado vivido nos orienta para a aceitação do futuro. Assim, tanto os acontecimentos do passado (como a morte do avô, em “Cogenda”, p. 62) quanto os fatos do presente se acham vistos e referidos numa espécie de “conhecimento” da vida, quando diz que ia “aprendendo a ser / o que serei um dia” (em “Ladrilhos”, p. 71). Mas a autora reconhece que tal aprendizado a faz ser muito diversa do que foi, pois agora é “uma Patricia / que não existe mais”… mas, em compensação, “existe ainda / no olhar alegre / do filho que brinca” (p. 78).

            A prosa de Diálogos pode ser compreendida como um esforço de comunicação com o semelhante, em geral captando o que o outro apresenta em réstias de claridade e que estimulam e/ou perturbam a autora. Textos bem curtos, reduzidos ao essencial, podem ser contos, como está na ficha da apresentação da editora, ou mais corretamente, prosa poética, ou mesmo poemas-em-prosa. De todo modo, narrativas de encontros ou desencontros que se expõem, por vezes, numa atmosfera de sonho ou de uma ausência do real, atmosfera que cria situações e episódios que se interpretam como for possível. (Aliás, um dos textos, “Prisão perpétua”, p. 25, ostenta como epígrafe uma frase de Nietzsche: “Não existem fatos, só interpretações.”). Nestes dois livros, a prosa e a poesia da autora se interpenetram e realizam um conjunto de valor de leitura preciosa.

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* Fernando Py -- nome completo: Fernando Antônio Py de Mello e Silva — nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 13 de junho de 1935, de família gaúcha. Poeta, colunista e crítico literário, redator e tradutor. Fez o curso primário no Externato Coração Eucarístico, o ginasial no Colégio Santo Inácio e o colegial no Colégio Mallet Soares, todos na cidade natal, onde viveu até 1967, quando se mudou para Petrópolis (RJ), onde reside. Formou-se pela Faculdade de Direito da então Universidade do Estado da Guanabara (atual UERJ), em 1960, porém nunca advogou. Foi funcionário da CAPES, órgão do Ministério da Educação (1958-1959), da Procuradoria do Estado do Rio Grande do Sul na Guanabara (1960-1962) e meteorologista previsor do tempo no Instituto Nacional de Meteorologia, do Ministério da Agricultura, de 1962 até 1994, quando se aposentou.

Colaborou em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, principalmente O Globo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Estado de Minas e Correio do Povo. Trabalhou como redator e tradutor em enciclopédias, sobretudo a Grande Enciclopédia Delta Larousse e a Enciclopédia Mirador Internacional. Traduziu obras de autores importantes, como Marcel Proust (Jean Santeuil; Em busca do tempo perdido, etc.), Marguerite Duras (O vice-cônsul; A vida tranqüila, etc.), Honoré de Balzac (A pele de onagro; O primo Pons), Saul Bellow (O legado de Humboldt; Henderson, o rei da chuva), e vários outros. Como colunista literário, trabalhou em jornais de Petrópolis e atualmente assina seção ‘Tribuna Literária’ na Tribuna de Petrópolis.  

Livros publicados: Aurora de vidro (poesia): Rio de Janeiro, Livraria São José, 1962; A construção e a crise (poesia): Rio de Janeiro, Simões Edições, 1969; 4 poetas modernos (poesia, em colaboração): Rio de Janeiro, Cátedra, 1976; Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade (pesquisa): Rio de Janeiro, José Olympio / Fundação Casa de Rui Barbosa, 1980 ( 2ª edição, aumentada: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2002); Vozes do corpo (poesia): Rio de Janeiro, Fontana, 1981; Dezoito sextinas para mulheres de outrora (poesia): Recife, Edições Pirata, 1981; Chão da crítica (jornalismo literário): Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1984;  Antiuniverso (poema): Rio de Janeiro, Sette Letras / Petrópolis: Editora Firmo, 1994; Carlos Drummond de Andrade: poesia (antologia comentada, em colaboração com Pedro Lyra): Rio de Janeiro, AGIR, 1994 (2ª edição: 1998) [Col. Nossos Clássicos, 118]; Sol  nenhum (poesia): Rio de Janeiro, UAPÊ, 1998; Antologia poética (40 anos de poesia: 1959-1999): Petrópolis, Poiésis, 2000; Sentimento da morte & Poemas anteriores (poesia): Goiânia, A.S.A., 2003; Uma poesia dialógica: nove resenhas da obra de Pedro Lyra (crítica literária): Fortaleza, UFC, 2003; O poeta Coelho Vaz (conferência): Goiânia, Kelps, 2004; 70 poemas escolhidos: Petrópolis, Catedral das Letras, 2005 .

Ganhou alguns prêmios literários e recebeu (15 de abril de 2003) o título de “Cidadão Petropolitano Honorário”.  É casado desde 1963 com Maria Soares de Mello e Silva; tem três filhos e quatro netos.

Três notas sobre o país misterioso de Gustave Moreau* | Marcel Proust** | Parte I

Rumeur des Ages

La Rouchele, França, 2008

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão***

 

(A seguinte tradução foi parcialmente e em outra ordem apresentada no

V FESTLATINO – Recife/PE – Novembro 2011, sob o título

Uma janela para a arte:

Um olhar de Marcel Proust sobre a obra de Gustave Moreau)

 

 

 

*

 **

 

            Marcel Proust descobriu a casa de Gustave Moreau, destinada a transformar-se em museu (número 14, rua La Rochefoucauld, em Paris), provavelmente[1] em outubro de 1898, alguns meses após a morte do pintor (18 de abril).

            As notas que apresentamos foram escritas após essa visita. Elas permaneceram inéditas durante a vida do escritor, cujo manuscrito se encontra na Bibliothèque Nationale de France (ms 45). Elas foram publicadas pela primeira vez em 1954, por Bernard de Fallois, nos Nouveaux Mélanges, em seguida a Contre Sainte-Beuve (Gallimard).

            Propomos uma passagem da crítica do Éblouissements, de Anna de Noialles, publicada no Figaro (suplemento literário, de 15 de junho de 1907), porque o trabalho do pintor é o seu eixo essencial.

            Aconselhamos vivamente ao leitor desejoso de saber mais, consultar a edição publicada por Pierre Clarac e Yves Sandre na Bibliothèque da Pléiade.

*

 

Nem sempre concebemos facilmente como certos pássaros voam numa paisagem, um cisne se eleva do rio em direção ao céu, uma cortesã abre caminho no meio dos pássaros e flores sobre um alto terraço. Essas imagens são a ocupação incessante dos pensamentos de um grande espírito, sendo reencontradas como seu caráter essencial em todos os seus quadros, tornando-se admiradas pela posteridade. O prazer único de tal amador em seu trabalho, que encontra com deleite em A descida da cruz o cisne que há também em O amor e as musas e, por um prazer inverso e idêntico, se alegra de ter o mesmo pássaro azul que ele pintara. Temos de perguntar o que o mestre queria fazer. Mas dificilmente poderemos responder, porque ele mesmo somente pôde fazê-lo com a Cortesã sobre o terraço, à noite, e o voo desse cisne sinalizado pelas musas, imagens as mais exatas possíveis que ele entrevia, e sem explicação, já que dizer o que desejamos fazer não é, em suma, o que realmente podemos fazer a todo minuto enquanto reelaboramos a ideia que nos apareceu. Devemos aguardar a inspiração, tentar revê-la, e, a partir dela, pintar.

Édipo e a Esfinge

Museu Metropolitan, Nova York, EUA

Essas paisagens de Moreau são exatamente o espaço por onde tal deus passa, onde tal visão aparece, e a cor púrpura que tinge o céu ali se revela um se sobre o presságio, e a passagem de um cervo um se de augúrio favorável, e a montanha um lugar tão consagrado que uma paisagem pura parece bem vulgar, como que desintelectualizada, como se as montanhas, o céu, as feras, as flores tivessem sido esvaziadas por um instante de sua preciosa essência de história, como se o céu, as flores, a montanha não trouxessem mais a marca de uma hora trágica, como se a luz não fosse aquela por onde passa o deus, onde aparece a cortesã, como se a natureza desintelectualizada se tornasse demasiado vulgar e vasta; as paisagens de Moureau estão geralmente engasgadas na garganta, fechadas por um lago, em toda parte onde o divino, quem sabe, por vezes se manifestou em uma hora incerta em que a tela se eterniza como a lembrança do herói. E como essa paisagem natural, e que parece, no entanto, consciente, como essas montanhas em cujos nobres picos  vamos orar e onde se elevam os templos que são quase templos, como esses pássaros, talvez escondendo a alma de um deus, com um olhar que lembra o olhar humano através de seu disfarce e cujo voo parece ser guiado por um deus que avisa, a face do herói, ele mesmo, parece participar vagamente do mistério que todo o quadro exprime. Porque a cortesã tem o ar de cortesã, como o pássaro que voa por um destino que não é de maneira alguma de sua escolha ou de sua natureza, mas sua face é triste e bela, e ela observa tecendo seus cabelos por entre as flores; e a musa passa apesar dela, modulando um canto em sua lira, e São João,[2]quando mata o dragão, parece submeter com calma sua própria coragem e de estar no lugar legendário e vagamente sonhador desse ato mitológico, como as montanhas por onde passa, como o cavalo feroz e doce, ornado de pedrarias e lançando olhares irritados, e se acabrunha, quadros antigos que reconhecemos de imediato não serem de um velho, amigos deste homem que, sozinho, quando pintava seus sonhos, cobertos por tapeçarias vermelhas, essas vestimentas verdes enfeitadas de flores e pedrarias, essas cabeças graves que são aquelas das cortesãs, essas cabeças doces que são aquelas dos heróis, esses desfiles que são o país onde se passam todas as coisas que ele pinta, porque a vida não é desligada das coisas, mas fundida a elas, porque a montanha é legendária e a pessoa nada mais é que legendária, porque o misterioso da ação é exprimido por tudo o que reserva a figura da pessoa, o herói que tem o ar doce de uma virgem, a cortesã que tem o ar grave de uma santa, a musa que tem o ar insignificante de uma viajante, não esclarecendo absolutamente a ação que eles parecem não cumprir e por tudo o que reserva a paisagem de cumplicidade, porque os antros escondem os monstros, os pássaros dizem augúrios, as nuvens escorrem sangue e a hora é misteriosa e parece emocionar o Céu sobre o que é cumprido misteriosamente na Terra.

(Continua na próxima semana…)

____________________________

(1) Segundo Maïté Vallés-Bled, Proust e seus pintores, Musée des Beaux-Arts de Chartres, 1991.

(2) Mais provavelmente São Jorge.

* Gustave Moreau (1826-1898) nasceu em 6 de abril de 1826, na Rue des Saint-Pères, número 03, Paris. Filho de Louis Moreau, arquiteto e de Pauline Desmontiers. Tornou-se célebre por ser um dos principais impulsionadores da arte simbolista do século XIX. Moreau começou como pintor realista. Posteriormente, sob a influência dos impressionistas e pré-rafaelitas, evoluiu para uma pintura mais romântica e espiritual, que lhe permitiu entrar nas fileiras do simbolismo, junto com Munch, Ensor, Puvis de Chavanes e Redon. Alguns historiadores de arte preferem se referir a eles como pós-impressionistas. Teve aulas com os mestres Chassériau e Picot em seus respectivos ateliês. Suas obras foram expostas pela primeira vez ao público e à crítica no Salão de 1852 tendo o seu trabalho reconhecido apenas no Salão de 1864, com quase quarenta anos, e por duas vezes tentou o prêmio de Roma, prêmio da Escola de Belas Artes, sem obter sucesso.

** Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (1871-1922) nasceu em 10 de julho de 1871 em Auteuil, França. Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época. Foi romancista, ensaísta e crítico. Teve como principais obras:

 - Les Plaisis et les Jours (Calmann-Lévy, 1896)

- La Bible d´Amiens (Mercure de France, 1904)

- La mort des cathédrales (Le Figaro, 1904)

- Sésame et les lys (1906)

- Pastiches et mélanges (NRF, 1919)

- Chroniques (1927)

- Jean Santeuil (1952)

- Contre Sainte-Beuve (1954)

- Chardin et Rembrandt (Le Bruit du temps, 2009)

- À la recherche du temps perdu (1913-1927)

 Morreu em 18 de novembro de 1822, de uma bronquite mal curada.

*** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

O livro – Jorge Tufic*

 

Não se mude o teu formato

ó livro de quatro quinas,

pois é neste mundo exato

que estão as coisas divinas.

 

2

 

 

O livro, repositório

de tanto conhecimento,

desafia o provisório

 na escrita de um monumento.

 

 

 

3

 

 

De tantos livros que empilho

onde está o número um?

Uns aos outros se dão brilho,

a claridade é comum.

 

 

4

 

 

Os quilômetros que tenho

de leituras nesta vida,

dão-me a paz de um velho engenho

sobre a riqueza auferida.

 

5

 

 

O livro – tão fácil tê-lo

como o pão, nossa alegria;

qualquer um pode fazê-lo

com as auroras do seu dia.

 

 

 

6

 

 

O livro não tem tamanho

nem se define o saber,

sem ele – que mundo estranho,

    nada fácil de entender.

 

 

 

7

 

 

Pedras gravadas a mão

e rolos de pergaminho…

tantos caminhos se vão

para tê-lo em meu caminho.

 

 

 

8

 

 

Repousado sobre a mesa

ou de lombada na estante,

o livro guarda a beleza

do mais incrível diamante.

 

 

 

9

 

 

Foi nas páginas de um livro

que mergulhei feito um peixe,

destas águas não me livro,

de estar só nunca me queixe.

 

 

 

10

 

 

O livro, a lavra, a vontade

de ver além, muito além,

nele se aprende a verdade

tão vária, tão de ninguém.

 

 

 

11

 

 

Diz o poeta que Cristo

não tinha livros nem nada,

mas graças a tudo isto,

temos a História Sagrada.

 

 

 

 

12

 

 

Ser autor, ver tua cara

junto a gráfica escritura!

Não parece coisa rara,

é do livro essa loucura.

 

_________________________

Jorge Tufic nasceu em Sena Madureira-Acre (1930). É filho de imigrantes libaneses. Seu nome completo: Jorge Tufic Alauzo. Estreou-se na poesia com o livro ¨Varanda de Pássaros¨ (1956), já em Manaus, para onde transplantou-se com a família. Em 1954 ingressou no Clube da Madrugada, um movimento cultural baseado num manifesto sucinto, porém radicalmente inovador das artes e letras amazônicas. Em 1980 conquistou o primeiro lugar no Concurso Nacional para escolha da letra do Hino do Amazonas. É detentor de vários prêmios nas categorias de ensaio, crônica, conto e poesia. Tem mais de 50 títulos publicados, a maioria deles na área do fazer poético. Reside em Fortaleza desde 1992. Contato: jorgetufic@hotmail.com

JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS começa na próxima quarta-feira e comemora 18 edições de sucesso

 

No anexo, seguem informações completas (incluindo sinopses) sobre toda a programação do Janeiro de Grandes Espetáculos, que comemora sua 18ª edição a partir da próxima quarta-feira, dia 11. As duas últimas páginas trazem todos os endereços e telefones das casas de espetáculos, além de detalhes sobre venda de ingressos. Ufa! São 24 páginas no total.

Viva o teatro, a dança, o circo e a música em janeiro!

Janeiro de Grandes Espetáculos comemora maioridade em 2012

(Enviado por Leidson Ferraz: 32220025 / 92921316

                                                              ferraz.leidson@gmail.com)

“O Major – eterno é o espírito” | Patricia Tenório

 

Presente 

Novembro, 2005

               Sempre gostei muito de livros. Ler, escrever esteve entre minhas atividades prediletas. Isso foi tão marcante na minha vida que em 2001 resolvi abrir uma livraria – a Domenico Livraria. Funcionou de março de 2002 a março de 2004. Lidei com autores, editores, artistas, mestres da área.  Eram ministradas no auditório da Domenico cursos, palestras, oficinas. Mas havia um em especial que me despertava uma inveja – saudável, é verdade. A inveja de ver o Mestre e seus pupilos conversando sobre a arte das palavras. A Oficina Literária Raimundo Carrero.

               O dia-a-dia da livraria me consumia as horas e impedia que mergulhasse naquele universo mágico. Mas como em tudo na vida, aconteceu na hora certa. Ao fechar a Domenico, bateu uma vontade enorme de escrever. Era compulsivo, um caos se instalou em meu ser e tornou-se inevitável. Ou escrevia ou a morte. Meio trágico assim, mas que descobri, no primeiro dia de aula na Livraria Nobel, Agosto de 2004, ser essa mesma dor, agonia que todo escritor passa. Então as torneiras se abriram, e jorrou de tudo. Minha vida, angústias, questionamentos. E com toda a paciência de um sábio, Carrero foi me guiando, ensinando o caminho das pedras, um caminho tortuoso na maioria das vezes, em que somente o autor pode descobri-lo, fracasso e glória própria.  A eterna orgia.

            Dezembro de 2004. Antologia – livro coletânea de diversos contos, alunos da Oficina Raimundo Carrero, Editora Bagaço, Recife, Pernambuco. A constatação de que é possível, existe uma luz realmente no fim da teimosia nas palavras. Não havia mais volta, minha sina estava traçada, desejava mais do que tudo na vida. Escrever, escrever, escrever. Participei com o conto “Lentes Cor-de-Rosa”. Nessa mesma época recebi o convite de minha família e a idéia do jornalista e consultor cultural Ênio Lins de escrever uma biografia – escolhi que fosse romanceada – do meu avô, em homenagem ao seu centenário, aconteceria no ano de 2005. Além do prazer em fazer meu primeiro livro, existia uma missão maior que era unir a família em torno de seu patrono, por isso também o Memorial, a Fundação, com a participação de Carmem Lúcia Dantas, museóloga, Wilma Nóbrega, bibliotecária, Roseane Torres, psicóloga, Gisela Abad, designer gráfica.

            Novembro de 2005. O livro está pronto. Ele é meio o que vejo, meio o que sou. Vivi o eterno sofrimento de lapidar, levar o ferro ao torno, moldar, lutando contra inimigos inexoráveis: o tempo, o aprendizado do ofício e a maturidade artística.  Escrito em prazo menor que o ideal (seis meses sendo dois meses para cada etapa, entrevistas, escrevendo,  revisão), fiz a escolha de sacrificar a perfeição em detrimento do presente que gostaria de dar para ele, “O Major”, meu querido avô, em 05 de Novembro de 2005 – data de seu aniversário. O meu melhor presente – o que podia, tinha condições no momento.

            Mas o maior presente de todos, sem dúvida alguma, foi minha volta à casa paterna. O ser humano só é pleno, inteiro quando retorna às suas raízes, quando descobre a quem pertence, aceitando as diferenças, orgulhando-se do mesmo sangue, raça, obstinação, teimosia, força. Fé. Abraçar minha família, pais, irmãos, primos, tios não tem, jamais terá preço. É um prazer único, para sempre carregado em lugar especial de meu mais que íntimo âmago.

               E a meu avô, o Major José Tenório, presente em cada mínimo instante dessa minha primeira viagem no mundo das palavras…